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Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I)

INTRODUCÇÃO.

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Houverão escrevedores de papel nos ultimos tempos da França degenerada, que ousárão affirmar no excesso da sua fatuidade, que o que se chamava systema do equilibrio da Europa, não fôra já mais, senão o da preponderancia daquella potencia, pela superioridade, que sempre tivera sobre todas as outras potencias Europeas. Acaso ignoravão elles, que forão necessarias as dissensões da rosa branca, e da rosa vermelha, para os Francezes sacudirem o jugo dos Inglezes? Que a não serem as discordias, e a guerra civil da Alemanha, Carlos V. teria feito da França huma das provincias do seu Imperio? Que a infanteria Hespanhola esteve em posse de bater os exercitos Francezes, desde os tempos famosos de Gonçalo de Cordova, até ás ultimas campanhas do Conde de Fuentes?

A França, he verdade, foi olhada por longos tempos como huma das principaes potencias, que figuravão no systema politico da Europa. Henrique VIII. de Inglaterra se tinha feito pintar com huma balança nas mãos, de que a França, e a Austria fazião os dous pratos, e com esta lenda: Cui adhæreo præest; mas tambem he certo, que a primeira nunca chegou a gozar as honras de preponderante, senão depois que Luiz XIV. as obteve, por meio do sensivel abatimento da segunda. A politica do Cardeal de Richelieu principiou esta grande obra, o valor, e os talentos de Turenne, Condé, e hum grande número de Generaes illustres a consummárão; mas não foi de longa duração. Colligárão-se a maior parte dos Estados Europeos contra os ambiciosos projectos de Luiz XIV.; e posto que forão inuteis, e desastrosas as primeiras confederações, por fim, não só conseguírão abater a grandeza deste Monarca vaidoso, mas estiverão a pontos de o precipitarem do seu proprio throno.

Succedeo-lhe seu bisneto Luiz XV., ainda menino, e a desordem, em que se achavão as finanças, as chagas profundas, que as longas sanguinosas guerras tinhão imprimido no Estado, juntas ás perturbações da regencia, e a todos os males, que costumão acompanhar as minoridades dos Principes, concorrêrão á porfia, para conservarem a França em hum estado de perfeita languidez. Luiz XV., tornado maior, soube na verdade aproveitar-se dos recursos naturaes da Monarquia, para lhe restituir hum pouco de vigor; mas era hum Soberano moderado, e justo, que bem longe de aspirar a conquistas, não tirava a espada, senão a seu pezar, e não cessava de propôr a paz no meio das suas victorias. Depois da batalha de Fontenoy, vendo que os montes de cadaveres, os gritos dos moribundos, e o sangue, que tingia hum largo campo, arrancavão lagrimas ao Delfim, voltou-se para este, e disse—Aprendei, meu filho, quanto a victoria he cara, e dolorosa.—Escrevei á Hollanda, dizia elle a hum dos seus Ministros, que eu não peço senão a tranquillidade da Europa: não he a minha condição, he a dos póvos, que eu quero fazer melhor. Esta moderação, que talvez o embaraçou de chegar áquelle gráo de esplendor, que podia esperar, se se conduzisse segundo as vistas do reinado precedente, devia produzir para a França vantagens incomparavelmente maiores, a tranquillidade, e a opulencia, mas as despendiosas guerras, que teve de sustentar na Europa, os revezes experimentados pela sua bandeira, e pelas suas colonias em todos os mares, e as importunidades de cortezãos ávidos, que abusárão da fraqueza dos seus ultimos annos, subvertêrão de novo as finanças, e fizerão com que por sua morte transmittisse o Estado a seu neto Luiz XVI. no mesmo gráo de abatimento, em que o herdára de seu bisavô.

A marinha se achava anniquilada, o commercio sem vigor, 78 milhões tinhão sido consumidos por anticipação sobre as rendas públicas, o excedente das despezas montava a 22 milhões, e os crédores desesperavão do pagamento dos seus capitaes; e poderia então Luiz XVI. pensar em projectos de engrandecimento? Estava reservado aos assassinos, que o conduzirão ao cadafalso, o sujeitarem o continente ás suas leis, o fundarem hum Imperio monstruoso de huma especie nova, que firmando-se sobre as bases da liberdade, e igualdade, rematou no despotismo; que se sustenta pelos mesmos principios, por onde os outros se dissolvem, a crueza, a irreligião, e a immoralidade; que com todas as apparencias de libertador tomou todos os caractéres de usurpador.

Melhorar, e reformar todos os ramos de administração pública, e principalmente as finanças, foi o objecto, a que Luiz XVI. dirigio todos os seus cuidados, desde que subio ao throno; e principiando por huma grande economia na sua casa, por supprimir as pensões abusivas, diminuir as pouco merecidas, por meio destas, e de outras admiraveis providencias fez pagar 24 milhões da divida exigivel, 50 da divida constituida, e 28 das anticipações; o crédito público principiou a restaurar-se, e raiárão dias de prosperidade sobre o horizonte da Monarquia Franceza.

Luiz XVI. deo talvez hum passo errado em se intrometter nas contestações da Inglaterra com a America; mas foi arrastado pelas opiniões do seu conselho, e implicado a seu pezar em huma guerra, que da America se transportou bem depressa á Europa, e á qual se attribuem as desgraças do Rei, e da nação. Parece, que o Imperador de Alemanha José II. o tinha previsto, quando respondeo a Luiz XVI., que o consultava sobre este negocio—Quanto a mim o meu officio he ser Realista.—

Sem o apoio da França os Americanos terião provavelmente succumbido; com elle o espirito républicano tomou raizes, e penetrando a travéz de immensos mares, veio propagar-se no antigo mundo, e principalmente na fogosa, e volatil nação Franceza; mas que espantosa differença nos resultados! Os Americanos, mais sábios, do que altivos, fundárão huma constituição admiravel, reconhecida bem depressa por toda a terra, que tem feito a felicidade daquelles póvos; os Francezes com a presumpção de filosofos profundos, e legisladores consummados, destruindo huma Monarquia, que a pezar dos abusos, que são inseparaveis de todas as instituições humanas, os tinha conservado por muitos seculos naquelle gráo de felicidade, a que podião aspirar, nunca souberão substituir-lhe hum governo regular; e errando longos tempos por entre os escolhos do despotismo, e da anarquia, não tem feito senão opprimir, e destruir o mundo.

Aquella desastrosa guerra arruinou de novo as finanças, exigio emprestimos, e ameaçou o crédito público; mas a dissipação, o deficit, e o desalento geral tinhão sido incomparavelmente maiores nos ultimos tempos de Luiz XIV., e Luiz XV., sem produzirem os horrores da revolução. Estes Monarcas, acabando de endividar o Estado, morrêrão socegadamente nos seus leitos, e Luiz XVI., quando se applicava todo a remediar a desordem produzida pela guerra, foi desenthronisado, como dissipador, e conduzido a hum cadafalso. Como os tempos erão mudados!

A mesma mão, que o derribou do throno, foi a que abalou todos os governos: foi a revolução, e não o poder da França, a que destruio o systema politico da Europa. He nas lavas deste volcão que a geração presente deve procurar a origem das suas calamidades: he o resultado da grande luta, em que se achão empenhados os Soberanos, e os povos, o que deve fixar o destino das gerações futuras; e he por tanto nesta época, que as nações Europeas devem começar a sua Historia moderna.

O quadro horroroso da revolução Franceza tem sido o objecto de muito bons pinceis: huns tem seguido como historiadores a sua marcha sanguinolenta, outros como filosofos se tem demorado em fazer pinturas energicas das suas atrocidades. O meu plano he differente: eu me limitarei a tocar aquelles factos, que tem huma relação immediata com a invasão dos Francezes em Portugal. Quereria seguir passo a passo todas as relações politicas, e militares, que tem havido desde então entre a corte de Portugal, e o governo Francez; mas ainda se não levantou senão hum canto do véo, que tem coberto huma grande parte destes successos importantes. O tempo, que tudo revela, descobrirá em fim muitas verdades, que o público ainda ignora; e mesmo sobre alguns factos já conhecidos alargará os raios da estreita esféra, em que me julgo envolvido.

Procurarei seguir a marcha dos invasores, desde que puzerão os pés no territorio Portuguez; os seus hostís procedimentos para com hum Soberano, e huma nação, que os não provocárão; a partida do Principe Regente, e de toda a Real Familia para o Brasil; o modo, e os meios, de que se servírão, para occuparem, e domarem o reino; os principaes actos de oppressão, e espoliação, que praticárão em Portugal; fazendo especial menção dos insultos commettidos contra a religião, e seus ministros; o reciproco comportamento das tropas Francezas, e Hespanholas, acompanhando os successos com aquellas reflexões, que não são improprias do officio de Historiador. Muitas vezes eu descerei a factos particulares, que talvez pareceráõ minuciosos, para entrarem na Historia geral; mas que sem dúvida tem lugar no meu plano, porque me proponho a dar a conhecer o caracter da invasão, o espirito, e os costumes dos invasores.

Passarei depois a referir os principaes acontecimentos da restauração do reino, consequencia immediata dos successos da Hespanha, e da fermentação, em que se achava o povo Portuguez, pela sua natural adhesão ao antigo governo, e á Familia Reinante, pela lembrança da sua felicidade preterita, e pelo sentimento das suas desgraças presentes. A luta dura ainda, e não me he licito prever, até onde me conduzirá o fio dos successos, e qual será a extensão da minha obra. Se eu quizesse fazer especial menção de todos os illustres Portuguezes, que fizerão serviços importantes á patria nesta gloriosa empreza, a minha Historia ficaria sendo huma collecção de nomes; com tudo eu procurarei tirar do esquecimento os mais distinctos d’entre elles: os libertadores da patria são dignos de recommendar-se ao reconhecimento do Soberano, e da nação, e seus nomes de serem transmittidos á posteridade com a gloria, que lhes he devida. Não farei differença de grandes a pequenos: pelas acções he que os homens se illustrão: o heroismo, e a virtude fazem a verdadeira grandeza.

As leis da Historia, que por huma parte prohibem o silencio sobre os factos mais interessantes, e por outra exigem do historiador a verdade, e a imparcialidade, como o primeiro, e o mais essencial dos seus deveres, me obrigaráõ, bem a meu pezar, a referir alguns successos, ou circumstancias, que não poderáõ agradar a alguns dos meus compatriotas. Não o praticarei já mais, sem huma circumspecção tanto maior, e hum exame tanto mais apurado, quanto os factos forem mais importantes; não podendo porém jactar-me de ter conseguido, o que he impossivel, huma evidencia mathematica em objectos, que não tem outro fundamento, que a fé humana, peço a todos aquelles, que se julgarem offendidos pela minha pena, que em lugar de me accusarem de impostor, ou parcial, queirão fazer-me conhecer os erros, em que eu possa ter cahido; e pela minha docilidade em emendal-los conheceráõ elles, e conhecerá o mundo, que não sou dirigido por outros motivos, nem animado por outros desejos, que os de conservar, e transmittir á posteridade memorias fiéis, e circumstanciadas do que se passou em Portugal nesta época memoravel da nossa Historia. Publíco já o I. tomo, e irei successivamente publicando os mais, á proporção que os for escrevendo, para poder emendar nos subsequentes tudo o que se me mostrar, que he digno de correcção nos precedentes; e rogo aos meus compatriotas, que me assistão para este fim com os seus conhecimentos.

Julgo não ter offendido nem o mais levemente ao meu Augusto, e Amado Soberano, aos seus respeitaveis Ministros, e ás illustres Personagens, que no seu Real Nome compõe hoje o governo de Portugal; mas se eu me engano, principio por supplicar-lhes o perdão desta culpa involuntaria, e ouso pedir-lhes com confiança, queirão auxiliar-me com os soccorros possiveis, para que possa deixar tão completo, como exacto, e verdadeiro este deposito importante, que deve ser tão util, como agradavel aos nossos vindouros.

SENHOR, rejeitando com desprezo as arrogantes escandalosas proposições do usurpador, e fazendo abortar os seus projectos, vós vos tendes conduzido com o heroismo, e dignidade, que competem á Magestade da VOSSA COROA. Consultando unicamente o bem do VOSSO povo, vos mostrastes o PAI dos vossos vassallos. As minhas idéas propendem para esta verdade como para o seu centro; permitti pois, que eu escreva livremente os meus pensamentos, que elles não encontraráõ a GLORIA do VOSSO NOME, e podem interessar á nação, e á posteridade.

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