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Elegias

MEMORIA

Reading edition

Memoria, Elisios Campos, Paraiso, Espirituaes Paisagens! Vales de luz, outeiros de sorriso, Onde vivem as misticas Imagens.

Jardim florido de Almas que o estortôr Da Morte libertou! Jardim povoado De luminosas Sombras que em amôr E sonho iluminado, Dando-se as mãos de luz e intimidade, Vagueiam pelas verdes avenidas, Ao luar misterioso da Saudade, Evocando outros mundos, outras vidas…

Vejo, em grupos, os velhos conversando… E murmuram palavras… voz de outomno Que se vae em silencios desfolhando Num êrmo chão doirado, ao abandono.

Mais adeante, em dôce companhia, Caminha enamorada a gente nova: O Heroe caido, morto, á luz do dia, A Noiva que baixou á fria cova!

E mais adeante ainda, em mais ruidosos E alvoroçados grupos, as Creanças Falam alto, têm gestos luminosos… São bandos de esperanças, Tão cêdo á luz do mundo arrebatadas E aos braços maternaes! E brincam a sorrir, inda molhadas Das lagrimas eternas de seus Paes…

E com um ar de riso, As beija o Sol do Alem… Nem se lembram das mães, no Paraiso; São Almas, sim, e as Almas não têm Mãe!

Ao Sol espiritual que as faz corar Durante os seus brinquedos, Somente Deus as pode contemplar Do seu trôno de trevas e segrêdos.

Deus contempla as Creanças que roubou Ao fundo amôr materno… E bem se vê Nos seus olhos a nuvem que os toldou… E a si mesmo pergunta: Para quê?

E á luz do eterno dia, Os Phantasmas divinos das Creanças Fazem os seus bailados de alegria, Elas que são tristissimas Lembranças!

E a nova formosura que elas têm! O novo e estranho encanto! Assim tocadas já do sol do Alem, Até aos pés vestidas do meu Canto!

Memoria, Jardim de Almas todo em flôr Que as canções e os perfumes enevôam, Se para mim és dôr, és luz e amôr, Para os sêres amados que o povoam!

E eis tudo quanto resta á Creatura: Saber que o seu tormento É perfeita alegria, alta ventura, Em outro Firmamento!

Quando os meus olhos intimos, em sonho, Esse mundo ideal conseguem vêr, Fico tão deslumbrado que suponho Haver morrido já sem o saber!

E eis que sou na Paisagem da Memoria! Lembrança de mim mesmo, eu já penetro Na cidade phantastica e ilusoria… Já sou Aparição, Visão, Espectro!

Que é da minha Presença? Não me vejo! Ah, não me encontro em mim! Sou a Oração Redimida, sem Deus e sem desejo; Amôr sem coração! Sonho liberto, ascendo no Infinito. A propria Altura é já profundidade! Onde estás? onde estás? ó corpo aflicto! Meu sêr perdeu-se em alma: ei-lo saudade!

Outubro de 1912

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