DUAS SOMBRAS
Reading edition
Pelas tardes divinas, Quando a côr se dissolve em lagrimas doiradas, Eu vejo duas Sombras pequeninas, Andando de mãos dadas. Como duas creanças que elas são, Percorrem, a brincar, Esta minha infinita solidão; E extatico e suspenso, eu fico a olhar, a olhar… Bate-me o coração; caminho… Na distancia, Através do crepusculo divino, Vejo a Sombra infantil da minha infancia E a Sombra do Menino! E d'elas me aproximo; e paro; tenho mêdo De as vêr fugir, assim… Seus Vultos de chimera e de segrêdo Tremem deante de mim… E como se parecem! O mesmo adeus no olhar, o mesmo rôsto e altura… E ao pé d'elas as cousas se enternecem, E este meu coração aberto em sepultura.
Durante a tua vida, meu Amôr, Quantas vezes, ao ver-te, imaginava Olhar de perto, a minha infancia toda em flôr! E ainda mais: pensava Que eras a minha propria Infancia novamente, Mesmo deante de mim, resuscitada E brincando comigo alegremente, N'esta velha Paisagem bem amada, Terra da meia noite, alma do outomno… N'esta casa velhinha, evocadora, Tocada de luar, de sombra e de abandono, Da alegria de outrora… E por isso, no dia em que morreste, Quando tudo era lagrima, a distancia, Coração, duas cruzes padeceste; Duas mortes soffreu a minha infancia.