CAPÌTULO VIII.
Reading edition
O FIM DA VIAGEM.
A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um
dog-cart
--O Tenente Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem no
Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios
burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a Maritzburg--Didi
Saunders--Episodios em Durban--O Consul Portuguez M^{r.} Snell--O
Danubio
--O Commandante Draper--Regresso á Europa.
Andava tudo em reboliço. Nunca em Pretoria se tinham feito tantos gastos de
toilettes
, nunca os lojistas vendêram tantas fitas e tantas rendas!
Os homens escovavam e preparavam os uniformes, porque tôdos mais ou menos tinham uniformes, e os que os não tinham inventàvam-n-os. Se tudo estava em guerra!
Cavallos e carruagens soffriam tratos de limpezas desusadas. Tudo luzia e brilhava. O enthusiasmo era geral e chegava mesmo aos Hollandezes.
As damas trabalhavam com afan, e davam tratos ao miôlo, contido nas cabecinhas louras e encantadoras, para melhór pregarem um lacinho, para melhór fazerem realçar a belleza delicada.
Os homens,
elles
, diziam "É
C.B.
[
16
] e tem a
Victoria Cross
,[
17
] é o heroe da guerra dos Ashantis, é um homem de grande energia, é um dos mais notaveis officiaes do exèrcito Inglez."
Ellas
, ellas diziam: "Tem 36 annos o coronel, e dizem que é alto, nobre e bonito!"
Que enthusiasmo! Eu nunca vi coisa assim! O meu cavallo ja estava emprestado a uma dama, que queria mostrar tôda a sua elegancia de amazona. Outras mais infelizes procuravam debalde um meio de transporte.
So eu, creio, que estava frio no meio daquella effervescencia de delirio.
Eu ca, não ia esperar o nôvo governador, e contentar-me-hia de o ir visitar á sua chegada.
¿Mas quem pode dispor dos seus sentimentos, e contar com o seu espìrito no meio da effervescencia geral?
No dia 2 de Março, comecei a sentir que a febre do nôvo governador se apossava de mim, e sahindo enthusiasmado de casa, fui comprar um chapéo nôvo! Era uma reforma importante no meu traje.
Aquelle homem por quem se faziam tantos trabalhos de recepção aguçàva-me a curiosidade. Os homens pareciam temel-o, as mulheres pareciam adoral-o; e ser temido dos homens e adorado das mulheres é ter attingido a meta da felicidade para qualquer creatura màscula.
No dia 3 devia elle chegar, e o ponto da entrevista era a nove milhas da cidade.
Levantei-me sem mêsmo pensar em la ir, até porque, se quizesse ir, não tinha em quê, tendo emprestado o meu cavallo.
Ás nove horas sahi de casa, mas não encontrei ninguem. Fui almoçar, e não encontrei ninguem. Fui a casa de alguns amigos, e não encontrei ninguem em casa. Comecei a dar ao diabo o nôvo governador. Eu ja começava a perder o hàbito de viver sòzinho, e queria companhia.
Voltei ao Café Europêo e deparei com M^{r.} Turner. Dirigi-me logo a elle e sem mais preàmbulos pedi-lhe um cavallo. M^{r.} Turner julgou que eu não estava bom de cabêça. Pedir um cavallo n'aquelle dia e áquella hora so um inconsciente o faria.
Eu insisti em querer um cavallo, e a difficuldade que se levantava era apenas incentivo para exacerbar o meu desejo.
Depois de muito pensar, M^{r.} Turner têve uma lembrança.
Elle tinha um pôtro, ainda não montado, bravio, diabòlico.
Se eu quizesse o pôtro, elle emprestàva-m'-o. Fomos logo á cavallariça.
Para apparelhar foi uma campanha, para montar outra.
Depois de varias teimas, em que tivéram razão umas esporas enormes que me tinha dado M^{r.} Clark em Shoshong, consegui endireitar no caminho do acampamento. Por uma questão de hàbito eu queria ver o Major Tyler e o Capitão Saunders, antes de ir esperar o governador. Foi uma infeliz lembrança.
O regimento 80 estava formado em revista, e acabada ella pude falar aos meus amigos, mas de repente a mùsica começou a tocar, e o cavallo, espantado com o zabumba, começou a fazer taes e taes desconcêrtos que tive de largar d'ali a tôda a pressa, atropellando as barracas de lona do campo e fazendo até fugir de uma d'ellas alguem que la estava. Pude ver-me a final em campo livre, e o pôtro pagou caro os seus atrevimentos de momentos antes.
Ás duas horas eu alcançava as cavalgadas e estava entre os meus amigos, mas estava em lastimoso estado de fadiga e cansaço.
Pouco depois, uma carruagem escoltada por alguns voluntarios de cavallaria, chegava em sentido opposto, e apeava-se d'ella o nôvo governador do Transvaal.
O Coronel Sir William Owen Lanyon, K.C.B., correspondia á espectativa geral.
Era nôvo e bello, e do peito da sobrecasaca pendia-lhe a
Victoria Cross
.
Tôdos estavam contentes, e os frenèticos hurrahs! que lhe levantáram, eram d'isso prova. Seguímos para a cidade. O meu cavallo, no meio dos vivas e dos outros cavallos, estava insopportavel e custàva-me a conter.
De repente espantou-se com uma carruagem, deu um enorme salto e partio. O meu chapéo nôvo, o chapéo comprado na vèspera, cahio por terra, em quanto eu era levado com uma velocidade enorme, n'um correr desenfreado.
Passei e em breve perdi de vista carruagens e cavalleiros.
O terreno era bom e eu deixava correr o endiabrado, que a final havia de parar em alguma parte.
Apesar de muito distanciado da comitiva do governador, pareceu-me que sentia um outro correr de cavallo, perto de mim, e voltando-me na sella percebi que era seguido e ia ser alcançado em poucos momentos.
Uma gentil amazona, muito melhor montada do que eu, porque montava o meu Fly, ria a bandeiras despregadas das minhas tribulações, e em breve emparelhando comigo estendia-me o pobre chapéo que eu tinha perdido, e que ella, com essa pericia de tôdas as damas das colonias do sul d'Àfrica, que sam as primeiras cavalleiras do mundo, tinha apanhado do chão e me vinha trazer, mofando de um cavalleiro que perdia o chapéo e o deixava apanhar por uma dama.
Eu estava envergonhado, e sem me lembrar de que era impossivel fugir ás pernas vigorosas e ligeiras de Fly, tentei instigar o meu cavallo a uma fuga, a que elle ja se recusava, apresentando uma fadiga bem motivada.
Entrei em Pretoria sempre perseguido pêlos chascos da amazona azougada, e depois de ir entregar o pôtro a seu dono, fui a pé para o Palacio, onde esperei a chegada da festival comitiva.
Chegáram elles, sempre dando mostras do mais enthusiàstico contentamento.
O Coronel Lanyon estava installado, e depois de um bem servido
lunch
, retiràmo-nos.
O valente e sympàthico coronel tinha càptado tôdas as sympathias, e desde a sua chegada, esquèceu o episòdio do ataque dos Zulos, narrado no anterior capìtulo, para so se falar d'elle Governador.
Nos dias seguintes houvéram recepções, saraus, e
matinées
dançantes, a que eu não assisti, preoccupado ja com a minha sahida para Durban.
No dia 5, fui eu a uma lègua de Pretoria ver uma curiosidade em que Inglezes e Hollandezes me falavam muito.
Era o
Wanderboom
, a àrvore sagrada. Effectivamente, é digno de ver-se esse gigante vegetal, que os Böers mostram com admiração, e que, deitando dos altos troncos novas raizes que viéram procurar a terra e se convertêram ellas mesmas em caules, forma por si so uma espêssa mata.
Finalmente, depois das mais cordiaes despedidas aos muitos amigos que tanto me obsequiáram em Pretoria, parti, no dia 8, para Heidelberg, onde cheguei por noute fora.
Decidi demorar-me alguns dias n'aquella bonita villa, para fazer as minhas ùltimas observações e fechar os meus trabalhos.
N'um jantar em Pretoria, em casa de Madame Kish, fiz eu conhecimento com um sujeito chamado Goodliffe, que sabia não ser de Pretoria, mas que não pensava tambem ir encontrar em Heidelberg.
M^{r.} Goodliffe convidou-me para sua casa e fêz-me os maiores favôres.
No dia immediato ao da minha chegada, depois de fazer as observações da manhã, fui dar sòzinho um passeio nos arredores, e comecei a trepar montanhas e montanhas, até que, d'um pico muito elevado, consegui dominar a paizagem. Pareceu-me que devia estar a uma grande altitude, porque dominava tôdas as cumiadas do Zuikerbosch-Rang.
Olhei para o meu baròmetro aneroide de algibeira, e vi que elle marcava dois mil metros!
Decidi logo voltar la no dia immediato a fazer observações mais seguras, e effectivamente assim o fiz.
Era na verdade aquella a maior altura a que eu tinha estado na minha viagem, e não deixei de fazer especial menção d'ella.
No dia 11 de Março, depois de ter concluido tôdas as observações e fechado os meus trabalhos, parti de Heidelberg, ás 8 horas da manhã, em um
dog-cart
, que precisa de uma breve descripção pêla sua originalidade.
Era um d'êsses carros de fàbrica Americana, ligeiros e fortes, montado sobre duas rodas altissimas, e que, em logar de varaes, t[~e]m uma forte lança, onde se atrella uma parêlha em troncos, e d'onde partem os tirantes para umas sotas sôltas.
Tem dois assentos costas com costas, que podem admittir quatro pessôas. Bagagens nenhumas pode conduzir, e apenas uns pequenos volumes na exigua caixa.
O meu cocheiro era um mulato, creio que Gricua, chamado Joaquim Eliazar.
Os meus companheiros eram o Tenente Barker, do 5^o Regimento de West York, e o seu impedido Dupuis.
Logo á sahida de Heidelberg, tivémos de atravessar o ribeiro que corre ali, cujas margens quasi a pique dam difficil passagem a um carro.
A primeira foi passada sem difficuldade, mas na segunda o dog-cart tombou-se, e o Tenente Barker cahio sôbre Dupuis e eu sôbre Barker.
Levantàmo-nos sem a menor contusão e rindo do caso. Dupuis, que tinha um nome Francez, mas cuja nacionalidade eu nunca pude entender bem, porque elle falava indifferentemente tôdas as lìnguas, e servia indifferentemente tôdos os paizes, começou logo a contar varios casos de quedas e carros tombados, que lhe haviam succedido em França, na Russia, na Amèrica e na China.
Dupuis era homem de 55 a 60 annos, baixo, espadaüdo e robusto. Tinha servido no exèrcito Francez na Crimea, e contava com enthusiasmo a carga de Balaklava.
Tinha servido no exèrcito Inglez na guerra da China; na Amèrica servio os Federaes, bateu-se depois na França pêla Allemanha, em 1870. Conheceu na India o Major Cavagnari, e vinha de la bater-se contra os Zulos.
O seu desideratum era ser soldado enfermeiro nas ambulancias do exèrcito Inglez; mas, em quanto o não conseguia, ia sendo camarada do Tenente Barker.
Barker era um d'esses jovens Inglezes, loiro, olhos azues, tal em fim como os vemos, encontramos e conhecemos em tôda a parte do mundo.
Ia cheio de enthusiasmo encontrar a columna de Sir Evelyn Wood, e bater-se contra os nêgros de Catjuaio.
Trabalhámos tôdos quatro rudemente para pôr o carro em estado de seguir, e uma hora depois voàvamos por sôbre a planicie, puxados por quatro ligeiros e robustos cavallos do paiz.
Choveu bastante durante o dia, e ás 2 horas encontràvamos o rio Waterfalls a transbordar. Era um embaraço.
Alguns vagons de Böers estavam parados junto d'elle sem se atreverem a transpol-o.
A profundidade màxima era de dois metros. Um dos vagons de Böers estava carregado de lenha, e apresentava do tope da carga ao chão uma altura de mais de três metros.
Offereci ao Böer seu dono cinco xelins se elle quizesse transpor o rio, e me deixasse ir com os meus papéis encarapitado no alto da carga.
O homem aceitou, e eu, Barker, Dupuis e os nossos pequenos havêres, armas e cartuxos, acommodàmo-nos sôbre a lenha.
Oito juntas de possantes bôis fôram jungidos ao vagom, que, poucos momentos depois, estava na margem opposta.
Joaquim Eliazar em pe sobre os assentos do dog-cart, com àgua pêla cintura, e segurando as guias com destreza de um cocheiro consummado, tambem transpoz o rio sem accidente.
Pouco depois, tomàvamos pêla quarta vez cavallos frêscos da posta, e continuàvamos essa carreira vertiginosa em direcção ao vao de Standerton, onde devìamos passar o Vaal.
Ás 8 da noute, ja com uma fome desabrida, entràvamos em uma modesta estalagem de Standerton, onde tìnhamos uma pèssima ceia, e não melhor cama.
De Heidelberg a Standerton o paiz é planicie enorme, a perder de vista, onde não cresce uma so àrvore, e onde uma herva não muito alta serve de pasto a milhares de antìlopes, pêla maior parte bodes saltadôres (Springboks).
Sôbre tudo nas margens do rio Waterfalls vi innùmeros, mas muito esquivos.
No dia immediato deixámos Standerton, ás 7 da manhã, depois de um almôço, que nos fez lembrar, que poderiamos ter almoçado se tivèssemos quê.
Pêla tarde d'esse dia ja começàvamos a encontrar falta de cavallos nas casas de posta, saqueadas ou abandonadas por causa da guerra. Ao mesmo tempo recresciam as difficuldades do caminho, porque nos embrenhàvanos nos desfiladeiros do Drakensberg.
Não se pode fazer muito idéa do que seja viajar por montes e valles, sem caminho nem carreiro, em um dog-cart puxado a quatro sôltas.
Ao entrar-mos nos desvios da serra, uma temerosa tempestade cahio sôbre nós, e uma chuva copiosa alagou a terra e o carro.
Veio a noute, e uma noute medonha. Os relàmpagos alumiavam as trevas para as tornar mais nêgras e densas.
So a muita pràtica do cocheiro podia guiar o carro por aquelles alcantis n'um correr desenfreado.
De vez em quando, uma cova, uma rocha, um precipicio, era nas trevas mais adivinhado do que visto, e um sonoro
All fast
(tôdos firmes) pronunciado por Joaquim Eliazar pùnha-nos de prevenção.
E a chuva a cahir, o trovão e o relàmpago a espantar os cavallos, e aquelle carro sempre a correr nas vertentes este da alta cordilheira. Tinha alguma cousa de fantàstico o quadro, e se tivesse sido visto por
outros que não nós deveria causar-lhes impressão profunda.
Dupuis tinha sempre uma historia a contar a cada solavanco do ligeiro vehìculo. Umas vêzes era na China, outras na Amèrica, outras na Russia, que o caso se tinha passado.
Depois Dupuis cantava, e era, ja uma canção Americana, Franceza, Chineza, ou Hùngara, que vinha perder-se no estrepitôso rodar do carro, ou no cem vêzes repetido echo dos trovões.
Seriam 8 da noute, quando um clarão fixo e distante me chamou a attenção. Endireitámos para elle.
O caso não era muito seguro, mas continuar o caminho assim era peior do que encontrar os Zulos.
Parámos a distancia da fogueira, e eu dirige-me a ella. Ao aproximar-me, vi que entre uns vagons, debaixo de um alpendre improvisado com pannos de lona, estavam sentados três officiaes Inglezes. Entrei ràpidamente na zona de luz, para ser logo reconhecido e não levar algum tiro. Os três sujeitos olháram para mim sem o menor espanto, e disséram-me polidamente:
Good evening, sir
.
Estavam tomando chá, e eu sentei-me sem ceremonia ao lado d'elles.
"¿Toma uma chàvena de chá? me perguntou um d'elles."
"Aceito reconhecido, e até aceitava de comer, porque tenho fome."
"De comer! mas nós tambem não temos nada que comer, e so chá e um pouco de assucar possuimos."
Tomei uma grande tijela de chá, e tôdo molhado deitei-me junto á fogueira, onde dormi tôda a noute.
No dia immediato, parti logo de madrugada e so á noute pude matar a fome em casa de um Böer, que me leu três pàginas da Biblia, mas que em seguida me deu bôa ceia.
Passou sem incidentes o resto da viagem até perto de Newcastle.
Ali encontrámos o rio Newcastle a transbordar, e tivémos um verdadeiro trabalho para o transpor, sendo preciso nadar, e molhando-se tudo o que trazìamos.
Chegado á povoação de Newcastle, o meu primeiro cuidado foi almoçar, com uma fome de 24 horas.
Eu em Pretoria ja tinha desaprendido a ter fome, e começava a impacientar-me quando a sentia.
Installei-me em um hotel, onde não se estava bem nem mal, e tratei logo de enxugar os meus papéis, e de tomar um logar na diligencia que fazia o serviço d'aquelle ponto a Pietermaritzburg.
Separei-me ali do meu tenente Inglez, que se dirigia com o seu camarada ao theatro da guerra; e eu, um dia depois, tomava logar na diligencia, e partia para o meu destino.
Èramos nove no carro, oito homens e uma dama, e haviam ali so dois logares supportaveis ao lado do cocheiro.
Um foi cedido á dama e eu quiz o outro. Èra-me elle disputado por um tenente de voluntarios, que trazia umas esporas enormes e um uniforme esplandecente. Cada um de nós apresentava os seus respectivos direitos ao logar, ante o cocheiro, àrbitro supremo n'aquelle litigio.
Uma meia-libra subtilmente escorregada na mão do mulato, prevaleceu sôbre uns poucos xelins dados pêlo tenente, dizendo o cocheiro bem alto, que elle não era homem que se vendêsse, e por isso entregava ao tenente uns três xelins que elle tinha feito a offensa de lhe querer dar, e dizendo-me, que tomasse o logar cubiçado, em quanto o voluntario mavorte subia para o interior, furioso e iracundo, o honrado cocheiro punha as rédias em ordem e fazia estalar o chicote.
Se o tenente estava furioso, não o estava menos a dama, que podendo ter a seu lado um elegante official, tinha por companheiro um maltrapilho como eu.
Achegou a si o vestido para não roçar pêlos meus esfarrapados calções, e apesar de irritada contra o cocheiro, preferio encostar-se a elle para evitar o menor contacto comigo.
Na primeira muda, eu quiz ver se derretia aquelle gêlo, se quebrava aquella malquerença que me affligia, e tendo encontrado uns frascos de amendoas cobertas, comprei pressuroso um, pensando, na minha inexperiencia em assumptos feminis, que uma dama joven e formosa devia gostar de dôce, e ser vencida com bôlos.
Ao dirigir-me ao carro, eu ja via aquella ruga formada entre os sobrolhos desfazer-se, ja via aquelles labios pregados em gesto irado entreabrirem-se em sorriso benevolente, ja via um principio de conversação; e foi com a maior confiança que lhe estendi o meu talisman, o frasco dos confeitos. A joven dama, sem mesmo me dar a confiança de olhar para mim, disse-me sêcamente, "Não tenho a honra de o conhecer." N'um ataque repentino de despeito, atirei com o frasco fora, e elle foi partir-se sôbre uma rocha, entornando as espheras coloridas que roláram em todas as direcções.
Estavam abertas as hostilidades entre nós.
Á hora de jantar parámos em Sunday's River, onde me déram um magnìfico serviço por dois xelins e meio.
A dama e o tenente de cavallos ligeiros, á mêsa, muito unidos lançavam-me olhares furiosos, e de certo me rogavam tantas pragas quantas as que cahíram sôbre o Egypto com a sua obra de destruição.
Ao subir para o carro, ignorando quem eu era, e avaliando-me so pêlos meus andrajos e pêla minha barba desgrenhada, a joven Ingleza disse ao filho de marte, "que a gente ordinaria ja se dava uns taes ares que irritavam." Isto encheu-me as medidas, e eu prometti vingar-me logo que a occasião se apresentasse.
Não tardou ella em apparecer.
N'essa noute chegámos, ás 7 horas, a Ladysmith, onde devìamos pernoitar.
A villa estava cheia de gente, e transportávam-se ali os feridos e os doentes.
Não havia uma cama, não havia um canto onde nos mettermos.
Em uma hospedaria encontrámos quasi vazia a sala de visitas, e digo quasi vazia, porque so la estava estabelecido um cabo de esquadra, que, deitado no sofá, não fez muito caso do tenente de voluntarios.
A dama sentou-se em uma cadeira e o tenente sahio.
Eu travei conversa com o cabo de esquadra, e offereci-lhe de beber. A perspectiva de uma bôa garrafa de vinho fez mais effeito no marcial guerreiro do que os confeitos tinham feito na loura Ingleza, e o meu homem sentou-se e travou logo conhecimento comigo.
Eu sentei-me ao lado d'elle no sofá, promettendo a mim mesmo ja não sahir d'ali. Depois propuz ao soldado ir elle buscar a garrafa de vinho, para o que lhe dei meia-libra.
O homem sahio, e eu deitei-me no appetecido movel.
Pouco tempo depois voltava elle com a garrafa, dois copos e cinco xelins de trôco. Estendeu-me o trôco, que eu, com um gesto de soberano desdem, não aceitei e que elle fez desapparecer na profunda algibeira.
Eu bebi um copo, elle bebeu sete, quando me ia a levantar, fingindo que lhe queria offerecer a sua conquistada propriedade, elle recusou-se terminantemente a isso, e eu estendi-me commodamente, envolvendo os meus pes n'um pelludo cobertor e preparando-me para dormir.
O cabo, meio embriagado, sahio da sala, e não sei o que foi feito d'elle, porque não mais o vi.
Pouco depois, entrou o tenente, que disse á dama, não ter podido encontrar melhor logar que aquelle para passarem a noute.
Olhou para mim e eu olhei para elle. O seu olhar parecia dizer-me, "Tenha dó d'esta dama, cêda-lhe o sofá."
O meu respondia-lhe: "Sou homem muito ordinario para ter d'essas delicadezas."
Resignados, chegáram as cadeiras uma para junto da outra e poséram-se a conversar. Eu que pouco me importava de ouvir arrulhos de pombos, fechei os olhos e dormi como um justo até as 3 horas, hora a que me viéram chamar para partir.
Ás 6 chegàvamos a Colenso, onde passàvamos o rio Tuguela em um magnìfico fluctuador, e ás 3 da tarde paràvamos na bonita aldea de Howick, onde uma demora de duas horas me permittio ir ver a formosa cataracta que a torna cèlebre.
Effectivamente, é uma das mais bellas paizagens que tenho contemplado, aquella.
Partímos, e pouco depois eu fazia parar a diligencia, para falar á minha gente, que encontrei nos vagons em que tinham sahido de Pretoria, e que rodavam pesadamente no caminho de Durban.
Informado de que estavam tôdos bons e que sobejavam os vìveres, segui, dando-lhe um ponto de reunião em Maritzburg.
Eram dez da noute quando chegava á capital da Natalia e me ia estabelecer no
Royal Hotel
, o melhor da terra, em um soffrivel quarto.
No dia seguinte, passáram os vagons com as minhas bagagens e os meus prêtos, com quem falei e a quem prometti esperar em Durban.
Depois d'isto, fui procurar Madame Saunders, a espôsa do meu amigo Capitão Saunders, para quem era portadôr de cartas de seu marido.
Em casa d'ella fiquei encantado com uma criança, a filha de Saunders, em que elle muitas vêzes me tinha falado e que era encantadôra.
Quando sahi de casa d'ella ja èramos amigos, e eu promettia á pequena Didi de voltar a Maritzburg, se não encontrasse logo um transporte para a Europa em Durban.
No dia 19 de Março, depois de ter feito uma jornada de 23 milhas em um ligeiro dog-cart, tomava a ferrovia, e corria sôbre os rails puidos em direcção a Durban.
¡Que impressão profunda me não causou o ouvir o sibilar da locomotiva!
Os postes telegràphicos, armados de pára-raios, como o sam ali casas e construcções quaesquer, faziam-me outra vez lembrar da civilização da Europa, do progresso do nosso sèculo, da grande evolução da humanidade, e mil idéas confusas se me baralhavam no cèrebro, quando ás 6 horas chegava a Durban.
Corri sem parar até onde podesse ver o mar, e foi com làgrimas a marejar nos olhos, que fiquei extàtico diante d'essa mole immensa de àguas azuladas que se confundiam ao longe, para este, com o azul dos ceos.
N'êsse momento não pude deixar de dizer a mim mesmo, com certo orgulho: "Atravessei a Àfrica, este é o mar Ìndico."
Voltei á realidade depois de alguns minutos de abstracção, e percebi que devia ir procurar um hotel.
Eu ja sabia, que em tôdas as cidades da Àfrica Ingleza ha sempre um
Royal Hotel
, e pedi que m'o indicassem.
Depois de vàrias consultas entre o estalejadeiro e sua espôsa, foi decidido que me dariam um quarto no fundo de um pàteo. Tomei posse d'elle, e quando estava a fazer o meu
toilette
para o jantar, viéram dizer-me, que me procurava o General.
Eu ja por vêzes tinha ouvido falar no general, quando o meu hospedeiro combinava com a mulhér sôbre que quarto me daria, e percebi então, que o general occupava uma grande parte do Hotel, e que era preciso não o incommodar.
Recebi o general, que era um homem ainda nôvo e sympàthico, e me disse, que tendo sabido da minha chegada, me vinha convidar a jantar.
Era elle o General Strickland, commissario em chefe do exèrcito Inglez.
Fui jantar á sua sala particular, onde conheci á mêsa um exército de
reporters
, enviados por os jornaes Inglezes, Francezes e Americanos, para darem noticias da guerra. Foi ali que conheci alguns d'esses homens, que, simples correspondentes de jornaes, t[~e]m sabido fazer conhecer o seu nome no mundo inteiro; foi ali que conheci os S^{nrs.} Forbes, Francis-Francis e outros, que se t[~e]m immortalizado como o seu collega Stanley, que, antes de ser o primeiro dos exploradores Africanos, foi o primeiro dos
reporters
Americanos.
O general Strickland dispensou-me as maiores attenções e finezas, e fui seu conviva em quanto estive em Durban.
No dia seguinte, fui procurar o Consul Portuguez, M^{r.} Snell, que têve para comigo muitas attenções, arranjando-me logo local, em sua propria casa, onde eu podesse accommodar os meus prêtos e as minhas bagagens.
Contudo, de casa do Consul Portuguez sahi muito triste, por uma noticia que elle me deu.
O paquête para a Europa tinha partido n'esse dia!
Era um mez! era um mez que eu tinha de esperar n'aquella terra, onde nada me prendia; era um mez que eu tinha a esperar mais para poder abraçar os meus, para poder ver o meu Portugal.
Resignei-me, e no dia immediato pude assistir á chegada dos meus prêtos, das minhas bagagens, do meu papagaio e da minha cabrinha.
Installei-os em casa do Consul Portuguez, M^{r.} Snell, que continuou a dispensar-me os maiores favôres.
Depois d'isto comecei a esperar que passasse um mez!
Os meus trabalhos, sempre em dia, não me deixavam ao menos o recurso de trabalhar.
Nos primeiros dias encontrei em que passar as manhãs sem sahir de casa.
A casa de banho do Royal Hotel era do outro lado da rua, e os hòspedes tinham de fazer uma caminhada para irem a ella. O Hotel estava cheio de officiaes, que chegavam tôdos os dias de Inglaterra. Logo de manhã começava uma procissão, entre a casa de banho e o hotel, de homens de tôdas as idades e feitios, em trages muito ligeiros, levando cada um uma toalha e uma esponja enorme. Divertio-me aquella scena burlêsca por dois dias, mas aquillo durava apenas uma hora de manhã, e eu não sabia que fazer no resto do dia.
Comecei a aborrecer-me muito, e acirrado pêla contrariedade que me causava a demora, comecei a soffrer.
Sentia em mim um vazio enorme. Habituado a um trabalho de ferro, a uma vida tão activa, a uma tensão de espìrito constante, á idéa de alcançar um fim, tinha chegado á meta, e sentia uma falta que não podia superar.
Adoeci, e pêla primeira vez na minha vida tive mêdo de morrer.
A guerra preoccupava tôdos os espìritos, e no meio d'aquelle mundo em que vivia não tinha uma so affeição.
Um dia, no leito onde me tinha prostrado a doença, e onde nem uma amizade me vinha trazer uma palavra de confôrto, tinha so na idéa a saudade de uma espôsa adorada e de uma filha estremecida, quando me veio á lembrança essa criança que eu tinha visto em Maritzburg e que tanta impressão me tinha feito--a filha do Capitão Allan Saunders.
Em miseravel estado de saude, sahi de casa, tomei o caminho de ferro, e segui para a capital da Natalia.
Logo que me estabeleci no Royal Hotel, parti para casa de Madame Saunders.
Fui recebido com a maior affabilidade por aquella dama, e com muitos beijos pêla pequena Didi, que eu levei a jantar comigo ao hotel.
Eu ja tinha dinheiro meu, que me tinha sido emprestado sôbre a minha assignatura particular, e ja comprara um vestuario decente.
Uma boneca e uma caixa de amèndoas fizéram de Didi minha amiga ìntima, e sôbre tudo uma tartaruga enorme que me déram no hotel e que eu lhe dei, tornara aquella amizade em verdadeira paixão.
Outro motivo não era de certo estranho ao amor d'aquella criança.
Madama Saunders, para me ser agradavel, deixàva-me a sua filha ja em sua casa, ja na minha, e Didi encontrava n'esta liberdade o meio de nunca ir á mestra. Esta consideração devia pesar tanto como a tartaruga e a boneca, na sua affeição por mim.
Ao mesmo tempo, M^{r.} e Madama Furze, o Coronel Mitchell, o Coronel Baker, o Capitão Whalley e outros, faziam-me encontrar n'elles verdadeiros amigos, que me enchiam de favôres; mas Didi, aquella linda criança de nove annos, preenchia um vàcuo na minha existencia de então, com as suas meiguices, e ás vêzes com os seus amuos e perrices.
Sem esta criança, eu teria talvez succumbido ao tèdio que me ganhou e que me prostou ao comêço em perigosa doença.
Pietermaritzburg é uma bonita cidade, tem magnìficas casas e sobêrbos templos, em um dos quaes ouvi por vêzes a palavra eloquente, arrebatada e cheia de fôgo, do sabio Bispo Colenso.
Ha ali formosos jardins e mimosissimas flôres, sendo as damas de Natal muito dadas á floricultura, e concorrendo muitas vêzes a certames nas exposições locaes. Tem um magnìfico parque, onde á tarde circulam muitas e brilhantes equipagens.
No tempo que ali passei, apresentava a cidade um aspecto desusado e um movimento consideravel, consequencias da guerra dos Zulos. Os hotéis estavam cheios de militares, os quartéis regorgitavam de soldados, e muitos acampavam fora d'elles. No
Royal Hotel
, que diziam ser o melhor, o serviço era mao, devido isso talvez ao excesso de hòspedes que ali havia. Havia tambem, em geral, um grande abuso nos prêços de tudo, e isso era consequencia de o govêrno pagar sem regatear.
O estabelecimento Cathòlico de Maritzburg é muito importante, e tido com a maior ordem, goza de grande crèdito na colonia.
O Consul Portuguez, M^{r.} Snell, escreveu-me, que tinha chegado o paquête 'Danúbio', da
Union Steamship Company
, que devia seguir para Moçambique e Zanzibar no dia 19 de Abril.
Parti, por isso, de Pietermaritzburg a 14, depois de ter feito saudosas despedidas aos amigos que ali deixava.
Dirigi-me ao
Royal Hotel
, e não pude obter um quarto. Então M^{r.} Snell tratou de me arranjar alojamento, e pôde obter um quarto de banho no Club de Durban, onde me fizéram uma cama no chão.
Os officiaes que chegavam, cada dia, não tendo onde se metter, armavam barracas de campanha nos pàteos e nas ruas em volta dos hotéis e do Club.
Por o mesmo paquête em que eu devia partir para o Norte tinha chegado o infeliz prìncipe Napoleão, que tão caro devia pagar a sua ousadia e coragem. Conheci-o, e não pude deixar de me afeiçoar, no curto convìvio que tivémos, a esse joven sympàthico, intelligente e illustrado, a quem uma morte ingloria e estùpida cortou tão prematuramente uma existencia brilhante.
Quantas vêzes eu lhe repeti o meu principio fundamental da vida Africana, "de desconfiar em Àfrica de tôdos e de tudo, até que provas irrefutaveis não nos fizessem confiar em alguem ou em alguma cousa."
A sua natureza ardente, a inexperiencia dos seus poucos annos, a sua coragem leonina, e esse descuido peculiar á juventude cheia de illusões e crenças, causáram a sua perda. Só quem o não conheceu o não lastimará; que n'elle havia o germem de um grande homem, havia uma attracção indefinivel para captar tôdos os corações.
Estranho á polìtica da França, n'estas poucas linhas lavro um testemunho de saudade ao mancêbo desterrado que foi meu amigo, e não ao prìncipe que representava um principio, e faço-o tanto mais desassombradamente, que vi os seus proprios adversarios lastimarem aquella grande catàstrophe.
Nas vèsperas da partida, travei relações com M^{r.} e Madame Du Val, e recebi d'elles muitos favôres, e finalmente, a 19 de Abril, embarcava com os meus prêtos e as minhas bagagens n'um pequeno vapor que me devia conduzir ao
Danubio
, ancorado fora, porque em Durban ha apenas uma pequena enseada, fundeando os grandes vapôres na costa limpa.
O mar estava um pouco picado e custou a atracar ao
Danubio
.
M^{r.} e Madame Du Val iam comigo, porque M^{r.} Du Val, chefe da Companhia Hollandeza em Àfrica Oriental, ia passar em revista as feitorias de Moçambique.
A passagem das bagagens do pequeno vapor para o
Danubio
foi difficil, pêlo mao estado do mar, e uma das minhas caixas cahio, sendo esmagada e desfeita entre os dois vapôres.
Caixa e conteúdo fôram ao mar, mas o Commandante Draper fez arrear logo um escalér, e pôde conseguir salvar algumas das cousas que ella continha e que fluctuavam, outras afundáram e estavam irremediavelmente perdidas.
Deixámos Durban, e não foi sem uma sensação de infinito prazer que eu senti o espadanar das àguas em tôrno do èlice poderoso, que a cada rotação me impellia no caminho da Patria.
Em Lourenço Marques foi pouco o tempo para receber favôres, e a maior parte d'elle foi passada com o meu velho amigo Augusto de Castilho, e com os meus amigos Machado, Maia e Fonceca.
A bordo, o Commandante Draper não cessava de me obsequiar.
Cheguei finalmente a Moçambique, onde fui encontrar tôdas as autoridades na cama. O Governador Cunha, o seu secretario e os seus ajudantes, estavam abrasados em febre.
Fui logo visitar o Governador, ao seu quarto de cama, e apesar do seu melindroso estado de saude e do cuidado que lhe dava o estado de sua espôsa, prostrada pêla febre tambem, Sua Excellencia deu as mais terminantes ordens para facilitar o meu regresso á Patria com a gente que me acompanhava, fazendo-me os mais subidos favôres.
Fui d'ali procurar um velho amigo da guerra da Zambezia, o Coronel Torrezão, em cuja casa me hospedei, com os meus amigos Du Val.
Dois dias depois, partia para Zanzibar, onde esperava encontrar Stanley, mas com o qual me desencontrei, tendo partido na vèspera da minha chegada.
O D^{or.} Kirk, Consul Inglez em Zanzibar, deu-me um jantar, e subidos fôram os favôres que recebi d'elle e de sua espôsa.
Tôdos os Europêos porfiavam em me obsequiar, distinguindo-se os officiaes da guarnição do
London
.
O Commandante Draper, logo que soube que o vapor de Aden só partiria dentro de oito dias, não consentio que eu fôsse para terra, dizendo-me (com razão) que as hospedarias ali eram pèssimas, e por isso fiquei vivendo a bôrdo, sempre com um escalér ás minhas ordens.
Travei ali relações com um joven Suisso, T. Widmar, que devia ser meu companheiro de viagem para a Europa.
Depois de uma semana de demora, em que cada dia foi assignalado por novos favôres de M^{r.} Du Val e do Commandante Draper, deixei Zanzibar n'um pequeno vapôr, do
British India
, onde recebi muitos favôres do seu Commandante Allen.
Em Aden, como a carreira do
British India
tivesse uma demora de oito dias, eu e Widmar tomámos passagem a bôrdo de um vapor da Lloyd Austriaca que nos conduzio a Suez, seguindo d'ali no primeiro trem para o Cairo.
Eu tinha adoecido gravemente, e foi Widmar o meu enfermeiro, tendo por mim cuidados de um velho amigo.
Ainda convalescente, fui ás piràmides com elle. Eu tinha visto o Zaire e o Zambeze; não queria voltar á Europa, sem saudar a velho Nilo; e do alto do sarcòphago do rei Cheops, d'esse monstruoso monumento levantado ha quatro mil annos pêlo orgulho dos Pharaós, eu vi-o correr plàcido e sereno, banhando as ruinas da outrora sobêrba Memphis.
Pouco depois, deixava o Cairo, sobêrba e ardente, cidade de ouro e de miseria, e ia em Alexandria fazer novos amigos e receber novos favôres.
O Conde e a Condêssa de Caprara acima de tôdos, fizéram-me taes obsèquios, que mais pareciam amigos de annos do que conhecidos de dias.
O Consul geral de Portugal, o Conde de Zogueb, tambem me fez offerecimentos na vèspera da minha partida, quando soube que o
Crédit Lyonnais
de Paris me tinha aberto um crèdito no Egypto, com dinheiro meu, mandado de Lisboa pêlo meu amigo Luciano Cordeiro.
Esquècia-me dizer, que por um mal-entendido das ordens do govêrno de Portugal, eu estive no Egypto sem dinheiro, gastando da bôlça de Widmar e da do Conde de Caprara, e podendo gastar de outras muitas estranhas que se me offereciam, e que não pensavam que eu fôsse um cavalheiro de industria; porque não ignoravam que Portugal tivesse enviado á Àfrica a expedição de 1877, e que d'essa expedição o Major Serpa Pinto voltava á Europa pêlo mar Ìndico.
Segui de Alexandria para Nàpoles, e d'ali por terra para Bordeos, onde fui altamente obsequiado pêlo nosso Consul, o Barão de Mendonça.
A 5 de Junho, deixava Pauillac, e a 9, em Lisboa, pisava a terra de Portugal, no meio dos amigos mais dilectos que eu tantas vêzes pensei não mais ver.
Na vèspera haviam chegado os meus prêtos, e o meu papagaio.
Estavam pois a salvo os trabalhos, e os restos de um dos ramos
da expedição Portugueza ao interior da Àfrica Austral, em 1877
.