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Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

CAPÌTULO I.

Reading edition

EM LEXUMA.

Prêso em Embarira--O Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do

Doutor--O Pão--Graves questões--Os chronòmetros não

param--Francisco Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença

grave--Receios e irresoluções--Chegada do missionario--Tomo uma

decisão--Partida de Lexuma (em Inglez,

Leshuma

).

Foi tormentosa a noute que passei em Embarira. Assaltado por milhares de persovejos, e por nuvens de mosquitos, tive de abandonar a casa que me offerecêra o chefe, e ir procurar ao ar livre um refugio a tão cruél tormento. Ao incòmmodo produzido pêlo ataque dos insectos vinha juntar-se a anciedade da idéa de encontrar no dia seguinte um Europeu, um homem desconhecido, mas com o qual eu contava ja para sahir dos embaraços em que estava. Amanheceu finalmente o dia 19 de Outubro depois de uma longa noute não-dormida.

As primeiras noticias que pude colher fôram de que o missionario estava a 12 ou 14 milhas d'ali, mas que do outro lado do rio Cuando vivia um Inglez.

Pedir uma canôa ao chefe para passar o rio foi o meu primeiro impulso, mas obtive a mais formal negativa, a pretexto de que não havia canôa.

Depois de grande controversia, elle declara-me que me não deixa sahir da sua povoação sem eu ter pago aos marinheiros uma certa porção de fazendas.

Chamei o Jasse e mostrei-lhe a impossibilidade de fazer pagamentos sem ter communicado com o Inglez, e ter d'elle obtido fazendas para os fazer, porque eu nenhumas tinha.

Jasse reune os marinheiros e o chefe e fala-lhes n'esse sentido, mas nada obtem, e a recusa de me deixarem ir á outra margem do Cuando é formal.

Vendo que nada fazia, pedi-lhes que fizessem chegar um recado meu ao Inglez, e escrevi algumas palavras n'um bilhête de visita. Foi o Verissimo o mensageiro. A má noute velada, e a febre constante prostráram-me. Deitei-me ao ar livre, esperando a resposta á minha mensagem.

Seria passada uma hora, quando appareceu diante de mim um homem branco. A sensação que experimentei ao ver um Europêu é indefinivel.

O homem que eu tinha diante de mim poderia ter de 28 a 30 annos, e possuia um typo perfeitamente Inglez.

Barba pouca e muito loura, olhos azues, grandes e vivos, cabello cortado rente e tão louro como a barba.

Vestia uma camisa de grossa tela, cujo collarinho desabotoado deixava ver um peito amplo e forte, como as mangas arregaçadas expunham á vista uns braços musculosos, queimados pêlo sol Africano.

As calças de estôfo ordinario estavam seguras por um forte cinto de couro, d'onde pendia uma faca Americana.

Nos pes sôbre umas meias azues de algodão grôsso, uns sapatos que pêlas costuras, tôdas feitas por fora, logo se via serem obra d'elle mêsmo.

Disse-lhe quem era; expuz-lhe as minhas circunstancias, e pedi-lhe para me ceder a fazenda de que eu precisava, a trôco de marfim que eu lhe podia dar. Mostrei-lhe a necessidade que tinha de me libertar d'aquelle encargo para escapar áquella gente e ir encontrar o missionario. Respondeu-me elle, que não tinha fazendas, que estava tambem sem recursos, e que só mandando eu a Lexuma as poderia obter.

O seu modo de falar e a delicadeza das suas phrases mostravam-me logo, que aquelle homem não era um ente vulgar. Elle dirigio-se ao chefe, e convenceu-o a deixar-me ir á outra margem do rio, com a condição de que voltaria á noute para Embarira.

Partimos, e depois de atravessar um grande rio, aquelle Cuando cujas nascentes eu havia descoberto, e determinado mezes antes, chegámos a um pequeno campo onde nos appareceu outro branco.

Era homem de elevada estatura, de longa barba e cabêllos brancos, que mostravam não uma idade provecta, desmentida pêla agilidade do côrpo e expressão da physionomia, mas sim a velhice prematura, producto de longos soffrimentos e trabalhos.

Vestia como o primeiro, e só estava um pouco melhor calçado.

Conversámos sobre a minha posição, e vimos que elles nada podiam fazer por mim, porque estavam tambem sem recursos.

Fui bastante absoluto empregando a palavra

nada

, porque se não tinham outra cousa a dar-me, tinham um soffrivel jantar, e eu tinha fome.

Depois de saciar o meu voraz appetite, combinei com elles escrever ao missionario, a pedir-lhe fazendas para o pagamento aos remadôres.

Expedi um portadôr para Lexuma e voltei a Embarira, onde me deitei ao ar livre, com a lembrança da noute terrivel da vèspera.

Dormi a noute de um somno ùnico e profundo. Ao amanhecer do dia 20, estavam junto de mim, vindas de Lexuma, as fazendas precisas para os pagamentos das tripulações. Paguei tudo, e obtive do chefe carregadôres sufficientes para levarem as minhas cargas e o marfim a Lexuma; escrevendo por elles ao missionario, a quem pedi hospedagem, e a quem pedia para pagar ali aos carregadôres.

Ao meio-dia, uma ligeira piroga, impellida pêlo remar de dous prêtos, corria por sobre as aguas do Cuando, levando a seu bordo três homens brancos.

A piroga velha e rachada fazia muita àgua, e por isso o homem que ia na frente descalçara os sapatos que levava na mão, em quanto o da ré, acocorado, esgotava incessantemente a muita àgua que colhia o fragil batél.

O do meio, magnificamente calçado á prova d'àgua, contemplava distraido o deslisar dos enormes crocodilos que fluctuavam á mercê da corrente, e pouco caso fazia da humidade da canôa.

Estes três brancos, reunidos ali, no centro d'Àfrica, pêlos azares das explorações, eram eu, o D^{or.} Benjamin Frederick Bradshaw, explorador zoològico, e Alexandre Walsh, zoologista tambem, preparador de exemplares e companheiro do doutôr.

Chegados á margem direita, foi logo posta á minha disposição uma das três cubatas que elles tinham.

O D^{or.} Bradshaw, òptimo cozinheiro, como é habil mèdico, sabio distincto, e caçador famôso, foi logo preparar um almôço de perdizes que elle tinha môrto n'essa manhã. O cozinheiro do doutor, um activo Macalaca, deitado de peito no chão, contemplava a seu amo a trabalhar na cozinha, e contentava-se em o ver trabalhar.

O appetite, guardado desde a vèspera, fazia dilatar as fossas nasaes ao sentirem o cheiro delicioso que sahia em condensado vapôr das caçarolas do D^{or.} Bradshaw.

Figura 118.--Três europêos atravessáram o rio.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Os condimentos de que eu estava privado havia tantos mêzes, exhalavam aromas deliciosos ao olfato de um faminto.

A cozinha estava feita, ìamos para a mêsa, onde havia uma grande panella de milho cozido em grão, e um alentado prato de caril de perdizes. Tìnhamos dado a primeira garfada nos pratos, quando na barraca entrou um prêto com um objecto envolvido em alva toalha de linho.

Figura 119.--O Campo do Doutor Bradshaw.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Vinha da parte do missionario Francez. Desdobrei a toalha, que continha um côrpo bastante pesado, e fiquei commovido diante de um enorme pão de trigo, que tinha nas mãos.

¡Pão! Pão, que eu ja não via ha um anno; pão, que era para mim sempre a cada comida em que o não tinha, uma recordação saudosa; que era um sonho constante das noutes de fome; do qual cheguei muitas vêzes a ter um desejo immoderado, e pêlo qual comprehendi que se possa commetter um crime para o haver, quando privado d'elle por muito tempo.

As làgrimas viéram humedecer as minhas pàlpebras resequidas, e creio que foi aquella uma das mais violentas commoções que senti na minha viagem.

Esquèci um pouco as perdizes do doutor, para comer, com voracidade, d'aquelle pão, que saboreava com delicias nunca experimentadas em gastronomia.

Foi Benjamin Bradshaw quem suspendeu o meu furor voraz, que me poderia ser fatal, e que me fez tomar uma òptima chàvena de cacao, em seguida á qual um sono profundo dormido n'uma barraca, lìvre do sereno da noute, veio restaurar as fôrças.

Tôda a minha gente e as cargas haviam partido para Lexuma, ficando comigo apenas Augusto e Catraio e a mala dos instrumentos.

Amanheceu alegre o dia seguinte, que deveria ser um dos mais atribulados da minha vida.

Depois de um òptimo almôço de perdizes e chocolate, e quando nos deliciàvamos a fumar o aromàtico tabaco do Chuculumbe, chegáram os carregadôres que na vèspera tinham partido para Lexuma, fazendo grande grita e dizendo, que não tinham sido pagos ali.

Admirou-me o facto, sôbre tudo por o Verissimo me não ter escrito, e por ter ido com as cargas o marfim que seria garantia a tôdo o pagamento que ali se fizesse.

Nós não tìnhamos fazendas, e não sabìamos que fazer diante das exigencias dos selvagens, que teimavam em que tinham sido roubados, porque tinham levado as cargas d'ali a Lexuma, e não tinham recebido o menor pagamento. Pouco depois, chegáram o chefe de Embarira Mocumba e Jasse, que começáram uma questão fortissima comigo e com os Inglezes, ameaçàndo-nos e dizendo-nos as maiores insolencias.

Eu estava envergonhado e aflicto por ver os Inglezes, que tanto me tinham obsequiado, mettidos em uma questão que me era particular, e sêrem insultados por minha causa; mas impossivel me tinha sido prever um tal acontecimento.

Depois de mil exigencias a que era impossivel satisfazer, elles com Jasse á frente declaráram que iam a Lexuma rehaver as bagagens e o marfim, e que tomariam conta de tudo até sêrem pagos; partindo em

seguida, mas deixando ali o chefe Mucumba com um grande trôço de gente a vigiar-nos.

Por consêlho do D^{or.} Bradshaw, nós entrámos em uma das barracas e pozémos as armas á mão, promptos a uma enèrgica defêsa, em caso de um ataque provavel.

Ao cahir da tarde Mucumba começou a fazer uma grita enorme, e chamando a sua gente invadio as duas barracas, levando de uma d'ellas a minha mala dos instrumentos, que fez logo transportar ao barco e passar á outra margem.

Voltáram a cercar a terceira barraca, em que nós estàvamos, exigindo que eu fôsse com elles para Embarira. Receioso de que os meus hospedeiros se expozessem por minha causa a um perigo eminente, queria-me entregar ao gentio, e libertal-os de um conflicto inevitavel; quando o D^{or.} Bradshaw me pedio que o não fizesse, e declarou-me que me não deixaria partir, e que deveriamos resistir-lhes a tôdo o trance.

Na barraca estàvamos quatro homens, três brancos e o meu Augusto, dispostos a vender caras as vidas, e era tal a nossa attitude que os gentios recuáram ante a idéa de um ataque que seria fatal a muitos. Depois de um consêlho prolongado entre as cabêças, decidíram elles abandonar o campo e passar á outra margem.

Dàva-me cuidado não ver o meu muleque Catraio, que comecei a supor teria sido feito prisioneiro, quando elle me appareceu na barraca, com o seu riso intelligente e velhaco, trazendo na mão os meus chronòmetros, que tinha ido á outra margem buscar á minha malla, em quanto os Macalacas nos cercavam e ameaçavam. Mais uma vez Catraio impedia que os chronòmetros parassem por falta de corda.

Estàvamos sós, mas muito apprehensivos, porque o doutor, que conhecia bem os indìgenas d'ali, dizia, que elles não passariam sem voltar á carga.

Pêlas 9 horas da noute, chega ao campo o missionario Francez, François Coillard, e sabendo tudo o que se tinha passado, afirmou-nos que os carregadores haviam sido pagos generosamente em Lexuma, e que elle se encarregava de fazer ouvir razão ao chefe Mucumba.

No dia immediato, logo de manhã, o chefe Mucumba, Jasse e innùmeras gentes, passáram o rio e viéram ao nosso campo.

M^{r.} Coillard, que fala a lingua do paiz como fala Francez ou Inglez, fez um discurso ao chefe de Embarira, mostrando-lhe a pouca-vergonha dos carregadores, que tendo sido generosamente pagos em Lexuma, viéram dizer, que nada haviam recebido, e que tinham sido roubados.

Mucumba entregou logo tudo o que tinha roubado na vèspera, e deu muitas satisfações, fazendo recair a culpa sôbre os seus homens que o tinham enganado. Quando parecia que tudo corria bem e se havia harmonizado, appareceu Jasse levantando uma nova questão.

Queria elle, que eu pagasse aos seus muleques particulares que tinham vindo em seu serviço, e com quem eu nada tinha.

Eu argumentei-lhe com o caso da tripulação de um pequeno barco que do Quisseque viéra em serviço dos outros remadores, e a quem eu nada tinha dado. Depois de um curto debate, habilmente dirigido por M^{r.} Coillard, elle recebeu duas jardas de fazenda para cada homem, e ficou terminada a questão.

Fomos almoçar satisfeitos, julgando que estariam terminados os incidentes desagradaveis d'aquelle dia, mas não estava escrito no livro do destino que assim fôsse.

Figura 120.--Monsieur e Madame Coillard.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Jasse voltou de nôvo á carga com nova exigencia. Queria elle, que eu lhe pagasse e ao chefe Mutiquetera, a quem eu ja havia pago com largueza.

Começou nova questão, em que de nôvo me prestou grande auxilio M^{r.} Coillard; sendo preciso para a terminar, o prometter um cobertôr a cada um d'êlles.

Mandou logo M^{r.} Coillard a Lexuma um portador buscar os dois cobertôres, e a fazenda que êlle havia tirado da sua pacotilha, para pagar á gente de Jasse.

Assim terminou finalmente aquella sèrie não interrompida de questões, para o quê concorreu poderosamente a intervenção que n'ellas tomou M^{r.} Coillard.

Disse-me elle, que ia partir para o Quisseque, a receber a resposta do rei Lobossi a seu respeito, mas que em 10 ou 12 dias estaria de volta; e por isso me pedia, que fôsse esperar o seu regresso para Lexuma, onde me esperava sua espôsa Madame Christine Coillard; e só então poderìamos discutir maduramente o que convinha fazer de futuro.

Resolvi seguir para Lexuma no dia immediato; porque queria determinar a posição d'aquelle ponto, e fazer um certo nùmero de observações.

Durante a noute tive um violento accesso de febre, e de manhã sentia-me muito mal.

O D^{or.} Bradshaw não me quiz deixar partir sem tomar algum alimento, e por isso só as 10 horas pude deixar a margem do Cuando. O doutor e seu companheiro deviam abandonar aquelle ponto no mesmo dia, e irem para Lexuma, porque as scenas dos dias antecedentes aconselhavam-n-os de evitar o contacto com aquelle gentio malèvolo.

Eu parti por um calor de 40 graos centìgrados, n'um terreno arenoso, onde o caminhar era difficil. A febre tirava-me as fôrças, e mais me arrastava do que caminhava. O terreno era coberto de arvorêdo, e

elevava-se logo a partir da margem do rio. Depois de cinco horas de marcha lenta e penosa, encontrei um pequeno còrrego, onde pude saciar uma sêde ardente. Só duas horas depois cheguei a Lexuma. Eram 6 da tarde.

N'um estreito valle de oitenta metros de largo, enquadrado em montes pouco elevados e de vertentes suaves, cresce uma herva grosseira e rachìtica. Uma bella vegetação arbòrea guarnece as montanhas que enquadram o pequeno valle, que se estende na direcção N.S. Na encosta de E. algumas barracas agglomeradas formam o estabelecimento de um sertanejo Inglez, M^{r.} Phillips.

Em frente a Oeste, duas aldeias abandonadas sam a feitoria de George Westbeech.

Ao N. das aldeas de M^{r.} Westbeech, uma forte palissada cerca um terreno circular de 30 metros de diàmetro, onde havia uma casinha de côlmo, dois

wagons

, ou carrêtas de viagem, e uma barraca de campanha. Era o acampamento da familia Coillard, era Lexuma emfim.

Entrei ali no recinto velado pêla alta estacaria de madeira, com o côrpo extenuado pêlo cansaço e o espìrito abalado pêla commoção violenta que sentia.

Diante de mim, á porta da casinha de côlmo, estavam sentadas duas damas, bordando a côres em grossa talagarça.

Ao ver aquellas damas ali, no centro d'Àfrica, a minha commoção foi indescriptivel.

Figura 121.--Acampamento da familia Coillard em Lexuma.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

A recepção que me fez Madame Coillard foi aquella que faria a um filho, se esse filho fôra eu. Com uma delicadeza extrema, pôz-me logo perfeitamente á vontade, e disse-me, que ainda não tinham jantado, porque esperavam por mim para pôr-se á mêsa. Convidou-me a entrar na barraca de campanha, onde uma mêsa coberta de fina e alva toalha sustentava um serviço modesto, contendo um jantar succulento. Defronte de mim sentava-se Madame Coillard; ao meu lado Mademoiselle Elise Coillard, sobrinha d'ella, de olhos baixos e physionomia rubra de pudôr, por ver um estrangeiro desconhecido entrar tão de golpe na sua vida ìntima e velada, espalhava em tôrno de si esse perfume de candura que cerca e envolve a mulhér formosa aos desoito annos.

Figura 122.--Interior do campo de Monsieur Coillard em Lexuma.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Madame Coillard multiplicava-se em cuidados extremosos, e pêlo fim do jantar eu comecei a provar uma sensação estranha. Aquellas damas, o jantar, o serviço, o chá, o assucar, o pão, tudo enfim se me baralhava na mente com traços mal definidos. Cheguei a não poder formular uma só idéa, e a recear, que a cabêça enfraquecida não podesse supportar as impressões d'aquelle momento.

Não tenho a consciencia de ter terminado aquelle jantar, sei apenas que me achei só na barraca. Então um abalo violento sacudio tôdo o meu côrpo; um soluço tolheu-me o ar na garganta, e as làgrimas saltáram ardentes dos meus olhos desvairados, banhando-me as faces que queimavam de febre. Chorei e chorei muito, não me envergonho de o dizer, e creio que aquellas làgrimas fôram a minha salvação.

Se eu não tivesse chorado, teria talvez enlouquecido.

Que se riam aquelles que acharem ridìculas as làgrimas n'um homem; pouco me importa o seu motejar estòlido. Infeliz de quem não encontra nos sentimentos do coração o pranto que vem marejar nos olhos, e o soluço que estrangula a fala, mais verdadeiras provas da gratidão sentida, do que as frases mais eloquentes em protestos fervorosos.

Eu, por mim, não me envergonho de ter chorado, e feliz serei se podér ainda chorar em iguaes trances.

Quanto tempo estive n'aquelle estado de excitação não o sei eu; mas, muito tempo depois, entravam as damas na barraca e preparavam-me uma cama com cuidados extremos.

A apparição das duas carinhosas senhoras veio trazer nova perturbação ao meu espìrito. Eu não sabia que dizer-lhes, e creio que só lhes dizia disparates.

Foi mesmo sem consciencia do que fazia que eu lhes narrei um boato ouvido de manhã em Embarira, que apregoava ter havido um grande incendio no Quisseque, nas casas do chefe Carimuque, e terem sido ali prêsa das chamas as bagagens do missionario.

Deitei-me e creio que dormi.

Ao alvorecer da manhã seguinte, as scenas da vèspera desenhavam-se confusamente na minha imaginação enfraquecida.

Parecia-me sonho tudo o que se passava n'aquelle sertão longìnquo.

Levantei-me, e ao ver que era realidade o que me cercava, o meu espìrito volveu de nôvo a um deploravel estado de perturbação.

Machinalmente, sem a menor consciencia dos meus actos, por um poder filho do hàbito, dei corda e comparei os chronòmetros, fiz as observações meteorològicas, e registei tudo no meu diario.

Pouco depois, Mademoiselle Elisa, com a sua touca e avental branco, entrava risonha na barraca, e vinha cuidar dos aprestes da mêsa para o almôço.

Madame Coillard continuou envolvendo-me dos maiores desvelos.

Não posso ainda hôje explicar porque produziam em mim, espìrito forte, uma tal impressão aquellas damas; mas é certo que a sua apparição produzia-me logo uma especie de delirio.

Passáram dois dias que eu não sei como fôram passados; no fim d'elles succumbí. A febre apossou-se de mim com violencia assustadôra, e com ella veio o delirio. O meu estado era grave, mas dois anjos velavam á minha cabeceira.

A 30 de Outubro, o delirio deixou-me um momento de lucidez. Conheci que a vida estava apenas prêsa por um fio a um côrpo despedaçado pêlas fadigas e fomes da jornada, e pensei que não me levantaria mais.

N'esse dia entreguei a Madame Coillard os meus papéis, pedindo-lhe que os fizesse chegar com segurança ás mãos do Governo de Portugal.

O D^{or.} Bradshaw fizera-me repetidas visitas durante os dias antecedentes, e empregara tôda a sua sciencia mèdica para me salvar.

Contudo a febre não cedia, e o estòmago não supportava medicamento algum. Decidi eu mesmo tentar um ùltimo esfôrço, e comecei a dar repetidas injecções hypodèrmicas com fortes doses de quinino.

A 31 fiquei espantado de ainda estar vivo, e redobrei a dose do quinino pêla absorpção hypodèrmica. O D^{or.} Bradshaw aconselhou-me e fêz-me tomar uma forte dose de laudanum. A 1 de Novembro, começáram a manifestar-se as primeiras melhoras.

Nunca estive cercado de tão extremosos cuidados como ali.

As melhoras continuáram ràpidas no dia seguinte, em que ja me pude levantar um pouco. Pareceu-me perceber que não sobejavam muito os vìveres, e isso tirou-me um pouco o sono durante a noute. Na madrugada seguinte, quando ainda tudo dormia no campo, levantei-me cauto e fui chamar os meus prêtos.

Sahi com elles cambaleando ainda nas pernas debilitadas, e internei-me na floresta, sem que alguem desse fé da minha escàpula. Pêla tarde voltei com os meus homens curvados ao pêso da caça que tinha môrto. Madame Coillard estava afflicta, pensando que eu havia abandonado o campo para sempre, e fui recebido com a maternal censura de quem ralha em familia.

Como em todas as minhas doenças graves, não tive convalescença, e a minha forte organização fêz-me passar do estado valetudinario ao perfeito estado de saude, em transição ràpida.

Com a robustez do côrpo veio o socêgo do espìrito, e só então pude encarar reflectidamente a posição em que o destino me collocara. Pêla conversação repetida com Madame Coillard, pude perceber que não sobejavam recursos ao missionario. O meu marfim, bem pago, mas pago em fazendas a que os agentes da casa Westbeech and Phillips déram subido e exageradissimo valor, pouco produzio. Madame Coillard só via um meio de sahirmos do apuro em que estàvamos, e êsse era, o de nos não separarmos, por não ser possivel dividirem comigo os poucos recursos que tinham.

Contudo, esperàvamos a volta do missionario, do Quisseque, para tomar uma resolução definitiva.

A idéa de ficar com elles aterrava-me.

Havia ali uma formosa criança, que impressionava a cada momento a minha imaginação ardente de Portuguez.

¿Ser-me-hia possivel, n'um viver tão ìntimo, n'um isolamento tão grande, impedir que uma fala escapada n'um momento de loucura, um olhar vibrado n'um lampejo de delirio, fôssem offender a casta menina, descuidosa na sua innocencia càndida?

Tremia por mim e por ella.

Decidi, pois, fazer um estudo de mim mesmo até á volta do missionario, e calcular bem até que ponto eu seria capaz de ser honrado.

Passei três dias atribulados no estudo que fazia do meu espìrito. ¿Poderia eu namorar-me d'aquella meiga criança? De certo não; e a lembrança sempre viva de uma espôsa idolatrada, era segura garantia aos meus sentimentos.

Mas, se o coração estava defendido, não o estava a imaginação fèrvida, e podia, n'um momento de desvario, com uma phrase imprudente, cometter uma infamia--porque infamia seria fazer subir o pejo ao rôsto d'aquella em cuja casa eu tinha sido recebido com a intimidade de um filho.

Àlém d'isso, o meu devêr era ainda maior. Era preciso evitar a tôdo o custo, que a fama das proêsas que os meus de mim apregoavam; que a posição, um pouco romàntica, em que eu me achava entre aquella familia; não fôssem impressionar a novél imaginação dos desoito annos de uma mulhér.

¿Poderia eu sustentar durante mezes o papél de uma reserva absoluta, na grande intimidade da vida que ia levar?

Um dia pensei que era capaz de o fazer, e desde êsse dia tracei a minha conduta futura, de que não arredei um só passo.

Muitos mezes depois eu tinha sido comprehendido por uma mulhér, que soube ler no meu ìntimo com essa fina perspicacia que só ellas possuem para ler nos arcanos da alma os mais recònditos sentimentos; e não hesito em dizer, que fui comprehendido por Madame Coillard, porque, na vèspera da nossa separação, ella escreveu no meu diario um versìculo do Psalmo 37, que me revelou o seu pensamento.

Estava resolvido a ficar com elles, quando más novas chegáram do Quisseque.

M^{r.} Coillard confirmava, em uma longa carta escrita a sua espôsa, o boato do incendio a que ja me referi.

Tudo quanto elle tinha em casa do chefe Carimuque fôra prêsa das chamas, e isso vinha ainda complicar a situação, diminuindo o seu haver.

Àlém d'esta, outra noticia veio consternar mais a bondosa espôsa do missionario. Dizia elle que Eliazar, o homem que estava em Quisseque e de quem ja falei, fôra atacado de um accesso de febre de mao caracter, e estava em perigo.

Madame Coillard muito affeiçoada áquelle Catechista, que fôra outrora seu servidor, ficou desde êsse momento em cuidados extremos.

Dois dias depois, a 6 de Novembro, uma nova carta do missionario veio augmentar a tristeza que reinava no acampamento de

Leshuma

. Eliazar estava peior e receiava-se que não podesse salvar-se.

No dia 7, eu tinha ficado levantado até tarde da noute, por ter a fazer observações astronòmicas; ficando comigo as duas senhoras, em conversa cujo assumpto era o missionario e a doença de Eliazar.

Madame Coillard disse-me, que tinha um forte presentimento de que seu marido chegaria n'aquella noute. Propuz-lhe irmos ao seu encontro, e tendo sido aceite o alvitre pelas duas corajosas damas, pozémos-nos a caminho de Embarira.

A um kilòmetro do acampamento, eu que caminhava adiante d'ellas, preveni-as de que sentia rumor de gente na floresta; mas julgáram ser engano, porque ainda um kilòmetro àlém ninguem encontrámos. Contudo, eu sabia não me enganar, porque mais de uma vez um rumor mal definido e só perceptivel a ouvidos de sertanejo, tinha chegado até mim. Sem isso não teria animado aquellas damas a esperar n'uma floresta povoada de feras, e onde me sentia pouco á vontade pêla responsabilidade que tomava.

Pelas onze e meia, o rumor que por vêzes percebi tornou-se distincto para os meus ouvidos, e não duvidei affirmar que gente calçada caminhava no trilho que seguìamos. Pouco depois alguns vultos aparecêram na sombra, e o missionario, acompanhado de dois ou três prêtos, estava diante de nós.

Madame Coillard procurava em vão alguem junto de seu marido. Esse alguem faltava. Mais uma sepultura tinha sido cavada no alto Zambeze, mais uma lição estava dada aos imprudentes que se arriscam n'aquelle paiz da morte.

Voltámos tristes e silenciosos ao campo de Lexuma.

No dia immediato tive uma larga conversa com M^{r.} Coillard. O que eu previa ja era realidade. O missionario, falto de recursos, não me podia dar o sufficiente para eu fazer a viagem até ao Zumbo.

Discutímos largamente todos os alvitres, e a ùnica possibilidade de èxito era não nos separarmos e seguirmos juntos até ao Bamanguato, onde eu poderia obter meios de seguir avante. Elle tinha pressa de partir, porque àlém de não sêrem fartos os meios para uma espera qualquér, Lexuma era-lhes fatal. Duas sepulturas de dois dos seus mais fiéis servidôres tinham sido abertas ali.

Contudo, eu queria ir visitar a grande cataracta do Zambeze, e ficou combinado que elle me esperaria até ao regresso, o que importava uma demora de 12 a 15 dias.

Ficou decidido que eu partisse para Mozioatunia no dia 11, e Madame Coillard, com maternal sollicitude, começou logo a tratar dos meus aprestes de viagem.

No dia 10, uma forte tempestade cahio sobre nós, e sobreveio-me um accesso de febre. Verissimo tambem adoeceu com febre. Este estado de tempo e de doença continuou no dia 11, impedindo-me de realisar o projecto de seguir n'esse dia para as cataractas.

No dia 12 eu estava melhor, mas o Verissimo tinha peiorado, sendo necessario renunciar á partida ainda n'esse dia.

Então o missionario propoz-me seguirmos todos a 13 para o kraal de Guejuma, e d'ali seguir eu ao destino projectado.

Effectivamente, ás 10^{h.} e 20^{m.} da noute de 13, deixámos o campo de

Leshuma

. Era difficil o jornadear por entre a floresta com os pesados

wagons

. A cada passo um tronco de àrvore ou um penêdo travava as rodas, e era preciso cortar o tronco ou remover a pedra. O meu Augusto, usando da sua força athlètica, fazia verdadeiros prodìgios.

Só ás 6 horas da tarde do dia 15 podémos alcançar o kraal de Guejuma, tendo jornadeado noute e dia apenas com pequenos descanços, para os bois pastarem e nós repousarmos. Não ha àgua entre estes dous pontos, e ainda que tìnhamos uma escaça provisão para nós, os pobres bôis passáram três dias sem beber. Por isso, logo que chegámos a Guejuma, êlles faziam esforços inauditos para se libertarem dos jugos e correrem ás lagôas de pèssima agua, que abastecem aquelle kraal, estabelecido pêlos sertanejos Inglezes para repousar e têrem os gados, que não podem guardar em

Leshuma

por haver ali a terrivel môsca zê-zê.

O nosso caminho fôi por uma planicie arenosa e hùmida, onde os

wagons

se enterravam dando grande canceira aos bôis.

Apesar do mao estado da minha saúde, determinei seguir no dia immediato para as cataractas, e Madame Coillard não deixou um momento de se occupar das minhas provisões de viagem.

Não me foi possivel encontrar um guia, mas apesar d'isso, não vacillei um instante em partir.

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