CAPÌTULO V.
Reading edition
DE SHOSHONG A PRETORIA.
Catraio--Apparece o vagom--Despedida de M^{r.}
Coillard--Tempestades--O vagom tombado--Trabalhos de nôvo
gènero--Chuvas--O Limpôpo--Fly--Caçadas--No Ntuani--Um Stanley que
não presta--Augusto furioso--Adicul--Os leões--Stanley desanima--Os
Böers nomadas--Nôvo vagom--Peripècias--Doenças graves--Um
Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ùltimo
tùmulo--Magalies-berg--Pretoria.
Mal se adivinhava o alvorecer da manhã, e ja eu estava a pe e vestido.
Os chronòmetros não se me tiravam da idéa, e a preoccupação era grande e motivada.
M^{r.} Coillard participava do meu sobresalto, e não me quiz deixar partir sòzinho. Mandou pedir um cavallo ao rei Cama, e seguio comigo no rasto do vagom.
Tive de fazer novas despedidas ás damas Coillard, e novamente senti os desgôstos d'aquella separação.
Em breve eu e M^{r.} Coillard deixàvamos
Shoshong
, e nos internàvamos no esteval que cobre os campos ao sul da cidade.
Seguìamos o rasto do pesado carro, quando mui pròximo divisámos um nêgro sentado junto ao caminho. Ao acercar-nos d'elle eu conheci-o. Era o meu muleque Catraio. Caminhou para mim, trazendo nas mãos um objecto volumoso, e ao abeirar-me, disse-me, "
Sinhô
, dê cá as chaves para tirar os relogios da mala, que sam horas de dar corda."
Exultei ao ver a mala dos instrumentos onde estavam os chronòmetros, e sem pedir ao muleque explicações do desapparecimento do vagom, saltei do cavallo, e entreguei-me ás minhas observações matinaes quotidianas. Estava escrito que durante a minha longa jornada os meus chronòmetros não teriam nunca de parar!
Catraio, sempre vigilante por aquella obrigação, velava por elles.
O missionario ficou sorprendido com o cuidado do prêto.
Ali, como em Embarira, Catraio tinha impedido os chronòmetros de pararem, como durante as minhas mais graves doenças o tinha feito.
Catraio fôra educado por um Portuguez, que desde pequeno lhe conheceu a bossa da velhacaria, e que têve o cuidado de lh'-a desenvolver á pancada.
O muleque, perdida a vergonha, que talvez nunca têve, em breve perdeu o mêdo ao castigo, e fêz-se bêbado e ladrão.
Seu amo, a quem elle chegou a fazer um roubo importante com arrombamento de um cofre, isto aos dôze annos, decidio desfazer-se d'elle para sempre, e mandou-o deitar á margem em Nôvo-Redondo.
Quando em Benguella eu procurava um muleque intelligente e ladino para o meu serviço particular, mais de uma pessôa me falou em Catraio, que a fama das tratantadas tornara conhecido.
Dirigi-me ao que fôra seu amo, e consegui que elle o mandasse buscar a Nôvo-Redondo. Ao ver a physionomia expressiva e intelligente do prêto, fiquei satisfeito com o passo que dera chamando-o a mim. Catraio até ali tinha sido levado á pancada, eu resolvi tratal-o por bons modos, nunca lhe falei na sua vida passada, nunca lhe fiz uma recriminação.
Sendo elle o prêto mais intelligente de todos aquelles que me cercavam, eu incumbi-o de me ajudar nos meus trabalhos scientìficos. Catraio, que não sabia ler ou escrever, conheceu em poucos tempos todos os meus instrumentos e todos os meus livros. Quando, separado dos meus companheiros, me vi sòzinho em Àfrica, tive uma grande apprehensão, lembràndo-me que, durante uma doença, os meus chronòmetros poderiam parar. Chamei o Catraio e fiz-lhe o seguinte discurso edificante:
"Fica sabendo que de hôje em diante, tôdos os dias, logo de madrugada, tu tens de te apresentar diante de mim com os chronòmetros, thermòmetros, baròmetro e caderno diario, isto esteja eu são ou muito doente, longe ou perto, ficando tu na intelligencia, de que não tens desculpa nas circunstancias mais extraordinarias, se o não fizeres. Agora escuta-me bem. Nunca te bati como nunca te ralhei, mas, se os
chronòmetros pararem por falta de corda, eu espèto-te n'um enorme espêto de pao, e asso-te vivo nas brazas de uma enorme fogueira."
Catraio, que não acreditava muito que um branco fôsse bom, e que desconfiava mais da brandura do meu trato do que das pancadas habituaes, julgou ter descoberto a minha maneira de castigar uma falta, e o espêto de pao e a fogueira aterráram-n-o.
Começou a trazer tôdas as manhãs os instrumentos, a coisa foi passando a hàbito, e eis a razão porque, ainda nas minhas mais graves doenças, os chronòmetros tivéram corda e fôram comparados; eis a razão porque em Embarira Catraio, com risco de vida, os foi empalmar aos Macalacas; eis a razão porque ainda n'aquelle dia fôram salvos de parar, porque elle, vendo que eu não chegara na vèspera, mesmo de noute se pôz a caminho e me veio encontrar á hora propria.
Livre da apprehensão que me torturava, tratei de interrogar o muleque sôbre o facto do desapparecimento do vagom, e soube que o Inglez se tinha enganado, e tinha tomado um caminho transversal pêlo bom caminho, mas que, logo ao alvorecer, partiria, e iria esperar-me no logar ajustado para o encontro na vèspera.
Eu e M^{r.} Coillard seguímos no bom caminho, e ás 9 horas encontrámos o vagom.
Mandei fazer o almôço, e ao meio-dia separei-me d'êsse homem a quem devia tanta gratidão, e cujos favôres sam d'aquelles que não se podem retribuir nunca, porque tudo que por elle eu fizesse pesaria, em uma balança justa, muito menos do que tudo o que recebi d'elle.
Parti immediatamente, e fui acampar ás quatro horas, em sitio sem àgua.
N'essa noute, quando ia a deitar-me, senti o galope de um cavallo, que me chamou a attenção. O meu Fly rinchava, e os cães ladravam e arremettiam para o lado de
Shoshong
.
Pouco depois, chegava ao meu campo um cavalleiro Bamanguato, e entregava-me uma carta e um embrulho.
A carta dizia, que fôra encontrada em casa a minha espingarda Devisme, e M^{r.} Coillard apressava-se em mandar-m'a.
Escrevi-lhe algumas palavras de agradecimento, e remunerei o portador, que voltou logo a tôda a brida.
No dia immediato, 16 de Janeiro, parti á uma hora da madrugada, alcançando ás três horas uma lagôa, ùnica àgua permanente que existe entre o Limpôpo e
Shoshong
.
N'esse dia ainda fiz duas jornadas, uma de três outra de quatro horas, acampando pelas cinco da tarde. Das quatro ás dez da noute a chuva cahio torrencial, inundou-me o vagom, cuja cobertura velha e esburacada nada abrigava, e causou-me perdas sensiveis, sendo a maior, tôdo o pão e biscoutos preparados por Madame Coillard, que ensopados n'àgua se tornáram em massa não aproveitavel.
Na marcha ùltima d'esse dia tive de alterar o meu rumo que era Sul, e meti a S.E., para evitar os accidentes do terreno, que tornavam difficilimo o rodar do vagom, e ameaçavam despedaçal-o a cada momento. O vagom de Stanley era uma velha carriola, meio apodrecida e desconjuntada, e que a cada passo parecia querer desfazer-se.
Figura 129.--No Deserto.

Só ás 8 horas do dia seguinte, depois de uma jornada de três horas, entrei no meu rumo, entrando no caminho abandonado na vèspera. O terreno continuava accidentado, mas era preciso seguir n'elle.
Ao descer uma eminencia, as rodas de um lado do vagom entráram n'um sulco profundo, e o vagom tombou, ficando encostado a duas àrvores que lhe amparáram a queda. Eu ja desconfiava que o meu Stanley não prestava para nada, mas tive a convicção d'isso no primeiro embaraço que encontrámos. O homem, ao ver o vagom tombado, sentou-se, fechou as mãos na cabêça e julgou-se perdido.
Mandei dejungir os bôis, e fui estudar a maneira de levantar o carro sem o despedaçar. Augusto, Verissimo e Camutombo fôram cortar três fortes e compridas estacas, que amarrei ao vagom e por meio de cordas dadas ás àrvores do outro lado, consegui sustental-o na sua posição natural, empregando para isso apenas uma junta de bôis.
Em seguida, enchi o sulco com paos e folhagem, para que as rodas d'aquelle lado podessem descançar ao mesmo nivel das do outro lado. Este trabalho durou mais de quatro horas, e quando consegui pôr o vagom em estado de rodar e mandei jungir os bôis, ao primeiro esfôrço que elles fizéram, a corrente tirante partio-se em bocados.
Nova demora, nôvo trabalho a ligar os elos da corrente partida com tiras de couro de girafa, isto debaixo de uma chuva torrencial, e o meu Stanley sempre pasmado e sem saber o que havia de fazer.
Consegui partir ás três horas e meia, mas tive que parar logo depois, porque o temporal recresceu, e o terreno argiloso encharcado não permittia o rodar do vagom, que, muito abalado pêla queda, se desfazia em pedaços. A tempestade foi horrivel até ás 10 horas da noute, e durante duas horas, os raios cahiam muito pròximos, lascando as àrvores da floresta. O terreno, sempre accidentado, é coberto de mata espêssa, que vegeta n'um solo de argila muito plàstica.
Figura 130.--Fly, o meu Cavallo do deserto. (De uma photo. feita em Pretoria.)

No dia 18, parti ás seis da manhã, e meia hora depois entrava n'uma planicie completamente encharcada, e onde as rodas do carro se enterravam na argila até aos cubos. Fazia-se um kilòmetro por hora n'aquelle terreno difficil.
Ás 10 horas pude alcançar uma pequena eminencia, mais enxuta, onde parei.
Estava junto á margem esquêrda do Limpôpo, conhecido ali pêlo nome de rio dos crocodilos.
Fui logo ao rio, que tem ali 50 metros de largo, com uma corrente de 30 metros por minuto. Não tinha meio de lhe avaliar a profundidade.
O tempo tinha melhorado, e eu, ao deixar o rio, segui parallelamente á margem, deixando Fly ir a passo, as rèdeas largas e pendentes.
De repente, o meu fino cavallo fitou as orêlhas, rinchou e precipitou-se de um salto no meio do esteval, começando em uma carreira desenfreada. Sem saber explicar o caso, sobresaltei-me e tentei sostel-o, mas elle não queria obedecer ao freio.
Nada tranquillo e pensando que o nobre animal fugia por evitar um perigo, estava perplexo, quando percebi diante de mim um rumorejar nas estêvas, e vi os cornos retrocidos de alguns
ongiris
.
Percebi tudo; eu não fugia, perseguia. Desde esse momento comecei a ajudar o cavallo, que ganhava terreno sôbre os ligeiros antìlopes.
Quanto tempo durou aquella corrida vertiginosa não sei. Passei matas, onde ficáram os restos dos meus andrajos, com alguma pelle do meu côrpo, passei clareiras e planicies, onde os antìlopes e cavallo se atascavam em lôdo. O cavallo ganhava terreno, mas lentamente, só tarde me acerquei dos ongiris e pude atirar-lhes. Um cahio, e os outros seguíram mais ligeiros ainda, instigados pêlo mêdo que lhes causou o estampido do tiro.
Fly parou, e foi cheirar o animal, que se estorcía nas vascas da morte, com o mesmo prazer com que o faria um cão de caça.
¿Onde estava eu? ¿Onde me ficava o vagom? Não o sabia; porque não sabia a que rumos tinha andado.
Isso preoccupava-me um pouco, mas eu lembrei-me de caminhar a leste até encontrar o Limpôpo.
A esse tempo, um enorme temporal cahio sobre mim. Era-me impossivel carregar o antìlope sôbre o cavallo, porque não tinha fôrça para isso. Decidi abril-o, e tirar-lhe os intestinos, a ver se então o poderia elevar do solo.
Bastante pràtico no serviço de magarefe, em breve concluí aquelle trabalho.
A minha esperança não foi perdida, e pude, ainda que a custo, guindar o animal sôbre o arção, onde o amarrei.
Figura 131.--Fly perseguindo os Ongiris.

Puz-me a caminho para leste, mas Fly embirrou em querer caminhar ao norte, e comecei a pensar que talvez o cavallo tivesse mais razão do que eu, e deixei-o tomar aquelle rumo. Uma hora depois, avistava o vagom, onde a minha gente não estava sem receios, pêla demorada ausencia que tive.
Era ja tarde, e estava extenuado de fadiga; por isso decidi ficar n'aquelle ponto. Ao anoutecer, apparecêram ali uns prêtos do règulo
Sesheli
que iam a
Shoshong
, e por elles escrevi ao missionario
Coillard, a prevenil-o do mao estado dos caminhos, e a dizer-lhe, que não seguisse o meu rumo.
Durante a noute cahio uma horrorosa tempestade, e de nôvo ficámos encharcados. Apesar d'isso, a fadiga do dia trouxe o sono e dormi profundamente, para acordar com uma dôr horrivel no sangradouro do braço direito. Levantei a manga da camisa, e fiquei trèmulo ao ver um enorme escorpião nêgro que me picara o braço n'aquelle ponto mesmo, sôbre a artèria brachial. Era impossivel sarjar sem ferir a artèria, empregando para isso a mão esquêrda, com a qual sou pouco geitoso, e o receio de aggravar a situação fazendo algum disparate, levou-me a decidir não fazer nada. Em poucos minutos a inchação era enorme e as dôres violentissimas.
No maior desespêro, tomei três grammas de hydrato de chloral e cahi em modôrra.
Era alto dia quando sahi d'aquelle sono, provocado pêlo poderoso anesthèsico.
As dôres tinham abrandado, e só existia uma inflammação local, com um tumor do tamanho de uma ervilha no sìtio do ferimento, tumor que só desappareceu mêzes depois.
O engorgitamento dos tecidos era grande, e tolhia-me os movimentos.
Apesar d'isso, ainda fui caçar n'êsse dia, e tanta caça encontrei que resolvi ficar ali. Matei dois leopardos.
A noute foi de tempestade, e os insectos torturáram-me.
Alguns leões rondáram o campo, e fizéram-nos estremecer com os seus rugidos estridentes.
Seguímos ás 8 horas do dia 20, mas o terreno argiloso, encharcado da chuva, pegava-se ás rodas do vagom, e formava blocos que as impediam de girar, sendo a câda momento preciso tirar-lh'-os a machado.
Foi um fadigante labutar, e ás 10 horas parei, porque estàvamos todos extenuados de fadiga. A chuva cahia forte, e só podémos de nôvo por a caminho o vagom ás 2 horas, parando ás 4 e meia junto do rio Ntuani.
Ao chegar ali, uma triste decepção nos esperava. O rio Ntuani, que é um riacho sem importancia, e quasi sempre sêco, tinha 60 metros de largo, e deu-me, nas sondagens que fiz junto á terra, 7 metros d'àgua.
Impossivel era atravessal-o com um vagom, antes de muito tempo.
Tratei, pois, de acampar ali, e construí para isso um bom acampamento, de barracas cobertas de herva.
Havia muitos dias que eu andava completamente molhado, mas felizmente a minha saude não se ressentia d'isso.
A nossa posição era melindrosa, porque tìnhamos falta de vìveres, e havia ja dois dias que estàvamos reduzidos a uma alimentação puramente animal, e so tìnhamos para comer a carne da caça que eu matava.
Não havia perigo da fome, e eu não reciava d'ella em paiz de caça como aquelle; mas comer só carne assada, sem sal nem outro condimento, é duro e pouco hygiènico.
O tempo melhorou um pouco, e eu pude continuar caçando. Um Inglez, em
Shoshong
, dèra-me muitos cartuxos das armas Martini-Henry, que serviam perfeitamente na Carabina d'El-Rei, e eram os que eu então empregava com grande resultado.
Tìnhamos carne em abundancia, mas eu ja não a podia soportar.
Fazia uma nova collecção de pelles, e a facilidade que me offerecia o vagom para o transporte d'ellas, como a nenhuma necessidade que teria de as vender, deixàva-me a esperança de que estas chegariam á Europa.[
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]
Na manhã de 21, vi com prazer que o rio baixara trinta centìmetros durante a noute.
Comi uma perna de puti (
Cephalophus mergens
), saltei sôbre o meu Fly, e parti para a caça. Na orla de uma mata marginal do Ntuani, o meu nobre cavallo começou n'um correr desenfreado. Eu ja sabia que ia em perseguição de caça, mas não via nada.
Corri assim por meia hora, e só então avistei por sôbre os arbustos do matagal uns pequenos pontos nêgros que se moviam com rapidez prodigiosa.
Era nôvo para mim o animal que perseguia, e só n'uma clareira me pôde ser a verdade revelada. Quatro abestruzes fugiam diante do meu Fly, que nem um só momento lhe perdia a pista, apesar das voltas furtadas que davam.
Entrámos em planicie descoberta, e ali comecei a tomar um verdadeiro interesse n'aquella caçada de nôvo gènero.
Fly era o meu mestre. Abandonei-lhe o freio, tomei as rèdeas do bridão, e deixei-o ir. O valente animal agradeceu-me o alìvio que lhe dava com um relinchar de alegria, e seguio mais ràpido.
As abestruzes, ainda que podendo produzir uma carreira mais veloz do que o cavallo, não a podem sustentar como este, e param a miúdo. Era isso que me fazia ganhar terreno sôbre as ligeiras aves.
Algum tempo depois ja não era preciso mais do que o galope para as acompanhar, e chegáram a parar a sessenta metros de mim. Estavam alcançadas, e na primeira corrida poderia atirar-lhes.
Assim foi, e pouco depois a Carabina d'El-Rei fazia ecoar na planicie o estampido da sua dupla descarga.
Junto das enormes aves estava eu perplexo, e sem saber o que fizesse, deixava pastar o meu nobre cavallo; quando me apparecêram Augusto, Verissimo e Camutombo, que andavam caçando tambem e ouviram os meus tiros. Disséram-me elles estar perto o acampamento, e por isso mandei depenar cuidadosamente as abestruzes, e esperei o fim d'aquelle trabalho para voltar com elles ao vagom.[
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]
Ao chegar ali, verifiquei que o rio tinha descido setenta centìmetros.
Ainda n'esse dia até á noute o nivel da àgua baixou de quarenta centìmetros, o que perfazia desde a vèspera 1 metro e 40 centìmetros.
Eu punha as minhas marcas n'um ponto onde a escarpa vertical me permittia medir as differenças de nivel, mas o meu Stanley não entendia assim, e espetava paos n'um sitio em que a barreira descia com inclinação suave, o que dava em resultado elle contar jardas quando eu contava centìmetros. A cada momento elle vinha muito contente dizer-me que o rio tinha baixado dois pés.
O dia 23 amanheceu bonançoso e lìmpido, promettendo muito, porque o rio baixou dous metros e meio durante a noute. Senti logo de manhã uma grande gritaria, e indagando o caso, sube que haviam desapparecido as botas do meu Inglez, que se achava descalço. Depois de varias conjecturas sôbre aquelle importante facto, elle chegou á conclusão, de que os chacáes lhe tinham furtado as botas e os haviam comido. Eu nunca pude explicar o caso, mas elle explicava-o assim.
O facto era que o pobre homem tinha de continuar descalço e, eu nada lhe podia fazer, porque àlém de as minhas botas serem pequenas para o seu enorme pé, só tinha umas tambem.
Passei o dia caçando, e á noute pude fazer observações astronòmicas, e determinar a posição da confluencia do Ntuani com o Limpôpo.
Durante êsse dia o nivel da àgua baixou de 1 metro e 60, mas durante a noute conservou-se estacionario, e tendo chovido na madrugada de 24, recéei nova enchente. Muitas vêzes ouvi a M^{r.} Coillard narrativas de casos idènticos ao meu, em que um vagom tinha de estacionar junto a um miseravel ribeiro (tornado sobêrbo com as chuvas), por um mez e mais.
Essa idéa aterrava-me, e resolvi estudar o rio, a ver se seria possivel a passagem do vagom. Achei effectivamente um ponto onde a àgua me dava pêlo pescôço em tôda a largura, e determinei passar ali.
Stanley, ja habituado com o meu modo de decidir questões, começava a não achar nada extraordinario.
Assou-se muita carne, e almoçámos. Quando estàvamos a terminar o almôço, ouvímos grande alarido na margem opposta, e vimos que chegavam um comboio de vagons e dois homens brancos.
Puz-me a observar o que elles faziam, e vi que depois de mandarem um muleque metter-se no rio, muleque que voltou á margem logo que a àgua lhe cobrio a cintura, contentáram-se de espetar pauzinhos para marcar o nivel d'àgua, dejungíram os bôis, e acampáram.
Olhei para as minhas marcas e vi-as cobertas com um centìmetro de àgua. O Ntuani crescia de nôvo.
Descarreguei immediatamente o meu vagom, e mandei Augusto e Camutombo passar as cargas, á cabêça, no sitio onde eu reconhecêra o vao.
Os meus dois prêtos pêla sua fôrça hercùlea, e pêla destreza adquirida no hàbito de superar difficuldades, faziam a admiração dos dois brancos e dos nêgros que os acompanhavam.
Uma hora depois, estavam tôdas as cargas na margem direita, e eu dava ordem a Stanley, espantado d'aquillo tudo, para jungir o gado.
Logo que tudo estêve prompto, fiz que Augusto se metêsse a través do rio, levando a soga dos bôis da frente, que nadáram sem difficuldade, seguidos dos outros, sendo que três juntas tomáram pé na outra margem antes de que o vagom entrasse na àgua.
Era o que eu queria. Então gritei a Augusto e Camutombo para tanger, e n'um momento o vagom precipitou-se nas àguas do rio. Stanley, agarrado ao carro, têve um momento de enthusiasmo, e ajudou a manobra.
Eu, logo que vi o vagom salvo na outra margem, atirei-me vestido ao rio, e nadei para la.
Chegado que fui, disse ao Catraio que me desse roupa enxuta, isto é, as ùnicas camisa e meias que eu tinha fora do côrpo, e fiz a mudança. Os dois Europeos, que ao ver-me chegar a terra caminháram para mim, suspendêram-se a dez passos, vendo que comecei logo a despir-me. Depois de mudar de roupa, penteei os meus longos cabellos e barba, que estavam encharcados.
Logo que terminei o meu
toilet
, os dois sujeitos acercáram-se e disséram-me os dois mais sonoros "
Good morning, sir
," que tenho ouvido.
Correspondi ao comprimento, e perguntei-lhes d'onde vinham. Disseram-me sêrem dois negociantes Inglezes, M^{r.} Watley e M^{r.} Davis, e irem para
Shoshong
, tendo deixado Marico havia um mez.
Eu disse-lhes tambem quem era, e d'onde vinha. Ao saberem que eu chegava de Benguella, os dois sertanejos não podéram conter a sua admiração, e disséram-me, que ja se não espantavam com o que me víram fazer ali n'aquella manhã.
Fôram êstes os primeiros comprimentos que recebi pêla minha viagem, e é-me grato o recordal-os, porque fôram aquelles que mais impressão me fizéram, pêla rudeza com que fôram formulados, e por virem de homens endurecidos nas lides Africanas.
Dei-lhes caça, e elles déram-me uns biscoutos, chá, assucar e sal.
Passámos o dia no mais agradavel convìvio, e a 25 de manhã, depois de se têrem encarregado de uma carta para M^{r.} Coillard, deixei-os, seguindo no meu caminho.
O rio tinha de nôvo tomado àgua, e por isso deviam ter ali ainda muita demora; motivo porque M^{r.} Davis decidio seguir só com alguns prêtos para
Shoshong
, deixando com os vagons a M^{r.} Watley. M^{r.} Davis, no momento em que eu ia a partir, fez o que eu tinha feito na vèspera e atravessou o Ntuani a nado.
Parei junto ao Limpôpo; ao meio-dia, depois de marcha de três horas.
Figura 132.--Uma Vista do Alto Limpôpo.

Muito fatigado, e precisando de pôr em ordem alguns trabalhos, não sahi a caçar. Estava sentado junto á margem do rio desenhando a paizagem, quando senti perto um tiro, e um
steinbok
passou correndo junto a mim, e precipitando-se no rio começou a nadar para a outra margem.
A àgua, que em volta d'elle se tingia de sangue, e o esforço que empregava ao nadar, mostravam-me que ia mal ferido. Augusto appareceu correndo e chegou ainda a tempo de ver o resultado do seu tiro. O antìlope ia quasi attingir a outra margem, quando a àgua se revolveu em tôrno d'elle, uma cauda verde-nêgra e dentada espadanou as ondas, e steinbok e crocodilo desapparecêram no pego. Estava destinado que eu não provasse da saborosa carne do pequeno herbìvoro.
Augusto, tão valente como bruto, queria por fôrça ir matar o crocodilo, "que roubou minha caça," dizia elle.
O bom do prêto estava furioso.
Ainda n'esse dia fiz uma jornada de uma hora, não indo mais àlém, por encontrar muita caça.
Ja caçava mais para obter pelles do que alimentação, porque ja abandonàvamos a carne, tanta era ella.
Figura 133.--Montes termìticos junto ao Limpôpo.

O meu Stanley, depois que se vio sem botas, não sahia de dentro do vagom, e passava o tempo a comer e a dormir.
A 26, fiz, logo de manhã, uma jornada de cinco horas, subindo sempre a margem esquêrda do Limpôpo.
Mal tìnhamos parado, Augusto veio dizer-me, que andava pastando perto um enorme
chucurro
(rhinoceronte).
Passei ràpidamente o freio ao cavallo, que ainda não tinha desaparelhado, montei e segui Augusto.
O enorme pachiderme ja sentira o rumor do campo, e puzera-se ao largo.
Avistei-o a quinhentos metros, e ainda que Fly fez o seu dever, tive em breve de renunciar á perseguição da fera, que se internou em mato tão emmaranhado que impossivel me era seguil-a.
É notavel que, tendo eu atravessado de Benguella até ali, visse o primeiro rhinoceronte junto ao Limpôpo, onde hôje sam raros, pêla grande caça que lhe fazem os Böers.
Outro animal que abunda no Calaari, de que por vêzes avistei bandos, e que nunca pude matar, fôram as girafas.
É tão ligeiro e sustentado o seu correr, tão penetrante a sua vista, tão fino o seu ouvido, que difficil é chegar ao alcance de tiro, quando uma grande demora no paiz não permitte ao caçador empregar a astucia.
Depois de ter desistido da perseguição do chucurro, voltei ao campo, quando encontrei Augusto que vinha no meu seguimento. Elle poz-se ao lado do cavallo e veio conversando comigo.
De repente, junto a uns arbustos, vi-o apontar a arma e fazer fôgo.
Acavallo, e por isso tendo a cabêça muito mais alta do que elle, eu não vi a que tinha atirado o meu prêto, quando deveria ser o primeiro a avistar a caça. Perguntei-lhe o que fôra aquillo, e elle respondeu-me, entrando no mato, e arrastando um leopardo que não estava a mais de seis metros de nós.
Voltei ao vagom, em quanto Augusto ficou a esfolar o bicho.
De tarde ainda fiz uma jornada de três horas, por terreno muito accidentado e coberto de floresta densa.
Ao passar um còmoro, avistei o
Zoutpansberg
, que marquei a leste.
O sìtio onde acampei para passar a noute é conhecido dos Böers, e tem o nome de
Adicul
. Não havia lua, mas o ceo estava lìmpido, e resolvi fazer observações, para determinar aquella posição.
Esta circunstancia foi causa de evitar uma grande desgraça.
Eu tinha obtido no Manguato uma lanterna para magnesio, que ali fôra deixada por Mohr, ou outro, e que não servia, por falta do combustivel.
A mim servia ella, porque eu tinha muito fio de magnesio.
Empregava-a eu para ler de noute os nonios dos instrumentos.
N'essa noute, tinha acabado de ler no nonio do meu sextante Casella, a altura da
Canopus
([Grego: a] do Argus) no momento da sua passagem meridiana, e fazia horarios pêla
Aldebaran
([Grego: a] do Touro), quando a dez passos de mim, rebentou um trovão medonho.
O meu Fly, preso a uma das rodas do vagom, deu tal puxão á corrente que fez mover o pesado carro, e os bôis entráram de golpe no recinto onde estàvamos, tremendo em convulções de mêdo.
Larguei o sextante e peguei na carabina, sempre pousada junto a mim.
Augusto virou o foco da luz para a brenha d'onde sahira o rugido feroz, e alumiou as cabêças sobêrbas de dois enormes leões.
As feras fascinadas pêla luz deslumbrante da combustão do magnesio, n'um momento de hesitação que tivéram, déram-me o tempo de apontar firme; os dois tiros succedêram-se com o intervallo de poucos segundos, e ambas cahíram fulminadas.
Voltei-me para o vagom, onde senti um barulho infernal, e vi que Camutombo fazia esforços inauditos para segurar o meu Fly, que se levantava, e assustado forcejava por partir a corrente. O meu Inglez estava mettido no vagom de espingarda na mão, e ameaçava matar todas as feras do continente Africano se ellas se atrevêssem a atacar os seus bôis.
Figura 134.--Os meus bôis fôram salvos.

Deixei aos prêtos o prazer de esfolarem os leões, e era bello ouvir o que cada um dizia de si mesmo n'aquella conjunctura. Não havia um só que se tivesse assustado, e para o fim creio mesmo que cada um ja contava aos outros que os leões haviam sido esganados por elle.
Creio que só dois homens ali não tivéram mêdo, e esses fôram Augusto e Verissimo.
Augusto, que me allumiou firme, e Verissimo, que me disse muito descançado: "Eu nem peguei na espingarda, porque o S^{nr.} ia atirar, e eu sabia que os leões estavam mortos."
Larguei a carabina para pegar de nôvo no sextante, e tomar as minhas alturas da
Aldebaran
; occupação de que tinha sido distrahido por tão importunos hòspedes.
Ia-me deitar, quando novos rugidos de leão se fizéram ouvir.
Sem termos um campo fechado, eu receei pêlo que pudesse succeder, e passei a noute velando com tôda a gente junto ás fogueiras. Os rugidos duráram tôda a noute, e a elles respondia com o ressonar sonoro o meu Stanley, que estendido dentro do vagom, sonhava talvez com aquelle filho pequenino de que se não podia separar, ou quiçá com as botas que não tinha.
Parti ás 6 da manhã, para parar ás 9, sempre junto á margem do rio.
Ao acampar, todos pensáram mais em dormir do que em comer, e Stanley, que não tinha velado a noute, offereceu-se obsequioso para vigiar pêlos seus bôis.
Ás 4 da tarde, depois de uma bôa refeição de carne assada (a carne n'esta parte da viagem occupa o logar do massango de alguns mêzes antes), partímos de nôvo, indo acampar, ás 8 e meia da noute, junto ao rio Marico.
O alvorecer do dia 28 veio mostrar-me que eu estava n'um sitio baixo e pantanoso, pouco arborizado e deserto.
Mal tinha acabado de fazer o meu
toilet
, quando Stanley se acercou de mim e começou a dizer-me, que as saudades do filho pequenino e a falta de botas, o impediam de continuar ao meu serviço.
"Que d'aquelle ponto sahia um caminho transversal, que o levaria em oito dias a sua casa, e que, por isso, elle, os seus bôis, e o seu vagom, deixariam de estar ás minhas ordens desde esse dia."
Declarei-lhe, que se enganava, que elle tinha feito um contrato comigo diante de M^{r.} Coillard, e que esse contrato era para me servir até Pretoria. O homem recusou-se terminantemente a passar d'ali.
Mostrei-lhe que a razão estava do meu lado, por tanto não cedia, uma vez que eu tinha a felicidade de juntar á minha justiça a fôrça.
Este ùltimo argumento foi efficaz, e o homem vio que eu não recuaria ante o empregar a força, e por isso acommodou-se, protestando a favor dos bôis e do vagom, sua propriedade.
O Augusto, que logo de madrugada tinha ido caçar, voltou pêlo meio-dia, e disse-me, que perto havia encontrado um acampamento de Böers.
Disse-lhe, que me guiasse para lá, montei a cavallo e segui o meu fiél prêto.
Um quarto de hora depois, entrava no campo dos Böers.
Muitos vagons collocados parallelamente, entre elles algumas cubatas de caniço e palha; montes de despojos de caça; um alpendre com um tôrno de tornear madeira; um cercado com bôis e muitos cavallos--eis o aspecto do acampamento de Böers nòmadas que encontrei.
Algumas mulheres, de vestido de chita e toucas brancas, acarretavam àgua de um pôço. A uma porta, duas, que não tinham nada de feias, descascavam enormes cebôlas. Uma porção de pequenos, sujos e esfarrapados, brincavam sôbre um chão enlodado.
A minha entrada fez sensação, e uma mulhér velha, e ainda mais feia do que velha, veio arengar-me. Não entendi uma só palavra das que me disse aquelle estafermo, e só percebi, ao abeirar-me d'ella, que era ainda mais porca do que feia e velha.
Para responder á fala da mulhèrzinha, que tinha empregado o Hollandez corrompido dos Böers, escolhi o Hambundo, e respondi em lìngua do Bihé.
Estàvamos pagos e entendidos. Ella não percebeu uma só das minhas palavras, como eu não entendi uma só das suas.
Eu, sempre perseguido pêla velha, fui-me approximando das raparigas das cebôlas, que eram ao menos novas e bonitas, e falei-lhes em Inglez, Francez, Portuguez e Hambundo, sem poder fazer-me comprehender.
Chamei o meu Augusto, que ja arranhava algumas palavras de Sesuto, aprendidas no Barôze e no convìvio das gentes de M^{r.} Coillard, e disse-lhe, que perguntasse áquellas meninas, se não haviam homens ali. Elle dirigio-se a ellas, mas foi logo interpellado pêla velha. Com custo, por meio d'aquelle intèrprete, sube, que os homens andavam á caça.
A velha, sabendo pêlo Augusto que eu não era Inglez, mudou de modos para comigo, e creio que começou a tratar-me melhor.
As raparigas mettiam as cebôlas em um panellão enorme, e punham-n-as ao fôgo nadando em àgua.
Pouco depois, chegavam uns sete homens a cavallo.
Havia um velho de longa barba branca, cinco entre trinta e quarenta annos, e um rapazola de dezoito ou dezanove. Apeáram-se e viéram cercar-me.
O velho falava bem Inglez, e um dos outros falava um pouco.
Pudémos entender-nos. Expliquei-lhe quem era e d'onde vinha, duas cousas que elles não entendêram muito bem, e disse-lhes, que era Portuguez, e não Inglez, porque ja tinha percebido que elles não gostavam dos Inglezes. Contei-lhes o caso do meu Stanley me querer deixar, e o velho disse-me logo, que mandasse descarregar o vagom e despedisse o homem, porque elles me dariam meios de continuar a viagem.
Não quiz ouvir aquillo duas vêzes, e mandei logo o Augusto buscar o vagom para ali.
No entanto, os Böers recebiam-me com franca hospitalidade, e até a velha ja se sorria para mim. ¡Que hediondo sorriso! Pouco depois comia cebôlas cosidas e carne assada. Aquelles Böers, em quanto a provisões, só tinham mais do que eu cebôlas.
Chegou o vagom que mandei descarregar, despedindo logo o seu dono, que se retirou satisfeito, como eu fiquei satisfeito por me ver livre d'elle.
Falei aos Böers, mostrando-lhes a necessidade que tinha de seguir o mais depressa possivel, e elles promettêram-me, que no dia immediato teria um vagom e bôis.
Á noute, elles contáram-me, que tinham feito parte d'essa immensa leva de emigrantes, que, logo depois da annexação do Transvaal, tinham fugido ao jugo estrangeiro, e caminhado ao norte, inconscientes do que faziam, e ignorantes dos perigos do Calaari. Seiscentas familias que se internáram no inhòspito deserto víram os seus gados mortos ou dispersos pêla sêde, e fôram vìctimas do passo precipitado e inconsciente que déram. A vanguarda, em nùmero de vinte-e-tres pessôas, podéram alcançar o Ngami, mas os seus gados iam esgotando os pequenos charcos, e aquelles que os seguiam encontravam a morte junto ás lagôas deseccadas. Ao nùmero dos poucos que ainda conseguíram voltar, pertenciam aquelles que me davam a hospitalidade franca dos Böers. Encontráram, ali junto ao Limpôpo, tanta caça, que decidíram ficar n'aquelle sitio, e viviam uma vida nòmada, acampando nos logares mais proprios ás suas explorações venatorias.
No dia seguinte, em quanto as raparigas me serviam um almôço de carne e cebôlas, regado com òptimo leite, os homens preparavam um vagom ao qual jungiam apenas quatro juntas de bôis.
O velho disse-me, que iria para tomar conta do vagom seu neto, um rapaz de 16 annos chamado Low, levando com-sigo um seu irmão, pequeno de 12 annos, de nome Christophe.
Os bôis dos Böers fôram-me passar o vagom para àlém do Marico, o que foi difficil, por o rio ir bastante cheio; e depois das melhores despedidas, fiz a primeira jornada em caminho de Pretoria.
Os Böers sabiam que havia Pretoria, mas nunca la tinham ido, e por isso o meu Low ignorava o caminho.
Eu incumbi-me de lh'o ensinar, e para isso deixei o ùnico caminho seguido, aquelle de Marico e Rustemberg; e dando um traço com uma règua na carta de Marenski, tirei um rumo em perfeita linha recta, e segui n'elle a través da planicie.
Desde que passámos o rio Ntuani andàvamos cobertos de carrapatos, e bastava passarmos um pouco entre a herva para ficarmos cheios dos repugnantes insectos.
Quatro pessôas na minha gente apparecêram com uma febre que se apresentou logo de mao caracter. As duas mulheres, Moero e Pépéca.
Tive de lhes preparar o vagom a modo de as poder deitar n'elle, porque era impossivel caminharem.
Tôdos nós estàvamos extenuados pêlas fadigas de uma tão longa jornada qual a de Benguella até ali; e sempre mal alimentados, sentiamos a fadiga a degenerar em doença, e exaustos de fôrças sentìamos a doença a terminar na morte.
A insalubridade das margens do Limpôpo, e sôbre tudo a do rio Marico, veio profundamente affectar as nossas saudes, ja vacillantes em corpos derrancados, e tôdos em geral nos sentímos doentes.
Ainda assim, eu, dotado de uma organização especial, era quem mais resistia á extraordinaria canceira que nos acabunhava. E felizmente para tôdos, que eu resistia mais do que elles!
A noute do ùltimo de Janeiro foi tormentosa de chuva e trovoada.
Eu não me entendia com as duas crianças Böers que me acompanhavam, e que só falavam o Hollandez; mas ainda assim, fazia-lhes dirigir o vagom á minha vontade.
No primeiro de Fevereiro, tôda a gente estava peior, e sôbre tudo o estado das duas mulheres e dos dois pequenos assustava-me. Eu mesmo ardia em febre.
Resolvi forçar as marchas o quanto possivel, para no mais curto espaço alcançar o paiz habitado e alguns recursos.
Apesar do meu estado, logo que puz o vagom a caminho, afastei-me d'elle e fui caçar, conseguindo matar um sebseb. Fui encontrar o vagom, e fiz com Augusto, Verissimo e Camutombo fôssem buscar o antìlope môrto.
Em seguida forcei a marcha até ás cinco e meia da tarde.
Parei até ás 9 da noute para descançar os bôis, fazer observações, e determinar o meu ponto, e sôbre tudo para tratar dos doentes.
Ainda n'essa noute jornadeei das 9 ás 10 horas.
O estado do Pépéca e de Mariana era muito grave. Estavam em delirio, e tinha-se-lhes declarado o typho.
Os causticos, que eu lhes tinha aberto com àgua a ferver (por não ter outra cousa), eram continuamente pulverizados de sulfato de quinino, e durante a noute dei-lhes três injecções hypodèrmicas com uma gramma de sulfato cada uma.
Moero e Marcolina, a mulhér de Augusto, não apresentavam symptomas de tanta gravidade como os outros dois, mas ainda assim estavam sujeitos ao mesmo tratamento.
Na manhã seguinte o estado dos doentes era o mesmo. Depois de lhes curar os causticos, resolvi partir, e não me appareciam os dois pequenos Böers. Fui em sua busca, e não longe, junto a um extenso paúl, a que elles chamavam a Cornocopia, me pareceu que elles estavam pastando, porque os vi apanharem herva e comel-a com sofreguidão. Aproximei-me para ver o que faziam, e conheci não me enganar. Os rapazes comiam herva. Ao abeiral-os, elles estendêram para mim as mãos cheias de uma gramìnea, espècie de caniço fino e de um verde muito claro. Por curiosidade peguei n'um de aquelles caniços, e provei. A minha admiração foi extraordinaria ao encontrar n'aquella gramìnea o mêsmo gôsto da cana de assucar.
Percebi então porque pastavam os rapazes. Era pura goloseima.
Fiz com que viessem ao vagom e puz-me a caminho.
N'aquella planicie appareciam muitas aranhas parecidas com a tarantula, cuja mordedura (me fizéram comprehender os rapazes) é mortal. Isto creio que deve carecer de demonstração, porque em Àfrica se diz o mesmo dos escorpiões, e eu affirmo não ser verdade.
Depois de cinco horas de bôa jornada, parei, e logo que tratei dos meus doentes, que continuavam mal, fui caçar, afim de arranjar de comer para elles e para mim.
Só voltei ao vagom ás 6 horas, trazendo atravessado no arção um sobêrbo antìlope. Parte do caminho notei que o meu cavallo, sempre fiél, vinha inquieto, e fazendo curvêtas que não eram de uso.
Ao chegar ao campo pude explicar a razão do caso. O antìlope (
Cervicapra bohor
) com o pescôço pendido, veio, com um dos agudos cornos, fazendo uma larga ferida ao meu pobre Fly.
Depois de medicar os enfermos e a mim, e de comer alguma cousa, ainda jornadeei n'essa noute por duas horas.
A 3 de Fevereiro, parti ás 4 da manhã, e parei ás 9.
Logo que acampei, avistei dois vagons de Böers que caminhavam para mim. Tive esperanças de obter d'elles alguns vìveres, porque só tinha para comer os restos do antìlope da vèspera.
Baldada foi a minha esperança. Eram duas familias de emigrantes que caminhavam, só escudados na caça, e com quem tive de repartir a pouca carne que ja tinha.
Disse-me um, que falava Inglez, que eu ia entrar em paiz sem caça, mas que, se força-se as marchas, poderia, seguindo o trilho dos vagons d'elles, alcançar n'essa noute a missão do Piland's Berg.
O paiz continúa, sendo uma planicie enorme, da qual se erguem aqui e àlém ex-abrupto algumas serras.
Assim era o Piland's Berg, que eu marcava ao sul.
Resolvi pois forçar as marchas, para alcançar a missão de que me faláram os Böers; mas, quando dei ordem á partida, apareceu-me Low consternado, dizendo muita cousa que eu não entendia, mas fazendo comprehender, que seu irmão Christophe faltava. A mim é que me não faltava mais nada, senão aturar o endiabrado rapaz.
Montei a cavallo, e larguei-me por matos e charnecas a procurar meninos perdidos. Chamei, dei tiros, corri em todas as direcções, descrevendo cìrculos em tôrno do vagom, mas nenhum resultado tirei d'isso; e depois de seis horas de buscas inuteis, voltei ao carro, extenuado de fadiga, e tendo de balde cançado o meu pobre cavallo.
N'esse dia ja se não jantou, por não haver que comer.
Low chorava e arrepelava os cabellos, dizendo muita cousa em Hollandez, e se ás vêzes imaginava que eu queria partir d'ali vinha deitar-se de joêlhos aos meus pes, pronunciando o nome do irmão.
Eu estava verdadeiramente perplexo, e ora me enfurecia contra os Böers, ora tinha por o estado de Low a maior compaixão.
Os meus doentes não melhoravam, mas medicamentos e dieta não lhes faltava.
Resolvi passar ali a noute, e confesso que não deixava de entrar em furor, ao lembrar-me do tempo precioso que perdia em circunstancias tão graves como aquellas em que estàvamos.
Ás 9 da noute, senti grande alarido, e percebi que o Christophe tinha chegado.
Não me entendendo com elles, só dias depois, por um intèrprete, pude ter a explicação do facto.
Christophe, logo que o vagom parou n'aquella manhã, foi para o mato apanhar pàssaros com visco. Entretêve-se por la até que eu o fui procurar.
Vendo-me gritar por elle e dar tiros, têve mêdo de que eu lhe batêsse ou o matasse; escondeu-se no matagal o melhor que pôde, e la se deixou ficar tôdo o dia.
Veio a noute, e o mêdo dos bichos foi superior ao mêdo de mim, e o pequeno voltou ao vagom.
Não me faltava, na minha viagem, senão aturar uma criança.
Ás quatro horas da manhã; segui viagem, e parei ás 8, porque o nosso estado não nos permittia grandes esforços.
A leste de mim, corria N.N.O. um systema de montanhas que marginam o Limpôpo.
Descancei até ás 11 horas, seguindo a essa hora, alcancei
Soul's Port
, a missão do
Piland's Berg
, ás 4 da tarde.
Estabeleci-me em umas ruinas, a duzentos metros da casa do missionario, a quem mandei um bilhête de visita.
Pouco tempo depois, entrava nas ruinas uma dama acompanhada de um criado, que trazia uma grande bandeja de pêcegos e figos. Era Madame Gonin, a espôsa do missionario. Seu marido estava ausente, e so chegaria no dia immediato.
Ao passo que escutava Madame Gonin, comia pêcegos e figos com fome de trinta e duas horas! Dei-lhe escusa do que fazia, dizendo-lhe, que tinha fome.
A dama retirou-se, e algum tempo depois, enviàva-me uma òptima ceia.
Dois prêtos vinham carregados de comida para a minha gente.
Fui agradecer-lhe, e voltei ás minhas ruinas.
No dia seguinte, julguei livres de perigo os meus dois doentes mais graves, Mariana e Pépéca.
Logo de manhã, fui a uma fazenda de Böers, a ver se obtinha vìveres.
O paiz em tôrno de Piland's Berg é muito cultivado, e aqui e àlém alvejam no sopé da serra algumas casas de Böers.
Dirigi-me a uma d'ellas.
Fizéram-me entrar n'uma sala, que em tôdas as casas dos habitantes do Transvaal desempenha o duplo fim de casa de mêsa e sala de visitas.
Aquella tinha sufficiente pé direito, era espàçosa e alegre. As parêdes, pintadas a frêsco, representavam cupidos vendados, despedindo traiçoeiras frechas contra corações enormes engrinaldados de rosas, isto sôbre um fundo azul celeste, dado em àguada pouco nìtida.
O pintor não fôra nenhum Rubens ou Van Dyck, mas preciso declarar, que ainda assim, me sorprendeu o trabalho artìstico d'aquella sala; superior ao de umas certas salas de mêsa, de muitas casas de Lisboa, que figuram no primeiro plano um boneco pequenino, pescando á linha n'um rio, onde ao longe navegam dois namorados enormes tocando bandolim; ao passo que em uma àrvore encarnada e azul, muito distante, pousa uma arara vermêlha, maior ainda do que a àrvore, do que os namorados e do que o pescadôr.
Ao menos, nas pinturas mytològicas da sala Böer havia uma significação, e aquellas rosas engrinaldando os corações feridos, vinham lembrar, que as chagas d'amor, como as rosas, t[~e]m perfumes e t[~e]m abrolhos.
Eu, se algum dia, depois de longa vivenda em Lisboa, por êsse poder de imitação, que me faz admittir as theorias de Darwin, chegar ao requinte de mandar pintar a minha sala de jantar por artista indìgena, dar-lhe-hei as indicações da escola Transvaaliana.
A sala da casa Böer, àlém das pinturas das parêdes, pouco mais tinha de notavel. Uma grande mêsa, algumas cadeiras, uns vasos com plantas floridas nos vãos das janellas. Cortinas pendentes de guarnições de pao despolido, feitas de caça branca, com um recorte encarnado, e cujas extremidades inferiôres, muito longe do chão, davam ás janellas esse ar desastrado de uma menina de quatorze annos, que, trajando vestido nem curto nem comprido, nos deixa perplexos, sem saber se devemos cortejar uma dama, ou beijar uma criança.
A um canto, sôbre uma pequena mêsa, o livro dos Böers, uma Biblia enorme, com fêchos de prata, sôbre uma encadernação outrora vermêlha e hôje de côr indefinida, pêlo uso das mãos sebentas, de três gèrações de Böers.
Faziam-me as honras da casa duas damas Transvaalianas, vestidas, como tôdas as do paiz, de chita, e trazendo na cabêça toucas brancas. Uns poucos de pequenos, quasi tôdos do mesmo tamanho, agarrávam-se aos vestidos d'ellas e trepávam-lhes aos joêlhos. O modo porque eram recebidos, parecia mostrar-me que eram tôdos filhos de ambas as damas; o que me causava o maior espanto, e me fazia entrever uma cousa nova para mim.
Verissimo servia-me de intèrprete, empregando a lìngua Sezuto. Antes de lhe dizer o que queria, perguntei-lhes ¿de quem eram filhos aquelles meninos? Ambas, ao mesmo tempo, com esse orgulho de tôdas as mães (em quanto os filhos sam pequeninos, e não v[~e]m, pêlo seu tamanho, revelar segrêdos de idades que se devem occultar), respondêram: "Sam nossos."
O caso complicava-se com aquella resposta, e eu cada vez entendia menos.
Entrei em explicações e sube afinal, que os pequenos eram uns de uma, outros de outra; mas, como ellas seguiam o costume Böer, de viverem dois casaes na mesma vida domèstica, tôdos elles eram reputados filhos de cada uma.
O paradoxo physiològico tinha desapparecido, mas erguia-se a meus olhos outro psychològico não menos extraordinario.
No Transvaal dois casaes podem viver sôb o mêsmo tecto, e comerem da mesma panella; e dois amigos combinam casar no mesmo dia e irem viver juntos com suas mulheres; e depois com filhos e netos, para sempre. E vivem, e sam felizes, e não ha ali intrigas e desgôstos entre elles! Ainda, entre elles, comprehende-se; mas entre ellas! É admiravel.
A vida patriarchal dos Böers revela-se n'este traço.
Depois de me explicarem estas cousas, eu disse ao que ia. Precisava de provisões. As bôas raparigas offerecêram-me logo dois enormes pães, e disséram-me, que não podiam vender-me gallinhas ou patos sem estarem presentes os seus maridos, que tinham ido para a labutação dos campos; mas pedíram-me para esperar um pouco, porque elles não tardariam a voltar para o almôço.
Uma desappareceu, e provavelmente foi para a cozinha, em quanto a outra trouxe para a sala uma màchina de costura, e poz-se a trabalhar.
Eu fui dar uma volta no quintal, onde me ficáram os olhos na hortaliça, que ali crescia cuidadosamente tratada.
¡Que fome eu tinha de alimento vegetal!
Algum tempo depois, chegáram os Böers, que me encontráram em flagrante delicto de colher feijões que comia crus.
Voltei com elles a casa.
Logo que entrámos na sala dos Cupidos, reunio-se a familia tôda, e tôdos se sentáram nas cadeiras junto ás parêdes.
Veio, em seguida, uma prêta com uma pequena banheira, e o mais velho dos homens desçalçou as botas, e lavou os pes; seguio-se o outro, as damas e os pequenos, e a prêta correu á roda da casa com a banheira.
Em seguida, fomos para a mêsa.
Veio então a Bìblia, e o mais velho leu, com profundo recolhimento, alguns versìculos do Livro dos Nùmeros, o quarto Livro de Moisés. Começou o almôço; eu, com o estòmago cheio de couves cruas e feijões colhidos do pe, não podia comer nada, o que contrariava os meus hospedeiros; mas tomei uma chàvena de pèssimo café com òptimo leite. Depois de almôço, os bons dos fazendeiros offerecêram-me seis gallinhas e dois patos, e nada quizéram receber por isso.
Levei de hortaliças quanto pude carregar no meu cavallo.
Logo que cheguei a
Soul's Port
, sube do regresso do missionario, por um convite para jantar, escrito por elle, que encontrei nas mãos de Augusto.
Fui ver logo os meus doentes, que achei melhores, sôbre tudo o pequeno Moero, que ja se tinha levantado.
D'ali segui para a casa do missionario, onde fui cordialmente recebido.
M^{r.} Gonin, Francez e amigo de M^{r.} Coillard, exultou com as bôas noticias que lhe dei dos amigos que tinha deixado em
Shoshong
.
Tive um jantar magnìfico, e tanto mais agradavel, que a elle assistiam três damas, Madame Gonin e duas jovens e formosas Inglezas do Cabo, hòspedas da casa.
Depois de jantar voltei ás ruinas onde tinha acampado, para fazer observações, e determinar a minha partida para o dia seguinte. Ao chegar ao vagom, uma má nova me esperava.
Low veio dizer-me, que haviam desapparecido dois bôis, e não tinha sido possivel encontral-os. Os seis bôis que restavam não poderiam arrastar o vagom d'ali a Pretoria.
Decidi ficar ali a procurar os bôis, e dei-as precisas ordens, para que tôda a gente semi-vàlida logo de madrugada se posesse em campo.
Fôram baldados tôdos os esforços, e os bôis não apparecêram.
Communiquei ao missionario Gonin o meu grande embaraço, e fui logo tranquillizado por elle, que poz á minha disposição uma das suas juntas de bôis.
Àlém d'isso, ordenou a um dos seus criados, um Btjuana chamado Farelan, para me acompanhar até Pretoria; servindo-me ao mesmo tempo de guia e de intèrprete, ja para com o gentio, ja para com os Böers, porque falava bem o Hollandez.
Dispostas assim as cousas, determinei seguir no dia 7, e depois de agradecer a M^{r.} e Madame Gonin tantos favôres, parti ás 6 horas da manhã, indo parar, ás 10, junto a uma casa de Böers, que me recebêram muito bem, dando-me abundantes provisões.
Ainda n'esse dia fiz duas grandes jornadas. Dos meus doentes, a Mariana e o Pépéca, apresentavam sensiveis melhoras, ainda que promettiam uma demorada convalescença; Moero estava em via de restabelecimento, mas Marcolina, a mulhér de Augusto, dava-me cuidados, porque se achava em um estado adynàmico, com febre constante, que não cedia ao tratamento.
No dia 8, o estado de Marcolina era muito grave.
Parti ás 4 da manhã, e ás 5 encontrava o rio Quetei, pròximo da sua confluencia com o Machucubiani.
A difficuldade da passagem foi grande, por serem muito apicadas as margens e levarem os rios muita àgua.
Depois de três horas de trabalho violento, conseguímos transpol-o, e acampámos na margem opposta.
Marcava meia milha a O.N.O. o Pico Bote, onde foi pelejada a ùltima batalha entre Böers e Matebelles, sendo estes completamente batidos e forçados a recuar para àlém do Limpôpo.
Depois de um descanço de três horas, segui avante e jornadei por oito horas, em duas marchas.
O sitio onde acampei, junto a um riacho que corre ao Limpôpo, era coberto de rochas, massas enormes de granito, o primeiro que encontrava depois do Bihé.
A disposição geològica do terreno mostrava-se-me, tal qual, a parte do planalto da Costa de Oeste entre Quillengues e Bihé.
A flora é que ali é muito differente. No planalto, costa de oeste, apparece uma vegetação arbòrea opulenta; ao passo que, n'esta parte do Transvaal, apenas se vê um ou outro arbusto rachìtico; mas a vegetação herbàcea é rica, e sôbre tudo as gramìneas t[~e]m desenvolvimento grande.
No dia 9 de Fevereiro, o estado de Marcolina era tão grave, que decidi não continuar viagem até ver se ella obtinha melhoras. Baldados fôram os esforços empregados para a salvar, e ao meio-dia expirou.
¡Pobre mulhér! ¡Depois de tão aturadas fadigas, depois de tão àrduos trabalhos, veio perder a vida quando estava pròxima a encontrar o descanço e o confôrto!
Marcolina era a legìtima mulhér de Augusto. Viera com elle de Benguella até ali, e mesmo no tempo das aventuras galantes do marido, nunca o abandonou, apesar dos maos tratos que d'elle recebia.
Augusto chorava como uma criança junto ao cadaver da sua companheira fiél.
Na madrugada seguinte, Camutombo e o Betjuana Farelan, abriam uma profunda cova, onde se enterrava a mesquinha.
Eu, de cabêça descoberta e commovido, vi cahir a terra sôbre o cadaver frio.
Ali, na margem do ribeiro, junto a Betania, deixava eu a ùltima vìctima da expedição Portugueza através d'Àfrica. D'ali levava uma saudade pungente. ¡Ainda bem que aquelle devia ser o ùltimo tùmulo!
Figura 135.--O ùltimo enterro.

Voltando ao vagom, perguntava a mim mesmo, se a sciencia tem direito a taes sacrificios; se o homem, no orgulho de juntar mais um àtomo de saber ao pouco que sabe, pode dispor para isso da vida do seu
semelhante, e immolal-o cruamente a um ìdolo tão vão como os outros?
No meu espìrito não podia formular uma resposta á pergunta que fazia, e hôje digo que isto é uma questão a debater entre o homem e a sua consciencia.
Logo que cheguei ao vagom, dei ordem de partida, e segui adiante, para ir visitar a missão de Betania.
Betania é uma aldeia de quatro mil habitantes de raça Betjuana, formada de casas bem construidas, e muitas de janellas envidraçadas.
O missionario que ali encontrei, Hollandez ou Allemão, chamava-se M^{r.} Behrens.
Appareceu-me fumando em um enorme cachimbo de louça, e uma das primeiras cousas que me perguntou foi, ¿se eu lhe tinha trazido umas pas que me emprestara para abrir a cova de Marcolina?
Um quarto de hora depois, eu deixava a casa do missionario, e seguia caminho, indo parar, ás 11 horas, junto de uma aldea de Böers.
Viéram elles logo buscar-me para suas casas, e tive de entrar em casa de tôdos. Em tôdas fui obrigado a tomar alguma cousa, e em tôdas recebi presentes de batatas, frutas, hortaliças e gallinhas. A custo me pude desembaraçar d'aquella bôa gente, e pude partir ás 3 da tarde.
Encontrei outra vez a margem esquêrda do Limpôpo, que subi por três horas, para chegar a um vao conhecido do meu guia Farelan.
Junto ao vao estava grande porção de vagons Böers. O rio trasbordava, e não dava passagem, diziam elles.
Como Farelan conhecia o vao, disse-lhe, que se metêsse á àgua e fôsse até onde podesse. O Betjuana passou o rio com àgua pêlo pescôço. Mandei logo tanger os bôis, e fiz entrar o cavallo na àgua, passando o rio em um momento. Eu e os meus já sabìamos lidar com um vagom e com os rios da Àfrica.
Os Böers ficáram pasmados, mas pasmados ficáram na outra margem, debaixo de uma chuva torrencial que cahia.
Acampei ali. No dia immediato, os alvôres da manhã viéram mostrar-nos o rio que tinha sahido do seu leito, e que deveria levar mais três a quatro metros de àgua.
Os Böers que receiáram na vèspera arriscar os vagons, tinham que esperar muitos dias para o passarem.
Eu segui viagem, e ás onze horas e meia, passava a enorme serra que divide o Transvaal no sentido este-oeste, o Magalies-Berg.
Foi difficìlima a passagem da alta serra, e sôbre tudo a descida na vertente do sul perigosa. O vagom, sem travão, precipitàva-se sôbre os bôis e ameaçava despedaçar-se. Tive de pôr os doentes a pe, com receio de um accidente.
Low cahio, e uma roda do vagom esmigalhou-lhe as phalanges da mão esquêrda.
Fiz-lhe um primeiro curativo, e tratei de forçar as marchas, para alcançar Pretoria, onde elle podia ser cuidadosamente tratado. O Betjuana Farelan previne-me de que façamos provisão de lenha em uma mata no sopé da serra; porque d'ali a Pretoria só encontrarìamos planicies desarborizadas. Assim fizémos, continuando a jornadear dia e noite, apenas com o descanço necessario para os bôis.
Finalmente, no dia 12 de Fevereiro, ás 8 da manhã, acampava uma milha a N.N.O. de Pretoria, e deixando ali o vagom e os meus, entrava sòzinho na capital do Transvaal.
Figura 136.--Magalies-berg.
