CAPÌTULO VII.
Reading edition
NO TRANSVAAL (continuação).
M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu gastrònomo!--Sir
Bartle Frere e o Consul Portuguez M^{r.} Carvalho--O Secretario
Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e saraus--O missionario Rev.
Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do 80 de
infanteria--Major Tyler e Capitão Saunders--Insubordinação--M^{r.}
Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia
de pretas--Episodio burlêsco da guerra tràgica dos Zulos.
Era em Pretoria, ja cidade Ingleza e capital da provincia Transvaaliana, que eu entrava na manhã de 12 de Fevereiro de 1879.
Encontrei logo o thesoureiro do Govêrno, M^{r.} Swart, que me fez os mais cordiaes offerecimentos, mas que me disse, não me convidar para seu hòspede, porque não tinha na pequena casa que habitava um quarto a offerecer-me.
Fomos aos hoteis. Nem um quarto, nem uma cama!
Voluntarios, que de tôdas as partes corriam a alistar-se nos corpos que se organizavam ali, attrahidos por uma paga de cinco xelins por dia, enchiam tudo, e criavam-me um embaraço enorme. Eu, que até ali tinha tido cama, desde Benguella, comecei, na primeira cidade civilizada que encontrava, a não ter onde me deitar!
Emfim, depois de muitas buscas e de me terem provado que as conveniencias sociaes (eu ja me tinha esquècido das conveniencias sociaes) me não permittiam dormir na praça pùblica, onde eu ficaria optimamente nas minhas pelles de leopardo, pude obter um canto, no Café Europêo, onde me metti, com a promessa de um quarto em poucos dias. Estava arrumado, mas começáram novas difficuldades para acommodar a minha gente.
Mandei chamar o Böer Low, que precisava de tratar a mão esmagada pêlo vagom, mas preveni Verissimo, que se deixasse ficar acampado fora da cidade até nova ordem.
O portador voltou com Low e Verissimo, que me veio dizer, que a minha gente tinha fome, e era preciso dinheiro para lhe dar de comer.
Fiquei espantado ao ouvir aquillo. Eu ja me havia esquècido de que o dinheiro era absolutamente necessario em paiz civilizado, e não tinha nenhum.
Contudo comprehendi que era preciso havel-o, e fui pedil-o ao meu hospedeiro M^{r.} Turner, que logo m'o prontificou. Mandei Low a um mèdico, e eu dirigi-me a casa de M^{r.} Swart, que me convidara a jantar.
M^{r.} Swart tinha feito convites e programma. Eu que sube isso, fiz tambem grande
toilet
. Os meus calções, que da fazenda primitiva ja pouco tinham, e onde os remendos deitados por mim (que nunca tive grande geito para alfaiate) se sobrepunham, fôram cuidadosamente escovados do pó e da lama de vinte differentes paizes. Achei um par de meias, que tinham sido repassadas com grande pericia por Madame Coillard, e que faziam vista. As minhas botas ferradas, essa obra prima de Tissier de Paris, fôram pêla primeira vez engraixadas, e não tinham má apparencia. O casaco dàva-me mais cuidados, porque tinha uns bolços de couro, que haviam sido outrora prêtos, mas que então haviam tomado uma côr exquisita. Lembrei-me do tinteiro de M^{r.} Turner, e com uma penna de gallinha procedi á pintura d'elles, que tomáram um prêto baço, talvez ainda peior do que a côr que tinham.
Depois de bem penteada a longa barba e os mais longos cabellos, fui para casa do Thesoureiro do Transvaal.
Ao passar os umbraes da porta do salão, fiquei deslumbrado.
As damas em toilet, os homens de casaca, os leques, as vistosas e brilhantes côres das sêdas, os tapêtes, os espêlhos, tudo aquillo que eu ja tinha esquècido em tantos mêzes de vida rude e selvagem, produzíram-me uma impressão que não pode ser avaliada.
Figura 138.--Eu em Pretoria. (De uma photographia de Mr. Gross.)

Deve sentir cousa semelhante o cego, a quem o bisturi ligeiro do mèdico levantou a cataracta que o tinha sepultado nas trevas, e que depois de muitos mêzes de escuridão vê a luz.
Eu estava perturbado, e sôbre tudo as mãos incommodàvam-me muito.
Não sabia que fazer d'ellas, e buscava de balde em que as occupar.
Faltàva-me o pêso da carabina, que eu procurava instinctivamente, em vão.
Fomos para a mêsa. Eu conduzi pêlo braço a dona da casa, e ao chegar os meus andrajos ás sêdas que a cobriam, comecei a perceber que estava muito mal vestido.
Á mêsa experimentei novas sorprêsas. Os cristaes, as porcelanas, os vinhos rutilando nas jarras lapidadas, confundiam-me, e sôbre tudo o
menu
exquisito, escrito em elegantes cartões, intrigàva-me.
Commetti de certo desatinos, mas não posso bem avaliar tôda a extensão dos meus disparates, tão inconsciente estava.
Terminado o jantar, voltámos á sala, onde continuava a minha confusão, até que uma dama se sentou ao piano.
Os seus dêdos corrêram ligeiros sôbre as teclas, fazendo vibrar n'as cordas em harmoniôso concêrto, um dos Nocturnos de Chopin.
A impressão que me causou aquella mùsica, aquelle piano, cujos sons me penetravam na alma como uma sensação nova, acabáram de perturbar o meu espìrito, fraco para poder resistir a tantos abalos. Foi quasi em dilirio que voltei ao Café Europêo, onde n'um canto de uma sala me haviam improvisado um leito, leito que tinha colchões, travesseiros e lençoes.
Ia para me deitar como de costume, quando percebi que me deveria despir para isso.
Passei uma noute de insomnia, produzida pêlas impressões do dia e pêlos lençoes da cama.
Ao amanhecer eu estava a pé e vestido, porque na sala, em que podia ter dormido, começou um labutar de criadagem. Comecei a pensar no modo de accommodar a minha gente, o que não me parecia facil, e vi que sôbre tudo precisava de obter dinheiro.
Estava fazendo os meus planos, quando me chamáram para o almôço.
Fui para a mêsa. Um criado Indio, um d'esses
culis
que ja chegáram até Pretoria, collocou diante de mim um prato de espigas de milho, cuidadosamente assadas, e um pires de manteiga. Ao encarar com o milho assado, lancei ao pobre criado um olhar tão feroz, que elle recuou espavorido.
¡Milho a mim! ¡a mim que so matava a fome com milho havia um anno! ¡Ah! que vontade que tive de empalar aquelle Indio, o cozinheiro e o dono da casa!
Fiz um gesto tão expressivo e enèrgico, que as espigas desapparecêram da mêsa, levadas pêlo veloz criado.
Pouco depois, chegava-se solìcito a mim M^{r.} Turner, a perguntar-me o que eu queria para almoçar.
¿O que eu queria para almoçar? Mas eu queria tudo, queria perdizes com trufas, queria
foie gras
, queria gelados, queria vinhos das melhores colheitas de Burgonha, queria, queria... nem eu sei o que queria.
O dono do Café Europêo julgou que lhe havia cahido em casa um d'esses gastrònomos famosos, que pensam sempre em elevar uma estàtua ao cèlebre Brillat-Savarin, e que se ainda a não erigíram foi por não acharem materia prima apropriada ao monumento, que fôsse, á semelhança da columna Vendome construida com os bronzes dos canhões conquistados, uma recordação permanente do homem que ensinou á humanidade que no mundo não se come so para viver. Effectivamente, pêla primeira vez na minha vida, eu era gastrònomo.
Pêla primeira vez na minha vida, comecei a pensar que o paladar era um sentido como os outros, e que se Mozart, Rossini, Meyerbeer, Verdi e Gounod, o chilrear das aves e sussurrar do arroio, fôram creados para nos deliciar o ouvido; se Raphael, Rubens, Van-Dyck, Velasquez e Murillo, as paisagens e as bellezas, nascêram para nos recrear a vista; se Atkinson, Rimmel, Lubin, Piesse, e as flôres existem para nos deleitar o olfato; tambem Brillat-Savarin, Vatel, as trufas e os cogumelos não viéram ao mundo sem uma missão especial.
Comecei a comprehender isto, tendo chegado a Pretoria depois de um anno de milho, massango, e carne assada sem sal. Creio que tôdos os paizes do orbe comprehenderám que eu devêsse ser gastrònomo ao chegar a Pretoria, excepto a Inglaterra, porque essa, infelizmente para ella, nunca comprehendeu nem comprehenderá Brillat-Savarin.
Felizmente para mim, eu estava n'uma terra Ingleza, mas Ingleza de frêsco, onde o
roast beef
e o
plum pudding
não haviam tomado um ascendente notavel sôbre a cozinha dos paizes meridionaes.
M^{r.} Turner não me deu um almôço como m'o daria o Matta, o Central, o Silva ou o Augusto em Lisboa, o Ledoyen ou o Café Riche em Paris; mas deu-me cousa muito soffrivel. Não quero dizer bôa, porque começava a ser muito difficil em gastronomia.
Depois do almôço, em uma larga conversa que tive com M^{r.} Turner, fiquei desenganado de que não tinha onde accommodar a minha gente na cidade.
Isto preoccupàva-me, porque não podia reter por muito tempo o vagom que elles habitavam.
Eu estava sendo uma especie de urso que tôdos queriam ver, e a curiosidade dos importunos começava a desgostar-me. Sôbre tudo uma cousa que aborrecia era ver os espantos que se faziam da minha pequena estatura e da minha apparencia debil.
Este facto repetio-se na Europa, e em Lisboa, Paris e Londres, ouvi por vêzes expressar aos que me viam a desillusão que experimentavam, por me julgarem um brutamontes, um Golias de talhe hippopotàmico.
Mas se, nas circunstancias em que eu estava em Pretoria, muitos eram importunos e me torturavam, muitos outros procuravam por tôdos os modos servir-me e obsequiar-me.
No nùmero dos ùltimos, contei n'esse dia quatro, que fôram o Major Tyler,[
14
] Capitão Saunders do 80, M^{r.} Fred. Jeppe e D^{or.} Risseck; e recebi dois convites, um para jantar, de M^{r.} Osborn, Secretario Colonial e Governador interino do Transvaal, e outro do D^{or.} Risseck para a um sarau; mas nada d'isto me adiantava sôbre a maneira de arrumar os meus prêtos.
Pegando na minha carteira para procurar um resto de bilhêtes de visita, encontrei n'ella uma carta de M^{r.} Coillard dirigida ao missionario Hollandez M^{r.} Gruneberger. Aproveitei o ensejo que me offerecia aquella carta para fugir aos massadores, e fui entregal-a.
Mandei aparelhar Fly e parti.
A casa de M^{r.} Gruneberger é em Pretoria, mas um pouco afastada do centro da cidade. Chegado que fui, encontrei o missionario, homem muito nôvo, que me recebeu muito bem. Apresentei-lhe a carta de M^{r.} Coillard, e logo que elle a leu, offereceu-me o seu prèstimo.
Falei-lhe no embaraço em que estava para accommodar a minha gente, e elle prontificou-se a resolvel-o, offerecendo-me o quintal da sua casa, e a sala da escola, para elles dormirem á noute.
Aceitei pressuroso, e voltei ao Café Europêo, para mandar ordem ao Verissimo de ir com o vagom a casa do missionario.
Aceitando o offerecimento do Rev. M^{r.} Gruneberger, fiz-lhe instantes recommendações sôbre o modo de tratar os meus prêtos, pedindo-lhe sôbre tudo, que os não trata-se de igual para igual; porque lhe fiz ver que elles eram um pouco selvagens, e isso poderia trazer consequencias graves. Elle rio-se muito das minhas recommendações, e disse-me modestamente, que o seu mistér era tratar com tal gente, e por isso sabia do seu officio.
N'essa noute ja os prêtos dormíram na sala da escola, e o vagom descarregado ficou livre para voltar ao Marico logo que a ferida de Low lhe permittisse pôr-se a caminho.
Fui ao jantar do Secretario Colonial e ao sarau do D^{or.} Risseck, e se da casa de M^{r.} Osborn sahi penhoradissimo das suas attenções, e muito contente, por ter resolvido um dos maiores embaraços da occasião, a questão financeira, porque o governador interino do Transvaal, em nome do govêrno Inglez, poz á minha disposição o dinheiro de que eu carecêsse, em casa do distincto mèdico Hollandez não me esperavam momentos menos apreciaveis, porque passei ali uma das melhores noutes que tenho passado em sociedade.
É verdade que o D^{or.}, recebendo em sua casa, apresenta aos convivas uma maravilha, que os thesouros dos nababos e o poder dos autòcratas não podem apresentar. É Mademoiselle Risseck, é sua filha, deliciosa criança, que acabava de deixar os trajes da infancia, e na qual o espìrito e educação esmerada disputam primazias a uma belleza sem igual.
O D^{or.} Hollandez redobrou de instancias comigo para que fôsse ser seu hòspede, e eu de certo teria aceitado hospitalidade tão franca e cordialmente offerecida, se não tivera uma promessa de M^{r.} Turner, de ter um quarto para mim no dia immediato.
N'esse dia, 14 de Fevereiro, e terceiro de estada em Pretoria, acabavam de se resolver as minhas difficuldades.
O telègrapho tinha levado longe a noticia da minha chegada áquella cidade, e o telegrapho tinha trazido ordens, de Sir Bartle Frere, de Sir Theophilus Shepstone e do Consul Portuguez no Cabo, M^{r.} Carvalho, a meu respeito. Tinha a maior assistencia do govêrno Inglez; e o Portuguez, representado pêlo Consul do Cabo, ia àlém do estrangeiro.
A minha gente disse-me estar optimamente em casa do Rev. Gruneberger, e M^{r.} Turner dàva-me um quarto.
Verdadeiramente não era um quarto, era uma casa tôda e independente, pròximo do Café Europêo.
Comecei a respirar e a achar-me á vontade, mas tinha ainda um ponto nêgro, um pesadêlo que me perseguia sempre, e era não saber o que fazer das mãos.
Andava sempre a procurar a carabina, e tal era a fôrça do hàbito, que mais de uma vez cheguei a sahir á rua com ella, com grande espanto dos transeuntes.
N'esse dia remunerei Low e o endiabrado Christophe, que resolvêram partir no dia immediato, apesar de a mão de Low não apresentar sensiveis melhoras.
Mandei por Low uns pequenos presentes a sua avó, a velha megera do acampamento Böer, e a suas irmãs, as duas bonitas raparigas que cosinhavam cebôlas.
Retribui e despedi tambem o Betjuana Farelan, que tão bons serviços me prestou de Soul's Port a Pretoria, e por elle escrevi a M^{r.} Gonin, o bom missionario Francez do Piland's Berg.
Fui em seguida ao
Cape Colonial Bank
, onde depositei a somma do meu dèbito a M^{r.} Taylor de Shoshong, que, continuando as suas delicadezas para comigo, ainda a esse tempo não tinha feito apresentar a lêtra para o aceite.
Em seguida a estes passos, fui para minha casa, d'onde escrevi ao Governador de Moçambique, participando-lhe a minha chegada a Pretoria, e pedindo-lhe para mandar expedir de Aden um telegramma que lhe enviei, dirigido ao Govêrno de Portugal.
Continuavam os favôres que não cessavam de dispensar-me as principaes pessoas de Pretoria, e eu quasi não tinha occasião para comer no Café Europêo, tantos convites recebia.
A 15 de Fevereiro, tive uma larga conversação com M^{r.} Fred. Jeppe, o sabio geògrapho Transvaaliano, e pêlas informações que elle me deu, combinadas com o que me havia dito o Governador interino e M^{r.} Swart, vi que a guerra dos Zulos era um embaraço á continuação da minha viagem. Èra-me quasi impossivel ir a Lourenço Marques, como eu queria, e mesmo o caminho da costa Ingleza estava difficil, porque depois da derrota de Isandhlwana, os Zulos estavam apenas contidos por o bravo Coronel E. Wood,[
15
] entrincheirado em Utrecht, e tôdas as communicações se faziam pêlo Estado Livre do Orange, por Harrismith, triplicando o caminho e as difficuldades.
Logo que estudei a questão, decidi mandar a minha gente para Natal pêlo caminho de Harrismith com as bagagens, incorporada na primeira caravana que largasse Pretoria, e eu sòzinho e escoteiro ir em linha recta pêlo theatro da guerra. Dispuz pois as coisas n'esse sentido, e fiquei esperando o ensejo desejado.
O dia 16 foi tôdo consagrado a M^{r.} Fred. Jeppe e em sua casa fiz as observações para determinar as coordenadas de Pretoria. M^{r.} Turner tinha a meu pedido fabricado um grande bloco de gêlo, com o qual pude verificar os
zeros
dos meus thermòmetros e hypsòmetros.
D'essas observações, so existem as hypsomètricas, porque as astronòmicas perdêram-se não sei como. Sei que as não encontrei registradas em Maritzburg quando as quiz calcular, e lembra-me que calculei a latitude mesmo em casa de M^{r.} Fred. Jeppe, e que encontrei para ella o mesmo nùmero que vem no almanach do mesmo S^nr., creio que do anno de 1878, determinada por um official da marinha Ingleza.
Fui n'esse dia procurado por um homem que se devia unir áquelles que na cidade Transvaaliana se execedêram nos favôres que me dispensáram.
Foi elle Mr. Kish, membro da Sociedade Real de Geographia de Londres.
Madame Kish, Madame Imink e a Baroneza Van-Levetzow enchiam-me de favores, e nunca lhes poderei agradecer tudo o que por mim fizéram.
No dia 19 recebi um convite para jantar, dos officiaes do regimento 80.
Não posso deixar de narrar um episòdio d'este jantar, que me commoveu em extremo. Eu continuava a usar os mesmos trajes, e apenas tinha feito uma absoluta reforma de roupa branca. Eu não possuia dinheiro meu, e aquelle que saquei sôbre o govêrno era destinado ás despêsas necessarias da expedição, e não ás minhas necessidades particulares; por isso não comprava roupa por não ter com que a comprar, e só o fiz em Durban quando encontrei quem me emprestasse dinheiro a mim como particular. Por esta razão os meus andrajos continuavam a cobrir-me, e n'aquelle jantar destoavam completamente dos brilhantes e esplendidos uniformes que vestiam os officiaes do 80 e os convidados. O jantar correu alegre como entre officiaes que estam em campanha devia ser.
Eu estava de excellente humor, e ria de uma ou outra anecdota picante, quando umas duzias de estalos vieram mostrar que os criados faziam saltar as rôlhas do espumante champagne. Enchêram-se os copos, esses pires de cristal sustentados por um problemàtico pe perfurado, d'onde sobe sem cessar uma fervura gelada, tão grata á vista como é grato ao paladar o lìquido dourado em que ella se forma.
O Major Tyler, que presidia á mêsa, levantou-se, e tomando o copo, pronunciou essa palavra, que, nos mais ruidosos jantares Inglezes, impõe o mais profundo silencio. Major Tyler disse, com a sua voz forte e sonora:
"Gentlemen!"
"Gentlemen, a Sua Magestade El-Rei de Portugal."
Nós tôdos de pe ìamos corresponder á saúde, quando a mùsica do regimento rompeu o hymno d'El-Rei D. Luiz, que foi escutado de pe no meio do maior silencio.
Não é possivel pintar as sensações que experimentei ao ouvir aquella mùsica, aquelle hymno patriòtico tocado em terra estranha, aquella homenagem prestada ao meu paiz na pessôa do seu soberano.
Se devi muitos favôres e muita amizade ao Major Tyler, agradêço-lhe acima de tudo a sorprêsa que me deu n'aquelle momento.
A affinidade de vida levàva-me tôdos os dias ao acampamento das tropas Inglezas, onde eu, se não jantava, almoçava, prendendo-me verdadeira amizade a muitos dos officiaes, um dos quaes se tornou meu inseparavel.
Era elle o bravo Capitão Allan Saunders. Da mesma idade e encontrando um no outro idènticas inclinações e gôstos, o tempo que eu não passava com Saunders passava-o elle comigo. Tôdas as tardes ás 4 horas nos encontràvamos em casa da Baroneza Van-Levetzow, onde apparecia tambem ás
vezes o Major Tyler, e onde se reunia uma distincta sociedade de elegantes e formosas damas.
A Baroneza dàva-nos um òptimo e exquisito café, que era servido por sua filha, uma encantadôra criança loura e azougada.
Sabendo-se da minha ligação com Saunders, ja eu não recebia convite sem que elle fôsse convidado tambem, e assim passámos muitas horas deliciosas em casa de Madame Kish e de Madame Imink e outras.
Aquillo era um ceo aberto, e em quanto eu não tinha mais que fazer do que esperar os acontecimentos, so pensava em passar o tempo o mais agradavelmente que podia.
¡Se eu tinha trabalhado e soffrido tanto!!
Fui avisado de que um comboio de vagons deveria partir para a cidade de Durban no dia 22, e tratei de contratar com os conductôres o transporte da minha gente e bagagens. Este comboio devia gastar de 35 a 40 dias no caminho, e por isso deixàva-me largas para me demorar ainda em Pretoria algumas semanas, porque eu calculava gastar apenas seis dias para alcançar o mar.
No dia 21, estava eu preparando umas caixas em que deviam ir uns pàssaros, que eu trouxera e que tinham sido cuidadosamente arranjados por M^{r.} Turner, em que deviam ser acondicionadas as pelles, despojos das minhas caçadas, e uns insectos que pude aproveitar, porque dos muitos que apanhei ao sul do Zambeze, so chegáram a Pretoria pernas, cabêças e corpos separados, sendo impossivel ao mais versado entomològico dizer a que cabeças pertenciam aquelles corpos, a que corpos pertenciam aquellas pernas. Estava eu arranjando aquillo, estupefacto com o prêço que me custava cada bocadinho de tàbua, que é o gènero mais caro que encontrei em Pretoria, onde tudo é caro; quando me viéram chamar a tôda a pressa, dizendo-me, que tudo em casa do Rev. Gruneberger andava n'uma poeira, com a minha gente, que ja havia mortos e feridos e não sei que horrôres mais.
Corri a casa do Missionario.
Houvera e havia um caso grave de insubordinação contra o dono da casa, que eu reprimi n'um momento, mas desgraças creio que apenas os queixos de um criado partidos com um bofetão de Augusto.
Eu tinha sempre tido um presentimento que alguma cousa aconteceria se se desse a confiança que se deu a prêtos d'aquelles.
M^{r.} Gruneberger mostrou-me que era inconveniente continuarem em sua casa, e muita razão tinha elle n'isso, depois dos disturbios que elles ali fizéram. Como deveriam partir no dia immediato, pouco cuidado me deu este incidente; mas desgostou-me em extremo, pêlo que elles fizéram n'uma casa em que tinham sido tão bem acolhidos.
No dia immediato, sube que os vagons so partiam no dia 26, e por isso accommodei os prêtos o melhor que pude na casa que habitava.
M^{r.} Swart, o Thesoureiro do Transvaal, continuava a obsequiar-me e eu ia repetidas vêzes a sua casa, onde sentia um prazer immenso em brincar com as suas filhas, duas formosas crianças.
Eu nunca gostei muito de pequenos. Sempre os achei importunos e pouco interessantes; mas depois da minha viagem, comecei a sentir uma verdadeira paixão por crianças louras e bonitas, e em Pretoria eu passava horas com as filhas de M^{r.} Swart, ou com as de M^{r.} Kish.
Talvez a lembrança de uma filha de quem eu estava separado produzisse em mim aquelle gôsto de brincar com as innocentes creaturas. Talvez a vida rude e severa que eu tive n'uma tão fadigosa jornada, precisasse de uma antìthese, que eu encontrava nas caricias da pequenada.
Ia assim passando a vida em Pretoria, quando um dia fui procurado por um homem que trazia uma carta para mim.
Recebi o desconhecido, que tinha ares de sertanejo Inglez.
Era um rapaz ainda nôvo, de mediana estatura, sympàthico e de physionomia enèrgica, vestido de uma camisa grosseira, e umas calças prêsas com um forte cinto de couro.
Dirigio-me a palavra em Francez, d'aquelle que se fala no Boulevard dos Italianos, e apresentou-me a carta. Conheci pêla letra do sobrescripto que era de M^{r.} Coillard.
Abri-a pressuroso, e vi que era carta de apresentação do portador.
Não era preciso a recommendação de M^{r.} Coillard para eu cortejar com respeito e estender a mão com sympathia áquelle homem. O seu nome, bem conhecido nos sertões da Àfrica do Sul, era recommendação bastante.
Era M^{r.} Selous, o atrevido viajante e ousado caçador Inglez.
M^{r.} Selous esteve tres dias em Pretoria, e conversámos muito sôbre a Àfrica. Elle havia entrado ao Norte do Zambeze em uma direcção parallela ao Cafuque, e a leste d'elle, e fez-me d'esse paiz as mais interessantes descripções.
Ali encontrou muitos Portuguezes, entrados por Quilimane, e entre outros citou-me um Joaquim Mendonça, que tinha como seus empregados três antigos soldados do Batalhão da Zambezia, chamados Manuel Diogo, Joaquim da Costa, e Antonio Simões. Pêlo que elle me disse, e combinando as datas, penso que seriam estes os
Muzungos
de que tanto se falava no Barôze durante a minha estada em Lialui.
M^{r.} Selous deu-me um esbôço grosseiro da sua viagem ao norte do Zambeze, de que eu me não servi na minha carta de Àfrica Tropical Austral, por não me julgar autorizado a isso sem a sua prèvia licença, que me olvidei de pedir.
Eu dei-lhe as indicações que elle desejava para uma nova expedição venatoria nos arredores de Linianti, e fiquei de lhe mandar um esbôço do paiz, que depois lhe enviei para Shoshong.
No dia 23 fui almoçar com Monseigneur Jolivet, o illustrado Bispo de Natal, que então se achava em Pretoria, dirigindo as construcções do importante estabelecimento Cathòlico que ali se ergeu depois da
dominação Ingleza; que é de certo a mais importante escola de educação do Transvaal, e onde muitos Protestantes, M^{r.} Swart por exemplo, e outros, enviam as suas filhas. Monseigneur Jolivet, homem sabio e de respeitabilissimo caracter, conversou muito comigo, e percebi que não era muito affecto aos Portuguezes.
Pensa elle, que nós não somos muito bons Cathòlicos. Procurei demonstrar-lhe o contrario, mas creio que o fiz de balde, porque Monseigneur vinha sempre com a historia de um padre, o Rev. Bompart, que tendo ido a Lourenço Marques, não lhe foi permittido ali celebrar, apesar de todas as instancias que fez.
Não o pude convencer de que, se o Rev. Bompart se apresentou sem auctorização legal, era natural não lhe deixarem exercer o seu mister; assim como não o pude convencer, de que quem governava na Igreja do Oriente era o Arcebispo Primaz das Indias. O honesto Bispo, tinha tão profundamente arraigadas no espìrito opiniões e malquerenças contra nós, que ficou na sua, dizendo-me sempre que nós somos os peiores dos pedreiros livres do mundo. Uma tia velha que eu tive, tambem dizia o mesmo depois da exstincção das corporações religiosas.
Ora o facto verdadeiro é que Portugal é um dos paizes mais religiosos que eu conheço, que é muito bom Catholico, mas entende que religião e alta politica sam duas cousas differentes, aprendeu esta heresia com o Marquez de Pombal, e desde então se os padres misturam religião com politica, zanga-se com elles.
Monseigneur Jolivet que me perdôe, se ainda continúo a insistir em que somos dos melhores Cathòlicos do mundo, e que ainda o seriamos se nos levantassemos forte e energicamente contra os ministros da nossa religião, que traindo os deveres sacrosantos da sua missão nobre e sagrada, fossem fazer propaganda polìtica em deterimento nosso e em favor de estrangeiros na terra da Patria, que terra da Patria é tôda a terra onde se hastea a bandeira de Ourique, seja qual fôr o ponto do glôbo em que ella tremule.
É tempo de dizer duas palavras de Pretoria, tal como eu a vi em Fevereiro e Março de 1879. Começarei por descrever a cidade pêlo seu lado material.
Pretoria era uma cidade nascente, á qual a dominação Ingleza não tinha imprimido ainda o seu cunho nacional.
As ruas largas e espaçosas dão accesso ás casas, pêla maior parte terreas, mas bem construidas e elegantes. Abundam ali os jardins, e em algumas ruas as casas elevam-se no meio d'elles.
A cidade assenta sobre um plano inclinado que na parte mais elevada tem abundantes nascentes de àgua que a banham. Esta àgua, ao tempo que ali vivi, corria nas ruas em valêtas lateraes profundas e descobertas, que a escuridão da noute convertia em verdadeiros precipicios. Recòrdo-me de mais de uma vez ter cahido n'ellas, chegando a casa completamente molhado.
Em alguns quintaes e jardins ha àrvores muito grandes e frondosas.
As ruas estavam por calçar, e com as chuvas eram incòmmodos atoleiros.
Tem alguns templos decentes, uma modesta casa de tribunal, e muitos estabelecimentos commerciaes onde é facil encontrar tôdo o necessario, e mesmo o supèrfluo, que ja ali ha luxo.
Na parte elevada estàvam-se construindo os vastos quartéis para as tropas, que então estavam em grande parte acampadas em barracas, em tôrno de três casernas ainda mal acabadas.
O caminho da cidade para os quartéis era medonho, e perigôso de noute, porque as chuvas cavavam rêgos profundos, e produziam atoleiros enormes, onde nos enterràvamos, e onde por vêzes arrisquei quebrar as pernas.
Ha na cidade alguns pontos muito bonitos, como é o chamado as
fontes
, e uma das sahidas coberta por chorões enormes, e onde uma azenha dá um cunho pintorêsco á paizagem.
Os arredores sam despidos de arvorêdo, e um pouco monòtonos, havendo apenas aqui e àlém uma ou outra fazenda de Böers a quebrar a monotonia natural.
Pretoria deve ser um dia uma das mais bellas cidades da Àfrica do Sul, e tal como eu a vi ja apresentava um aspecto geral agradavel e buliçôso.
Como em todas as terras, de nôvo occupadas pêla Inglaterra, Pretoria estava cheia de gente nova, que vinha procurar fortuna, e que não a encontrando facil, se alistava nos regimentos de voluntarios, onde como soldados tinham uma paga de cinco xelins diarios.
O meu amigo Allan Saunders era o chefe da secretaria dos corpos voluntarios, e não lhe sobejava o tempo para fazer alistamentos.
Os negociantes sam Hollandezes ou Inglezes, e como a cidade em si mesma ja tem necessidades, não é so o tràfico com o interior, e com o indìgena que ali representa uma parte importante no movimento commercial.
Disse-me o D^{or.} Risseck, que o clima é bom, ainda que em certas èpochas do anno não é isento de febres de caracter benigno. Sendo os arredores de Pretoria abundantes em forragens, é facil ter ali cavallos, e quasi tôdos os moradores t[~e]m um
dog-cart
ou uma
victoria
, em que passeiam ou vam tratar os seus negocios.
Figura 139.--Betjuanas. (De uma photographia de M^{r.} Gross.)

Tal era Pretoria quando la passei algumas semanas em 1879.
Um facto que me produzio uma certa impressão foi ver que muitas mulheres gentias dos arredores vinham á cidade vender os seus gèneros, cobertas com os trajes gentìlicos, isto é quasi nuas, assim como as representa a gravura junta a esta pàgina; gravura cuja historia vou contar, porque ella representa uma lição áquelles que na Europa se afiguram ser facil realizar em Àfrica cousas facìlimas no velho mundo.
Ha em Pretoria um magnìfico photògrapho Suisso, M^{r.} Gross.
Eu travei conhecimento e tinha em breve relações de amizade com elle.
Um dia, vendo um grupo de mulheres que vinham vender capata, chamei-as e propuz-lhes comprar toda a capata que ellas traziam se se deixassem photographar. As mulheres hesitáram, e eu comecei a fazer-lhes as mais bellas offertas.
Tentadas pelas minhas promessas, seguíram-me a casa de M^{r.} Gross.
Deixei-as á porta e entrei.
Logo que expuz ao photògrapho o meu intento, elle fechou as mãos na cabêça e disse-me que, não fazìamos nada, porque muitas vêzes tentara em vão a mesma cousa. Insisti, e M^{r.} Gross para condescender comigo, pôz mãos á obra.
Introduzi as mulheres no
atelier
, não sem gastar n'isso bôa meia hora, porque, chegado o momento de entrarem em casa do photògrapho, augmentou a sua hesitação.
Ahi estam ellas no
atelier
, mas recrescem as difficuldades ao collocal-as em posição defronte da màchina. Estam em foco, e quando o photògrapho vai introduzir na corrediça a chapa sensibilizada, duas ou tres fogem espavoridas e outras deitam-se de cara no chão. Nôvo trabalho de paciencia e outra meia hora perdida e uma chapa inutilizada. A mesma scena ainda se repete, até que em fim se pôde obter um negativo, em que tôdas mexêram tanto, que nos deixa em dùvida se sam macacos ou bonzos as imagens reveladas. Outras tentativas t[~e]m o mesmo resultado, e perdido o dia e gasta a paciencia, ellas vam-se.
Eu, apesar d'isso, sempre teimoso em querer a photographia das prêtas, cumpri o contrato indo àlém das promessas feitas. Ellas tambem me promettêram voltarem, e d'ahi a dois dias estavam á minha porta.
La vamos para casa de M^{r.} Gross, que ja tremia de me ver com as prêtas. Eu lembrei-me de me pôr ao lado da màchina e de lhes dizer que olhasem para mim, ellas assim fizéram, e eu encarei-as tão fito, com um olhar tão pertinaz, que ellas perturbáram-se, tivéram esse momento de fascinação que produz a immobilidade, M^{r.} Gross descubrio a objectiva, e o grupo estava apanhado.
Quizémos ainda tirar outro, mas o encanto tinha-se quebrado, e não foi possivel obter mais nada d'ellas.
Assim essa photographia custou-nos dois dias de trabalho, uma avultada quantia, e uma incalculavel paciencia.
No grupo, as mulheres que t[~e]m uma franja por tanga sam solteiras; aquellas que t[~e]m uma pelle, casadas.
No dia 25 de Fevereiro, vèspera do dia em que deviam partir os meus prêtos e as minhas bagagens, para Durban, seriam 4 horas da tarde, quando eu me dirigi a casa da Baronesa Van-Levetzow, a pedir-lhe uma chàvena d'esse òptimo café que ella tão delicadamente offerecia aos seus amigos; quando em caminho me sorprendeu um movimento desusado na cidade. Perguntei a um transeunte, o que havia de nôvo? e elle respondeu-me, que os Zulos estavam ás portas de Pretoria, e que dentro em pouco a cidade seria saqueada. Corri ás informações, e para ir a bôa fonte, fui á casa do govêrno.
Ali soube que, de facto, os Zulos não estavam ainda em Pretoria, mas muito perto, e a cidade seria atacada dentro de poucas horas. As informações eram officiaes e certas. Indaguei em que ponto elles estavam e voltei a casa. Mandei logo Verissimo, Augusto e Camutombo á descoberta. Fiquei a pensar no caso, e, com o meu conhecimento de Àfrica e de prêtos, concluí que tudo aquillo era um absurdo disparate.
Sahi a visitar vàrias pessôas, e se algumas encontrei possuidas do pànico geral, outras estavam descançadas e não acreditavam como eu no ataque dos Zulos. Algumas damas tinham-se ido refugiar no acampamento das tropas.
Eu fui prevenir Monseigneur Jolivet do caso, dizendo-lhe o que havia, que não acreditava, mas que ás vêzes as cousas mais absurdas aconteciam, e por isso era bom estar prevenido para pôr a salvo as Irmãs de Caridade.
Voltei a casa, e ao cahir da noute chegavam, com pequenos intervallos os meus três enviados, afiançando-me, que no logar designado não havia um so Zulo, nem d'elles havia noticia no Transvaal. Eu, que me fiava mais nas informações de Verissimo, Augusto e Camutombo do que em tôdos os relatorios officiaes, deixei os prêtos em casa, e fui ver o que faziam os meus amigos Major Tyler e Capitão Saunders.
Ao chegar ao acampamento, um terrivel e desusado "Quem vem la?" de uma sentinella, provou-me que ali estavam em pe de guerra. Respondi, "Amigo," e pude entrar. No campo havia grande reboliço. Fortificavam-se e entrincheiravam-se com os vagons.
Não me foi difficil encontrar o commandante militar de Pretoria, o Major Tyler. Vestido com o esmero e luxo que sempre usa, as mãos calçadas em apuradas luvas brancas sem a menor sombra, o pé mettido em elegante botina, tal em fim como entra nas salas em que é tão querido, o bravo commandante do regimento 80 estava com tôda a placidez e socêgo, dando acertadas ordens, e pondo o campo em estado de defêsa formidavel. Cheguei-me a elle e disse-lhe que o ataque esperado era uma verdadeira comèdia. Elle respondeu-me, que sempre assim o havia pensado; mas que, tendo recebido communicações officiaes, não podia deixar de fazer o que estava fazendo; e que àlém d'isso, não desgostava d'aquelle rebate, para avaliar o que eram os seus homens, e saber com o que poderia contar n'um caso sèrio.
Dei razão ao elegante official, e fui-me em busca do seu immediato, o meu amigo Saunders. Andava elle de outro lado dirigindo as manobras, rindo sempre, sempre contente. Saunders pareceu-me acreditar nos Zulos, o que lhe não tirava nada do seu bom humor habitual. Foi-me logo mostrar duas metralhadôras, para as quaes estava a olhar pasmado um alferes qualquér a quem as haviam entregado. Depois d'isto disse-me elle, que estavam muitas damas recolhidas no campo, e convidou-me a ir vel-as.
Fomos passar uma minuciosa revista, e vimos que o Major Tyler, como melhor relacionado com o bello sexo, tinha cedido o seu quarto pêlo menos a duzia e meia. O quarto de Saunders tambem não estava vazio, mas deve dizer-se, em abono da verdade, que aquelles eram os dois ùnicos quartos do quartel, vivendo o resto dos officiaes em barracas.
Saunders lembrou, que em tempo de guerra era bom beber qualquer cousa, e fomos á sala dos officiaes.
Na sala estava so um homem. Fardado, e armado, estava sentado n'uma poltrona com tôda a commodidade, tendo diante de si um copo de
brandy
e soda.
Era o tenente Cameron do regimento, que disse a Saunders: "Meu capitão, eu cá estou á espera dos Zulos, e em quanto elles não v[~e]m, vou bebendo."
Era realmente admiravel ver esses bravos officiaes Inglezes, que morriam rindo e descuidosos n'uma guerra ingloriosa, tão tranquillos e socegados em frente de um perigo qualquer, como se os esperasse um baile ou uma festa.
Nós dissémos ao tenente Cameron que não havia Zulos, e elle recebeu a noticia com certa tristeza.
¿Quem sabe se elle, com a confiança da mocidade, não tinha sonhado n'esse momento com os gallões de um posto superior?
Pouco depois reunio-se a nós o Majr Tyler, e disse-nos, que ia ver o que faziam os voluntarios na cidade.
Eu e Saunders acompanhàmol-o. Era meia noute e havia escuridão profunda, a chuva cahia a torrentes, e eu apenas pude apanhar metade do impermeavel de Saunders, que levou só o cabeção, dando-me o resto.
Tropeçando aqui e cahindo àlém, chegámos á praça, onde na igreja parochial deviam estar os voluntarios.
Entrámos no templo, que estava cheio de soldados, e logo que o Major Tyler deu as suas ordens, fomos tôdos três para minha casa.
Estàvamos muito molhados, e o meu primeiro cuidado foi abrir uma garrafa de vinho velho.
Bebendo e conversando passámos ali uma parte da noute, rindo eu e Saunders a bom rir, da seriedade do Major Tyler, que estava indignado por ter o seu quarto cheio, não de damas, que elle é muito galante para se queixar d'isso, ¡mas de meninos!--de meninos que choravam!
Pêla madrugada, o Major Tyler e o Capitão Saunders retiráram, e eu fui-me metter na cama.
Eis como acabou um dos episodios còmicos, da tràgica guerra dos Zulos, episòdio que ficaria no esquècimento se eu o não trouxesse a pùblico.
No dia immediato têve logar um acontecimento importante para mim.
A minha gente e as minhas bagens seguíram para Durban, pêlo caminho seguro de Harrismith.