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Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

CAPÌTULO III.

Reading edition

TRINTA DIAS NO DESERTO.

O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O

grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de

àgua--O ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (

Shoshong

).

A 2 de Dezembro, começáram logo de manhã os preparativos de partida.

Um vagom de viagem em Àfrica do Sul é uma pesada construcção de madeira e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre 4 fortes rodas de madeira, e tirado por 24 a 30 bôis, junguidos a fortes cangas, prêsas a uma corrente longa e grossa, fixa á ponta do cabeçalho no carro.

Esta especie de casa ambulante, é carregada com as bagagens e fazendas do viajante, e disposta de modo a offerecer-lhe tôdas as comodidades caseiras.

O vagom de M^{r.} Coillard era uma verdadeira maravilha.

Construido expressamente para aquella viagem sôb as suas vistas e com a sua experiencia de viajeiro, tinha commodidades que nunca vi em outro.

A minha bagagem foi arrumada com a da familia Coillard no fundo do vagom, ficando apenas á mão aquillo de que eu poderia precisar a miúdo.

Elles faziam prodigios para darem logar a todos os meus volumes de carga, como, durante a viagem, se encolhiam para me dar logar a mim mêsmo.

Uma partida depois de 15 dias de descanço é sempre muito demorada.

Ha muita cousa que arrumar, e no momento de partir descobre-se sempre, que ha uma canga quebrada, que faltam as pitas aos chicotes, que os cubos das rodas precisam ser untados, mil cousas emfim que fazem retardar de algumas horas o momento prefixo.

Depois de essas precauções tomadas por M^{r.} Coillard, e dictadas por uma longa experiencia de tal modo de viajar, conseguímos deixar Deica pelas 2 horas da tarde, e endireitámos ao sul.

O nosso comboio compunha-se de quatro vagons, dous pertencentes a M^{r.} Coillard, e dous outros de M^{r.} Frederick Phillips, de quem falarei mais tarde.

Depois de uma jornada de três horas e meia, encontrámos àgua em uma pequena lagôa, recentemente cheia pêla chuva dos dias anteriores, e pernoitámos junto d'ella.

No dia immediato seguímos a S.S.E., e depois de duas horas de viagem parámos hora e meia, para dar descanço aos bôis.

Foi de três horas a segunda parte da jornada, e ainda fizémos uma terceira tirada das 7 ás 9 da noute.

Sendo explorados os arredores do sitio em que acampámos, encontrou-se àgua um kilòmetro a E.N.E.

No dia 4 só podémos partir ás 4 e meia horas da tarde, para darmos tempo aos bôis de bebêrem durante tôda a manhã: e n'esse dia a nossa jornada foi apenas de duas horas e meia, porque, encontrando uma lagôa de òptima àgua, acampámos junto d'ella, ainda que os prêtos de M^{r.} Phillips diziam haver ali a terrivel môsca zê-zê, o que me parece precisa confirmação.

Contudo, por prudencia, no seguinte dia partímos logo de madrugada, e viajámos por sete horas e meia, em três andadas, a ùltima das quaes findou ás 9 da noute. Junto do ponto onde pernoitámos não appareceu àgua. A viagem d'êsse dia foi difficil, por entre emmaranhada floresta, onde os vagons corréram grande perigo de partir as rodas de encontro aos troncos de àrvores colossaes.

A 6, de manhã, jornadeámos por duas horas a S.E., encontrando no fim d'ellas uma lagôa de àgua permanente, a ùnica àgua que no tempo sêco se encontra de Deica até ali. Chama-se Tamazêze.

Descansámos por sete horas, e seguímos ás 3 da tarde; indo acampar, ás 6, junto de outra bella lagôa tambem permanente, a que os Massaruas chamam Tamafupa.

A jornada d'aquêlle dia foi por entre florestas lindissimas, onde abundam espinheiros brancos. O solo é coberto por uma espêssa camada de arêa. Junto á lagôa um formôso tapête de relva cobre o terreno, levemente accidentado.

Mas no meio d'aquella relva viçosa cresce uma planta herbàcea de que os bôis sam àvidos, e da qual é preciso desvial-os com cuidado, porque é mortal peçonha para êlles.

Estive n'essa noute até tarde levantado, para fazer observações astronòmicas, e talvez ahi tivesse origem o violento accesso de febre que me atacou no dia immediato.

Por algumas horas o delirio tirou-me a consciencia, e só ao recuperar a razão pude dar tino dos cuidadosos desvelos que me eram dispensados pêla familia Coillard.

O dia seguinte foi ainda passado no mais angustiôso soffrimento, e só ao terceiro dia nos pozémos em viagem, indo eu em deploravel estado. Foi-me arranjada uma cama no vagom de M^{r.} Coillard, e rodeado da familia, que redobrava em affectuosos cuidados, cercando-me de tôdas as commodidades que a si tiravam, fiz uma jornada que pouca consciencia tenho de ter feito. Sei que a 10 de Dezembro estàvamos acampados em um logar que uns chamam Muacha e outros Nguja.

Ali, com o caminho seguido pêlos negociantes Inglezes, devìamos deixar um d'elles, que, como ja disse, era nosso companheiro de viagem desde Deica.

M^{r.} Frederick Phillips, o companheiro de viagem que ìamos deixar, é um

Inglez de Inglaterra

. Homem de fina educação, affecta uns modos grosseiros e semi-selvagens, que não podem encubrir as suas bôas maneiras originaes.

É este um dos seus fracos.

O outro elle mesmo o define em algumas palavras que lhe ouvi. "Quizera, me disse elle, que tudo o que existe no mundo, que tudo o que cobre a terra, fôsse marfim, e eu só senhor d'elle."

Se eu não tivesse a certeza de que M^{r.} Phillips era Inglez, pêla fòrmula do desejo julgàra-o nascido em Tarbes.

M^{r.} Phillips, de elevada estatura e robusto em proporção, tem um rôsto enèrgico e sympàthico, que dizem ter feito uma profunda impressão na irmã do terrivel Lo-Bengula, o rei do Matabelle, que tem feito as mais altas diligencias para o desposar. É no Matabelle que êlle tem a sua principal residencia Africana, e se eu o encontrei no Zambeze, foi porque a ausencia ali de M^{r.} Westbeech seu socio, o obrigou áquella viagem por interesses commerciaes.

M^{r.} Phillips, que encontrei em Lexuma, fêz-me offerecimentos, pondo á minha disposição um dos seus vagons, para eu continuar a minha viagem para o sul, e se os não devi aceitar, não deixo por isso de lhe tributar muita gratidão.

Depois de nos despedirmos de M^{r.} Phillips em Nguja, partímos ao Sul, e jornadeámos por três horas e meia, indo acampar, ás 7 e meia, em sìtio onde não havia àgua.

No dia seguinte, depois de duas horas e meia de caminho, parámos em um logar chamado em lìngua Massarua Motlamagjanane, palavra que quer dizer, muitas cousas que se succedem umas ás outras, e isto por se dar êsse caso com uma sèrie de pequenas lagôas que encontrámos estanques.

A floresta toma ali um nôvo aspecto, e ás àrvores meãs succedem ja verdadeiros colossos vegetaes, assombrando com as elevadas copas um mato denso de emaranhados arbustos, difficìlimo de transpôr.

Seguímos ás 4 horas, e duas horas depois, atravessàvamos a mais sobêrba e bella floresta virgem que encontrei em Àfrica.

Logo ao anoutecer, tivémos de parar, porque era impossivel proseguir em tão densa floresta sem arriscar os vagons a um accidente sèrio.

N'essa noute eu começava a achar-me completamente restabelecido, e a febre tinha cedido a doses diàrias de quatro grammas de quinino.

Meia hora depois de partir, no dia immediato, atingìamos a orla da floresta, e encontràvamos àgua n'um pequeno charco lodôso. Diante de nós estava a planicie descoberta, àrida e sêca; essa planicie, que foi pêla primeira vez atravessada dois graos a Oeste por Livingstone, ainda um a oeste do meu ponto por Baines, e um grao e mais leste por Baldwin, Chapman, Ed. Mohr e outros; essa planicie arenosa e inhòspita, o Saara do sul, o Calaari emfim.

Ainda jornadeámos por espaço de duas horas, indo dar descanço aos bôis ás 11 e meia, junto a uns rachìticos e pequenos espinheiros, que com a sua vegetação mesquinha faziam sentir mais a nudêz do deserto.

Algumas trovoadas formávam-se pelo Norte, e ás duas horas aproximávam-se de nós, deixando cahir de nêgros nimbos grossas gôtas de chuva tèpida.

Desde o Zambeze até ali o terreno é arenôso, sendo o sub-solo formado por uma camada argilosa muito plàstica de côr castanho-escura. A espessura da camada de arêa branca e fina que forma o solo varia entre 10 e 50 centìmetros.

Àgua apenas aparece aqui e àlém na estação das chuvas, nas depressões de terreno. Algumas vêzes, como n'aquelle dia ao sahir da floresta, era ella uma lama espêssa e fètida. Tôdo o paiz até ao ponto em que o deixámos n'aquella manhã, é coberto por uma floresta, que vai progressivamente augmentando em espessura e no pompôso da vegetação, ao passo que se afasta do Norte.

O que mais se vê sam ainda leguminosas, e uma immensa variedade de acacia cobre o solo. Flôres do mais variado e brilhante colorido, das formas mais mimosas e delicadas, ao passo que encantam a vista,

embalsamam o ar com os seus suaves perfumes. Viajar ali é difficilimo.

Abrir caminho para o carro, de machado em punho; ás vêzes, durante 10 e mais kilòmetros, haver um solo de cincoenta centimetros de area, onde as rodas dos vagons se enterram profundamente; fazer uma milha em quarenta minutos, tal é o viajar n'aquellas brenhas, quando se viaja bem.

A esse enorme terreno, comprehendido entre o Zambeze e o Calaari, chamei eu nas minhas cartas o Deserto de Baines.

Foi uma homenagem ao trabalhador infatigavel, o primeiro que devassou aquellas paragens inhòspitas, e cuja vida foi tão deserta de gôsos e de glòrias, como aquêlle paiz é deserto de gentes.

Do ponto em que parámos de manhã, seguímos ás 4 horas da tarde, logo que a tormenta passou, e jornadeámos até ás 8 da noute, parando n'um matagal de espinheiros baixos, onde foi difficil acampar no meio das hervas e entre os abrolhos.

Durante a noute, chacaes e hyenas déram-nos um concêrto infernal, vindo vocalizar um côro orpheònico, em tôrno do sitio onde chegava a claridade dos fogos do campo.

De manhã choveu, e nós seguímos ás 5 horas e meia, sahindo logo dos espinheiros, que poderìamos ter evitado sem umas trevas profundas que na vèspera nos tinham impossibilitado de escolher outro caminho.

Sustentámos uma caminhada de cinco horas, apenas com um pequeno descanço, encontrando uns charcos produzidos pêla chuva da manhã, que de nenhum proveito nos fôram a nós, por serem de àgua salgada, mas que, ainda assim, servíram aos bôis sedentos, que os esgotáram em pouco tempo.

Era preciso encontrar àgua, e seguímos ainda por quatro horas, parando no fim d'ellas sem termos logrado o nosso intento. Pude fazer n'essa noute uma bôa observação do reapparecimento do primeiro satèlite de Jùpiter.

Logo ao alvorecer, caminhámos por hora e meia no deserto arenoso e àrido, onde as rodas dos vagons se enterravam profundamente.

No fim d'este tempo de jornada, encontrámos o leito sêco de um rio cuja margem direita seguímos por uma hora, passando-o no momento em que elle encurvava a S.O., e por isso nos desviava do rumo a seguir. As escarpas do sulco arenôso eram de três metros e muito inclinadas. Foi medonho o precipitar dos vagons n'aquelle fôsso, e compungente o trabalho dos bôis para desenterrarem aquellas enormes màchinas de transporte, e fazèrem-n-as subir nas contra-escarpas.

Acampámos logo.

No leito arenôso do rio algumas lagôas deixavam ver pequenas massas d'àgua lìmpida e cristallina, que alegrava os olhos cançados da aridez e secura do deserto. Corrémos pressurosos a ellas, mas aos primeiros tragos bebidos a alegria converteu-se em angustia cruciante. Aquella àgua era tão salgada como a do mar.

Contudo, alguns poços cavados muito fundo, longe das lagôas, déram uma àgua quasi potavel. Era preciso tiral-a a baldes para a dar aos pobres bôis ja sedentos e cançados. Aquelle rio, ou antes aquelle leito sêco, era o do Nata, que no seu curso inferior, quando corre, toma o nome de Xua (

Shua

).

Foi decidido que ficàssemos ali dois dias, por ser o immediato ao da nossa chegada um domingo, e a familia Coillard não gostar de fazer viagem em tal dia. Preparou-se para isso um melhor acampamento, podendo obter-se ramos de àrvores nas margens do rio, ja povoadas da vegetação que o paiz carece ao Norte.

Pêlo meio-dia estava prompto um kiosque, e estabelecido o campo.

As damas Coillard andavam n'uma labutação activa. Faziam o pão e preparavam tudo o que os poucos elementos de que dispunham lhes permittiam, para a festa do Domingo.

Depois da minha ùltima febre, e dos mil cuidados e carinhos de que eu tinha sido alvo, o contacto ìntimo com aquellas damas a que a doença me tinha obrigado, modificou profundamente o meu espìrito, e senti em mim uma alteração profunda.

Até ao momento de as encontrar, eu havia esquècido, no meio dos selvagens com quem só vivia, o que fôssem carinhos e afagos.

O viver entre aquellas damas veio trazer-me á memoria que no mundo ha anjos, rosas perfumadas que embalsamam o caminho espinhôso da vida, frêscos oasis em que o caminheiro repousa das fadigas do deserto àrido.

A lembrança de uma espôsa estremecida, e de uma filha adorada, veio estar sempre presente ao meu pensamento, avivada pêla vista constante d'aquellas duas senhôras, instrumentos innocentes e inconscientes de um soffrimento atroz que me causavam.

Quantas vêzes, fatigado e doente, eu me sentava ao pé d'ellas, e por um momento era feliz, não pensando que eram para mim dois entes estranhos, lançados no meu caminho por o mais extraordinario dos acasos!

Quantas vêzes inconsciente não ia curvando a cabêça aturdida, em busca de um regaço de mulhér adorada, e cahia em mim, e levantava-me e fugia!

Ah! como eu as odiava então!!

Este soffrimento constante, sempre alimentado pêla vista d'ellas, e exacerbado pêlos seus carinhos, traduzio-se n'um mao humor que me não deixava um momento.

Perdi tôdas as formas sociaes de delicadêza, e transformei-me na imagem da mais brutal grosseria.

Bastava Madame Coillard dizer uma palavra, para ser logo grosseiramente contrariada. Um dia em que eu tinha subido para o vagom bastante fatigado, ellas priváram-se de quantas almofadas tinham para se encostarem e amortecer os choques violentos de um carro sem molas, para me fazêrem um leito commodissimo.

Achei-me tão bem que adormeci em caminho, velando ellas pêlo meu sono, e não cessando de arranjarem uma ou outra almofada desaconchegada pelos solavancos do carro.

Madame Coillard estava contente com a sua obra. Tinha de certo tido uma viagem tormentosa, mas eu tinha estado bem, tinha dormido.

Era tal a sua satisfação que não pôde deixar de me perguntar se eu havia estado còmmodamente, certa de que eu só lhe poderia responder com um agradecimento expressivo. Pois não foi assim. Disse-lhe, que o seu vagom era um vagom infernal, que eu nem mesmo havia podido dormir um momento, e que tinha passado o dia incommodadissimo.

Depois d'esta brutalidade insòlita, encarei com ella, e vi làgrimas a querer marejar-lhe nos olhos. Fiquei tão furiôso que fugi para longe.

Casos idènticos repetiam-se a miüdo, e no correr da narrativa apparecerám ainda.

Hôje custa-me a comprehender como no meu espìrito se pôde fazer uma tal alteração, e como eu cheguei a commetter taes barbaridades.

Os dois dias passados na margem do Nata não fôram dos peiores para mim.

Tinha observações a fazer, trabalhos atrazados a completar, e um paiz curiôso a estudar; e isso era agradavel diversão ao meu viver monòtono do deserto.

Creio que n'êsses dois dias não fui tão grosseiro como de costume.

O Deserto do Calaari, nas partes em que tem àgua, é frequentado por uma população nòmada. Sam os Massaruas, a que os Inglezes dam o nome genèrico de

Bushmen

. Os Massaruas sam selvagens, mas muito menos do que os Mucassequeres, que encontrei junto aos confluentes do Cuando, por 15 de latitude Sul e 19 de longitude E. Greenw. Os Massaruas sam muito prêtos, t[~e]m os ossos molares muito salientes, olhos pequenos e vivos, e cabêllo pouco.

Viéram alguns ver-nos, e eu dei-lhes tabaco e pòlvora. O seu contentamento foi grande. Voltáram de tarde, a offerecer-me um cabaz de peixe frêsco, que tinham ido pescar nas lagôas para mim.

No dia seguinte, em uma excursão que fiz, visitei o seu acampamento.

Vi que tinham panellas em que cozinhavam, e outros, ainda que poucos, indicios de uma civilização rudimentar.

Vi uma vasta provisão de tartarugas terrestres, que elles muito apreciam como manjar. As mulheres cubriam a sua nudez com algumas pelles, e enfeitavam-se de missangas, bem como os pequenos.

T[~e]m por armas azagaias e pequenos escudos ogivaes. Usam ao pescôço um sem-nùmero de amulêtos, e trazem nos braços e pernas manilhas de couro.

Rapam o cabêllo junto das orêlhas, deixando no alto um cìrculo que vem tangente á testa. Falam uma lìngua bàrbara muito notavel pêlo modo porque nos fere o ouvido, dividindo as palavras com um estalo dado com a lìngua, a que chamam

cliques

.

A 16 de Dezembro partímos, seguindo a margem esquêrda do rio, e parámos junto d'ella, depois de cinco horas de jornada.

Os Massaruas, que chamavam Nata ao rio no ponto em que passámos o Domingo, ja lhe chamam Xua (

Shua

) ali onde acampámos, a cinco horas de caminho.

Andámos sempre na margem d'êlle com os rumos de S.O., S.E., S.S.E., S.S.O. e S., o que deu um rumo medio de sul, e não resta a menor dùvida, que o Nata e o Xua sam um e o mesmo rio, que, como quasi todos os rios de Àfrica, tem diversos nomes em diversos trôços do seu curso.

Esta parte do deserto é coberta de uma herva curta e rachìtica, e só aqui e àlém se vê uma ou outra àrvore solitaria.

Com tudo, nas bordas do rio ha alguma vegetação, e de espaço a espaço não deixa de ser amena esta ou aquella païsagem que se nos apresenta á vista.

A àgua dos poços cavados no leito do rio nem sempre é potavel, e a das lagôas é completamente saturada de saes.

O terreno do deserto apresenta pequenas clareiras onde nada vegeta, e onde o solo é coberto por uma espêssa camada de saes, depòsitos de àguas evaporadas.

As informações dos Massaruas a respeito de falta de àgua eram assustadoras, e nós resolvemos não avançar mais n'aquêlle dia, para aproveitarmos o mais tempo possivel alguma bôa que ali se encontrou em poços cavados profundamente.

Desde que percorrìamos aquelle bôrdo do Calaari, notava eu que um fortissimo vento de leste soprava rijo nas primeiras horas da manhã; sendo que do meio dia para a tarde uma brisa suave de oeste durava

algumas horas.

Eu atribuo aquêlle phenòmeno constante, á influencia na atmosphera do enorme deserto arenôso que nos ficava a oeste.

A arêa reflectindo o calor solar, deveria produzir uma dilatação atmosphèrica, que determinaria durante o calor a corrente branda para leste; ao passo que êsse ar lentamente dilatado de dia, seria ràpidamente retrahido pêlo frio intenso da noute, e produziria um desiquilìbrio, que originara a fortissima corrente nas primeiras horas do dia.

M^{r.} Coillard achou prudente partir só na tarde do dia immediato, para saciar bem os bôis, antes de ir procurar àguas muito problemàticas; mas eu decidi seguir só com o meu Pépéca, e combinámos encontrar-nos nas margens do Simoane.

O meu fim era sôbre tudo visitar os lagos a que os Massaruas chamam os

Macaricáris

.

Depois de atravessar sete milhas de Macaricáris, entrei n'uma floresta, que percorri n'uma extensão de três milhas até encontrar um leito de rio, com alguma àgua encharcada, que eu suppuz devia ser o Simoane.

Desci por elle até ao Grande Macaricari. Depois de um longo passeio nas cercanias, fui procurar um sitio onde calculei que os vagons deveriam passar e esperei.

Só ás nove da noute, e noute de trevas profundas, o meu ouvido exercitado pôde perceber ao longe a bulha dos vagons, e caminhando para ali fui sahir-lhes ao encontro. Madame Coillard estava em cuidados, por me ver ausente tôdo o dia só com uma criança, e a primeira cousa que fez, ao parar dos vagons, foi preparar-me chá, bebida de que ella sabia eu ser àvido, e n'essa noute diz o meu diario que tomei a seguir seis grandes chàvenas d'êlle.

Effectivamente, o gasto que eu fazia na provisão de chá de Madame Coillard era enorme.

O ribeiro Simoane, que então era apenas uma serie de pequenas lagôas de três metros de largo, corre a Oeste no tempo das grandes chuvas, e vai entrar directamente no Grande Macaricari.

Tôdo aquelle paiz, e sôbre tudo a floresta entre a qual corre o Simoane, apresentava indicios de ter chovido muito ali, e por isso as lagôas do Simoane tinham àgua, e esta era quasi bôa.

No tempo sêco ellas secam, e em alguma que conserva pouca àgua, é esta tão saturada de saes que não se pode aproveitar.

Desde que chegámos ás margens do Nata, em tôdos os pontos onde paràvamos, appareciam os Massaruas sempre a pedir alguma cousa.

O que valia era fugirem se nos zangàvamos com êlles.

Aquêlles Massaruas que sam valorosos e combatem o elephante e o leão, sam cobardes diante do homem, e sôbre tudo do branco.

Só ás 4 horas da tarde deixámos aquelle ponto, onde os bôis encontravam um viçoso pasto e abundante àgua; e caminhando a S.O. fomos acampar, ás 8 horas e meia, em sitio sêco.

No dia 19, depois de quatro horas de jornada a S.S.E., costeando sempre o terreno que se eleva para o Este, deparámos com o leito sêco de um rio cujas margens alimentam uma vegetação luxuriante. Os Massaruas que apparecêram logo, disséram chamarem-lhe Lilutela, e ser o mesmo que outros chamam Xuani (

Shuani

) ou pequeno Xua. Este nome de Xuani deve ter sido dado áquelle rio por gentes do sul, que falassem a lìngua Sesuto ou algum dos seus dialectos, porque n'aquella lìngua os substantivos formam o diminuitivo com a terminação

ani

.

O Lilutela, nome que eu lhe conservo, por ser o empregado pelos povos nòmadas do deserto, tem o seu leito cavado entre uma floresta formada de àrvores gigantes, mas limpa de arbustos. Esta floresta, que começou umas nove milhas ao N. do Simoane, parece ser a orla de uma densa mata que em terreno mais elevado corre Norte-Sul poucas milhas a leste do nosso caminho.

O terreno desde a margem esquêrda do rio Nata é consistente, e não arenoso como até ali. O solo é formado por uma funda camada de argila muito plàstica, e no tempo das grandes chuvas deve ser um atoleiro enorme.

Um dos Massaruas que appareceu ali foi mostrar uma lagôa um kilòmetro a oeste, onde os bôis podéram matar a sêde e nós fazer provisão d'àgua.

As margens do Lilutela sam cobertas por uma espêssa camada de guano, e na estação em que o rio leva àgua devem ser habitadas por milhões de aves.

Seguímos no mesmo dia ás 5 da tarde, debaixo da má impressão de que não encontrarìamos àgua no dia immediato, facto que nos foi affirmado pelos Massaruas. Jornadeámos até ás 11 e meia da noute, sempre por entre a floresta pomposa.

Partímos no dia 20 ás 8 da manhã, e meia hora depois, passàvamos o leito sêco do rio Cualiba, que vai ao Grande Macaricari, correndo a Oeste.

A floresta ali é cheia de calhaos roliços trabalhados pêla àgua, e povoada de caracoes enormes, e buzios de grandes dimensões.

Fômos acampar àlém do leito do Cualiba, para procurarmos àgua.

Aparecêram alguns Massaruas, mas não nos quizéram indicar onde faziam provisão d'ella, coisa que elles usam com os forasteiros. Depois de vàrias tentativas feitas no leito do rio, pudémos obter àgua n'um pôço que cavámos um kilòmetro a jusante do nosso campo.

Partímos ás 4.25 minutos, parando logo ás 5. e 10, para dar de beber aos bôis em um charco que encontrámos, formado pêla chuva, que cahia torrencial desde as duas horas.

Ainda n'esse dia jornadeámos por duas horas, indo acampar ás 8, depois de termos atravessado uma parte do grande Macaricari.

O Grande Macaricari.

N'aquelle deserto do Calaari, paiz tão notavel, onde a natureza se comprazeu a juntar os mais disparatados elementos, onde a floresta pomposa toca a planicie àrida e sêca, onde a arêa sôlta é continuação do terreno argiloso ao mesmo nivel, onde a secura está, muitas vêzes, perto da àgua; n'aquelle deserto, que por vêzes quér imitar o Saara, outras a Pampa da Amèrica, outras os Stepes da Russia; n'aquelle deserto elevado três mil pes ao mar, uma das cousas mais notaveis é o Grande Macaricari.

O Grande Macaricari é uma bacia enorme, bacia onde o terreno se deprime de 3 a 5 metros, e que deve ter no seu maior eixo de 120 a 150 milhas, e no menor de 80 a 100.

Como tôdos os

Macaricaris

, afecta a forma pròximamente ellìptica, e tem como todos o seu maior eixo no sentido leste-oeste.

Macaricaris

sam, em lìngua Massarua, bacias cobertas de saes, onde a àgua das chuvas se conserva por algum tempo; desapparecendo na estação estiva, por a evaporação, e deixando ali outra vez depositados os saes que dissolvêra. Sam abundantissimos os

Macaricaris

n'aquella parte do deserto, e eu visitei muitos, cujos eixos maiores, sempre no sentido leste-oeste, tinham três milhas, e mais.

As bacias sam de areia grossa, coberta por uma camada cristallina de saes, que atinge a espessura de um a dois centìmetros.

Creio que não é so chlorurêto de sòdio o sal que forma aquella camada, ainda que é aquelle que predomina.

Os depòsitos calcàreos que aquellas àguas deixam pêla ebullição, evidenceiam que os saes de cal tambem se cont[~e]m na camada crystallina dissolvida n'ellas, em proporção notavel.

Fiz collecção de muitos pedaços d'aquella camada que reveste o interior das bacias dos

Macaricaris

, mas, infelizmente, n'uma caixa que cahio ao mar ao embarcar no vapor

Danubio

, em Durban, se perdêram êlles, com outros exemplares preciosos que trazia para a Europa.

O grande lago recebe na estação chuvosa um volume enorme d'àguas pelos rios Nata, Simoane, Cualiba e outros; sendo que todas as àguas que n'aquellas latitudes cahem desde a fronteira do paiz dos Matebeles, v[~e]m a elle, porque o terreno elèva-se progressivamente a leste até ao meridiano 28° ou 28° e 30' de Greenwich.

Estas àguas, que formam torrentes enormes, devem encher o Grande Macaricari em pouco tempo.

Este enorme charco communica com o Lago Ngami pêla Botletle, e o seu nivel é o mesmo d'aquelle Lago; dando esta circunstancia logar a um phenòmeno muito notavel. Estando os dois lagos distanciados de alguns graos, muitas vêzes as grandes chuvas caem a leste, e o Macaricari transborda, sem que as fontes que alimentam o Ngami tenham augmentado de volume. Então a Botletle corre a oeste do Macaricari para o Ngami. Outras vezes dá-se o caso inverso, e o Ngami envia as suas àguas ao Macaricari. Este é o seu curso natural, sendo o Ngami alimentado por um rio permanente e volumoso.

¿Mas o que succede a tôda essa àgua que de tôdos os lados corre ao grande charco? Desapparecerá só pêla evaporação?

¿Não haverá tambem ali uma grande infiltração que por conductos misteriosos e subterràneos vá dar nascença a êsses innumeros riachos, que em plano inferior correm ao mar de uma e outra costa?

¿O que é feito das àguas do Cubango, rio volumoso e permanente, que desapparece n'êsse deserto insondavel?

As àguas do Cubango, na minha opinião, chêgam ao Grande Macaricari e desapparecem ali.

A Botletle não é mais do que o Cubango, que tem um alargamento a que chamáram o Ngami.

Sem o Grande Macaricari, a parte da Àfrica Austral comprehendida entre o parallelo 18 e o rio Orange, seria um paiz fertilissimo, e nas condições climatològicas e meteorològicas que a protegem, seria um paiz de grande futuro.

Bastava o Cubango para a fertilizar. Mas o Cubango, bem como tôdos os rios que quizéram entrar no Calaari, encontrou no seu caminho um paiz arenoso e perfeitamente horizontal, que lhe dispersou as àguas, como que dizendo: "Não passareis d'aqui;" e a pouca que encontrou um esgôto, e pensou salvar-se, foi cahir no Grande Macaricari, que a bebeu àvido, sem que ainda assim podesse matar a sua sêde insaciavel.

Os rios que t[~e]m as suas nascentes ao sul do parallelo 18, e a oeste do meridiano 27, ao norte do Orange, e a oeste do Limpôpo, não sam permanentes; e, caudalosas torrentes na estação das chuvas, não sam mais do que sulcos arenosos na estação estiva.

As àguas de quasi tôdos vam a essa linha que une o Ngami ao Grande Macaricari onde se perdem, talvez para volverem de nôvo n'uma nova estação das chuvas.

Algumas vêzes, como n'aquelle anno, até a Botletle mostrou aos habitantes dos juncaes das suas margens o seu fundo arenoso e branco.

É bem digna de estudo esta parte d'Àfrica, ainda hôje envolvida em misterioso véo, mas tão inhòspita é ella, que por muito tempo saberá occultar os seus segrêdos aos olhos dos investigadôres scientìficos.

No dia 21 seguímos ao Sul, deixando o Macaricari ás 5 horas da manhã, e fomos parar, quatro horas depois, junto de uma pequena lagôa de bôa àgua, produzida pêla chuva que cahio copiosa na vèspera.

O paiz que atravessámos era coberto de vegetação arborescente, sendo o mato formado de espinheiros que difficultavam o viajar.

Partímos ao meio-dia, alcançando pêlas duas horas o ribeiro Tlapam, que, ao contrario do que esperàvamos, não nos offereceu uma gôta d'àgua potavel; e por isso continuámos jornada até ás 9 horas da noute, hora em que encontrámos uma pequena lagôa permanente, a que os Massaruas chamam Linocanim (

o pequeno ribeiro

), porque esta lagôa dá nascença a um pequeno ribeiro que corre a leste, provavelmente ao rio Tati.

Das 6 ás 8 horas cahio sobre nós uma horrorosa tempestade, com copiosa chuva, que encharcou o terreno, tornando difficilimo o rodar dos carros.

Algumas cabras de M^{r.} Coillard e a minha Córa, querendo refugiar-se da tormenta, procuráram abrigar-se debaixo dos vagons, que rodavam, e uma foi logo esmagada pelas rodas.

A minha Córa foi a segunda vìctima. A roda passou-lhe sobre os ilìacos, e eu, ainda que ella chegou viva a Lino Canin, supuz logo que não podia viver muitas horas.

N'aquella noute foi morta no nosso campo uma cobra venenosissima.

Desde o rio Nata até ali, vi mais cobras venenosas do que em tôdo o resto da viagem. Na vèspera um asqueroso e enorme sapo veio meter-se nas peles da minha cama, e ao acordar achei-me cara a cara com tão amavel companheiro. Escorpiões, centopeias e os mais repugnantes insectos, eram meus socios de cama, vindo procurar junto ao meu côrpo o calor que tão apreciado é pelos animaes de sangue frio.

É preciso um hàbito constante do deserto para se poder dormir sobre umas pelles na terra dura em companhia de taes animalejos.

Deve comprehender-se, que estas insignificantes bagatellas, reunidas a todas as outras causas, mantivessem o meu mao humor a uma altura constante. O tempo chuvoso continuava persistente, e o ceo sempre encoberto não me permittia fazer observações astronòmicas, o que contribuia para acirrar o meu espìrito ja muito iracundo.

N'aquelle dia tôdos os meus cuidados, tôdos os meus momentos, fôram dedicados a tratar da minha pobre Córa, que morreu pêla tarde.

¡Pobre animal! Perdi em ti a ùnica grande affeição que encontrei nas terras Africanas, antes de conhecer a familia Europea que me recebeu no seu seio. Perdi em ti a companheira constante dos meus dias de tristeza, a amiga dilecta dos meus poucos momentos de alegria!

¡Pobre Córa! A sepultura que te cavei junto a Linocanim será sempre um pensamento triste na minha lembrança, e as poucas linhas que aqui te consagro, dictadas por a saudade que me deixaste, sam a expressão sincera do muito que eu te queria, pêlo muito que me eras dedicada.

Agora, leitor endurecido e crìtico severo, trata-me de frìvolo pêlo pouco que acabo de escrever de assumpto que taxarás de futil, trata-me como quizeres de mal, que só me darás o direito a lastimar-te. Ha bagatellas na vida que sam verdadeiros acontecimentos para o homem que sente, meras puerilidades para aquelle a quem as paixões ja mirráram o coração.

Se és dos ùltimos, ri-te de mim e deixa-me que te lastime.

Não contesto que me leves grande superioridade, mas eu sou de outro feitio, e estou bem assim.

Córa morrendo deixou-me uma recordação viva n'um filho que tinha, a que os Basutos de M^{r.} Coillard déram o nome Coranhana.

A tarde do dia 22 foi tormentosa, e das 3 horas ás 6 e meia a chuva cahia torrencial.

No dia immediato partímos ás 6 horas, indo parar ás 9 em um logar onde os Massaruas caváram um grande pôço, logar a que elles chamam Tlala Mabelli (

fome de mabelli

).[

7

] No fundo do pôço apenas encontrámos uma lama fètida inaproveitavel.

Ainda n'esse dia fizémos uma jornada de cinco horas e meia, sempre debaixo de chuva copiosa.

A 24 seguímos viagem, e depois de quatro horas e meia de caminho, encontrámos um pôsto de Massaruas, sujeitos ao rei Cama do Manguato. Chamam aquelle pôsto a Morralana, do nome de uma àrvore que abunda ali.

Disséram-nos os Massaruas que podìamos seguir em linha recta, porque a muita chuva cahida nos dias anteriores nos faria encontrar àgua no caminho, sem o quê terìamos de fazer um grande desvio por leste para não morrermos á sêde.

Ás 11 horas começou uma chuva forte que só moderou ás 2; seguímos então, mas logo ás 4 parámos, por termos encontrado uma lagôa cheia de àgua magnìfica, e sabermos pelos Massaruas, que só três dias depois poderìamos encontrar de nôvo àgua aproveitavel.

¡Triste vèspera de Natal! Eu estava n'esse dia de um mao humor atroz. Sentado dentro do vagom para me abrigar da chuva, estavam junto a mim M^{r.} Coillard e as damas.

Elles conversavam, eu estava calado; furioso. Não sei a que propòsito Madame Coillard falou de George Eliot.

Foi como o fôgo chegado á pòlvora aquelle nome que ouvi.

Voltando-me para Madame Coillard, disse-lhe, que George Eliot não escrevia senão disparates, porque era uma mulhér o seu George Eliot, e que uma mulhér só podia escrever disparates.

Madame Coillard, ferida por esta minha brutal aggressão, quiz discutir, mas eu só lhe respondia, que as mulheres não nascêram para escritôras, que logo que se metiam a isso não podiam deixar de escrever tolices; que o seu mistér era governar casas, e não fazer livros.

Chegou a discussão ao ponto de eu ver a bôa dama commovida, e de fugir d'ali.

Momentos depois cahia em mim, e avaliava tôda a extensão do meu arrebatamento, sem poder explicar como se produziam no meu espìrito taes alterações, logo que eu me dirigia a ella.

Eu, o maior admirador de George Eliot; eu, que reli

Romola

e

Adam Bede

, ficando ainda com desejo de ler aquellas obras primas da cèlebre romancista Ingleza; eu que presto um verdadeiro tributo ao mèrito de Staël e Sand; eu que me ufano de ter entre os primeiros literatos do meu paiz Maria Amalia Vaz de Carvalho, a mulhér que escreveu um dos melhores livros que modernamente se tem escrito ali; eu fazendo violencia ao que pensava e ao que sentia, sustentava, contra a minha convicção, uma idéa estùpida, só e só para contrariar aquella bôa dama, que me pagava as aggressões insòlitas com mais cuidados e com mais desvelos!

Amanheceu 25 de Dezembro, dia de Natal, que, sendo dia festivo e de descanço em tôdo o mundo Christão, para nós foi dia de trabalho rude, porque jornadeámos por trêze horas, em três caminhadas, e só á uma hora da noute acampámos.

Era a secura do paiz que nos forçava a alargar as jornadas, e mêsmo assim, só contàvamos ter àgua três dias depois. N'êsse dia encontràmos um bando de Bamanguatos, que o rei Cama mandava a M^{r.} Coillard com bôis frêscos para os vagons. Por elles soubémos a nova das mortes do Capitão Paterson, M^{r.} Sergeant e M^{r.} Thomas, e alguns serviçaes, que tinham ido ao Matebelli em serviço do govêrno Inglez, e que se dizia têrem sido assassinados por Lo Bengula.

A chuva tinha cessado, mas o ceo continuava sempre completamente coberto. Eu fui n'esse dia atacado de um ligeiro accesso de febre, que me quebrou as fôrças. Havia um anno que, em Quillengues, eu luctava com a morte n'aquelle mesmo dia. Estavam então junto a mim Capello e Ivens.

¡Quanto me lembrei d'elles!

¿Onde estariam? ¿Qual teria sido o seu destino no meio d'aquelles paizes inhòspitos? N'êsse triste dia de Natal, fatigado da jornada, abatido da febre, quanto me lembrei tambem dos meus! De minha filha, que fazia annos, e da festa de familia, que se fazia sem mim!

Quantas familias no mundo, n'esse dia, sentadas ás mêsas que vergavam ao pêso das iguarias, desperdiçando vinhos e desprezando a àgua, estavam longe de pensar, que no sêco deserto quatro Europêos fatigados seriam felizes com alguma d'essa àgua, que por tôda a parte era desprezada!

A não ser alguns d'esses entes que de perto nos tocam e que nos não podem esquècer, ¿quem se lembraria de nós em tal dia?

¡Ha momentos bem tristes entre tôdos os momentos sempre tristes da vida do explorador!

No dia 26, logo de madrugada, fizémos uma primeira marcha de quatro horas, andando em uma planicie que se eleva um pouco para o sul, coberta de herva e apresentando aqui e àlém algumas pequenas matas. O terreno de areia amarello-avermelhada deixava enterrar as rodas dos vagons quasi até aos eixos, e tornava difficilima a tracção d'elles.

Ainda n'esse dia fizémos duas jornadas, uma de cinco outra de quatro horas, sem percebermos o menor signal de àgua. Acampámos ás onze e meia da noute, á entrada de um valle, onde o terreno nos pareceu difficil e perigoso de transpor no meio das trevas.

Ao despertar, uma formosa paizagem, formosa para olhos cançados da monotonia e aridez do deserto, nos veio alegrar a vista.

O pequeno valle á entrada do qual passámos a noute era verdejante e bello. As colinas que o formavam não tinham mais elevação de 20 metros, mas eram pintorescas.

Até meia altura deixavam ver a nu um agglomerado de pedras basàlticas cheias de furos, e cujas arestas puidas mostram que houve ali um persistente trabalho da àgua.

Apesar da viçosa herva que cobria o fundo do vale àgua nenhuma encontrámos, ainda que ella deve correr ali em profusão no tempo das grandes chuvas.

Disséram-nos as gentes Bamanguatas que se chamava aquelle sitio Setlequane.

Os bôis dos vagons fugíram durante a noite, e sequiosos fôram ao longe procurar àgua, que não encontráram, sendo reconduzidos ao campo por gente que despachámos em sua busca, só ás 11 do dia.

Partímos a essa hora, e três horas depois encontràvamos o leito sêco do rio Luale. Este rio, como quasi tôdos os d'aquelle paiz, só tem àgua corrente na estação das grandes chuvas, mas em tôdo o tempo pode encontrar-se alguma estagnada em alguns poços mais profundos. Todavia, ali ha àgua permanente, e sendo a primeira permanente que lhe fica ao N. em Linocanim, ha entre estes dous pontos uma distancia de 128 kilòmetros, distancia impossivel de transpor na estação estiva.

Homens e bôis matáram ali a sêde, e nós decidímos seguir logo avante.

Quando ìamos a partir percebémos que faltavam cinco cabras de M^{r.} Coillard.

Fizémos seguir os vagons e as damas, ficando eu e M^{r.} Coillard com alguns prêtos para procurar as cabras.

Eu pude por muito tempo seguir o rasto, mas perdi-o depois; e ás 6 e meia da tarde, ja noute, decidímos ir encontrar os vagons, deixando ali alguns prêtos para continuar as buscas no dia immediato. Partímos sòzinhos por noute de trevas profundas. M^{r.} Coillard, sempre descuidoso, e crente na protecção de Deos, ia desarmado, levando na mão uma ligeira

badine

; eu, que creio em Deos, mas que tambem creio em feras no continente Africano, levava a minha melhor carabina.

Uma hora depois de deixarmos o Luale, ouvímos pròximo de nós á nossa esquêrda, um desagradavel côro de hyenas e chacaes, que não podémos enxergar.

Este M^{r.} Coillard produzia ás vêzes em mim uma impressão estranha.

Ha coisas n'aquelle homem que me não é dado comprehender.

Um dia, narrando-me com tôdo o calor que o seu espìrito de poeta lhe dava, um dos mais commoventes episòdios da sua viagem, me disse elle: "¡Estivémos quasi perdidos!" "Mas," retroqui eu, "o senhor tinha armas, tinha dez homens dedicados e armados com-sigo, podia, nas circunstancias que me pinta, sahir da difficuldade fàcilmente."

"Não podia," me disse elle; "não podia sem matar um homem; e eu não mato um homem, nem mêsmo para me salvar e aos meus."

Fiquei pasmado a olhar para aquelle homem, typo nôvo para mim, sem poder comprehender que n'aquella organização meridional e ardente podesse existir uma coragem de gêlo, uma coragem que não acha explicação no meu espìrito.

Era a coragem filha d'aquellas

flôres d'alma

que um dos maiores poetas Portuguezes soube diffinir e descrever em phrase espressiva e bella. Era a coragem dos martyres, que a poucos é dado entender e sentir. Eu, por mim, declaro que a não entendo, e posso quando muito admiral-a.

Por vêzes, na minha viagem, me encontrei no meio da floresta desarmado, ou melhor falando, sem carabina, que alguma outra arma sempre trazia; e todas as vêzes que isso aconteceu, uma inquietação vaga, uma perturbação ligeira me atribulava o espìrito.

Não posso, por isso, comprehender o homem que passeia nos sertões Africanos de

badine

na mão, vergastando as hervas do caminho. Deve ser sublime aquella coragem, e pena tenho de a não possuir.

O caminho que eu e M^{r.} Coillard seguìamos é povoado de feras, e o valoroso Francez dispunha-se a passal-o sòzinho e desarmado, se eu não teimasse em o acompanhar.

Madame Coillard, em cuidados por nos ter deixado atrás, fez parar os vagons e esperou por nós, que a encontrámos depois de três horas de marcha.

Seguímos logo, indo acampar, á uma hora da noute, junto do ribeiro Cane.

Logo de manhã, appareceu o meu Augusto com as cabras perdidas, que elle encontrara de noute. Seguímos ás 7 horas, a travez de um paiz montanhoso e coberto de luxuriante vegetação, offerecendo a cada passo panoramas lindos.

As montanhas correm a S.O., e todas as àguas, se as houvesse, deviam correr a leste.

Depois de duas grandes jornadas, fomos acampar junto do leito sêco de um ribeiro chamado Letlotze, onde podémos encontrar àgua n'um pequeno pôço. Foi decidido que passarìamos ali o dia immediato, que era Domingo, dia em que a familia Coillard não viajava.

Logo na madrugada seguinte, fomos sobresaltados por uma desagradavel noticia.

Os bôis tinham ido de noute ao charco encontrado na vèspera, e tinham esgotado completamente a provisão d'àgua com que contàvamos.

Figura 127.--Os Desfiladeiros de Letlotze.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo

Mandou-se á descoberta, e foi o meu Catraio quem, depois de longas e demoradas pesquizas, encontrou alguma àgua muito longe do acampamento.

O sitio em que estàvamos era lindissimo, e passámos ali um agradavel dia.

A 30 de Dezembro, posémo-nos a caminho ao alvorecer.

Eu, que acordei n'êsse dia de pèssimo humor, estava possuido de uma verdadeira raiva, e nunca cheguei a sentir tanto òdio a alguem como então senti por aquellas damas, pelo missionario, por tôdos que me rodeavam.

Aquelle estado do meu espìrito atribulado exacerbou-se ao ouvir, que M^{r.} Coillard desejava fazer uma grande jornada n'aquelle dia.

Effectivamente, entestámos com os desfiladeiros de Letlôtze, e caminhámos 25 kilòmetros sem parar.

Parámos emfim, e procurei logo afastar-me do acampamento, para não fazer alguma loucura. Depois de um passeio nos arredores, voltei, e ao aproximar-me do campo por entre os arbustos, vi Madame Coillard, que falava com Mademoiselle Elise com modo contristado.

Não podia ouvir o que diziam, mas o que vi foi bastante para perceber do que se tratava.

Mademoiselle Elise tinha na mão a lata do chá, Madame Coillard um pires. Foi despejado no pires tôdo o contendo da lata, e divido em duas partes, uma das quaes volveu para a lata, outra entrou no bule.

Era o ùltimo chá de Madame Coillard. Compungio-me tanto o ver o sentimento que se lia no rosto de uma dama Escoceza ao servir o seu ultimo chá, que o meu mao humor cahio por terra, e cahio para sempre, porque não mais volveu.

Ainda n'êsse dia jornadeámos por três horas, indo acampar ás 7 e meia em sitio sêco.

A nossa viajem foi sempre pêlos desfiladeiros de Letlôtze, onde um sulco profundo serpea em apertadas curvas, mostrando o leito sêco de um rio do mesmo nome. Sete vêzes atravessámos aquelle sulco, com grande risco dos vagons que se precipitavam das suas escarpas profundas e inclinadas.

As montanhas que corôam aquelle desfiladeiro sam bellas, e a serra apresenta um dentado original.

A 31 de Dezembro, depois de uma jornada de duas horas, entràvamos em Xoxom (

Shoshong

); a grande capital do Manguato.

Ás 8 horas eu comprava um saco de batatas e outro de cebôlas; encontrava um Stanley (que não é H. M. Stanley, mas de quem terei que falar muito); e ás 11 horas comia um òptimo almôço de batatas com presunto, um magnìfico

beef-steak

, e apertava a mão do règulo Càma, o indìgena mais notavel da Àfrica Austral.

Madame Coillard ja tinha nova provisão de chá.

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