CAPÌTULO II.
Reading edition
MOZIOATUNIA.
Viagem ás cataractas--Tempestades--A grande cataracta do
Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.}
Gabriel Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a Deica--A familia
Coillard.
Logo na manhã do dia 16 fiz os meus preparativos de viagem, e bem pouco trabalho tive, porque Madame Coillard ja tinha preparado a parte mais importante d'elles, a dispensa; tendo eu mesmo de entrevir, para mostrar a impossibilidade de levar tudo o que ella queria que eu levasse, pois que não tinha como carregadores mais do que dois homens, Augusto e Camutombo.
Comigo deveria partir toda a minha gente que eu não quiz deixar em Guejuma, receioso de que algum fizesse disparte na minha ausencia. Ficáram apenas as minhas bagagens, a minha cabrinha Córa e o meu
papagaio Calungo.
Para a Àfrica não serve muito o rifão Europêu que diz, "quem tem bôca vai a Roma;" mas sim outro se pode inventar para ali, e é elle, que "quem tem bùssola vai a toda a parte."
Monsieur e Madame Coillard estavam verdadeiramente afflictos por me verem partir sem guia e a pe. Mal sabiam elles quanto me era socia a floresta Africana e como eu sabia andar n'ella.
Outro motivo de afflicção para elles era, a dùvida em que estavam de que me não viesse a faltar àgua no caminho, por eu não ter meio de conduzir nenhuma, e ser o paiz em extremo sêco. Tranquillisei-os como pude, assegurando-lhes, que não contava morrer de sêde.
Como eu devêsse demorar-me de 12 a 15 dias n'aquella excursão, ficou combinado, que elles partiriam para o kraal de Deica, onde eu deveria ir encontral-os.
Finalmente, depois de mil demonstrações da mais afectuosa amizade, parti ás 10 horas, sendo acompanhado durante um kilòmetro por M^{r.} e Madame Coillard, que então se despedíram de mim, e voltáram ao kraal.
Segui sempre ao Norte na planicie, e uma hora depois encontrei uma emmaranhada floresta, em que me embrenhei, para não alterar o meu rumo. Depois de caminhar por quarenta minutos na mata, deparei com uma pequena lagôa de àgua cristalina, e parei junto d'ella para deixar passar as horas de maior calor. A esse tempo uma trovoada longinqua fuzilava ao norte, deixando mal ouvir o rebombar dos trovões.
Deixei aquelle ponto ás 2 horas, a tempo que se formavam em tôdas as direcções trovoadas ameaçadoras. Ás 4 horas, encontrei um trilho de caça muito seguido de frêsco, e indo por elle á descoberta, fui dar a um grande charco lodôso, habitual bebedouro de feras. Acampei ali, e tratámos de construir abrigos contra a chuva que ameaçava cahir em abundancia.
Os pedòmetros annunciavam a marcha de nove milhas geogràphicas.
Na manhã seguinte, parti ás 6 horas, e sustentei marcha de 4 horas, interrompida apenas por uma pequena demora, proveniente de um forte chuveiro que cahio pelas sete horas e meia. Parei para comer junto de uma lagôa que dá nascensa a um riacho correndo a E.S.E.
Ao meio-dia, segui a N.N.E., mas tive que sustar a marcha ás 3 horas, porque os meus ja não podiam dar um passo, tendo os pés despedaçados, pêla pedra miúda e sôlta que encontràvamos desde a 1 hora, no terreno ja bastante accidentado.
Eu mêsmo, doente e fraco, ja não podia soportar as grandes marchas que antes fazia.
Durante a ùltima parte da marcha atravessei três pequenos riachos, que correm a S.E. em leitos basàlticos.
As montanhas pedregosas, mas cobertas de vegetação arbòrea, correm tambem a S.E., e não apresentam elevações, acima dos valles, maiores do que 50 metros.
Acampei junto a um pequeno depòsito de àguas pluviaes.
Na manhã seguinte continuei a jornada, sempre em terreno pedregôso e accidentado. Atravessei florestas muito espêssas, mas onde se não encontram os gigantes vegetaes peculiares á flora intertropical.
Ainda n'essa manhã passei dois còrregos correndo a S.E.
Desde a vèspera caminhava eu em terreno de formação vulcànica. Passou por ali uma revolução enorme, que deixou profundamente assignalada a sua passagem com traços indeleveis, em gigantêscas obras de basalto.
No leito dos ribeiros e na escarpa das montanhas, o sol dardejando os seus raios sôbre a pedra côr de fôgo, faz parecer, que ainda ali correm ondas de lava.
Eu achava-me em bôa saúde, mas os meus difficilmente podiam caminhar descalços, por sôbre a pedra cortante. Fiz apenas marcha de quatro horas, e fui acampar junto de um ribeiro; tratando logo de construir abrigos para nos acolhermos de uma tempestade imminente.
O sitio do meu acampamento era lindissimo. Um ribeiro d'àgua cristalina correndo ao N., ficàva-me por oeste. Um còmoro coberto de frondoso arvorêdo embelezava a leste a paizagem.
No limitado valle, àrvores enormes de muito differentes proporções das que até ali encontrara, cobriam o meu campo formado de quatro pequenas barracas.
Do norte, muito ao longe, o vento trazia um ruido semelhante ao ribombo de mil longinquos trovões. Era Mozioatunia no seu bramir eterno.
Sahi a caçar e encontrei profusão de francolins, de que fiz bôa provisão.
Matei tambem uma lebre, muito differente das da Europa nas côres do pello, menor em tamanho, mas igual em fórmas. Tornàva-se muito distincta, por ter o dôrso e as orêlhas quasi prêtas, e o ventre e cabêça de um amarello d'óchre muito carregado, e pintado de manchas nêgras.
De volta da caça, observei no meu campo um caso muito singular.
Vi milhares de termites trabalhando ao ar livre, e sem o menor cuidado de cobrirem o seu caminho, ja nas àrvores ja na terra. Passei uma òptima noute, depois de um bom jantar de perdizes.
No dia immediato, logo á sahida, passei um pequeno ribeiro que corre a N.O., e depois de se juntar áquelle em cuja margem acampei, corre como elle ao N. Segui sempre o curso d'esse ribeiro n'um valle pedregoso e àrido, e depois de três horas de marcha parei, para descançar e comer o resto das perdizes mortas na vèspera. Segui ao meio-dia, mas, uma hora depois, tive de parar.
Muitas trovoadas, que desde manhã fusilavam perto do horizonte em todas as direcções, subíram aos ares e viéram estacionar sôbre mim. Uma chuva torrencial cahia, ou antes batia, sobre nós, tocada por um vento rijo de N.N.E. Os nimbus espêssos e nêgros, pairavam perto da terra e despediam das suas entranhas carregadas de electricidade, torrentes d'àgua e torrentes de fôgo.
Mappa de Mozioatunia

Como eu disse, o sitio em que caminhava era um valle profundo despovoado de àrvores. Montìculos de rocha terminados por vèrtices ponteagudos, atrahiam o raio que os abrasava com o seu fôgo potente. Uma faísca veio esmigalhar um penêdo a pouca distancia de mim.
Era um espectàculo tremendo e horroroso. Vi ali pêla primeira vez o raio dividir-se. Uma faízca separou-se pròxima da terra em cinco, que partíram quasi horizontalmente a ferir cinco pontos differentes; algumas vi separarem-se em quatro, em duas, e três, quasi tôdas.
Ziguezagues de fôgo cruzavam os ares em todas as direcções, e abrasavam a atmosphera. É preciso ter-se assistido a uma trovoada nos sertões da Àfrica Austral, para bem se fazer idéa do que seja uma tempestade medonha.
A minha gente prostrada por terra, horrorizada e escorrendo em àgua, estava tranzida de frio e mêdo. Eu gracejava com elles e procurava animal-os, mostrando uma tranquillidade que estava mui longe de ser verdadeira.
Uma hora depois a tormenta, como que fatigada do seu pelejar insano, foi diminuindo de intensidade, e eu pude pôr-me a caminho ás 2 horas e meia.
Ás três horas tive de parar, obrigado por uma forte chuva que não se demorou muito em passar.
Pelas 5 horas passava em frente da grande cataracta e acampava a montante d'ella, aproveitando umas barracas que ali encontrei e reconstruí.
Durante a noute uma nova tormenta cahio sôbre o meu campo, e muitas àrvores fôram derrubadas pêlo raio. A chuva torrencial inundou as barracas, apagou os fogos e molhou tudo e a todos. Durou esta tempestade até ás 4 horas da manhã, hora a que cessou quasi de repente.
Foi aquella uma noute cruél. Ali ja ao estampido dos trovões se juntava o bramir da cataracta, e era qual produziria sons mais roucos e medonhos.
O dia amanheceu chuvoso, e até ás 9 horas foi impossivel sahir das barracas.
A essa hora rasgou-se o ceo nublado, e o sol veio illuminar a esplèndida paizagem. Contudo era difficil caminhar n'um terreno encharcadissimo e lodôso.
Uma forte apprehensão me perturbava o espìrito. A chuva da noute estragava o pão e mais provisões dadas por Madame Coillard. Os mantimentos chegariam ainda para dois dias, mas não podiam ir mais àlém. Eu tinha contado com dois recursos, a caça e os Macalacas da outra margem, que me venderiam massango.
Era porem impossivel caçar por tal tempo, e os Macalacas que passáram o rio pediam taes exorbitancias por pequenos pratos de massango, que me não era dado adquiril-os.
Ao meio-dia cheguei á extremidade oeste da grande cataracta. O Zambeze duas milhas a montante da queda corre a E.N.E., e vai encurvando a E., direcção que leva no momento de encontrar o abismo em que se precipita.
¿
Mozi-oa-tunia
, ou
Mezi-oa-tuna
? Não sei, e ninguem o sabe. No paiz uns dizem um nome, outros o outro.
Antes que os Macololos tivessem invadido o paiz ao norte do Zambeze, os Macalacas chamavam
Chongue
á grande cataracta.
Viéram os Macololos e pozéram-lhe um nome da lìngua Sesuto que elles falavam.
Os Macololos desapparecêram e o nome ficou, como ficou aos povos conquistados a lìngua dos invasores.
Um pouco corrompido, é verdade, mas sempre subsistindo, o Sesuto é a lìngua official do Alto Zambeze.
Mezi-oa-tuna
quer dizer em Sesuto "a àgua enorme," e ainda que a phrase parêça um pouco disparatada, esta composição é vulgar entre as linguas bàrbaras da Àfrica Austral, para exprimir uma idéa, que a pobrêza das lìnguas só poderia exprimir por uma longa phrase. Assim pois, pode bem ser que seja
Mezi-oa-tuna
, o nome posto pelos Macololos á grande cataracta.
Figura 123.--Mozioatunia. A queda de oeste.

Eu contudo inclino-me á opinião de Madame Coillard, que conhece a fundo a lìngua Sesuto, de que seja
Mozi-oa-tunia
, o nome dado outróra pelos guerreiros de Chebitano á maravilha do Zambeze.
Effectivamente,
Mezi-oa-tuna
era uma phrase nova, uma composição de palavras feita expressamente, ao passo que
Mozi-oa-tunia
é uma phrase ja feita, quotidiana, vulgar na lìngua dos Basutos. Quando o marido volta a casa e pergunta á mulhér se a comida está ao fôgo, ella responde-lhe "mozi-oa-tunia," "o fumo se levanta." Assim pois é mais de supor que fôsse este ùltimo o nome dado pelos estrangeiros á cataracta, por ser phrase vulgar entre elles, e ser bem apropriada á idéa.
Mozi-oa-tunia não é mais do que uma longa cova, um sulco gigantêsco, aquillo para que se inventou a palavra abismo, mas abismo profundo e immenso, onde Zambeze se precipita n'uma extensão de mil e oitocentos metros.
O corte das rochas basàlticas que formam o paredão norte do abismo, é perfeitamente traçado na direcção E.O., e tem uma extensão de mil e oitocentos metros.
Parallelo a elle, outro enorme paredão basàltico distanciado na parte superior, ao mesmo nivel, de cem metros, forma o outro muro do abismo. Os pes d'estas moles enormes de basalto nêgro, formam um canal por onde o rio corre depois de se despenhar, canal que é de certo muito mais estreito do que a abertura superior, mas cuja largura é impossivel medir.
No paredão do sul, proximamente a três quintas-partes d'elle, a Àfrica foi rasgada por outra fenda gigantêsca perpendicular á primeira; fenda que primeiro se encurva a oeste, e vergando depois pêlo sul a leste, vai conduzindo em caprichôso ziguezague o rio, que ella la no fundo aperta em estreito abraço de rochêdos.
Na cataracta o grande paredão do norte onde o rio se despenha é em partes perfeitamente vertical, apresentando apenas as saliencias e escabrosidades das rochas.
Uma enorme convulsão vulcànica fendeu ali a terra, e produzio aquelle abismo enorme, em que se veio precipitar um dos maiores rios do mundo. De certo o trabalho potente da àgua ja modificou muito a superficie das rochas, mas não é difficil ao ôlho observador, o perceber bem, que aquellas escarpas profundas, distanciadas hôje, fôram despegadas umas das outras.
O Zambeze, encontrando no seu caminho aquella voragem, abìsma-se n'ella em três cataractas grandiosas, porque duas ilhas, que occupam dois grandes espaços no paredão do norte, o dividem em três ramos.
A primeira cataracta é formada por um braço que passa ao sul da primeira ilha, ilha que occupa no rectàngulo que desenha a forma superior da fenda, o extremo oeste.
Este braço precipita-se por isso no pequeno lado oeste do rectàngulo.
Tem sessenta metros de largo e oitenta de queda vertical, cahindo em uma bacia d'onde a àgua vai procurar o fundo do abismo e unir-se ás outras em ràpidos e cascatas quasi invisiveis pêla espêssa nuvem de vapôr que envolve tudo lá em baixo.
A ilha que separa aquelle braço do rio é coberta de vegetação frondosa, vegetação que se estende até ao ponto onde a àgua se despenha, produzindo uma paizagem sorprendente.
É esta a menor das quedas, mas é a mais bella, ou antes a ùnica que é bella, porque tudo mais em Mozi-oa-tunia é horrivel. Aquella voragem enorme, nêgra como é nêgro o basalto que a forma, escura como é escura a nuvem que a envolve, teria sido escolhida se fôsse conhecida nos tempos bìblicos, para imagem do inferno, inferno d'àgua e trevas, mais terrivel talvez que o inferno de fôgo e luz.
Para augmentar o sentimento de horror que se experimenta diante d'aquelle prodigio, até é preciso arriscar a vida para a poder ver. ¡Vel-a! impossivel; Mozi-oa-tunia nem se deixa ver.
Ás vezes, lá no fundo, por entre a bruma eterna, percebem-se formas confusas, semelhando ruinas medonhas.
Sam pontas de rochêdos de enorme altura, onde a àgua, que os açouta, partindo-se em glòbulos se torna nuvem, nuvem eterna, que constantemente alimentada tem de pairar sobre o rochêdo em que se formou, em quanto a àgua cahir e o rochêdo se erguer ali.
Em frente da ilha do jardim, no meio de um arco-iris, concèntrico a outro mais desvanecido, vi eu por vêzes, ao ondular da bruma, desenharem-se confusamente, uma serie de picos, semelhantes aos miranetes de uma cathedral phantàstica, que a um lado lançava aos ares uma frecha de enorme altura.
Continuando a examinar a cataracta, vemos o comêço do paredão N. logo em seguida á queda de oeste, ser occupado em uma extenção de duzentos metros por uma ilha, aquella de que ja falei, que separa o braço do rio que vai formar a primeira queda. Ali é o ùnico ponto em que se vê tôdo o paredão, porque n'aquella extensão de duzentos metros o vapor não chêga completamente a encobrir o fundo.
Foi n'esse ponto onde eu fiz as primeiras medições, e por meio de dois triàngulos, achei para largura superior do corte 100 metros, e 120 para altura vertical do paredão.
Esta altura vertical é superior mais a leste, porque o fundo do sulco desce até ao corte que encana o rio ao sul. N'esse ponto tambem obtive elementos para medir a altura.
Nas primeiras medições eu tinha por base o lado 100 metros, achado para largura superior do sulco, mas era preciso ver o pé do paredão, e tive de arriscar a vida para isso.
Tirei os pannos ao meu Augusto e ao meu muleque Catraio e amarrei-os. Estes pannos de zuarte pintado e ja muito usados, não me offereciam uma grande segurança, mas não tinha outro meio de me suspender no abismo. Passei o fragil amparo em volta do peito, para me ficarem as mãos livres, e tomando o sextante debrucei-me na voragem. Seguravam as extremidades o meu Augusto e um Macalaca da povoação das quedas. Elles tremiam com mêdo e faziam-me tremer, levando eu por isso muito tempo a medir o àngulo. Quando lhes disse que me puxassem, e me pude equilibrar sôbre as rochas, foi como se tivesse acordado de um pesadêlo horrivel.
Li no nonio 50° 10', e logo que registei a medida, comecei a horrorizar-me do que tinha feito. Um excesso de vaidade mal-cabida, o querer apresentar com a maior aproximação a altura da cataracta, acabava de me fazer commetter a maior imprudencia que commetti em tôda a viagem.
Medir e triangular ali é difficilimo, e começa por faltar terreno onde se possa medir uma base com algum rigor.
Eu apenas pude medir 75 metros, e isso com trabalho enorme.
Só posso suppor que os triàngulos feitos pêlo D^{or.} Livingstone da ilha do Jardim, fôram resolvidos só com os àngulos; porque lados não podia d'aquelle ponto medir nenhum. Pena é que não ficasse a fòrmula. A medição da altura com um cordél e uma pedra atada na ponta, acho-a tambem extraordinaria; porque as escabrosidades da rocha deveriam soster o prumo, e àlém d'isso, da ilha do Jardim apenas se vê, na voragem profunda, uma espêssa nuvem que tudo encobre, sendo impossivel divisar nada lá em baixo, ainda que o Doutor atasse á pedra tôda uma peça de algodão branco, em logar de um farrapo de 60 centìmetros, como elle diz que fez. Fôsse como fôsse, elle foi mais feliz e mais esperto do que eu, que pouco fiz, dispondo para isso de melhores instrumentos e mais recursos.
Figura 124.--Mozioatunia. Maneira pouco còmmoda de medir àngulos.

Em seguida á primeira ilha onde fiz as medições, vem a parte principal da cataracta, e é ella comprehendida entre essa ilha e a do Jardim. Ali é que a maior porção d'àgua se despenha n'uma compacta massa de quatrocentos metros de extensão, e ali é que o abismo atinge tôda a sua profundidade. Vem, em seguida, a ilha do Jardim, de quarenta metros de face sôbre a fenda; e depois a terceira queda, formada por dezenas de quedas, que occupam tôdo o espaço entre a ilha do Jardim e a extremidade leste do paredão. Esta terceira queda deve ser a mais importante no tempo das cheias, logo que as pedras que na estiagem lhe dividem as àguas fôrem cobertas, e não existir mais do que uma ùnica e enorme cataracta.
A àgua que cae das duas primeiras quedas e parte da terceira junto da ilha do Jardim, correm a leste, o resto da terceira a oeste, e encontrando-se, unem-se em choque immenso, e voltam ao sul n'um referver
medonho, correndo ràpidas no fundo do abismo, em canal pedregôso, que as entala nos seus caprichosos ziguezagues.
No ponto onde as àguas, ja em um canal ùnico, se dirigem ao sul, fiz uma experiencia que narrarei em capìtulo separado d'este, e que me permittio obter uma altura muito aproximada da maior profundidade do abismo. Não me foi possivel fazer mais, e duvido mesmo que mais se possa fazer, a menos de se ir expressamente preparado para estudar a cataracta; e creio que para isso será possivel inventar algums meios apropriados para trabalhar ali, debaixo de uma chuva eterna, e no meio de um vapôr denso que nada deixa ver.
Figura 125.--O Rio depois da Cataracta.

Ilhas, bordas da cataracta, rochêdos mêsmos, tudo é coberto de uma vegetação esplèndida, mas de um verde-nêgro triste e monòtono, embora um ou outro grupo de palmeiras tente quebrar a melancolia do quadro, fazendo sobressahir as suas palmas elegantes ás copas dos arvorêdos que as cercam.
Uma chuva eterna molha sem cessar as proximidades do abismo, onde rola como que uma trovoada sem fim.
Mozia-oa-tunia não se pode desenhar, e excepto a sua extremidade oeste, tudo ali é nuvem de vapôr, que encobre uma paizagem medonha.
Não é dado visitar esta sobêrba maravilha sem que um sentimento de terror e de tristeza se aposse de nós.
¡Que differença entre a cataracta de Gonha e Mozi-oa-tunia!
Em Gonha tudo é risonho e bello; ali tudo é soturno e triste!
Ambas sam attrahentes, ambas sam verdadeiramente grandiosas; mas Gonha é attrahente e bella como a virgem formosa coroada das flores da innocencia, arrastando o alvo vestido nas ruas do jardim, embalsamadas pelas auras perfumadas da manhã de estio: Mozi-oa-tunia é grandiosa e imponente como o salteador requeimado pêlo sol de verão e pêlo gêlo do inverno, o trabuco na mão, o crime na idéa, entre os fraguêdos da serra, por noite escura e triste.
Gonha é bella como a manhã bonançosa da primavera; Mozi-oa-tunia é imponente como a noute tempestuosa do inverno.
Gonha é bella como o primeiro sorrir da criança nos braços da mãe; Mozi-oa-tunia é imponente como o ùltimo arquejar do ancião nos braços da morte.
Gonha é o bello na sua mais sublime expressão da formosura; Mozia-oa-tunia é o bello na sua mais expressiva revelação da grandeza e magestade.
Depois da contemplação da mais prodigiosa maravilha natural do continente Africano, voltei ao meu campo fortemente impressionado pêlo que acabava de ver. O tempo melhorara, mas conservava-se encoberto. N'essa noute fui assaltado por nuvem de mosquitos, que não me deixáram um momento de repouso.
Logo de manhã, parti para a cataracta, que visitei de nôvo, concluindo os trabalhos começados na vèspera, e que me entretivéram o dia tôdo. De volta ao campo, apparecêram ali uns Macalacas com massango, pedindo-me quatro jardas de fazenda por um prato d'elle, que não continha meio litro de grão.[
6
]
Ainda que muito necessitado de adquirir vìveres, não quiz abrir um tal exemplo, e recusei comprar.
Então o Macalaca disse-me, que a fazenda e a missanga não se comia, que eu teria fome, e então lhe daria tudo o que elle quizesse por um prato de comida.
Fui-lhe dando logo dois pontapés. Chegou o dia 22 de Novembro, dia que eu tinha fixado para o regresso, mas a minha posição era crìtica. Tìnhamos apenas comida para dois dias, e não lograriamos alcançar Deica antes de seis.
Era impossivel partir sem ter feito provisões de mantimentos.
Não esperando ja obter nada dos Macalacas, fui caçar apesar do mao tempo.
Pouco distante do acampamento, pude atirar a uma malanca, e voltava ás barracas para a mandar esquartejar e trazer ali; quando chegou o chefe das povoações das quedas, que pêla primeira vez eu via, e me vinha visitar.
Com elle vinham muitos prêtos, que fôram ajudar a conduzir a malanca que eu havia môrto. Uma tão importante peça de caça fez logo diminuir no mercado o prêço dos vìveres. O chefe foi á sua povoação d'onde trouxe quantidade de mantimentos e duas gallinhas, pedindo-me por tudo a pelle da malanca e o meu cobertor. Necessitado de partir, e não querendo fazer questões, aceitei o contracto, e elle retirou-se satisfeito.
Lá foi o meu cobertor! socio de tantas noutes mal dormidas n'aquelles sertões Africanos.
Pude enfim deixar Mozi-oa-tunia, e fui pernoitar nas mêsmas barracas que tinha construido na tarde do dia 18.
No dia immediato deixei o caminho que seguira até ali quando demandava a cataracta, e endireitei ao sul. Não me tinha sido difficil encontrar a grande cataracta do Zambeze que de longe se annuncia; mas encontrar um ponto que não existe nas cartas e cuja posição eu tinha calculado por informações vagas, não me era facil.
N'um paiz como aquelle, despovoado e virgem, eu poderia bem passar perto do kraal de Patamatenga sem o ver, nem dar d'elle conta. Contudo, pelos meus càlculos, Patamatenga devia-me ficar ao Sul verdadeiro, e eu endireitei para la, dispôsto a não alterar aquelle rumo por nenhum motivo que fôsse.
Depois de marcha de quatro horas, fui acampar junto de um còrrego em sitio medonho. Nem uma àrvore, nem uma herva. Só penedias nêgras formavam a paizagem, escurecida ainda por um ceo carregado de pesados nimbus.
Um silencio profundo reinava n'aquelle pequeno valle da tristeza.
No caminho d'êsse dia encontrei alguns leões, que evitei com cautela.
Vem a propòsito falar aqui de certa mania louca que ataca quasi sempre o explorador noviço. É tal o seu enthusiasmo por afrontar os perigos, que chêga a creal-os onde elles não existem.
A Àfrica offerece cada dia, a cada passo, taes estôrvos ao viajante, taes perigos ao caminheiro, que sam elles de sobra para fazer abortar a maior parte das expedições que tentam devassar os seus segrêdos.
A prudencia deve ser o guia de tôdas as acções do exploradôr; o que não quer dizer, que ella mesma não aconsêlhe, em outra dada circunstancia, um excesso de temeridade, quando essa temeridade fôr precisa á salvação commum.
Uma das maiores loucuras em Àfrica é caçar feras. A pòlvora vale no sertão tanto como o ouro, e o tiro dado em uma fera é um tiro desperdiçado, é o resultado de uma expedição arriscado, é ás vêzes a salvação de tôda uma caravana, que será perdida sem chefe, posta na balança do acaso, unicamente por satisfação de uma vaidade pessoal.
Em quasi tôda a minha viagem, obrigado a caçar para viver, tive muitas vêzes de affrontar as feras; o que não me teria acontecido se, dispondo de recursos sufficientes, me podesse ter dispensado da caça. Uma fera morta em defensa propria e em encontro fortuïto, é um obstàculo destruido; um leão procurado e môrto por o exploradôr geògrapho é um obstàculo creado, é uma imprudencia commettida, é e deve ser um remôrso na sua existencia.
Eu commetti algumas faltas d'essas, e sempre depois tive o arrependimento sincero.
Hôje se voltasse á Àfrica em viagem de exploração ou encarregado de outra qualquer missão importante, não arriscaria o fim principal, para me dar um prazer que é fumo, porque apenas vem um momento lisongear o amor-proprio.
Ja pensava assim, quando de volta da cataracta evitava os leões, que fugiam de mim como eu fugia d'elles.
Não havia lenha perto do sitio onde decidi ficar, e o meu Augusto foi procural-a longe. Trouxe alguns troncos de àrvores sêcos, que, ao partir, deixavam apparecer nas rachas escorpiões enormes. No caminho mesmo, e ainda ali, haviam innùmeros dos repugnantes articulados.
N'esse dia, uma violenta tempestade vinda do S.S.E. passou sôbre nós, e durante duas horas despejou copiosa chuva.
Durante a noute, soprou rijo o vento S.E., que muito nos incommodou, tendo por abrigos, como tìnhamos, apenas um ceo nebuloso. A 24 de Novembro, segui sempre ao Sul por caminho difficil.
As montanhas corriam a S.E. e por isso nós subìamos e decìamos continuamente, em terreno pedregoso, e àrido. Depois de cinco horas de fatigante caminhar, encontrei um pequeno charco, junto ao qual acampei.
Subindo a um outeiro que me ficava pròximo, avistei ao sul uma planicie enorme, onde não pude divisar os menores signaes de àgua, por mais que a perscrutei com o meu òculo potente.
Receei muito que me faltasse a àgua d'ali em diante. É verdade que n'aquelle paiz abunda o
Mucuri
, e onde elle existe não se morre á sêde. O
Mucuri
é um grande auxilio do viajante nas florestas ressequidas da Àfrica Austral. É elle um arbusto de 60 a 80 centìmetros de altura, que produz na extremidade das suas radìculas, uns tubèrculos esponjosos, ensopados de um lìquido insìpido que sacia a sêde.
Não é facil porem encontrar os tubèrculos logo que se encontra a planta.
Crescem êlles nas pontas de pequenas radìculas que, irradiando das raizes principaes, vam muito longe do caule alimentar e desenvolver aquellas excrescencias extraordinarias. O melhor meio de os encontrar é o empregado pêlo gentio Africano, de se collocarem junto á planta e ir descrevendo cìrculos concèntricos a passos lentos, batendo o terreno com um pao. Onde a terra dá um som ôco e surdo ahi estam os tubèrculos, que t[~e]m de 10 a 20 centìmetros de diàmetro e affectam a forma pròximamente esphèrica. Fiz bôa provisão d'elles no dia immediato antes de deixar o sitio em que passei uma pèssima noute.
Sustentei marcha de sete horas, ja em planicie coberta de àrvorêdo e altas gramìneas. De àgua nem signaes.
Pêla tarde parámos extenuados de fadiga, e resolvia acampar, quando sôbre a minha cabêça, na àrvore a que estava encostado, ouvi o arrullar das rôlas Africanas.
A àgua devia estar perto, porque aquella era a hora das avezinhas bebêrem, e sem bebedouros pròximos as rôlas não estariam ali. A rôla em Àfrica é indicio de haver àgua perto do sitio onde se mostra de manhã e á tarde, porque aquella ave não passa sem beber duas vêzes ao dia.
Mandei logo Verissimo e Augusto explorar os arredores, e uma hora depois voltava Verissimo tendo encontrado uma pequena nascente um kilòmetro ao N.O.
Fui acampar ali ja por noute escura.
Pêlos mêus càlculos no dia immediato deverìamos chegar a Patamatenga.
Amanheceu o dia 26 de Novembro, e puz-me em marcha. Logo á sahida do ponto em que acampei, encontrei uma espêssa mata que me levou 20 minutos a transpôr.
Ao sahir d'ella, um ribeiro bastante volumoso corria em leito de pedra, e àlém d'elle um kraal magnìficamente construido, mostrou-me, por sôbre a sua forte palissada o tecto ponteagudo de muitas casas.
Eu tinha dôrmido junto a Patamatenga sem o saber, e tinha passado uma pèssima noute ao relento, quando poderia ter dormido em òptima cama e no conchêgo de uma bem construida casa.
Um Inglez, cujo nome ignorava, veio buscar-me ao rio e levou-me ao kraal, principiando logo, antes de mais conversa, a dar-me de comer. Ás onze horas ja eu tinha comido não sei quantas vêzes, e êlle veio
annunciar-me que se estava fazendo um petisco. Tinha ali um òptimo cosinheiro Europêu. Não consentio que eu seguisse para Deica, sendo o seu argumento, que deveria passar o dia com elle, porque o devia passar.
Escrevi um bilhete a M^{r.} Coillard, a participar-lhe que estava de bôa saúde, e que chegaria a Deica no dia immediato.
O Inglez, logo que vio a minha resolução em ficar, mandou matar o seu melhor carneiro, e convidou-me a ir ver o seu quintal. Fomos, e elle começou a fazer barbaridades. Destruio um batatal nôvo, só para tirar umas seis batatas.
Apanhou quantos tomates, cebolas, e pimentos ali haviam.
Não pude impedir aquelle furor de destruição para me dar a comer de tudo quanto tinha, e até creio que tudo quanto tinha se eu me demorasse em sua casa. O quintal era magnìfico e muito bem tratado, mas n'aquella èpocha do anno pouco podia offerecer. Ainda assim o meu Inglez voltou triumphante com seis batatas, dezaseis tomates, alguns pimentos e muitas cebollinhas que foi entregar ao cozinheiro para o jantar. ¡Jantar!... Eu não sei que nome deverei dar áquella comida! Pelo nùmero devia ser muito mais do que ceia, pêla hora menos do que
lunch
!
Pude soster o furor do meu hospedeiro em dar-me de comer, e consegui ir com elle dar um passeio nos arredores do kraal.
Encontrámos no caminho cinco montìculos de pedras que marcam as sepulturas de cinco Europêos, adormecidos ali para sempre, e deitados ao lado uns dos outros á sombra do arvorêdo, n'essa mesma terra que lhes infiltrou no organismo, pêlo ar que deu a respirar, o veneno que lhes deveria cortar as existencias, com prematuro passamento.
¡Quantos tùmulos como aquelles não t[~e]m um logar incerto, no meio d'êsse continente enorme, e não escondem o segrêdo da sepultura de homens, que deixáram longe affeições e ternuras, que nem podem ter o amargo prazer de derramar uma làgrima sôbre a terra que occulta um ente estremecido!
Os cinco tùmulos de Patamatenga encerram os despojos de cinco homens cujos nômes vou citar, e se algum amigo ainda se lembrar d'elles, terá ao menos o conhecimento do canto da terra onde repousam para sempre.
O primeiro tùmulo encerra Jolly, môrto em 1875; o segundo Frank Cowley, o terceiro Robert Bairn, ambos mortos em 1875; o quarto Baldwin, e o quinto Walter Carre Lowe, mortos em 1876. Em Abril do anno de 1878, morreu tambem ali perto o Sueco Oswald Bagger, que está enterrado em Lexuma.
Figura 126.--Os Tumulos em Patamatenga.

Depois de visitar aquelle cemiterio improvisado no meio do sertão longìnquo, voltei ao kraal de Patamatenga, onde fui obrigado a comer vàrias ceias.
Na conversação com Gabriel Mayer, o meu hospedeiro, eu fugia de narrar qualquer episòdio passado da minha viagem em que figurasse a falta de vìveres, porque ao ouvir taes narrativas, o bom Inglez entrava em furor e mandava logo pôr a mêsa, mêsa que ja me mettia tanto mêdo como por vêzes me tinha mettido a fome.
No dia seguinte, depois de ter almoçado duas vêzes, antes das 7 horas da manhã, parti a essa hora, tendo de levar vàrios petiscos para o caminho, porque Gabriel Mayer não consentio que eu partisse sem essa condição.
Depois de cinco horas de marcha a leste, alcancei o acampamento de Deica, onde a familia Coillard me esperava, e onde fui recebido com as maiores demonstrações de simpathia.
D'aquelle lado não tinha chovido como em Mozi-oa-tunia, e ficámos em grande embaraço para partir, porque encontrariamos o deserto sêco, e impossivel nos seria atravessal-o antes de cahirem as chuvas necessarias para encher os charcos onde deverìamos encontrar a àgua precisa.
Nos dias 28 e 29 de Novembro, percebemos que haviam trovoadas muito ao longe ao Sul e S.S.E., e isso animou-nos a partir, esperando que ellas tivessem despejado alguma chuva no deserto.
No dia 28 improvisei, com anzóes que trazia, uns pequenos aparêlhos de pesca, e fui com as damas Coillard pescar a uma lagôa que nos ficava uns duzentos metros a oeste do campo. Conseguímos pescar muitos peixes miudos, e eu tive um verdadeiro prazer por ver o gôsto que gozavam aquellas senhoras n'um divertimento nôvo para ellas, quando sentiam a ligeira canna vergar ao pêso de um peixe que se estorcia na ponta da linha, prêso ao anzol que a sua imprudente voracidade lhe fizera morder.
No dia 30 resolvémos partir a 2 de Dezembro, ainda que corriamos o risco de não encontrar àgua logo nos primeiros dias de viagem, mas uma importante consideração nos levava a não differir a partida. Èramos quinze pessôas, e a provisão de mantimentos pequena. D'ali ao Bamanguato não poderìamos obter vìveres, e em Deica mêsmo nenhuns podìamos haver.
Era pois preciso caminhar sôbre Xoxom (
Shoshong
) o mais depressa possivel, para alcançar a cidade do rei Khama antes que viesse a fome.
Ficou por isso resolvido que partìssemos no dia dois, resolução que foi apoiada pêla chuva que cahio nos dias 30 do mez e 1 de Dezembro.
Antes de emprehender a narrativa d'essa aventurosa viagem atravez do deserto, preciso dizer duas palavras á cerca dos meus companheiros.
Que elles me perdôem pêlo que vou escrever, se a sua modestia for ferida pelas minhas palavras; mas é preciso que se saiba o nome e os feitos de alguns d'esses obscuros trabalhadores Africanos, que deixam a Europa e a vida civilizada, para irem longe da patria trabalhar tenazmente na grande obra da civilização do Continente Nêgro.
No paiz do Basuto, paiz que confina ao sul e leste com as colonias do Cabo e Natal, e ao norte e oeste com o estado livre de Orange, fôram, ha cincoenta annos, estabelecer-se alguns missionarios protestantes Francezes. Estes homens, cujo nùmero augmentava de anno para anno, conseguíram domar um pôvo bàrbaro de canibaes, e eleval-o a um estado de civilização e de instrucção a que ainda não chegou pôvo algum da Àfrica Austral.
Hôje as escolas Christãs do Basuto contam os discìpulos por milhares, e uma grande parte da população sendo Christã, abandonou a polygamia e os costumes bàrbaros dos seus antepassados.
Os missionarios acháram o campo ja pequeno para o seu nùmero, sentíram a necessidade de expansão, e fôram estabelecer os seus cathechistas para o norte do Transvaal junto ao Limpôpo.
Quizéram ir mais longe, e uma expedição foi organizada, tendo por chefe um joven missionario, com destino ao paiz do Baniais ou Machonas, situado entre o Matabele e as terras Natuas. Esta expedição foi infeliz. Entrando no Transvaal, soffreu insultos dos Boers, que a impossibilitáram de seguir ávante, chegando até a serem prêsos em Pretoria o missionario e seus homens de cathechese.
Foi então que M^{r.} François Coillard, director da Missão de Leribé, foi encarregado de dirigir a expedição que falhara. Partio de Leribé, ponto situado perto do rio Caledon, affluente do Orange e a oeste do Mont-aux-sources, e com sua espôsa e sua sobrinha e seus cathechistas, caminhou ao Norte, e por entre innùmeras difficuldades, que só uma vontade tenaz pode vencer, conseguio alcançar o paiz a que se destinava.
Muito bem recebido pelos Machonas, deu comêço aos seus trabalhos, quando foi atacado por uma fôrça de Matebeles, que o fizéram prisioneiro e o conduzíram com tôda a expedição perante o seu chefe, Lo-Bengula.
O que o missionario e aquellas pobres damas soffreram durante o tempo que estivéram em poder do terrivel chefe dos Matebeles é uma historia triste e compungente.
O chefe, que pretende ter direitos sôbre o paiz dos Machonas, exprobou-lhes o terem ido ali sem a sua prèvia licença, e não lhes permitio voltar lá.
Retrogradou pois até Xoxon, capital do Manguato, e não querendo deixar sem resultado tão dispendiosa e fadigosa jornada, deliberou fazer uma tentativa sôbre o Barôze. Tinha a vantagem de falar a lingua do paiz, bem como os seus cathechistas, que, Basutos de origem, podiam trabalhar facilmente em um paiz onde se falava a sua propria lìngua.
Não foi feliz no Barôze, e ainda que bem recebido e cheio de promessas do astuto Gambela, não lhe consentíram o accesso àlém de Quisseque.
Fôram estes, que exponho muito resumidamente, os motivos que leváram a familia Coillard ao Alto Zambeze, e que occasionáram o nosso encontro n'aquellas remotas paragens.
M^{r.} Coillard e sua espôsa, á èpocha do nosso encontro, estavam em Àfrica havia ja vinte annos!
M^{r.} Coillard é homem de quarenta annos, sua espôsa tem a idade que tem tôdas as damas casadas logo que passam dos vinte e cinco, não tem idade.
O missionario nutre uma grande paixão pelos indìgenas, á civilização dos quaes votou a sua vida.
Sempre tranquillo em gesto e palavra, não se altera nunca, e só tem na bôca o perdão para todas as faltas que vê commetter.
François Coillard é o melhor e o mais bondoso dos homens que eu tenho conhecido.
A uma intelligencia superior reune uma vontade inquebrantavel, e a teimosia precisa para levar a cabo qualquer emprehendimento difficil.
Muito instruido, o missionario Francez tem uma alma moldada para comprehender os mais sublimes sentimentos, e é mesmo poéta.
Procurando e glorificando-se de encontrar qualidades bôas nos indìgenas Africanos, não vê ou não quer ver as más.
É um grande defeito êsse, mas tem elle ampla escusa na sublimidade dos sentimentos que o dictam.
Madame Coillard, como seu marido, é de uma bondade extrema.
Não se chêga a ella o necessitado sem ir satisfeito, o triste sem ir consolado.
Para elles tudo sam irmãos, e tanto estendem a mão ao indìgena como ao Europêu, ao pobre como ao rico, logo que indìgena, Europêu, pobre e rico precisam d'elles.
Eu, por mim, não lhes poderei nunca agradecer os serviços que me fizéram, serviços que me obrigáram tanto mais, quanto maior foi a delicadeza com que fôram feitos.
O correr da narrativa mostrará quem sam estas gentes de quem falo agora muito lacònicamente, e que deviam ser meus socios na longa viagem que ìamos emprehender a traves de um deserto desconhecido, porque, deixando o caminho das caravanas, ìamos traçar uma nova estrada.