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A Mãe

SEGUNDA PARTE

Augusto de Lacerda translation

I

...O resto do dia passou n’um nevoeiro entrecortado de recordações, n’uma fadiga extrema que opprimia corpo e alma. Como uma sombra pardacenta, o officialsito saltitava sob os olhares da velha, e em negro redemoinho movediço luziam o rosto bronzeado de Pavel e os olhos risonhos de André...

A velha ia e vinha pelo quarto, sentava-se junto da janella, olhava para a rua, tornava a levantar-se e franzia o sobrolho; sentia-se estremecer, relanceava os olhares em torno; e com a cabeça esvaída, procurava o que quer que fôsse, sem mesmo saber o que queria... Bebeu agua sem acalmar a sêde, sem extinguir no coração o ardente brazeiro de angustia e de humilhação que toda a consumia. Aquelle dia apresentava-se-lhe dividido em duas partes. A primeira tinha uma significação, um conteúdo, mas a segunda era como se se evaporasse, era um vacuo absoluto. Pélagué não encontrava resposta á pergunta tremente de perplexidade que a si propria apresentava:

—Que havia de fazer... agora?...

Maria Korsounova appareceu então. Poz-se a gesticular com força, gritou, chorou, bateu o pé, alvitrou e prometteu qualquer coisa, ameaçou quem quer que fôsse. Mas tudo aquillo não conseguiu impressionar sequer a outra.

—Ah! dizia a voz destemperada de Maria, assim como assim, o povo mexeu-se d’esta vez... Ahi a teem em revolta, toda a fabrica!

—É verdade, é, respondeu baixinho Pélagué, meneando a cabeça. E com o olhar fito, considerava quão longe ficára o passado e tudo o que d’ella se afastára com André e com Pavel. Não podia chorar. Tinha o coração confrangido mas arido; os labios seccos tambem, como a garganta. Tremiam-lhe as mãos e tinha arrepios gélidos pelas costas. Mas subsistia n’ella uma scentelha de colera, fixa, cravada no coração qual agulha. E a tal intimo instigamento respondia ella com uma promessa de fria reflexão:

—Esperem um pouco!...

E então, tossindo ruidosamente, franzia as sobrancelhas.

Pela noite, veio a policia. Recebeu-os sem admiração nem temor. Entraram pela casa dentro fazendo muita bulha, com ares satisfeitos. O official de pelle amarellada disse, mostrando os dentes:

—Então como vae isso? É esta a terceira vez que nos encontramos, an?

Ella ficou-se em silencio e passou a lingua pelos beiços para humedecel-os. Entrou então o official a falar muito, em tom de pessoa fina. E Pélagué percebia que elle falava pela satisfação de se ouvir a si proprio. Mas as palavras nem lhe chegavam aos ouvidos nem a impressionavam. No entretanto, quando o official lhe disse:

—Tu propria tens culpas, porque não soubeste inspirar a teu filho o respeito a Deus e ao Imperador...

Respondeu sem o fitar:

—Os nossos filhos é que são os nossos juizes... Elles hão de condemnar-nos, e com toda a razão, visto que os deixámos seguir tal caminho...

—O quê? gritou o official, fala mais alto!

—Digo que os nossos juizes são os nossos filhos! repetiu com um suspiro.

O outro poz-se então a discorrer em voz rapida e irritada, mas as frases precipitavam-se e não commoviam a velha.

Citada como testemunha, Maria Korsounova ficára de pé ao lado de Pélagué, para quem nem olhava. Quando o official lhe fazia qualquer pergunta, inclinava-se logo muito baixo e respondia em voz monotona:

—Não sei, Excellencia! Sou uma pobre mulher ignorante, só trato do meu negocio... Graças á minha estupidez, nada sei...

—Cala-te d’ahi! ordenou o official retorcendo os bigodes com violencia.

—A mulher inclinou-se, e logo, fazendo-lhe um gesto de provocação que elle não viu, murmurou:

—Toma, guarda lá este!

Mandaram-lhe que revistasse a velha. Pestanejou primeiro; depois fitou o official, com os olhos muito abertos. E declarou com voz submissa:

—Mas eu não sei fazer isso, Excellencia!

O official bateu o pé, zangado.

—Está bem... Desabotoa-te, Pélagué, disse Maria. E muito córada, passou a revolver e a apalpar o fato da outra, commentando baixinho:

—Ein? que corja!

—O que é? gritou o official desabridamente, e insinuou o olhar, desconfiado, pela abertura por onde Maria se desempenhava da tarefa.

—Nada, Excellencia, não é nada; coisas que só nós usamos... murmurou Korsounova timidamente.

Ao ordenar-lhe o official que assignasse o auto de investigação, Pélagué traçou estas palavras n’uma calligrafia desconforme, em grandes letras garrafaes:

«Pélagué Nilovna Vlassof, viuva d’um operario».

—Que escreveste tu ali? Porque escreveste aquillo? prorompeu o official, de sobrecenho carregado e em tom de desdem; e accrescentou com um riso de mofa: Que selvagens!

Retiraram-se os guardas. A mãe foi pôr-se deante da janella. Com os braços cruzados no peito; para ali ficou muito tempo, olhando sem vêr.

Desfranzira as sobrancelhas, e comprimia os labios. Ao mesmo tempo, apertava as maxillas de encontro uma á outra, com tal força, que dentro em pouco ficou com dôr de dentes. Acabára-se o petroleo do candieiro, a luz ia a sumir-se, crepitando. Soprou-a de vez e ficou ás escuras. A colera e a humilhação de havia pouco desappareciam n’ella; agora era uma nuvem negra e fria de angustia e de louco terror, que toda a penetrava, que lhe enchia o peito, difficultando-lhe o pulsar do coração. E immovel permaneceu, até sentir cansados os olhos e as pernas. Ouviu então sob a janella, Maria parar e gritar-lhe com voz avinhada:

—Pélagué! Estás a dormir? Minha pobre Pélagué!... Dorme, dorme! Todos estão soffrendo os mesmos enxovalhos,—ouves?—todos!

Deitou-se sobre a cama, sem se despir, e caíu em somno profundo, como quem rola para um precipicio.

Em sonhos, viu-se junto do montículo de saibro amarello que ficava para lá do pantano, no caminho que conduzia á cidade. Ali, no cume da encosta, que dava accesso ás pedreiras d’onde se extraía a areia, Pavel cantava em voz doce, mas com uma voz que era a mesma de André:

Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido...

Pélagué passou por diante do monticulo e contemplou seu filho, ao mesmo tempo que levava a mão á fronte. Destacava-se nitidamente o perfil do rapaz no fundo azul do ceu. Mas a mãe sentia vergonha em approximar-se d’elle, pois que estava gravida. E levava ao colo, outra criança. Proseguiu no seu caminho. Pelos campos, havia outras creanças a brincar com uma bolla; eram muitas, as creanças, e a bolla era vermelha. O pequenito que tinha nos braços queria ir brincar com os outros e entrou a fazer grande berreiro. Deu-lhe de mammar e voltou pelo mesmo caminho. O monticulo estava já então occupado por muitos soldados que lhe apontavam as baionetas. Deitou a fugir em direcção a uma egreja edificada em meio dos campos, uma egreja muito branca, altissima e de levissima construcção, como se fôsse formada de nuvens. Lá dentro, cantavam-se responsos; o caixão era grande, preto, hermeticamente fechado. Padre e acolyto, vestiam alvas d’immaculada brancura, e entoavam: «Christo ressuscitou d’entre os mortos...»

O acolyto agitou o turíbulo e, ao avistar Pélagué, sorriu-lhe. Tinha os cabellos ruivos e uns modos prazenteiros, assim como Samoílof. Da cupula caía raios de sol em verdadeiras toalhas. E, no côro, crianças repetiam a meia-voz:

«Christo ressuscitou d’entre os mortos»...

—Prendam-nos! gritou subitamente o padre, estacando a meio da egreja. A alva que vestia tinha desapparecido e no rosto surgia-lhe um bigode grisalho e espesso. Todos se puzeram em fuga, até mesmo o acolyto, que atirára para longe o turíbulo e apertava a cabeça entre as mãos, como o russo-menor costumava fazer. A mãe deixou caír a criança sob os pés dos fieis que se afastavam evitando-a, com olhares de temor para o pequenino corpo nu. Ella caíra de joelhos e gritava:

—Não abandonem a criança! Salvem-na...

E, de mãos atraz nas costas, com um sorriso nos labios, o russo-menor proseguia cantando:

—«Christo ressuscitou d’entre os mortos!...»

Pélagué abaixou-se, agarrou na criança, pôl-a n’um carrinho ao lado do qual Vessoftchikof ia caminhando vagarosamente. Este ria, dizendo:

—Sempre me deram um trabalhão!...

Percorriam uma rua muito suja. Pelas janellas, havia gente que assobiava, gritava, gesticulava.

—O dia estava claro, brilhava o sol com ardor; não havia uma nesga de sombra, em parte alguma.

—Cante, cante, tiasinha! disia o russo-menor. É a vida, isto!

—E ia cantando sempre, dominando tudo com a sua boa voz sonora e jovial. A mãe seguia-o, lamentando-se.

—Porque está elle a mangar comigo?

N’isto, recuou; mas logo se sentiu despenhar para um grande abysmo sem fim, que escachoava com estrondo...

Accordou em sobresalto, toda a tremer, banhada de suores; apurou o ouvido, perscrutando-se. Estupefacta, sentiu vasio o proprio peito. Parecia-lhe que mão desconhecida, ferrenha, lhe esquadrinhára o seio e, tendo-se-lhe apoderado do coração, lho estava a apertar brandamente, como em cruel brinquedo. O silvo da fabrica uivava teimosamente. Pelo som, calculou que fôsse já a segunda chamada.

Reinava a desordem no quarto; livros e fatos jaziam de mistura, no sobrado emporcalhado; tudo em confusão.

Levantou-se, cuidou dos arranjos, sem se lavar, sem mesmo rezar. Na cosinha, encontrou um pao que ainda conservava amarrado um farrapo encarnado; pegou n’elle e, irritada, esteve para atiral-o para debaixo do fogão; mas, suspirando, tirou e dobrou cuidadosamente o pedaço de panno vermelho e meteu-o na algibeira. Em seguida, procedeu a uma grande lavagem ao sobrado e á janella. Acabou de vestir-se, arranjou o samovar e depois foi sentar-se ao pé da janella da cosinha, a repetir a si mesma a pergunta da vespera:

—Que se ha de fazer?

Mas lembrou-se que ainda não tinha orado; postou-se por alguns momentos diante das imagens santas, e depois tornou a sentar-se. No logar do coração tinha um vacuo. O proprio pendulo do relogio, ordinariamente tão agil, dir-se-ia ter afroixado o seu tic-tac precipitado. As moscas zumbiam hesitantes e debatiam-se estonteadas de encontro ás vidraças...

Reinava em todo o bairro um silencio singular; parecia que toda aquella gente, que na vespera tanto gritára pelas ruas, se tivesse escondido em suas casas para reflectir em silencio n’aquelle extraordinario dia.

De subito, Pélagué recordou-se de uma scena que presenciára uma vez, quando era rapariga: no velho parque dos senhores Zoussailof havia um vasto tanque todo esmaltado de nenufares. Por ali passára em um dia d’outono nevoento e triste; a meio da laguna, um barco jazia, como que estatico na agua tranquilla e sombria, salpicada de folhas amarellecidas. E d’esta embarcação sem remos nem remadores, solitaria e immovel na agua opaca, entre folhas mortas, provinha funda melancolia, um pezar mysterioso. Pélagué permanecera ali muito tempo, procurando adivinhar quem impellira a canoa para longe da margem e porquê... Afigurava-se-lhe agora ser ella mesma igual á barquinha que outr’ora a levára a pensar n’algum esquife á espera do cadaver. N’esse mesmo dia, á noite, viera a saber-se que a esposa do intendente se havia afogado,—uma mulhersinha de modos saccudidos, os cabellos pretos sempre em desalinho...

Passou a mão pelos olhos, como para expulsar taes recordações, mas logo o pensamento indeciso e horrorisado lhe deslisou brandamente para as impressões da vespera, dominadoras. Com os olhos apegados á chavena de chá, que lhe arrefecia na frente, conservou-se longamente immovel, sentindo nascer-lhe na alma o desejo de falar com quem quer que fôsse, sincero e intelligente, para lhe perguntar innumeras coisas.

E, como de proposito para realisar o seu desejo Nicolao Ivanovitch appareceu pela volta da tarde. Ao vêl-o, apoderou-se d’ella brusca inquietação. Com voz sumida, disse sem responder aos cumprimentos de Nicolao:

—Ah! tiosinho; fez mal em vir até aqui! É uma imprudencia; se o vêem, prendem-no!

Depois de lhe ter apertado a mão com energia, Nicolao Ivanovitch segurou melhor os oculos no nariz, e ao ouvido d’ella, explicou-lhe rapidamente, em voz baixa:

—É que nós tinhamos combinado, o André, o Pavel e eu, que se os prendessem, eu havia de vir buscal-a logo no dia seguinte, para a levar para a cidade. Vieram cá fazer alguma busca?

—Vieram; revolveram tudo; até me apalparam. Essa gente não tem consciencia nem pudor!

—E porque o haviam de ter? retorquiu Nicolao com um encolher d’hombros; e logo lhe expoz as razões por que era conveniente que ella passasse a residir na cidade.

A outra escutava aquella voz amiga, cheia de sollicitude, fitava aquelle rosto de resignado sorriso e sentia-se admirada da confiança que tal homem lhe inspirava.

—Uma vez que o Pavel assim decidiu, e se não o incommodo... disse.

—Não pense n’isso, interrompeu elle logo. Vivo sósinho, minha irmã só raramente apparece...

—Mas é que eu quero trabalhar, quero ganhar o meu sustento!

—Pois se quer trabalhar, ha de se lhe encontrar trabalho, descanse!

Para ella, a idéa do trabalho relacionava-se indissoluvelmente com a especie de actividade a que se entregavam seu filho, André e os mais companheiros. Approximou-se de Nicolao e perguntou-lhe fitando-o muito:

—Parece-lhe?...

—Pois está claro! A casa não é grande, e quando a gente vive só...

—Não lhe falo d’isso, falo-lhe da nossa grande empreza... explicou em voz baixa.

—E soltou um suspiro triste, melindrada por não ter sido compreendida. Nicolao ergueu-se e, franzindo os olhos myopes n’um sorriso, declarou em tom de gravidade:

—Pois para a grande causa, tambem ha-de ter que fazer, se quizer...

Uma idéa simples e clara formára-se subitamente no espirito d’ella. Já uma vez conseguira auxiliar Pavel; talvez o conseguisse de novo. Quanto mais gente houvesse a trabalhar por tal causa, tanto mais clara se tornaria aos olhos de toda a gente a razão que a Pavel assistia em defendel-a. E ao mesmo tempo que analisava a fisionomia bondosa de Nicolao Ivanovitch, esperava ella que este lhe falasse compassivamente de Pavel, de André e d’ella propria. Mas o outro limitou-se a acrescentar, acariciando a barba, como que absorto:

—Veja se póde saber pelo Pavel, quando lhe falar, as moradas d’esses camponezes que pediram jornaes...

—Já as sei! exclamou ella alegremente. Sei perfeitamente quem elles são e onde moram. Dê-me o jornal que eu mesma lh’o levo. Eu mesma irei procural-os e farei o que me mandar... Ninguem será capaz de suppôr que levo commigo livros proíbidos. Deus seja louvado, bastantes kilos d’elles metti na fabrica!

Era como um súbito desejo de partir, de ir ao acaso, fôsse para onde fôsse, pelas estradas sem fim, por bosques e aldeias, com o cajado na mão e a alcofa ao hombro.

—Não encarregue mais ninguem d’esse serviço, peço-lh’o, meu amigo, disse ella. Irei a toda a parte onde julgar preciso. Não tenha medo, que não me perderei, seja em que provincia fôr. De verão e de inverno, caminharei sem descanso... até morrer! Tornar-me-ei um apóstolo por amor da verdade. Não será digno de inveja o meu destino? Que bella vida, a do viandante! Vaguear pelo mundo, sem se possuir nada e sem se ter necessidade de coisa alguma, a não ser do pão de todos os dias; não humilhar ninguem; percorrer a terra, tranquillamente e sem que ninguem nos conheça!... Tambem eu quero viver assim!... E hei de encontrar Pavel, hei de encontrar André, hei de chegar até onde elles estiverem...

Mas aqui entristeceu ao ver-se já, em pensamentos, sem lar, errante, a mendigar em nome de Deus pelas portas das cabanas...

Nicolao agarrou-lhe meigamente na mão e affagou-lh’a ao calor das suas.

—Havemos de falar n’isso mais tarde! declarou, olhando para o relogio. É perigosa a tarefa de que quer encarregar-se... pense bem!

—Meu bom amigo! exclamou ella. Para que serve pensar? Pois se os nossos filhos, a parte mais pura do nosso proprio sangue, parcellas dos nossos proprios corações, os que mais do que tudo nos são queridos, sacrificam vida e liberdade e morrem sem contemplação por si mesmos, o que não hei de eu de fazer, eu, que sou mãe?

Nicolao fez-se pallido.

—Sabe que é a primeira vez que oiço falar d’essa maneira?...

—Que sei eu dizer! murmurou ella, sacudindo desconsoladamente a cabeça. E os braços penderam-lhe n’um gesto de desalento. Se eu encontrasse palavras que exprimissem o que sente o meu coração de mãe!...

E ergueu-se, impellida pelo ardor que n’ella se concentrava e lhe excitava no cerebro frases candentes de revolta.

—...Muitos haviam de chorar... até os malvados, os entes sem consciencia...

Nicolao ergueu-se e tornou a ver as horas.

—Pois então, fica combinado, vem para minha casa, para a cidade!

Ella abanou a cabeça, sem uma palavra.

—Quando ha de ser? continuou Nicolao. O mais depressa possivel. E accrescentou com meiguice:

—Vou ficar em cuidado por sua causa, palavra!

Pélagué ergueu para elle um olhar admirado: que interesse podia ella inspirar áquelle homem? O outro permanecia de cabeça baixa, com um sorriso de constrangimento, myope e um tanto corcovado, no seu modesto fato preto.

—Tem dinheiro em casa? perguntou sem a fitar.

—Não.

Com vivacidade, tirou logo da algibeira uma bolsa, abriu-a e apresentou-lh’a.

—Ahi tem, tire, se faz favor...

A pobre mãe esboçou involuntario sorriso e, com um meneio de cabeça, observou:

—Como tudo está mudado! O proprio dinheiro já não tem valor para vocês. Ha por ahi gente capaz de tudo para o possuir, que chega até a perder a propria alma... e para vocês não passa d’uns bocados de papel... d’umas rodelas de cobre... Chega-se a imaginar que se vocês o têm é só por caridade para com os outros!

—O dinheiro é na verdade desagradavel e incommodo, retorquiu Nicolao Ivanovitch, rindo. É por igual coisa enfadonha pedil-o ou dal-o!...

Tomou lhe novamente da mão, apertou-lh’a fortemente.

—Venha o mais depressa que possa, sim? repetiu.

E, como das outras vezes, foi-se sem fazer ruido. Ao despedir-se d’elle, Pélagué pensava:

—É tão bom homem!... Comtudo não teve uma palavra de compaixão...

E não chegou a perceber bem se tal facto lhe era desagradavel ou se lhe causava simples admiração.

II

Quatro dias apóz a visita de Nicolao, punha-se Pélagué a caminho, em direcção a casa d’elle. Quando o carro que a transportava e ás duas malas, atravessou o burgo e rodou em pleno campo, voltou-se para traz ainda uma vez e sentiu n’esse instante que era para sempre que abandonava aquelle logar onde decorrera a quadra mais sombria e penosa da sua vida, onde outra existencia começara, periodo replecto de novos desgostos e de novas alegrias, em que os dias voavam velozes.

Semelhante a immensa aranha d’um vermelho escuro, estendia-se a fabrica ao longo do solo sujo de fuligem, erguendo muito ao alto na atmosphera, as enormes chaminés. Em torno, amontoavam-se os casinhotos do operariado. Pardacentos e mesquinhos, formavam grupo compacto á beira do charco e pareciam entreolhar-se lastimosamente pelas suas janellinhas sem brilho. A meio d’elles erguia-se a igreja, de côr vermelha como a fabrica, com o seu campanario, que parecia menos elevado do que as chaminés da fabrica.

A pobre mulher suspirou, desapertou a gargantilha do vestido, que a incommodava. Ia triste, mas de uma tristeza arida como a poeira d’uma tarde d’estio.

—Para diante! resmungava o carroceiro, puxando pelas redeas. Era manco, de idade imprecisa, com uns olhos sem côr definida e uns raros cabellos de tom sujo. Bamboleando-se todo, caminhava ao lado do vehiculo, demonstrando claramente que o fim da viagem, qualquer que elle fosse, se lhe tornava totalmente indifferente.

—Para diante! repetia com uma voz sem timbre, atirando por maneira caricata com as pernas cambadas, calçadas de grossas botas cheias de lama. A passageira, essa, vagueiava o olhar em torno. A desolação da planicie era tão profunda como a da sua alma...

O cavallo, saccudindo lamentosamente a cabeça, enterrava as patas pela areia profunda, que rangia, froixamente requentada pelo sol. A carroça, em mau estado e com os eixos mal azeitados, chiava a cada volta das rodas. A todos estes ruidos vinha juntar-se a poeira.

Morava Nicolao Ivanovitch no extremo da cidade, n’um pequeno pavilhão pintado de verde, encostado a um sombrio predio de dois andares, a caír de vetustez, em rua solitaria. Á frente do pavilhão, havia um jardim, de fórma que pelas janellas dos trez quartos mettiam-se as frescas ramadas de algumas acacias, lilazes e um ou outro alamosinho prateado. Os quartos eram aceiados e silenciosos; sombras mudas e recortadas, tremiam sem cessar nos sobrados; pelas paredes havia prateleiras carregadas de livros e alguns retratos de pessoas de modos graves e ponderados.

—Parece-lhe que lhe ha de agradar isto? perguntou Nicolao, introduzindo a sua hospede n’um quarto com uma janella para o jardim e outra para o pateo coberta por espessa relva. E, n’este como nos outros quartos, guarneciam as paredes varias estantes carregadas de livros.

—Antes queria ficar na cosinha.

Falava assim porque lhe parecia ver em Nicolao o receio de qualquer coisa. Elle dissuadiu-a de tal proposito, mas com uns modos de constrangimento, e logo que ella renunciou a ir habitar na cosinha, tornou a mostrar-se satisfeito.

Reinava em toda a casa particular atmosfera: era agradavel respirar ali, mas as vozes instinctivamente faziam-se menos ruidosas; não se sentia o desejo de falar alto, nem de perturbar a beatifica meditação das personagens que do alto das suas molduras olhavam concentradamente.

—Estas plantas precisam de ser regadas, disse ella depois de tatear a terra dos vasos.

—Sim, sim, concordou o dono da casa, um tanto confuso. Bem vê, gosto muito de flôres, mas não tenho tempo para tratar d’ellas.

Notava Pélagué que, mesmo em sua casa, bastante confortavel aliás, Nicolao movia-se com prudencia, sem fazer bulha, como que estranho e a mil leguas de tudo o que o cercava. Ia pôr a cara mesmo em cima do que queria vêr; compunha os oculos com os dedos afusados da mão direita, assestando, por assim dizer, uma interrogação muda, a cada objecto que considerava. Dir-se-ia que fizera a viagem com a sua hospede e que tudo n’aquella casa lhe era desconhecido. Então, ao vêl-o assim distraído, Pélagué entrou a sentir-se inteiramente á vontade na sua nova habitação.

Precedida de Nicolao, percorria a casa, notando de memoria o logar de cada objecto e interrogando o seu amigo sobre os seus habitos de vida, ao que este dava respostas embaraçadas, como alguem que tivesse a consciencia de não proceder como deveria, mas que não tivesse outro expediente a tomar.

Regadas as plantas e reunidas em um só monte as musicas esparsas sobre o piano, deu com o samovar.

—Tem de ser limpo, observou.

Nicolao passou um dos dedos pelo metal embaciado pela sujidade e, pondo-o mesmo diante do nariz, observou-o com attenção. Isto fel-a rir com gosto.

Quando se encontrou na cama, e depois de ter recordado as peripecias de tal dia, Pélagué deitou a cabeça fóra da roupa e poz-se a olhar em volta. Era a primeira vez na sua vida que se via em casa de um estranho. Não se sentia perturbada com esta idéa. Sollícitamente, pensou no seu hospedeiro; a si propria prometteu amenisar-lhe a existencia com um pouco de carinhosa affeição. Impressionavam-na a timidez, o feitio desgeitoso e ridiculo de Nicolao, a expressão a um tempo ingenua e séria dos seus olhos claros. E logo o pensamento lhe vôou para o filho; reviveu mentalmente os episodios do dia primeiro de maio. Esta lembrança causava-lhe uma dôr particular, como particular fôra aquelle dia: era um soffrimento que não abatia a cabeça para o solo como a pancada d’um malho, mas que torturava o coração com mil picadas e excitava surda colera, fazendo altear-se o dorso corcovado da velha.

—Como é triste ter filhos para os ver partir por esse mundo fóra!... pensava. E apurava o ouvido, escutando os ruidos, desconhecidos para ella, da vida nocturna da cidade, que lhe chegavam amortecidos e atenuados pela janella aberta, por entre as folhagens do jardim, vindos de longe, a morrerem suavemente dentro do quarto.

Pela manhã, cedo, procedeu á limpeza do samovar e accendeu-lhe o lume; guardou toda a loiça sem fazer barulho; depois, foi sentar-se na cosinha e esperou que o seu hospedeiro accordasse. Houve um ruido de tosse e appareceu Nicolao com os oculos na mão.

Tendo correspondido aos bons dias que este lhe dirigiu, Pélagué levou o samovar para a casa de jantar, emquanto Nicolao se lavava, espalhando a agua pelo sobrado, deixando caír a todo o momento o sabonete, a escova, resmungando de continuo contra si proprio.

Ao almoço, Nicolao participou-lhe:

—É bem triste a minha occupação na administração da provincia: emprego-me em observar como é que a nossa gente do campo se arruina...

E repetiu com um sorriso contrafeito:

—Sim, observo, é o verdadeiro termo. Essa pobre gente morre de fome, ainda novos, lá vão para a cova, roidos pela miseria; as creanças nascem fracas e enfesadas, caem aos centos, como as moscas, quando chega o inverno... Sabemos tudo isso perfeitamente... conhecemos as causas d’essa calamidade e afinal, depois de as termos analisado, recebemos o nosso ordenado... e ficamos por aqui.

—Mas o senhor o que é? perguntou Pélagué. Foi estudante?

—Nada; era mestre-escola rural... Meu pae é director d’uma fabrica em Viatka; e eu fiz-me professor. Mais tarde, por ter distribuido uns livros pelos habitantes do logar, atiraram commigo para uma enxovia. Depois, fui empregado de livraria Ali, parece que tambem commetti qualquer imprudencia, porque fui outra vez preso: então mandaram-me para a provincia d’Arkhangel... Por lá tive tambem os meus desaguisados com o governo local e fui recambiado lá para as margens do mar Branco, para um logarejo onde vivi cinco annos...

E dizendo isto, a voz resoava-lhe calma e suave na tranquilidade d’aquelle quarto claro, inundado de sol.

Frequentes vezes tinha a sua interlocutora ouvido historias do genero d’aquella; mas nunca pudera compreender porque era que quem as contava o fazia com tal placidez, sem que nunca formulasse, por tantos soffrimentos, uma accusação contra ninguem, como se aquillo devesse fatalmente acontecer a todos...

—Sabe que chega hoje minha irmã, annunciou elle.

—É casada?

—Viuva. O marido foi exilado para a Siberia. De lá conseguiu fugir, mas no caminho apanhou um resfriamento e morreu no estrangeiro, ha de haver dois annos.

—Sua irmã é mais nova do que o senhor?

—Não, tem mais seis annos do que eu... Devo-lhe muitos favores... Ha de ouvil-a tocar n’aquelle piano, que é mesmo d’ella... de mais, ha aqui muita coisa que lhe pertence... Os livros, esses, são meus...

—E onde mora?

—Em toda a parte! respondeu elle, sorrindo. Onde quer que seja precisa uma creatura decidida, lá a encontrarão...

—Então tambem trabalha pela nossa causa?

—Está claro!

Dito isto, saíu em direcção á sua repartição e a velha ficou-se a pensar n’aquella causa commum que de dia para dia tornava os homens tão frios e obstinados. Parecia-lhe estar em frente de altissima montanha, em plena escuridão.

Por volta do meio dia veio uma senhora alta e elegante, vestida de preto. Aberta a porta, a recemchegada atirou para o chão uma malinha amarella e tomou com vivacidade uma das mãos de Pélagué, interrogando:

—A senhora é a mãe do Pavel Vlassof, não é?

—Sou eu, sim, senhora! declarou Pélagué, constrangida pela elegancia da dama.

—Pois a senhora é tal qual eu a tinha imaginado! Meu irmão mandou-me dizer que vinha viver para casa d’elle! Somos amigos velhos, seu filho e eu... Falava-me tanto de si!

A voz era baça; exprimia-se com lentidão, mas tinha gestos rapidos e saccudidos. Brilhava-lhe nos grandes olhos cinzentos um franco sorriso de mocidade. Algumas rugasinhas delicadas sulcavam-lhe já as fontes, e por cima das orelhas bem feitas ondeava um ou outro cabello branco, como prata.

—Venho com fome! declarou. Não desgostava de tomar uma chavena de café...

—Vou preparar-lho immediatamente, disse a outra; e, ao tirar uma cafeteira do armário, inquiriu em voz baixa:

—Então sempre é certo que o Pavel lhe falava de mim?

—Com certeza, e até muitas vezes!

E a irmã de Nicolao tirou da algibeira uma carteirinha, tomou de um cigarro e accendeu-o. Percorrendo o quarto a grandes passadas, proseguiu:

—Está em cuidados por causa d’elle?

Pélagué sorria, fitando a chamma azulada da lampada de espirito de vinho, a crepitar sob a cafeteira. O constrangimento de havia pouco desapparecera na sinceridade da sua satisfação.

«Fala então muito em mim, o meu filho!» pensava.

E proseguiu:

—Pergunta-me se estou em cuidado?... Com certeza, é bem triste o que se passa... Mas antigamente era peor ainda... Agora, como sei que elle não está só...

Fixou o olhar no rosto da sua nova conhecida.

—Como se chama, minha senhora? perguntou.

—Sofia.

Passou a examinal-a melhor. Havia n’aquella mulher o que quer que fôsse de audácia, demasiada confiança em si própria e excessiva precipitação. O seu falar era por demais imperioso.

—O que é importante é que os companheiros não vão ficar muito tempo na cadeia, e que sejam julgados depressa. Quando o Pavel estiver na Siberia, nós o faremos fugir... Ninguem póde passar sem elle, aqui...

Sofia procurava com a vista onde deitar a ponta do cigarro; por fim enterrou-a n’um dos vasos de flôres.

—Olhe que assim a planta morre! observou a velha machinalmente.

—Queira perdoar! disse Sofia. É isso o que o Nicolao me está sempre a repetir...

E retirando do vaso a ponta de cigarro, atirou-a pela janella.

—Sou eu que lhe peço desculpa. Falei sem reflectir. Não é a mim que compete repreendel-a.

—E porque não?... Se eu sou uma estouvada! redarguiu Sofia serenamente e com um encolher de hombros. O café está pronto? Muito obrigada! Então, só uma chavena? Não se serve?

E, collocando-lhe as mãos nos hombros, puxou-a para si, fitou-a e perguntou-lhe em tom de admirada:

—Estará por acaso a fazer cerimonia?

A outra respondeu com um sorriso:

—Ainda hontem cheguei aqui, e já hoje me parece que estou em minha casa e que conheço a senhora ha muitos annos... Nada receio; digo o que me vem á cabeça; faço observações...

—E está muito bem! exclamou Sofia com entusiasmo.

—Nem sei onde tenho a cabeça! Nem já me conheço! continuou Pélagué. Antigamente, a gente estudava as pessoas por dentro e por fóra primeiro que lhes falasse com o coração nas mãos; agora, não, parece que nada se receia, dizem-se de repente coisas que d’antes nem mesmo nos atreviamos a pensar... e que de coisas!

Sofia accendeu outro cigarro; pousára o olhar cinzento na sua interlocutora, cariciosamente.

—Disse ha pouco que se ha de arranjar a fuga do Pavel... Mas como vae elle viver depois?

Era esta pergunta que importunava Pélagué e que conseguira emfim formular.

—É coisa facil! respondeu Sofia, servindo-se outra vez de café. Ha de viver como vive grande numero de evadidos... Olhe, agora acabo eu de ir buscar um d’elles, que acompanhei até ao estrangeiro. É tambem um homem valioso; é operario no sul; foi condemnado a cinco annos de degredo, mas só cumpriu trez annos e meio. É por este motivo que me vê tão bem vestida. Julgava que era o meu trajo habitual? Não; detesto os farrapos e os enfeites... A humanidade é de origem humilde; deve trajar com humildade,—vestuario bem feito mas simples...

Pélagué, abanando a cabeça, disse em voz baixa:

—Ah! esse primeiro de maio é que me pôz as idéas em confusão! Não me sinto bem; chega-me a parecer que vou por duas estradas, ao mesmo tempo... tão depressa julgo que compreendo tudo, tão depressa me vejo cercada de nevoeiros... A senhora, por exemplo... Vejo que é uma senhora fina... e a senhora tambem trabalha pela nossa causa... conhece o Pavel... e diz que o tem em grande conta... Não sei como agradecer-lhe...

—Não, os agradecimentos são para si, disse Sofia, rindo.

—Para mim?! Não fui eu que lhe ensinei essas coisas todas! respondeu a mãe com um suspiro. Dizia-lhe eu então, continuou: umas vezes, tudo isto me parece simples, outras, nem essa mesma simplicidade eu posso compreender... Assim, agora, encontro-me com o espirito socegado, d’aqui a instantes, já sinto medo por me vêr tão socegada. Toda a minha vida tenho passado em meio de inquietações... e agora, que ha motivo para receios, já quasi não sinto medo... Porque é isto? Não sei!...

Pensativamente, Sofia respondeu:

—Ha de vir um dia em que tudo compreenderá!... Parece-me tempo de abandonar todos estes esplendores de vestuario...

Collocou a ponta do cigarro no pires, e saccudindo a cabeça, fez rolar sobre os hombros, em madeixas espessas, os doirados cabellos. Depois saíu...

A outra seguiu-a com a vista, suspirou, olhou em torno e começou a arrumar a loiça, com a cabeça vasia de idéas, prostrada por uma somnolencia que a amodorrava.

III

Pelas quatro da tarde, Nicolao estava de volta. Ao jantar, Sofia contou, rindo, o seu encontro com o forçado evadido; falou do terror d’esse homem, sempre a vêr espiões em todos os cantos, e dos modos exquisitos do evadido... No tom de voz em que falava alguma coisa fazia lembrar á velha Pélagué a fanfarronada d’um operario que terminou uma tarefa difficil e que d’ella se gaba.

Vestia agora Sofia um roupão cinzento, leve e adejante que lhe cahia dos hombros até aos pés em pregas harmoniosas, vaporoso e simples.

Este novo trajo fazia-a parecer mais alta, ao passo que o olhar se lhe annuviára e os movimentos se lhe tornavam mais serenos.

—É preciso que trates d’outro negocio, Sofia! disse Nicolao, terminado o jantar. Como sabes, ha idéa de editar um jornal para a gente dos campos... mas, graças ás ultimas prisões effectuadas, os laços que nos uniam a esses camponezes, quebraram-se. Só Pélagué sabe como poderemos rehaver o homem que se encarrega da distribuição do jornal... Parte com ella... o mais cêdo que possas...

—Está bem, disse Sofia, recomeçando a fumar. Está combinado, mãesinha?

—Porque não? Pois, vamos!

—E é longe?

—Oitenta kilometros, pouco mais ou menos.

—Optimamente!... Agora vou tocar um bocado de piano... Está disposta para um pouco de musica?

—Nada me pergunte, faça de conta que não estou aqui, respondeu ella. E foi sentar-se para um canto do canapé coberto de uma capa de linho. Notava ella que os dois irmãos, sem parecerem ligar-lhe importancia, a intromettiam todavia, e a meude, na conversação.

—Ouve isto, Nicolao; é de Grieg. Trouxe hoje a musica. Fecha a janella!

Abriu a partitura e acariciou as teclas de mansinho, com a mão esquerda. As cordas entraram a vibrar em accordes indolentes e pesados.

Houve primeiro um profundo suspiro, depois outra nota veio juntar-se ás primeiras, n’uma forte e tremente amplidão de som. A mão direita entrou então em resonancias claras, em gritos parecidos com os de uma ave assustada; balanceou-se depois, em cadencia, imitando o palpitar das azas no fundo sombrio das notas graves, que cantavam, harmoniosas e compassadas, quaes vagas batidas pela tempestade. Em resposta á canção, vinham logo caudaes de accordes soturnos, chorando com dôr, suffocando queixumes, implorações, gemidos, tudo fundido n’um rythmo de angustia. Por vezes, como n’um impulso de desespero, a melodia soluçava, desfallecida; mas logo recaía, rastejando, hesitante, sob a torrente espessa e cascadeante das notas cavas, e afogava-se, sumia-se, para de novo reaparecer por entre o ribombar igual e monotono; tomava alento, então vibrava e dissolvia-se por fim n’um poderoso martelar de notas humidas que toda a salpicavam, e ficava a suspirar sem cansaço, com a mesma força e a mesma resignação...

Ao principio, a música não impressionou Pélagué; não a compreendia; era para ella como um cáos de sonoridades. O ouvido não lhe permittia distinguir a melodia na palpitação complexa d’aquella alluvião de notas. Meio somnolenta, fitava Nicolao, sentado no outro extremo do canapé, com as pernas dobradas por debaixo do corpo; considerava tambem o severo perfil de Sophia, de cabeça inclinada, sob o velo espesso dos seus cabellos d’oiro. Ia pôr-se o sol. Um raio tremulo nimbou primeiro a cabeça, o hombro da pianista; depois, deslisando para o teclado, brincou-lhe entre os dedos. Toda a sala estava cheia d’aquella melodia, e o coração da mãe despertava emfim, sem que ella mesma o percebesse. Succediam-se, entretanto, trez notas vibrantes como a voz de Fédia Mazine, regularmente e sustentando-se mutuamente á mesma altura, taes trez peixes de prata fluctuando n’um regato, scintillando por entre a torrente dos sons...

De vez em quando, outra nota mais vinha juntar-se ás primeiras, e, todas ao mesmo tempo, entravam a cantar uma canção ingenua, triste e acalentadora. E Pélagué começava a poder seguil-as, esperando que voltassem, não escutando outra coisa, abstraíndo-as do cáos inquietador da harmonia geral, que pouco a pouco ia deixando de ouvir...

E subitamente, das negruras remotas do seu passado, veio-lhe a recordação d’uma humilhação esquecida havia muito, mas que ressuscitava agora com nitidez cruel.

De uma vez, o marido voltára-lhe para casa tardíssimo e completamente embriagado. Puxára-a pelo braço, atirára-a da cama e enchera-a de pontapés, regougando:

—Vae-te d’aqui, canalha, que não te posso aturar!... Vae-te!

Para se esquivar aos maus tratos, tomára precipitadamente nos braços o filho, que então tinha dois annos, e, firmando-se nos joelhos, protegia-se com o corpinho do innocente, como se fôsse um escudo. O pequeno chorava, barafustava, com medo, nu, e quentinho do berço.

—Vae-te d’aqui! rugia Mikhaíl.

Ella saltára da cama, descalça, correra á cosinha; então, atirando uma camisola para os hombros e embrulhando a criança n’um chale, sem uma palavra, sem um queixume nem uma exortação, com os pés no lagedo, saíra para a rua. Era em maio, a noite ia fresca; a frigida terra da calçada collava-se-lhe aos pés, penetrando-a toda, regelando-a.

A criança chorava sempre e debatia-se. Desnudára o seio, conchegou a si o pequeno; e, instigada pelo medo, lá se foi pelas ruas escuras, cantando baixinho para adormecer o filho. Ia despontar o dia; Pélagué toda se envergonhava com a ideia de ser encontrada n’aquelle estado. Desceu até á margem do pantano, sentou-se no chão debaixo de compacto bosque de álamos... E para ali esteve muito tempo, disfarçada na treva, com os olhos esgazeados fitos na escuridão, a cantar timidamente para embalar o filho e o coração ultrajado. Subito, uma ave negra, silenciosa, esvoaçára-lhe por sobre a cabeça e sulcára o ceu, accordando-a. E a tremer de frio, erguera-se e lá voltára para casa, a arrostar com o seu habitual terror das sevicias e das injurias incessantes...

Pela ultima vez, ecoou um accorde sonoro, mas de indifferença e frieza, que n’um suspiro se immobilisou no ambiente.

Voltou-se Sophia e a meia voz perguntou ao irmão:

—Gostas?

—Muito! respondeu, estremecendo como se saísse d’um sonho; muito!...

Os dedos de Sophia desfiaram então um harpejo suave e harmonioso.

No intimo do seu peito, Pélagué escutava ainda o echo debil e tremente das suas recordações. O seu desejo era que a musica proseguisse. E um pensamento germinava n’ella:

—Ora aqui está uma gente que vive socegada... o irmão, a irmã... muito amigos... Entretêem-se com a musica... Não dizem palavradas, não bebem aguardente, não questionam por qualquer futilidade... nem pensam sequer em offender-se um ao outro, como se faz entre toda a gente de baixa extracção...

Sophia, entretanto, fumava um cigarro. Fumava muito, quasi sem descanso.

—Era este o trecho favorito do pobre Kostia! disse, aspirando com força uma fumaça, e assentou de novo a mão, n’um debil accorde triste. Como eu gostava de lh’o tocar! Era tão intelligente! Nada havia que não compreendesse... O espirito d’elle era accessivel a tudo.

—É do marido que fala, pensou a hospede. E sorriu.

—Quanta felicidade elle me trouxe! continuou Sophia em voz baixa, ao passo que acompanhava os seus pensamentos com leves accordes repetidos. Como elle sabia viver bem!... Sempre alegre, de uma alegria infantil, cheia de vida, que todo o illuminava...

—Infantil! repetiu a mãe comsigo mesma.

—É verdade, disse Nicolao, revolvendo a barbicha, uma alma de illuminado!

Sophia atirou fóra o cigarro ainda acceso, voltou-se para Pélagué, perguntou:

—Esta bulha não a incommoda?

—Já lhe disse que não se importe comigo, respondeu ella com um ligeiro despeito que não poude disfarçar. Eu nada percebo d’isso... Estou aqui quieta, a escutar e a pensar...

—Não, senhora, é preciso que compreenda! replicou Sophia. Uma mulher, principalmente quando está triste, não póde deixar de compreender a musica...

E pulsou as teclas com força. Resoou um grito violento, como se a alguem acabassem de dar uma d’estas noticias terriveis, das que ferem em pleno coração e arrancam um dolorido queixume. Entraram então a vibrar umas vozes frescas que, logo, horrorisadas e desconcertadas fugiram velozmente, não se sabia para onde; de novo, ecoou uma outra voz sonora e irritada, abafando todo o conjunto... Era com certeza uma desgraça, mas desgraça que incitava coleras, não gemidos. Depois outra voz energica mas reconfortante entrou a entoar uma canção bonita e simples cheia de persuasão, de incitamento. Surdamente, em tom de melindre, as vozes dos graves murmuravam...

Sofia tocou por muito tempo ainda. Pélagué sentia-se perturbada. Todo o seu desejo era perguntar o que significava tal musica, que assim fazia germinar n’ella imagens indistinctas, sentimentos, pensamentos mutaveis sem cessar. O pezar e a angustia cediam o logar perante as scintillações d’uma serena alegria; dir-se-ia que um bando de invisiveis passarinhos redemoinhasse pela sala, acariciando as almas com o perpassar das delicadas azas, contando gravemente alguma coisa que provocasse instinctivamente o curso do pensamento com palavras incompreensiveis, acalentando os corações com esperanças vagas, enchendo-os de força e de vigor.

E Pélagué sentia o ardente desejo de dizer o que quer que fôsse meigo aos seus companheiros. Sorria ternamente, enebriada por aquella música.

Procurou com a vista o que poderia fazer; ergueu-se, e nos bicos dos pés, foi para a cosinha dispôr o samovar.

Mas o desejo de se tornar util não se lhe extinguiu, continuava a pulsar-lhe no coração com obstinada regularidade; serviu depois o chá com um sorriso de embaraço e de commoção, com a alma banhada em tepidos effluvios de sollitude que ella partilhava por igual entre si e os seus companheiros.

—Nós cá, gente do povo, explicou, sentimos tudo, mas é nos difficil exprimil-o, não podemos formar senão ideias incertas; e envergonhamo-nos de não podermos dizer o que se sente. E quantas vezes, para falar com consciencia, a gente não se zanga com as proprias ideias e com aquelles que nol-as suggerem! Entramos a irritar-nos e afugentamol-as! Em que agitações se passa esta vida! É ella que por todos os lados nos assalta e nos magoa. Era tão bom descansar!... mas os pensamentos não deixam á alma um só momento de repouso e ordenam-lhe que veja, que oiça.

Nicolao escutava-a, com approvações de cabeça; limpava os óculos com movimentos saccudidos; Sofia encarava fixamente aquella mulher, esquecida do cigarro, que se apagára. Continuava sentada ao piano, e de vez em quando afagava o teclado. Accordes muito brandos acompanhavam assim as considerações da anciã, a qual se deu pressa em revestir os seus pensamentos intimos com palavras da mais simples sinceridade.

—Agora, posso falar um pouco de mim propria e dos meus... porque já compreendo a vida, e comecei a conhecel-a quando pude comparar. D’antes, não tinha pontos de comparação. Na nossa classe, todos levam vida igual. Hoje, que vejo como vivem os outros, lembro-me de como eu vivi e custa-me muito o recordal-o... Emfim, é impossivel voltar atraz; e mesmo quando o pudessemos fazer, não encontrariamos uma nova mocidade...

Baixou a voz; proseguiu:

—Talvez eu esteja dizendo coisas insensatas ou nescias, pois que o senhor e sua irmã devem conhecer tudo isto... mas vejam que é de mim que estou falando e que falo a quem teve a bondade de me chamar para o seu lado.

Tremiam-lhe na voz lagrimas de grata felicidade; fitou-os a ambos com um olhar muito risonho e continuou:

—Queria abrir-lhes a minh’alma para que vissem todo o bem que lhes quero.

—Mas nós bem vêmos! disse Nicolao com bondade. E sentimo-nos felizes por têl-a na nossa companhia.

—Sabem o que isto me parece? interrogou ella, sempre com voz sumida, risonha, parece que foi um tesoiro que eu achei, que estou rica, que posso presentear toda a gente... Isto é talvez um effeito da minha tolice...

—Não diga tal! interrompeu com gravidade Sofia.

Não era para acalmar de pronto aquella sêde de expansão; continuou portanto Pélagué a falar-lhes de tudo o que para ella era novo e lhe parecia de inapreciavel importancia. Contou-lhes a sua miserrima vida cheia de humilhações e resignado soffrer; por vezes, interrompia-se; julgava ter-se afastado de si mesma e estar falando de si como o faria de qualquer outra...

Sem rancor, em termos correntios e nos lábios sorriso de piedade, desenrolou em presença de Nicolao e da irmã a monotona e lugubre história dos seus tristes dias, enumerado os maus tratos infligidos pelo marido, intimamente admirada, ella própria, da futilidade dos pretextos que os provocavam, admirada por não ter sabido esquivar-se-lhes...

Attentos e silenciosos, Nicolao e Sofia escutavam-na; sentiam-se esmagados pela significação profunda d’aquella historia, d’aquelle ente humano tratado como um animal e que passára tanto tempo sem sentir a injustiça da sua condição, sem um murmurio. Eram milhares de vidas a falar pela bocca d’aquella mulher. Tudo n’esta existencia era banal e indifferente, mas havia pelo mundo innumeravel quantidade de creaturas avergadas áquelle modo de vida... E, avantajando-se mais e mais nos seus raciocínios, aquella história assumia as proporções d’um símbolo... Nicolao, com os cotovellos sobre a mesa, a cabeça entre as mãos, quedava-se immovel, considerando a sua hospede por detraz do vidro dos óculos, com os olhos piscando de attenção. Sofia, reclinada no espaldar da cadeira, sentia-se estremecer, murmurava de quando em quando o que quer que fôsse, abanando a cabeça negativamente. Deixára de fumar; o seu rosto parecia agora mais magro ainda, e mais pálido.

—Um dia, começou ella, em voz baixa, senti-me muito infeliz; parecia-me que toda a minha vida nada mais era do que um delírio de febre. Estava eu então no desterro, n’uma miseravel povoação da provincia, onde nada tinha a fazer, ninguem em quem pensar, a não ser em mim propria... Para occupar este ocio, puz-me a fazer a conta das minhas infelicidades, recordando-as todas: ficára de mal com meu pae, a quem estimava, fôra expulsa do collegio por lêr livros proíbidos; em seguida, fôra a prisão, a traição d’um companheiro a quem muito queria, a captura de meu marido, outra vez a prisão e o degredo, a morte d’elle... E então parecia-me que a mais desgraçada creatura de toda a terra era eu... Mas todos os meus males justapostos e decuplicados, não chegam a valer um mez da sua vida, pobre mulher... não! Essa tortura de todos os dias durante annos e annos... Onde vão os pobres buscar essa força contra o soffrimento?

—Acabam por se habituar! respondeu ella, suspirando.

—E julgava eu conhecer o mundo! disse Nicolao, pensativo. E afinal, quando não se trata só de impressões fragmentadas, quando não é já um livro que nos fala, mas uma creatura em pessôa, como é horrivel! E os pormenores são tambem horrorosos, os proprios nadas, cada um dos segundos que formam um anno inteiro!...

E a conversa proseguia em voz baixinha. Mergulhada nas suas recordações, Pélagué extraía do crepúsculo sombrio do seu passado todas as injúrias mesquinhas e habituaes; ia compondo negro quadro de mudo horror immenso, em que sossobrava a sua juventude de mulher. De repente, exclamou:

—Ai, e eu aqui a palrar!... São horas de nos irmos deitar! É impossivel contar tudo!

Nicolao inclinou-se diante d’ella mais do que costumava e apertou-lhe com mais força a mão. Sofia acompanhou-a á porta do quarto, e ali, parando, murmurou:

—Durma bem!... Boa noite!

Era caloroso o seu falar; envolvia n’um meigo olhar de caricia o rosto de Pélagué... Esta agarrou-lhe em uma das mãos e, apertando-a nas suas, respondeu:

—Quanto lhes agradeço!

IV

Quatro dias depois, apresentavam-se a Nicolao as duas mulheres pobremente vestidas de saias de chita já usadas, de cajados na mão e alforge ao hombro. Este trajo tornava Sofia mais baixa e dava-lhe á fisionomia uma expressão de austeridade.

—Parece que passas a vida a jornadear de convento em convento! disse-lhe o irmão.

E ao despedir-se d’ella, apertou-lhe a mão com energia. Mais uma vez, notou a velha esta simplicidade e esta calma. Decididamente, não eram pródigos de beijos nem de demonstrações de estima, e comtudo, mostravam-se tão sinceros um para o outro, tão sollicitos para com os estranhos! Porque nos meios onde Pélagué vivera, todos se beijavam muito, todos se animavam com bonitas palavras, o que não impedia que se mordessem como cães damnados.

Atravessaram as viandantes a cidade, alcançaram o campo e tomaram a vasta estrada bem calcetada, orlada de velhas bétulas.

—Não estará cansada? inquiriu a mais idosa.

—Julga que não estou costumada a andar? Pois engana-se...

Jovialmente, por entre risadinhas, como se tratasse de travessuras de criança, Sofia entrou de contar os seus feitos de revolucionária. Vivera já com um nome supposto, servindo-se para isso d’um passaporte falsificado; disfarçára-se para fugir aos espiões, transportára para diversas cidades muitos quintaes de brochuras proíbidas. Tinha arranjado a fuga a muitos companheiros exilados, acompanhára-os ao estrangeiro. De uma vez, montára na sua própria casa uma imprensa clandestina; e quando os gendarmes, sob denuncia do delicto, tinham vindo proceder ás buscas, disfarçara-se ella de criada, minutos antes d’elles chegarem e saíra, cruzando-se com os inquisidores já no limiar do predio. Sem uma capa, com uma simples mantilha pela cabeça e de amotolia de petroleo em punho, percorrera de outra vez a cidade de extremo a extremo, sob um frio rigoroso, em pleno inverno. D’outra occasião, porque se tivesse dirigido a casa de uns correligionarios, n’uma cidade distante, ia a subir a escada quando percebeu que havia lá policia, varejando. Era tarde para saír do prédio; bateu portanto com o maior atrevimento, no andar de baixo. Entrou em casa de gente que não conhecia, de mala na mão, e tratou de pôr a claro o acontecido.

—Os senhores podem denunciar-me se quizerem, mas não os julgo capazes d’isso declarára ella convictamente.

Atrapalhadissimos, não fecharam os olhos toda aquella noite, julgando a todo o momento que lhes vinham bater á porta. Comtudo, não a denunciaram e, chegada a manhã, mangaram, como ella, com a polícia. Tambem lhe acontecera vestir-se de irmã da caridade e fazer viagem no mesmo compartimento e no mesmo assento do vagon em que ia um espião encarregado de lhe seguir a pista, o qual, para fazer valer a sua esperteza, se lhe puzera a contar como era que procedia em tal diligencia. Estava certo o homem de que Sofia ia n’aquelle comboio, em segunda classe: e a cada nova paragem, descia e commentava regressando para o pé da pseudo religiosa:

—Não a vejo... Provavelmente vae a dormir. É que essa gente tambem cansa... Levam uma vida tão dura... tal qual a nossa!

A outra ria com estas historias, olhava para Sofia com affecto. Alta e magra, a joven senhora caminhava com passo leve mas firme; tinha os pés fortes e bem feitos. Na maneira de andar, no falar, no proprio timbre da voz, decidida se bem que um pouco baça, em toda a sua figura esbelta, transparecia uma como bôa saude moral, uma audacia alegre, um desejo de ar e de espaço, e os seus olhares para tudo se dirigiam com uma expressão de juvenil contentamento.

—Olhe aquelle pinheiro tão bonito! exclamou, mostrando uma arvore á sua companheira, que parou para vêl-a. Mas o pinheiro, afinal, não era nem maior nem mais folhudo que os outros.

—É verdade, bonita arvore! repetiu, risonha.

—Olhe uma cotovia!

E os olhos pardos de Sofia brilharam de satisfação. Ás vezes, com movimentos flexuosos, baixava-se, apanhava uma flôr e acariciava-lhe amorosamente as petalas tremulas com o ligeiro contacto dos seus dedos afusados e ageis. E trauteava canções meigas.

Pelo caminho, cruzavam-se com peões ou campónios empoleirados nas suas carroçadas, que lhes diziam:

—A paz seja comvosco!

Brilhava um lindo sol primaveril; todo o vasto azul resplandecia; aos dois lados da estrada, estendiam-se densas florestas de madeiras resinosas, herdades de um verde muito vivo; cantavam passaros, o ar tepido e perfumado acariciava brandamente as faces.

Tudo contribuia para approximar Pélagué d’aquella mulher de alma e de olhos tão limpidos; e involuntariamente, chegava-se mais para ella, esforçando-se por igualar a sua andadura pela d’ella. Comtudo, ás vezes, destacava-se das frases de Sofia uma expressão demasiado viva, demasiado sonora, que a Pélagué se afigurava superflua. Então, era tomada de inquietação:

—Estou vendo que não vae agradar ao Rybine...

Mas um instante depois, Sofia voltava a falar com simplicidade, cordialmente, e ella de novo a olhava com ternura.

—Como é nova ainda! suspirou.

—Ora! olhe que já tenho trinta e dois!

A outra riu.

—Não é isso que quero dizer... Á primeira vista parece ter mais idade... mas quando se repara nos seus olhos, quando a ouvimos falar, fica-se muito admirado, parece uma menina... A sua vida é desasocegada, penosa, cheia de perigos... e todavia, tem o coração alegre...

—Não vejo em que a minha vida seja penosa, nem posso imaginar outra mais interessante e melhor do que esta...

—E quem ha de recompensal-a dos seus trabalhos?

—Se já estamos recompensados! respondeu Sofia, em tom que á outra pareceu denunciar fundo orgulho. Arranjámos uma existencia que nos satisfaz; que mais havemos de desejar?

A mãe olhou para ella furtivamente e baixou a cabeça, repetindo a si mesma:

—Não vae gostar nada d’ella, o Rybine...

Aspirando a plenos pulmões o ar tepido, as duas mulheres caminhavam em passo lento mas firme. A Pélagué parecia-lhe que andava em romaria. Lembrava-lhe aquillo a sua meninice e a pura felicidade que a animava quando, nos dias de festa, partia da aldeia em direcção a algum mosteiro, onde houvesse uma imagem milagrosa.

De vez em quando, Sofia entoava com a sua voz novas canções em que se falava de amôr e do Ceu; outras vezes, punha-se de subito a declamar estrofes celebres que celebravam os campos e as florestas, o Volga; e a outra escutava-a, prazenteira, meneando, sem dar por isso, a cabeça ao rythmo do verso, cuja melodia a enfeitiçava.

N’aquelle coração, tudo era paz, carinho e doçura, como n’um velho jardinsinho, n’uma tarde de estio.

V

Ao terceiro dia, ao chegarem a uma aldeia, perguntou a mais velha das duas a um trabalhador do campo onde ficava a fabrica do alcatrão. E logo tiveram de descer por estreito atalho ingreme e agreste, qual escada, onde as velhas raízes formavam degraus. Avistaram d’ali uma clareirasinha circular atapetada de aparas de lenha e de carvão e onde, aqui e ali, havia poças de alcatrão.

—Eis-nos chegadas! disse a velha, olhando em volta com desconfiança.

Junto a uma choça feita com estacas e algumas ramadas, jantavam quatro operarios, em torno d’uma mesa feita com trez táboas em bruto estendidas sobre umas estacas cravadas no solo. Eram elles: Rybine, muito sujo, com a camisa aberta no peito, Jéfim e mais dois rapazes. Rybine foi o primeiro que avistou as duas mulheres; quedou-se á espera, em silencio, formando pala com a mão, para abrigar os olhos.

—Viva, irmão Mikhaíl! gritou-lhe de longe Pélagué.

Levantou-se então e veio-lhes ao encontro, mas sem se apressar. Ao reconhecer quem lhe falava, deteve-se a acamar a barba.

—Andamos em romaria! disse ella, approximando-se mais. E fiz um rodeio para vir vêr-te. Esta minha amiga veio comigo; chama-se Anna...

Contente com o seu achado, olhou de soslaio para Sofia. Esta permaneceu séria e impassivel.

—Vivam lá, respondeu Rybine com um sorriso contrafeito. Apertou-lhe a mão, cumprimentou Sofia e accrescentou:

—É inutil mentir; não estamos na cidade; aqui não são precisas mentiras. Aqui só ha gente séria, todos nos conhecemos uns aos outros.

Jéfim, á mesa, onde continuava sentado, examinava com attenção as recemvindas; segredou o que quer que fôsse aos seus commensaes.

Ao approximarem-se as duas, levantou-se, cumprimentou sem dizer uma palavra. Os outros dois deixaram-se ficar, como se não tivessem dado pelas viandantes.

—Vive-se aqui como presidiarios! proseguiu Rybine, batendo familiarmente no hombro da sua conhecida. Ninguem vem vêr-nos, o patrão não está na aldeia, a mulher d’elle lá está no hospital e eu sou agora aqui uma especie de gerente... Sentem-se. Tomam chá? Ó Jéfim, vae buscar o leite!

Vagarosamente, Jéfim encaminhou-se para a choupana, emquanto as duas se desembaraçavam dos alforges. Um dos camponezes, um grande latagão magro, levantára-se para as ajudar. O outro, atarracado e coberto de farrapos, acotovelado sobre a mesa, olhava pensativo para ellas, coçando a cabeça e trauteando baixinho. Aromas suffocantes de alcatrão fresco casavam-se com o cheiro das folhagens apodrecidas, provocando tonturas.

—Este chama-se Jacob, disse Rybine, apresentando o mais alto dos dois operarios; aquelle é o Ignaty... E então o teu filho?

—Está na cadeia! gemeu a mãe.

—Outra vez! exclamou Rybine. Ao que parece deu-se bem por lá...

Ignaty deixára de cantarolar. Jacob tomou o cajado das mãos de Pélagué.

—Senta-te, tiasinha!

—E a senhora sente-se tambem, disse Rybine, dirigindo-se a Sofia.

Sem uma palavra, esta tomou assento em cima d’um fardo e poz-se a examinar Rybine.

—E quando foi elle preso? perguntou este; e acrescentou com um abanar de cabeça: Não tens sorte nenhuma, Pélagué!

—Que importa!

—Então, já te vaes costumando?

—Não, mas cheguei ao convencimento de que as coisas não pódem ir d’outra fórma!

—Ora ahi está! disse Rybine. Conta, então...

Jéfim trouxe uma infusa de leite; o outro tomou de sobre a mesa uma tigella, laviscou-a com um pouco d’agua e depois de a encher de leite, empurrou-a para o logar de Sofia. Ia e vinha sem ruido, com precaução. Depois da mãe ter finalisado a sua curta narrativa, todos ficaram calados. Ignaty, que continuava á mesa, fazia gravuras nas taboas com as unhas. Jéfim encostava-se ao hombro de Rybine. Jacob, de braços cruzados no peito, baixava a cabeça. Sofia continuava a analysar as caras d’aquelles campónios.

—Pois está visto! declarou Rybine, arrastando muito as sylabas. Decidiram-se a proceder ás claras...

—Elles que viessem para cá com uma fantochada d’essas, declarou Jéfim, que os moujiks dariam cabo d’elles!...

—Disseste que o Pavel vae ser julgado? perguntou Rybine.

—Sim, é coisa decidida, respondeu a mãe.

—E que pena póde elle apanhar... não sabes?

—Ou as galés ou o degredo para a Siberia, por toda a vida! respondeu, baixando a voz.

Os outros trez operarios fitaram-na simultaneamente.

Rybine proseguiu:

—E quando elle se metteu n’esse negocio, sabia o que o esperava?

—Não sei... provavelmente.

—Sim, sabia-o! affirmou Sofia com decisão.

Calaram-se todos e ficaram-se como estaticos, mergulhados em um mesmo pensamento consolador.

—Ora ahi está! continuou Rybine em tom de severa gravidade. Tambem eu creio que o soubesse. É um homem sério; não se mette levianamente n’essas coisas. Vejam lá companheiros. Sabia que o podiam espetar n’uma baioneta ou que lhe davam as honras d’um presidio, e atirou-se para a frente ainda assim! Era preciso que se atirasse—atirou-se! E se lhe tivessem posto a propria mãe no caminho, passava-lhe por cima... não é isto Pélagué?

—Com certeza... murmurou a mãe com estremecimento.

E depois de ter circumvagado o olhar em torno, soltou do peito profundo suspiro. Sofia afagou-lhe com meiguice uma das mãos e teve para Rybine um olhar de descontentamento.

—Aquillo é que é um homem? declarou elle a meia voz, fixando os sombrios olhos nos companheiros. E novamente todos se quedaram silenciosos. Pendiam da atmosfera tenues resteas de sol, como fitas d’oiro. Perto d’ali grasnava um corvo. Os olhares de Pélagué vagueavam, impressionada com as recordações do primero de maio, com a lembrança de Pavel e de André. Pelo solo, na clareira exigua onde estavam, jaziam barricas escangalhadas que tinham servido a alcatrão, madeiros sem casca e com a fibra a desfiar-se; fluctuavam ao vento as aparas, em longas fitas. Os carvalhos e as bétulas perfilavam-se em fila compacta; por todos os lados, ganhavam insensivelmente o espaço da clareira como para apagar, aniquilar todos aquelles destroços, toda aquella immundice que os ultrajava, e, alliados no seu silencio, immoveis, projectavam no solo as suas sombras negras e tragicas.

De subito, Jacob afastou-se da arvore a que se encostava, deu um passo e logo parou para interrogar com voz forte e desabrida, abanando a cabeça:

—E é contra gente d’essa que nos vão mandar a combater, o Jéfim e eu?

—Pois contra quem pensavas? retorquiu Rybine em tom frio. Andam a esganar-nos com as nossas proprias mãos... É o cumulo!

—Pois assim como assim, prefiro ser soldado! declarou Jéfim com voz indecisa.

—E quem te péga? exclamou Ignaty. Pois vae! E, fitando Jéfim, acrescentou a rir:

—Em todo o caso, quando me apontares a espingarda, aponta á cabeça, não me deixes estropiado... mata-me de vez!...

—Já me disseste isso! gritou Jéfim com desabrimento.

—Escutem, companheiros! proseguiu Rybine; e ergueu o braço n’um gesto lento. Olhem para esta mulher!—e apontava para Pélagué.—O filho está perdido; provavelmente...

—Porque dizes isso? perguntou a mãe, angustiada.

—Porque assim é preciso! Pois haviam os teus cabellos de embranquecer em vão e o teu coração de soffrer inutilmente?... Tu ainda não morreste, não é verdade?... Trouxeste livros?

A mãe lançou-lhe furtivo olhar e confirmou apóz um silencio:

—Trago.

—Ora ainda bem! disse Rybine, dando uma palmada na mesa. Percebi-o logo mal te vi. E para que terias tu vindo, a não ser para isso? Vejam lá vocês, o filho desappareceu-nos das fileiras, e ahi temos a mãe no logar d’elle!

Ergueu-se e poz-se a gritar com voz cava e gestos ameaçadores:

—Essa canalha não sabe o que anda a semear por ahi, ás cegas! Hão de ver, quando nós estivermos mais fortes, quando entrarmos a ceifar n’essas hervas malditas! Hão de ver!

A estas palavras, toda se assustou Pélagué; olhou para Rybine, achou-o muito mudado, muito magro; já não tinha a barba cuidada como d’antes, mas emaranhada; distinguiam-se-lhe perfeitamente as saliencias dos malares. No branco azulado dos olhos corriam-lhe laivos sanguineos, como de quem anda mal dormido. O nariz afilára-se-lhe, mais carlaginoso e adunco, qual bico de ave de rapina. Pelo cós da camisa, desabotoado, d’antes sempre sujo de tintas e alcatrão, viam-se-lhe as claviculas mirradas e o denso velo do peito. Toda a pessoa d’este homem respirava alguma coisa mais soturna e melancólica do que o fôra até então. O brilho dos exaltados olhos illuminava-lhe o rosto sombreado por uma expressão de soffrimento e de rancor, que relampejava em purpureos clarões.

—No outro dia, continuou elle, o governador do districto manda-me chamar e pergunta-me:

«—Que fôste tu dizer ao padre, grande garoto?—E porque é que eu sou garoto? Ganho o meu sustento com o meu trabalho, não faço mal a ninguem,» respondi-lhe eu. Pôz-se logo a berrar e deu-me um murro em cheio na cara... e mandou-me para o calaboiço por trez dias. Ah! assim é que vocês sabem falar ao povo? Está bem! Mas não esperem pelo perdão, excommungados! Se não fôr eu, outro ha de lavar a injuria, em vocês ou nos filhos de vocês... lembrem-se bem! Andaram a lavrar no peito do povo com as garras de ferro da avidez e da cubiça e n’elle semearam a maldade... Pois seremos sem piedade, malditos! Ahi tem!

Espumava de furor; na voz tinha impetuosidades que amedrontavam Pélagué.

—E afinal que tinha eu dito ao padre? proseguiu mais calmo. Á saída d’uma reunião, estava elle na rua n’um grupo de camponeos e dizia-lhes que os homens eram um rebanho e que precisavam sempre d’um pastor... ahi está! E eu disse-lhe por brincadeira: «Se fizessem a raposa chefe da floresta, pennas havia de haver muitas, mas passaros, nem um!» O padre olhou-me de revez e entrou a dizer que o povo devia soffrer, resignar-se e orar a Deus com mais frequencia, para que elle lhe desse forças para tudo supportar. E eu respondi-lhe: «O povo reza muito; provavelmente Deus é que não tem tempo para escutal-o. Se nem o ouve!» Ora ahi está! Elle então perguntou-me quaes eram as minhas orações. E eu respondi-lhe: «Não aprendi senão uma só na minha vida; é a do povo inteiro:» Deus, ensina-me a trabalhar para os nossos senhores, a comer pedras, a escarrar sangue! O padre não me deixou acabar... A senhora é da nobreza, ao que vejo? perguntou bruscamente Rybine, interrompendo a narrativa e voltando-se para Sophia.

—Porque julga isso? disse ella com um sobresalto de surpreza.

—Ora, porquê... disse Rybine. É sorte sua, nasceu assim, ahi está! A senhora imagina que póde disfarçar o seu peccado de fidalguia só porque tapou a cabeça com um lenço de chita? O padre conhece-se bem, mesmo quando não traz corôa... Agora acaba a senhora de pôr o cotovello na mesa, que estava molhada e a senhora fez uma carêta... E olhe que tem as costas muito aprumadas para uma operaria...

Receando que elle offendesse Sofia com aquella maneira de falar, aquelles ditos e aquella graça pesada, Pélagué interveio com viveza e severamente:

—É minha amiga esta senhora. É uma excellente mulher... Foi a trabalhar por nós e pela nossa causa que fez os cabellos brancos... Não sejas tão desabrido com ella...

Rybine soltou um suspiro mal contido.

—Então eu disse-lhe alguma coisa injuriosa?

Sofia olhou para elle e perguntou seccamente:

—Tinha alguma coisa a communicar-me?

—Eu? Ah, sim! Ahi tem: nós temos cá um homem que chegou ha dias; é primo do Jacob, está doente, está tisico, mas é esperto e percebe muita coisa. Posso mandar chamal-o?

—Porque não? retorquiu Sofia.

Rybine fitou-a franzindo as palpebras e ordenou em voz baixa:

—Jéfim, vae a casa do homem... diz-lhe que venha cá á noite.

Jéfim dirigiu-se á choupana, poz o boné e sem uma palavra, sem mesmo olhar para quem estava, sumiu-se pelo bosque, a passo socegado. Rybine meneou a cabeça e, apontando para elle, disse surdamente:

—Soffre muito!... É teimoso... Dentro em pouco vae ser soldado... E o Jacob tambem... O Jacob diz que não póde, que não vae para o regimento. O Jéfim tambem não póde, mas diz que quer ir, custe o que custar... Teve uma idéa... Lembrou-se que poderá levar aos soldados pruridos de liberdade... Eu cá, a minha opinião é que não se póde arrombar uma parede dando-lhe com a cabeça. E elles, mettem-lhes uma espingarda na mão e abalam por ahi fóra. Para onde vão? Não percebem que marcham contra si mesmos... Anda a soffrer, o Jéfim. E o Ignaty ainda mais lhe revolve o punhal na ferida. Parece-me inutil...

—Qual historia! replicou Ignaty com indignação, sem fitar o seu contendor. Lá no regimento se encarregam de o converter, e ha de acabar por fazer fogo, como os outros!

—Não, não creio! replicou o outro, pensativo. Mas, seja como fôr, mais vale evitar isso... A Russia é grande... Como podem elles descobrir um homem? É preciso arranjar um passaporte e fugir de aldeia em aldeia.

—São essas as minhas tenções! declarou Ignaty, batendo na perna com uma acha. Uma vez que está resolvido combater-se, é preciso marchar sem hesitação.

A conversa cessou. Voltavam pelo ar, atarefadas, as abelhas e as vespas, esmaltando o silencio com os seus zunidos. Os passarinhos chilreavam; de longe, vinha uma canção n’uma toada que vagueava por sobre os campos. Depois de curto silencio, proseguiu Rybine:

—É preciso trabalhar, companheiros... Ou talvez prefiram descançar... Lá dentro da choupana ha camas a lastro. Ó Jacob, vae-lhes arranjar folhas bem sêccas... E tu, dá cá os livros, tiasinha! Onde estão?

Sofia e Pélagué abriram os alforges. Rybine inclinou-se a espreitar e disse, satisfeito:

—Ahi está... Mas que grande quantidade trouxeram! Ora venham vêr! Ha muito tempo que trabalha n’este negocio, a senhora? acrescentou, falando com Sofia.

—Ha doze annos.

—Então, como se chama?

—Chamo-me Anna Ivanovna. Porquê?

—Cá por coisas. E já esteve presa provavelmente?

—Já estive.

—Bem vês! disse Pélagué, baixo e em tom de censura. E tu que a trataste mal...

Ficou calado um momento. Depois, tomando um pacote de livros, respondeu:

—Não se zangue! Campónio e fidalgo são como o alcatrão e a agua, não ha maneira de os misturar, não se dão...

—Não sou fidalga; sou uma creatura que pensa, que soffre e geme! contestou Sofia.

—É possivel! disse Rybine. Vou esconder tudo isto.

Ignaty e Jacob approximaram-se d’elle, de mãos estendidas.

—Dá-nos alguns! disse Ignaty.

—São todos iguaes? perguntou Rybine a Sofia.

—Nem todos. Vem tambem um jornal...

—Ah!

Os tres homens precipitaram-se para a cabana.

—É exaltado, este rapaz! observou Pélagué, baixando a voz e seguindo-os com olhar pensativo.

—É verdade, disse Sofia no mesmo tom. Nunca vi uma cara como aquella... Dir-se-ia um martyr heroico!... Vamos lá tambem; estou curiosa por ver o effeito do jornal.

—Mas não se zangue com elle... supplicou brandamente a outra.

—Que bom coração é o seu, Pélagué!

Ao ver surgir as duas mulheres á porta da choupana, Ignaty levantou a cabeça e lançou-lhes rapido olhar; depois, enterrando os dedos pelos cabellos annelados, curvou-se de novo sobre o jornal, que desdobrára nos joelhos. Rybine, de pé, apresentava o periodico á luz d’uma restea, que penetrava na choupana por uma greta do tecto; ia deslocando pouco a pouco o jornal sob o feixe de luz, á medida que ia lendo e lia por bocca pequena. Jacob, ajoelhado, firmava o peito de encontro á borda d’uma cama e lia tambem.

Pélagué viu que a Sofia não passava despercebido o enthusiasmo dos trez por aquellas palavras de verdade. O rosto illuminou-se-lhe n’um sorriso. Devagarinho, foi para um canto da choça e sentou-se. Sofia, em silencio, passou-lhe o braço pelos hombros.

—Tio Mikhaíl! Olhe que nos insultam, n’este papel, a nós, camponezes! proferiu Jacob a meia voz, sem se mexer. Rybine voltou-se para elle e disse, risonho:

—É porque nos estimam. Aquelles que nos amam podem dizer-nos tudo o que quizerem sem que nos irritemos.

Ignaty respirou ruidosamente, ergueu a cabeça e poz-se a rir; em seguida, fechou os olhos, dizendo:

—Está aqui escripto: «O homem dos campos deixou de ser uma creatura humana.» E é bem verdade; já o não é!

Perpassou pelo seu rosto ingenuo e franco uma expressão de aviltamento.

—Este sabio das duzias! continuou, referindo-se ao articulista. Eu queria vêr-te na minha pelle! Fizesses-te tu fino! Então é que se havia de vêr o que tu eras!

—Vou descansar um bocado, disse Pélagué a Sofia. Sinto-me um pouco fatigada e este cheiro do alcatrão faz-me dôres de cabeça. Vem?

—Ainda não.

Pélagué estendeu-se na cama e d’ahi a pouco dormitava. Sofia, sentada á cabeceira, continuava observando os leitores, ao passo que ia enxotando com sollicitude os zangãos e as vespas que vinham adejar em volta do rosto da companheira. Pélagué, com os olhos meio cerrados, percebia-o e taes attenções impressionavam-na.

Rybine approximou-se, perguntou:

—Está a dormir?

—Está.

Elle calou-se um pedaço, attentou no sereno rosto da anciã e com um suspiro proseguiu baixinho:

—É talvez esta a primeira que tenha seguido o filho pelo mesmo caminho!... a primeira!

—Vamo-nos embora, não a incommodemos, propoz Sofia.

—Temos de ir trabalhar. Eu preferia ficar a conversar comsigo, mas é forçoso deixar isso para a noite. Vamos, camaradas!

Saíram os trez homens, deixando Sofia na choupana. Pélagué pensava:

—Deus seja louvado! fizeram as pazes!... Entendem-se um com o outro!...

E adormeceu socegadamente, aspirando o ar perfumado da floresta.

VI

Á noitinha, voltaram os quatro operarios, satisfeitos por verem terminado o seu dia. Ao ruido das vozes, Pélagué, accordou, veio á porta da cabana, risonha, bocejando.

—Vocês a trabalharem e eu a dormir como uma fidalga! disse, fitando-os affectuosamente a todos.

—Não faz mal, nós perdoamos-te, disse Rybine.

Mostrava-se mais socegado do que ao jantar; o cansaço dissipára o seu excesso de agitação.

—Ignaty! ordenou. Arranja a ceia. Cada um trata da casa, por sua vez. Hoje é ao Ignaty que compete dar-nos de comer e de beber... Ora ahi está!

—De bom grado cedia hoje a minha vez a outro qualquer, declarou Ignaty. E, emquanto procurava distinguir a conversa, começou a apanhar aparas, afim de accender o lume.

—As visitas são sempre interessantes para toda a gente! confirmou Jéfim, sentando-se ao lado de Sofia.

—Eu te ajudo, Ignaty! disse Jacob.

Penetrou na choça e de lá trouxe um pão redondo. Partiu-o em fatias.

—Schiu! murmurou Jéfim, oiço tossir...

Rybine apurou o ouvido e disse:

—É elle que chega.

E, voltado para Sofia, explicou:

—Vae ouvir uma testemunha. A minha vontade era poder leval-o a essas cidades, pôl-o em exposição por essas praças, e o povo que fôsse ouvil-o... Diz sempre o mesmo, mas é digno de ser ouvido!...

Silencio e escuridão tornavam-se mais profundos; as vozes ecoavam com mais suavidade. Sofia e Pélagué seguiam com o olhar os camponezes a moverem-se pesadamente, mas de vagar, com singular prudencia.

Do bosque surgiu um homem corcovado, de alta estatura, caminhando apoiado com todo o seu peso a uma bengala. Ouvia-se-lhe o ruido da respiração rouca.

—Ahi vem o Savely! exclamou Jacob.

—Aqui me têm! disse o homem, parando, saccudido por um accesso de tosse.

Vestia um sobretudo usado que lhe cahia até aos pés; de sob o chapeu redondo e muito velho, saíam-lhe em madeixas ténues uns cabellos amarellentos e asperos. Cobria-lhe o rosto ossudo e pallido uma barba loira; a bocca aberta, os olhos com um brilho de febre, nas orbitas profundamente cavadas, como no fundo de sombrias cavernas.

Apresentado a Sofia, perguntou:

—Segundo parece, trouxe livros para o povo lêr?

—Sim, senhor.

—Agradeço-lh’o... pelo povo. O povo não pode ainda compreender o livro da verdade... ainda não póde agradecer-lhe como merece; mas eu que o compreendi já, agradeço-lhe em nome do povo.

Respirava com avidez, absorvendo o ar em pequenas golfadas repetidas. Falava a espaços.

Os dedos descarnados das diafanas mãos, perpassava-os pelo peito, tentando abotoar o sobretudo.

—Póde ser-lhe doentio, para si, este passeio tão tarde, pela floresta... Ha muita humidade e suffoca-se, ali! fez notar Sofia.

—Para mim já nada ha salubre ou doentio! respondeu, offegante. Só a morte será bemvinda.

Era doloroso ouvir falar aquelle homem, tanto mais que toda a sua pessoa provocava dó, uma compaixão infinita mas improficua. Agachou-se sobre uma barrica, dobrando os joelhos com precaução, como se receasse que se quebrassem; depois, enxugou a fronte, coberta de suor. Tinha os cabellos seccos e sem viço.

O lume começava a atear-se. Ao clarão das chammas tudo se deslocou; as sombras, lambidas pelas labaredas, fugiam assustadas pela floresta. Por cima do brazeiro appareceu por instantes a cara redonda d’Ignaty, a soprar. Depois, apagado o lume, ficou persistente o cheiro do fumo, e o silencio e as trevas apoderaram-se de novo da clareira, como se viessem apurar o ouvido para o falar rouco do doente.

—Mas ainda posso ser util ao povo... Sim, como o testemunho d’um enorme crime! Olhem para mim! Tenho vinte e oito annos e ando a morrer... Ha dez annos, levantava nos hombros, sem me custar, até duzentos kilos... Pensava eu então que com uma saude d’aquellas, havia de levar setenta annos para chegar á cova, direito e sem tropeçar... E afinal vivi dez... e não posso ir mais longe.

—Ahi têm a canção d’este homem! disse Rybine com voz rancorosa.

Reaccendeu-se mais viva a fogueira; de novo as sombras debandaram, para se sumirem nas chammas, agitando-se em torno do brazeiro n’uma dansa silenciosa e hostil. Sob a mordedura do lume, os velhos troncos estralejavam e gemiam. A folhagem susurrava em segredo, agitada por uma corrente d’ar quente. Vivas e folgazãs, as linguas de fogo purpureas e doiradas brincavam, abraçavam-se, erguiam-se, despedindo faíscas. Voou uma folha em braza. No ceu, as estrellas sorriam para as scentelhas, attraíndo-as a si.

—Não é só minha esta canção; ha milhares de creaturas que tambem a cantam, mas só para si! E cantam-na só para si porque não compreendem que as suas miseraveis existencias são uma lição salutar para o povo... Quantos seres minados ou estropiados pelo trabalho e pela cadeia, não morrem para ahi de fome, sem um queixume!... É preciso gritar bem alto, companheiros, é preciso gritar!

E Savely entrou a tossir, todo curvado e tremulo.

Jacob poz na mesa uma caneca de koass[2] e atirou para o lado um molho de cebolas, e disse ao enfermo:

—Anda, Savely, trouxe leite para ti.

O outro abanou negativamente a cabeça; mas Jacob agarrou-o por debaixo dos braços e fêl-o sentar á mesa.

—Oiçam, disse Sofia a Rybine, em voz baixa e em tom de censura, para que o obrigaram a vir? Póde morrer d’um momento para o outro.

—É certo, replicou Rybine. Mas mais vale morrer rodeado de amigos; ser-lhe-á menos doloroso

do que na solidão. Tem soffrido muito na sua vida; pois que soffra ainda mais um pouco para servir de aviso aos homens... Que lhe póde fazer isso? Ali está!

—Chega a parecer que se desinteressa d’elle com horror pelos seus soffrimentos, exclamou Sofia.

Rybine lançou-lhe rapido olhar e respondeu com modos sombrios:

—Só os fidalgos é que se recreiam com o espectaculo do Christo a gemer na sua cruz; mas nós outros, nós queremos estudar os homens ao vivo e gostavamos que a senhora tambem apprendesse a conhecel-os...

O enfermo retomou a palavra:

—Destroe-se um homem com o trabalho, dá-se cabo d’elle com a prisão... e porquê? O nosso patrão—era na fabrica Nefédof que eu trabalhava á doida—o nosso patrão deu a uma cançonetista uma grande bacia de mãos e mais uma bacia de cama tudo de oiro... E foi em tal vaso que ficaram as nossas forças, as nossas vidas... as minhas e as de milhares d’outros. Ahi têem para que ellas serviram!

—O homem foi creado á imagem e semelhança de Deus! disse Jéfim, sorrindo—e ahi está o emprego que lhe dão... não vae mal!

—É necessario gritar isso! exclamou Rybine com violenta palmada na mesa.

—Não devemos supportal-o! accrescentou Jacob mais baixo.

Ignaty limitou-se a sorrir.

Notava a velha que os trez operarios falavam pouco, mas escutavam com uma attenção insaciavel d’almas sequiosas. De cada vez que Rybine abria a bocca, fitavam-no, copiavam-lhe os menores movimentos. As frases de Savely, porém, provocavam-lhes singulares tregeitos de enfado. Dir-se-ia não sentirem dó algum do enfermo.

E Pélagué inclinando-se ao ouvido de Sofia, perguntou baixinho:

—É certo o que elle conta?

Sofia respondeu em voz muito alta:

—É certo, sim senhora! Os jornaes falaram do caso; foi em Moscou que isso se deu.

—E esse homem não foi castigado! disse Rybine com ódio. Devia ter sido punido; precisava que o levassem a uma praça publica e ali cortal-o aos bocados, atirando aos caes essa carne immunda! Grandes castigos se hão de vêr, quando o povo se levantar!

—Que frio que faz! disse o tisico.

Ajudou-o Jacob a levantar e a chegar-se para o lume.

A fogueira ardia em clarão uniforme e vivo. Sombras imprecisas erravam em torno, contemplando surprezas o brinquedo das labaredas. Savely, sentou-se n’um cepo e offereceu ao calor as mãos seccas e transparentes. Rybine designou-o com um gesto do mento, e disse para Sofia:

—Sabe mais do que um livro! Eu é que o conheço... Quando uma máquina arranca um braço ou mata um homem, compreende-se; é sempre do homem a culpa. Mas sugar o sangue d’um homem e atira-lo depois á margem como uma coisa pôdre, isso é que não se explica.

—Sim... pronunciou com lentidão Ignaty, não se explica... Um chefe de districto conheci eu, que obrigava a gente do campo a cumprimentar-lhe o cavallo, quando o levavam a passeio pela aldeia, e que punha a ferros quem desobedecesse. Para que lhe servia aquillo?... É o que tambem não se explica!

Depois de comerem, fizeram roda junto á fogueira. Diante d’elles o lume ardia, devorando rapidamente a lenha; por detraz, ceu e floresta envolviam-se na treva. O estropiado fixava no lume os olhos esgazeados, tossia sem descanso, com grandes arrepios. Parecia que do peito lhe saíam pedaços da propria vida, solertes em abandonar aquelle corpo esqualido. Dansavam-lhe no rosto reflexos do fogo sem que lhe colorissem a pelle fenecida. Só os olhos scintillavam n’uma coruscação azulada, bruxuleante.

—Talvez preferisses abrigar-te na cabana, an, Savely? lembrou Jacob, inclinando-se-lhe no hombro.

—Para quê? respondeu esforçadamente. Quero ficar aqui. Já não tenho muito tempo a viver entre os homens... Não, não tenho para muito tempo.

Vagueiou o olhar em volta, ficou um bocado calado e proseguiu, com um sorriso palido:

—Sinto-me bem entre vocês. Estou-os vendo e estou a pensar que talvez sejam vocês que hão de vingar todos os que foram maltratados... o povo inteiro!

Ninguem lhe respondeu. E d’ahi a pouco, a cabeça pendia-lhe para o peito e entrou a dormitar. Rybine considerou-o demoradamente e disse meio em segredo:

—É sempre assim quando vem visitar-nos; senta-se para ahi e conta sempre a mesma coisa.

—Aborrece ouvil-o repetir-se! murmurou Ignaty. Bastava ouvir uma vez essa historia para não a esquecer e elle sempre a moêl-a!

—É que para elle, n’essa historia, tudo se resume, a sua vida inteira, compreende-o bem! justificou Rybine, soturno. E da mesma sorte a vida de toda uma legião de seres. Ouvi-lhe essa historia dezenas de vezes já, e, ainda assim, acontece-me ter certas dúvidas. Ha horas de bondade em que a gente se recusa a crêr na vilania do homem, ou na sua loucura, e em que se sente compaixão por todos, ricos e pobres... porque o rico tambem é um transviado do bom caminho. A um cega-o a fome, ao outro, o dinheiro... E então, a gente pensa:

«Homens, meus irmãos! Desentorpeçam esses raciocinios, reflictam com lealdade, reflictam bem».

O doente oscilou estremunhado, abriu os olhos e deitou-se sobre a terra. Sem ruido, Jacob levantou-se, foi á cabana buscar um pequeno agasalho de pelles, e estendeu-lho por cima. Depois, retomou o seu logar ao lado de Sofia.

Ás vozes dos homens misturavam-se o surdo crepitar da lenha e o murmurio das labaredas; e aquelle lume, qual rosto rubicundo, parecia sorrir-se com malicia para os sombrios vultos que lhe faziam circulo.

Falou então Sofia da lucta dos povos em prol do direito á vida e á liberdade, dos remotos combates dos rusticos da Allemanha, dos infortunios dos irlandezes, dos feitos do operariado francez.

Sob a floresta, revestida de veludos, na pequena rotunda limitada pelos majestaticos arvoredos, sob a abobada do negro firmamento, perante a risonha lareira, em meio d’aquelle grupo de sombras hostis e assombradas, ressuscitavam os acontecimentos que haviam revolucionado o mundo dos saciados, dos entes tresloucados pela cubiça; desfilavam uns após outros, os povos da terra, sangrentos, esgottados em mil combates; celebravam-se os nomes dos heroes da liberdade e da justiça...

Aquella debil voz de mulher ecoava mansamente, como se viesse do passado; instigava esperanças, inspirava confianças. O auditorio escutava religiosamente aquella melopeia, a vasta historia dos seus irmãos espirituaes. Todos fitavam o rosto pálido e magro da narradora, correspondiam com sorrisos ao sorrir dos olhos cinzentos. E com mais viva luz brilhava para elles a sagrada causa da humanidade; nos seus peitos medrava mais e mais o sentimento do parentesco moral com os seus irmãos do mundo inteiro; um novo coração nascia para elles na propria terra e ardiam no desejo de tudo compreenderem, de tudo resumirem n’elle.

—Ha de chegar o dia em que os povos todos levantarão cabeça, bradando: «Basta! não queremos continuar n’esta vida!» proclamou Sofia com voz sonora, e então ha de desabar o ficticio poder d’aquelles que só na avidez encontram a sua força, a terra fugir-lhes-á debaixo dos pés e ficarão sem saber em que apoiar-se.

—É o que ha de acontecer! affirmou Rybine, de cabeça baixa. Que ninguem poupe as suas forças e tudo vae de vencida!

Pélagué escutava, arregalando muito as sobrancelhas e com um sorriso de surpreza nervosa. Estava a ver que tudo o que nas maneiras de Sofia lhe parecia insolito, a sua audacia, a sua extrema vivacidade, tudo desapparecera, como submerso no fluxo regular e entusiástico das suas palavras. A noite silenciosa, o revolutear do lume, a fisionomia da joven oradora, interessavam-na; mas o que a deleitava principalmente era a absorta attenção dos campónios. Permaneciam immoveis, esforçando-se por não perturbarem fôsse com o que fôsse o desenvolvimento sereno do discurso; dir-se-ia n’elles um receio de quebrarem o fio luminoso que os ligava ao mundo. De tempos a tempos, um d’elles collocava com precaução uma nova acha no lume; e dispersava com a mão as faúlhas e o fumo, para que não incommodassem Sofia.

Ao romper da aurora, Sofia calou-se, fatigada, e attentou, sorrindo, nos rostos pensativos e tranquilisados que a cercavam.

—É tempo de partirmos, disse a velha.

—Vamos! respondeu Sofia com expressão de cansaço.

Um dos operarios suspirou ruidosamente.

—É pena que se vão! declarou Rybine com desacostumada meiguice. A senhora fala tão bem! Grande coisa é ligar as creaturas pela sorte commum! Quando a gente pensa que ha milhões de sêres a quererem o mesmo que nós queremos, o coração torna-se bom... E ha tanta força na bondade!

—E quando se procede com bondade, pagam-nos com a violencia! protestou Jéfim n’uma risadinha e pondo-se de pé com presteza. É bom que ellas se vão, tio Mikhaíl, antes que sejam vistas... Quando os livros estiverem distribuidos pelo povo, as autoridades hão de indagar d’onde vieram... E póde alguem lembrar-se das peregrinas e denunciál-as...

—Obrigado pelo incommodo, mãe! disse Rybine interrompendo Jéfim. Sempre que olho para ti me lembro do Pavel... Fizeste bem em seguir-lhe o exemplo...

Inteiramente apaziguado agora, esboçava franco e amigavel sorriso. Fazia fresco; no emtanto, conservava-se de blusa, o cós entreaberto, o peito á mostra. Pélagué attentou-lhe no robusto corpo e aconselhou, sollicita:

—Devias agasalhar-te, faz frio.

—Se eu estou tão quente cá por dentro! objectou.

De pé, junto do fogo, os trez rapazes conversavam baixo; aos pés d’elles, dormia o doente, embrulhado nas pelles. Branqueava-se o ceu, fundiam-se as sombras. Tremula, a folhagem aguardava o sol.

—Está bem, adeus! disse Rybine, apertando a mão de Sofia. Como hei de perguntar por si, na cidade?

—Basta que me procures, responde Pélagué.

Lentamente, em um só grupo, vieram os operarios apertar a mão de Sofia com expressões desastradas, de affecto. Em cada um d’elles transparecia secreta gratidão e amisade, e tal sentimento, novo como era para elles, desconcertava-os. Com os olhos prazenteiros e amortecidos pela insomnia, consideravam Sofia, firmando-se ora n’um pé, ora no outro.

—Querem beber uma gota de leite antes de partirem? offereceu Jacob.

—Ainda ficou algum? interrogou Jéfim.

—Um pouco.

Mas Ignaty, confuso, declarou, coçando a cabeça:

—Não ha; eu entornei-o.

E todos os trez se puzeram a rir.

Falavam no leite, mas Pélagué percebia que pensavam em coisa bem diversa; que ambicionavam para Sofia e para si propria todas as felicidades possiveis, mas sem poderem expressar-se. Sofia estava visivelmente commovida, e a sua perturbação era tal, que apenas conseguiu dizer em tom de voz humilde:

—Obrigada, companheiros!

Entreolharam-se, como se este tratamento os tivesse feito cambalear de prazer.

Ouviu-se um accesso de voz rouca do enfermo. No lume extinguiam-se os brazidos.

Até mais vêr! disseram os campónios a meia voz; e os adeuses melancolicos de todos acompanharam por muito tempo as duas mulheres.

Vagarosamente estas embrenharam-se por um atalho da floresta, á claridade da aurora.

Entraram a falar de Rybine, do doente, dos operarios, que sabiam conservar tão attencioso silencio e que haviam exprimido sentimentos de reconhecida amisade por fórma desgeitosa mas eloquente, dispensando ás duas mulheres mil cuidados. Entraram no campo. O sol vinha-lhes ao encontro. Invisivel ainda, o astro abrira no céu um leque diáfano de purpureos raios; pela herva scintillavam gotas de rócio em multicolores lumes de alegria viva e primaveril. Despertavam os passaros e animavam a aurora com gritos joviaes.

Com o seu grasnar pressuroso, corpulentos corvos voavam para longe, agitando pesadamente as azas; pelos campos semeados já desde o outono, outros corvos de lustrosa plumagem, saltitavam, tagarelando em vozes ritmadas; perto, andava um verdelhão a assobiar, inquieto. Desanuviavam-se os longes e acolhiam o sol, apagando as sombras nouturnas das cumieiras.

NOTAS DE RODAPÉ:

VII

A existencia de Pélagué decorria em singular socego que por vezes a surpreendia. Tinha o filho na cadeia, sabia que o esperava duro castigo; de cada vez que n’isso pensava, apresentavam-se-lhe, mau grado seu, á memoria as imagens de André, de Fédia e d’outros,—toda uma larga série de caras conhecidas.

Resumindo para si todos os que da sua sorte compartilhavam, a figura de Pavel avantajava-se aos olhos de Pélagué e quando pensava no filho, os seus pensamentos alastravam, dirigiam-se para todos os lados, sem que ella desse por tal. Era uma dispersão em mil lampejos desiguaes que tudo interessavam, que tudo pretendia e tudo reuniam em um mesmo quadro e assim impediam a mãe de se concentrar no desgosto que experimentava por não ter Pavel junto, de si e no terror que lhe inspirava a sorte do filho.

Pouco depois partiu Sofia. Cinco dias mais tarde, voltava ella desenvolta e alegre, para desaparecer de novo algumas horas passadas. Então só a tornou a vêr ao fim de quinze dias.

Dir-se-ia percorrer a existencia em circulos cada vez maiores. Vinham assim de vez em quando a casa do irmão para lhe encher a casa de valorosa decisão e de musica.

Tornára-se agradavel a musica a Pélagué, quasi indispensavel mesmo. Sentia-a correr-lhe no peito, penetrar-lhe no coração, fazendo brotar catadupas de pensamentos rápidos e intensivos, e desabrochar expressões suaves e bellas, suggeridas pela força das melodias.

Difficilmente se resignava, porém, ao desleixo de Sofia, que atirava para todos os cantos os objectos que lhe pertenciam, e as pontas e a cinza dos cigarros; mais lhe custava a habituar-se á sua maneira de falar tão decidida. Era por demais flagrante o contraste com a pesada tranquilidade de Nicolao, com a gravidade benevola e constante das suas palavas. Ao entendimento de Pélagué, Sofia não passava d’uma rapariguita com vontade de passar por pessôa de juizo e que olhava ainda para as pessôas como para brinquedos engraçados. Falava muito da santidade do trabalho e augmentava nesciamente a tarefa da pobre mulher com o seu desmazelo; discorria sobre a liberdade e, comtudo, era visivel incommodo que a todos proporcionava com a sua irritavel impaciencia, com as suas incessantes discussões e o seu proposito de se collocar acima dos outros. Muitas contradicções se davam n’ella; Pélagué tratava-a com prudencia constante, mas sem o sentimento caloroso que nutria por Nicolao.

Sempre meticuloso, este levava dia por dia a mesma vida monotona e regrada; almoçava ás oito horas, lia o seu jornal em voz alta, commentando as noticias mais importantes. Pélagué descobria n’elle affinidades de caracter com André. Como acontecia com o russo-menor, o seu hospedeiro nunca falava dos homens com rancor; considerava-os a todos culpados da má organisação da existencia. Mas a fé n’uma vida nova não era n’elle tão fervorosa como em André, nem mesmo tão idealmente luminosa. Tinha um modo de falar pausado, uma voz de juiz integerrimo e rigoroso; até quando fazia qualquer narrativa de horrores, esboçava sempre um sorriso compassivo; mas nos olhos tinha um clarão sinistro. Quando reparava n’aquelle olhar, Pélagué compreendia que não era homem para perdoar; e, sentindo quão mortificadora se lhe devia tornar tal severidade, tinha pena d’elle. E affeiçoava-se-lhe cada vez mais.

Ás nove horas, ia elle para a repartição; a velha arranjava os quartos, preparava o jantar, lavava-se, mudava de vestuario; depois, sentava-se no quarto e punha-se a vêr as estampas dos livros. Applicando toda a sua attenção, ainda podia ler um bocado; mas, ao cabo d’algumas páginas, ficava cansada e perdia o sentido ao que lia. Em compensação, as gravuras distraíam-na muito, qual a uma criança: desenrolavam-lhe diante da vista um mundo novo, maravilhoso, compreensivel, no emtanto, e quasi tangivel. Via cidades immensas com magnificos edificios, máquinas, navios, monumentos, riquezas incalculaveis amontoadas pelos homens, a par das criações da natureza, n’uma diversidade que a confundia.

Alargava-se a vida até o infinito, patenteando-lhe em cada dia coisas colossaes, desconhecidas, portentosas; e pela abundancia das suas riquezas, o variegado das suas bellezas, exaltava mais e mais aquella alma sedenta que despertava. Gostava ella principalmente de folhear um livro de zoologia; e bem que tal obra estivesse escripta em lingua estrangeira, eram as suas illustrações as que mais nítida representação lhe davam da riqueza, da belleza e da immensidade da terra.

—Como a terra é grande! disse um dia a Nicolao.

—É; e apesar d’isso a humanidade vive apertada...

O que sobretudo a enternecia eram os insectos, particularmente as borboletas; percorria, surpreza, os desenhos que as representavam e dizia:

—Que belleza! não é verdade, Nicolao? Quantas d’estas perfeições existem por toda a parte! Mas vivem occultas aos nossos olhos, passam ao nosso alcance sem repararmos n’ellas. Cada qual corre á sua vida, nada sabe, nada admira, porque não ha tempo nem vontade para isso. Quanto prazer poderiamos disfructar, se todos soubessem como a terra é rica e que de coisas admiraveis ella encerra! E é tudo para todos e cada um para tudo... não é assim?

—Sim, com effeito... respondia Nicolao, sorrindo. E trazia-lhe mais livros.

Á noite, havia visitas muitas vezes; entre ellas, Aleixo Vassilief, um bello homem de rosto claro, barba preta, taciturno e grave; Romão Pétrof, este de cara redonda e avermelhada, que fazia constantemente estalar os beiços n’um gesto de lastima; Ivan Danilof, baixo e magro, barba em bico, e uma vozinha fina, agressiva, berrante e acerada como um estilete; Iégor, que de tudo gracejava, de si, dos companheiros e da doença que o ia minando. A meude, vinha gente que Pélagué não conhecia, de povoações distantes e tinham longas conferencias com Nicolau, sempre sobre o mesmo assunto: a liberdade e os operarios de todas as nações. Discutiam acaloradamente, gesticulavam com força, bebia-se muito chá. Ao ruído da vozearia, Nicolao compunha ás vezes umas proclamações que passava a lêr aos consocios e ali mesmo eram copiadas em caracteres d’imprensa. Ella recolhia cuidadosamente os fragmentos dos rascunhos e queimava-os.

Emquanto ia servindo o chá, admirava ella o ardor com que os companheiros falavam da vida e da sorte do operário e do campónio, da maneira mais vantajosa e rápida de semear entre o proletariado a idéa da verdade e da liberdade, educando-lhe o espirito. Muitas vezes, divergiam as opiniões, zangavam-se, accusavam-se uns aos outros, injuriavam-se, mas logo voltavam a discutir.

Mas ella sentia bem que conhecia melhor do que todos aquelles palradores, a vida do operario; que avaliava com mais nitidez a enormidade da tarefa que elles se propunham, o que lhe permittia tratar os visitantes com a condescendencia um tanto melancólica d’uma pessôa de idade madura a ver crianças a brincarem de marido e mulher sem compreenderem o lado trágico da situação.

Mau grado seu, comparava-lhes os discursos com os de seu filho, com os de André, e percebia agora differenças que d’antes não podia avaliar. Gritava-se mais ali do que lá no sitio, ao que lhe parecia. E concluia:

—É que sabem mais, falam mais de rijo...

A maior parte das vezes, porém, notava ella que todos aquelles homens parecia que se exaltavam de proposito uns aos outros, que eram ficticias as suas exaltações; cada qual pretendia demonstrar aos collegas que andava mais perto da verdade do que elles e que mais presava esta verdade do que qualquer d’elles. Os outros vexavam-se e, a seu turno, para provarem como conheciam bem tal verdade, questionavam com desabrimento e rudeza. Cada qual, tudo era querer subir mais alto do que os mais e isto causava-lhe pungente tristeza. Agitava então os supercilios, divagando pela assistencia olhares de súpplica, e pensava:

«Já se esqueceram do Pavel e dos companheiros!... Já não pensam n’elles.»

Escutava sempre attenta as discussões, que, naturalmente não compreendia; procurava descobrir os sentimentos sob aquelle fluxo de palavras. Percebeu então que nas reuniões do seu bairro, quando se falava do bem, todos o acceitavam integro e completo, ao passo que ali, tudo se fragmentava, tudo se dividia; além, os sentimentos tinham mais força e convicção; aqui, era o domínio das idéas radicaes que retalhavam tudo em bocados. Aqui, falava-se mais da destruição do velho mundo; além, sonhava-se um mundo novo, e era por isso que os discursos do seu filho e de André lhe eram mais compreensiveis, mais ao seu alcance.

Surdo descontentamento para com os homens se lhe introduzia furtivamente no coração, trazendo-a inquieta; nascia n’ella a desconfiança, sentia desejos de compreender tudo, e o mais depressa possivel, para falar tambem do mundo com palavras dictadas pela sua alma.

Notava igualmente Pélagué, quando vinha algum companheiro operario, que Nicolao o recebia com uma semceremonia singular; dava ao rosto uma expressão de bonhomia e falava por maneira diversa do costume, se não com mais grosseria, pelo menos com maior liberdade.

—É que faz o possivel para descer ao nivel d’elles, pensava.

Mas esta razão não a satisfazia, pois que o operario claramente se sentia constrangido, com a intelligencia como que oppressa, e não chegava a expressar-se tão simples e livremente como com ella, por exemplo, mulher da sua condição. Um dia, n’um momento em que Nicolao se ausentára da sala, perguntou a um d’elles:

—Porque estás tu tão contrafeito? Olha que não és um menino a fazer exame.

O homem abriu-se n’um franco sorriso.

Notes in this chapter

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