PRIMEIRA PARTE (continued 2)
Augusto de Lacerda translation
—Exactamente! Isso é que é! exclamou Rybine, batendo com o dedo na meza. Transformaram-nos até Deus. Os nossos inimigos lançam mão de tudo quanto lhes sirva para abater-nos. Recordo-te, Pélagué, que Deus creou o homem á sua imagem e semelhança e portanto parece-se com o homem, visto que o homem se parece com Elle. Nós, porém, não nos assemelhamos a Deus, mas sim aos animaes selvagens... Na egreja, o que nos mostram, em logar de Deus, é um espantalho. É mister transformar Deus, purifical-o! Revestiram-no de mentira e de calumnia, mutilaram o seu rosto para matarem a nossa alma...
Falava baixo, mas com espantosa nitidez; cada uma das suas palavras era para Pélagué um golpe doloroso. Sentiu-se assustada por aquella grande cara taciturna enquadrada n’uma barba negra, e o brilho sombrio dos seus olhos tornava-se-lhe insupportavel.
—Ah! Prefiro ir-me embora! disse, sacudindo a cabeça. Não tenho coragem de ouvir taes coisas... Não posso!
E fugiu para a cosinha, emquanto Rybine dizia:
—Vês, Pavel? Não é pela cabeça, mas sim pelo coração que se deve começar. O coração é um logar da alma humana no qual não brota mais do que...
—Do que a razão! acabou Pavel com firmeza. Será só a razão que libertará o homem!
—A razão não dá o poder! replicou Rybine, vibrante e obstinado. É o coração que dá a força e não o cerebro!
Pélagué despira-se e deitara-se sem haver resado. Tinha frio e sentia-se pouco bem. Rybine, que lhe parecera tão sensato, tão correcto, ao principio, excitava-lhe uma reservada hostilidade.
—Herético! agitador! pensava, prestando o ouvido á voz sonora que saía com facilidade d’aquelle peito amplo e forte. Para que veio elle cá?!...
E Rybine ia dizendo, tranquillo e firme:
—Um logar santo não póde ficar vasio. O logar onde Deus vive dentro de nós é atacado; se Elle caír da alma, ficará uma chaga! Ora ahi está! É preciso inventar uma fé nova, Pavel. É preciso crear um Deus justo para todos, um Deus que não seja nem juiz, nem guerreiro, mas sim o amigo dos homens.
—E que outra coisa foi Jesus?! exclamou Pavel.
—Espera!... Jesus não era firme d’espirito... «Affastem de mim este calice...» disse elle. E reconhecia o poder do Cezar. Deus não pode reconhecer uma auctoridade humana reinando sobre os homens, porque elle é que é a omnipotencia! Elle não dividiu a sua alma n’uma parte divina e em outra humana, e visto que confirmou a sua divindade, não carece de coisa alguma humana. Jesus reconheceu tambem como legitimos o commercio e o casamento. Foi injustamente que condemnou a figueira. Que culpa tinha ella da sua esterilidade? Não é por sua culpa que a alma não dá bons frutos. Fui eu que semeei n’ella o mal?
As duas vozes vibravam sem interrupção no quarto, como se se arrojassem uma á outra, combatendo-se em lucta animada e apaixonada. Pavel ia e vinha, a passos largos, e o sobrado rangia sob os seus pés. Quando falava, todos os sons se fundiam no ruido da sua voz; quando Rybine replicava, calmo, tranquilo, ouvia-se o tic-tac da pendula do relogio e o sêcco estalido da neve que roçava com as suas garras agudas nas paredes da casa.
—Vou falar-te como authentico fogueiro que sou: Deus parece-se com o fogo. É isto, sim! Não consolida coisa alguma, não o pode. Queima e funde, illuminando. Illumina as egrejas, mas não as constroe. Vive no coração. Disse se: «Deus é o Verbo»; e o Verbo é o espirito.
—A razão! emendou Pavel, obstinado.
—Isso! Portanto, Deus está no coração, e na razão, e não na egreja. E eis d’onde vem as desgraças, as dores, os infortunios do homem: é que todos nós somos arrancados de nós mesmos! O coração é repellido pela razão, e a razão foi-se! O homem não é uno. Deus une o homem em um todo, em um globo. Deus creou sempre coisas redondas: a terra, as estrellas; tudo o que é visivel, o que é agudo, foi o homem quem o fez. Quanto á egreja, é o tumulo de Deus e do homem.
Pélagué adormeceu, não tendo ouvido saír Rybine.
Elle voltou a apparecer muitas vezes. Quando qualquer companheiro de Pavel estava em casa d’este, o fogueiro sentava-se a um canto e continha-se em silencio; de tempos a tempos, dizia:
—Isso! Exactamente!
Uma vez, espraiou o seu negro olhar pelos assistentes, e disse, nada satisfeito:
—Deve-se falar do que é; o que será não sabemos nós. Quando o povo fôr livre, elle proprio verá o que tiver de melhor a fazer. Já lhe metteram na cabeça muitas coisas que elle não queria! Basta! Elle que se examine! Talvez elle repilla tudo, toda a vida e todas as sciencias; talvez veja que tudo lhe é hostil, como por exemplo: Deus e a egreja. Dêem-lhe para a mão todos os livros, e elle responderá. Mas para isto, seria necessario que elle compreendesse que quanto mais apertada é a colleira, mais penoso é o trabalho.
Quando Pavel e Rybine estavam a sós, punham-se logo a discutir, tranquillamente, por muito tempo. A velha escutava-os inquieta, seguia-os com o olhar silencioso, deligenciando compreender. Por vezes, parecia-lhe que ambos tinham cegado. Nas trevas, entre as paredes do pequeno quarto, os dois vagueavam d’um para outro lado, como em busca d’uma saída ou d’uma luz; agarravam-se a tudo com as suas mãos vigorosas, mas inhabeis; agitavam, revolviam tudo, deixando caír por terra coisas que depois espezinhavam. Esbarravam em tudo, tateavam e repelliam tudo, sem pressas, sem perderem a esperança nem a fé. Tinham-na acostumado a ouvir uma palavras terriveis pela sua simplicidade e audacia; estas palavras já não a opprimiam com a mesma violencia. Rybine não era simpático á velha, mas a repulsão, que a principio lhe inspirára, tinha desapparecido.
Uma vez por semana, Pélagué ia á cadeia levar roupa e livros a André; um dia obteve licença de vêl-o; e ao voltar para casa, contou enternecidamente:
—Continúa sendo o mesmo. Amavel para com todos. Todos brincam com elle. Parece que tem sempre o coração em festa. Custa-lhe a vida, soffre, mas não quer dal-o a perceber.
—E é assim que devem fazer todos! replicou Rybine. Todos nós estamos envolvidos em desgostos como n’uma segunda pelle... Respiramos desgostos... vestimo-nos de desgostos... Não temos de que nos gabar. Nem toda a gente tem os olhos furados, e muitos ha que os fecham de motu-proprio... Quando se é parvo, então sim, não ha remedio senão esperar o soffrimento...
XII
A velha casa parda dos Vlassof attraía de mais em mais as attenções do bairro. Ás vezes um operario apparecia por lá, e depois de ter olhado para todos os lados, cautelosamente, dizia a Pavel:
—Irmão, tu que lês nos livros, deves conhecer as leis. Portanto, explica-me.
E contava qualquer arbitrariedade da polícia ou da administração da fabrica. Nos casos complicados, Pavel remettia o consulente, com duas palavras de recommendação, a um advogado dos seus amigos, e, quando podia, elle proprio dava conselhos.
Pouco a pouco, os frequentadores do bairro foram nutrindo um sentimento de respeito por aquelle rapaz tão commedido, que falava de tudo com simplicidade e afoiteza, que raras vezes ria, que encarava e escutava todos os assuntos com attenção, mettendo-se na embrulhada de qualquer negocio particular e descobrindo sempre o fio que ligava as creaturas umas ás outras por milhares de nós tenazes.
Pélagué via ampliar-se a influencia do seu filho, começava a aprender o sentido dos trabalhos de Pavel, e quando o compreendia, invadia-a uma alegria infantil.
Pavel tornou-se maior na opinião publica por occasião da historia do «kopeck[1] do pantano».
Um grande pantano com pinheiros e bétulas cercava a fabrica como um fosso infecto. No verão, vinham d’elle exhalações amarellentas, opacas, de
mistura com nuvens de mosquitos que se espalhavam no bairro produzindo febres. O pantano pertencia á fabrica; o novo director, querendo tirar partido d’elle, concebeu o projecto de esgotal-o, extraíndo-lhe ao mesmo tempo o nateiro. Esta operação, disse aos operarios, tornaria salobras as circumvisinhanças e melhoraria as condições de vida a todos; portanto ordenou que fosse descontado um kopeck por cada rublo, nas ferias, quantia que seria destinada ao saneamento do pantano.
Nos operarios houve uma agitação; irritava-os principalmente o facto de não reverter para os empregados o imposto.
No sabbado em que foi publicada a decisão do director, Pavel estava doente e não fôra trabalhar; nada sabia. Na manhã seguinte, depois da missa, o fundidor Sizof, um bom velho, o serralheiro Makhotine, homem alto, muito irrascivel, foram a casa d’elle para lhe dizer o que se passava.
—Os mais velhos d’entre nós reuniram-se, disse rudemente Sizof; discutimos; os nossos companheiros mandaram-nos cá para te perguntarmos—visto seres um homem de espirito lucido—se ha alguma lei que permitta ao director extinguir os mosquitos á nossa custa.
—Nota, accrescentou Makhotine, revolvendo os olhos, que ha quatro annos aquelles ladrões nos apanharam dinheiro para construirem um estabelecimento de banhos... Que é d’elle?
Pavel explicou que o imposto era injusto, que a fabrica tiraria uma grande vantagem do projecto. Assim, os dois operarios retiraram-se com ares de poucos amigos. Depois de os haver acompanhado até á porta, Pélagué disse sorrindo:
—Vem então os velhos a tua casa aprender comtigo, Pavel!...
Sem responder, o rapaz sentou-se e começou de escrever, preoccupado. Decorridos instantes:
—Peço-te que vás immediatamente á cidade e entregues este bilhete...
—É coisa arriscada?
—Sim. É para onde imprimem o nosso jornal. Esta historia do kopeck deve apparecer, sem falta, no proximo numero.
—Está bem! está bem! respondeu ella, vestindo-se á pressa. Eu vou.
Era o primeiro recado importante de que o filho a encarregava. Sentia-se feliz por vêr que elle lhe dizia francamente do que se tratava, e por poder ser-lhe util na sua obra.
—Compreendo, Pavel! Vou n’um momento. Como se chama elle? Iégor Ivanovitch, não?...
Regressou de noite, já tarde, fatigada, mas satisfeita.
—Vi a Sachenka. Manda-te recommendações. Como é divertido o Iégor! sempre de brincadeira!...
—Muito folgo com que elle seja do teu agrado.
—Que simpleza de gente! São tão simpaticas as pessoas simples!... E olha que todos elles te estimam muito.
Na segunda-feira, Pavel não poude ir á fabrica, doia-lhe a cabeça. Mas ao meio dia, Fédia Mazine appareceu-lhe, em grande excitação, radiante: participou esbofado:
—Toda a fabrica está em revolta! Mandaram-me vir á tua procura. Sizof e Makhotine dizem que tu explicarás a coisa melhor do que os outros. Se visses o que por lá vae!
Pavel vestiu-se sem dizer palavra.
—As mulheres estão reunidas e fazem uma gralhada!...
—Vou ter com ellas! disse Pélagué. Tu não estás bom, talvez seja perigoso... Os outros para que servem, então? Eu irei falar com elles...
—Vamos! disse Pavel simplesmente.
Saíram rapidamente, em silencio. Pélagué, offegante e commovida, presentia o que quer que fosse grave. Á entrada da fabrica, uma multidão de mulheres berrava e discutia. Pélagué via que todos os rostos estavam voltados para o mesmo lado, para a parede das forjas. Ali, Sizof, Makhotine, Valof e mais cinco operarios influentes e idosos tinham trepado para um montão de velha ferragem.
—Ahi vem o Vlassof! gritou alguem.
—Vlassof! Tragam-no cá!
Levaram Pavel, de roldão. Pélagué ficou só.
—Silencio! ordenaram muitas vozes a um tempo.
Proximo de Pélagué ouviu-se a voz monotona de Rybine:
—Não é pelo kopeck que se deve mostrar resistencia, mas sim pelo principio da justiça. Não é o kopeck o que nos custa, não é mais redondo do que os outros, mas é para nós mais pesado: ha n’elle mais sangue humano do que só em um rublo do director!
Estas palavras caíam sobre a multidão com energia e provocavam ardentes exclamações.
—É verdade! Bravo, Rybine!
—Silencio, seus diabos!
—Tens razão, fogueiro!
—Olhem o Vlassof!
As vozes confundiram-se n’um turbilhão tumultuoso, abafando o ruido surdo das maquinas e os suspiros do vapor. De toda a parte corria gente que começava a discutir, agitando os braços, excitando-se mutuamente com palavras febris e causticas. A irritação que dormia nos peitos fatigados, despertava; escapava dos labios e tomava o vôo, triunfante. Ao de cima da multidão pairava uma nuvem de poeira e ferrugem; os rostos cobertos de suor estavam em fogo, a pelle das faces vertia lagrimas negras. No fundo sombrio das fisionomias, brilhavam os olhos e os dentes.
Afinal, Pavel appareceu ao lado de Sizof e de Makhotine; ouviram-no gritar:
—Companheiros!
Pélagué viu que o filho estava palido e que os seus labios tremiam; involuntariamente, quiz avançar, abrindo caminho, á força; mas disseram-lhe com mao modo:
—Ó velha, deixa-te estar!
Empurraram-na. Mas não desanimou, com os hombros e os cotovellos afastava toda a gente e approximava-se do filho, pouco a pouco, impellida pelo desejo de ir ficar a seu lado.
Pavel, depois de haver soltado frases a que costumava dar um sentido profundo, sentiu as guellas apertadas pelo espasmo resultante da grande alegria de combater. Invadiu-o o desejo de entregar-se á força da sua crença, de arrojar áquella gente o seu coração consumido pelo ardente sonho da justiça.
—Companheiros! repetiu, dando a esta palavra todo o enthusiasmo e vigor. Somos nós que construimos as egrejas e as fabricas, que fundimos o dinheiro, que forjamos os grilhões... Somos nós a força viva que nutre e diverte o mundo inteiro, desde que nascemos até á morte...
—Isso! isso! exclamou Rybine.
—Sempre e em toda a parte, somos os primeiros no trabalho, emquanto nos atiram para os ultimos logares na vida. Quem se preoccupa de nós? quem nos quer bem? quem nos considera como homens? Ninguem!
—Ninguem! repetiu uma voz como se fosse um écco.
Senhor de si, Pavel passou a falar com mais simplicidade e mais calmo. A multidão avançava lentamente para elle, como um corpo sombrio de mil cabeças. Olhava para o rapaz com centenas de olhos attentos, respirava as suas palavras. O ruido decrescia.
—Não teremos melhor quinhão emquanto não nos sentirmos solidarios, emquanto não formarmos uma unica familia de amigos, estreitamente ligados pelo mesmo desejo—o de luctarmos pelos nossos direitos.
—Entra no assumpto! disse uma voz perto de Pélagué.
—Não o interrompam! Calem-se! replicaram de varios pontos.
Quasi todas aquellas caras tinham uma expressão de incredulidade soez; poucos olhares estavam fixados em Pavel com gravidade.
—É um socialista, mas não tem nada de tolo! disse um.
—É um revolucionario! accudiu outro.
—Fala com tezura! afirmou um operario, forte e vesgo, dando um empurrão em Pélagué.
—Companheiros! Chegou o momento de resistirmos á força ávida que vive do nosso trabalho; chegou o momento de nos defendermos. Deve cada qual compreender que ninguem virá em nosso auxilio, se não nós mesmos. Um por todos, todos por um—deverá ser a nossa lei, se quizermos vencer o inimigo.
—Elle diz a verdade, irmãos! exclamou Makhotine. Escutem a verdade!
E com um gesto largo, ergueu o punho cerrado.
—É indispensavel mandar chamar o director, immediatamente! continuou Pavel. É preciso perguntar-lhe...
De subito, dir-se-ia que um furacão caíra sobre todo o povo. Toda aquella massa de gente ondeou como o oceano sob uma rajada; dezenas de vozes berraram a um tempo:
—Venha o director!
—Elle que s’explique!
—Vão buscal-o!
—Mandemos-lhe delegados!
—Não!
Tendo conseguido chegar á frente, Pélagué olhava para o filho, sentindo-se dominada por elle. Estava replecta de orgulho: o seu Pavel, no meio dos velhos operarios mais queridos, sendo escutado e apoiado por toda a gente!... Admirava o seu sangue-frio, a sua simplicidade e o seu falar sem fastio e sem pragas, como era o dos outros.
As exclamações, os gritos de revolta, as invectivas choviam como saraivada grossa em telhados de zinco. Pavel encarava na multidão, e parecia procurar o que quer que fosse entre os grupos.
—Delegados!
—Fale o Sizof!
—O Vlassof!
—O Rybine, que tem uns dentes terriveis!
Afinal, escolheram Pavel, Sizof e Rybine para parlamentarios, e iam mandar chamar o director, quando de chofre se ouviram algumas hesitantes exclamações:
—Vem ahi, sem ser chamado...
—O director...
—Ah!... Ah!...
A multidão abriu caminho a um figurão alto, sêcco, de rosto comprido, e barba em bico.
—Com licença! dizia, afastando o povo com um movimento ligeiro, mas sem lhe tocar. Tinha os olhos semi-cerrados, e, como experiente em lidar com os homens, ia observando as fisionomias dos operarios.
Estes inclinavam-se, tiravam o boné, cumprimentando-o. Elle não respondia a estas demonstrações de respeito, semeava o silencio e o constrangimento por onde ia passando; sentia-se já, sob os sorrisos contrafeitos e o tom abafado das palavras, o como arrependimento da creança, conscia de ter feito uma tolice.
O director passou em frente de Pélagué, lançou-lhe um olhar severo e parou junto do montão de ferragem. De cima, alguem estendeu-lhe a mão: não a acceitou. Com um movimento vigoroso e agil, subiu, ficou á frente e perguntou em tom frio e auctoritario:
—Que significa esta reunião? Porque abandonaram o trabalho?
O silencio foi completo por alguns instantes. As cabeças dos operarios balouçavam como espigas. Sizof agitou o boné, encolheu os hombros e baixou a cabeça.
—Respondam! berrou o director.
Pavel abeirou-se a elle e disse-lhe em voz alta, apontando para Sizof e Rybine:
—Nós trez fômos encarregados pelos nossos companheiros de exigir que reconsiderasse na sua resolução relativamente ao desconto do kopeck.
—Porquê? perguntou o director sem olhar para Pavel.
—Porque reputamos injusto este imposto! replicou com voz sonora.
—Portanto, não vêem no meu projecto senão o desejo de explorar os operarios, e não o cuidado de melhorar a sua existencia, não é verdade?
—Exacto!
—E o sr. tambem? perguntou, dirigindo-se a Rybine.
—Somos todos da mesma opinião.
—E o sr.? perguntou ainda, voltando-se para Sizof.
—Eu cá... tambem lhe peço que não nos tire o nosso kopeck.
Depois, baixando outra vez a cabeça, Sizof sorriu contrafeito.
O director passou vagarosamente o olhar pela multidão e encolheu os hombros. Em seguida olhou perscrutadoramente para Pavel, e disse:
—O sr. é, segundo creio, um homem instruido. Não compreende todas as vantagens da minha medida?
Pavel respondeu distinctamente:
—Ninguem deixaria de compreendel-as, se a fabrica exgotasse o pantano á sua custa.
—A fabrica não trata de filantropias! replicou. Ordeno-lhes, a todos, que voltem immediatamente para o trabalho.
E preparou-se para descer, tateando cautelosamente os ferros com a ponta da bota, sem olhar para ninguem.
Ouviu-se um rumor de desapprovação.
—Que é isso? perguntou o director, parando.
Calaram-se todos; apenas, a distancia, replicou uma unica voz:
—Trabalha, tu!
—Se dentro de um quarto d’hora não voltarem para o trabalho, multal-os-ei, a todos! declarou seccamente.
E seguiu o seu caminho por entre a multidão, emquanto atraz d’elle se ia levantando um surdo murmurio. Quanto mais elle se afastava, mais o ruido se tornava intenso.
—Vão lá falar-lhe!
—São então estes os nossos direitos! Estupor de sorte!
Dirigiam-se a Pavel, gritando:
—Olá! jurisconsulto! que devemos fazer agora?
—Emquanto se tratou de falar, falaste; mas elle appareceu e mudaram os ventos!
—Então, Vlassof! O que fazemos?
As perguntas eram cada vez mais insistentes. Pavel respondeu emfim:
—Companheiros, proponho que abandoneis o trabalho até que o director renuncie ao injusto desconto.
Ergueram-se logo frases irritadas:
—Julgas que somos parvos?
—É o que se deve fazer!
—A gréve?!
—Por causa de um kopeck?!
—Pois façamos gréve!
—Vamos todos para o olho da rua!
—E quem trabalharia?
—Encontrariam outros operarios!
—Onde? Traidores?!
NOTAS DE RODAPÉ:
XIII
Pavel desceu e collocou-se ao lado da mãe. Em volta delles, todos começaram a falar ruidosamente, a discutir, a agitarem-se, gritando.
—Não se fará a gréve! disse Rybine approximando-se de Pavel: o povo embora seja sovina em se tratando de dinheiro, é muito poltrão. Não encontrarás mais de trezentos que tenham opinião igual á tua. Não se pode revolver semelhante esterco só com uma forquilha.
Pavel ficou silencioso. Perante elle, a multidão com a sua enorme cara negra movia-se e observava-o como se elle lhe tivesse feito uma exigencia. O seu coração pulsava violento. Parecia-lhe que as suas palavras tinham desapparecido, sem deixarem vestigios naquelles homens, taes como gottas de chuva tenue, esparsas em terreno gretado por uma longa estiagem. Uns após outros, os operarios approximaram-se d’elle, felicitaram-no pelo seu discurso, mas duvidavam do exito da gréve, e lamentavam que o povo não compreendesse nem a sua força nem os seus interesses.
O sentimento de desillusão apoderava-se de Pavel, que tambem já não acreditava na sua força. Doía-lhe a cabeça, sentia-se como vasio! D’antes, nos momentos em que elle fantasiava o triunfo da verdade que tão querida lhe era, o enthusiasmo de que se enchia o seu coração dava-lhe vontade de chorar. E agora, tendo exprimido a sua fé diante do povo, apparecera-lhe mais pálida, impotente, incapaz de tocar no que quer que fosse. Accusava-se, a si proprio; tinha a impressão de haver adornado o seu sonho com vestimentas informes, sombrias, e miseras, e que por isto ninguem lhe descobrira a belleza.
Voltou para casa triste e fatigado. A mãe e Sizof seguiam-no.
—Falas bem, dizia Rybine, mas não chegas ao coração. É o que é! Precisa-se lançar a faísca até ao fundo dos corações. Não será pela razão que os captarás. É calçado muito fino e muito apertado para o povo; não lhe serve nos pés. E ainda que servisse, o sapato ficaria acalcanhado em pouco tempo!
Sizof dizia a Pélagué:
—Chegou o momento de nós, os velhos, irmos a caminho do cemiterio! Levanta-se um povo novo. Como temos vivido? Arrastando-nos de joelhos, constantemente curvados para a terra. E hoje não se sabe ao certo se ha consciencia do que se faz ou se o caminho novo é mais errado do que o nosso... Em todo o caso, os de hoje não se parecem comnosco. Vejam lá: os novos falando ao director como de igual para igual!... Ah! se o meu filho fosse vivo!... Até á vista, Pavel Mikhaílovitch... És um bello rapaz, tomas a defesa do povo... Queira Deus que encontres o bom caminho, a bôa saída... Deus queira!
E foi-se.
—Pois! que todos morram! resmungou Rybine. Já agora, não sois homens, sois uma argamassa, bôa apenas para tapar as fendas das paredes! Reparaste, Pavel, nos que mais gritaram para que tu fosses designado como nosso delegado? Eram os que dizem que tu és um revolucionario, um perturbador. Ora ahi tens! Pensaram que serias expulso da fabrica; era isto o que elles queriam.
—Sob o seu ponto de vista, teem razão.
—Os lobos tambem teem as suas razões quando se despedaçam uns aos outros.
Rybine estava rabugento, a voz tremia-lhe.
—Os homens não teem confiança na palavra nua e crua... É preciso mergulhal-a no sangue...
Durante o dia todo, Pavel sentiu-se desgraçado, como se tivesse perdido alguma coisa e presentisse a sua propria perda sem compreender no que ella consistiria.
De noite, quando a mãe já dormia e elle ainda estava lendo na cama, a policia voltou para revolver raivosamente em toda a casa, no pateo e no sotão. O official amarellento portou-se, como da primeira vez, d’uma maneira impliquenta e offensiva, sentindo prazer em melindrar Pavel e a mãe. Assentada a um canto, Pélagué mantinha-se em silencio, com o olhar fixo no rosto do filho. Este tentava occultar a perturbação, mas quando o official ria, os dedos do rapaz tinham movimentos não vulgares; a mãe percebia quanto elle estava soffrendo por não poder responder á letra aos gracejos do officialsito. Sentia-se menos assustada do que na primeira busca, mas era maior o seu odio por aquelles visitantes nouturnos, vestidos de cinzento, de esporas tintilantes.
Pavel conseguiu dizer-lhe baixinho:
—Vão levar-me.
Baixando a cabeça ella respondeu:
—Percebo...
Compreendia: iam mettel-o na cadeia pelas frases que elle dirigira aos operarios. Mas estes tinham-nas apoiado, e todos iriam tomar a defeza de Pavel, que só por pouco tempo ficaria preso.
Tinha vontade de chorar, de abraçar o filho; mas ao seu lado o official observava-a com olhar malevolo, os labios tremiam-lhe assim como o bigode, e Pélagué sentiu que aquelle homem esperava com alegria que ella se desfizesse em lagrimas, em supplicas, em lamentações. Reunindo todas as suas forças, falando o menos possivel, apertou a mão do filho e disse em voz baixa, retendo a respiração:
—Até á vista, Pavel. Levas comtigo tudo que precisas?
—Levo. Não te dê cuidado.
—O Senhor vá comtigo.
Quando o levaram, a mãe deixou-se caír n’um banco e soluçou docemente com as palpebras abaixadas. Encostada á parede, como seu marido fazia outrora, torturada pela angustia e pelo sentimento da sua impotencia em semelhante transe, chorou durante muito tempo, fazendo passar ás lagrimas a dôr do seu coração ferido. Via na sua frente, como se fosse uma mancha immovel, uma fisionomia amarella, de bigode delgado, olhos semi-cerrados, aspecto feliz. No seu peito contorciam-se, como em negro torvelinho, o desespero e a colera contra quem roubava um filho a sua mãe, só porque elle procurava a verdade.
Estava frio: as gottas de chuva batiam nas vidraças, ao longo das paredes deslisava o que quer que fosse; dir-se-ia que nas trevas, silhuetas pardas, de grandes caras sem olhos, e de braços compridos, rondavam, espiando. E as suas esporas tintilavam fracamente.
—Seria melhor que me tivessem levado tambem! pensou.
O apito da fabrica vibrou, na sua ordem de começar o trabalho. N’aquella manhã, foi um apito vago, e hesitante. A porta abriu-se, Rybine entrou. Approximou-se de Pélagué, e limpando as gottas de chuva que se lhe haviam espalhado pela barba:
—Levaram-no?
—Sim. Malditos!
—Bonita coisa! A mim, revistaram-me, rebuscaram tudo... Injuriaram-me... mas afinal não me prenderam. Com que então, levaram o Pavel?! O director deu o signal, a policia obedeceu, e aqui está como se prende um homem! Entendem-se bem uns aos outros, como os gatunos nas feiras. Uns encarregam-se de ordenhar o povo, emquanto outros o seguram pelo focinho.
—Devem tomar a defeza do Pavel! exclamou ella, erguendo-se. Foi por causa de todos que elle se comprometteu.
—Mas quem deve tomar essa defeza?
—Todos vós!
—Que idéa! Não conte com isso! Foram precisos milhares de annos para reunir a sua força. Cravaram-nos um sem numero de pregos no coração... Como seria possivel ajuntarem-nos de subito? Necessitamos primeiro de arrancar os nossos espinhos de ferro... São estes espinhos que impedem os nossos corações de reunirem-se n’uma massa compacta.
E com um risinho, foi-se lentamente. As suas palavras crueis e desesperadas tinham augmentado o desgosto de Pélagué.
—Podem matal-o, tortural-o...
E imaginou o corpo do filho crivado de pancadas, despedaçado, ensanguentado; e, como uma camada d’argila gelada, suffocava-a o medo caído no seu coração. A luz fazia-lhe mal aos olhos.
Não accendeu o fogão, não preparou o jantar, não tomou o chá; só muito tarde, á noite, comeu um pouco de pão. Quando se deitou, reconheceu que nunca na sua vida se sentira tão humilhada, tão isolada, como nua. Nos ultimos annos, acostumara-se a viver na constante espectativa do que quer que fosse importante, feliz. Em torno d’ella, a gente nova movia-se, ruidosa e decidida, dominada pelo seu filho de rosto grave, seu filho, o senhor e o creador d’aquella vida cheia d’inquietação, mas bôa. E n’aquelle momento em que já não o via, tudo tinha desapparecido.
XIV
O dia decorreu lentamente, seguido de uma noite sem somno. O dia seguinte pareceu-lhe ainda mais comprido. Esperava não sabia o quê, mas ninguem veio. Caíu a tarde, depois a noite. A chuva glacial tombava roçando pelas paredes, o vento soprava pela chaminé, o madeiramento da casa rangia. Ouvia-se apenas a melodia melancólica e dolorosa das gottas d’agua caíndo do telhado, como lagrimas. Parecia que toda a casa vacilava e que uma surda angustia gelava o ambiente.
Bateram de manso á vidraça. Pélagué estava acostumada a este signal; não se assustou; estremeceu como se lhe tivessem despertado bondosamente, o coração. Vaga esperança fêl-a levantar-se de prompto. Atirando um chale para os hombros, abriu a porta. Samoílof entrou, seguido d’outra pessoa que occultava a cara na gola erguida da capa; tinha o boné descaído para os olhos.
—Viemos accordal-a? perguntou Samoílof sem mais cumprimentos.
Fóra do costume, o seu ar não era tranquillo.
—Não; eu não estava a dormir.
E olhou inquiridoramente para os recemchegados.
Com um suspiro abafado e profundo, o companheiro de Samoílof tirou o boné e estendeu a Pélagué a mão forte e de dedos grossos.
—Bôa noite, mãesinha! Não me reconheceu? disse-lhe amigavelmente como a um velho conhecimento.
—Ora?! exclamou ella com alegria. Iégor Ivanovitch! o sr.?!
—Eu, sim!
Tinha o cabello comprido como um menino de côro. Illuminava-lhe a fisionomia um sorriso de bondade; os seus olhitos pardos fitavam-se em Pélagué com expressão carinhosa. Assemelhava-se a um samovar no seu corpito redondo, no pescoço grosso e nos braços curtos. A pelle da cara reluzia; no seu peito parecia pesar e rostilhar alguma coisa...
—Vão para aquelle quarto; eu vou vestir-me! propôz ella.
—Temos que dizer-lhe! respondeu Samoílof, preoccupado e olhando-a de soslaio.
Iégor passou para a divisão do lado, dizendo:
—Mãesinha, esta manhã um dos nossos amigos saíu da cadeia, onde esteve trez mezes e onze dias. Viu por lá o russo-menor e Pavel que lhe envia muitas recommendações; o seu filho pede-lhe que não se apoquente por causa d’elle, e manda-lhe dizer que no caminho que elle escolheu, a cadeia é o logar que serve para o descanço; assim o resolveram as nossas auctoridades sempre interessadas pelo nosso bem-estar... Vamos agora ao que importa: Sabe quantas pessoas foram presas hontem?
—Não. Pavel não foi o unico?
—Foi o quadragesimo nono... declarou Iégor tranquillamente. E espera-se que ainda sejam presos uns dez... Entre outros este cavalheiro aqui presente.
—Eu mesmo! disse Samoílof, sombrio.
Pélagué respirava mais facilmente.
—Não está então sosinho!...
Quando acabou de vestir-se, passou ao outro quarto, sorrindo, bem disposta.
—Não os conservarão presos por muito tempo se elles são muitos.
—Diz bem! E se conseguirmos torcer o jogo dos nossos adversarios, não terão adiantado mais do que d’antes. Se deixarmos de propagar agora os nossos folhetos, os patifes da policia notarão o caso, e perceberão que a propaganda era feita pelo Pavel e pelos companheiros, agora seus companheiros na cadeia.
—Como? não percebo...
—Nada mais simples, mãesinha. Ás vezes a gente da policia chega a raciocinar com acerto... Repare: emquanto o Pavel era livre appareciam os folhetos; mettido na cadeia, desappareceram. Logo era elle quem os espalhava.
—Percebo!... murmurou ella tristemente. Que fazer? Ah! Deus do ceo!
A voz de Samoílof veiu da cosinha:
—Diabos me levem! Prenderam quasi todos os nossos! É preciso continuar a trabalhar como d’antes, não só pela nossa causa, mas tambem para salvar os companheiros.
—E ninguem para trabalhar!... suspirou Iégor. Temos folhetos magnificos... Fui eu mesmo que os fiz. Mas como introduzil-os na fabrica? Eu cá não sei:
—Agora, toda a gente é revistada á entrada... explicou Samoílof.
Pélagué adivinhava que lhe queriam alguma coisa.
—Então que fazer? perguntou vivamente.
Samoílof parou e perguntou:
—Pélagué Nilovna, conhece a vendedeira Korsounova?
—Conheço. Porquê?
—Fale-lhe. Talvez que ella se encarregue dos nossos folhetos.
Ella ergueu logo o braço n’um movimento negativo:
—Ah! não! É uma tagarella! Não! Saber-se-ia logo que fui eu... que foi coisa vinda da nossa casa... Não!
E de subito, illuminada por uma idéa repentina, exclamou com alegria:
—Dêem-me os folhetos! Dêem-mos! Eu acharei um meio... Deixem isso por minha conta! Pedirei á Maria que me tome ao seu serviço. Tenho que trabalhar, se quizer comer. Levarei tambem os jantares á fabrica, aos operarios... Deixem isso por minha conta.
Com as mãos unidas no peito, affirmava que saberia proceder sem que a descobrissem, e concluiu com uma exclamação triunfante:
—Ah! Hão de ver que mesmo com Pavel na cadeia, a sua mão os attinge!
Todos trez se sentiam de novo animosos. Iégor sorria, esfregando rapidamente as mãos, dizendo:
—Bravo, mãesinha! Se soubesse como isso lhe fica bem! como é para enthusiasmar!
—Se fôr bem succedida, sentir-me-ei tão feliz na cadeia como se estivesse sentado n’uma cadeira estofada! declarou Samoílof, rindo:
—É um thesouro, mãesinha! exclamou Iégor roufenhamente.
Pélagué sorriu. Era simples: se conseguisse introduzir na fabrica os folhetos, diriam que não era Pavel quem os distribuia. Sentindo-se capaz de desempenhar-se de tal compromisso, Pélagué estremecia jubilosa.
—Quando fôr visitar o Pavel, diga-lhe que elle tem uma boa mãe!
—Hei de vêl-o mesmo antes do dia da visita! prometteu Samoílof, sorrindo.
—Diga-lhe abertamente que hei de fazer quanto fôr necessario. Que elle o fique sabendo!
—E se o Samoílof não fôr preso, como ha de sabel-o o Pavel? perguntou Iégor.
—Paciencia! Temos que nos resignar!
E ambos entraram de rir. Quando ella compreendeu a sua tolice, riu tambem, mas um tanto contrafeita.
—Quando olhamos para os nossos, não vemos bem os que lhe ficam por detraz... murmurou ella, a justificar-se.
—É natural! concordou Iégor. A proposito de Pavel: não se inquiete nem se entristeça. Ha de saír da cadeia ainda melhor do que quando para lá entrou. Por lá descansa-se, ha tempo para adquirir instrucção, o que não nos acontece quando estamos á solta. Estive preso tres vezes, sem grande vontade, mas o meu coração e a minha razão aproveitaram sempre...
—Custa-lhe respirar... disse Pélagué olhando para elle affectuosamente.
—Por motivos especiaes... respondeu levantando um dedo para o ar.
—Portanto, está combinado, mãesinha. Ámanhã trazemos-lhe o que sabe, e outra vez entrará em movimento a roda que aniquila as trevas seculares. Viva a liberdade da palavra, mãesinha! e viva o coração materno! Até ámanhã!
—Até ámanhã! disse tambem Samoílof apertando com força a mão de Pélagué. Eu não posso dizer palavra d’isso tudo á minha mãe.
Quando elles saíram, Pélagué fechou a porta e ajoelhando-se no meio do quarto, pôz-se a resar, ao ruido da chuva. Rezou sem soltar dos labios uma só palavra; era como um pensamento muito longo e intenso; rezou por todos aquelles que Pavel associára á sua vida. Via os passar entre ella e as imagens dos santos; eram simples, tão extraordinariamente approximados uns dos outros, e tão isolados na vida.
Logo muito cedo, foi a casa de Maria Korsounova.
A ruidosa vendedeira, com o fato engordurado como sempre, acolheu-a compassivamente:
—Aborreces-te? perguntou, batendo-lhe com a mão no hombro. Consola-te! Agarraram-no, levaram-no? Grande coisa! Que mal ha n’isso? D’antes mettiam uma pessôa na cadeia, quando roubava; agora é quando se diz a verdade. Pavel disse naturalmente coisas que não se devem dizer. Mas foi para defender os companheiros, e isto toda a gente o percebe. Não tenhas medo. Todos sabem que elle é um bello rapaz... embora não o digam. Eu queria ir a tua casa, mas não tive tempo. Estou sempre a cosinhar, esgótto o meu artigo, e afinal estou certa de que virei a morrer pobre. Os amantes arruinam-me! os sacripantas! Comem! comem!... parecem baratas a devorar um pão. Apenas tenho uns dez rublos, apparece-me um d’esses hereticos e rouba-mos! É isto! Má coisa ser mulher! que estupida vida! É difficil viver só, e ainda mais viver acompanhada!
—Pois olha eu vim pedir-te que me acceites como ajudante... disse Pélagué, pondo um dique á catadupa das palavras.
—O quê?!
Mas quando a sua amiga lhe expoz todo o seu pensamento, meneou a cabeça em signal de approvação.
—Está dito. Lembras-te quantas vezes me déste esconderijo quando o meu marido andava á minha procura? Pois serei eu agora que te furtarei á miseria. Cada qual deve correr em teu auxilio porque o teu filho está soffrendo por causa de todos. É um bom rapaz! toda a gente o diz; e todos o lastimam. Eu, cá por mim, penso que estas prisões não trazem nenhum bem á fabrica. Se soubesses o que por lá se diz!... Os chefes imaginam que não ha de ir longe o homem que elles morderam no calcanhar. Mas por cada um que elles atacam, ha cem que se revoltam. Deve-se ter cuidado quando se quizer tocar no povo, porque elle vae aturando por muito tempo, mas, n’um bello dia, estoira!
XV
Os operarios logo notaram a velha. Alguns dirigiram-se a ella amigavelmente:
—Encontraste trabalho, Pélagué?
E consolavam-na, affirmando-lhe que Pavel seria posto em liberdade dentro em breve, pois tinha este direito. Outros commoviam o seu coração dolorido com prudentes palavras de compaixão; outros ainda invectivavam abertamente o director e a policia e despertavam n’ella um ecco sincero. Havia tambem quem para ella olhasse com certa satisfação malevola; Isaías Gorbof, operario apontador, disse por entre dentes:
—Se eu governasse, mandava enforcar o teu filho, para lhe ensinar a não desnortear o povo.
Estas palavras gelaram-na mortalmente. Não respondeu, lançou apenas um olhar áquelle rosto coberto de sardas, e baixou a fronte, suspirando.
Percebia que havia no ar certa agitação; os operarios ajuntavam-se em pequenos grupos, discutiam a meia voz, mas animadamente; os contramestres, desconfiados, rondavam por toda a parte; de vez em quando, ouviam-se invectivas, risos irritados.
Viu então dois guardas da policia levarem Samoílof. Uns cem operarios seguiram-no, injuriando ou troçando dos guardas.
—Vaes dar um passeio, amigo? gritou alguem.
—Honra seja ao nosso companheiro! disse outro. Dão-lhe uma escolta!...
E resoou uma saraivada de pragas.
—Ao que parece, é menos rendoso agarrar os ladrões! berrou muito irritado o vesgo. Mettem-se com a gente de bem!
—Se ao menos, isto fosse de noite! Mas qual! Esta canalha não tem vergonha da luz do dia!
Os guardas iam andando depressa e com ar carrancudo, buscando não verem nada, nem ouvirem os insultos que de toda a parte lhes atiravam. Trez operarios avançaram para elles, com uma barra de ferro, gritando:
—Cuidado, peccadores!
Quando passou diante de Pélagué, Samoílof abanou a cabeça, rindo e dizendo:
—Vão arrastando um humilde servo de Deus!...
Ella ficou silenciosa e curvou-se profundamente commovida pelo espectaculo d’aquelles rapazes honrados, intelligentes e modestos que iam para a cadeia com o sorriso nos labios. Sem dar por tal, começava a consagrar-lhes um compadecido amor de mãe. E era-lhe agradavel ouvir as frases de censura para os directores, porque n’ellas sentia a influencia do filho.
Quando saíu da fabrica, passou o dia em casa de Maria, ajudando-a, dando attenção á sua tagarellice. Só tarde voltou para a sua casa vasia, fria, hostil. Por muito tempo vagueou de um canto para o outro, sem saber que fazer nem onde sentar-se. Estava inquieta vendo que Iégor ainda não viéra, como promettera.
Lá fóra, caíam pesados flócos pardos d’uma neve de outomno. Collavam-se aos vidros, deslisavam sem ruido e derretiam-se deixando rastos humidos. Pélagué pensava em Pavel.
Porque batessem cautelosamente á porta, accorreu logo a puxar pelo ferrolho: era Sachenka. Pélagué não a via desde muito tempo; chamou-lhe logo a attenção a gordura da rapariga.
—Bôa noite! Tem estado muito longe d’aqui?
—Não. Na cadeia! respondeu, sorrindo. Ao mesmo tempo com o Nicolao Ivanovitch. Lembra-se d’elle?
—Como havia d’esquecel-o? O Iégor disse-me que o tinham posto em liberdade, mas de si não me falou, nem elle, nem ninguem.
—E para que serviria isso? Deixe-me despir antes que o Iégor venha.
—Está toda molhada!
—Trouxe os folhetos...
—Dê cá! dê cá!
—Prompto!
Entreabriu a capa, saccudiu-a e logo caíram no chão pacotes de folhetos.
Pélagué apanhava-os, rindo.
—E eu, que ao vêl-a tão roliça, imaginei que tivesse casado e esperasse um menino! Ah! mas que quantidade que trouxe! E veio a pé?
—Vim.
A rapariga estava outra vez magra e esbelta. Pélagué notou-lhe até as faces um tanto encovadas, e que os olhos bem rasgados eram assombreados por fundas olheiras.
—Pozeram-na na rua, e em logar de ir repoisar, faz uma caminhada de sete kilometros com tudo isto em cima de si!...
—Assim era preciso. Diga-me: como está o Pavel Mikaílovitch? Não lhe custou muito?...
Falava sem olhar para Pélagué, abaixando a cabeça para arranjar o cabello com os dedos tremulos.
—Não! respondeu Pélagué. Oh! Aquelle não se traírá!
—Tem uma saude de ferro, não é verdade? perguntou ainda em voz baixa e ligeiramente tremelitante.
—Nunca esteve doente. Mas como está tremendo!... Espere; vou tratar do chá; tambem tenho uma compota de framboezas...
—Não será máo! disse Sachenka com um leve sorriso. Mas para que ha-de ter esse trabalho? É tarde; deixe que seja eu quem faça o chá.
—Mas está tão fatigada!... replicou em tom de censura; e pôz-se a accender o samovar.
Sachenka seguiu-a até á cosinha, sentou-se n’um banco e enclavinhando os dedos em cima da cabeça:
—Estou fatigada, estou. Apezar de tudo, a prisão esgota. Que maldita inacção! Não ha coisa mais penosa! Fica-se para ali uma semana, um mez, sem nada que fazer... Ha quem conte comnosco para receber instrucção, sabemos que podemos dar-lha... e vemo-nos metidos n’uma jaula como animaes ferozes!... É de resequir o coração!
—E quem vos recompensará?... suspirou Pélagué. Mas logo accrescentou: Ninguem, se não Deus! Tambem... a sr.a não acredita n’elle, naturalmente...
—Não!
—E eu não acredito em si nem nos outros! exclamou, animando-se de subito.
Alimpando ao avental as mãos sujas de carvão, continuou com convicção profunda:
—Não compreendeis a nossa crença... Como pode alguem dedicar-se a semelhante vida sem acreditar em Deus?
Sob o telheiro ouviram-se passos e o resmungar d’alguem. Pélagué estremeceu; a rapariga poz-se logo de pé e disse baixinho:
—Não abra! Se fôr a policia, diga que não me conhece... que bati a esta porta por engano... que entrei aqui por acaso, que desmaiei e que a sr.a me despiu para pôr-me á vontade, encontrando então em mim os folhetos. Percebe?
—E para que hei de dizer isso? perguntou enternecida.
—Espere!... Parece-me que é o Iégor...
Era elle, a escorrer agua, estafado.
—Ah! o samovar está prompto!... exclamou. É o que ha de melhor n’este mundo, mãesinha! Já cá está, Sachenka?
Enchia a cosinha com os sons gutturaes da sua voz; tirou vagarosamente o casacão e continuou:
—Ora ahi tem, mãesinha, uma rapariga muito desagradavel para as auctoridades! Como um dos carcereiros a tivesse insultado, declarou terminantemente que se deixaria morrer de fome, se elle não lhe pedisse desculpa. E durante oito dias não comeu coisa alguma, estando em riscos de abalar d’esta para melhor. É bonito, não acha? E o que me diz á minha barriguinha?
Saccudiu o ventre postiço, feito de massos de folhetos e passou ao quarto, fechando a porta.
—O quê? Pois esteve oito dias sem comer? perguntou Pélagué, admirada.
—Se era indispensavel que elle me pedisse desculpa!... respondeu, com uma tremura d’hombros friorenta.
Esta tranquillidade e esta obstinação austeras levaram ao animo de Pélagué o que quer que fosse semelhante a uma censura. «Ah! é assim, é assim!...» pensou.
E perguntou ainda:
—E se tivesse morrido?
—Estaria morta, naturalmente. Afinal, o homem acabou por pedir desculpa. Ninguem deve perdoar os ultrajes.
—Sim... Mas nós, as mulheres, somos ultrajadas durante toda a nossa vida...
—Prompto! Já larguei a carga! informou Iégor, apparecendo. O samovar está prompto? Se me dá licença...
Pegou n’elle e passando-o para o quarto:
—O meu papá bebia pelo menos vinte copos de chá por dia; por isso passou n’este mundo setenta e trez annos socegadamente e sem nunca estar doente. Pesava mais de cem kilos e era sacristão da aldeia de Vosskressensky...
—É filho do tio Ivan? perguntou Pélagué.
—Sim, sr.a. Como o sabe?
—É que eu tambem sou de Vosskressensky!
—Então somos da mesma terra! Que nome era o seu, em rapariga?
—Séréguine... Eramos visinhos...
—É a filha do Nile, o côxo? Não conheci eu outro figurão! Quantas vezes elle me puxou as orelhas!
Estavam de pé e riam no meio das perguntas. Sachenka olhando para elle a sorrir, ia preparando o chá. O ruido da loiça chamou Pélagué aos seus deveres.
—Desculpem. Começo o tagarellar e esqueço-os. É tão agradavel encontrar um patricio...
—Eu é que peço desculpa de me servir primeiro... disse Sachenka. Mas já são onze horas e ainda tenho muito que andar.
—Para ir para onde? para a cidade?!
—Sim, para a cidade.
—Mas chove, é noite, está cansada. Deixe-se ficar. O Iégor dorme na cosinha, e nós, as duas, aqui.
—Não! Tenho forçosamente que partir.
—É verdade, patricio: é forçoso que esta menina desappareça. Conhecem-na por cá. E se ámanhã a vissem na rua, seria mao.
—E vae-se embora sósinha!
—Vae! disse Iégor com um risinho.
A rapariga deitou ainda mais chá, pegou n’um pedaço de pão de centeio, salgou-o e entrou de comel-o, olhando pensativamente para Pélagué.
—Admira-me como é capaz de ir sósinha. E a Natacha tambem... Eu cá não era. Tenho um medo!...
—Mas olhe que ella tambem tem medo. Não é verdade, Sachenka?
—É.
Pélagué lançou-lhe um olhar, murmurando:
—Como são corajosas!
Depois de ter tomado o chá, Sachenka apertou a mão a Iégor sem dizer palavra e passou á cosinha seguida pela velha.
—Se vir o Pavel, dê-lhe muitas recommendações minhas.
Tinha já a mão no fecho da porta, quando, voltando-se rapidamente, perguntou:
—Deixa-me beijal-a?
Sem responder, Pélagué abraçou-a effusivamente.
—Obrigada! disse a rapariga, a meia voz.
E saíu, meneando a cabeça.
Ao voltar ao quarto, a velha olhou com anciedade para o lado da janella. Nas trevas espessas e humidas caíam lentamente flocos de neve meio derretidos.
Vermelho e suando, Iégor sentara-se, com as pernas afastadas e soprando ruidosamente ao chá. Sentia-se satisfeito.
A velha sentou-se tambem, e olhando tristemente para elle:
—Pobre Sachenka!... Como chegará ella ao fim do caminho?...
—Cançada! A cadeia serviu-lhe de provação... Era d’antes mais robusta... Depois, não foi educada como nós, á bruta... Parece-me que já tem os pulmões atacados.
—Quem é ella?
—Filha d’um proprietario rural. O pae é riquissimo e... canalhissimo. Naturalmente, mãesinha, já sabe que elles se amam deveras e que querem casar.
—Quem?
—O Pavel e ella. É isto! Mas afinal não o conseguem. Quando elle está em liberdade, está ella na cadeia, e vice-versa.
—Não sabia, não... Pavel nunca fala da sua pessoa.
E ainda mais se apiedou da rapariga.
—O sr. devia tel-a acompanhado! lembrou com certa hostilidade involuntaria.
—Impossivel! respondeu tranquillamente. Tenho uma caterva de coisas que fazer por cá, e para dar conta de tudo hei de andar o dia inteiro. É uma occupação muito desagradavel quando somos asthmaticos.
—Que bella rapariga! exclamava, pensando vagamente no que Iégor lhe dissera.
Vexava-a ter sabido aquella noticia por outrem e não pelo seu filho; mordeu os beiços fortemente e abaixou as palpebras.
—Sim! disse Iégor. Noto que ella lhe causa piedade. Faz mal! se começa a ter piedade dos revoltados não lhe chega o coração para todos. Francamente, ninguem tem boa vida... Ha tempos, um dos meus companheiros regressou do exilio; quando chegou a Nijni, a mulher e o filho esperavam-no em Smolensk, e quando elle chegou a Smolensk, já elles estavam presos em Moscou. Agora é a mulher que vae exilada para a Siberia. Eu tambem tive mulher, tambem, e era uma excellente creatura, mas cinco annos d’esta vida bastaram para a atirar para a cova.
Bebeu d’um trago o seu copo de chá e continuou a discorrer. Contou os annos e mezes que passara preso, e no exilio, as suas catastrophes, a fome na Siberia, os massacres nas prisões... A velha ouvia-o attentamente, admirando-se da simplicidade tranquilla com que elle descrevia aquelle viver cheio de perseguições e de torturas.
—Bem! Vamos agora ao nosso negocio...
A voz transformou-se-lhe, a phisionomia tornou-se grave. Perguntou como imaginava ella poder introduzir na fabrica os folhetos, e Pélagué ficou surpreendida ao perceber que elle conhecia a fundo todos os meios para chegar ao desejado fim.
Depois de combinarem tudo, voltaram a falar da sua aldeia; emquanto Iégor gracejava, a velha ia percorrendo em pensamento o passado, que lhe parecia semelhante a um pantano com monotonos monticulos, e com faias, pinheirinhos e bétulas brancas balouçando mansamente ao vento nas pequeninas collinas. As bétulas cresciam muito de vagar, e depois de terem vivido cinco ou seis annos n’aquelle sólo pútrido e movediço, caíam e decompunham-se... A velha considerava este quadro com indifinivel e misteriosa magoa. Na sua frente ergueu-se uma silhueta de rapariga de feições accentuadas e cheias de obstinação. Ia, sob os flocos de néve, fatigada e solitaria... E o seu filho estava encerrado n’uma pequena casa, cuja janella tinha grades de ferro... Talvez áquella hora elle não dormisse; pensava, por certo. Mas não estaria pensando em sua mãe, porque havia alguem que lhe era mais querido... Como uma nuvem de variegadas côres e informe, avançavam para ella os dolorosos pensamentos, invadindo-lhe a alma com violencia.
—Deve estar cançada, mãesinha! Vamo-nos deitar! disse Iégor, sorrindo.
Desejou-lhe uma boa noite, e passou á cosinha, caminhando d’esguelha, com precaução, com o coração cheio de ardente amargura.
Na manhã seguinte, ao tomar o chá, Iégor disse-lhe:
—E se a apanharem, e lhe perguntarem onde adquiriu os folhetos, o que responde?
—«Isso não é da sua conta!»... Aqui está o que eu respondo.
—Por esse ajuste é que elles não estão! O importante para elles é isso mesmo, e sobre o assumpto hão-de interrogal-a demoradamente.
—Não direi uma palavra!
—Mettem-na na cadeia!
—Que m’importa! Graças a Deus, terei ao menos servido para alguma coisa! A quem faço eu falta? A ninguem. E segundo dizem, já não torturam os presos...
—Hum!... Não a torturarão. Mas uma boa mulher como a sr.a deve ter cuidado em si.
—Não me parece que seja comsigo que possam aprender isso. Depois de ter dado alguns passos, em silencio, Iégor approximou-se d’ella.
—É custoso, patricia! sinto que ha-de custar-lhe muito!
—Todos estamos sujeitos!... Talvez seja mais facil para os que teem uma compreensão clara... Emfim, eu não compreendo bem, mas alguma coisa sei do que quer a nossa boa gente.
—E desde que o sabe, mãesinha, é util a todos, a todos!
Pelo meio-dia, Pélagué, tranquilla e importante, metteu um masso de folhetos no seio. Vendo a destreza com que ella os occultava, Iégor deu um estalido com a lingua e exclamou satisfeito:
—Sehr gut! como dizem os allemães ao esvasiarem um barril de cerveja. A litteratura não a transformou: continua sendo uma mulher como se quer! Os deuses protegem a sua empreza!
Meia hora depois, com o mesmo sangue-frio e acurvada ao peso da comida que levava para os operarios, Pélagué chegava á porta da fabrica. Dois guardas, irritados pela troça dos operarios com quem trocavam doestos, apalpavam sem ceremonias todos os que entravam no pateo. Um agente de policia passeava não distante d’alli, bem como um homem de olhar vago, pernas curtas, e cara vermelhaça. A velha observou este, de soslaio, emquanto passava o fardo para o outro hombro; advinhava que elle era um espião.
Um rapagão de cabellos encaracolados, com o boné para a nunca, gritava aos guardas que o revistavam:
—Procurem na cabeça e nas algibeiras, seus diabos!
Um dos guardas respondeu:
—Não és cara para teres na cabeça o que quer que seja... a não ser piôlhos!
—Pois n’esse caso, catem-nos, que é trabalho digno de vós!
O espião lançou-lhe um máo olhar, e escarrou para o chão.
—Deixem-me passar! pediu Pélagué. Não vêem que a minha carga é pesada? Trago o corpo quebrado...
—Vá! vá! pode passar mas não grite tanto! respondeu o guarda com máo modo.
Chegando ao seu logar, Pélagué pôz no chão as panelas da sopa e olhou em volta, limpando o suor.
Dois serralheiros, os irmãos Goussef, vieram logo; o mais velho, Vassili, perguntou-lhe em voz retumbante, franzindo o sobrolho:
—Temos hoje empadas?
—Ámanhã! respondeu logo.
Eram as palavras convencionadas. A fisionomia dos dois homens abriu-se. Incapaz de subjugar-se, Ivan exclamou:
—Ah! como tu és bôa!
Vassili agachou-se, observando uma das panelas, e ao mesmo tempo um massinho de folhetos deslisou-lhe para o peito.
—Ó Ivan, para que havemos de ir comer a casa? Jantemos aqui! E metteu os folhetos nos canos das botas. Deve-se proteger a nova vendedeira.
—Dizes bem! E desatou a rir.
Pélagué apregoava de quando em quando, continuando a olhar prudentemente em volta:
—Quem quer sopa? aletria quente! carne assada!
Pouco a pouco, ia tirando do seio mais folhetos, entregando-os cautelosamente aos dois irmãos. Sempre que isto acontecia, parecia-lhe ver de subito na frente o rosto do official da guarda, como uma nódoa amarella, semelhante á luz d’um fósforo n’um quarto escuro. E, em pensamento, ella atirava-lhe estas palavras, repassadas de satisfação:
—Chucha, tiosinho!
E ao passar mais folhetos, pensava ainda:
—Anda! chucha mais estes!
Quando os operarios se approximavam, de prato na mão, Ivan Goussef ria com estrondo; Pélagué suspendia a faina de passar os folhetos, deitava nos pratos sopa de hervas ou de aletria, emquanto Vassili lhe dirigia gracejos.
—Olhem que é muito habil, a tia Pélagué!
—A miseria até nos ensina a apanhar ratos... disse em tom sorna um fogueiro. Tiraram-lhe aquelle que lhe dava o pão... Canalhas! Pois venham de lá tres kopecks d’aletria. Coragem, boa velha! Tudo ha de acabar em bem!
—Obrigado por essa consolação! respondeu ella sorrindo.
Ao que elle retorquiu afastando-se:
—Não me custa nada!...
—Mas não vejo a quem ella aproveite! replicou um ferreiro, rindo.
E acrescentou, encolhendo os hombros:
—É isto a vida, rapazes! Ninguem a quem dirigir com proveito palavras de consolação... ninguem é digno d’ellas... não achas?
Vassili ergueu-se, abotoando cautelosamente o casacão:
—A comida estava quente, e, apezar d’isto, estou com frio.
Afastou-se, assim como o irmão, assobiando.
Pélagué continuava apregoando, sorrindo amavel:
—Sopa quente! Aletria! Sopa d’hervas!
Ia pensando em que contaria ao filho a sua primeira experiencia. A cara amarellenta do official, irritado e estupefacto, apparecia-lhe constantemente ao espirito; o bigode negro movia-se confusamente, e sob o labio superior, contraído por uma expressão de colera, brilhava o marfim dos seus dentes cerrados. Como um passarinho, no coração da velha adejava e trinava uma alegria intensa. E continuava dizendo em pensamento:
—Chucha! chucha ainda mais folhetos!...
XVI
Durante todo o dia um sentimento novo para ella lhe ameigou a alma. Á noite, concluido o seu trabalho, e quando estava tomando o chá, o tropel de um cavallo soou sob a janella, e ouviu-se uma voz conhecida. Pélagué levantou-se, rapida, e correu á cosinha para abrir a porta: alguem avançava a passos largos. Sentiu-se perturbada, encostou-se ao umbral e empurrou a porta com o pé.
—Boa noite, mãesinha! E duas mãos magras e compridas poisaram-lhe nos hombros.
Invadiu-a o desgosto da desillusão e ao mesmo tempo a alegria de tornar a ver o recemchegado, André. E estes dois sentimentos fundiram-se em immensa onda ardente que a arrebatou, atirando-a de encontro ao peito do russo-menor.
Este abraçou-a com força; as mãos tremiam-lhe. Pélagué chorava brandamente, sem falar emquanto André lhe acariciava os cabellos, dizendo-lhe com a sua voz sempre cantante:
—Não chore, mãesinha, não fatigue o seu coração! Dou-lhe a minha palavra d’honra que em breve elle será posto em liberdade. Não teem nenhuma prova contra elle, os companheiros não deram com a lingua nos dentes.
E envolvendo com os seus grandes braços os hombros de Pélagué levou-a para a maior divisão da casa; ella apertava-se contra elle com o movimento rapido e assustadiço d’um esquilo; depois aspirou com soffreguidão as palavras de André.
—O Pavel manda-lhe muitas recommendações. Está de saude e satisfeito quanto é possivel. Na cadeia não se vive á larga. Foram presas mais de cem pessoas, aqui e na cidade; mettem aos trez e aos quatro em cada cella. Nada ha a dizer da direcção da cadeia; não são maos; são apenas coagidos: os diabos da policia dão-lhes tanto que fazer!... Por consequencia a severidade é pouca. Dizem-nos constantemente: «Estejam mais socegadinhos, senhores, não nos dêem semsaborias!...» Assim, as coisas vão ás mil maravilhas. Podiamos falar uns com os outros, trocar os nossos livros, dividir a nossa comida. Que encantadora cadeia! É velha e suja, mas suave e levesinha. Os criminosos de direito commum eram tambem uma boa gente; prestavam-nos muitos serviços. Deram-me a liberdade e ao Boukine e ainda a mais quatro, porque os logares não chegavam. E dentro em breve hão de pôr na rua o Pavel. É mais do que certo. O Vessoftchikof é que ha de ficar por lá mais tempo, porque estão muito irritados contra elle. Insulta toda a gente, a todo o momento. Os guardas não o podem ver. Ha de acabar por ser julgado, se não lhe derem uma sova. O Pavel deligenceia socegal-o: «Cala-te, Nicolao; para que servem os teus insultos? Não consegues que elles se façam melhores!» Ao que responde aos berros: «Hei de arrancar da terra estas chagas!» O Pavel porta-se muito bem: é firme e ao mesmo tempo commedido com todos. Affianço-lhe que dentro em pouco pôem-no na rua.
—Dentro em pouco!... repetiu ella, sorrindo. Ah! sim! dentro em pouco!
—Verá! Vamos ao chásinho! O que tem feito n’estes ultimos tempos?
André comtemplava-a risonho, muito proximo do coração d’ella. Na profundeza azul dos seus olhos redondos brilhava uma como estrella de amor e de tristeza.
—Quero-lhe muito, André! exclamou com um longo suspiro; e ficou-se olhando para o rosto magro d’elle, coberto de pellos.
—Um poucochinho já me bastaria. Sei que me estima, sim. Tem uma grande alma, pode estimar a todos.
—Não! Quero-lhe muito em especial. Se o André tivesse mãe, haveriam de invejar-lhe tal filho.
Elle meneou a cabeça, esfregou vigorosamente as mãos, e disse a meia-voz:
—Eu tambem tenho mãe... tambem... algures...
—Sabe o que eu fiz hoje?
E, com a voz tremula pela satisfação, contou vivamente como tinha conseguido metter os folhetos na fabrica.
A principio, elle esbogalhou os olhos, surprezo; depois bateu na testa com o dedo e exclamou, cheio de alegria:
—Oh! mas isso é serio! o Pavel vae ficar radiante! Muito bem, mãesinha! Isso é tão util para o Pavel, como para os que foram presos com elle!
Fazia estalar os nós dos dedos, satisfeitissimo, assobiava, balouçava-se na cadeira. A sua alegria eccoava poderosamente na alma de Pélagué.
—Meu querido André, quando penso na minha vida!... Ai! Meu Deus! Para que tenho eu vivido? Para trabalhar e levar pancada! Não via mais ninguem senão o meu marido; não conhecia mais nada do que o medo. Não vi como o Pavel cresceu... nem mesmo sei se o amava emquanto o meu marido era d’este mundo. Todos os meus pensamentos, todos os meus cuidados, pertenciam a uma coisa unica: alimentar aquelle animal selvagem, para que andasse satisfeito e cheio, para que não se zangasse e me poupasse á pancada, uma vez ao menos. Mas não me recordo de que elle compreendesse isto. Batia-me com tal violencia, que parecia estar castigando não a sua mulher, mas sim aquella contra quem andava irritado. Assim vivi vinte annos. Do que fui antes de casar nem já me lembro. Quando tento recordar-me, nada vejo: é como se estivesse cega. Com o Iégor Ivanovitch—somos da mesma aldeia—conversei ultimamente e a respeito d’estes e d’aquelles... recordava-me das casas, revia as pessoas, mas não me lembrava da maneira como viviam, o que diziam, o que lhes acontecera. Lembro-me dos incendios, de dois incendios... O meu marido tanto me bateu, que de mim saccudiu todas as recordações. A minha alma era hermeticamente fechada; tornou-se depois cega e muda.
Resfolegou demoradamente, como um peixe fora d’agua; curvou-se para a frente, e continuou:
—Quando elle morreu, agarrei-me ao meu filho, que começou a preoccupar-se com essas coisas... Foi então que tive compaixão d’elle. «Como hei-de viver sósinha, se elle morrer?» perguntava a mim mesma. Quantos receios! quantas angustias! O meu coração despedaçava-se, quando eu pensava na sorte do Pavel!
Calou-se por instantes, meneou a cabeça, e continuou:
—É impuro o nosso amor, o das mulheres! Amamos aquillo de que precisamos... Quando o vejo pensar em sua mãe... Que falta lhe faz ella? E aquelles que soffrem pelo povo, que são mettidos na cadeia ou mandados para a Siberia, que morrem ou são enforcados por lá... essas raparigas que andam sósinhas de noite por cima da neve, da lama, e á chuva, que andam sete kilometros para virem ver-nos... o que é que as leva a isto? É o amor, mas um amor puro! Teem a fé... a fé...! Eu não sei amar assim; amo o que me diz respeito, o que me é próximo!...
—Tem razão! Todos amam o que lhes fica ao alcance, mas, para uma grande alma como a sua, do longe faz-se perto. Pode amar muito, porque tem um grande amor materno.
—Deus queira! Sinto que ha-de ser bom viver assim. Por exemplo, estimo-o, André, talvez mais do que o Pavel... Elle é tão reservado! Olhe: quer casar com a Sachenka e nunca me disse uma palavra, a mim, sua mãe!
—Não é verdade! Sei que não é verdade! Ama-a, e ella tambem o ama. Quanto a casarem, não. Ella quereria, mas o Pavel...
—Ah!... exclamou ficando a olhar tristemente para André. É isso! Deve-se renunciar a si mesmo.
—O Pavel é um homem extraordinario! Um caracter de ferro.
—E agora... preso! Mas a minha alma transformou-se, abriu os olhos, vê. Emquanto houver ricos, poderosos, o povo não obterá justiça, nem alegria, nada! Não é isto, André?
Elle levantara-se pensativo.
—É isso mesmo! Havia em Kertch um rapaz judeu que fazia versos, e que uma vez disse assim:
Podem assassinar os innocentes, Que a força da verdade os resuscita!
Elle mesmo foi assassinado pela policia, em Kertch, mas isso que importancia teve? Conhecia a verdade e semeára-a no coração dos homens. Ah! Pélagué! A sr.a é tambem uma creatura condemnada á morte... Resuscitou. O poeta sabia o que dizia.
—Falo, falo, e sinto-me, e não creio nos meus ouvidos. Hoje penso em todos. Não compreendo talvez muito bem isso em que andam mettidos... mas todos sinto proximo de mim, e desejo a felicidade de todos, a sua principalmente, meu André!
Elle approximou-se dizendo:
—Obrigado. Não falemos mais de mim.
E pegando-lhe na mão, apertou-a com força e voltou o rosto para o lado.
Fatigada pela commoção, Pélagué começou de lavar a loiça vagarosamente, emquanto o russo-menor, passeando pelo quarto, ia falando.
—Mãesinha, deve tratar de amansar o Vessoftchikof! o pae está com elle na mesma cadeia; é um velhote repellente. Quando o filho o vê, pela janella, insulta-o. Não é bonito! O rapaz é bom, gosta dos cães, dos ratos, de todos os seres, menos dos homens! Ora veja até que ponto pode ser corrompida uma alma humana!
—A mãe desappareceu, sem dar novas nem mandados. O pae é um bêbedo... disse Pélagué, pensativa.
Quando André foi deitar-se, fez-lhe no peito o signal da cruz, sem que elle désse por isso. Meia hora depois, perguntava, baixinho:
—Já dorme, André?
—Não. Porque?
—Nada. Boa noite.
—Obrigado, obrigado! respondeu, reconhecido.
XVII
Quando no dia seguinte ella chegou á porta da fabrica, carregada com o seu fardo, os guardas detiveram-na rudemente, mandaram-na pôr no chão tudo o que trazia e examinaram-na attentamente.
—Olhem que a sôpa arrefece! disse, tranquilla, emquanto a apalpavam sem ceremonia.
—Cala-te!
O outro disse, dando levemente com o hombro no camarada.
—Se eu te affirmo que os atiram cá para dentro por cima do muro!...
O velho Sizof foi o primeiro a approximar-se d’ella, perguntando-lhe em voz baixa:
—Ouviste?
—O quê?
—Os folhetos tornaram a apparecer. As prisões e as buscas não serviram para nada. O meu sobrinho Mazine está preso, o teu filho tambem, e afinal os folhetos continuam a ser distribuidos.
E concluiu, passando a mão pela barba:
—O caso não está nas prisões, mas sim nos pensamentos. E os pensamentos não são coisa que se agarre como quem apanha pulgas. Porque não vens tu á nossa casa? É aborrecido tomar o chá sósinha.
Agradeceu. Apregoando sempre, ia activando o movimento cheio de animação que havia na fabrica. Os operarios pareciam contentes; formavam-se grupos, as vozes eram excitadas; pairava no ar um como sopro d’audacia. Ora d’um canto, ora d’outro, partiam exclamações approvativas, gracejos pesados e até ameaças. A figura avantajada do Goussef apparecia aqui e ali; o irmão seguia-o, rindo. Um mestre marceneiro chamado Vavilof e o apontador Isaías passaram diante de Pélagué sem se apressarem. Este ultimo disse vivamente:
—Olha, Ivan Ivanovitch: riem, andam satisfeitos, embora o caso possa trazer a destruição do imperio, como disse o sr. director. O necessario não é mondar, mas sim semear.
Vavilof, com os braços cruzados nas costas, apertava fortemente os dedos.
—Imprimam tudo o que quizerem, cães do diabo! mas não se mettam em falar da minha pessoa!
Vassili Goussef approximou-se de Pélagué.
—Dá cá de comer. O que tu vendes é bom.
Depois, baixaram a voz:
— Vê, mãesinha, que o nosso fim está conseguido!
Ella disse que sim com a cabeça. Sentia-se feliz por lhe falar em segredo aquella creatura que tinha tão má fama no bairro; e ao notar a efervescencia que ia pela fabrica, dizia a si mesma, satisfeita:
—E pensar que se não fosse eu!...
Trez operarios pararam perto d’ella; um disse, a meia voz:
—Não encontrei...
—Se conseguissemos lêl-o!... Eu nem mesmo sei soletrar; mas percebo que elle é util.
O terceiro, olhou em volta, e depois propôz:
—Vamos para o pé dos fornos de fundição; eu mesmo o leio.
—Os folhetos vão fazendo o seu effeito!... cochichou Goussef a Pélagué.
Ella voltou para casa, satisfeitissima, pois tinha visto com os seus olhos que as proclamações attingiam o fim desejado.
—Os operarios lamentavam-se de serem ignorantes. Quando eu era rapariga, sabia ler, mas depois esqueci tudo.
—É tornar a aprender! disse André.
—Na minha idade! Isso até dava vontade de rir!
Mas André pegou n’um livro e perguntou, apontando para uma lettra.:
—Que é isto?
—Um R! respondeu, rindo.
—E isto?
—Um A.
E depois de compreender que o sorriso d’elle nada tinha humilhante nem ironico:
—Pensa, na verdade, eu instruir-me, André?
—E porque não? Tentemos. Já que uma vez aprendeu, ser-lhe-á agora facil. Se o conseguirmos, tanto melhor; se não, paciencia.
E a lição continuou.
Dedicando-se com toda a boa vontade; mexendo os sobrolhos, procurava recordar-se das letras esquecidas; tanto se mergulhára no estudo, que não se lembrava de nada mais; os seus olhos fatigaram-se dentro em pouco, e n’elles se accumularam as lagrimas que o cansaço provocava.
—Aprendo a ler! exclamou, soluçando... na hora em que só devia pensar na morte.
—Não chore! Ha milhares de creaturas que podiam instruir-se ainda mais, e todavia vegetam como brutos, embora se gabem de que vivem bem... E o que ha na sua existencia que seja bom? Sempre a mesma vida: trabalhar e comer. De vez em quando, fazem filhos: a principio acham-lhes graça, mas quando elles começam tambem a comer, entram de embirrar com elles, e dizem-lhes: «Vejam lá se crescem depressa, seus comilões, e se começam a trabalhar!» Nunca a sua alma é animada por uma alegria, por um pensamento que dê jubilo ao coração. Uns mendigam sempre, como os pobres, os outros fazem-se ladrões. Inventaram-se leis infames, entregaram a guarda do povo a umas creaturas a quem disseram: «Obriguem a que respeitem as nossas leis, que nos permittem sugar o sangue humano.» Se o homem não cede quando o comprimem, mettem-lhe á força, nos miolos, preceitos que brigam com a razão.
Encostado á meza, fitava o olhar em Pélagué, continuando:
—Mas os outros, como o seu filho, são homens que libertam o corpo e o cerebro. E a mãesinha tambem se consagrou a esse trabalho, dentro das suas forças.
—Eu?!
—Sim. É como a chuva. Cada gotinha vae alimentar um grão de trigo. E quando souber lêr...
Levantou-se; e a rir:
—O Pavel é que ha de ficar espantado, quando voltar!...
—Ah! meu André! Tudo é facil emquanto se é novo; mas quando se é velha...
Á noite, o russo-menor saíu. Pélagué foi fazer meia, mas, de subito, fechando-se bem por dentro, tirou da estante um livro, encostou-se á meza, acurvou-se sobre elle, e os seus labios começaram a mover-se... Quando vinha da rua algum ruido, fechava o livro, a tremer, e punha o ouvido á escuta. E ficava-se a soletrar, mentalmente:
—L... A... V... I... A...
XVIII
Bateram á porta. Foi pôr o livro na estante.
—Quem é?
—Eu.
Rybine entrou. Tendo trocado os cumprimentos, alizou a barba demoradamente, olhou para o quarto, e disse:
—D’antes deixavas entrar toda a gente, sem perguntares quem era... Estás sosinha?
—Estou.
—Julguei que estivesses com o André. Vi-o hoje. A cadeia não corrompe o homem. O que corrompe mais do que tudo é a estupidez.
Passou ao quarto e sentou-se.
—Venho dizer-te alguma coisa. Tive uma idéa...
A sua gravidade e o seu ar misterioso sobresaltaram Pélagué, que se sentara diante d’elle.
—Tudo custa dinheiro! começou. Ninguem nasce nem morre gratuitamente. Ora os folhetos tambem custam dinheiro. Sabes d’onde elle vem para pagar os folhetos?
—Não sei.
—Nem eu. Em segundo logar: quem os compõe?
—Sabios...
—Gente que está acima de nós. Portanto são os grandes que compõem os folhetos. Ora se os folhetos são contra elles, que interesse teem elles em publical-os, gastando para isso o seu dinheiro?
Pélagué fechou os olhos; e ao reabril-os:
—O que pensas? Dize!
—Ah! exclamou, movendo-se na cadeira como um urso. Senti tambem um calafrio quando me veio este pensamento!...
—O que ha então? Soubeste alguma coisa?
—É tudo um embuste! Entendo que é um embuste! Eu compreendo a verdade, e não quero entender-me com os ricos. Quando precisam de nós, atiram-nos para a frente, para que os nossos corpos lhes sirvam de ponte.
Estas palavras acerbas confrangiam o coração da pobre velha.
—Ó Senhor! exclamava angustiada. E o Pavel que não compreendeu nada d’isso? Pois dar-se-á o caso de que todos aquelles, que vinham da cidade, fossem...?
As fisionomias graves de Nicolao Ivanovitch, de Iégor, de Sachenka, appareceram-lhe na frente.
—Não! não!... Não posso acreditar. São creaturas animadas só pela sua consciencia, sem más intensões...
—Não é para esses que devemos olhar, mas para mais alto. Os que mais se nos approximam sabem naturalmente tanto como nós. Crêem que procedem bem... amam a verdade. Mas talvez que por de traz d’elles haja outros que não pensem da mesma maneira. O homem não trabalha contra si proprio, não tendo para isso fortes razões.
E accrescentou, com a tacanha certeza do camponio, eivado de uma incredulidade secular:
—Das mãos dos grandes e dos illustrados nunca nos virá coisa bôa!
—O que resolves, então?
—Que não devemos alliar-nos aos que estão acima de nós! Ora aqui está!
Tornou a calar-se, como se se dobrasse sobre si mesmo.
—Vou pôr-me a caminho. Desejava ter-me reunido aos companheiros e trabalhar com elles. Sirvo para isso; sou teimoso, e não muito parvo; sei lêr e escrever. E principalmente percebo o que se deve dizer a essa gente... Vou pôr-me a caminho; é o que devo fazer, já que não posso acreditar. Vou sósinho por essas cidades e aldeias a sublevar o povo, a quem cumpre correr á conquista da sua liberdade. Se souber compreender, encontrará para isso uma saída. Tentarei fazel-o compreender que em ninguem deve ter esperança senão n’elle proprio.
Ella teve piedade de Rybine, a sua sorte assustava-a; parecera-lhe sempre antipathico; e n’aquelle momento sentia-o mais perto d’ella, mais familiar.
—O Pavel vae por um caminho... e elle vae por outro. O Pavel terá menos trabalho... murmurou involuntariamente, accrescentando: Serás preso!
Rybine olhou para ella e replicou:
—Mas soltar-me-ão!
—A gente do campo será a primeira a entregar-te... e poderás ficar preso por muito tempo...
—Acabarei por vir para a rua, e voltarei á mesma. Quanto aos camponios, entregar-me-ão duas ou trez vezes, mas hão de acabar por compreender que farão melhor escutando-me. Dir-lhes-ei: «Não acreditem em mim: oiçam-me apenas!» E se me ouvirem, acabarão por acreditar-me.
—Vaes morrer!... disse tristemente a velha, meneando a cabeça.
Elle fitou-a com um olhar cheio de interrogação. O seu corpo vigoroso estava inclinado para a frente; as mãos apoiavam-se na cadeira; o seu rosto moreno empallidecera, enquadrado na barba negra.
—Sabe o que Jesus disse do grão de trigo? «Não morrerá, mas resuscitará em uma nova espiga!» O homem é um grão de verdade... E eu ainda não estou ás portas da morte...
Levantou-se, vagaroso.
—Vou ate á taverna. Quando o André voltar, repete-lhe o que eu te disse?
—Sim.
Passaram á cosinha e trocaram algumas frases curtas, sem olharem um para o outro.
—Adeus...
—Adeus... Quando recebes a tua feria?
—Já a recebi.
—E quando partes?
—Amanhã de manhãsinha. Adeus!
Curvou-se, e saíu um pouco assustado, como contra vontade. Durante uns momentos, a velha ficou á porta prestando o ouvido ao andar que se afastava... Depois foi até ao quarto e pôz-se a olhar pela janella. Densas trevas se apegavam ás vidraças, parecendo esperar o que quer que fosse que podesse tragar as suas fauces insondaveis.
—Vivo de noite! pensou. Sempre de noite!
André chegou d’ali a pouco, animado, alegre. Quando a velha lhe falou de Rybine, exclamou:
—Parte?! Pois que vá! que vá espalhar pelas aldeias a verdade, e accordar o povo. Era-lhe difficil ficar comnosco. Tem na cabeça umas idéas especiaes, que não lhe deixam adoptar as nossas.
—Falou dos ricos, dos nobres, dos illustrados. Parece haver no caso alguma coisa torta!... disse ella prudentemente. Oxalá não sejamos enganados!...
—Isso dá-lhe cuidado, mãesinha? Ah! o dinheiro! não é? Vamos vivendo por conta d’outrem. O Nicolao Ivanovitch ganha setenta e cinco rublos por mez, e entrega-me cincoenta. Os outros fazem o mesmo. Os estudantes, que passam privações, cotisam-se tambem, e conseguem mandar-nos pequenas quantias, accumuladas kopeck a kopeck. É isto! Ha homens para tudo: uns enganam-nos, outros não nos deixam avançar; mas ha os melhores, os que nos acompanham no caminho da victoria!
E esfregando as mãos:
—Mas o triunfo ainda vem longe, ainda! Emquanto não chega, vamos organisar um primeiro de maiosinho! Ha de ser divertido!
As suas palavras e a sua animação tranquillisaram Pélagué. Elle, passeando a passos largos continuava:
—Se soubesse que extraordinaria sensação eu tenho ás vezes!... Parece-me que por toda a parte por onde vou, os homens são companheiros, incendidos na mesma fé, que todos são bons. Todos se compreendem sem precisarem de falar, ninguem offende o proximo. Vive-se em bôa harmonia, cada alma canta a sua canção, e, como regatos, todas as canções se reunem em um unico rio, que vae avançando, majestoso e grave, para o mar onde brilham os clarões da vida livre. E digo com os meus botões que isto ha de realisar se, que isto não póde deixar de ser, se nós quizermos que seja! E então o meu coração transborda de alegria; tenho vontade de chorar, tal é a minha felicidade!
A velha nem se movia, para não o interromper. Escutara-o sempre mais attentamente do que aos seus companheiros porque elle falava com mais simplicidade, e as suas palavras iam mais fundo á alma. O Pavel tambem era para a frente que olhava, mas mantinha-se solitario e nunca dizia o que via. Parecia a Pélagué que André olhava sempre para o futuro com o coração: a lenda do triunfo de todas as creaturas surgia sempre nos seus discursos. E aos olhos de Pélagué aquella brilhante lenda illuminava lhe a compreensão da vida e do trabalho a que o filho e os seus companheiros se tinham entregado.
—É humilhante isto! exclamou elle de subito. Não se póde acreditar no homem. Precisamos até de temel-o e de odial-o. O homem desdobra se, a vida parte-o em dois. Como seria possivel amar somente? Como perdoar áquelle que se arroja sobre vós, como um animal selvagem? Impossivel! Não falo por mim. Supportaria todos os ultrages; mas não quero ter connivencia com os oppressores; não quero que se sirvam dos meus costados para aprenderem a bater nos outros.
Uma expressão de frieza accudiu ao seu olhar, a voz tornou-se-lhe mais firme.
—Não devo perdoar o que seja mao, ainda quando não me prejudique. Não sou só eu na terra. Admittamos que hoje me deixo insultar sem responder ao insulto; hei de rir talvez, porque não me senti ferido; mas ámanhã o insultador, que experimentou em mim a sua força, vae tirar a pelle a outro. Por isto não devemos considerar toda a gente da mesma maneira; convem reprimir o coração, vêr quem são os inimigos e quem são os amigos. É justo, embora não seja divertido!
Sem saber porquê, Pélagué pensou em Sachenka e no official. Disse com um suspiro:
—Como se ha de fazer pão com trigo que não foi semeado?
—Esse é o mal!
No espirito da velha desenhava-se a figura de seu marido, semelhante a uma grande pedra coberta de musgo. Fantasiou André casado com Natacha, e o seu filho casado com Sachenka.
O russo-menor e Pélagué tiveram muitas conversas d’este genero. Elle conseguira metter-se outra vez na fabrica, e entregava todo o seu dinheiro a Pélagué, que o acceitava naturalmente, como se fosse de Pavel.
Ás vezes, com um sorriso no olhar, André propunha-lhe:
—Se nós aprendessemos a contar?...
Ella recusava; o sorriso d’André acanhava-a. Pensava, um tanto vexada: «Se tu ris, para que havemos de falar n’isso?»
Elle notou que a velha era mais frequente em pedir-lhe a significação de certas palavras; percebia que ella ia-se instruindo ás escondidas, e por isto deixou de insistir em ensinal-a.
—Vae-me faltando a vista, meu André; sinto-a cançada... disse-lhe, um dia. Gostava muito de usar uns oculos.
—Está dito! No domingo vamos ambos á cidade consultar um doutor que eu conheço, e compraremos depois os oculos.
XIX
Já por trez vezes ella sollicitara licença para ver o filho, recebendo sempre a negativa benevola do chefe dos guardas, um velho de cabellos brancos, faces escarlates e nariz comprido.
—D’aqui a uma semana, mulhersinha. Antes, não! Para a semana veremos. Hoje é impossivel.
—É muito delicado! contava ella a André. Sempre a sorrir!... Não me parece bem. Quando se é chefe, não se deve levar assim as coisas de brincadeira.
—Sim, sim... São amaveis, sorriem muito... Se lhes dizem: «Vê aquelle homem intelligente e honrado? É perigoso para nós: enforque-o!» Elles sorriem, enforcam-no, e depois continuam a sorrir.
—Aquelle que veio cá fazer a busca era mais simples, valia mais: via-se logo que era um canalha!
—Dir-se-ia que não são homens mas sim martellos, ferramentas, para nos talharem por forma a ficarmos ao gosto do governo. Elles proprios foram accomodados á mão que nos dirige...
...A final, Pélagué obteve a ambicionada licença. No domingo, entrou na secretaria da cadeia e sentou-se modestamente a um canto. Havia mais visitas n’aquella casa acanhada e suja, de tecto baixo. Não era a primeira vez que se encontravam ali: conheciam-se uns aos outros. A conversa ia-se arrastando lentamente, a meia voz.
—Sabe? dizia uma mulherona já de alguma idade, e que tinha uma malêta nos joelhos. Esta manhã, á primeira missa, o mestre-capella da catedral, esteve outra vez quasi a arrancar uma orelha a um menino de côro.
Um homem de meia idade, com o uniforme de soldado reformado, tossiu ruidosamente e replicou:
—Os taes meninos de côro são uns garotos!...
Um homemsinho calvo, de pernas curtas, braços compridos, a maxilla proeminente, passeava d’um lado para o outro, com ares de preocupado. Sem parar dizia:
—A vida está cada vez mais cara; e é por isto que os homens nunca foram tão maos! A carne de vacca de primeira qualidade custa a quatorze kopecks o arratel, o pão dois kopecks e meio...
De quando em quando, entravam prisioneiros, vestidos de cinzento, com grossos sapatos de coiro. Um d’elles trazia uma corrente no pé. Parecia que os visitantes estavam acostumados havia muito áquelle espectaculo. O coração de Pélagué tremia d’impaciencia; olhava perplexa para tudo o que a cercava.
A seu lado estava uma velhinha com as faces enrugadas e com os olhos amortecidos. Prestava attenção á conversa, estendia o pescoço delgado e fugia a olhar para os assistentes, com uma expressão de irascibilidade.
—Quem tem a sr.a aqui? perguntou-lhe Pélagué com doçura.
—O meu filho, que é estudante! E a sr.a?
—Tambem o meu filho, operario.
—Como se chama elle?
—Vlassof.
—Não conheço. Está cá ha muito tempo?
—Ha sete semanas.
—E o meu ha dez mezes!
E Pélagué, julgou perceber-lhe no tom da voz, o que quer que fosse parecido com o orgulho.
Uma senhora alta, vestida de preto, de rosto comprido e pallido, disse vagarosamente:
—D’aqui a pouco mettem na cadeia todas as pessoas de bem. Já não as podem aturar.
—Sim, sim! replicou o velho calvo. A paciencia vae faltando. Toda a gente se zanga e clama, e tudo vae augmentando de preço. É por isto que as pessoas vão diminuindo de valor. E não apparece nenhuma voz conciliadora...
A conversa generalisou-se e animou se. Cada qual formulava a sua opinião acerca da vida, mas todos falavam a meia voz; e Pélagué sentia n’aquellas palavras o que quer que fosse estranho. Em sua casa, falava-se d’outra maneira, d’uma maneira mais compreensivel, mais natural, mais aberta.
Um guarda, de grande barba grisalha, gritou:
—A Vlassof!
Mediu-a com o olhar e disse:
—Vem!
E foi andando, arrastando os pés. A vontade de Pélagué era empurral-o para que elle andasse mais depressa. Afinal, n’um pequenito quarto, encontrou-se com Pavel, que lhe estendeu a mão, sorrindo.
Ella agarrou-a, rindo muito, e dizendo:
—Bons dias! bons dias!
—Olá, mulher! exclamou o guarda. Afastem-se um pouco um do outro. É do regulamento.
E bocejou.
Pavel pediu á mãe noticias da sua saude, da sua casa. Ella esperava outras perguntas, procurava-as até, no olhar do filho, mas não as encontrou. Como sempre, elle apresentava-se tranquillo; apenas um pouco mais pallido; os seus olhos pareciam maiores.
—A Sachenka manda-te recommendações.
As palpebras de Pavel estremeceram e abaixaram. O seu rosto dulcificou-se e brilhou com um sorriso.
—Pôr-te-ão em breve na rua? perguntou, irritada de subito. Por que foi que te prenderam? Sim porque afinal os taes folhetos voltaram a apparecer.
Os olhos de Pavel tiveram um lampejo d’alegria.
—Serio?!
—É proíbido falar d’essas coisas! observou o guarda, indolente. Só se pode falar d’assuntos de familia.
—Ora essa! Então isto não é assunto de familia? perguntou ella.
—Sei lá! O que digo é que é proibido. Falem da comida, da bebida, da roupa lavada, e de mais nada! elucidou, continuando como indifferente.
—Está bem! Falemos da nossa casa, mamã? O que é que tu fazes?
—Levo comida aos operarios, comida e outras coisas! respondeu com audacia.
Deteve-se e explicou melhor, depois de resfolegar:
—Sopa, carne assada, tudo o que Maria costuma cosinhar, e... toda a especie de alimento.
Pavel compreendera. O rosto contraíu-se-lhe n’uma gargalhada abafada. Depois, carinhosamente:
—Minha querida mãe... Muito bem! muito bem! Sinto-me feliz, sabendo que tens tão bom emprego, que não te aborreces. Não é verdade que não te aborreces?
—E sabes? Revistaram-me toda quando os taes folhetos tornaram a apparecer! informou um tanto fanfarrona.
—Outra vez?! exclamou o guarda. Já lhes disse que é proíbido. Priva-se um homem da sua liberdade, para que elle não saiba do que vae lá por fóra, e vens tu, mulher, e começas a tagarelar!... Compreendam que o que é proíbido é proíbido!
—Está bem! não se fala mais n’essas coisas, mamã. O Matvé Ivanovitch é um bom homem: não devemos fazel-o zangar. Damo-nos bem um com o outro. É por acaso que elle assiste hoje ás entrevistas dos presos com os visitantes. Quem costuma assistir é o director. E o Matvé Ivanovitch receia que tu digas coisas... superfluas.
—Acabou o tempo da visita! disse o guarda, tendo consultado o seu relogio.
—Obrigado, mamã! muito obrigado, querida mãesinha! Não te dê cuidado, que dentro em pouco serei posto em liberdade.
Abraçou-a com effusão; ella começou a chorar.
—Separem-se! ordenou o guarda; e, reconduzindo Pélagué, ia-lhe dizendo, resmungando:
—Não chore... Está aqui está na rua! Vão dar a liberdade a muitos... os logares são poucos... não cabem todos...
Em casa, ella disse ao russo-menor:
—Falei-lhe... com geito... percebeu-me muito bem.
E acrescentou com um suspiro:
—Percebeu-me, sim, se não, não me abraçava com tanta gana! Foi a primeira vez...
—Ah! todos desejam isto ou aquillo, mas as mães não desejam senão affagos!
XX
Uma noite, estando Pélagué a fazer meia e André lendo em voz-alta a historia da revolta dos escravos romanos, alguem bateu violentamente á porta. O russo-menor foi abrir, e Vessoftchikof entrou, com um embrulho debaixo do braço, o boné descaído para os olhos, e todo elle enlameado até aos joelhos.
—Passando na rua, vi luz cá dentro e bati á porta para a cumprimentar. Saí da cadeia agora mesmo!
E apertando a mão de Pélagué:
—O Pavel recommenda-se muito.
Deixando-se caír n’uma cadeira, hesitantemente olhou em volta, como de costume desconfiado.
A sua cabeça angulosa e rapada e os seus olhitos tornavam no antipatico a Pélagué, o que não impedia que estivesse gostando de vel-o e que lhe dissésse, affectuosa:
—Emagreceste!... Ó André, vamos fazer-lhe o chá!
—Já cá estou preparando o samovar! respondeu da cosinha o russo-menor.
—E então como vae o Pavel? Vieram outros para a rua comtigo?
Vessoftchikof respondeu abaixando a cabeça:
—O Pavel continúa preso... Encheu-se de paciencia... Para a rua vim só eu.
E levantando o olhar, continuou vagaroso e com os dentes cerrados:
—É que eu disse-lhes: «Deixem-me ir embora, que já estou farto! senão mato o primeiro que puder, e suicido-me depois!» Ora!... foi logo! E fizeram bem, porque eu cumpria o que promettera!
—Sim, sim, creio!... balbuciou ella, afastando-se, com as palpebras tremulas, como sempre lhe acontecia quando fitava aquelle rosto bexigoso.
—E como vae o Fédia Mazine? perguntou da cosinha André. Continúa fazendo versos?
—Continúa! Quer dizer... não o percebo bem. Parece um pintasilgo: mettem-no na gaiola, e canta. O que sei é que não tenho nenhuma vontade de ir para casa.
—E tens razão. Vaes encontral-a vasia, o fogão apagado, tudo muito frio...
Vessoftchikof calou-se, cerrou os olhos, depois, tirando da algibeira um masso de cigarros, começou a fumar, muito descansadamente. Com o olhar ia seguindo as nuvens de fumo que se esvaía por cima da sua cabeça; e de subito, rindo esganiçadamente como o uivar d’um cão:
—Sim, muito frio... Naturalmente, o chão está, cheio de baratas geladas, os ratos devem estar tambem mortos de fome... Pélagué Nilovna, dás licença que eu durma cá em casa?
—Está dito! respondeu logo. Sentia-se pouco á vontade; por isto não disse mais.
Foi elle que murmurou em tom abatido:
—Estamos agora no tempo em que os filhos teem vergonha dos paes.
—O quê? perguntou ella, estremecendo.
—Não te apouquentes, que não falo de ti. Tu nunca envergonharás o Pavel. Eu é que me envergonho do meu pae... Não quero voltar para casa d’elle. Já não tenho pae, nem casa. Estou sob a vigilancia da policia, agora, se não ter-me-iam mandado para a Siberia. Creio que um homem, que não se poupasse a trabalhos, teria muito que fazer na Siberia... Daria a liberdade aos exilados, ajudal-os-ia a fugir...
Graças ao seu coração sensivel, a velha percebia que o rapaz estava soffrendo, mas a sua dôr não lhe provocava a compaixão.
—Dizes bem. Sendo assim, seria melhor teres ido... André veio da cosinha.
—Que estás tu para ahi a cantar, homem?
A velha ergueu-se.
—Vou arranjar alguma coisa para comer.
Vessoftchikof olhou fixamente para o russo-menor e respondeu com firmeza:
—Digo que é preciso matar umas pessôas!...
—Ih!... E para quê? perguntou, tranquillo.
—Para que deixem de existir!
—Tens então o direito de transformar os vivos em cadaveres?
—Tenho!
—E onde foste buscal-o?
—Foram os homens que mo deram!
O russo-menor, alto, magro, parou no meio do quarto, bamboleando o corpo; com as mãos nas algibeiras, observava dos pés á cabeça o bexigoso. Este, sentado e envolto n’uma nuvem de fumo, tinha n’aquelle momento o rosto palido salpicado de manchas vermelhas.
—Foram os homens que mo deram! repetiu, de punho cerrado. Desde que me dão pontapés, tenho o direito de responder, atirando-me aos focinhos, aos olhos... Se não me tocarem, eu não toco em ninguem. Deixem-me viver como quero, que eu viverei quieto, sem incommodar os mais. Juro! Supponhamos que quero viver n’uma floresta, construir uma cabana n’uma ravina, na margem d’um regato... e viver ali, sósinho...
—Pois faz isso! respondeu, encolhendo os hombros.
—Agora? Não! É impossivel! Estou ligado estreitamente aos homens até á morte! Ligaram o meu coração com o odio, prenderam-me a elles com o mal. É um laço muito solido. Odeio-os, e vá por onde fôr não os deixarei viver tranquillos. Incommodam-me, e eu incommodal-os-ei. Respondo por mim, só por mim; não posso responder por mais ninguem. E se o meu pae é um ladrão...
—Ah! exclamou repreensivamente André, em voz baixa, approximando-se.
—Ainda acabo por arrancar a cabeça ao Isaías Gorbof, verás!
—E porquê?
—Porque anda a espiar-me. Foi por causa d’elle que o meu pae se perdeu, é com elle que o meu pae conta para entrar para a policia secreta!
—Olhem o grande mal! Mas quem te censura, a ti, pela vida do teu pae? Isso é para os tolos!
—Para os tolos e para os não tolos! Olha: tu és intelligente, o Pavel tambem. Dize lá: teem por mim consideração igual á que teem pelo Fédia Mazine ou pelo Samoílof, ou um pelo outro? Não mintas, que não te acreditaria. Atiram-me para o canto!
—Tens a tua alma doente, amigo! respondeu André, affectuosamente, sentando-se ao lado d’elle.
—A vossa tambem soffre. Mas imaginam que as suas ulceras são mais nobres do que as minhas. Procedemos uns para os outros como canalhas! é o que te digo! O que respondes a isto, an?
Fitou o olhar penetrante em André e esperou, com os dentes á mostra. O seu rosto palido estava impassivel; apenas lhe tremiam os labios grossos como se tivessem sido queimados e contraídos por algum liquido caustico.
—Nada te responderei! disse André acariciando o olhar hostil de Vessoftchikof com o sorriso luminoso e triste dos seus olhos azues. Sei demais que querer discutir com alguem, cujo coração está sangrando, é o mesmo que irrital-o. Sei, irmão.
—Não se pode discutir comigo; não sei discutir! resmungou, abaixando os olhos.
—Estou certo de que todos nós caminhámos como tu agora, com os pés descalços por cima de vidros partidos; que todos nós respirámos essas mesmas evaporações de horas sombrias...
—Não podes dizer coisa alguma que me socegue. Nada! A minha alma uiva como um lobo!
—Nem tenho tal intuito. O que sei é que isso ha de passar. Talvez não muito depressa; mas ha-de passar.
E pôz-se a rir, batendo no hombro do rapaz:
—É uma doença de creanças, no genero da escarlatina, irmão. Todos nós fomos atacados do mesmo mal, com maior ou menor violencia, conforme eramos fortes ou fracos. Ataca a gente da nossa condição, quando nos encontramos sósinhos, quando não compreendemos ainda a vida, quando não vemos o logar que nos foi destinado. Parece-nos que somos o unico homem n’este mundo e que ninguem se importa comnosco, a não ser para nos devorar. Mais tarde, quando vires que ha tambem boas almas n’outros peitos alem do teu, consolar-te-ás... e envergonhar-te-ás de ter acreditado que só tu davas a nota afinada, e de ter querido trepar ao campanario sendo o teu sino tão pequeno, que ninguem o ouve na bimbalhada dos dias de festa. Perceberás então que és uma voz apenas perceptivel, mas necessaria, no côro poderoso e magnifico da verdade. Compreendes o que eu quero dizer?
—Compreendo... compreendo... Mas não te acredito!
—Tambem eu não queria acreditar...
O bexigoso pôz-se então a rir com a bôca aberta até ás orelhas.
—Que é isso?
—Pensava que seria um grande parvo aquelle que te insultasse.
—E porque hão-de insultar-me? perguntou ainda André, encolhendo os hombros.
—Sei lá! O que digo é que o homem que te tiver insultado, ha-de ficar depois com uma linda cara de parvo!
—Era a isso que querias chegar!... commentou, rindo.
Ouviu-se a voz de Pélagué:
—Venha, André! venha buscar o samovar.
A sós, Vessoftchikof olhou em volta; estendeu a perna, observou as botas grossas; acurvou-se, palpando a barriga da perna; depois observou attentamente a palma e as costas da mão pelluda; levantou-a, e ergueu-se.
Quando André trazia o samovar, o bexigoso, diante do espelho, acolheu-o com estas palavras:
—Ha quanto tempo eu não via o meu focinha!... Estou feio como o diabo!
—Que te faz isso?
—A Sachenka diz que o rosto é o espelho da alma...
—Qual historia! Tem o nariz de gancho, as faces agudas como bicos de tezoura, e todavia a sua alma é pura como uma estrella!...
Sentaram-se para tomarem o chá e comerem. Vessoftchikof deitou a mão a uma grande batata, salgou um pedaço de pão e começou a comer tranquillamente, vagarosamente, como um lobo.
—E como vão as coisas por cá? perguntou com a bôca cheia.
E, tendo ouvido as informações d’André:
—Tudo isso vae de vagar! É preciso ir mais de pressa.
—A vida não é um cavallo: não a fazemos andar ás chicotadas.
Mas o bexigoso meneava a cabeça, obstinado.
—Vae devagar... vae... Eu não tenho grande paciencia... Que é preciso que eu faça?
—Devemos aprender a ensinar os outros. É este o nosso dever!
—E quando entraremos em lucta?
—Ignoro. Segundo a minha opinião, antes de pegarmos em armas, deveremos armar o nosso cerebro.
—O rapaz ficou silencioso, voltando a comer. Sem que elle percebesse, a velha observava-lhe o rosto picado das bexigas, tentando descobrir n’elle alguma coisa que a reconciliasse com aquelle caracter aggressivo; mas ao encontrar-lhe o olhar penetrante, ficava na mesma e movia os sobrolhos, desanimada.
No seu intimo, os dois moradores do velho pardieiro sentiam-se como apertados, pouco á vontade, e lançavam de quando em quando olhares furtivos para o hospede.
Até que este ergueu-se.
—Não me saberia mal deitar-me. Estive encarcerado por muito tempo, puzeram-me na rua de repente... vim por ahi adiante... Estou cançado.
Quando elle foi para a cosinha, a velha cochichou a André:
—Tem uns pensamentos terriveis!...
—Não é um rapaz docil, não. Mas ha de passar-lhe. Eu tambem era assim. Quando o coração não aquece a valer, junta-se n’elle muita gordura... Vá deitar-se, mãesinha, que eu ainda vou ler um pouco.
André ouviu-a resar n’um murmurio. Emquanto elle ia lendo, um tanto febrilmente, a pendula do relogio oscilava em cadencia, nas vidraças o vento gemia.
A velha murmurava:
—Ó Senhor! quanta gente por este mundo, queixando-se conforme os seus males! Onde estão os felizes?
—Ha-os, sim; e dentro em breve serão em grande numero! ah! muito grande! respondeu elle.
XXI
A vida ia decorrendo rapida, de dias variados. Cada qual trazia novas a Pélagué, que não se perturbava com ellas. Cada vez eram mais os desconhecidos que vinham á noite conversar com André, e que, sempre desconfiados e cautelosos, se retiravam no meio das trevas, com a gola do casaco levantada, a pala do bonet sobre os olhos.
Para Pélagué todos aquelles rostos, novos ou velhos, fundiam-se em um só rosto magro, calmo e decidido, de olhar profundo, carinhoso e severo ao mesmo tempo, como o de Jesus a caminho de Emmaús.
Contava-os e imaginava-os cercando Pavel, como para tornal-o menos visivel aos seus inimigos.
Uma noite, uma rapariga esperta, de cabello encaracolado, chegou da cidade, com um embrulho para André; e, ao saír, disse para Pélagué com um olhar brilhante e cheio d’alegria:
—Até á vista, companheira!
—Até á vista.
—E foi á janella para vêr a sua «companheira» pela rua abaixo, em passinhos meudos, fresca como uma flôr de primavera, ligeira como uma borboleta.
—«Companheira»!... Ah! minha queridinha! Deus te dê um bom companheiro por toda a vida.
Notava por vezes nos que vinham da cidade aspectos variegados que lhe despertavam a simpatia; mas o que principalmente a impressionava era a sua simplicidade, o seu bello e tão generoso esquecimento de si proprios.
Compreendia já muitas coisas que os visitantes discutiam; sentia, que de facto, elles tinham descoberto a verdadeira origem da desgraça dos homens, e ia-se acostumando a approvar as suas opiniões. Mas não acreditava que elles podessem transformar a existencia á sua maneira, nem que tivessem a sufficiente força de attraír a si todos os operarios.
Regularmente, continuava levando folhetos para a fabrica, com o sentimento do dever cumprido; imaginava toda a especie de astucias; e os guardas, acostumados a vél-a, nem já lhe prestavam attenção. Todavia, revistavam-na por vezes, mas sempre nos dias seguintes a ter havido distribuição de folhetos. Quando não os levava, Pélagué sabia fazer-se notada, excitar a curiosidade dos guardas, que a detinham, ficando afinal com caras de tolos.
Vessoftchikof não tornou a ser acceite na fabrica; metteu-se como operario n’uma estancia de madeira, e de manhã á noite guiava os carretos de traves, lenha, taboas. Os cavallos que puxavam a carroça iam como ás cegas, em risco de atropellarem quem passava, de irem de encontro ás outras carroças; o rapaz era perseguido por uma chuva de doestos e de imprecações. Sem levantar a cabeça, sem responder, assobiava estridentemente, e chicoteava, nos intervallos, resmungando: