SEGUNDA PARTE (continued 3)
Augusto de Lacerda translation
—Não devo ir-me embora! pensou. Não o devo fazer!
Reteve-se vigorosamente á balaustrada e ficou esperando.
Em pé, no cimo da escadaria da administração, o commissário discursava com grandes gestos, repreensivo, e na sua voz outra vez incaracteristica de indifferença:
—Imbecis! Filhos de cães! Não compreendem nada e vão metter-se n’um negocio d’estes!... n’um negócio d’Estado! Idiotas! Vocês deviam agradecer-me a minha bondade, deviam inclinar-se diante de mim, até ao chão! Se eu quizesse, iam todos para as galés!
Escutavam-no uns vinte campónios, de chapeu na mão.
Caía a noite; vinham descendo as brumas...
Então o homem dos olhos azues approximou-se de Pélagué e commentou com um suspiro:
—Que cantiga aquella, an?
—É verdade! respondeu, baixo.
Elle fitou-a com um modo decidido; perguntou:
—Em que se emprega?
—Compro rendas ás mulheres que as fabricam... e pannos tambem.
O campónio afagou de vagar a barba; depois, disse em tom de contrariedade e a olhar na direcção da villa:
—Não temos nada d’isso lá em casa...
A velha examinou-o da cabeça aos pés e ficou-se esperando instante opportuno para voltar ao interior da hospedaria. Era bello e pensativo o rosto do homem; nos olhos tinha uma nuvem de melancolia. Alto e espadaúdo, vestia uma blusa muita remendada, uma camisa limpa, de chita, umas calças côr de castanha, de grosseiro panno e trazia os pés nús n’umas alpercatas de canhamo.
Sem saber porquê, soltou Pélagué um suspiro como de alivio. E de súbito, obedecendo a um instincto mais prompto do que o seu raciocínio, perguntou-lhe em um impulso que a ella mesma surpreendeu:
—Posso passar a noite em tua casa?
E logo sentiu os músculos, o corpo inteiro retesarem-se n’um espasmo. Atravessaram-lhe rapidamente o cérebro idéas cruciantes:
—Vou perder Nicolao!... Não mais tornarei a ver o Pavel... por muito tempo... E hão de espancar-me tambem!
O homem, sem precipitação alguma, olhos no chão, respondeu, emquanto cruzava sobre o peito a gola da blusa:
—Passar a noite? Sim... porque não? O peor é que a minha cabana não é grande coisa!
—Tambem, eu não estou habituada a mimos! respondeu ella.
—Está bem! acquiesceu o campónio, medindo-a por seu turno com olhar perscrutador.
Á claridade do crepúsculo, os olhos do homem tinham um brilho frio; o rosto tornára-se-lhe muito pálido. E logo, Pélagué, baixo:
—Então, vou já comtigo... Has-de trazer-me a mala.
—Está dito.
Encolheu os hombros, cruzou outra vez a blusa e segredou:
—Ora, veja: lá vem a procissão!
Rybine surgira no topo da escadaria. Trazia de novo as mãos amarradas, e a cabeça e a cara embrulhadas em qualquer coisa pardacenta. A sua voz vibrou na frialdade do crepúsculo:
—Até mais ver, bôa gente! Busquem a verdade, conservem-na; creiam n’aquelles que vos trazem as bôas palavras... Não poupem quantas forças tenham, em prol da verdade!
—Cala-te, cão! gritou o commissário. Guarda, faz andar esses cavallos!
—...Pois que teem a perder? Que existencia é a vossa?
Pôz-se o carro em andamento. Sentado entre dois guardas, Rybine ainda gritou cavamente:
—...Porque morrem de fome? Trabalhem por obter a liberdade... É ella que lhes ha-de dar pão e justiça!... Bôa gente, adeus!
O ruído precipitado das rodas e das patas dos cavallos, as invectivas do commissário de policia confundiam-se com a sua voz, entrecortando-a e abafando-lha.
Pélagué voltou para dentro de casa; sentou-se á mesa, perto do samovar, agarrou n’um pedaço de pão, examinou-o e tornou a pôl-o lentamente no prato. Não tinha vontade de comer, bem que experimentasse na bocca do estomago uma desagradavel sensação que lhe esgotava as forças, que lhe expulsava o sangue do coração e lhe fazia andar a cabeça á roda.
—Elle deu por mim! dizia ella comsigo, tristemente, no sentimento da sua fraqueza, para poder reagir. Deu por mim... Adivinhou, com certeza!...
E não podia ir mais longe o seu pensamento: fundia-se n’uma prostração dolorosa, n’uma sensação viscosa de enjôo...
O silencio timido, como que acoitado para além das vidraças e que succedera ao borborinho, provava que em toda a villa os habitantes haviam voltado ao antigo torpor medroso e subserviente, e isto mais lhe acirrava a sensação de isolamento em que se debatia, enchendo-lhe o espirito de obscuridade pardacenta e penetrante como cinza.
A rapariguinha abriu a porta e do limiar perguntou:
—Quer que lhe traga uma omelette?
—Não... Já não tenho vontade... Esta gritaria fez-me um mal!...
A pequenita foi até junto da mesa e pôz-se a narrar animadamente, mas em voz baixa:
—Como elle lhe bateu com força, o commissário!... Eu estava mesmo ao pé d’elle; vi tudo... Até quebrou os dentes todos do homem!... E quando o homem escarrava, o sangue vinha muito grosso, muito grosso e escuro!... Nem se lhe viam os olhos!... O sargento está cá. Está embriagado de todo e não faz senão pedir vinho. Diz elle que era uma quadrilha inteira e que aquelle das barbas era o chefe. Apanharam trez, mas um fugiu... E tambem prenderam um mestre escola que andava com elles!... Elles não crêem em Deus e aconselham o povo a roubar todas as igrejas. Aqui está o que elles fazem! Havia homens que tinham dó do tal das barbas, mas outros diziam que se devia dar cabo d’elle!... Sempre ha homens muito maus cá no nosso sítio!
Pélagué escutava attenta esta rápida e entrecortada narrativa; esperava distraír assim o seu desasocego e dissipar a oppressora angustia da espectativa. A pequena encantada com tão bôa ouvinte, tagarelava sempre com crescente animação, comendo as palavras:
—O papá diz que tudo isto vem da falta de generos, tudo! Ha já dois annos que a terra não produz nada... e toda a gente anda sem saber o que ha de fazer. É por isso que apparecem agora homens como aquelle. É uma desgraça! Vão para as reuniões gritar e bater uns nos outros!... Ainda no outro dia, quando venderam as terras do Vassioukof, porque não pagava o fôro, deu uma bofetada no staroste.[3] «Ahi teem o fôro!» disse-lhe o Vassioukof.
Resoaram pesados passos para além da porta.
Pélagué ergueu-se com as mãos apoiadas na mesa. O camponez dos olhos azues entrou e sem tirar o bonné:
—Onde tem a sua bagagem?
Ergueu a mala sem esforço algum. E observou:
—Está vazia!... Maria, acompanha esta viajante a minha casa.
E saíu sem olhar para ninguem.
—Vae passar a noite á villa? inquiriu a pequena.
—Vou, sim! Eu negoceio em rendas e quero ir fazer as minhas compras.
—Não ha de encontral-as por cá. Em Tinekof e em Darino, ahi é que as fazem, mas cá na terra, não! explicou Maria.
—Pois ámanhã lá irei...
Pagou o chá e deu trez kopecks á pequena, que ficou contentissima. Já na rua, propôz esta, emquanto ia chapinhando com os pés descalços pela terra húmida:
—Se a senhora quer, eu vou muito depressa a Darino, digo ás mulheres que lhe tragam cá as rendas... As mulheres vêem e a senhora não precisa fazer a viagem... Olhe que sempre são doze kilometros!
—Não, minha lindinha, não é preciso, respondeu, continuando a caminhar ao lado da pequena.
Acalmára-a o ar fresco da tardinha. Lentamente, formava vaga resolução confusa, mas que a satisfazia.
Tal idéa ia germinando com força e, para lhe abreviar a definitiva fixidez, Pélagué ia sem cessar perguntando a si mesma:
—Que fazer?... Proceder aberta, francamente?...
Tinha caído completamente a noite, húmida e glacial. Brilhavam as janellas das cabanas com avermelhadas, baças, immoveis claridades. O gado fazia ouvir no silencio mugidos de indolencia. Aqui e ali, distinguiam-se breves exclamações. Esmagadora melancolia envolvia todo o logar.
—É aqui! disse a rapariguinha. Sempre escolheu muito má casa! Este camponez é tão pobre!...
E ás apalpadelas, procurou a porta abriu-a e gritou com voz esperta:
—Tatiana, aqui está a sua hóspede!
E logo deitou a correr. A sua vozinha vibrou ainda na escuridão:
—Adeus!
NOTAS DE RODAPÉ:
XVII
Pélagué deteve-se no limiar a examinar o interior, abrigando os olhos sob a mão em pala. Era pequena e acanhada a choupana, mas de um aceio que logo saltava á vista. Uma mulher nova appareceu por detraz do fogão, cumprimentou em silencio e desappareceu de novo. A um canto, sentado a uma banca, sobre a qual havia um candieiro acceso, o dono da casa tamborilava com os dedos na madeira. Fitava demoradamente a recemchegada.
—Entre! disse-lhe ao cabo de alguns momentos. Tatiana, vae chamar o Pedro, depressa!
A mulher saíu rapidamente sem mesmo dispensar um simples olhar á viajante. Esta sentou-se n’um banco, em frente do aldeão e divagou a vista pelo aposento. Não via a sua mala. Reinava grave silencio na cabana; só o candieiro fazia ouvir um leve crepitar da chamma. A fisionomia d’aquelle homem, preoccupada e um tanto carrancuda, vacillava á luz mortiça, com feições mal definidas.
—Então: Fala... Avia-te!...
—E onde está a minha mala? perguntou logo Pélagué em voz alta e com severidade, sem ter bem consciencia do motivo por que assim falava.
O campónio encolheu os hombros. Pensativo, respondeu:
—Deixa estar que não está perdida!
E acrescentou friamente e em voz baixa:
—Eu disse diante da pequena que a mala estava vazia. Cá tinha as minhas razões. Ao contrário, você traz ali coisas bem pesadas...
—E então?
Levantou-se, approximou-se d’ella, curvou-se e inquiriu, baixando ainda mais a voz:
—Conhece aquelle homem de ha pouco?
Pélagué estremeceu, mas declarou com firmeza:
—Conheço!
Estas simples respostas parecia-lhe que a acalentavam interiormente, illuminando tudo em volta com a luz d’um heroísmo.
Sorriu-se o campónio.
—Eu bem a vi fazer-lhe um signal... E elle respondeu-lhe... Perguntei-lhe ao ouvido se conhecia a mulher que estava á porta da hospedaria...
—E elle? interrogou com anciedade.
—Elle disse só isto: «Somos em grande número...» Sim, foi isto que elle disse: «Somos em grande número...»
Perscrutava com olhar interrogador a sua hóspede.
Sorriu outra vez e proseguiu:
—É uma grande força, aquelle homem!... Tem muita coragem; diz o que pensa! Batem-lhe, injuriam-no, mas não cede!
Com o escutar aquelle falar ingenuo, com o ver aquellas feições grosseiras e aquelles olhos francos e claros, ia-se tranquillisando pouco a pouco Pélagué. O seu acabrunhamento e os seus receios dissipavam-se para dar logar a uma compaixão intensa e profunda para com Rybine. Foi assim que, com súbita e amarga ira, que não poude reprimir, ella exclamou em tom de lamento:
—Aquelles monstros! Aquelles bandidos!
E entrou a soluçar.
O campónio deu alguns passos, abanando a cabeça com pezar.
—É verdade!... O governo tem andado a arranjar temiveis inimigos!
E de repente, voltando para junto d’ella, segredou:
—Escute. Supponho que traz jornaes na mala... É certo?
—É! respondeu Pélagué simplesmente. E limpava as lagrimas.
—Era para elle que os trazia.
O dono da casa carregou os sobrolhos, juntou na mão toda a barba em punhado e ficou-se calado, a olhar para um canto.
—Nós tambem recebemos um... e folhetos, livros... Eu cá não sou muito instruido, mas tenho um amigo que o é. E minha mulher tambem me lê essas coisas.
Calou-se de novo, pôz-se a pensar; depois perguntou:
—E agora que vae fazer a tudo isso, á sua mala?
A velha fitou-o, e, em tom de instigação:
—Deixo-lha cá!
O outro não pareceu surpreso, não protestou; apenas repetiu:
—Deixa-a cá?
Mas n’isto estendeu o pescoço para a porta, apurou o ouvido.
—Vem ahi gente, segredou.
—Quem?
—Gente nossa, provavelmente...
Entrou a mulher, seguida do campónio sardento. Este atirou o bonné para um canto, foi até junto do dono da casa e disse-lhe:
—E então?
O outro meneou a cabeça affirmativamente.
—Ó, Stépane! lembrou a mulher. Talvez a nossa viajante tenha vontade de comer.
—Não, muito obrigada, minha querida senhora.
Voltou-se o segundo camponez para ella e em voz rápida, um tanto quebrada pela commoção:
—Permitta que eu mesmo me apresente. Chamo-me Pedro Rabinine, por alcunha o Sovela. Percebo alguma coisa d’esses negocios... Sei ler e escrever e não sou um imbecil, para falar assim...
Apertou a mão que Pélagué lhe estendera, saccudiu-lha, emquanto ia dizendo a Stépane:
—Ora vê tu lá, Stépane! A esposa do nosso senhor e amo é uma bôa senhora, pois não é? E apezar d’isso, ella diz que todas estas coisas são tolices, extravagancias!... que são estudantes e garotos que se divertem a alvoroçar o povo. Mas não vimos nós dois, ainda agora, ser preso um homem de bem? E agora estás vendo esta mulher que já não é criança nenhuma e que tambem não me parece que seja fidalga, e que está do nosso lado... Não se offenda! Como se chama?
Falava rápido, mas com voz distincta, quasi sem tomar folego; o queixo tremia-lhe nervosamente e com os olhos franzidos, perscrutava o rosto e toda a pessôa de Pélagué. Andrajoso, os cabellos em desalinho, dava a pensar que acabasse d’alguma lucta em que tivesse vencido o seu adversário e que o dominasse a alacre excitação d’uma victória. Agradou-se d’elle Pélagué por amor de tal vivacidade e principalmente por têl-o ouvido falar com simplicidade e franqueza desde o começo. Correspondeu com amigavel olhar ás suas bôas palavras. O outro saccudiu-lhe outra vez a mão e pôz-se a rir, n’um risinho secco e meigo, muito accentuado.
—É negocio de seriedade, bem vês, Stépane. É coisa que a todos dá honra! Eu bem te dizia que o povo começava a fazer obra pelas suas mãos... A fidalga, essa, não quer dizer a verdade, porque isso ia prejudical-a. Mas o povo quer ir para a frente, está decidido a isso, sem lhe importarem perdas nem prejuizos, estás entendendo? Pois se elle leva má vida, se não tem senão prejuizos de todos os lados, se elle não sabe para onde se ha de voltar, pois que não houve outra coisa senão «Prende! Mata!»
—Bem vejo! approvou o outro, abanando a cabeça. E acrescentou:
—Está em cuidado por causa da mala.
—Não se inquiete, está tudo em ordem, tiasinha! A sua mala foi para minha casa. Ha bocado, quando o Stépane me falou a seu respeito e me disse que tambem era cá dos nossos, que conhecia aquelle homem, disse-lhe eu: «Toma cuidado, Stépane! Nada de dar á lingua! Olha que é coisa séria!» Mas vocemecê, ainda agora, tiasinha, logo adivinhou tambem que a gente estava do seu lado. É que as caras da gente honrada conhecem-se n’um pronto, porque ellas não são muitas por essas ruas, ah, não!... A sua mala foi para minha casa!
Sentou-se-lhe ao lado e alvitrou com uma sollicitação em cada olhar:
—E se quer despejal-a, com todo o gosto a ajudamos... Precisam-se livros por cá.
—Quer dar-nos tudo! declarou Stépane.
—Está muito bem, tiasinha! Deixe, que havemos de saber empregal-os bem.
E bruscamente, levantou-se, entrou a rir. Depois, passeando a passos largos pela cabana, satisfeito:
—É o que se póde chamar um caso de pasmar... ainda que bem simples, afinal! Parte-se a corda n’um sítio e concerta-se n’outro. E a coisa assim não vae mal... Olhe que é muito bom, esse periódico, tiasinha; faz effeito, abre os olhos ao povo. Está visto que não agrada aos nossos senhores! Trabalho eu agora na casa d’um proprietário, a sete kilometros d’aqui; sou marceneiro... A mulher d’elle é boa creatura, forçoso é concordar; dá-nos livros... alguns bastante estúpidos. Vamo-os lendo e vamo-nos instruindo... Ficamos-lhe em geral reconhecidos. Mas quando eu lhe mostrei o tal jornal, zangou-se e disse: «Deixe isso, Pedro. Os que o escrevem não passam d’uns garotos e d’uns tolos, e com isso vocemecê não arranja senão desgostos... a cadeia e a Sibéria. Aqui tem o que lhe póde acontecer se continuar a ler esses papeis.»
Apóz um instante de reflexão, perguntou:
—Diga-me: aquelle outro... o homem... é da sua familia?
—Não, respondeu Pélagué.
Pedro pôz-se a rir só comsigo, muito satisfeito, sem que os outros soubessem porquê. Afigurou-se a Pélagué uma injustiça falar de Rybine como de qualquer estranho.
—Não é da minha familia, explicou; mas ha muito que o conhecia... Respeito-o como se fôsse meu irmão...
Mas não achava a expressão que buscára. Tal deficiencia tornava-se-lhe dolorosa; e não poude conter o pranto. Na choupana reinava melancolico silencio. Pedro inclinou a cabeça sobre o hombro; dir-se-ia que escutava o que quer que fôsse. Reclinado sobre um dos cotovellos, Stépane tamborilava. A mulher d’este, encostada ao fogão, conservava-se na sombra. Pélagué sentia-lhe o olhar fito e, por vezes, olhava tambem para ella, entrevia-lhe o rosto redondo, de pelle escura, nariz direito, o mento talhado em angulo e com uma expressão de attenta vigilancia nos olhos esverdinhados.
—É portanto, um amigo! concluiu Pedro. É um homem de valor, por certo! Tem-se em grande conta e assim devem todos fazer. Aquillo é que é um homem! não é assim, Tatiana?... Que dizes?
—É casado? interrompeu Tatiana. E franziu com força os labios delgados da sua bocca meuda.
—É viuvo, respondeu a velha com tristeza.
—Por isso tem tanta coragem! declarou Tatiana em tom profundo e grave. Um homem casado não se portava assim; tinha medo!
—E então eu, não sou casado? E no entretanto... observou Pedro.
—Basta! disse a mulher sem o fitar e com uma contorção de altivez nos labios. Que fazes tu? Falas muito e lês um livro de tempos a tempos! Não é por andares aos segredinhos com o Stépane, pelos cantos, que o povo é mais feliz.
—Mas é que ha muito bôa gente que me dá attenção! contestou, offendido, o campónio. Fazes mal em falar-me d’essa maneira! Eu sou como uma espécie de fermento...
Stépane olhava para sua mulher, sem uma palavra. Por fim, baixou a cabeça.
—Para que se casa a gente do campo? perguntou ella. Porque precisam de quem trabalhe, dizem elles. Para trabalhar em quê?
—Então tu não tens bastante em que te entretenhas? interrompeu Stépane, já zangado.
—E para que serve esse trabalho? O povo continúa a viver na miseria! Nascem os filhos e nem sequer ha tempo para tratar d’elles, porque o trabalho urge, o trabalho, que nem nos dá o pão!
E dito isto, foi sentar-se ao lado de Pélagué. N’uma obstinação que não lhe dava á voz nem tristeza nem lagrimas, proseguiu:
—Eu tive dois... Um morreu escaldado pelo samovar, tinha dois annos; o outro nasceu morto... sempre por causa do maldito trabalho! Que felicidade me trouxe então o casamento? O que acho é que a gente do campo faz mal em casar: ficam de mãos amarradas, e ahi está! Se se conservassem livres, haviam de combater abertamente em prol da verdade, como esse homem que tu conheces... Não tenho razão, mãesinha?
—Tens! declarou. Sim, minha querida; d’outra fórma não se podem vencer as contrariedades da vida.
—E a senhora, tem marido?
—Já morreu. Tenho um filho...
—Onde está elle? Vive comsigo?
—Está na cadeia!
E no seu coração, um pacifico orgulho temperava a tristeza de que taes palavras vinham sempre acompanhadas.
—É já a segunda vez que o encarceram por ter compreendido a verdade divina e por andar a semeal-a, abertamente, sem se poupar a fadigas!... O meu filho é moço, é bello rapaz e é intelligente! Foi d’elle a idéa de fundar um jornal; foi graças a elle que o Rybine se prestou a distribuil-o, havendo a notar que o Rybine tem duas vezes a idade d’elle! Vão julgal-o dentro em pouco, por tudo isso. Mas depois, quando o meu filho estiver na Sibéria, fugirá e voltará a continuar na campanha.
—Temos já muita gente e o número augmenta sempre! Todos estão decididos a luctar até á morte, pela liberdade, pela verdade!
Então, pôz de lado toda a prudencia. Não citou nomes, mas contou tudo o que sabia do trabalho minaz a que se andava procedendo em favor do povo. E ao entrar n’este assumpto tão caro ao seu espirito, punha nas palavras toda a energia, todo o excesso do amor que tão tarde brotára n’ella sob os repetidos golpes da adversidade.
A voz affluia-lhe igual; accudiam-lhe agora as palavras com tranquilla facilidade, e quaes pérolas multicolores e irisadas, enfiava-as com rapidez no sólido fio do seu desejo de purificar a alma de toda a lama e de todo o sangue d’aquelle dia. Os aldeões como que tinham criado raizes nos sítios em que as suas primeiras palavras os haviam encontrado. Immobilisados, fitavam-na em grave compostura. Chegava a ouvir a respiração arquejante da mulher que se lhe sentava ao lado; e a attenção do auditório fortificava-lhe a crença nas coisas que dizia e promettia.
—Todos os que se sentem esmagar pela injustiça e pela miseria, o povo inteiro, devem correr ao encontro dos que por elle morrem nas prisões ou nos cadafalsos. Não teem esses nenhum interesse pessoal em jogo. Explicam qual é o caminho que conduz á felicidade de todos, mas dizem abertamente quão difficil é esse caminho! Não constrangem ninguem, mas quando tomamos logar nas suas fileiras, nunca mais os abandonamos, pois vemos que teem razão, que esse caminho é o verdadeiro, e que não ha outro.
Era grato ao coração da anciã realisar finalmente o seu desejo: ella própria falava agora ao povo, acerca da verdade!
—Com taes amigos, póde o povo marchar sem receio: elles não cruzarão os braços sem que o povo se tenha conjugado n’uma só alma, sem que tenha bradado com uma voz unica: «Sou eu o supremo senhor; eu mesmo farei as leis, iguaes para todos!»
Fatigada por fim, calou-se Pélagué. Tinha a serena certeza de que as suas palavras não se extinguiriam sem deixar vestigios. Os camponezes continuavam a fital-a, como se ainda a escutassem. Pedro cruzára os braços no peito e cerrára as palpebras, com um sorriso a brincar-lhe nas faces sardentas. Com o cotovello na meza, Stépane inclinára-se, adiantando todo o corpo, de pescoço estendido. Velava-lhe o rosto uma névoa, um aspecto de maior sisudez. Sentada junto d’ella, com os cotovellos firmados nos joelhos, Tatiana fitava os bicos dos sapatos.
—Ah! ahi está! balbuciou Pedro.
E sentou-se n’um banco, com precaução, a abanar a cabeça.
Stépane endireitou lentamente o tronco, lançou rápido olhar a sua mulher e estendeu o braço, como se quizesse alcançar alguma coisa.
—Com effeito, começou elle, meditativo, quem quizer metter hombros á empreza, é para se lhe entregar de toda a alma!
Pedro interveio aqui, timidamente:
—Está claro... e sem olhar para traz!
—O negócio vae a bom caminho! continuou Stépane.
—E em todo o mundo!... disse ainda Pedro.
XVIII
Recostada e com a cabeça reclinada na parede, escutava Pélagué as reflexões dos dois homens.
Tatiana levantou-se, olhou em roda, tornou a sentar-se. Com um brilho metálico nas pupillas verdes, lançou olhares de desprezo aos dois.
—Vê-se que tem sido muito infeliz! disse de súbito, voltando-se para Pélagué.
—É verdade!
—A senhora fala bem... As suas palavras vão direitas ao coração. Quando a gente a escuta, pensa: «Meu Deus! quem pudesse vêr, ainda que não fôsse senão uma vez, gente tão bôa, viver vida tão bella!» Como vivemos nós, aqui? Como uns carneiros! Eu sei ler e escrever... e leio livros... reflicto muito; ás vezes, tenho idéas que nem me deixam dormir de noite. E qual é o resultado de tudo isto? Se não reflicto, soffro, e soffro em vão; se reflicto, é a mesma coisa! De mais, tudo é baldado! Assim, esta gente do campo: trabalham, esfalfavam-se por amor d’um pedaço de pão... e nunca possuem nada!... E é isso o que os irrita; entram a beber, a bater uns nos outros... e lá vão outra vez para o trabalho. E o que se apura d’ahi? Nada.
Falava assim, deixando transparecer a ironia no olhar e na voz grave e ampla, detendo-se por vezes, como para cortar as frases, tal a linha com que estivesse costurando. Os homens nada objectaram.
O vento rufava nas vidraças, susurrava no colmo do tecto, e por momentos, soprava em brandas lufadas pela chaminé. Uivava um cão. Raras gottas de chuva vinham, como a custo, fustigar a janella. Oscillava a luz do candieiro, empallidecia e recomeçava de subito a brilhar, viva e igual.
—E aqui está para que vivem os homens! E é curioso: persuado-me de que já sabia tudo isto! Todavia, nunca tinha ouvido nada parecido; nunca tinha tido idéas d’este genero... nunca!
—Tratemos de cear, Tatiana, e de apagar o lume! interrompeu Stépane com voz abatida e vagarosa. Essa gente ha de pensar: «Os Tchoumakof tiveram o lume acceso até muito tarde!» Para nós, isso não teria importancia, mas é por causa da nossa visita. Talvez seja imprudente...
A mulher logo se levantou, dando-se pressa em obedecer.
—É certo! confirmou Pedro, com um sorriso. É preciso ter cuidado, agora! Quando se tiver feito nova distribuição do jornal...
—Não é por mim que falo, declarou Stépane, mesmo se me prenderem, a desgraça não será grande! A vida d’um campónio nenhum valor tem.
Experimentou Pélagué súbita compaixão por aquelle homem. E era mais viva do que pouco antes a sua simpatia por elle. Agora, que já tinha falado, sentia-se desajoujada do peso ignobil dos acontecimentos d’esse dia; sentia-se contente comsigo mesma e cheia d’um sentimento de benevolencia.
—Não deve falar assim! disse ella. O homem nunca deve medir-se pelo valor que lhe attribuem aquelles que só o julgam por apparencias e d’elle só pretendem o sangue. Aprecie-se a si mesmo, na sua consciencia, não para os seus inimigos, mas para os seus amigos!
—E onde estão esses amigos?! exclamou o camponez. Nunca os vi!
—Mas se eu te digo que ha amigos do povo!
—Haverá, mas não aqui; e essa é que é a desgraça! contestou Stépane, pensativo.
—Pois bem! n’esse caso, é preciso que os criem.
Reflectiu o outro e respondeu em voz baixa:
—Sim... era o que se precisava.
—Vamos para a mesa! propôz Tatiana.
Durante a ceia, Pedro, a quem as exortações de Pélagué pareciam ter preoccupado, voltou a falar com animação:
—Sabe, tiasinha? Olhe que é bom que se vá d’aqui cedo, para não ser notada. Vá á aldeia proxima; não vá á cidade; e tome uma carruagem.
—Para quê? objectou o outro homem. Se eu próprio a levo comigo!
—Nada d’isso! Se acontecesse alguma coisa, não faltaria quem indagasse se tinha passado a noite em tua casa...—«E para onde foi ella?»
—«Levei-a á aldeia próxima».—Ah, foste tu? Pois vaes para a cadeia!...» Percebeste? E para que ha de a gente ter pressa de ir para a cadeia? Cada coisa a seu tempo!... Mas se tu declarares que ella dormiu cá em casa, que alugou carro e que tornou a ir-se embora, não te pódem fazer nada. Ninguem é responsavel pelo que fazem os viajantes. Se passam tantos cá pelo sitio!...
—Já aprendeste a ter medo, Pedro? perguntou Tatiana, irónica.
—É bom aprender de tudo! respondeu, dando uma punhada no joelho. É bom saber ter coragem e é bom tambem saber ter medo! Lembras-te como o escrivão lá do tribunal andou a incommodar e a perseguir o Baguanof por causa d’aquelle periodico? Pois agora, o Baguanof nem por todo o dinheiro do mundo tocaria sequer n’um d’esses papeis! Creia, bôa mulher: para mim, é coisa facil imaginar bôas artimanhas; todos o sabem cá no sitio. Sou capaz de distribuir livros e folhetos como ninguem... tantos quantos quizer! A nossa gente é pouco instruida e muito medrosa, é certo; todavia, a vida vae tão dura, que o homem sempre se vê obrigado a abrir os olhos e a informar-se do que se passa. E o livro responde-lhe francamente: «Muitas vezes, mais percebe o ignorante do que o homem instruido... principalmente se o instruido fôr um d’esses que abarrotam de fartura. Conheço bem o sitio e sei vêr com olhos de vêr! Póde uma pessoa ir arranjando a vida, mas com esperteza e muita habilidade, para não ir á forca logo d’uma assentada! As autoridades tambem percebem que as coisas vão mudadas, que o camponez anda sorumbático, pouco ri e é de poucas amabilidades... É que, em geral, passava-se bem sem as taes autoridades!... Ainda ultimamente, em Smoliakovo—um logarejosito perto d’aqui—vieram os homens para cobrar uns impostos. Os camponezes então foram a correr buscar cacetes. «Ah, bestas! Vocês revoltam-se contra o tzar!» gritou o commissário. E estava lá um rústico, um chamado Spivakine, que respondeu: «Vá você para o diabo com o seu tzar! Que vem a ser esse tzar que nos leva até á ultima camisa do corpo?» Ora aqui tem em que as coisas param, tiasinha. Escusado é dizer que o Spivakine foi preso e atirado para uma enxovia. Mas ficaram as palavras d’elle, e até as crianças já as repetem. Ficaram vivas, a bradar, essas palavras!
Nem comia: falava, falava sempre, em murmurio rapido; os olhos, pretos e astuciosos, brilhavam-lhe, muito vivos. E importunava largamente Pélagué com mil observaçõesinhas sobre a vida do sitio, como se estivesse a despejar um sacco de moedas de cobre.
Por duas vezes lhe disse Stépane:
—Anda, come!
Elle agarrava n’um pedaço de pão, n’uma colher, e espraiava-se de novo em considerações, falando, falando, como um pintasilgo a cantar. Terminada a ceia, finalmente, levantou-se de brusco, declarando:
—É tempo de voltar para casa!
Approximou-se de Pélagué e saccudiu-lhe a mão:
—Adeus, tiasinha! Talvez nunca mais nos tornemos a ver... Sempre lhe quero dizer que tive muito prazer em travar relações comsigo e em ouvil-a falar... sim, senhora, muito prazer! Tem mais alguma coisa na mala alem dos livros? Um chale de lã? Está muito bem... um chale de lã, ouves, Stépane? Elle já lhe traz outra vez a sua mala. Vamos, Stépane! Adeus! Passe bem!
Assim que os dois saíram, Tatiana tratou de preparar cama para a velha; foi acima do fogão e ao sotão buscar umas roupas e dispôl-as sobre o banco.
—É um rapaz desembaraçado! observou Pélagué.
A outra respondeu, interrompendo a tarefa para lhe lançar um olhar furtivo:
—É muito leviano! Faz muita bulha, muita bulha, mas não passa d’ali!
—E seu marido? perguntou Pélagué.
—É um bom homem. Não bebe, e damo-nos muito bem. O unico defeito d’elle é ser de caracter fraco.
Soergueu-se e proseguiu após um silencio:
—De que se precisa agora? De sublevar o povo, é claro! Todos pensam n’isso... mas cada um para seu lado! E o que é necessário é que se fale n’isso bem alto; é forçoso que appareça alguem decidido a fazel-o.
Sentou-se e perguntou sem transição:
—A senhora disse que até já ha meninas finas e ricas a tratarem d’este negocio, e que vão fazer leituras politicas aos operários... E ellas não teem medo? não sentem repugnancia?
E depois de ouvir attentamente a resposta de Pélagué, soltou profundo suspiro e continuou, com as palpebras cerradas e movendo devagarinho a cabeça:
—Já li uma vez n’um livro que a vida não faz sentido. O que isto queria dizer percebi eu logo á primeira! Como se eu não soubesse o que é essa vida: a gente tem umas idéas, mas umas idéas desapegadas umas das outras, e que andam a vaguear como carneiros estúpidos sem pastor... Vagueiam, vagueiam... E não ha nada, não ha ninguem que as reuna... porque a gente não sabe o que ha de fazer para isso! Ora aqui está o que é uma vida que não faz sentido! A minha vontade era fugir para longe d’ella, sem mesmo olhar para traz!... Muito infeliz é a gente quando começa a perceber um poucochinho!...
Esta magua, via-a Pélagué bem no brilho verde dos olhos da mulher, n’aquelle rosto magro; ouvia-a vibrar n’aquella voz. Pretendeu consolal-a, acalmal-a:
—Mas a minha querida amiga compreende o que é necessário fazer-se...
Tatiana interrompeu-a brandamente:
—Mas se o que se precisa é saber-se como fazel-o!... Tem a sua cama pronta... deite-se!
E dirigiu-se para o fogão, grave e concentrada. Pélagué deitou-se sem se despir. Tinha dôres nos ossos, quebrados de fadiga. Soltou um gemido debil. Tatiana apagou o candieiro. E assim que as trevas reinaram dentro da choupana, resoou novamente a sua voz grave e igual:
—A senhora não reza... Eu tambem não acredito em Deus nem em milagres. Tudo isso foi inventado para nos metter medo, porque sabem que sômos estupidos!
Pélagué, no seu leito improvisado, agitou-se, inquieta. Fitavam-na pela janella as trevas infinitas e, por entre o silencio, attritos, ruidos furtivos mal perceptiveis, perpassavam em torno. Com voz timida, murmurou:
—Pelo que respeita a Deus, não sei que dizer... Mas creio em Jesus Christo e creio nas suas palavras:
«Amar o proximo como a nós mesmos...» sim, eu creio n’isto!
E de súbito, exclamou, perplexa:
—Mas se Deus existe, porque nos abandonou? Porque não nos protege com o seu poder misericordioso? Porque consente que a humanidade se divida em duas castas? Porque consente o soffrimento humano, as torturas, as humilhações, a maldade e as ferocidades de toda a especie?
Tatiana não respondeu. No escuro, Pélagué podia divisar-lhe o contorno vago do perfil erecto, que se desenhava em cinzento, no fundo negro do fogão. E assim se conservava, immovel. Muito angustiada, Pélagué cerrou as palpebras.
De súbito, vibrou uma voz fria e dolorida:
—Nunca perdoarei a morte dos meus filhos! Nem a Deus nem aos homens! Nunca!
A anciã sentou-se no leito, condoída da intensidade d’aquella paixão. Lembrou com meiguice:
—A senhora é nova; ainda ha de ter filhos...
Apóz um silencio, a outra segredou:
—Não! O medico disse que nunca mais poderia têl-os.
Passou um rato a correr pelo chão. Um estalido secco e forte rasgou a immobilidade do silencio, e de novo se ficaram ouvindo distinctamente os mesmos attritos e o murmurio da chuva sobre o colmo, que, dir-se-ia, dedos finos e trémulos acariciavam. As bategas caíam tristemente sobre a terra e ritmavam o curso da longa noite d’outono.
Mergulhada em pesada somnolencia, Pélagué ouviu uns passos ecoarem surdamente da parte de fóra e em seguida, no corredor. Abriu-se devagarinho a porta, e ouviu-se uma exclamação abafada:
—Estás já deitada, Tatiana?
—Não.
—«Ella» está a dormir?
—Sim, parece-me que sim...
Brilhou uma claridade, que tremeluziu e logo se afogou nas trevas. O campónio approximou-se do leito da velha e compôz a capa de pelles que lhe cobria as pernas. Esta attenção impressionou profundamente Pélagué. Fechou de novo os olhos e sorriu. Stépane, sem fazer bulha, despiu-se e trepou para o sotão.
Pélagué, immovel, prestava attento ouvido ás variantes preguiçosas do silencio somnolento.
Na sua frente, nas trevas, via desenhar-se o rosto ensanguentado de Rybine.
Chegou-lhe então aos ouvidos um leve murmurio que vinha do sotão:
—Tu bem vês. Attenta n’essa gente que anda a trabalhar pelo bem de todos! Gente idosa, até, e que passou por mil desgostos e depois de moirejar toda uma vida! Chegou-lhes a sua occasião de descansar, mas bem vês como se aproveitam d’ella!... E tu, Stépane, estás ainda novo, és intelligente... e nada fazes!
Respondeu a voz grossa do homem:
—A gente não póde metter-se n’uma coisa d’essas sem pensar! Espera um pouco, que aquella canção já eu conheço ha muito!
Sumiram se as vozes, mas depois recomeçaram. Dizia Stépane:
—Aqui está o que deve fazer-se: primeiro, é preciso falar com cada homem em particular. Assim, por exemplo: com o Alécha Makof. É instruido, valente e anda ha muito, zangado contra as autoridades. Com o Sergio Chorine, tambem... É homem de juizo. Com o Kniazef, que é honrado e homem decidido! E para começar é bastante!... Depois, quando já tiver-mos um partidosinho, veremos... É preciso saber a direcção d’esta mulher, para chegarmos á fala com a gente a quem ella se referiu... Agarro no machado e vou-me de passeio até á cidade. Se te perguntarem, dizes que fui ganhar uns cobres como rachador de lenha. É bom tomarmos as nossas precauções. Tem a velha razão quando diz que cada qual é que dá a si o seu proprio valor... E quando se trata d’uma coisa d’estas, bom é que a gente dê a si grande preço, se se quizer metter na coisa!... Olha aquelle campónio, aquelle Rybine! Não era capaz de dobrar nem diante de Deus, quanto mais diante d’um commissário!... Aguenta-se firme, como se estivesse enterrado no chão até aos joelhos! E aquelle Nikita, an? Teve vergonha o homem!... E foi milagre que tal succedesse... Ah! se o povo entra no movimento á uma, muita gente ha de ir atraz d’elle!
—Pois sim! Vêem espancar um homem e ficam para ali, de braços cruzados!
—Não te exaltes, mulher! Olha, diz antes assim: «Deus seja louvado, que não foram vocês mesmos que o tosaram!» Pois se elles tanta vez obrigam o povo a bater nos presos! E o povo obedece! Lá no intimo, talvez chore de compaixão, mas vae batendo!... Não se atrevem a recusar-se áquella barbaridade, com medo de tambem apanharem para baixo! Ha ordem para um homem ser o que quizer: um porco, um lobo... mas não um homem—é proíbido! E quem desobedecer, livram-se logo d’elle com a maior facilidade! Nada!... É preciso arranjar as coisas de fórma a reunir muita gente e revoltar-se tudo ao mesmo tempo!
Discorreu ainda por largo espaço. Umas vezes, falava tão baixinho, que Pélagué quasi não compreendia; outras, erguia a voz, grossa e sonora. A mulher então recommendava:
—Devagar! Vaes accordal-a!
Adormeceu profundamente a anciã. Foi como uma nuvem de oppressão que o somno se precipitou sobre ella, a envolveu e a arrebatou.
Despertou-a Tatiana quando a aurora, pardacenta, entrava a mirar com gélidas pupillas as janellas da choupana. Por sobre a aldeia, no silencio frio, a voz bronzea do sino planára e ia a morrer.
—Fiz-lhe uma gôta de chá; beba-o, se não logo no carro, vae ter frio.
Emquanto alisava as barbas desgrenhadas, Stépane, todo alvoraçado, informava-se onde havia de procurar a sua hospede, na cidade. E parecia a Pélagué o rosto do campónio mais definido, mais simpatico do que na vespera. Ao tomar o chá, exclamou elle alegremente:
—Como tudo isto é singular!
O quê? perguntou Tatiana.
—Este nosso encontro. É coisa tão simples, afinal!...
—Na causa do povo tudo é d’uma simplicidade extraordinaria! disse Pélagué pensativa e em tom de grande convicção.
Despediram-se então marido e mulher, sem gastar muitas palavras, antes manifestando com mil cuidados e attenções, sincera sollicitude.
Já no carro, Pélagué pensava n’aquelle campónio e na sua maneira de trabalhar com prudencia, como uma toupeira, sem ruido e sem descanso. E continuava a ouvir a voz da mulher, descontente; revia o brilho secco e febril dos seus grandes olhos verdes. Quantos annos vivesse, tantos aquella paixão vingativa e feroz de mãe que chora os seus filhos, havia de viver-lhe na memoria.
Lembrou-se depois de Rybine, do seu rosto, do seu sangue, d’aquelle ardente olhar, das frases que lhe ouvira e, de novo, o coração confrangeu-se-lhe no amargo sentimento da sua impotencia contra as féras. E em todo o percurso até á cidade, viu de contínuo, desenhado no fundo tristonho d’aquelle dia pardacento, o perfil robusto de Rybine, com a sua barba preta, a camisa em farrapos, mãos amarradas nas costas, os cabellos desgrenhados, a fisionomia illuminada pela colera e pela fé na sua missão. Pensava tambem nas innumeraveis aldeias e logarejos onde o povo esperava em segredo a vinda da propaganda de verdade; nos milhares de creaturas que trabalhavam silenciosas toda a sua vida sem saber porquê, sem uma esperança...
Quando reflectia no resultado da sua viagem, sentia no intimo um contentamento meigo e irrequieto e decidia não mais pensar em Stépane nem na mulher.
Avistou de longe os campanários e telhados da cidade, e grata sensação lhe reanimou o espirito inquieto, e lh’o tranquillisou: desfilavam-lhe pela memoria as fisionomias cheias de preoccupação de todos os que dia a dia iam ateando o fogo sagrado do pensamento e o espalhavam em scentelhas pelo mundo. E a alma d’aquella mãe transbordava da serena ambição de dar a todas aquellas creaturas toda a energia e todo o seu amor de mãe.
XIX
Veio abrir-lhe Nicolao, despenteado, com um livro na mão.
—Já?! exclamou alegremente. Está bem!... Estou mais contente agora!
Piscava os olhos, amigavelmente, por detraz dos oculos. Ajudou Pélagué a tirar a capa e disse-lhe, fitando-a affectuosamente:
—Sabe? Vieram cá fazer uma busca esta noite. Eu perguntava a mim proprio porquê. Receei que lhe tivesse acontecido alguma coisa... Mas deixaram-me em paz, e logo soceguei: se a tivessem prendido, não me deixavam assim com certeza!
Levou-a para a casa de jantar. Pelo caminho, ia contando animadamente:
—Ainda assim, fui despedido da repartição. Pouco desgosto me dá... Estava já farto da estatistica do gado cavallar que não existe nas herdades!... Tenho mais que fazer!
Attentando-se no aspecto da sala, dir-se-ia que mãos vigorosas, em estupido accesso de furia, haviam saccudido pela parte de fóra as paredes da casa, até tudo ficar em completa desordem. Os retratos jaziam pelo chão, os reposteiros e sanefas arrancados, pendiam em farrapos; em determinado sitio uma taboa do sobrado fôra levantada, o peitoril da janella, arrombado; ao pé do fogão, cinzas espalhadas.
Na mesa, ao lado do samovar sem lume, estava loiça suja, presunto e queijo em cima d’um pedaço de papel, nacos de pão, livros e carvão, Pélagué sorriu. Nicolao mostrou-se confundido.
—Fui eu que completei a desordem... mas não faz mal. Parece-me que voltam cá hoje, e tanto que nem ainda comi nada. E então fêz boa viagem?
Esta pergunta como que a magoou pesadamente em pleno peito: de novo a imagem de Rybine se ergueu na sua memoria; sentiu-se culpada por não ter falado d’elle logo ao chegar. Approximou-se de Nicolao e entrou a contar-lhe tudo, deligenciando permanecer calma e não omittir pormenor algum.
—Foi preso!
Nicolao teve um sobresalto.
—Preso! Mas como?
Ella com um gesto, fêl-o calar e proseguiu, como se, face a face, o rosto da propria justiça se encontrasse na sua frente e a ella estivesse reclamando contra o supplício a que assistira. Nicolao, reclinado na cadeira escutava-a, fazia-se pallido e mordia os beiços. A certa altura, lentamente, tirou os oculos, pousou-os na meza, passou a mão pela cara, como se estivesse a limpal-a d’uma invisivel teia d’aranha. As feições accentuaram-se-lhe, as maçãs do rosto tornaram-se-lhe singularmente salientes, palpitaram-lhe as narinas. Era a primeira vez que Pélagué o via n’aquella excitação, o que não deixou de a assustar.
Quando acabou a narrativa, viu-o levantar-se em silencio e pôr-se a caminhar em grandes passadas, de punhos cerrados nas algibeiras. Por fim, murmurou, comprimindo os dentes:
—Deve ser um homem extraordinario!... Que heroismo! E vae soffrer n’uma prisão como soffrem todos os que a elle se assemelham!
Depois, parou em frente da sua narradora; ajuntou com voz vibrante:
—Evidentemente todos esses commissarios, esses officiaes, não passam d’uns instrumentos, d’uns cacetes de que sabe servir-se um patife intelligente, um domesticador de animaes! Mas urge dar cabo do animal, para o castigar de se ter deixado transformar em féra! Eu cá, matava-o logo, esse cão damnado!
Enterrava mais profundamente os punhos nas algibeiras, tentando, mas de balde, reprimir aquella commoção de que Pélagué tambem se resentia. Tinha os olhos contraídos como laminas de facas. Entrou de novo a passear e ao mesmo tempo ia dizendo com frio rancor:
—Ora vejam que coisa horrivel! Uma meia duzia d’homens espancam, suffocam e opprimem toda a gente, para defenderem o funesto poderio de que gozam sobre o povo! A ferocidade recrudesce, a crueldade torna-se lei universal! É para meditar!... Uns batem e procedem como bestas, porque estão certos da impunidade, porque os morde o desejo voluptuoso de torturar, como a repugnante volupia dos escravos a quem se permittia que manifestassem os instinctos servis e os habitos besteaes, em toda a sua hediondez! Os outros envenena-os a vingança, e ainda os terceiros, bestificados sob os maus tratados, tornam-se cegos, tornam-se mudos!... E assim pervertem o povo, um povo inteiro!
Deteve-se novamente, agarrou a cabeça entre as mãos.
—É para bestialisar, mesmo sem se querer, essa vida feroz! concluiu em voz baixa.
Depois, dominou-se. Brilhava-lhe agora no olhar uma expressão decidida. E foi quasi com tranquillidade que fitou a velha, cujo rosto as lagrimas inundavam.
—Não temos tempo a perder, Pélagué. Onde está a sua mala?
—Na cosinha.
—Está a casa cercada de espiões, não é possivel passar para fóra tal quantidade de impressos, sob pena de sermos vistos... Não sei onde os hei de occultar... Parece-me que a policia ha de voltar esta noite... Não quero que seja presa. Ainda que muito nos custe, vamos queimar tudo isso.
—O quê? perguntou ella.
—O que está dentro da mala.
Foi então que ella compreendeu e, por grande que fôsse a sua tristeza, a ufania do bom exito da sua viagem fez-lhe aflorar ao rosto um sorriso.
—Mas a mala não tem nada! Nem uma folha de papel! declarou, animando-se gradualmente.
E, narrou a continuação das suas aventuras. Nicolao ouviu-a primeiro com inquietação, depois com surpresa. Por fim, interrompeu-a para exclamar:
—É simplesmente maravilhoso! Tem uma sorte espantosa!
Entrou a mover-se d’um lado para o outro, pasmado, e foi apertar-lhe a mão.
—Chega a commover-me pela confiança que tem no povo! Que bella alma a sua!... Amo-a como nunca amei minha propria mãe!
Ella tomou-o nos braços e por entre soluços de contentamento, approximou dos seus labios a cabeça de Nicolao.
—Talvez me tivesse exprimido nesciamente, ha pouco! murmurou, commovido e desconcertado pela novidade do sentimento que experimentava.
Pélagué, convencida de que Nicolao se sentia profundamente feliz, seguia-o com um olhar em que transparecia affectuosa curiosidade; queria compreender por que se mostrára tão apaixonadamente vibrante.
—Em geral, tudo corre ás mil maravilhas! declarou elle, a esfregar as mãos, com um risinho caricioso. Sabe? Passei singularmente bem estes ultimos dias. Estive sempre com operarios; fiz-lhes umas leituras, conversámos, deram-me ensejo a que os observasse... Juntei no meu coração sensações admiraveis, tão puras e sãs!... Que bella gente! Tão francos, tão claros como os dias de maio! Falo dos operarios mais novos; são robustos, são sensiveis, teem sede de compreender tudo!...
Ao vêl-os, adquire-se a certeza de que a Russia ha de vir a ser a mais brilhante democracia do mundo!
Erguera o braço como para firmar um juramento. Passado um instante, continuou:
—Como sabe, eu era funccionario n’uma repartição do estado. Foi ali que o meu feitio se azedou: no meio de algarismos e de papelada. Um anno d’aquella vida bastou para me deturpar o caracter. Porque eu estava habituado a viver entre o povo e quando me separo d’elle, sinto-me pouco á vontade. Sempre propendi com todas as minhas forças para a vida popular. E agora já posso viver de novo em liberdade, confraternisar com os operarios, ensinar-lhes o que sei! Compreende? Assim, estarei junto do proprio berço do ideal que vem surgindo, junto da propria energia creadora nascente. É o que me parece admiravelmente simples e bello e tambem terrivelmente excitante! Torna-se um homem mais novo, mais decidido, mais calmo, e disfructa de uma existencia integra!
Aqui, riu, expansivo. E d’aquelle contentamento partilhava Pélagué.
—E depois, que creatura excessivamente bôa a senhora é! declarou elle ainda. Tem em si uma força tão poderosa e tão seductora! Attrae a si as almas com tal persuasão! Sabe descrever tão completamente as pessoas! Sabe vêl-as tão bem!
—Vejo a sua existencia e compreendo-o, meu amigo!
—Todos a estimam... E que maravilhosa coisa é estimar uma creatura humana!... É tão bom! Se soubesse!
—É o meu amigo que sabe ressuscitar os entes humanos d’entre os mortos! murmurou a anciã com calor, acariciando-lhe a mão. Meu amigo, quanto mais penso, mais vejo quanto ha a fazer e de quanta paciencia precisamos! E o que eu quero é que não perca a coragem. Oiça o resto... A mulher, ia eu dizendo, a mulher do tal camponez...
Nicolao sentára-se ao lado d’ella. Tinha desviado o rosto prazenteiro, e passava a mão devagar pelos cabellos. Mas d’ahi a pouco tornava a dirigir o olhar para Pélagué, escutando avidamente a narrativa.
—Que sorte admiravel! exclamou. Com effeito, era muito possivel que fôsse presa... Mas não! O que parece é que essa gente do campo tambem se vae mexendo. Não é para admirar, afinal! E essa tal mulher, parece que a estou vendo d’aqui. Sim, compreendo esse coração accêso em ira. E tem razão em dizer que uma dôr tão profunda jamais se extinguirá!... Precisavamos de quem se occupasse especialmente de animar essa gente do campo!... Gente! Muita gente! É o que nos falta e por toda a parte! A vida exige milhares de braços!
—Para isso era necessario que o Pavel estivesse em liberdade... e o André tambem, aventou ella em voz baixa.
Elle lançou-lhe rapido olhar e curvou a cabeça.
—Olhe, sabe? Vou dizer-lhe a verdade, ainda que lhe custe: conheço bem o Pavel e estou certo de que vae recusar-se a fugir. O que elle pretende é ser julgado, quer exibir-se em todo o seu prestigio... e não renuncia a isso. É trabalho escusado!... Depois, fugirá da Sibéria...
A mãe de Pavel murmurou:
—Que se ha de fazer?... Elle sabe melhor do que eu o que deve decidir.
Nicolao ergueu-se de chofre, novamente tomado de contentamento. Inclinou-se para ella e disse:
—Graças a si, passei hoje instantes melhores... os melhores da minha vida, talvez!... Obrigado! Dê-me um abraço!
E apertaram-se, silenciosos.
—Como isto é bom! exclamou elle baixo.
Pélagué deixára caír os braços e sorria em estos de felicidade.
—Hum! murmurou Nicolao, fitando-a muito por detraz dos seus oculos. Ainda se esse tal camponez não tardasse em vir!... Porque é absolutamente preciso escrever um artigosinho ácerca do Rybine e distribuil-o pelas aldeias, o que não pode prejudicar o Rybine, visto que elle trabalha abertamente, por si mesmo, e que a causa do povo tem tudo a ganhar. Vou escrevel-o agora mesmo. A Lioudmila imprime-o ámanhã... Sim, mas como se hão de expedir os fasciculos?
—Irei eu leva-los.
—Não, obrigado! exclamou Nicolao com vivacidade. Não crê que o Vessoftchikof pudesse tomar esse encargo?
—Quer que lhe fale n’isso?
—Experimente e ensine-lhe como elle se ha de haver n’esse negocio.
—E eu então, que faço?
—Não lhe dê isso cuidado!
E pôz-se a escrever. Emquanto desembaraçava a mesa das loiças e dos outros objectos, Pélagué não tirava a vista d’elle, seguindo a penna, que lhe tremia na mão e traçava no papel longas séries de palavras. Por vezes, um arrepio perpassava pela nuca do mancebo; outras vezes, projectava elle a cabeça para traz e ficava-se de olhos fechados. Pélagué sentiu-se emocionada.
—Castigue-os! murmurou. Não os poupe, áquelles assassinos!
—Aqui está! Está pronto! disse elle, levantando-se. Esconda este papel comsigo. Mas olhe que se a policia vem, hão de tambem querer revistal-a...
—Leve-os o diabo! respondeu com o maior socego.
Á noite, veio o doutor.
—Porque anda a autoridade tão agitada? inquiriu elle, passeando pelo quarto. A noite passada fizeram-se sete buscas!... Onde está o doente?
—Foi-se embora hontem! respondeu Nicolao. É sabbado hoje e não podia faltar á sessão de leitura, compreendes?
—É uma estupidez ir para uma conferencia quando se tem a cabeça aberta!
—Foi o que eu tentei demonstrar-lhe; mas nada consegui!
—Era a vontade de ir fazer-se valente diante dos camaradas, disse Pélagué; de lhes mostrar que tambem já derramou o seu sangue pela grande causa!
O doutor lançou-lhe um olhar, tomou uns ares de ferocidade e exclamou com os dentes cerrados:
—Que sanguinárias creaturas vocês são!
—Pois então, meu amigo, já nada tens a fazer aqui, e nós esperamos umas visitas. Vae-te embora! Pélagué, dê-lhe o papel.
—Outra vez! exclamou o medico.
—Vá! Toma e leva isto á imprensa.
—Está dito; lá o levarei. Mais nada?
—Sim... Está ali um espião defronte da casa.
—Já o vi. E em minha casa tambem. Bem, até mais vêr! Até á vista, mulher cruel! Sabem, meus amigos? A desordem do cemitério veio mesmo a calhar, positivamente! Não se fala n’outra coisa em toda a cidade. Isto impressiona o povo e obriga-o a reflectir. O teu artigo a esse respeito estava muito bom e foi publicado em bella occasião. Eu sempre fui de opinião que uma bôa desordem era mais util do que uma má concordia...
—Está bom, vae-te!
—Estás hoje pouco amavel, homem! A sua mão, tiasinha! O pequeno andou como um pateta. Não sabes onde elle mora?
Nicolao deu-lhe o endereço.
—É preciso ir a casa d’elle amanhã... É um bello rapaz, não é verdade?
—É verdade!... Excellente coração!
—É preciso não o perder de vista, que elle não é tolo! disse o medico, ao saír. É justamente essa rapaziada que ha de formar o verdadeiro proletariado instruido, e occupar os nossos logares, quando nós nos fôrmos para o sitio onde não ha, segundo creio, differenças de castas...
—Sempre estás um tagarella!
—Sinto-me contente; por isso dou á lingua!... Cá vou, cá vou... Então, sempre contas ir para a cadeia? Desejo que descanses bem por lá.
—Obrigado, mas não me sinto cansado.
Pélagué escutava-os satisfeita por vêr os cuidados, em que ambos estavam, no ferido.
Logo que saíu o médico, Nicolao e Pélagué sentaram-se á mesa e ficaram esperando as suas visitas nouturnas. Por muito tempo, em voz baixa, Nicolau esteve falando dos companheiros que viviam no exilio, dos que tinham fugido e continuavam trabalhando com nomes suppostos. As paredes nuas do aposento reflectiam-lhe o som abafado da voz, como se duvidassem d’aquellas singulares historias de heroes modestos e desinteressados, que haviam sacrificado todas as suas forças á grande obra do rejuvenescimento humano. Pélagué, mergulhada n’uma sombra de agradavel tepidez, sentia o coração encher-se-lhe de amôr por aquelles desconhecidos, que á sua imaginação se resumiam n’um sêr unico e immenso, dotado de máscula e inexgotavel força. Lentamente, mas sem nunca parar, tal sêr extraordinario caminhava pela terra, arrancando o bolor secular da mentira, descobrindo aos olhos do homem a verdade simples e positiva da vida, a qual a todos promettia libertar da avidez, do odio e da falsidade, trez monstros que haviam subjugado pelo horror o mundo inteiro. Esta visualidade gerava no intimo de Pélagué impressão identica á resentida n’outros tempos, quando ella, ajoelhada perante as imagens pias, terminava com uma oração de reconhecimento o seu dia, que lhe ficava assim parecendo menos árduo do que os outros. Agora, que o seu passado ia longe, este sentimento ampliava-se, fazia-se mais luminoso e mais jovial, penetrava mais fundo na sua alma, robustecia-se e exaltava-se mais e mais.
—A policia não vem! exclamou Nicolao, interrompendo o fio das suas narrativas.
Ella fitou-o um instante e após curto silencio:
—Que vão para o inferno!
—Está claro!... Vocemecê deve estar fatigada a valer, precisa de deitar-se. É robusta, ainda assim todos estes cuidados, todas estas inquietações... supporta-as admiravelmente. Só os cabellos é que lhe enbranqueceram muito depressa... Vá descansar, vá...
Apertaram-se as mãos e separaram-se.
XX
Adormecera Pélagué, rápida e socegadamente, quando, de manhãsinha, a despertaram umas pancadas violentas na porta da cosinha. E succediam-se com teimosia. Ainda fazia escuro. Vestiu-se á pressa, correu a perguntar, atravez da porta:
—Quem está ahi?
—Eu! respondeu voz desconhecida.
—Quem?
—Abra! Abra! murmurou a mesma voz, agora sumida e supplicante.
Pélagué puxou o ferrolho e empurrou a porta: E entrou Ignaty, a exclamar alegremente:
—Ah! não me enganei! Cheguei a bom porto!
Vinha coberto de lama até á cintura, o rosto desfigurado, fundas olheiras, e do bonné saíam-lhe em desordem os cabellos annellados.
—Grande desgraça lá por casa! segredou logo ao fechar a porta.
—Já sei...
Ficou espantado e perguntou com um pestanejar de curiosidade:
—Como assim?... Por quem?
Contou-lhe Pélagué em breves palavras o encontro que tivera.
—E os outros dois teus camaradas, tambem os prenderam?
—Não estavam lá: tinham ido á junta d’inspecção. Prenderam cinco, contando com o Rybine.
Fungou, n’um accesso de riso, e explicou:
—Eu, como vê, escapei. Provavelmente andam em minha busca... Pois que procurem! Não volto para lá nem por todo o oiro do mundo! Ainda assim, ainda lá ficaram seis ou sete rapazes e uma rapariga, com quem se póde contar!
—Mas como pudeste escapar?
—Eu? exclamou Ignaty, sentando-se n’um banco e olhando em roda. Os policias vieram de noite, direitinhos á fabrica, mas um minuto antes já o guarda campestre tinha vindo a correr bater-nos na janella: «Attenção, rapaziada, vêm prendel-os!»
Pôz-se a rir e a limpar a cara com a aba da blusa. E proseguiu:
—O tio Rybine não é homem para perder a cabeça... E olhe que o provou!... Disse-me logo: Ignaty, corre á cidade! Lembras-te das duas mulheres que aqui estiveram? E escreveu qualquer coisa n’um papel, muito depressa... Toma, vae, adeus, meu irmão! disse-me elle. E deu-me um empurrão nas costas. Eu atirei-me para fóra da cabana, escondi-me entre umas moitas, puz-me a andar de gatas e ouvi chegar os guardas! Eram muitos, appareciam por todos os lados! Cercaram a fabrica. Eu estava por detraz d’uma sebe... passaram-me mesmo na frente. Depois, levantei-me e entrei a andar, a andar... Andei um dia e duas noites, sem parar. Estou estafado para uma semana; nem sinto as pernas!
Mostrava-se satisfeito de si mesmo; illuminava-lhe um sorriso os grandes olhos escuros; tinha um tremor nos beiços grossos e vermelhos.
—Vou-te fazer uma gôta de chá n’um pronto! disse Pélagué sollicita, agarrando no samovar. Mas emquanto esperas, vae-te lavando. Ficas melhor depois!
—O que eu queria era dar-lhe o bilhete.
Levantou com difficuldade uma das pernas, dobrou-a, collocou o pé sobre o banco, isto com innumeras caretas e gemidos, e começou a desenrolar uma das ligaduras, que lhe envolviam ambos os pés.
Nicolao appareceu á porta. Ignaty, confuso, tornou a pôr o pé no chão; tentou levantar-se, mas cambaleou e caíu desamparadamente em cima do banco, ao qual se agarrou ás mãos ambas.
—Ai, que cançado que eu estou!
—Bom dia, camarada! disse-lhe Nicolao em tom amigavel e com um signal de cabeça. Espere, que eu o ajudo.
Ajoelhou-se diante do operario e desenrolou rapidamente a ligadura, emporcalhada e húmida.
—É necessario esfregar-lhe os pés com alcool. Ha de fazer-lhe bem, disse Pélagué.
—Isso mesmo! approvou Nicolao.
Ignaty fungou de novo, muito atrapalhado.
Finalmente, achou Nicolao o bilhete; alisou-o, mirou-o um instante e apresentou-o á velha.
—Aqui tem! É para si.
—Leia.
Elle approximou dos olhos o pedaço de papel sujo e amarrotado e leu:
«Mãesinha: não deixes que se perca o nosso negocio. Diz a essa senhora que não se esqueça de fazer que se escreva sempre e muito, a respeito das nossas coisas. Peço-te. Adeus. Rybine.»
—Bello rapaz! disse Pélagué com melancolia. Estavam a esganal-o e ainda elle se lembrava dos outros!
Lentamente, Nicolao deixou descaír o braço em que tinha o bilhete, e a meia voz:
—É espantoso!
Ignaty olhava para um e outro, vermiculando devagar com os dedos emporcalhados do pé descalço. Pélagué, procurando occultar o rosto inundado de lagrimas, foi para elle com uma celha com agua. Sentou-se no chão e estendeu a mão para tomar a perna do homem.
—Que quer fazer?... Não é preciso...
—Deixa ver o pé, depressa.
—Eu vou buscar o alcool, disse Nicolao.
O rapaz mettia sempre mais a perna debaixo do banco, murmurando:
—Não quero!... Então isso é coisa que se faça?
Sem lhe responder, ella tratou de lhe desembaraçar das ligaduras o outro pé. O rosto redondo de Ignaty distendeu-se de espanto. Pélagué entrou a lavar o rapaz.
—Sabes? disse ella com voz chorosa. O Rybine foi espancado!...
—Palavra? exclamou Ignaty assustado.
—É verdade. Quando chegou a Nikolsky, já elle vinha moído de pancada, e ainda alli, o sargento e o commissario lhe deram murros, pontapés... Estava todo coberto de sangue!
—Ah, lá quanto a isso, é o officio d’elles, e conhecem-no a valer! exclamou o operario, sentindo um calafrio percorrer-lhe as espáduas. Tenho medo d’elles como do diabo! E os camponezes não lhe bateram?
—Um só, á ordem do commissario. Os outros fizeram o seu dever; até não consentiram que continuassem a maltratal-o.
—Sim... O campónio começa a compreender...
—Tambem lá os ha muito intelligentes, n’essa villa...
—E onde é que os não ha? Ha-os por toda a parte! Sim, sempre é forçoso que os haja; o difficil é descobril-os. Mettem-se ahi pelos cantos e ficam a remoer aquillo lá por dentro, cada um para seu lado. Não teem a coragem de se reunir!
Nicolao trouxe uma garrafa d’alcool, deitou uns pedaços de carvão no samovar e saíu sem dizer palavra. Ignaty, que o seguira com a vista, curioso, perguntou em voz baixa:
—É nosso mestre?
—Na causa do povo não ha mestres, só ha camaradas!
—É caso para pasmar! disse o operario, sorrindo entre perplexo e incredulo.
—O quê?
—Tudo isto!... D’um lado, dão bofetadas na gente, do outro, lavam-nos os pés... Haverá um meio-termo?
A porta do aposento abriu-se de par em par e Nicolao respondeu:
—Ha, sim, senhor! E esse meio-termo são os que lambem as mãos d’aquelles que os maltratam e sugam o sangue dos maltratados. Aqui tem o que é esse meio-termo!
Ignaty fitou-o com deferencia e disse, após reflexão:
—Isso agora é verdade!
—Pélagué! instou Nicolao. Deve estar cansada... Deixe isso, que eu continúo.
O rapaz encolheu as pernas com inquieto acanhamento.
—Está pronto! respondeu ella, erguendo-se. Vá, Ignaty: levanta-te agora!
O outro obedeceu, conservou-se um bocado n’um pé, ora no outro, firmando-se fortemente no sobrado, e declarou:
—Até parece que ficaram novos! Obrigado!... Muito obrigado!
Fez uma pausa e ainda murmurou, a olhar para a celha com a agua suja:
—Nem sei como hei-de agradecer-lhe sufficientemente...
Os trez passaram para a casa de jantar e almoçaram. Ignaty poz-se a contar em voz muito séria:
—Fui eu que distribui os periodicos. Eu gosto muito de andar. O Rybine tinha-me dito: «Vae tu leval-os sósinho! Se fôres apanhado, não suspeitam de mais ninguem».
—E ha muita gente que os leia? perguntou Nicolao.
—Todos os que sabem lêr.
Pensativo, Nicolao reflectiu:
—Mas como havemos de arranjar que o fasciculo a propósito da prisão do Rybine chegue de pressa ás aldeias?...
Ignaty apurára logo o ouvido.
—Pois eu me encarrego d’isso hoje mesmo! Já ha prontos esses fasciculos?
—Ha, sim.
—Dê-mos, que eu os levo! propôz Ignaty com os olhos scintillantes, e a esfregar as mãos. Eu sei bem onde e como os hei-de levar!... Dê-os cá!
Pélagué sorria, ouvindo-o falar assim.
—Mas tu estás cansado e tens medo; fôste tu mesmo que disseste não querer voltar lá!...
Elle produziu com os beiços um estalido, e, ao mesmo tempo que alisava com a alentada mão os caracoes do cabello, declarou em tom de seriedade e sangue-frio:
—Estou cansado... Melhor, depois descansarei!... Quanto a ter medo, isso é verdade!... Pois se vocemecê acabou de contar que elles batem na gente até nos pôrem a escorrer sangue!... Quem é que tem vontade de ficar estropiado? Eu me arranjarei:—vou de noite... Sempre hei-de achar maneira de fazer o recado! Dê cá... Parto esta noite mesmo.
Ficou um momento calado, de sobrolho franzido, e logo:
—Vou d’aqui esconder-me na floresta. Depois, aviso os companheiros e digo-lhes: «Vão lá ter comigo e sirvam-se». É o melhor que ha a fazer! Se eu mesmo distribuisse os jornaes e fôsse apanhado, era uma pena por causa dos jornaes... Já ha tão poucos, que é preciso ter muita cautella com elles.
—E o medo? Que fazes tu a elle? Inquiriu de novo Pélagué.
Divertia-a deveras aquelle alentado rapagão de caracoes, pela sinceridade que vibrava na menor das suas palavras, pela sua fisionomia franca e pelas suas maneiras teimosas.
—O medo é o medo e negocios são negocios! replicou elle, mostrando muito os dentes. Para que está a mangar comigo? Então, já viram?... Talvez não seja coisa de metter medo a uma pessôa?... Mas já que é preciso, atira-se a gente ao lume! Quando se trata d’um negocio d’estes...
—Ah! meu filho! exclamou involuntariamente Pélagué, vencida pelo entusiasmo e o contentamento que elle lhe inspirava.
Elle sorriu acanhado:
—Ainda mais esta: eu, seu filho! Alguma criancinha, talvez?...
Nicolao, que não deixára de observar o rapaz, com olhar amigo, interveio então:
—Você não vae, homem!
—Então, que devo fazer? Onde é preciso que vá? interrogou elle com inquietação.
—Outro irá em seu logar e você ha de explicar-lhe meudamente como elle deve proceder. Quer fazer isto?
—Está bem! respondeu Ignaty de má vontade, apóz um instante de hesitação.
—Nós nos encarregamos de lhe fornecer documentos, para lhe arranjarmos um logar de guarda-matto.
—E se fôr lá gente do campo apanhar lenha ou caçar clandestinamente, de os prender? Para isso não sirvo eu!...
Os dois puzeram-se a rir, o que acabou por de todo atrapalhar o campónio, muito desgostoso.
—Não tenha medo! disse-lhe Nicolao. Não ha de ter occasião para tal, creia!
—Isso agora é differente! commentou Ignaty.
E já mais tranquillo, sorriu-se para Nicolao, confiado e alegremente.
—Eu sempre gostava mais de ir á fabrica; dizem que ha por lá camaradas bastante intelligentes...
Parecia que no vasto peito lhe ardia um fogo, intermittente ainda e que se extinguia por alternativas, não deixando ver mais que o fumo da perplexidade e de inquietação.
Pélagué levantou-se da mesa e foi á janella, dizendo, pensativa:
—Como a vida é singular!... Por cada cinco vezes que rimos, choramos outras tantas!... Que coisa pouco agradavel!... Já acabaste, Ignaty? Vae dormir.
—Não, senhora, não quero.
—Vae dormir, já te disse.
—Vocemecê é muito severa! Está bem, lá vou! E muito obrigado pelo seu chá, pelo assucar... e pela sua amisade!
Deitou-se na cama de Pélagué. Resmungava coçando a cabeça:
—Agora fica tudo a cheirar a alcatrão cá em casa... Olhe que faz mal em me amimar tanto, creia!... Eu não tenho somno... São ambos bôas pessoas... Já não percebo nada... parece que estou a cem mil kilometros da aldeia... E como elle falou bem a proposito no meio-termo... No meio-termo estão os que lambem as mãos dos que maltratam os outros... Demónio!
E subitamente, com um ronco sonoro, arqueando muito as sobrancelhas e de bôca entreaberta, adormeceu.
XXI
N’essa noite, já muito tarde, encontrava-se Ignaty n’um subterraneo, sentado em frente de Vessoftchikof e segredava a este:
—Quatro vezes, na janella do meio...
—Quatro? repetia o bexigoso, com ares de grande concentração.
—Sim; primeiro trez, assim...
E bateu na meza com o dedo dobrado, emquanto contava:
—Uma, duas, trez; e depois, mais uma vez, passado um instantinho...
—Estou percebendo.
—Ha de vir á porta um campónio de cabellos vermelhos, e ha de perguntar-lhe: «Vem por causa da parteira?» E você responde-lhe: «Sim, senhor, venho da parte do senhorio!» E não precisa mais, elle logo percebe do que se trata!
N’este colloquio, approximavam as cabeças; ambos altos e alentados, falavam baixinho, abafando muito a voz. De pé, junto d’uma mesa, com os braços cruzados sobre o peito, Pélagué observava-os. Todos aquelles signaes cabalisticos, aquellas perguntas e respostas convencionadas d’antemão, lhe davam immensa vontade de rir. E pensava:
«Não passam ainda d’umas crianças!»
Um candieiro seguro na parede illuminava as sombrias manchas do bolor e as gravuras recortadas de jornaes. Pelo chão jaziam baldes amolgados, fragmentos de zinco; e divisava-se pela janella, no ceu muito escuro, uma grande estrella scintillante. Reinava em toda a quadra um forte cheiro a ferrugem, tintas d’oleo e humidade.
Ignaty ostentava grosso sobretudo pelludo em que muito se comprazia; Pélagué via-o, volta e meia, acariciar com volupia a manga do espesso casacão e inclinar com custo o largo pescoço, para melhor se admirar. E um pensamento cantava no coração de Pélagué:
«Filhos!... meus queridos filhos!...»
—Ora aqui está! disse Ignaty, levantando-se. Então não se esqueça! Primeiro, ir a casa do Mouratof, perguntar pelo avô...
—Cá estou lembrado! respondia Vessoftchikof.
Mas Ignaty não se dava por crente, repetia-lhe outra vez todos os signaes combinados e todas as palavras de passe. Por fim, estendeu-lhe a mão.
—Agora não falta mais nada! Adeus, camarada! Dê-lhes recommendações minhas! Olhe, diga-lhes assim: «O Ignaty está vivo e passa bem.» É boa gente, verá!...
Mirou-se satisfeito, passou a mão pelo casacão e perguntou a Pélagué:
—Posso ir-me embora?
—E has de atinar com o caminho?
—Está claro que sim!... Até mais vêr, camaradas!
E lá se foi, aprumado, arqueando o peito, de chapeu novo á banda e as mãos enterradas nos bolsos. Na testa e nas fontes, os anneis dos cabellos, loiros e infantis, dansavam-lhe jovialmente.
—Ora até que emfim já tenho tambem trabalho! exclamou Vessoftchikof, approximando-se da velha. Andava aborrecido; perguntava a mim mesmo para que tinha saído da cadeia. Não faço senão andar escondido!... Ao menos, na cadeia, sempre aprendia! O Pavel recheava-nos a cabeça que era um gosto! E o André tambem nos limpava as idéas, sim senhora!... E então, sempre se decidiu a fuga? Arranja-se isso?
—Hei de sabel-o depois d’ámanhã! respondeu. E repetiu, suspirando, mau grado seu.
—Depois d’ámanhã...
O bexigoso approximou-se-lhe, descansou-lhe no hombro a alentada mão e opinou:
—Podes dizer aos chefes que é coisa facil. Elles hão de dar-te ouvidos! Ora vê tu mesma: aqui está a muralha da cadeia, ao pé d’um lampeão. Em frente, ficam umas terras sem cultivo; á esquerda, o cemitério; á direita, uma rua e o resto da cidade. Vem um accendedor de candieiros mesmo de dia, dia claro, para limpar o lampeão; encosta a escada ao muro, sobe, engata ao espigão da muralha os ganchos d’uma escada de corda que ha de ficar para o lado do pateo, e está prompto! Elles, na cadeia, já hão de saber a hora combinada, pedem aos presos de crimes communs que armem qualquer desordem, ou armam-na elles mesmos, e entretanto, os que estiverem na combinação marinham pela escada e está tudo feito! E d’ali vem de passeio até á cidade, emquanto elles lá ficam a procural-os pelo cemitério e nas taes terras de baldio!
Gesticulava com vivacidade, expondo este plano, aos olhos d’elle simples, claro e de extrema habilidade. Pélagué, que nunca conhecera n’elle mais que um rapagão tosco e desageitado, admirava-se de vêr aquelle rosto bexiguento tão cheio de vivacidade e intelligencia. D’antes, os minguados olhos de Vessoftchikof tudo fitavam com irritação e desconfiança; agora, era para crêr que outros os haviam substituido, rasgados e brilhantes de scintillações uniformes e severas que convenciam e emocionavam Pélagué.
—Pensa bem: de dia é que ha de ser!... Sim, de dia! Quem ha de imaginar que um preso se atreva a fugir de dia, á vista de todo o pessoal da prisão?
—E se os fusilassem? lembrou a mãe, horrorisada.
—Quem? Se não ha soldados, e os carcereiros servem se dos revólvers para pregar pregos!
—Quasi que estou achando tudo isso simples de mais!...
—Pois é como te digo; tu verás! Fala n’isso aos outros. Eu já arranjei tudo: a escada de corda, os ganchos... Já falei cá com o meu hospedeiro; é elle que ha de fazer de limpa-candieiros.
Para além da porta, mexia-se alguem entre accessos de tosse; ouvia-se um ruido de ferros velhos.
—Ahi está elle, o hospedeiro! annunciou o bexigoso.
Pela abertura da porta appareceu uma banheira de zinco, e uma voz encatarroada praguejou:
—Entra, diabo!
Depois, surgiu uma cara redonda e barbuda, de cabellos grisalhos, sem chapeu, d’expressão bonacheirona e grandes olhos esbogalhados.
—Vessoftchikof foi ajudar o homem a fazer passar a banheira pela porta; depois, o recemchegado, grande latagão corcovado, poz-se a tossir com um grande entumecimento nas faces imberbes, escarrou e disse na mesma voz rouca:
—Bôa noite!
—Pois agora, pergunta-lhe! convidou o rapaz.
—O quê? Que querem perguntar-me?
—É a respeito da fuga da cadeia.
—Ah, sim! disse o velho, limpando o bigode com os dedos sujos.
—Quer saber, Jacob? Ella não acredita que seja facil arranjar!
—Ah, não acredita? Pois se não acredita, é porque não quer a coisa. Mas nós dois, que queremos que isso se faça, acreditamos que seja facil! respondeu serenamente o homem.
Foi tomado d’um accesso de tosse que o dobrou em anglo recto, e em seguida esteve muito tempo no meio da quadra a aspirar com força o ar e a esfregar o peito. Fitava Pélagué com olhos de espanto.
—Mas não sou eu quem decide esta questão! observou ella.
—Mas fala lá com os outros; dize-lhes que está tudo arranjado! Ah! se eu pudesse falar com elles, eu os convenceria! exclamou o bexigoso.
Estendeu os braços em largo gesto e depois apertou-os como para abraçar qualquer coisa. Vibrava-lhe na voz um sentimento cuja energia assombrava Pélagué.
—Vejam que mudança fez! pensou ella.
E contestou em voz alta:
—O Pavel e os companheiros é que hão de decidir.
Meditativo, o outro ficou-se de cabeça baixa.
—Quem é esse Pavel? interrogou o velho, tomando logar n’um banco.
—É o meu filho.
—Qual é o nome da familia?
—Vlassof.
Elle abanou a cabeça, puxou pela bolsa do tabaco e, emquanto enchia o cachimbo:
—Tenho ouvido falar. O meu sobrinho conhece-o. O meu sobrinho tambem está na cadeia; chama-se Evetchenko. Conhece? Eu chamo-me Gadoune. D’aqui a pouco, está na cadeia! Então é que a gente ha de viver feliz e socegada, nós, os velhos! Um, da policia, prometteu que me havia de pregar com o sobrinho na Sibéria... E ha de cumprir a promessa, o excommungado!
Entrou de fumar, escarrando para o chão de vez em quando.
—Ah! ella não quer? continuou, virado para o rapaz. Isso é com ella!... O homem é livre! Quem está cansado, que se sente; quem estiver cansado de estar sentado, passeie!... Quem fôr roubado, que se cale; quem fôr tosado, soffra com resignação! E se o matarem, que se deixe caír!... Sempre é certo isto. Mas eu cá hei de fazer saír o meu sobrinho da cadeia. Olá, se hei-de!...
Estas expressões incisivas, parecidas com latidos, tornaram Pélagué perplexa. As ultimas palavras do velho haviam até excitado n’ella uma tal ou qual inveja.
Pela rua fóra, ao vento gélido e á chuva, ia pensando no Vessoftchikof.
—Como elle está mudado!... Vejam aquillo!
E ao lembrar-se de Gadoune, meditou com um sentimento quasi de religiosa piedade:
—Ao que parece, não sou só eu que ando n’esta vida de promissão!
Depois, a imagem de seu filho accudiu-lhe ao espirito:
—Se elle consentisse, ao menos!...
XXII
No domingo seguinte, ao despedir-se de Pavel, na secretaría da cadeia, sentiu que elle lhe deixava na mão uma bolinha de papel, o que a fez estremecer de alvoroço. Lançou ao filho olhar interrogador e supplicante, mas Pavel não lhe deu resposta alguma. Nos olhos azues do filho nada viu além do sorriso sereno e decidido que conhecia bem.
—Adeus! disse, suspirando.
De novo, Pavel, ao estender-lhe a mão, deu ao rosto carinhosa expressão.
—Adeus, mamã!
Reteve ainda a mão do filho, á espera.
—Não te inquietes... Não te zangues... supplicou elle.
Estas palavras e o vinco de obstinação d’aquella fronte deram á mãe a resposta esperada.
—Porque dizes isso? murmurou, baixando a cabeça. Que ha n’essas tuas palavras?
E saíu rapida, sem o fitar para não traír com as lagrimas o seu estado de espirito. Pelo caminho, chegava-lhe a parecer que lhe doía a mão em que trazia o bilhete de seu filho; sentia o braço pesado como se lhe tivessem dado uma pancada no hombro. E, ao entrar em casa, entregou a Nicolao a bolinha de papel. Emquanto esperava que elle desdobrasse o papel, fortemente comprimido, ainda teve um novo vislumbre de esperança. Mas Nicolao disse-lhe:
—Já o sabia! Aqui tem o que escreve: «Companheiros: não fugiremos; não devemos fazel-o; nenhum de nós se presta a isso. Perderiamos assim o respeito por nós mesmos. Tratem antes do camponez ultimamente preso. Merece a vossa sollicitude. É digno das vossas deligencias. Está soffrendo horrores, aqui. Todos os dias tem desaguisados com as autoridades. Já passou vinte e quatro horas no segredo. É torturado sem descanso. Todos nós intercederemos por elle. Consolem minha mãe; tratem d’ella com carinho. Contem-lhe tudo isto; ella ha de compreender. Pavel.»
Pélagué ergueu a cabeça e com voz firme:
—Contar-me, o quê? Já compreendi tudo!
Nicolao virou de súbito as costas, puxou pelo lenço e assoou-se com ruido. Murmurou:
—Sempre apanhei um defluxo!...
Occultou os olhos com a mão, sob pretexto de compôr os oculos, e continuou, passeiando pelo quarto:
—Olhe, sabe que mais?... Assim como assim, haviamos de nos saír mal da empreza!
—Que importa! Pois que seja julgado! disse a mãe de Pavel com o peito a estalar de indefinida angustia.
—Recebi ha pouco carta d’um collega de São Petersburgo.
—Tambem da Sibéria se pode fugir, não é assim?
—Com certeza... O meu collega diz-me que o processo cedo será julgado. O veredicto já é conhecido: o degredo para todos. Ora veja a senhora: aquelles patifes fazem da justiça uma comedia infame!... Está compreendendo? A sentença é lavrada em São Petersburgo, antes mesmo da decisão do jury!
—Não pense mais n’isso, Nicolao! disse Pélagué resoluta. É inutil pretender consolar-me ou explicar-me seja o que fôr!... O Pavel nunca ha de fazer nada que não seja bem feito! E não se ha de apouquentar senão pelo que o mereça!... Aqui, deteve-se para tomar folego.
—Assim como tambem nunca apouquenta os outros... E elle estima-me! Estima-me, sim! Não vê como se lembrou de mim? «Consolem-na», escreveu elle, an?
Batia-lhe forte o coração; a violencia do seu sentir fazia-lhe um tanto andar a cabeça á roda.
—Seu filho é uma bella alma! exclamou Nicolao com voz singularmente vibrante. Estimo-o e venero-o profundamente!
—E se nós tratassemos do Rybine! alvidrou ella.
O seu desejo era entrar immediatamente em acção, partir, caminhar até caír de fadiga, para depois adormecer satisfeita com o seu dia de trabalho.
—Sim, com effeito! respondeu Nicolao, proseguindo no passeio pelo quarto. Que fazer n’este caso?... Eu preciso que a Sachenka...
—Ella não tarda. Vem sempre que sabe que eu estive com o Pavel.
De cabeça baixa, meditativo, sentou-se Nicolao no canapé, ao lado d’ella. Mordia os beiços e cofiava a barbicha.
—Que pena minha irmã não estar por ahi!... Ella é que havia de tratar da fuga do Rybine.
—Se fôsse possivel dar-lhe já fuga, emquanto o Pavel ainda ahi está... Havia de ficar tão contente! disse ella.
Esteve um instante calada e, de repente, baixinho e com dolencia:
—Não compreendo... Porque se recusa elle?... uma vez que tem possibilidade de o fazer?...
Ressoou forte campainhada. Nicolao levantou-se de chofre. Olharam um para o outro.
—É a Sachenka! disse Nicolao com voz debil.
—Nem sei como lho hei de dizer! exclamou ella no mesmo tom.
—É verdade... é difficil!
—Tenho pena d’ella!
A campainha vibrou outra vez, mas com menos força, como se a pessôa que se encontrava para alem da porta hesitasse tambem. Dirigiam-se os dois a abrir, mas, chegados á cosinha, deteve-se Nicolao e segredou-lhe:
—É melhor ir a senhora só.
—Recusa-se a fugir? perguntou a rapariga com decisão, tão depressa Pélagué lhe abriu a porta.
—Recusa!
—Bem o sabia! disse Sachenka simplesmente.
Faz vento, chove... que abominavel tempo!... E elle está bom?
—Está.
—Contente e de saúde... como sempre! disse Sachenka a meia voz, ao mesmo tempo que examinava uma das mãos.
—Manda-nos dizer que devemos dar fuga ao Rybine, annunciou a mãe de Pélagué, sem se atrever a fital-a.
—Ah, sim? Pois é preciso levar esse plano a bom caminho! respondeu a rapariga com vagar.
—Sou da mesma opinião! declarou Nicolao, apparecendo á porta. Boa noite, Sachenka!
Ella estendeu-lhe a mão e perguntou:
—E que obstaculo ha? Todos reconhecem que o projecto é engenhoso, não é assim? Eu sei que ê este o parecer de todos.
—Mas quem ha de encarregar-se de o organisar? Andam todos tão occupados!...
—Eu! disse com vivacidade a rapariga, pondo-se de pé. Eu tenho tempo.
—Pois seja! Mas são precisos outros collaboradores...
—Bem, eu os encontrarei! Vou tratar d’isso immediatamente.
—Porque não descansa um pouco? propoz Pélagué.
Ella sorriu e respondeu, deligenciando dar meiguice á voz:
—Não se apouquente por minha causa... Não estou cansada...
Apertou as mãos a ambos, silenciosa, e foi-se como viera, fria e de semblante carregado.
Pélagué e Nicolao foram á janella para a vêr.
Atravessou o pateo e sumiu-se para além da grade. Nicolao pôz-se a assobiar baixinho; em seguida, sentou-se á mesa e pegou na penna.
—Ella quer tratar d’este negocio para distraír o seu desgosto! disse Pélagué, baixo.
—É evidente! confirmou Nicolao. E, voltando-se para Pélagué, com o rosto bondosamente illuminado de um sorriso:
—Este fel é que os seus labios não provaram, não é verdade?... Nunca andou a suspirar por um homem amado!
—Que idéa! exclamou ella, agitando negativamente a mão. Eu, a suspirar? O que eu tinha era medo de que me obrigassem a casar com um ou com o outro.
—Ninguem lhe agradava então?...
Reflectiu e depois respondeu:
—Não me lembro, meu amigo. É provavel que houvesse um que me agradasse mais do que os outros... E como não havia de ser assim?... Mas não me lembro.
Fitou o seu interlocutor e resumiu com dolorosa melancolia:
—Fui tão maltratada pelo meu marido, que tudo o que se passou antes d’elle é como se me tivesse apagado da lembrança.
E ausentou-se por um instante. Quando voltou, disse-lhe Nicolao com affectuoso olhar, como para lhe suavisar as penosas recordações, com palavras repassadas de ternura e amor:
—Quer saber? Tambem eu tive uma... historia... parecida com a da Sachenka. Amava uma menina, uma criatura deliciosa! Era ella a estrella da minha vida... Ha vinte annos que a conheço e a amo... porque a amo ainda hoje, para dizer a verdade; amo-a tanto como sempre a amei... de toda a minha alma, com gratidão!
Pélagué via-lhe no olhar uma chamma viva e apaixonada. Elle descansára a cabeça nos braços apoiados ao espaldar da poltrona e olhava para longe, nem elle mesmo sabia para onde. Todo o seu corpo magro e delgado, mas robusto, parecia tender para um ponto fixo, tal a haste da planta virada para a luz do sol.
—Mas então, case-se! aconselhou ella.
—Oh! ha cinco annos que está casada!
—Porque não casou com ella? Não o amava?
Teve um momento de reflexão e respondeu:
—Creio que me amava... Tenho mesmo a certeza! Porém, veja a senhora! fomos sempre infelizes: quando ella estava em liberdade, era eu que estava preso, e quando eu estava solto, era ella que estava na cadeia. Viviamos na mesma situação da Sachenka e do Pavel! Finalmente, mandaram-na por dez annos para a Sibéria... Tão longe!... Eu quiz seguil-a... Mas tivemos ambos vergonha, pelo nosso amor... E fiquei. No degredo, travou conhecimento com um dos meus camaradas, excellente rapaz. Evadiram-se juntos... e agora vivem no estrangeiro...
Tirou os oculos e limpou-os; depois, examinou as lentes contra a luz e entrou de novo a esfregal-as.
—Ah, meu caro amigo! disse affectuosamente Pélagué, abanando a cabeça.
Lastimava-o Pélagué sinceramente, mas ao mesmo tempo, havia n’elle o que quer que era que a forçara a sorrir, com bondoso e maternal sorriso. Nicolao mudou logo de expressão, retomou a penna e batendo com ella, ao ritmo das frases, declarou:
—Afinal, a vida de familia diminue a energia do revoluccionario; é certo, diminue-a sempre! Vem os filhos, o dinheiro rareia, é preciso trabalhar para ganhar o pão... E o verdadeiro revoluccionario deve desenvolver a sua energia sem desfallecimentos. E é preciso ganhar tempo para isso! Se nos deixamos ficar para traz, vencidos pelo cansaço, ou seduzidos pela possibilidade d’uma conquistasinha amorosa, traímos a bem dizer, a causa do povo!
Falava com voz firme e, bem que o rosto se lhe conservasse pálido, mostrava no olhar uma decisão sem transigencias, inabalavel.
De novo, violenta campainhada interrompeu as considerações de Nicolao. Era Lioudmila. Vinha com as faces muito vermelhas do frio. Emquanto tirava a capa de borracha, annunciou em tom de irritação:
—Está marcado o dia do julgamento: é dentro d’uma semana!
—Tem a certeza? gritou Nicolao do quarto, onde fôra.
Pélagué correra para elle sem saber se era contentamento ou receio o que a impellia. Seguira-a Lioudmila. Esta continuava, com a sua voz grave, repassada de ironia:
—Tenho, sim! O procurador substituto Chostak já lavrou o libello de accusação. No tribunal, diz-se abertamente que o veredicto já está pronunciado. Que significará isto? O governo terá medo de que os magistrados tratem os seus inimigos com excessiva benevolencia? Depois de ter pervertido os seus servidores com tanta perseverança e paciencia, ainda não estará seguro do seu servilismo?
E dito isto, sentou-se no canapé e pôz-se a esfregar as cavadas faces; despedia do olhar sem brilho, infinito desprezo e a voz alteava-se-lhe cada vez mais irada.
—Não gaste a sua polvora inutilmente, Lioudmila! aconselhou Nicolao. O governo não a ouve!
As olheiras que assombreavam o rosto da mulher cavaram-se mais, cobrindo-lhe as feições d’uma névoa de ameaça. Mordendo os lábios, proseguiu:
—Eu lucto contra o governo. Que elle me mate, bem vae: está no seu direito, pois que sou sua inimiga! Mas que não ande a corromper as criaturas para defender o poder; que não me obrigue a votar-lhe profundo desprezo; que não me envenene a alma com tal cinismo!
Nicolao, por detraz dos seus oculos, fitou-a muito, com um franzir de palpebras e signaes approvativos.
A outra continuou a discorrer, como se aquelles a quem odiava estivessem na sua presença. Pélagué escutava attentamente aquellas frases, mas sem as compreender. Machinalmente, a si mesma repetia as mesmas palavras:
—O julgamento... dentro d’uma semana... O julgamento!...
Não podia conjecturar o que ia passar-se, nem como os juizes tratariam seu filho. Mas sentia a imminencia d’alguma coisa implacavel, cuja crueza e cuja ferocidade deixavam de ser humanas.
Os pensamentos baralhavam-lhe o cérebro, velavam-lhe a vista d’um vapor azulado e mergulhavam-na no que quer que fôsse frio, viscoso, que lhe causava arrepios, nauseas e, que, infiltrando-se-lhe no sangue, lhe chegava ao coração e suffocava n’ella todo o valor.
XXIII
Dois dias passou n’este nevoeiro de perplexidades e angustias. Ao terceiro, veio Sachenka dizer a Nicolao:
—Está tudo prompto. É para hoje, á uma hora.
—Já?! exclamou admirado.
—Não era coisa muito complicada! Bastava que arranjasse fato para o Rybine e sitio para o esconder. Do resto encarregou-se o Gadoune. O Rybine não terá de andar mais que uns cem passos. O Vessoftchikof, disfarçado, está claro, irá ao encontro d’elle, fornecer-lhe-á um casacão e um bonné e dir-lhe á onde deve ir. Eu espero o Rybine e guial-o-ei.
—Está muito bem... Quem é esse Gadoune? disse Nicolao.
—Deve conhecel-o. É na loja d’elle que temos feito as leituras aos serralheiros...
—Ah, já me lembro!... Um velhote exquisito...
—Sim; é um retelhador, por officio; antigo soldado... De intelligencia pouco desenvolvida, nutre um odio inexgotavel contra todas as violencias, contra toda a oppressão. É um tanto ou quanto filósofo, rematou Sachenka, pensativa, a olhar pela janella.
Ouvia-se Pélagué em silencio. Pouco a pouco, ia amadurecendo n’ella uma idéa vaga.
—O Gadoune quer dar fuga ao sobrinho, o Evtchenko, aquelle ferreiro de quem tanto se agradavam todos pelo seu aceio e donaire, lembram-se?
Nicolao affirmou com um gesto.
—Pois tem tudo preparado na perfeição, continuou Sachenka; mas ainda assim, começo a duvidar do bom exito... Os presos passeiam todos á mesma hora. Quando virem a escada, ha de haver logo muitos a quererem fugir...
Fechou os olhos e calou-se por instantes. Pélagué approximara-se d’ella.
—...E hão de estorvar-se uns aos outros.
Estavam agora os trez junto da janella, Nicolao e Sachenka á frente, Pélagué mais atraz. A conversação rapida dos dois primeiros despertava cada vez mais em Pélagué um vago sentimento...
—Pois hei de lá ir! annunciou de subito.
—Para quê? perguntou Sachenka.
E Nicolao aconselhou:
—Não, não, querida amiga! Podia acontecer-lhe alguma coisa. Não!
Ella fitou-os a ambos e repetiu, mais baixo, com insistencia:
—Sim, hei de ir!
Os dois trocaram rapido olhar. Sachenka encolheu os hombros e commentou:
—Compreende-se...
Depois, voltando-se para ella e tomando-lhe do braço, inclinando-se-lhe ao ouvido, declarou com singeleza e cordealidade:
—Mas olhe que eu previno-a: nada tem a esperar...
—Minha querida! exclamou a mãe de Pavel, puxando-a para si, a tremer, leve-me comsigo!... Eu não a estorvo... É que eu queria vêr... Não creio, não julgo que seja possivel... uma evasão!
—Ha de vir comnosco por força! limitou-se a dizer a rapariga para Nicolao.
—Isso é com vocês as duas! respondeu elle, baixando a cabeça.
—Mas olhe que não podemos ficar juntas. Vocemecê tem de andar pelos campos, pelos jardins. Vêem-se de lá os muros da cadeia, muito bem... D’outra fórma, arrisca-se a que lhe perguntem o que anda ali a fazer.
Com serenidade, Pélagué exclamou:
—Sempre hei de achar uma resposta!
—Não se esqueça de que os vigias da cadeia conhecem-na! lembrou Sachenka. Se a vêem por ali...
—Não hão de vêr-me! respondeu ella.
E logo a seguir, a esperança que ella sempre acalentára sem mesmo, dar por tal, incendiou-se em viva chamma que toda a animou:
—Quem sabe?... Talvez que elle tambem... pensava, emquanto se vestia apressadamente.
Uma hora depois, encontrava-se ella em meio d’uns campos, perto da prisão. Soprava vento agreste, que lhe enfunava as saias, enrijecia o solo gelado, fazia oscillar o tapume velho d’um jardim, fustigava com violencia o muro da cadeia e penetrava no pateo interior, d’onde a vozearia subia, arrastada para o firmamento no seu irresistivel sopro. Corriam velozes as nuvens, deixando por vezes entrever a immensa profundidade do azul.
A cidade estendia-se por detraz de Pélagué; e na sua frente, o cemiterio. A uns vinte passos para a direita, elevava-se a cadeia. Perto do cemiterio, dois soldados andavam a dar passeio a um cavallo. Caminhavam com pesado passo, assobiavam e riam.
Obedecendo a instinctivo impulso, acercou-se dos dois homens e gritou-lhes:
—Camaradas, viram a minha sobrinha? Não fugiu para aqui?
—Não, não vimos, respondeu-lhe um.
Afastou-se devagar, passou-lhes adiante e dirigiu-se para o muro do cemiterio, olhando sempre de soslaio. De súbito, sentiu vergarem-se-lhe as pernas e tornarem-se-lhe pesadas, como se o gelo lh’as tivesse pregado ao solo: à esquina da cadeia tinha apparecido um accendedor de candieiros, corcovado sob pequena escada, a correr, como todos elles costumam fazer. Toda a tremer de susto, olhou Pélagué para o lado dos soldados. Tinham ficado parados em certo sitio; o cavallo brincava, pulando-lhes á roda. Viu depois que o homem já tinha encostado a escada ao muro e por ella trepava sem pressa alguma. Viu-o fazer um signal com a mão, descer rápido, e sumir-se na esquina da cadeia. Pulsava violentamente o coração de Pélagué; os segundos decorriam com lentidão. A escada mal era visivel entre as grandes manchas da lama e da caliça escalavrada, que deixava a descoberto os tijolos. N’isto, surgiu na crista do muro a cabeça de Rybine, e logo o corpo appareceu, passou para o outro lado e deslisou.
Segunda cabeça coberta de bonné de pello surgiu; rolou para o chão uma especie de novelo preto que logo se sumiu na esquina do edificio. Rybine aprumára-se e olhava em torno. Fez um signal com a cabeça.
—Foge! foge! segredou Pélagué, batendo o pé.
Tinha zumbidos nos ouvidos, parecia-lhe ouvir gritos, quando terceira cabeça, esta loira, emergiu do espigão do muro. Comprimindo o peito ás mãos ambas, Pélagué olhava, petrificada.
A cara loira e imberbe teve um impulso para cima, como para se separar do corpo, e depois, desappareceu por detraz do muro. Os gritos de ha pouco faziam-se mais ruidosos e traduziam maior alvoroço; o vento levava-os pelo espaço, de mistura com trillos agudos de apitos.
Rybine caminhou ao longo do muro e depois transpôz um terreno que separava a prisão dos predios da cidade. A Pélagué afigurava-se que ele ia muito devagar e de cabeça alta demais; com certeza as pessoas que com elle se cruzavam não lhe esqueceriam as feições.
—Depressa!... Mais depressa! murmurou ella.
No pateo da cadeia, houve qualquer coisa que se quebrou com ruido secco, ouviu-se um tenido agudo de vidros partidos. Firmando os pés no chão com toda a sua força, um dos soldados puxava pelo cavallo; o outro, de mão ao lado da bocca, gritava o que quer que fôsse na direcção do presidio, depois apurava o ouvido com a cabeça inclinada n’esse sentido.
Em crispações de incerteza, a mãe de Pavel olhava para tudo aquillo; os seus olhos, que tudo haviam visto, em nada queriam crêr. A evasão, que ella imaginára coisa terrivel e complicada, effectuara-se tão rapida e simplesmente, que d’ella mal lhe restava consciencia. Em baixo, na rua, já não se divisava Rybine. Os unicos traseuntes eram agora um homem de elevada estatura, vestido de comprido sobretudo, e uma rapariguinha. Appareceram trez vigias á esquina.
Corriam, apertando-se uns contra os outros, com o braço direito estendido para a frente. Um dos soldados precipitou-se ao encontro d’elles, o outro mal podia acompanhar o cavallo, que, caprichoso e rebelde, tentava recomeçar o brinquedo, esquivando-se e pulando. Pélagué julgava vêr tudo em volta d’ella oscillar. Os apitos rasgavam a atmosfera em trillos incessantes e desesperados. Compreendeu então o perigo que corria. Toda trémula, foi andando ao longo do tapume do cemiterio, sem perder de vista os guardas. Estes deitaram a correr para a outra esquina da cadeia e desappareceram, assim como os soldados.
Logo depois viu o sub-director da prisão, que ella conhecia bem, tomar a mesma direcção. Trazia a farda desabotoada. Accudiam policias; formava-se um ajuntamento...
O vento soprava, deslocando-se em redemoinhos, como se quizesse mostrar-se satisfeito; com elle chegavam aos ouvidos de Pélagué fragmentos d’exclamações confusas:
—Ella ainda lá está!
—A escada?
—Vá para o diabo! Porque espera!...
De novo retiniram apitos estridentes. Todo este tumulto era do agrado de Pélagué. Apressou o passo, ao mesmo tempo que ia pensando:
—Logo, era possivel!... E se elle quizesse, tambem o tinha podido fazer!
De repente, ao voltar uma esquina do tapume, embateu em dois guardas, acompanhados d’um policia.
—Pára! gritou-lhe este, offegante. Não viste um homem de barba a correr? Não veio para aqui?
Ella apontou para os campos e respondeu com todo o sangue frio:
—Vi, sim, senhor. Foi para ali!...
—Jégourof! berrou o policia. Vá! Corre! Apita! E ha muito tempo?
—Ha de haver um minuto...
Mas teve a voz dominada pelo estridor do apito. Sem esperar a resposta, o policia desatou a correr por entre os montões de lama gelada, agitando as mãos na direcção dos jardins. De cabeça baixa e apito na bocca, os outros precipitaram-se-lhe nas peugadas.
Ficou um momento a seguil-os com a vista e voltou para casa. Sem que um pensamento particular predominasse n’ella, sentia, não obstante, o pezar por alguma coisa; havia no seu coração amargura e despeito. Ao chegar proximo da cidade, fêl-a parar um trem que ia passando. Ergueu a cabeça e viu na carruagem um rapaz de bigode loiro, rosto pálido e que revelava cançaso. Elle fitou-a tambem. Ia sentado de esguelha; era talvez por isso que parecia ter o hombro direito mais alto que o esquerdo.
Nicolao recebeu Pélagué com um suspiro de alivio.
—Chegou sã e salva? Então como se passou isso?
—Parece que conseguiram o que queriam.
E diligenciando rememorar os mais insignificantes pormenores, contou o que tinha visto, como se estivesse a repetir inverosimil historia.
—Ora veja que temos sorte! disse Nicolao, esfregando as mãos. Mas que susto em que estive por sua causa! Nem póde imaginar! Nada receei com respeito ao julgamento. Quanto mais cedo fôr, tanto mais breve chegará o dia da libertação do seu Pavel, creia! Talvez até possa evadir-se quando fôr, a caminho da Sibéria... Quanto ao julgamento, aqui tem pouco mais ou menos o que é.
Entrou a descrever-lhe o tribunal. A mãe de Pavel escutava-o, mas presentia que elle receava alguma coisa e diligenciava tranquillisal-a.
—Está imaginando talvez que eu quero dirigir-me aos juizes, entregar-lhes algum memorial! disse ella.
Nicolao levantou-se bruscamente, agitou a mão e exclamou em tom de melindre:
—Que está dizendo? Nunca pensei n’isso!
—Tenho medo, isso é certo! Tenho medo e não sei de quê!
Calou-se. O olhar vagueava-lhe pelo aposento, ao accaso.
—Em certas occasiões, quer-me parecer que hão de mofal-o, que hão de injurial-o e dizer-lhe: «Oh, campónio, filho de campónio! que descoberta foi essa agora?» E o Pavel é orgulhoso; ha de querer responder-lhes... Ou então é o André que vae para lá zombar d’elles. São todos tão entusiastas, tão francos e leaes, os nossos!... É por isso que eu digo comigo mesmo: «Se acontecesse alguma coisa, se um d’elles perdesse a paciencia, os outros haviam de apoiá-lo e lá os tinhamos todos condemnados... por maneira que nunca mais apparecessem!»
Nicolao, sombrio, atormentando a barba, permanecia silencioso.
—Não posso expulsar taes idéas d’esta cabeça! continuou ella mais baixo. É terrivel, uma audiencia! Vão para ali pôr-se a examinar tudo, a avaliar tudo... a procurar onde está a verdade! É deveras um horror!... Não é o castigo que amedronta, é o julgamento... a avaliação da verdade... Não sei como hei de dizer...
Sentia que Nicolao não compreendia o seu terror, e isto ainda mais a embrulhava na demonstração.