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A Mãe

SEGUNDA PARTE (continued 4)

Augusto de Lacerda translation

XXIV

Este terror de Pélagué não fez senão augmentar durante os trez dias que a separavam da audiencia e, quando esta chegou finalmente, levava ella sobre si, para o tribunal, um fardo que toda a avergava.

Cá fora, reconheceu varios dos seus antigos visinhos do arrabalde, inclinou-se em silencio para corresponder aos seus cumprimentos e abriu á pressa caminho por entre a multidão tristonha. Nos corredores e depois, na sala, topou com as familias dos seus. Falava-se abafando a voz; trocavam-se frases que ella não compreendia. D’aquella turba brotava pungente sentimento que se communicava a Pélagué e a opprimia ainda mais.

—Senta-te! convidou Sizof, arranjando-lhe logar no banco, a seu lado.

Obedeceu, compôz as dobras do vestido e olhou em torno. Divisava vagamente umas faxas verdes e encarnadas, umas manchas, uns fios amarellos e delgados, que brilhavam.

—Foi o teu filho que levou o meu á perdição! murmurou uma mulher que lhe ficava perto.

—Cala-te d’ahi, Nathalia! interrompeu Sizof com o semblante carregado.

Pélagué ergueu a vista para aquella mulher: era a mãe de Samoílof. Um pouco mais adiante, estava o pae, calvo, de bello rosto ornado de espessa barba ruiva talhada em leque. Semi-cerrava as palpebras e olhava direito para diante de si, com um estremecimento involuntario de vez em quando.

Pelas altas janellas entrava uma claridade uniforme e turva; escorregavam flocos de neve pelas vidraças. Entre as janellas, havia um immenso retrato do czar em grossa moldura doirada, e com reflexos oleosos na pintura; e a um e outro lado do quadro, occultavam a parede as pregas hirtas dos pesadissimos reposteiros que revestiam as janellas. Frente ao retrato, uma meza coberta de panno verde, occupava quasi toda a largura da sala; á direita, por detraz d’uma especie de gelosia gradeada, dois bancos de pau; á esquerda, duas filas de poltronas forradas de vermelho. Os officiaes de diligencias, de golas verdes e botões doirados iam e vinham pela sala, nos bicos dos pés.

Na atmosfera, de equivoca pureza, perpassavam ruidos de vozes, cochichando baixinho; pairava, vindo ninguem saberia d’onde, um vago cheiro de farmácia. Todas aquellas côres vivas e aquellas scintillações offuscavam a vista; penetravam no peito os odôres do ambiente d’envolta com a respiração; o espirito sentia-se submerso n’uma especie de temor inexprimivel.

De súbito, alguem começou a falar em voz alta. Toda a assistencia se pôz de pé. Pélagué teve um sobresalto e ergueu-se tambem, agarrada ao braço de Sizof.

No canto esquerdo da sala, tinha-se aberto uma porta alta, dando passagem a um velhinho de oculos, muito alcachinado e de andar incerto. Umas escassas suissas tremiam-lhe dos lados da carinha de côr terrosa, o lábio superior, barbeado, quasi se lhe sumia na cavidade da bôca. As maçãs do rosto e o queixo comprimiam-se-lhe sobre a altissima gola da farda, dando a julgar que por baixo nada existia de pescoço. O velho caminhava sustido por um rapaz alto, de cara de porcelana, muito redonda e rosada. Atraz d’elles, vinham trez personagens revestidos de uniformes recamados de bordados e mais trez sujeitos á paisana.

Por muito tempo, estiveram a deliberar entre si, em volta da mesa; depois, sentaram-se. Logo que todos tomaram os seus logares, um d’elles, rosto imberbe e com a farda desabotoada, entrou a falar ao velho, com uns modos de indifferente indolencia e movendo com custo os beiços entumecidos. O velho ia-o escutando. Conservava-se hirto e immovel, e Pélagué distinguia-lhe duas manchasinhas esbranquiçadas por detraz dos vidros dos oculos.

Junto de estreita secretária, na extremidade da mesa, um homem alto e calvo folheava papeis, com uma tossinha sêcca.

O velho fez um movimento para diante e começou a falar. A primeira palavra pronunciou-a elle distinctamente, mas as outras parecia que se sumiam ao sahir-lhe dos lábios delgados e sem côr.

—Declaro...

—Olha! segredou Sizof á sua visinha com uma leve cotovellada. E pôz-se de pé.

Por detraz do gradeamento abrira-se uma porta que dera passagem a um soldado de espada desembainhada, ao hombro, e logo depois a Pavel, André, Fédia Mazine, os irmãos Goussef, Boukine, Samoílof e mais cinco rapazes desconhecidos de Pélagué. Pavel vinha a sorrir; André cumprimentou Pélagué com um aceno de cabeça.

Aquelles rostos, aquelles sorrisos e gestos de animação fizeram parecer menos frio o silencio e tornaram a sala mais luminosa; suavisaram-se os reflexos opulentos de oiro dos uniformes; um alento de confiança, uma aragem de força viril penetraram o coração da mãe de Pavel, arrancando-a ao seu torpor. Por detraz d’ella, pelas bancadas onde até ali a turba se conservava acabrunhada, á espera, murmurios surdos e reprimidos iam respondendo ás saúdações dos reus.

—E é que não teem medo! ouviu ella Sizof segredar-lhe, ao passo que á sua direita a mãe de Samoílof se desatava em soluços.

—Silencio! gritou uma voz severa.

—Tenho a prevenil-os... disse o velho.

Pavel e André tinham ficado lado a lado; a seguir, estavam Mazine, Samoílof e os irmãos Goussef, todos na primeira bancada. André cortára a barba; mas o bigode crescera-lhe tanto, que as guias pendiam e reuniam-se, assemelhando-lhe a redonda cabeça á d’um gato. Trazia impressa na fisionomia uma expressão nova: nos vincos aos cantos da bôca, havia alguma coisa penetrante, irónica, e o olhar tornára-se-lhe sombrio. Mazine tinha agora o lábio superior sombreado por dois traços escuros, e o seu rosto engordára; o Samoílof tinha os mesmos cabellos, tão encaracolados como d’antes.

O Ivan Goussef continuava a mostrar o mesmo amplo sorriso.

—Fédia! Fédia! suspirou Sizof, baixando a cabeça.

Pélagué respirava agora melhor. Apurava como podia, o ouvido ás perguntas indistinctas do velho, o qual interrogava os reus sem olhar para elles, com a cabeça entalada entre a gola da farda. Escutava as respostas breves e calmas que seu filho ia dando. Queria-lhe parecer que aquelle presidente e aquelles juizes não podiam ser más e crueis pessoas. Examinava-lhes pormenorisadamente as fisionomias, tentando perscrutar-lhes os sentimentos, e assomava-lhe ao coração uma nova alvorada de esperança.

Indifferente, o homem da cara de porcelana estava lendo um documento; a sua voz circumspecta enchia a sala d’um tedio que causava somnolencias no publico. Em voz baixa e animadamente, quatro advogados conversavam com os réus; tinham todos uma gesticulação saccudida e veemente e faziam pensar em grandes passarolos negros.

Á direita do velho, um juiz ventrudo, de olhinhos sumidos entre as papadas da gordura, enchia completamente toda a capacidade da poltrona; á esquerda, estava um homem alquebrado, de bigode vermelho, de rosto esmaecido. Reclinava com lassidão a cabeça no espaldar, de palpebras semi-cerradas, meditando. O procurador tambem apparentava cansaço, enfado e indifferença. Por detraz dos juizes, occupavam poltronas varios individuos: um robusto e esbelto homem estava acariciando uma das faces, com ares de grande concentração; o marechal da nobreza, já grisalho, de rosto rubicundo e comprida barba, divagava o olhar dos seus grandes olhos simplorios; o syndico do bailiado, a quem o enorme abdomen visivelmente incommodava, diligenciava disfarçal-o sob uma aba da blusa, que escorregava de contínuo.

—Aqui não ha criminosos nem juizes! proclamou Pavel com voz firme. Aqui só ha captivos e vencedores!

Fez-se silencio. Durante alguns segundos, o ouvido de Pélagué nada distinguiu além do ranger precipitado e estridente das pennas sobre o papel e das palpitações do seu proprio coração.

O presidente do tribunal parecia que estava escutando ou esperando alguma coisa. Os juizes seus collegas agitaram-se nas poltronas. Elle então disse:

—Sim!... André Nakhodka!... Reconhece...

Ouviram-se vozes segredar:

—Levanta-te!... Levante-se!

André poz-se de pé com lentidão e ficou a olhar para o velho, de soslaio, emquanto frisava e desfrisava o bigode.

—De que posso eu reconhecer-me culpado? disse, com um encolher de hombros, o russo-menor, na sua voz cantante e arrastada. Eu não matei, nem roubei: simplesmente protesto contra esta organisação da sociedade, que obriga os homens a explorarem-se e a assassinarem-se uns aos outros.

—Limite-se a responder sim ou não! disse o velho com esforço mas perceptivelmente.

Pélagué sentia que por detraz d’ella susurrava certa agitação; todos falavam baixinho e mexiam-se muito nas bancadas, como para desannuviarem os espiritos da teia d’aranha tecida pelo discurso enfadonho do homem de porcelana.

—Vês como elles respondem? segredou Sizof para a mãe de Pavel.

—Sim!

—Fédia Mazine, responda!

—Não quero! declarou Fédia peremptoriamente, pondo-se de pé.

Estava muito córado pela commoção e com os olhos brilhantes. Sizof soltou um «Ah!» de mal contido espanto.

—Não quiz defensor, portanto nada direi. Considero o julgamento d’este tribunal como illegitimo!... Quem são os senhores? Foi o povo quem lhes deu o direito de julgar-nos? Não, não foi o povo! Logo, não os conheço!

Tornou a sentar-se e occultou o rosto rubro, por detraz do hombro de André.

O juiz gordo curvou-se para o presidente, cochichando. O juiz de rosto esmaecido lançou uma olhadela obliqua para os réus e, com o lapis, passou um traço por cima do que quer que fôsse, escripto no papel que tinha em frente. O syndico do bailiado abanou a cabeça e removeu os pés do sitio em que os tinha, com precaução. O marechal da nobreza conversava com o procurador; o administrador da communa prestava attento ouvido ao que diziam e sorria, esfregando sempre uma das faces.

De novo se ouviu a voz triste e sumida do presidente.

Os quatro advogados escutavam attentos; os réus conversavam em segredo uns com os outros; Fédia continuava a occultar-se ás vistas, sorrindo, muito compromettido.

—Então, não viste aquillo?... Falou melhor que todos os outros! murmurou Sizof ao ouvido da sua visinha. Ah, aquelle brejeiro!

Pélagué sorriu sem o compreender. Tudo o que se estava passando não era para ella mais do que o prologo inutil e forçado d’alguma coisa terrivel, que, ao surgir, havia de esmagar todo o auditório sob gélido terror. Comtudo, as calmas respostas de Pavel e André manifestavam tanta firmeza e decisão, como se as tivessem pronunciado na modesta casinha do arrabalde e não perante juizes. A réplica enthusiasta e juvenil de Fédia tinha-a divertido immenso. Pairava na sala uma atmosfera de audácia e de mocidade, e, pela agitação de todo o auditório, Pélagué sentia que não era ella só que lhe sentia os effluvios.

—A sua opinião? perguntou o velho.

O procurador calvo ergueu-se com a mão apoiada na carteira e discursou com verbosidade, citando numeros. Nada havia n’aquella voz que infundisse terror. No emtanto, ao ouvil-o, Pélagué sentiu logo como uma punhalada no coração: era um vago presentimento de alguma coisa hostil e que se lhe afigurava ir desenvolvendo-se lentamente em uma fórma indefinivel. Examinava tambem os juizes, mas não os compreendia: ao contrario do que ella esperava, não os via zangar-se com Pavel e Fédia, nem proferir palavras injuriosas contra os réus; queria-lhe parecer que todas as perguntas que faziam não tinham para elles importancia alguma; dir-se-ia que era de má vontade que as formulavam e que lhes custava esperar as respostas; nada os interessava tudo sabiam já d’antemão.

Agora estava um policia postado na frente d’elles e falava com uma voz de baixo profundo.

—Toda a gente apontava Pavel Vlassof como o principal cabeça de motim.

—E André Nakhodka? perguntou com indolencia o jury gordo.

—Esse tambem.

Levantou se um dos advogados e disse:

—Dá-me licença?...

O velho perguntou a alguem:

—Não tem objecção a apresentar?

Pélagué chegava a julgar que os juizes se achavam todos doentes. Traduzia-se um cansaço mórbido na menor das suas attitudes, nas vozes e nas fisionomias. Via-se que tudo os enjoava: os uniformes, a sala, os policias, os advogados, a obrigação de estarem ali sentados n’aquellas poltronas, de interrogarem e de ouvirem. Raras vezes Pélagué se encontrára na presença de gente de posição elevada e havia alguns annos que nem sequer a tinha visto, e assim, as feições dos juizes eram para ella como uma coisa inteiramente desconhecida, incompreensivel, mas mais compassiva do que severa.

Estava agora a falar o official de cara amarellada que ella conhecia bem; referia-se a André e a Pavel, arrastando muito as palavras, emfaticamente. E emquanto o ouvia, Pélagué commentava comsigo mesma:

—Não sabes nada d’isto, meu pateta!

Deixára de sentir compaixão ou receio pelos que se sentavam por detraz do gradeamento; não temia pela sua sorte, e achava que lhes era inutil a sua piedade, mas todos elles lhe inspiravam admiração e um sentimento de amor que lhe acalentava docemente o coração.

Jovens e robustos como eram, estavam sentados á parte, junto da parede e quasi nem intervinham na conversação monotona entre testemunhas e juizes, nas discussões dos advogados e do procurador. De vez em quando, um d’elles tinha um sorriso de desprezo e dizia baixo algumas palavras aos seus companheiros. André e Pavel, esses, falavam quasi continuadamente com um dos defensores, a quem Pélagué conhecia de o ter visto na vespera em casa de Nicolao e que por este era tratado de «camarada». Mazine, mais animado e irrequieto que os outros, prestava attento ouvido a esta conversa. De vez em quando, Samoílof segredava meia duzia de palavras ao ouvido de Ivan Gousef. E Pélagué, olhando para tudo, comparava, reflectia, sem que pudesse compreender aquella sensação de hostilidade que a invadia, nem achar termos para exprimil-a.

Sizof chamou-lhe a attenção com ligeira cotovellada; virou-se para elle: estava com uns ares ao mesmo tempo satisfeitos e um tanto preoccupados. Segredava:

—Olha para a presença de espirito com que elles estão, aquelles garotos, an? Parecem verdadeiros fidalgos, não é verdade? E no entretanto estão a ser julgados... para os ensinar a não se metterem no que não é da sua conta.

Ella repetiu involuntariamente a si mesma:

—Estão sendo julgados...

Na sala, depunham testemunhas, com vozes incaracteristicas e atabalhoadas; os juizes iam sempre interrogando, indifferentes e mal humorados. O juiz gordo bocejava, dissimulando a bôca sob a mão inchada de cieiro; o seu collega dos bigodes ruivos tornára-se ainda mais lívido; por vezes, erguia o braço, premia fortemente uma das fontes com um dedo, e ficava-se a fitar o tecto com o olhar morto.

De vez em quando, escrevia o procurador algumas linhas a lapis e depois recomeçava a cochichar com o marechal da nobreza. O administrador cruzára as pernas e tamborilava n’uma dellas, com o olhar fixado com gravidade no movimento dos dedos.

Com o ventre descansando-lhe nos joelhos e sustentando-o prudentemente entre as duas mãos, o syndico do bailiado quedára-se de cabeça pendida; parecia ser elle o unico a escutar o murmurio monotono das vozes, além do velho, enterrado na poltrona e immovel como um catavento quando não sopra a brisa. Durou isto muito tempo e de novo o aborrecimento se apoderava do auditório.

Pélagué sentia que a justiça, a justiça implacavel que põe friamente as almas a descoberto, que as examina, que tudo vê e tudo aprecia com os olhos incurruptiveis e tudo pesa com mão leal, não tinha ainda dado entrada n’aquella sala. Nada via por emquanto que a amedrontasse com uma manifestação de força ou de majestade. Rostos descoloridos, olhos sem brilho, vozes fatigadas, o indifferentismo tristonho d’uma tarde de outono, eis tudo o que presenceava.

—Declaro... disse o velho com clareza; e em seguida, depois de ter abafado o resto da frase entre os delgados labios, ergueu-se.

Logo a sala se encheu de rumores, suspiros, exclamações suffocadas, accessos de tosse e arrastar de pés. Os réus foram conduzidos para fóra do pretorio; ao saírem, faziam signaes com a cabeça e sorriam-se para parentes e amigos. Ivan Goussef chegou mesmo a gritar com affabilidade para quem quer que fôsse:

—Não te deixes intimidar, camarada!

Pélagué e Sizof saíram para o corredor.

—Queres vir ao bufete, tomar chá? perguntou sollícito o velho operário. Temos hora e meia para esperar.

—Não, obrigada.

—Bem, então tambem eu não vou. Viste os rapazes, an? Falam como se elles fôssem os verdadeiros homens e os outros coisa nenhuma! Ouviste o Fédia, an?

De bonné na mão, vinha chegando n’este momento o pae de Samoílof. Com um sorriso triste, perguntou:

—Que dizem do meu filho? Não quiz advogado e recusa-se a responder... Foi elle que teve a idéa.

O teu filho era pelos advogados, Pélagué; o meu disse que não os queria. E houve quatro que lhe seguiram o exemplo.

A mulher esteve ao lado d’elle. Piscava de contínuo os olhos e limpava o nariz com a ponta do lenço. Samoílof reuniu na mão toda a barba, n’um punhado, e continuou:

—Outra coisa que me dá que pensar: quando a gente olha para aquelles demónios, parece que elles fizeram tudo aquillo inutilmente, que comprometteram a sua vida sem necessidade e, de repente, fica-se a scismar se elles não terão razão...

E é bom não esquecer que lá na fabrica, o partido d’elles aumenta continuadamente. De vez em quando, prendem-nos; mas nunca os apanham a todos, assim como nunca se apanham os peixes todos d’um rio! E a gente fica sempre a perguntar com os seus botões: «Quem sabe se elles dizem a verdade!»

—Para nós, é difficil compreender esta questão! declarou Sizof.

—Sim, é certo! acquiesceu o outro.

A mulher interveio então, depois de ter respirado com ruido:

—Parece que estão todos de perfeita saúde, estes malditos juizes!...

E continuou, com um sorriso no seu rosto emmurchecido:

—Não estejas zangada, Pélagué, por eu te dizer ha bocado que o Pavel era o culpado de tudo!... Para falar com franqueza, nem a gente sabe qual é o mais culpado! Ouviste o que os espiões e os policias contaram do nosso filho?...

Claramente se via que tinha orgulho d’aquelle filho, embora ella própria talvez nem désse por isso; mas Pélagué, que avaliava bem tal sentimento, abriu-se em bondoso sorriso.

—Os corações moços andam sempre mais próximos da verdade do que os velhos! disse ella em voz baixa.

Passeava-se pelo corredor; formavam-se grupos em que se discutia concentradamente, todos pensativos e animados. Ninguem se conservava afastado, toda a gente sentia a necessidade de falar, de interrogar e de escutar o que se dizia. No estreito recinto da passagem, entre as duas paredes brancas, os grupos iam e vinham, como se, impellidos por violenta rajada, procurassem apoio n’alguma coisa firme e segura.

O irmão mais velho de Boukine, um grande latagão de cara envelhecida prematuramente, gesticulava, virando-se com vivacidade para todos os lados. Protestava elle:

—O syndico do bailiado nada tem a ver para o caso; não está aqui no seu logar!

—Cala-te, Constantino! exortava o pae, um velhinho, sempre a olhar em volta, assustado.

—Não, senhor, eu quero falar! Dizem que o anno passado matou um empregado... por causa da mulher d’este! Ora que espécie de juiz vem a ser aquillo, fazem favor de me dizer? A viuva do empregado vive agora com elle!... Que havemos de concluir?... Além d’isso, toda a gente sabe que é ladrão...

—Ai, meu Deus!... Constantino!...

—Tens razão, sim senhor! apoiou Samoílof. Tens razão! Não é um juiz sério!...

Boukine, que tudo ouvira, approximou-se rápido, levando atraz de si numeroso grupo. Muito vermelho, de excitado, entrou de falar, com grandes gestos:

—Quando se trata de assassinatos ou de roubos, são os jurados que julgam, quer dizer: a gente habitual, trabalhadores, burguezes... Agora, quando se trata dos que são contra o governo, quem os julga é o próprio governo!... Isto póde ser?...

—Constantino!

—Mas escuta, estão elles realmente contra o governo? Vê lá, que dizes?

Não, espera! O Fédia Mazine tem razão. Se tu me offenderes e eu te der uma bofetada e se tu tiveres de me julgar, com certeza é a mim que chamarás culpado; e comtudo, quem insultou? Tu! Tu!

Um guarda já idoso, de nariz adunco e peito ornado de medalhas, atravessou por entre o ajuntamento e foi dizer a Boukine, ameaçando-o com o dedo:

—Olá! não grites! Onde imaginas que estás? É alguma taberna, aqui?

—Queira perdoar, cavalheiro... Eu percebo bem. Ora escutem: se eu bater em alguem e esse alguem me retribuir as pancadas e se eu tiver de julgal-o depois, como é que podem imaginar...

—Olha que te faço saír! disse o guarda severamente.

—Saír? para onde? Porquê?

—Para a rua! Que é para não berrares!

Boukine circumvagou o olhar pelo auditório e commentou a meia voz:

—Para elles, o essencial é que estejamos calados.

—Ainda não o sabias? replicou o velho com rudeza.

O outro baixou a voz.

—E depois, porque é que o publico não póde assistir ás audiencias, mas tão somente os parentes?

—Se ha justiça nos julgamentos, é para serem presenceados por todos! De que teem medo?

E Samoílof apoiou, mas com mais vehemencia:

—Isso é verdade! Estes tribunaes não satisfazem a consciencia pública.

Pélagué desejava tambem repetir o que Nicolao lhe dissera ácerca da illegalidade do julgamento; mas não o havia compreendido bem e esquecera em parte as expressões empregadas por Nicolao. Para tentar rememoral-as, afastou-se da multidão e viu um rapaz de bigode loiro a observal-a. Trazia a mão direita mettida na algibeira das calças, o que fazia com que parecesse ter o hombro esquerdo mais baixo do que outro. Esta particularidade lembrou-se Pélagué que já era sua conhecida.

Mas o homem virou-lhe as costas e, cançada do seu esforço de memoria, Pélagué logo se esqueceu d’elle.

Instantes depois, distinguia um fragmento de conversa em segredo:

—Aquella? Á esquerda?

E alguem respondeu mais alto, com expansão:

—Essa mesma.

Olhou. O homem dos hombros de desigual altura estava ao lado d’ella e conversava com o seu visinho, um homem corpulento de barba preta, com umas enormes botas e casaco curto.

Estremeceu. Ao mesmo tempo, sentia o desejo de falar nas crenças de seu filho, para ouvir as objecções que lhe pudessem apresentar e calcular a decisão do tribunal pelas opiniões dos que a rodeavam.

—É isto por ventura fórma de julgar? começou ella a meia voz, prudentemente, dirigindo-se a Sizof. Não compreendo isto. Os juizes só tratam de averiguar o que fez cada um d’elles, mas não perguntam porque o fez. Será isto justo? diga lá! E são todos elles velhos! Para julgar gente nova são precisos homens novos!

—Sim! disse Sizof. Torna-se-nos difficil compreender todo este negocio... muito difficil!

E abanava a cabeça, pensativo.

N’isto, o guarda abriu a porta da sala e gritou:

—Entrem os parentes! Mostrem os seus bilhetes.

Uma voz de mau humor commentou:

—Os bilhetes... como no circo!...

Sentia-se agora uma irritação geral e mal contida, uma colera vaga. Os curiosos manifestavam maior semceremonia do que pouco antes, faziam barulho, discutiam com os guardas.

XXV

Sizof retomou o seu logar resmungando.

—Que tens? perguntou-lhe Pélagué.

—Não tenho nada! O povo é estupido... Não sabe nada, vive ás apalpadellas.

Resoou uma campainhada. Alguem annunciou com indifferença:

—O tribunal!

Todos se puzeram novamente de pé, como da primeira vez. Os juizes entraram pela mesma ordem e sentaram-se. Foram introduzidos os accusados.

—Attenção agora! segredou Sizof. Vae falar o procurador.

Pélagué estendeu o pescoço e toda se inclinou para a frente, immobilisada na espectativa do terrivel acontecimento imminente.

De pé, virando a cabeça para o lado dos juizes, o procurador soltára um suspiro e entrára a falar, agitando a mão direita. Pélagué não percebeu as suas primeiras palavras. A voz do orador era facil e grossa, mas, tão depressa lhe affluia com rapidez, como afroixava. As palavras iam-se seguindo primeiro como em larga fita uniforme, depois, voavam, redemoinhavam, tal um enxame de negras moscas sobre um torrão d’assucar. Mas n’essas palavras não via Pélagué coisa alguma ameaçadora ou terrificante. Frias como neve, indecisas como cinza, iam-se succedendo e enchiam a sala de aborrecimento, de alguma coisa horripilante como uma poeira fina e sêcca. O discurso, abundante em palavras e falho de idéas, não chegava provavelmente aos ouvidos de Pavel e dos seus companheiros, os quaes, sem mostrarem a menor preoccupação, continuavam socegadamente a conversar entre si. Umas vezes, sorriam, outras, faziam-se muito sérios para conterem o sorriso.

—Está mentindo! declarou Sizof baixinho.

Pélagué não saberia dizer ao certo se assim era.

Escutava o que elle dizia e compreendia que estava accusando toda a gente, sem se referir directamente a ninguem. Quando citava o nome de Pavel, punha-se a falar de Tédia; em seguida, depois de ter reunido estes, juntava-lhes Boukine. Dir-se-ia que mettia todos os accusados no mesmo sacco, apertados uns contra os outros. Mas o sentido externo das suas palavras não satisfazia Pélagué, como tambem não a perturbava nem mesmo impressionava. Comtudo, continuava esperando o pormenor terrivel, e procurava-o obstinadamente sob aquelle fluxo de palavras, no rosto do procurador, nos olhos, na voz, na mão muito branca que elle balanceava com lentidão. E sentia que estava ali, n’aquelle homem, a coisa assustadora, indefinivel e incompreensivel. De novo se lhe confrangeu o coração.

Olhou para os jurados: o discurso estava-os claramente enfadando. Os seus rostos macillentos, terrosos, inanimados, não apparentavam expressão alguma; eram quaes manchas cadavéricas e immoveis. E aquellas faces, umas de nutrição enfermiça, outras, demasiado magras, sumiam-se cada vez mais em meio do cansaço que invadia a sala. O presidente não fazia um só movimento, estatico e hirto; por vezes, as manchasinhas pardacentas que lhe appareciam por detraz dos vidros dos oculos, sumiam-se-lhe na palidez do rosto. Perante esta indifferença glacial, esta frieza tíbia, Pélagué a si própria perguntava com desasocego:

—Estarão elles verdadeiramente a julgar?

De repente, como de improviso, terminou o procurador o seu libello. O magistrado inclinou-se perante os juizes, a esfregar as mãos. O marechal da nobreza fez-lhe com a cabeça um signal, ao mesmo tempo que rebolava as pupillas. O administrador da communa estendeu-lhe a mão e o syndico contemplou o seu abdomen, risonho.

Mas via-se que os juizes não haviam ficado satisfeitos com o procurador: não tinham feito um só movimento.

—Cão tinhoso! resmungou Sizof.

—Tem a palavra... disse o velhinho, erguendo um papel até junto do rosto. Tem a palavra o defensor de... Fédossief, Markof, Zagarof.

Levantou-se então o advogado que Pélagué vira em casa de Nicolao. Tinha uma cara cheia e aspecto bonacheirão; os olhinhos irradiavam, parecia ter nas orbitas dois pontos acerados, a cortarem no ar qualquer coisa, como laminas de tesoura. Entrou a falar sem pressa, em voz nítida e sonora; mas Pélagué não poude escutar o que dizia. Sizof segredava-lhe de lado:

—Percebeste o que elle disse? Diz que são uns doidos, uns garotos de genio brigão. É do Fédia que elle quer falar!

Acabrunhada pela sua cruel decepção, Pélagué não respondeu.

Sentia-se mais e mais humilhada, e esta humilhação opprimia-lhe a alma. Compreendia agora porque esperava em vão a justiça, porque se enganara pensando assistir a uma discussão leal e séria entre a verdade que seu filho proclamava e a dos juizes.

Imaginára que os juizes iam interrogar Pavel, demoradamente e com attenção, sobre a sua vida; que examinariam com olhos perspicazes todas as idéas, todos os actos de seu filho, e o emprego de todos os seus dias, e que, reconhecendo a sua hombridade, haviam de declarar convictamente: «Este homem tem razão.»

Mas nada d’isso succedia. Era para crêr que os accusados e os juizes estivessem a cem leguas uns dos outros e ignorassem mutuamente as suas existencias. Fatigada pela tensão da espectativa, Pélagué deixára de acompanhar o debate. Pensava de si para comsigo, melindrada:

—É então assim que se julga? O julgamento...

E pareceu-lhe vazia e sem sentido esta palavra; soava como um vaso de barro, quebrado.

—É bem feito! murmurou Sizof, approvando com a cabeça.

—Parece que estão mortos, aquelles juizes! disse ella.

—Elles já voltam a si!

E com effeito, tornando a olhar para elles, viu-lhes nos rostos uma expressão de desasocego. Era outro advogado que falava, um homensinho de cara de fuinha, lívido e irónico. Os juizes interromperam-no logo.

O procurador levantou-se de chofre e em voz rápida e zangada, ameaçou-o com uma autoação; depois, conferenciou com o velhinho. O advogado ficou-os escutando, com a cabeça respeitosamente inclinada; em seguida, proseguiu no uso da palavra.

—Vae catando! vae catando! aconselhou Sizof. Vê se descobres onde está a alma!...

Na sala crescia a animação; começava a nascer uma exaltação batalhadora. O advogado atacava os juizes por todas as fórmas, aguilhoava-lhes as carcomidas epidermes com ditos causticos. Os juizes parecia apertarem-se mais uns contra os outros, incharem e fazerem-se mais corpulentos, para resistirem áquelle chuveiro de piparotes, com toda a massa dos seus corpos amollentados e nullos. Pélagué examinava-os; pareciam intumecer cada vez mais, como se receassem que os botes do advogado lhes fizessem vibrar dentro do peito um eco capaz de lhes perturbar a soberana indifferença.

Pavel pôz-se de pé. Estabeleceu-se súbito silencio.

A mãe inclinou para a frente todo o corpo.

Tranquillamente, Pavel declarou:

—Pertencendo eu a um partido, só reconheço o tribunal d’esse partido. Não falo para defender-me, mas para satisfazer o desejo d’aquelles dos meus companheiros que tambem não quizeram ser defendidos. Vou tentar explicar-lhes o que os senhores não compreenderam. O procurador qualificou a nossa demonstração, sob o estandarte da democracia socialista, de revolta contra as autoridades supremas e falou constantemente de nós como de revoltados contra o czar. Devo declarar, comtudo, que, para nós, não é só o czar a grilheta a que anda amarrado o corpo da nação; o czar não é mais do que o primeiro élo d’essa cadeia, de que jurámos libertar o povo.

Fizera-se mais profundo ainda o silencio, sob o império d’aquella voz varonil. A sala parecia tornar se mais vasta e Pavel afastar-se para longe do auditório, mais luminoso e inspirado. Pélagué foi tomada de uma sensação de frio.

Os juizes agitavam-se pesadamente nas cadeiras, cheios de inquietação. O marechal da nobreza segredou algumas palavras ao juiz de modos indolentes; este abanou a cabeça e falou com o velhinho, a quem o juiz de aspecto doente estava tambem falando ao ouvido, do lado opposto.

O presidente, vacillante na sua poltrona, para a direita e para a esquerda, dirigiu algumas palavras a Pavel, mas a voz sumiu-se-lhe no curso amplo e igual da exposição que o mancebo ia proferindo.

—Somos socialistas. Significa isto que somos inimigos da propriedade particular, que promove a desunião entre os homens, os leva a armar-se uns contra os outros e cria uma rivalidade de interesses irreconciliaveis, que mente quando pretende dissimular ou justificar esta hostilidade e perverte os homens pela mentira, a hypocrisia e o ódio. Somos de opinião que a sociedade, considerando o homem unicamente como um meio de auferir riquezas, é anti-humana e torna se nos declaradamente hostil; não podemos acceitar a sua moral com duas caras, o seu cynismo sem vergonha e a crueldade com que trata as individualidades que lhe são adversas; queremos luctar, e havemos de luctar, contra todas as fórmas de subserviencia fisica e moral do homem, em uso n’esta sociedade, contra todos os métodos de fraccionar a collectividade em proveito da cubiça! Nós, os operários, somos quem pelo nosso trabalho tudo cria, desde as máquinas giganteas até aos brinquedos das crianças. E vêmo-nos privados do direito de luctar pela nossa dignidade de homens; Cada qual arroga-se o direito de nos transformar em instrumentos para attingir o seu fim! Queremos que nos dêem liberdade bastante para que se nos torne possivel, com o tempo, conquistar o poder. Quer-se o poder para o povo!...

Aqui, sorriu Pavel e passou de vagar a mão pelos cabellos; a luz dos seus olhos azues brilhou com fulgor mais intenso.

—Tenha a bondade... Não saia do assunto! disse-lhe o presidente em voz nítida e forte.

Virava-se agora todo para Pavel e fitava-o. Pareceu a Pélagué distinguir-lhe nos olhos, até ali palidos e sem expressão, um brilho cúpido e de maldade.

Todos os juizes tinham as attenções voltadas para o orador; os seus olhos pareciam colar-se-lhe, aderir-lhe fortemente ao corpo, para lhe sugarem o sangue e com elle reanimarem os seus membros exaustos. Pavel, firme e resoluto, estendeu para elles o braço e proseguiu com voz distincta:

—Somos revolucionários e sêl-o-emos emquanto uns só tratarem de opprimir os outros. Havemos de luctar contra a sociedade, cujos interesses os senhores foram mandados que defendessem; a reconciliação só entre nós será possivel quando nós fôrmos vencedores. Porque havemos de ser nós os vencedores, nós, os opprimidos! Os mandatários de todos vós, senhores, não são tão fortes como se julgam. Essas riquezas que accumularam e na defeza das quaes sacrificam milhões de infelizes creaturas, essa força que lhes dá o poder sobre nós, criam entre elles alternativas de hostilidade e arruinam-nos, a elles, fisica e moralmente. A defeza do vosso poderio, senhores, exige uma constante tensão d’espirito; e, na realidade, vós, nossos senhores, sois todos mais escravos do que nós, porque são os vossos espiritos que jazem na oppressão, ao passo que nós só fisicamente somos opprimidos. Não podeis libertar-vos do jugo dos preconceitos e dos habitos, e isto mata-vos moralmente; emquanto a nós, nada nos impede que sejamos intimamente livres! E a nossa consciencia vae tomando vida, vae desenvolvendo se sem cessar; inflamma-se dia a dia e arrasta comsigo os melhores elementos, moralmente sãos, mesmo do próprio meio que é o vosso... E, se não, vêde: já não possuis ninguem que possa lutar em nome do vosso poderio contra a corrente das idéas; esgotastes já todos os argumentos capazes de vos protegerem dos ataques da justiça da história; nada mais podeis criar novo, no dominio da intellectualidade: sois uns estereis de espirito. As nossas idéas, pelo contrário, desenvolvem-se com força crescente, penetram nas massas populares e vão-nas dispondo para a lucta pela liberdade, lucta incarniçada, lucta implacavel! Não podereis travar este movimento, senão usando de crueldade e de cinismo. Mas o cinismo é evidente demais e a crueldade não faz senão irritar o povo. As mãos que hoje empregaes para nos suffocar, hão de ámanhã apertar as nossas mãos em fraterno amplexo. A vossa energia é a energia mecanica produzida pelo açambarcamento do oiro, e é essa energia que vos desune em grupos rivaes, destinados a aniquilarem se mutuamente. Emquanto que a nossa energia é a força viva e sem cessar crescente do sentimento de solidariedade que liga todos os opprimidos. Tudo o que praticaes é criminoso, porque só pensaes em escravisar o homem; o nosso empreendimento, esse, liberta o mundo dos monstros e fantasmas criados pelas vossas mentiras, pela vossa cupidez, pelo vosso ódio! Mas, em breve, a grande massa dos nossos artifices e camponezes ha de ser liberta e ha de criar um mundo livre, harmonioso e immenso. E assim ha de ser!

Calou-se Pavel um instante e depois repetiu ainda com mais força:

—E assim ha de ser!

Os juizes cochichavam, com caretas estranhas, sem desviarem os olhos de Pavel. A mãe pensava de si para comsigo, que aquelles olhares infamavam o corpo vigoroso de seu filho, cuja saúde e fresca mocidade invejavam. Os réus tinham escutado attentos as palavras do seu companheiro. Pálidos ao principio, tinham agora nos olhares uma chamma de alacre contentamento. Pélagué devorára as frases de seu filho; gravavam-se lhe todas profundamente na memória.

O velhinho por diversas vezes interrompeu Pavel, para lhe explicar ninguem saberia dizer o quê, d’uma das occasiões, esboçou até, um sorriso triste. Pavel escutava-o em silencio e logo retomava a palavra com voz severa mas serena. Todas as attenções convergiam para elle. Durou isto muito tempo. Por fim, o presidente gritou algumas palavras, ao mesmo tempo que estendia o braço na direcção do mancebo. Este respondeu em tom levemente ironico:

—Eu vou concluir. Não foi idea minha offender pessoalmente os membros d’este tribunal, bem ao contrário: forçado a assistir a esta comédia a que chamaes uma audiencia, chego a sentir compaixão pelos senhores. A despeito de tudo, os senhores são homens e é sempre para nós uma humilhação ver homens, curvarem-se de tão vil maneira ao serviço da violencia e perderem a tal ponto a consciencia da sua dignidade humana... mesmo quando esses homens se mostram hostis aos nossos intentos...

E sentou-se sem olhar para os juizes.

A mãe conteve a respiração, fitando, anelante, aquelles de quem dependia a sorte de seu filho, e esperou.

André, radiante, apertou vigorosamente a mão de Pavel. Samoílof, Mazine e todos os outros voltaram-se para elle. Pavel sorriu, um tanto constrangido pelo entusiasmo dos seus companheiros e olhando para a bancada em que se encontrava Pélagué, fez-lhe um signal de cabeça, como para perguntar:

—Foi bem, assim?

Ella respondeu-lhe com profundo suspiro de contentamento, fremente, inundada por uma ardente vaga de amor.

—Ahi está! Vae começar o julgamento! segredou-lhe Sizof. O teu filho deixou-os em bonito estado, an?

Ella abanou a cabeça sem responder, satisfeita de ter ouvido o filho falar com tal desassombro e talvez mais satisfeita ainda por elle ter terminado o discurso. Martelava-lhe no cérebro uma idéa fixa:

—Meus filhos! que vae ser de vocês?

O que seu filho dissera não era novo para ella; conhecia bem as suas opiniões; mas, fôra ali, perante aquelle tribunal, que pela primeira vez sentira a força convincente e extraordinaria das suas teorias. Impressionava-a a serenidade do mancebo, e no seu intimo, o discurso de Pavel aliava-se á firme convicção da victoria e dos justos direitos de seu filho, que lhe punham na alma a irradiação d’uma estrella.

XXVI

Julgava ella que os juizes iam discutir severamente com elle, replicar-lhe coléricos, e expôr os seus argumentos.

Mas n’isto, levantou-se André, lançou um olhar de soslaio para o tribunal e começou:

—Senhores defensores.

—Quem o senhor tem na sua presença é o tribunal e não a defeza! gritou-lhe o juiz doente, com força, muito irritado.

Pélagué percebia pela fisionomia de André que o que elle queria era gracejar; o bigode tremia-lhe de riso mal contido, e nos olhos, tinha uma expressão ao mesmo tempo felina e meiga, bem conhecida d’ella. Esfregou vigorosamente a cabeça com as compridas mãos e suspirou.

—Pois é possivel? perguntou, ao mesmo tempo que saccudia a cabeça. Eu julgava que não era assim, que os senhores eram, não juizes, mas unicamente defensores!...

—Queira fazer favor de se referir somente ao assunto principal! intimou o velhinho com seccura.

—O assunto principal? Está bem. Quero pois crêr que os senhores são realmente juizes, isto é: pessoas independentes, leaes...

—O tribunal não precisa da sua opinião!

—Como? Não precisa d’um elogio d’estes!... Hum!... Todavia, eu continúo. Os senhores são homens que não estabelecem differença alguma entre amigos e inimigos, os senhores são inteiramente livres no seu juizo. Assim, teem agora na sua frente dois partidos: um queixa-se de que o roubam e o maltratam; o outro responde que tem o direito de roubar e de maltratar porque traz na mão uma espingarda.

—Tem alguma coisa a dizer concernente ao processo? perguntou o velhinho, alteando a voz e com as mãos a tremer.

Esta irritação satisfazia immenso Pélagué. Mas a fórma de proceder de André não lhe agradava; achava a discordante do discurso de Pavel. Preferia ouvir travar-se uma discussão séria e ponderada.

O russo-menor fitou o velho, sem responder; em seguida, disse com gravidade:

—O processo?... Para que lhe havia eu de falar do processo? O meu companheiro disse-lhes o que os senhores deviam saber já! O resto, outros lho dirão quando chegar o momento opportuno...

O velhinho sobreergueu-se da poltrona e declarou:

—Retiro-lhe a palavra!... Gregorio Samoílof!

O russo-menor apertou com força os dentes e deixou-se caír pesadamente no banco. Ao lado d’elle, Samoílof pôz-se de pé, saccudindo os anneis do cabello.

—O procurador disse que nós eramos uns selvagens, inimigos do progresso...

—Fale só do que diz respeito á sua accusação!

—Mas é justamente o que estou fazendo!... Não deve haver coisa alguma que não interésse á gente honesta... E peço-lhe o obsequio de não me interromper. Assim, pergunto eu aos senhores: qual vem a ser o grau das suas culturas intellectuaes?

—Não estamos aqui para discutir comsigo! Voltemos ao assunto! disse o velho, mostrando rancorosamente os dentes.

Os gracejos de André haviam manifestamente irritado os juizes e como que lhes tinham supprimido o que quer que fôsse das fisionomias. Agora, nos rostos terrosos, appareciam-lhes manchas sanguineas, brilhavam-lhes os olhares com scintillações frias e implacaveis. O discurso de Pavel tambem os havia encolerisado, mas o tom de energia em que fôra dito, reprimira-lhes o rancor e forçára-lhes o respeito. O russo-menor, porém, conseguira quebrar esta contenção e puzera a descoberto o que sob ella se occultava. Com crispações nas fisionomias, os juizes segredavam entre si, tinham gestos mais saccudidos, denunciadores da raiva que lhes ia no íntimo.

—Os senhores educam espiões, pervertem mulheres e donzellas, collocam o homem sério na situação d’um gatuno, d’um assassino, envenenam-no com a aguardente, deixam-no apodrecer nas masmorras!... As guerras internacionaes, a mentira, o deboche, o embrutecimento de todo o paiz—aqui está a vossa civilisação! Sim, somos inimigos de tal civilisação!

—Tenha a bondade!... gritou o velhinho, saccudindo ameaçador o queixo.

Samoílof, rubro, o olhar em fogo, entrou a gritar ainda mais alto do que elle.

—Mas a civilisação que nós amamos e respeitamos é a outra, a que foi criada pelos que vós atirastes para as masmorras ou para os hospitaes de doidos...

—Retiro-lhe a palavra!... Fédia Mazine!

O rapazinho levantou-se de chofre, como uma sovela a saír d’um furo e exclamou com voz saccudida:

—Eu... juro!... Eu bem sei, os senhores vão condemnar-nos!

Suffocou; fez-se branco, só se lhe viam os olhos, muito brilhantes. Estendeu o braço e proseguiu:

—Dou-lhes a minha palavra d’honra! Mandem-me para onde quizerem, que eu hei-de fugir, hei de voltar, hei-de dedicar-me sempre pela causa do povo... pela liberdade da nação... toda a minha vida! Dou-lhes a minha palavra d’honra!

Sizof soltou um gritinho. Toda a assistencia, revolucionada por vaga excitação, se mexia com um ruido surdo e singular. Chorava uma mulher; alguem tossia, suffocando. Os guardas, alternadamente olhavam para os réus com um espanto estupido e para a multidão do público, furiosos. Os juizes agitaram-se; o velho gritou:

—Goussef Yvan!

—Não falo!

—Goussef Vassili!

—Não quero responder!

—Bouckine Fédor!

Loiro e meio descorado, ergueu-se pesadamente e disse com lentidão, meneando a fronte:

—Os senhores deviam envergonhar-se!... Eu, que não passo d’um ignorante, compreendo ainda assim o que deve ser a justiça!

Levantou o braço acima da cabeça e calou-se, com as palpebras semi-cerradas, como se estivesse vendo qualquer coisa muito ao longe.

—Que diz? gritou o velho com attónito exaspero, reclinando-se na poltrona. Olhe que você!...

Boukine deixou-se caír no banco tristemente. Havia nas suas palavras desacompanhadas de significação, alguma coisa immensa e importante, e ao mesmo tempo uma censura ingénua e penalisada. Foi esta a impressão que todos receberam. Os próprios juizes apuraram o ouvido, como para distinguirem um éco mais nitido de tal discurso. Nas bancadas reservadas ao público, tudo se calou; apenas ficou resoando um leve ruído de chôro. Depois sorriu-se o procurador e encolheu os hombros; o marechal da nobreza tossiu; de novo se elevaram susurros que serpenteavam vagamente pela sala.

Pélagué inclinou-se para Sizof e perguntou-lhe:

—Os juizes falarão?

—Não; está tudo terminado. Só falta pronunciar o veredicto.

—E não ha mais nada?

—Não!

Pélagué não podia acreditar. A mãe de Samoílof agitava-se anciosamente, tocando em Pélagué com o cotovello e com o hombro, e perguntando em voz baixa ao marido:

—Mas, como? É possivel?

—Bem vês!

—E o que é que vão fazer ao nosso filho?

—Cala-te! Deixa-me!

—Percebia-se que no público alguma coisa se havia perdido, anniquilado ou transformado. Os olhos desvairados, pestanejavam como se ardente lareira se lhes tivesse incendiado na frente. Embora não compreendessem o grande sentimento que acabava de despontar n’elles tão bruscamente, os curiosos iam, sem dar por isso, fragmentando-o em sensações evidentes, accessiveis e futeis. O irmão de Boukine dizia a meia voz, sem constrangimento algum:

—Perdão! Porque não os deixam falar? O procurador disse tudo o que quiz e durante todo o tempo que quiz!

Perto da bancada estava uma sentinella. O soldado murmurava, agitando o braço:

—Silencio! silencio!

O pae de Samoílof inclinou-se para traz, e, disfarçado com as costas da mulher, continuou a pronunciar em voz surda frases entrecortadas:

—Evidentemente!... Admittindo que elles sejam culpados, o dever do tribunal era deixal-os explicar-se... Contra quem se revoltaram elles? Contra tudo! Eu gostava de compreender, afinal! Porque isto tambem me interessa... De que lado está a verdade? Sim, eu queria compreender... É preciso que os deixem explicar-se!

—Silencio! gritou de novo a sentinella, ameaçando-o com um dedo.

Sizof abanava a cabeça, apouquentado.

Pélagué não perdia de vista os juizes. Notava-lhes a crescente excitação, via-os falar uns com os outros, mas não podia comprehender o que diziam. O susurro frio e escorregadio das suas vozes perpassava-lhe pelo rosto, fazia-lhe tremer nervosamente as faces e provocava-lhe na bôca uma sensação desagradavel. Afigurava-se-lhe que estavam falando todos elles do corpo de seu filho e do dos seus companheiros, d’aquelles corpos robustos, dos seus músculos e dos seus membros cheios de vermelho sangue e de força vivente. Estes corpos deviam excitar n’elles uma inveja impotente e malvada, uma avidez ardente de esgotados e doentes. Falavam com estalidos sêcos dos lábios, com o pezar de não possuirem aquelles músculos, capazes de trabalhar e de enriquecer, de gozar e de criar. Agora, iam aquelles corpos saír da circulação activa da vida, renunciavam a ella, ninguem poderia mais chamar-lhes seus, aproveitar a sua força, nem absorvel-os. E era por isso que inspiravam aos velhos magistrados a animosidade vingativa e desconsolada das feras já sem forças que teem diante de si a carne fresca, mas já não dispõem da energia sufficiente para d’ella se apoderarem.

E quanto mais Pélagué olhava para elles, mais esta idéa grosseira e singular se accentuava no seu espirito. Parecia-lhe que estavam patenteando claramente a sua rapacidade e a sua sanha de esfomeados, capazes, em tempos idos, de comer muito. Ella, a mulher e mãe, para a qual o corpo do filho tinha sido sempre e a despeito de tudo, mais querido do que a própria alma, sentia-se horrorisada com os olhares sem viço que perpassavam pelo rosto d’elle, tateando o peito, os hombros, os braços, roçando-se pela ardente pelle, como em busca de uma possibilidade de se reanimarem, de requentarem o sangue das suas veias endurecidas, dos seus músculos gastos de homens semi-mortos. Parecia a Pélagué que o seu filho sentia aquelles contactos frios e que estremecia quando para ella olhava.

O mancebo fixava em sua mãe os olhos um tanto fatigados, mas calmos e affectuosos. Por momentos, sorria-lhe e fazia-lhe um signal de cabeça.

—Em breve estarei em liberdade! dizia este sorriso, que era uma caricia para o coração de Pélagué.

N’este comenos, levantaram-se os juizes todos ao mesmo tempo. Pélagué seguiu-lhes instinctivamente os movimentos.

—Vão-se embora! disse Sizof.

—Para os condemnar! perguntou ella.

—Sim...

Dissipára-se de súbito a tensão de espirito em que até ali estivera; pesado cansaço lhe invadiu o corpo; aljofraram-lhe a fronte gotas de suor. Um sentimento de cruel decepção e de humilhação impotente brotou no seu coração e depressa se transformou em profundo desprezo pelos juizes e pelo seu julgamento. Assaltou-a violenta dôr nas fontes; esfregou a testa com a palma da mão e olhou em torno: os parentes dos réus tinham-se approximado do gradeamento, a sala enchia-se de um ruído surdo de conversações. Ella caminhou tambem para o filho, apertou-lhe a mão e entrou a chorar, tomada a um tempo, de desgosto e de contentamento. Pavel dirigiu-lhe algumas palavras de confôrto. André ria e gracejava.

Mais por hábito do que por desgosto, todas as mulheres choravam. O que se sentia não era aquella dôr que atordoa como estúpido golpe descarregado bruscamente na cabeça: tinha-se a consciencia da triste necessidade de abandonar os filhos, mas esta magua confundia-se, sumia-se nas impressões que eram filhas da opportunidade. Os paes olhavam para os filhos com uma expressão em que a desconfiança que lhes era inspirada pela mocidade e pela consciencia da propria superioridade, se confundia singularmente com uma espécie de respeito por elles. Ao mesmo tempo que a si próprios perguntavam com tristeza como passariam elles agora a viver, os velhos olhavam com curiosidade para aquella nova geração que discutia audaciosamente a possibilidade d’uma existencia differente d’aquella e melhor. Não sabiam exprimir o que sentiam, pois faltava-lhes para tanto o hábito; as palavras corriam abundantes, das bôcas, mas não se falava mais do que de coisas vulgares, de fatos e roupas, de cuidados necessarios; aconselhavam até os condemnados a não irritarem inutilmente os superiores.

—Todos andamos cansados d’isto! disse Samoílof ao filho. Nós tanto como elles!

O mais velho dos Boukine agitava a mãe e exortava o mais novo:

—Ahi está a justiça d’essa gente! Custa acceital-a!

O rapaz respondeu:

—Has de tratar bem do estorninho, sim?... Gostava tanto d’elle!

—Ainda ha de ser vivo quando voltares!

Sizof tomára pela mão o sobrinho e dizia com vagar:

—Então foi assim que tu fizeste, Fédia? Foi assim?

Fédia curvou-se para elle e segredou-lhe o que quer que fôsse ao ouvido, com um riso de esperteza. O soldado que lhes estava próximo sorriu tambem, mas logo retomou os seus ares de gravidade e resmungou.

Pélagué limitava-se, como os outros, a conversar ácerca de arranjos de roupas e cuidados de saúde, mas no coração reprimia mil interrogações relativas a Pavel, a Sachenka e a si própria. E sob as suas palavras banaes, lentamente se desenvolvia o sentimento de immenso amor que dedicava ao filho, o ardente desejo de o captivar, de viver no seu coração. A espectativa do acontecimento terrivel desapparecera, deixando unicamente, apóz si, um arrepio desagradavel, quando se lembrava dos juizes, agora ausentes.

Sentia nascer em si uma intensa alegria luminosa, mas não a compreendia e isto trazia-a perturbada.

Viu que o russo-menor falava muito com todos os que o rodeavam, e entendendo que elle, mais do que Pavel, precisava de confôrto, disse-lhe:

—Não me agradou a audiencia!

—Porquê, mãesinha?! exclamou André. É um moinho velho, mas vae sempre moendo!

—É uma coisa, afinal, que não mette medo algum, e é incompreensivel! Nem ao menos se procura averiguar a verdade! disse ella hesitante.

—Oh! Era isso o que queria? exclamou André. Mas então imagina que alguem se importa aqui com a verdade?

Pélagué suspirou.

—Eu imaginava que isto fôsse coisa muito séria... mais séria ainda do que na igreja!... Que se celebrava o culto da verdade!...

—Querida mãe: onde a verdade é respeitada sabemol-o nós! disse Pavel em voz baixa e no tom de quem perguntasse sem affirmar.

—E a mãesinha tambem o sabe! acrescentou o russo-menor.

—O tribunal!

Correram todos para os seus logares.

Com uma das mãos apoiada na mesa, o presidente occultou a cara por detraz d’um papel e pôz-se a ler com uma voz debil qual zumbido:

«O Tribunal... depois de ter deliberado...»

—É a condemnação! disse Sizof, apurando o ouvido.

Fez-se silencio. Todos se haviam posto de pé, com os olhos fitos no velhinho. Sêcco e hirto, assemelhava-se este a um cacete sobre o qual mão invisivel se apoiasse. Os juizes estavam tambem de pé; o syndico do bailiado, com a cabeça pendente no hombro, dirigia o olhar para o tecto; o administrador da communa cruzava os braços no peito; o marechal da nobreza afagava a barba. O juiz com cara de doente, o seu collega barrigudo e o procurador, olhavam todos na direcção dos accusados. E por detraz dos juizes, por cima das suas cabeças, apparecia o czar, de uniforme encarnado.

Um insecto ia-lhe marinhando pela cara, pálida e indifferente; uma teia d’aranha balouçava ao vento.

«são condemnados a deportação para a Sibéria»...

—O degredo! disse Sizof com um suspiro de alivio. Finalmente, já passou, Deus louvado! Muita gente esperava os trabalhos forçados. Isto assim, já não é tão mau, tiasinha; não vale mesmo nada!

—Eu já o adivinhava, disse Pélagué baixinho.

—Assim como assim, agora é certo!... Mas vá lá a gente saber, com uns juizes d’estes!

Voltou-se para os condemnados, a quem faziam já abandonar o pretorio, e disse alto:

—Até á vista, Fédia!... Até á vista, vocês todos! Que Deus os proteja!

Pélagué fez um signal de cabeça a Pavel e aos seus companheiros. A sua vontade era chorar, mas conteve-a uma espécie de vergonha.

XXVII

Ao sair do tribunal, ficou Pélagué admiradissima com vêr que já a noite caíra sobre a cidade, os candieiros das ruas accesos; as estrellas scintillando no céu. Nas circumvisinhanças do palácio da justiça, formavam-se pequenos agrupamentos; na gélida atmosfera, ouvia-se o ruído da neve rangendo sob o andar; vozes de gente nova interpellavam-se mutuamente. Approximou-se de Sizof um homem coberto com um capuz cinzento e perguntou em voz rápida:

—Qual foi a sentença?

—O degredo.

—Para todos elles?

—Para todos...

—Obrigado!

O homem afastou-se.

—Bem vês! disse Sizof á mãe de Pavel. Bem vês como isto os interessa.

De súbito, encontraram-se cercados por uma dúzia de rapazes e raparigas. Entraram a chover as exclamações, que attraíam ainda mais gente para o grupo. Sizof e Pélagué tiveram de parar. Todos queriam conhecer a sentença, saber como se tinham comportado os réus, quem tinha pronunciado discursos e sobre que assunto. E em todas estas perguntas vibrava a mesma nota de curiosidade ávida e sincera.

—É a mãe do Pavel Vlassof! gritou uma voz.

Calaram-se todos á uma.

—Permitta que lhe aperte a mão!

E logo uma mão sólida se lhe apoderou da sua, com vigor. A mesma voz continuou, trémula de entusiasmo:

—O seu filho será para nós todos um nobre exemplo!

—Viva o operariado russo! gritou uma voz vibrante.

—Viva a revolução!

—Morra a autocracia!

Multiplicavam-se os brados, cada vez mais violentos; rebentavam pelo ar, cruzando-se; accudia gente de todos os lados e apinhava-se em torno de Sizof e Pélagué. Os apitos dos policias rasgavam o ar, mas sem conseguirem dominar o borborinho. O velho ria. Quanto a Pélagué, parecia-lhe tudo aquillo um bello sonho. Sorria, apertava centenas de mãos, cumprimentava. Comprimiam-lhe a garganta lagrimas de felicidade; vergavam-lhe as pernas de cansadas, mas o seu coração, transbordando de triumfante alegria, reflectia as suas impressões como o claro espelho da água d’um lago.

Perto d’ella, uma voz clara exclamou em tom enervado:

—Companheiros! amigos! O monstro que devora o povo russo, satisfez hoje mais uma vez os seus appetites!...

—Vamo-nos embora! disse Sizof.

N’esse mesmo instante, appareceu Sachenka. Agarrou Pélagué por um braço e puxou-a para o passeio opposto, aconselhando:

—Venha... A policia póde atirar-se para cima de nós e bater-nos... Ou vão prender-nos... E então? Foi o degredo, não foi? Para a Sibéria?

—Sim, é verdade!...

—E elle que fez? Falou? Eu já sei tudo, afinal... É elle o mais valoroso tambem, é certo! É sensivel e terno, mas sempre se acanha quando tem de manifestar os seus sentimentos. É firme e resoluto como a própria verdade!... É um grande homem, e tudo reside n’elle... tudo! Mas a maior parte das vezes, elle próprio se constrange... com o receio de não se entregar todo elle, d’alma e coração, á causa do povo... Eu sei-o bem!

Estas palavras d’amor, segredadas em um desabafo de paixão, acalmaram Pélagué, reanimando-lhe as desfallecidas forças.

—Quando vae encontrar-se com elle? perguntou á rapariga, em voz baixa e affectuosa, puxando-a muito para si.

Sachenka respondeu, com o olhar fito na sua frente, e com tranquilla decisão:

—Tão depressa encontre quem se encarregue do meu trabalho! Porque em breve me tocará a vez de responder em juizo... Hão de mandar-me tambem para a Sibéria. Direi então que desejo ser deportada para o sitio em que elle estiver...

Por detraz das duas mulheres ouviu-se então a voz de Sizof:

—Faça-lhe os meus cumprimentos!... Chamo-me Sizof. Elle conhece-me: sou tio do Fédia Mazine.

Sachenka parou para se voltar e estender-lhe a mão:

—Eu conheço o Fédia. O meu nome é Sachenka.

—E o seu nome de familia?

Ella lançou-lhe um breve olhar, e respondeu:

—Não tenho familia. Já não tenho pae.

—Morreu?

—Não, está vivo! declarou já excitada.

E alguma coisa obstinada, teimosa, lhe vibrou na voz e transpareceu nas feições. É um proprietario rural, e é chefe do districto. Agora, rouba a gente do campo... e maltrata-a!

—Ah! proferiu Sizof arrastadamente.

E apóz silencio, ajuntou, ao mesmo tempo que examinava a rapariga de soslaio:

—Bem, então, adeus, tiasinha! Eu vou por aqui!... Apparece para tomar chá e cavaquear um pedaço... quando quizeres!... Até mais vêr, minha menina!... A menina é muito severa para com o seu pae!... Está claro que isso é lá comsigo!...

—Se seu filho fôsse um homem inutil, prejudicial aos outros, o senhor dizia-o? exclamou Sachenka, com paixão.

—Dizia, sim, senhora! respondeu o velho, depois de hesitar um momento.

—Por consequencia, a verdade merecer-lhe-ia mais apreço do que o seu filho. Pois a mim merece-me mais apreço do que o meu pae...

O outro abanou a cabeça, e em seguida, suspirando:

—Ah! é astucioso, sim, senhora! Se tem assim resposta para tudo, os velhos não pódem resistir-lhe! Sabe atacar pela certa! Até mais vêr! Desejo-lhe todas as felicidades possiveis... Mas seja mais condescendente com as pessôas sim? Que Deus vá comsigo! Adeus, Pélagué! Se falares com o Pavel, diz-lhe que ouvi o seu discurso... Não percebi tudo... Até me metteu medo em certas occasiões, mas o que elle disse é a verdade!

Ergueu o bonné e desappareceu, sem se apressar, na volta da esquina.

—Deve ser um bom homem! observou Sachenka, seguindo-o com olhar risonho.

Parecia a Pélagué vêr no rosto da sua companheira expressão mais meiga e melhor do que de costume...

Chegadas a casa, sentaram-se no canapé, muito uma á outra. Pélagué referiu-se de novo aos planos de Sachenka. Com as espessas sobrancelhas muito erguidas, pensativa, a outra olhava para distante com os seus grandes olhos de sonho. Lia-se-lhe no pálido rosto uma pacífica concentração d’espírito.

—Mais tarde, quando tiverem filhos, tambem eu para lá irei, para tratar d’elles. E não havemos de viver peor lá do que vivemos aqui... O Pavel ha de encontrar trabalho; é muito habilidoso.

Sachenka olhava agora para ella, perscrutando-lhe os pensamentos. Interrogou:

—Não deseja então ir juntar-se a elle desde já?

Respondeu, com um suspiro:

—Para quê? Nada mais iria fazer-lhe do que causar-lhe incómmodo, caso elle quizesse fugir. E depois, elle não mo consentia...

Murmurou Sachenka:

—Não, com effeito...

—Além d’isso eu tenho que fazer aqui, accrescentou a mãe de Pavel com um tanto de ufania.

—Sim, é verdade! secundou, pensativa, a outra. E sabe trabalhar muito bem...

Mas de repente estremeceu, como se acabasse de libertar-se de um peso qualquer, e logo annunciou com simplicidade, a meia voz:

—Decididamente, elle não se demora na Sibéria... Ha de fugir... É certo!

—Mas, então, que ha de ser feito de si? E a creança, se a tiverem?

—Não sei; veremos. O que eu não quero é que elle viva em cuidados por minha causa. Dou-lhe plena liberdade para fazer o que quizer, em qualquer occasião que seja. Não sou mais do que uma simples correligionaria. Bem sei que me ha de ser terrivelmente custoso deixal-o... mas hei de saber conformar-me... Não quero importunal-o em coisa alguma, isso não!

Sentia Pélagué que Sachenka era capaz de executar o que dizia. Cheia de commiseração por ella, tomou-a nos braços:

—Minha querida... Muito tem que soffrer!...

Sachenka sorriu com meiguice; comprimiu-se toda contra o corpo de Pélagué; subiu-lhe o rubor ás faces.

—Isso ainda vem longe... Mas não julgue que seja um sacrificio penoso para mim. Sei o que faço, sei com o que posso contar, serei feliz se elle se considerar feliz comigo... O meu desejo, o meu dever, é aumentar a sua energia, dar-lhe toda a felicidade que esteja em meu poder, muita felicidade! Amo-o muito... e elle ama-me, que sei eu! Retribuir-nos-emos dos nossos sentimentos, enriquecer-nos-emos mutuamente, tanto quanto pudermos; e, se assim fôr necessario, separar-nos-emos como bons amigos...

Por entre um sorriso de felicidade, a mãe disse lentamente:

—Eu irei juntar-me a vocês ambos... Talvez eu tambem seja exilada...

E por muito tempo as duas mulheres permaneceram estreitamente abraçadas, sem uma palavra, pensando n’aquelle que amavam. O silencio, a tristeza, uma tépida suavidade, as envolviam.

Nicolao chegou n’este comenos, fatigadissimo. Rapidamente, emquanto se despia, foi dizendo:

—Sachenka, vá-se depressa, se não depois talvez já não tenha tempo! Desde esta manhã andam dois espiões a seguir-me tão ás claras que me cheira a mandado de prisão... Tenho um presentimento... Deve-nos ter acontecido alguma infelicidade, onde, ainda não sei... A propósito: ahi tem o discurso do Pavel; foi decidido imprimil-o. Leve-o á Lioudmila, supplique-lhe que o componham o mais breve possivel. O seu Pavel falou muito bem, Pélagué!... Sachenka, tome cuidado com os espiões! Espere, leve tambem estes papeis; dê-os ao doutor, por exemplo.

E ao dizer isto, esfregava vigorosamente uma contra a outra as mãos, que trazia regeladas. Em seguida, foi á mesa, abriu as gavetas, d’onde extraíu varios documentos. Preoccupadissimo e com os cabellos em desalinho, entrou a folheal-os á pressa, rasgou uns, emmaçou outros.

—Olhem que não ha ainda muito tempo que eu puz tudo isto em ordem, e vejam que montão enorme cá tenho outra vez! Demónio!... Talvez fôsse melhor não dormir cá esta noite, Pélagué! Que lhe parece? Não é das melhores coisas ter de assistir a essa comédia, os guardas são capazes de a levar tambem... e é absolutamente necessário que vá por esses campos distribuir o discurso do Pavel...

—Ora adeus! porque é que me haviam de prender? contestou ella. E d’ahi, talvez se engane, talvez não venha ninguem...

Nicolao redargiu em tom de confiança e agitando a mão:

—O meu faro nunca me enganou!... Alem d’isso, vocemecê podia auxiliar a Lioudmila! Vá-se emquanto é tempo ainda...

Na satisfação de ir cooperar na impressão do discurso de seu filho, ella respondeu:

—Pois se assim é, cá me vou. Mas olhe que não é porque tenha medo...

E com admiração de si própria, proferiu estas palavras em voz baixa mas decidida:

—Agora, já não tenho medo de nada!... Deus louvado! já sei tudo o que queria...

—Ás mil maravilhas! exclamou Nicolao, sem a fitar. Ah! diga-me onde está a minha roupa branca e a minha mala. A senhora de tudo tem cuidado com tal carinho, que me vejo de todo incapaz de descobrir o que é minha propriedade pessoal! Eu vou preparar-me. Os polícias é que vão ter uma desagradavel surpresa!

Sachenka ia queimando no fogão os papeis rasgados. Quando os viu de todo consumidos, teve o cuidado de misturar as cinzas com as do combustivel.

—Vá, Sachenka, vá! disse-lhe Nicolao com um aperto de mão. Até á vista! Não se esqueça de me mandar livros, se fôr publicada qualquer coisa de novidade e intensa. Até á vista, cara correligionaria! E trate sobretudo de ter prudencia...

—Julga estar muito tempo na prisão? perguntou Sachenka.

—O demónio que o julgue! Bastante tempo, com certeza... Teem diversos pecadinhos a censurar-me... Pélagué, saia ao mesmo tempo com Sachenka. É mais difficil seguir duas pessôas.

—Bem! concordou ella. Eu já me visto.

Observára Nicolao attentamente, e nada anormal descobrira n’elle, a não ser a preoccupação que lhe velava o olhar bondoso e complacente. Não lhe vira apparentar emoção alguma.

Igualmente attencioso para com todos, affectuoso e metódico, sempre socegado e solitário, levava a mesma existencia, misteriosa no seu fôro íntimo e como que antepondo-se a todas as deligencias alheias. Pélagué estimava-o tal qual elle era, com um amor prudente, que parecia duvidar de si mesmo. E agora experimentava por Nicolao uma compaixão indizivel; mas dominava-a porque sabia que se elle lh’a notasse, havia de commover-se e tornar-se um pouco ridículo, como habitualmente. Não era sob este aspecto que Pélagué o queria vêr.

Já vestida, voltou ao gabinete. Nicolao estava apertando a mão de Sachenka. Dizia-lhe:

—Optimamente! Estou certo de que ha de ser bom para elle, como para si... Um poucochinho de felicidade pessoal nunca causa damno... Mas olhe que não é bom que seja demasiada, para não perder o valor. Está pronta, mãesinha!

Acercou-se d’ella, compondo os óculos.

—Bem! Então, até á vista!... d’aqui a trez, quatro ou seis mezes. É muito tempo!... Que de coisas se podem fazer em seis mezes! Poupe-se, sim? Peço-lh’o. Vá lá! Venha um abraço!

Passou os robustos braços em torno do pescoço de Pélagué e fitando-lhe muito os olhos, disse com um riso muito franco:

—Parece-me que estou apaixonado por si... Não faço senão abraçal-a!

Sem lhe responder, ella beijou-o na testa e nas faces. As mãos tremiam-lhe: deixou-as pender para que elle não o notasse.

—Então, vae partir?... Ás mil maravilhas!... Mas tome cautella, seja prudente! Olhe: mande um rapazito aqui ámanhã pela manhã; a Lioudmila tem um lá em casa. Por elle ficará sabendo o que se tiver passado. Bem, até mais vêr, camaradas! Tudo vae bem!... Que tudo continue bem, é o que se quer!

Pela rua, commentava Sachenka em voz baixa:

—Com aquella mesma simplicidade é capaz de ir para a morte, se fôr preciso... Só com um pouco de pressa, como ainda agora. Quando lhe chegasse a sua hora final, ajustava os óculos, dizia assim: «Ás mil maravilhas!» e morria!

—Amo-o devéras! segredou Pélagué.

—Pois a mim, causa-me espanto! Quanto a amal-o, não! Estimo-o, simplesmente. Acho-o muito sêco, ainda que lhe encontre certa bondade e ás vezes até alguma ternura. Mas não possue em si bastante humanidade... Parece-me que vamos sendo seguidas. Separemo-nos. Não vá a casa da Lioudmila, se desconfiar que a vigiam...

—Bem sei! respondeu ella.

Mas Sachenka insistiu ainda:

—Não vá para casa d’ella... Se tal succeder, venha antes para a minha. Até mais vêr!

Virou-se rápida e voltou pelo mesmo caminho.

A outra gritou-lhe:

—Até á vista!

XXVIII

Minutos depois, aquecia-se Pélagué junto do fogão, no quarto de Lioudmila. Vestida de preto, esta ultima passeava devagar pelo estreito aposento, que enchia com o rugir das suas saias e com a soberania da sua voz autoritária. No fogão, a lenha estralejava e assobiava, aspirando o ar do quarto. Vibrava a voz igual e monótona da dona da casa:

—Os homens são infinitamente mais tôlos do que maus. Não sabem vêr senão o que lhes fica perto, o que teem ao seu alcance immediato!... Ora tudo o que nos fica próximo é mesquinho; só o que se encontra afastado tem valor. Na realidade, seria vantajoso para todos que a vida se tornasse mais facil e as creaturas mais intelligentes... Mas para chegarmos a isso, forçoso é renunciar por emquanto a viver com tranquilidade.

Aqui, estacou de súbito em frente de Pélagué e accrescentou mais baixo, como para desculpar-se:

—Dou-me com tão pouca gente!... Quando alguem vem a minha casa, ponho-me logo a discursar!... É ridículo, não é?

—Ora essa! Porquê?

Diligenciava Pélagué descobrir onde era que Lioudmila imprimia os folhetos, mas não via em torno de si nada extraordinario. No quarto, com trez janellas para a rua, havia um canapé, um armário com livros, uma mesa, cadeiras, uma cama encostada a uma das paredes; n’um dos cantos, o lavatório, n’outro, o fogão; pelas paredes fotografias. Tudo isto com apparencia de novo, sólido e aceado. E n’este conjunto, a figura quasi monástica da dona do aposento era principalmente o que impunha severo aspecto. Presentia-se haver n’aquelle quarto o que quer que fôsse misterioso e occulto.

Olhou depois para as portas: penetrára no quarto por uma d’ellas—a que abria para uma exigua casa de entrada; perto do fogão, havia outra, alta e estreita.

—Vim para tratar de certo negócio... disse ella um tanto confusa, ao ver que Lioudmila a estava observando.

—Já sei. Ninguem vem a minha casa com outro motivo.

Pareceu a Pélagué vibrar na voz da sua interlocutora uma intenção singular; via-lhe um sorrisinho nas delgadas commissuras dos lábios, e as pupilas, baças habitualmente, brilhavam-lhe por detraz dos vidros da luneta. Desviou portanto o olhar e apresentou-lhe o manuscrito com o discurso de Pavel.

—Aqui está. Pedem-lhe que o imprima o mais depressa que possa.

E narrou os preparativos a que Nicolao procedera, prevendo a sua captura.

Sem dizer uma palavra, Lioudmila entalou o papel no cinto e sentou-se n’uma cadeira. Agitavam-se-lhe pelo rosto impassivel os reflexos do lume.

—Quando os polícias vierem a minha casa, faço fogo para cima d’elles! declarou. Tenho o direito de defender-me contra a violencia e o dever de luctar contra ella, visto que instigo tambem os outros a fazel-o!

A vermelhidão das chammas desappareceu-lhe do rosto, o qual voltou a mostrar-se severo e um pouco altivo.

«Deve ser bem trabalhosa a vida que levas»—foi o súbito pensamento que accudiu ao espirito de Pélagué, acompanhado d’um sentimento d’affeição.

Ella pôz-se a lêr o discurso de Pavel, primeiro, sem vontade, depois, curvando-se cada vez mais sobre o papel. Ia atirando rapidamente para o chão as folhas já lidas. Finda a leitura, levantou-se, endireitou o tronco e foi para a outra:

—Está muito bom! Ahi está do que eu gosto! É nitido e claro!

Inclinou a cabeça e reflectiu um instante.

—Não quiz falar-lhe do seu filho: nunca o vi e não me agradam as conversas tristes. Eu sei o que se sente quando vemos um dos nossos ir para o degredo!... Diga-me: é agradavel ter-se um filho como elle?

—Sim, muito agradavel!

—E deve ser coisa terrivel tambem?...

Com um sereno sorriso, Pélagué respondeu:

—Não; agora já não...

Lioudmila alisou com a mão, muito morena, os cabellos penteados em bandós; depois, voltou-se para a janella: palpitava-lhe nas faces uma leve sombra apaixonada.

—Vamos imprimir isso... Quer ajudar-me?

—Certamente!

—Vou compôr o mais depressa possivel. Deite-se; o dia deve-lhe ter sido fatigante. Vê-se que está cansada. Deite-se n’aquella cama, que eu não durmo hoje. Talvez tenha de a accordar de noite, para me auxiliar. Antes de adormecer, apague o candieiro.

Accrescentou duas achas ao lume e saíu pela porta estreita, praticada ao lado do fogão, que tornou a fechar cuidadosamente apóz si.

Pélagué seguira-a com o olhar. E emquanto se despia, pensava maquinalmente na sua hospedeira:

«É um caracter severo... E vê-se que soffre, a pobre senhora!»

O cansaço esvaía-lhe a cabeça; no entretanto, sentia o coração singularmente calmo; no seu espirito, tudo se illuminava com suave e cariciosa luz. Pélagué conhecia já aquella tranquillidade, que segue sempre ás grandes commoções; antigamente, inquietava-a, mas agora, fazia que a sua alma se expandisse, revigorada em forte e puro sentimento. Apagou o candieiro, deitou-se na cama muito fria, encolheu-se, aconchegando a si os cobertores e adormeceu logo em profundo somno.

Quando descerrou os olhos, estava o quarto banhado da claridade gélida e branca d’um desanuviado dia d’inverno. Estendida no canapé, com um livro na mão, Lioudmila fitava-a com uma expressão de ternura que a transfigurava.

—Deus meu! exclamou Pélagué, confundida. Quanto tempo eu dormi! É muito tarde, pois não é?

—Bom dia! respondeu-lhe Lioudmila. Vão dar as dez horas. Levante-se para irmos almoçar.

—Porque não me accordou?

—Tive idéa d’isso; mas a senhora mostrava um sorriso tão bonito, emquanto dormia...

N’um movimento ágil do seu corpo robusto e flexivel, Lioudmila levantou-se, approximou-se do leito, curvou-se sobre o rosto d’ella; e Pélagué poude distinguir nos olhos sem brilho da sua hospedeira alguma coisa familiar, amigavel, compreensivel.

—... que não quiz despertal-a... Era um bello sonho que estava tendo, com certeza...

—Não, senhora; não sonhei com coisa alguma.

—Pois é pena... Mas gostei de vêr aquelle seu sorriso: achei-o tão meigo, tão santo!

E Lioudmila poz-se a rir, um rir aveludado e discreto.

—Entrei a pensar em si, na sua vida... Porque a sua existencia deve ser ardua!

Pélagué contraíu os sobrolhos, pensativa.

—Não sei! respondeu, hesitante. Ha momentos em que me parece que sim... mas não é verdade! Ha tantas coisas... coisas espantosas e graves, que se seguem com tanta rapidez umas ás outras!...

Subia-lhe ao peito a onda de excitação que ella conhecia bem, enchendo-lho d’imagens e de pensamentos. Sentou-se na cama e deu-se pressa em revestir de palavras as suas idéas.

—Tudo o que estamos presenceando caminha para o mesmo fim, como o fogo, quando arde uma casa, tende sempre a subir! Aqui, abre caminho, mais além, brilha intensamente, sempre mais violento, sempre mais luminoso... Ha tanta coisa que custa vêr! Se soubesse!... Essa pobre gente soffre, é incommodada, espiada... Batem-lhes, batem-lhes com crueldade... Elles, então, occultam-se a todas as vistas, passam a viver como frades. Quantas alegrias ha que lhe são defezas!... E é triste assim, a vida!

Lioudmila ergueu com vivacidade a cabeça e fitou Pélagué com profundo olhar.

—Não é de si que está falando! observou em voz baixa.

—De mim!... repetiu ella, emquanto se ia vestindo. E póde alguem collocar-se á parte, quando o nosso coração ama alguma coisa, quando este ou aquelle nos é querido, quando se sente medo e compaixão por todos?... Tudo isto se nos entrechoca na alma, attraída assim para cada um d’esses infelizes... Como podemos collocar-nos á parte? Para nos refugiarmos onde?

Já meio vestida, permaneceu um instante pensativa no meio do quarto. E subitamente, afigurou-se-lhe que já não era ella a mesma creatura que tanto se inquietára e alarmára pela sorte de seu filho; tal personalidade já não existia, tinha-se desapegado e afastado d’ella. Escutou-se então a si própria, no desejo de saber o que se passava no seu íntimo, embora receasse despertar outra vez o seu velho sentimento de anciedade.

—Em que está pensando? perguntou-lhe Lioudmila affectuosamente.

—Nem eu sei!

Calaram-se as duas, olharam uma para a outra e sorriram. Depois, Lioudmila abalou do quarto, murmurando:

—Que estará fazendo o meu samovar?

Pélagué olhou então pela janella. Lá fóra, reinava a frialdade d’um luminoso dia d’inverno. Ella, no âmago do coração, sentia tambem uma claridade igual áquella, mas quente. O seu desejo seria falar de tudo; demorada e jovialmente, n’um vago sentimento de gratidão por tudo o que baixára á sua alma, tornando-lha assim bem formada. Sentiu, o que havia muito não lhe succedia, um desejo de rezar. Veiu-lhe então á lembrança um rosto moço e imberbe; na sua memória ecoou uma voz delgada: «É a mãe do Pavel Vlassof...» Scintillavam os meigos olhos joviaes de Sachenka; desenhava-se o negro perfil de Rybine; sorria o rosto valoroso e bronzeado de Pavel; Nicolao piscava os olhos, acanhado. E de repente, todos aquelles rostos amigos foram eclipsados em meio d’um suspiro ligeiro mas de significação profunda; baralharam-se, confundiram-se em uma nuvem transparente e multicolor, que envolvia o coração em um sentimento de paz.

—O Nicolao tinha razão! disse Lioudmila ao regressar ao quarto. Foi preso, não ha duvida possivel! Conforme me recommendou, mandei um rapazito a casa d’elle. Já voltou. Diz que estão lá agentes de polícia escondidos no páteo; que viu um por detraz da porta da rua. Os espiões vigiam ao de redor da casa; o pequeno conhece-os.

—Ah! limitou-se Pélagué a dizer, com um meneio de cabeça. Pobre Nicolao!

—N’estes ultimos tempos, elle fazia muitas prelecções aos operários da cidade; estava desmascarado; era tempo e mais que tempo que desapparecesse! proseguiu Lioudmila em tom sombrio mas sereno. Os companheiros andavam sempre a dizer-lhe que saísse da cidade; elle não quiz dar-lhes ouvidos!... A minha opinião é que, em taes casos, o que se deve não é aconselhar as pessôas, mas obrigal-as!

Á porta appareceu um rapazito de cabello preto, pelle rosada, nariz aquilino e bonitos olhos azues.

—Quer que traga o samovar? perguntou com voz sonora.

—Traz, sim, Sérgio, se fazes favor. É meu discipulo... Não o conhecia?

—Não.

—Tenho-o mandado algumas vezes a casa do Nicolao.

Pélagué, entretanto, achava Lioudmila muito mudada, parecia-lhe mais singela de maneiras, mais compreensivel. Havia nos movimentos graciosos do seu esbelto corpo, belleza e força, a attenuarem o que no rosto pálido tinha de severidade. Com a noite perdida as olheiras haviam-se-lhe cavado mais. Sentia-se-lhe nos modos um esforço continuado, como se na sua alma vibrasse uma corda em demasiada tensão.

O rapaz trouxe o samovar.

—Sérgio, olha a senhora Pélagué Vlassof, a mãe do operário que foi hontem condenado.

A criança inclinou-se em silencio, apertou a mão de Pélagué, tornou a saír e voltou trazendo pão.

Sentou-se tambem á mesa. Emquanto ia servindo o chá, Lioudmila aconselhou Pélagué a não voltar para casa sem que se soubesse quem era a pessôa alvejada pelas deligencias policiaes.

—Talvez seja a senhora mesma... Hão de querer interrogal-a.

—Que me importa! redarguiu ella. Se for prêsa, a desgraça não será grande! Só o que desejava era que o discurso do Pavel estivesse já distribuido...

—Já está composto. Ámanhã teremos exemplares bastantes para a cidade e para os arrabaldes... e tambem para o resto do districto. Conhece a Natacha?

—Ora se conheço!

—Pois é preciso que lhe leve os folhetos.

A criança estava lendo um jornal. Parecia não ouvir o que diziam, mas de quando em quando, erguia os olhos para Pélagué. Esta, quando lhe surpreendia aquelle olhar tão vivo, sentia-se agradavelmente commovida. A joven senhora falou novamente de Nicolao, sem lamentar sequer a sua captura, o que de toda a maneira pareceu a Pélagué naturalissimo. O tempo dir-se-ia passar mais veloz; era perto do meio dia quando terminaram o almoço.

XXIX

De repente ouviu-se bater na porta, rapidamente. Levantou-se a criança e dirigiu interrogador olhar á dona da casa.

—Abre, Sérgio! Quem poderá ser?

Com o maior socego, introduziu a mão na algibeira do vestido e disse á sua hospede:

—Se fôr a polícia, colloque-se ali n’aquelle canto. E tu, Sérgio...

—Bem sei! respondeu a criança, baixando a voz. E saíu.

Pélagué sorria. Não a impressionavam taes preparativos; não tinha o presentimento d’uma desgraça.

Quem entrou afinal foi o doutor. Annunciou logo com precipitação:

—O Nicolao foi preso!... Ah, está por cá, tiasinha?... Não estava em casa quando o levaram?

—Não, senhor; foi elle que me mandou para aqui.

—Hum!... Não me parece que isso lhe seja de grande utilidade... Esta noite, uns rapazes imprimiram com gelatina quinhentos exemplares do discurso do Pavel. O trabalho ficou bom, está bem impresso, lê-se bem. Tencionam distribuil-os pela cidade, esta noite. Não sou d’essa opinião: para a cidade são preferiveis os folhetos impressos; os outros é que devem ser expedidos para toda a parte.

—Eu os vou levar á Natacha! Dê-mos! exclamou Pélagué com vivacidade.

O seu grande desejo era fazer circular o mais depressa possivel o discurso de Pavel; inundar a terra com as palavras de seu filho. E fitava o médico attentamente, com olhar quasi supplicante.

—Não sei se será prudente que a senhora se metta agora n’essa empreza! disse, indeciso. E puxou pelo relógio.—São onze horas e quarenta e trez minutos... O comboio parte ás duas e cinco; póde chegar ao seu destino ás cinco e quinze... Ia chegar de noite, mas não era muito tarde... Além do que, não é isto o essencial...

—Não, não é isso o essencial! repetiu Lioudmila, franzindo o sobrolho.

—Então o que é? perguntou Pélagué, approximando-se d’elles. O essencial é que a distribuição seja bem feita... e eu sei como me hei de haver!

A dona da casa attentou n’ella fixamente e declarou, passando a mão pela testa:

—É perigoso...

—Porquê? exclamou a outra.

—Aqui tem porquê! expôz o doutor com voz precipitada e desigual. Vocemecê desappareceu de casa uma hora antes da prisão do Nicolao. D’aqui a pouco, vae ser vista lá na fabrica, onde é tão conhecida. Logo depois de lá chegar, entram a apparecer os folhetos revolucionarios... Tudo isso são indícios que se lhe vão apertar na garganta como um laço corredio...

—Mas é que não hão de dar por mim! objectou ella com animação crescente. Se fôr presa quando de lá voltar, e me perguntarem onde estive...

Interrompeu-se um momento e proseguiu:

—Sempre hei de achar resposta! Por exemplo: posso ir da fabrica directamente ao arrabalde. Conheço lá um sujeito chamado Sizof. Pois digo que logo em seguida ao julgamento fui para casa do Sizof, por me achar incommodada com o desgosto soffrido... Tambem elle está muito pezaroso: o sobrinho foi condenado juntamente com o Pavel!... Digo que estive todo este tempo em casa d’elle, e elle ha de confirmar o que eu disser... Bem vêem!

E porque os sentisse cederem aos seus argumentos, esforçava-se por convencel-os e falava com crescente calor. Por fim, acquiesceram.

—Que se ha de fazer? Pois vá! concordou o doutor, mas de má vontade.

Lioudmila conservava-se em silencio; passeava pelo quarto, meditativa. O rosto assombreára-se-lhe, as faces haviam-se-lhe cavado; os músculos do pescoço pareciam ter-se distendido, como se a cabeça se tivesse bruscamente tornado mais pesada e tombasse irresistivelmente para o peito.

O forçado consentimento do doutor arrancára a Pélagué profundo suspiro.

—Andam todos a animar-me! disse, sorrindo. Mas os senhores são os primeiros que não se poupam!

—Isso não é assim! replicou o doutor. Poupamo-nos todos; temos o dever de nos poupar. E as nossas censuras nunca serão demasiadas para aquelles que se expõem inutilmente! Por consequencia lá se lhe irão levar os folhetos á estação.

Explicou-lhe o que tinha a fazer e em seguida accrescentou, fitando-a bem de frente:

—O que desejo é que se saia bem! Está satisfeita, não é assim?

E foi-se descontente. Logo que ouviu fechar se a porta, Lioudmila approximou-se de Pélagué.

—A senhora é uma excellente mulher!... Eu compreendo-a...

Travou-lhe depois do braço, e ambas entraram a passear pelo aposento.

—Tambem eu tenho um filho. Tem já doze annos. Mas vive com o pae. Meu marido é procurador substituto; talvez seja já procurador effectivo, não sei... E aquella criança está na sua companhia... Quantas vezes pergunto a mim mesma qual será o seu futuro!...

Teve na voz, desfallecida, uma commoção, e depois proseguiu baixinho, de novo meditativa:

—Se elle está sendo educado por um inimigo figadal d’aquelles que me são queridos, d’aquelles que eu considero como as melhores creaturas da terra!... E assim, meu filho póde vir a ser meu inimigo tambem... Não me é licito trazel-o para a minha companhia, pois que vivo com nome supposto. E ha oito annos já que o vi pela ultima vez!... Quanto tempo! Oito annos!

Ao pé da janella, parou e ficou a olhar para o pálido e desolado céu.

—Se elle vivesse comigo, sentir-me-ia mais forte. Mesmo se morresse, ficaria mais aliviada...

Apóz um instante de silencio, ergueu a voz para explicar:

—Porque então, ficaria sabendo que só estava morto; porque não poderia tornar-se n’um inimigo d’aquillo que é superior ao próprio amor materno, de tudo o que na vida ha mais precioso!...

—Minha querida amiga! murmurou brandamente Pélagué, sentindo o coração confranger-se-lhe de dó.

—A senhora é feliz! proseguiu Lioudmila com um sorriso. É admiravel vêr uma mãe e um filho caminharem lado a lado... É raro!

—Sim, é certo; é delicioso! exclamou Pélagué.

E explicou, baixando a voz, como para confiar um segredo:

—É como se tivessemos uma segunda vida! A senhora, Nicolao, todos, emfim, os que luctam pela verdade, estão comnosco!... E assim, tornamo-nos mais intimos uns dos outros... E eu compreendo-os... não o que dizem, mas tudo o mais, sim, compreendo-o!... Tudo!

—Ah, é assim? exclamou a joven senhora. É assim!...

E logo Pélagué, pousando-lhe a mão no hombro:

—Os nossos filhos vão em marcha pela terra! Eis o que eu compreendo! Vão em marcha pela terra, por toda a terra e em toda a parte caminham para o mesmo fim! Arremessam se ao assalto os melhores corações e os espiritos mais leaes, sem olharem para traz de si, para tudo o que é mau e sinistro. E avançam, avançam... Debeis ou robustos todos dedicam as suas inteiras forças á mesma causa: a justiça! Juraram triunfar da desgraça; armaram-se para aniquílar o infortúnio da humanidade: querem vencer o horror e hão de vencêl-o! «Havemos de accender um novo sol» disse-me um d’elles. E hão de accendêl-o! «Havemos de reunir num só todos os corações despedaçados!» disse outro. E hão de fazel-o!

Ergueu o braço para o ceu:

—Além ha um sol!

E, batendo no peito, concluiu:

—E aqui, outro se ha de accender, mais brilhante que o do ceu, o sol da felicidade humana, que eternamente illuminará a terra inteira e aquelles que a habitam, com a luz do amor de cada creatura por todos e por tudo!

E Pélagué evocava as palavras das orações esquecidas para entusiasmar a sua nova fé e lançava-as do coração como scentelhas:

—Os nossos filhos, caminhando pela senda da razão e da verdade, levam o amor a todas as coisas, criam um novo ceu, accendem o lume sagrado e incorruptivel que brota da alma, do âmago do coração. E é assim que nos é offerecida uma vida nova no apaixonado amor dos nossos filhos pelo mundo inteiro. E quem poderia extinguir este amor? Quem? Existe força superior a esta? Quem poderia vencel-a? Foi a própria terra que a gerou e a vida inteira exige a sua victória... a vida inteira!

Pélagué afastou-se de Lioudmila e sentou-se, offegante, quebrada pela sua commoção. A joven senhora afastou-se tambem de mansinho, com precaução, como se receasse quebrar alguma coisa. No seu passo agil, atravessou o quarto, fixando para longe d’ali o olhar profundo dos seus olhos sem brilho. Parecia ainda mais delgada, mais hirta e mais alta. Tinha na cara chupada e severa uma expressão concentrada, comprimia nervosamente os lábios. O silencio acabára por apaziguar a exaltação de Pélagué. A meia voz, n’um tom de receio, perguntou:

—Talvez eu dissesse coisas que não deveria ter dito.

Lioudmila voltou-se com vivacidade, lançou-lhe um olhar assustado e exclamou:

—Não! é assim mesmo! é assim mesmo!... Mas não falemos mais n’isso! Fiquem as suas palavras taes quaes as pronunciou, sim!

E proseguiu depois, já mais calma:

—É forçoso partir... A estação fica longe d’aqui.

—Sim, vou já partir! Como me sinto contente! Se soubesse!... Levo comigo as palavras do meu filho, as palavras do meu sangue! É como se levasse a minha alma!

Sorria. Mas este sorriso não produziu mais que um pálido reflexo na fisionomia de Lioudmila. Pélagué sentia aquella frieza regelar-lhe a sua própria alegria. Assim, sentiu o desejo súbito de communicar áquella alma severa o seu ardor, abraçar-se com ella, afim de a fazer sentir em unísono com o seu coração de mãe. Tomou a mão de Lioudmila e disse, apertando-lha com fôrça:

—Minha querida! Como é bom saber que ha na vida luz para todos os homens e que, com o tempo, elles hão de acabar por vêl-a, por fundirem n’ella as suas almas e por arderem todos da mesma chamma inextinguivel!

O seu rosto bondoso tremia de entusiasmo; os seus olhos radiantes e as suas sobrancelhas agitavam-se, como para dar azas ao brilho das pupillas. Sentia-se enebriada pela sublimidade dos seus ideaes, em que punha toda a ardencia do coração, tudo o que experimentára, e encerrava nos rijos e limpidos cristaes das palavras illuminadas as idéas que floresciam e desabrochavam mais e mais no seu coração outonal, illuminado pelo sol da fôrça creadora.

—É como se para nós tivesse nascido um novo Deus! Tudo para todos, todos para tudo, a vida inteira em um só, em cada um a vida inteira! E cada um para a vida inteira! É assim que eu compreendo; é para isso que vós todos andaes pela terra, eu bem o vejo! Em verdade, todos sois camaradas, todos sois da mesma familia, porque todos sois os filhos da mesma mãe: a verdade! Foi a verdade que vos gerou e é pela sua fôrça que viveis!

Pélagué retomou alento e continuou, com um gesto largo que parecia abarcar tudo!

—E quando a mim própria pronuncio esta palavra «camaradas» parece-me ouvil-os caminhar. De toda a parte vem em multidão. Oiço um ruido atroador e alegre, como se os sinos de todas as igrejas da terra entrassem a tocar!

Conseguira o que desejava: animára-se o rosto de Lioudmila; os lábios tremeram-lhe; uma apóz outra, rolaram-lhe dos olhos pesados lagrimas crístallinas.

Então, Pélagué tomou-a entre os braços; teve um riso silencioso, meigamente ufana da victória obtida pelo seu coração.

Ao afastarem-se as duas mulheres, Lioudmila fitou Pélagué e perguntou em voz baixa:

—Sabe que é muito agradavel estar na sua companhia?

E a si própria respondeu, rematando:

—Sim, parece que se está no cimo de uma alta montanha, ao nascer da aurora...

XXX

Lá fóra, o ar sêco e glacial fustigava o corpo, irritava a garganta e o nariz; suffocava a respiração. Pélagué parou a certa altura, olhando em torno: perto d’ali, á esquina d’uma rua, estava um cocheiro com um bonné de pello; mais longe, caminhava um homem, todo corcovado, com a cabeça encolhida entre os hombros. Um soldado corria, aos pulos, esfregando as orelhas.

«Provavelmente mandaram-no á loja, a comprar alguma coisa!» pensou ella. Escutava com satisfação o ruído da neve que se lhe quebrava sob os passos. Em breve chegou á estação; o comboio ainda não estava formado; no entretanto, havia já muita gente na sala de espera da terceira classe, enfumaçada e suja. O frio para lá escorraçára os trabalhadores do caminho de ferro; e tambem vinham aquentar-se ali, cocheiros e individuos mal vestidos, sem eira nem leira. Tambem ali se encontravam viajantes: alguns campónios, um negociante gordo, vestido de espessa capa de pelles, um padre com a sua filha, uma rapariguita de rosto pálido, cinco ou seis soldados e alguns burguezes com ares de atarefados. Fumava-se, conversava-se, bebia-se aguardente ou chá. Junto ao bufete, ouviam-se grandes gargalhadas; pairava por cima das cabeças o fumo do tabaco em densas nuvens. Ao abrir-se, a porta chiava, e quando a tornavam a fechar, batia com estrondo e as vidraças resoavam e tremiam. Assaltava violentamente as narinas um cheiro a tabaco e a peixe salgado.

Pélagué sentou-se perto da porta, bem em evidencia, e esperou. Quando entrava alguem, envolvia-a uma lufada d’ar frio; a sensação era agradavel: respirava n’esses momentos a plenos pulmões. Apparecia gente em pesados trajos, carregada de embrulhos; prendiam se desastradamente na porta, praguejavam, atiravam os seus fardos para o chão; depois limpavam da geada a gola e as mangas dos casacões, limpavam as barbas ou os bigodes, resmungando.

Um rapaz, que trazia uma mala amarella, entrou, e depois de olhar rapidamente em torno, foi direito a Pélagué.

—A Moscou? perguntou elle a meia voz.

—Sim! a casa de Tania.

—Ahi tem!

E dito isto, collocou a mala sobre o banco, ao lado d’ella, tirou um cigarro da algibeira, accendeu-o rapidamente e tornou a saír por outra porta, depois de ter erguido levemente o bonné. Pélagué passou a mão pelo coiro frio da mala e encostou-se a ella. Satisfeita, emfim, pôz-se a examinar quem estava. Instantes depois, levantou-se e foi sentar-se n’outro banco, mais próximo da saída. Levava a mala n’uma das mãos com a maior serenidade, de cabeça levantada e fitando as caras que lhe passavam ao alcance da vista.

Um homem vestido d’um casaco curto e com a cabeça enterrada na gola, erguida, deu-lhe um encontrão e afastou-se sem dizer uma palavra, levando simplesmente a mão ao bonné. Pareceu-lhe tel-o já visto. Voltou-se e viu que elle a estava observando. Sentiu-se como trespassada por aquelle olhar claro; a mala entrou a tremer-lhe na mão, como se tivese repentinamente aumentado de peso.

—Onde vi eu aquelle homem? perguntava a si mesma, como para repellir a sensação desagradavel que lhe subia do peito até á garganta e lhe enchia a bocca de amargo travor. Apoderou-se d’ella um desejo irresistivel de se voltar e de olhar mais uma vez para elle: o homem continuava no mesmo logar, firmando-se ora n’um pé, ora no outro e parecia indeciso. Introduzira a mão direita entre os botões do casaco e conservava a outra na algibeira, o que fazia parecer que tinha o hombro direito mais alto do que o esquerdo.

Devagar, Pélagué caminhou até um banco, sentou-se lentamente, com precaução, como se receasse quebrar alguma parte do corpo. A sua memória, despertada por um agudo presentimento de desgraça, evocava dois aspectos d’este homem: o primeiro datava do dia da evasão de Rybine; o outro, da vespera. Lembrava-se ter visto no tribunal, ao lado d’aquelle individuo o agente de polícia a quem fornecera a errada indicação sobre o caminho que Rybine tomára na sua fuga. Tornára-se pois conhecida, andava vigiada, era certo!

—Estarei eu apanhada? perguntou a si mesma. E respondeu, sentindo-se estremecer: «Talvez ainda haja meio... Não, decididamente estou apanhada, não ha nada a fazer...»

Olhou em roda, mas não viu nada suspeito. Uma apóz outra, como scentelhas, surgiam-lhe e apagavam-se-lhe várias idéas dentro do cérebro.

—Deixar a onda?... Ir-me embora?

Mas logo outra scentelha mais viva brilhou: «As palavras do meu filho... atiral-as assim fóra! Deixal-as em semelhantes mãos!»

E chegou a mala mais para si.

«E se eu agarrasse n’ella e deitasse a fugir!...»

Chegava-lhe a parecer não serem seus os próprios pensamentos, que alguem lh’os introduzia no cerebro, á fôrça. Eram como queimaduras a corroerem-lhe dolorosamente a cabeça e o coração, levando-a para longe de si mesma, para longe de Pavel, de tudo o que já fazia parte integrante do seu coração. Sentia que uma fôrça hostil a opprimia obstinadamente, lhe pezava nos hombros e no peito, a aviltava, mergulhando-a em frio terror. Incharam-se-lhe as veias das fontes, subiu-lhe á cabeça intenso calor.

Então, d’um só impulso vigoroso que a ergueu de chofre, suffocou em si todos estes lampejos de tibieza, covardes e astuciosos, ordenando a si própria com autoridade: «Não sejas a vergonha do teu filho!»

Aos seus olhos appareceu então um olhar tímido e desconsolado. Passou-lhe pela memória a imagem de Rybine. Estes poucos segundos de hesitação bastaram para fortalecer n’ella todas as crenças. O coração pulsou-lhe com mais regularidade.

—Que irá acontecer? perguntou a si mesma, olhando em torno.

O espião acabava de chamar um guarda; segredava a este o que quer que fosse, designando-a com o olhar. O guarda observou Pélagué e recuou. Approximou-se outro guarda e pôz-se a escutar o que diziam. Era um velho robusto, grisalho e de comprida barba. Fez um signal com a cabeça ao espião e adiantou-se para o banco em que Pélagué se sentava. O espião desappareceu como por encanto.

O velho caminhava sem pressa alguma, perscrutando attentamente com olhar irritado a fisionomia de Pélagué. Ella encolheu-se toda no fundo do banco.

«Com tanto que não me batam!... Deus permitta que não me batam!»

O guarda parou junto d’ella e, apóz silencio, perguntou com severidade:

—Que estás tu a olhar?

—Nada...

—Está bem... Ladra! Então és velha e andas n’essa vida?!

Com estas palavras julgou Pélagué que recebia uma bofetada. Irritadas e roucas, faziam doer, como se lhe rasgassem as faces e arrancassem os olhos.

—Ladra, eu?! Mentes! gritou com toda a fôrça dos pulmões.

Tudo o que a rodeava lhe parecia mover-se descompassadamente entre o redemoinho da sua indignação; sentia o coração atordoado pela amargura da injuria. Agarrou na mala, que logo se abriu por si.

—Olha! Olhem todos! exclamou, pondo-se em pé e agitando acima da cabeça um maço de proclamações. Atravez dos zumbidos de que tinha cheios os ouvidos, ouvia as exclamações das pessoas que accudiam de todos os lados.

—Que se passa?

—É um agente da polícia secreta...

—Mas que aconteceu?

—Dizem que roubou, aquella mulher...

—Aquella mulher?

—Mas ella protesta.

—Ora adeus! Com aquelle todo tão respeitavel!

—Quem foi que prenderam?

—Eu não sou ladra! repetia ella com voz forte e serenando pouco a pouco com o ver a attitude dos curiosos que a rodeavam em compacto círculo.

—Hontem foram condemnados alguns presos politicos e entre elles o meu filho... O meu filho chama-se Vlassof. Pronunciou um discurso: aqui o teem! Ia leval-o á gente do povo, para que o leia e reflicta nas verdades que elle encerra!

E porque um dos circumstantes, com precaução, tomasse um dos fasciculos que ella tinha na mão, agitou os outros e atirou-os por sobre o ajuntamento.

—Estás livre de receber felicitações pela maneira por que os distribuiste! commentou a medo uma voz.

—Cuidado, que vae acontecer alguma! aconselhou outra voz.

Pélagué via que cada qual tratava de se apoderar dos papeis e de escondel-os nas algibeiras ou no peito. Mais animosa, entrou a tomar maços e maços de dentro da mala e a atiral-os á direita e á esquerda, nas mãos ávidas e ligeiras que se lhe estendiam.

—Sabem porque condemnaram o meu filho e os que com elle estavam? Vou dizer-vol-o! Creiam n’este coração de mãe! Condemnaram-nos porque vos traziam a todos a santa verdade! E hontem mesmo eu vi como essa verdade triunfou!... Ninguem póde luctar contra ella, ninguem!

A multidão, que se conservava muda de assombro, engrossava cada vez mais, cercando Pélagué d’uma cadeia de seres viventes.

—A pobreza, a fome, a doença—eis o que o trabalho nos rende! Tudo é contra nós. De dia para dia, morremos sob o trabalho, soffremos fome e frio, prostrados sempre no lôdo e no ludíbrio; e são outros que se fartam e se divertem á custa do nosso labor!... Como cães presos pela trela, immobilisam-nos na ignorancia; nós nada sabemos e, na nossa covardia, de tudo temos medo! A nossa vida é uma noite, uma noite escura! É um pezadello horrendo!... Pois não é verdade?

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