PRIMEIRA PARTE (continued 3)
Augusto de Lacerda translation
—Toma! toma!...
Sempre que havia reuniões em casa de André para a leitura d’um folheto ou do ultimo numero d’um jornal estrangeiro, Vessoftchikof apparecia, sentava-se e escutava sem dizer palavra, durante uma ou duas horas. Concluida a leitura, os novos discutiam; elle porem não entrava na conversa, e era o ultimo a saír.
A sós com André, falava então com o seu modo sórna.
—Quem é o mais culpado de todos?
—Aquelle que foi o primeiro a dizer: «Isto é meu!» Mas como já morreu ha milhares d’annos, não vale a pena zangarmo-nos com elle! respondia André, gracejando.
—Mas os ricos e os poderosos? e os que os defendem? teem razão?
O russo-menor apertava a cabeça entre as mãos, retorcia o bigode e falava durante muito tempo acerca da vida dos homens, com palavras simples e claras.
Elle porém volvia:
—Não! Ha de haver culpados! Existem! Digo-te que é preciso revolvermos a vida toda, sem piedade, como um campo coberto de más hervas!...
—Foi o que o Isaías disse uma vez, falando do sr.... observou Pélagué.
—O Isaías?
—Sim. Que mau homem! Espia toda a gente... Vem até espreitar ás nossas janellas.
—Ás suas janellas?...
Ella estava já deitada e não lhe podia vêr a cara. Mas percebeu que tinha falado de mais, quando André disse, em tom conciliador:
—Pouco importa que elle venha espreitar-nos. Não tem que fazer a essa hora: passeia.
—Qual! exclamou o rapaz! Ora ahi tens o culpado?
—Culpado de quê? de ser parvo?
Mas o bexigoso não respondeu e saíu.
Pélagué não dormia.
—Tenho medo d’elle! exclamou. Parece um fogão levado ao rubro: não dá calor, mas queima.
—Sim... é um garôto irascivel. Nunca lhe fale do Isaías, mãesinha. Esse tal Isaias é em verdade um espião... Pagam-lhe até para isso.
—Que admira? O seu melhor amigo é um agente de policia!
—O Vessoftchikof ainda acaba por torcer-lhe o pescoço! Veja que sentimentos os que mandam na nossa vida fazem nascer nas camadas inferiores. O que succederá quando aquelles que se parecem com este rapaz tiveram a consciencia da sua situação humilhante e perderem a paciencia? O ceu raiar-se-á de sangue, e a terra cobrir-se-á d’espuma, como se a tivesse invadido um musgo vermelho.
—É terrivel, meu André!
—Os nossos inimigos não terão o que merecem. Todavia, mãesinha, cada gottinha do seu sangue terá sido lavado préviamente pelos lagos de lagrimas que o povo chorou.
E accrescentou, rindo:
—É justo, mas não é consolador!
XXII
Um domingo, quando a velha, voltando da mercearia, abriu a porta e appareceu no limiar, foi invadida por subita alegria, pois ouvira lá para o interior da casa, a voz de Pavel.
—Cá está elle! gritou André.
Pélagué notou a rapidez com que o filho se voltou para ella e o brilho que lhe assomou ao rosto.
—Eis-te afinal na nossa casa! murmurou.
Pavel avançou, muito palido, com pequeninas lagrimas bailando-lhe nos olhos, com os labios tremulos. Em silencio, os dois contemplavam-se.
—Obrigado, mamã! exclamou por fim, apertando-lhe a mão que estremecia. Obrigado, minha querida mãe!
Commovida por aquellas palavras, ella acariciava-lhe os cabellos, e reprimindo as pulsações do coração, disse com doçura:
—Deus seja comtigo! O que me agradeces?
—O teu auxilio na nossa grande obra! Obrigado! É uma honra enorme para o homem poder dizer que sua mãe tambem é sua parenta pelo espirito.
Não respondeu, aspirando, soffrega, as palavras do filho, contemplando-o, como em extasi perante aquelle rosto que lhe parecia tão luminoso.
—Eu calava-me, mamã, porque percebia que certas coisas da minha vida te impressionavam; tinha piedade da tua alma, e nada podia fazer que lhe fosse agradavel. Imaginava que nunca te juntarias a nós, que nunca seguirias as nossas opiniões, que continuarias a supportar tudo, em silencio, como o tinhas feito em toda a tua vida. E isto custava-me muito.
—O André deu-me a compreender tantas coisas!... observou, desejando chamar André ao sentimento do filho.
—Contou-me tudo o que tu fazias! disse, rindo.
—O Iégor tambem. Somos da mesma aldeia. Olha o André quiz ensinar-me a ler.
—E tu tiveste vergonha e pozeste-te a estudar sósinha, ás escondidas.
—Espreitou-me, então! notou, contrafeita. Mas que é d’elle? Foi-se d’aqui, para nos deixar á vontade. Chama-o, que elle... não tem mãe.
—André! Onde estás tu?
—Aqui. Vou rachar lenha.
—Tens tempo. Anda cá.
—Lá vou.
Não veio logo; e á porta, observou, dando importancia ao caso:
—É preciso dizer a Vessoftchikof que traga lenha, que já ha pouca. Vê como a cadeia fez bem ao Pavel? Em logar de punir os revoltados, o governo engorda-os.
—Ainda não comeste!... Vamos jantar, Pavel! propoz ella.
—Não. O guarda vigilante informou-me hontem de que tinham resolvido pôr-me em liberdade, e logo perdi a vontade de comer. A primeira pessoa que encontrei por cá foi o velho Sizof. Apenas me viu, atravessou a rua para me falar. Aconselhei-o a ser mais prudente, porque eu estou sob a vigilancia da policia. «Que tem isso?» foi a sua resposta. E sabes o que me perguntou acerca do sobrinho? «O Fédor tem-se portado bem na cadeia?» E eu: O que entende por isso de portar-se bem? «Ora!... não dar com a lingua nos dentes a respeito dos companheiros!» Quando lhe disse que elle era um bom rapaz e intelligente, passou a mão pela barba, e disse com altivez: «Nós, os Sizof, não temos patifes na familia!»
—Não tem nada de tolo, esse velho. E o Fédia vem para a rua por estes dias?
—Provavelmente. Creio mesmo em que virão todos. Não ha provas contra nós. Apenas o depoimento do Isaías... Mas o que pode elle saber?
—Sentemo-nos! disse Pélagué, servindo o jantar.
Comendo, André referiu-se a Rybine. Quando acabou de contar o que se tinha passado, Pavel murmurou, com muito pezar:
—Se eu cá estivesse, não o teria deixado partir assim. O que leva na sua alma? Um sentimento de revolta e umas idéas embrulhadas...
—Ora! disse André, sorrindo. Quando um homem tem quarenta annos e luctou durante muito tempo contra as dúvidas e as hesitações da sua alma, é difficil transformal-o.
Discutiam, empregando termos que a velha não compreendia, até ao fim do jantar, embora por vezes falassem mais a claro.
—Devemos continuar no nosso caminho, sem nos desviarmos d’elle nem uma linha! exclamou Pavel com firmeza.
—E esbarrarmos no caminho com dezenas de milhões de homens que nos consideram seus inimigos.
Pélagué poude concluir que Pavel não gostava dos camponezes, ao passo que André os defendia, entendendo ser preciso ensinar-lhes o bem. Compreendia melhor André. Sempre que elle dizia qualquer coisa a Pavel, prestava muita attenção, deixando mesmo de respirar, esperando com impaciencia a resposta do filho, para ver se o russo-menor o teria offendido. Mas os dois continuavam discutindo sem se zangarem.
De quando em quando, perguntava:
—É assim, Pavel?
E elle respondia, sorrindo:
—É.
—Com que então o senhor, dizia André, em tom de malicia, comeu bem, não mastigou bastante e ficou embatocado?...
—Não digas tolices!
—Eu. Estou mais serio do que n’um enterro!
E a velha ria...
XXIII
Approximara-se a primavera, ia-se derretendo a neve, descobrindo a lama e o suor engordorado das chaminés da fabrica, que ella havia occultado sob a sua camada branca.
Dia a dia, a lama tornava-se mais aggressivamente apparente, todo o bairro parecia immundo e envolto em farrapos. O sol mostrava-se mais a miude, e os regatos ainda indecisos começavam a dirigir-se para o pantano. Ao meio-dia, a canção cariciosa das esperanças primaveris palpitava pairando sobre o bairro.
Andavam em preparação as festas do primeiro de maio.
Pela fabrica e pelo bairro todo tinham sido espalhados muitos folhetos, explicando a significação d’aquellas festas. Até a gente nova, que nada tinha de commum com os socialistas, dizia ao lêl-os:
—É preciso tratar d’isso!
Vessoftchikof resmungava com o seu sorriso sorna:
—E não é cedo. O jogo das escondidas dura ha muito tempo!
Fédia Mazine rejubilava. Tinha emagrecido e o nervosismo dos seus gestos e das suas palavras lembravam uma cotovia que estivesse mettida n’uma gaiola. Acompanhava-o sempre Jacob Somof, rapaz taciturno, muito grave apezar de novo, e que trabalhava então na cidade. Samoílof, cujos cabellos e barba pareciam terem-se avermelhado ainda mais na cadeia, Vassili, Goussef, Boukine, Dragounof e outros julgavam indispensavel munirem-se de armas; mas Pavel, o russo-menor, Somof e os seus amigos não eram da mesma opinião. Iégor chegou então, como sempre fatigado, offegante, e coberto de suor. Disse de brincadeira:
—A transformação da organisação actual é uma grande obra, companheiros, mas para que ella caminhe mais facilmente é necessario... que eu compre um par de sapatos para a minha pessoa!
E mostrou as botas rotas e que mettiam agua.
—As minhas galochas estão na mesma, tambem muito doentes; todos os dias molho os pés. Não quero descer ao seio da terra sem ter renegado do velho mundo, d’uma maneira bem publica e visivel. Eis porque, regeitando a moção do companheiro Samílof relativamente a uma demonstração de força armada, proponho que me calcem com um bom par de valentes botas, porque estou convencido de que serão mais uteis ao triumpho da nossa causa do que a maior das sarrafuscas!
Pavel disse uma vez, falando de Iégor:
—Sabes, André, aquelles que mais riem, são aquelles cujo coração mais soffre.
Depois de um curto silencio, o outro respondeu:
—Qual historia! Se assim fosse, toda a Russia morreria de riso!
Natacha appareceu tambem; estivera na cadeia, n’outra cidade, mas não mudara d’aspecto. Pélagué notou que, quando ella estava presente, o russo-menor ficava mais alegre, brincava com todos, com uma malicia sem maldade que provoca as gargalhadas da rapariga, e que, quando ella se ia embora, elle entrava de assobiar tristemente as suas innumeras canções, passeando pela casa, arrastando os pés.
Sachenka vinha a miude, sempre apressada, tornando-se dia a dia mais acre, mais angulosa.
Uma vez que Pavel tinha saído para acompanhal-a, sem fechar a porta apoz si, Pélagué ouviu-lhes estas phrases:
—É o sr. que levará a bandeira?
—Sou.
—É caso resolvido?
—É o meu direito!
—Não seria possivel...?
—O quê?
—...deixar que fosse outro...?
—Não!
—Reflicta. O sr. tem tanta influencia... estimam-no tanto... Aqui os chefes são o André e o sr. Quantas coisas poderão fazer, estando livres!... Reflicta. São capazes de exilal-o... para muito longe e por muitos annos!...
Estas palavras, cujo sentimento Pélagué estava entrevendo, caíam-lhe no coração como pingos d’agua gelada.
—Não! estou decidido. Não renunciarei por coisa alguma n’este mundo!
—Ainda que eu lhe pedisse...?
Pavel interrompeu-a rapidamente, tendo na voz uma severidade especial:
—Não deve falar assim. No que está pensando?
—Sou uma creatura humana!... murmurou, defendendo-se.
—Uma excellente e meiga creatura! disse elle em voz baixa e como se lhe custasse respirar. Uma creatura que me é querida... muito querida! E é por isto mesmo que não deve falar assim!
—Adeus!
E pelo ruido dos seus passos, a velha percebeu que ella ia correndo. Compreendeu que nova desgraça a ameaçava, e no cerebro cravou-se como um prego esta interrogação: «O que será preciso fazer?»
Ao entrar na cosinha, Pavel avançou para André que lhe perguntou:
—E aquelle desgraçado do Isaías?
—Devemos aconselhal-o a que renuncie á espionagem.
—Denunciará aquelles que tal lhe aconselharem.
—Que pensas fazer, Pavel? perguntou-lhe a mãe, desviando o olhar.
—Quando? agora?
—Não: no primeiro de maio.
—Ah! quero levar a nossa bandeira. Pôr-me-ei á frente do cortejo, com a bandeira em punho. Naturalmente mettem-me outra vez na cadeia.
Os olhos de Pélagué tornaram-se como candentes, a bôca foi-lhe invadida por uma secura febril. O filho pegou-lhe na mão e ameigou-a:
—Assim é preciso, mãe. A honra está n’isto mesmo.
—Eu não disse nada... balbuciou.
—Deverias regosijar-te, em vez de entristeceres-te.
—Eu não disse nada... Não me opporei... Se tenho pena de ti, é natural... e fica comigo...
Pavel afastou-se, e ella ouviu-o resmungar palavras acerbas:
—Ha affeições que impedem o homem de viver!
Receando que elle dissesse peor, exclamou vivamente:
—Não fales assim, Pavel! Compreendo. Tens que fazer o que tencionas, por causa dos companheiros.
—Não! Por minha propria causa! Poderia proceder d’outra forma, mas não quero! Hei-de ir!
André parou no limiar; parecia mettido n’uma moldura: era mais alto do que a porta e curvava os joelhos caricatamente, com um dos hombros encostados a um umbral, e com a cabeça e o outro hombro estendido para a frente.
—Seria melhor que o sr. tagarellasse menos!
Parecia um lagarto semi-occulto na fenda d’um rochedo.
A velha tinha vontade de chorar, mas, não querendo que Pavel a surpreendesse, disse de repente:
—Ah!... ia-me esquecendo...
E retirou-se, rapida. Sob o alpendre, encostou a cabeça á parede, e deu livre curso a todo o seu pranto. As palavras dos dois amigos chegavam até lá.
—Divertes-te em atormental-a! dizia André.
—Não tens o direito de falar-me assim!
—Não seria um bom companheiro, se me calasse ao ouvir as tuas estupidas cabriolices! Para que respondeste tão rudemente á tua mãe?
—Deve-se falar sempre com firmeza, seja a quem fôr!
—Á tua propria mãe?
—A todos! Dispenso qualquer amor ou amisade que me detenham no meu caminho.
—Que heroe! Á Sachenka é que devias falar assim.
—Foi o que fiz.
—Com essa rispidez? Não creio! Havias de falar-lhe com uma voz carinhosa, terna... É como se estivesse a ouvir-te! Guardas o teu heroísmo para quando a tua mãe está presente. Pois fica sabendo, animal, que o teu heroísmo não vale nada!
Pélagué receou que a discussão se azedasse; limpou rapidamente as lagrimas e appareceu, dizendo:
—Oh! que frio que faz! E é isto a primavera!...
E, nos arranjos domesticos, deu alguns passos pela casa, voltando de novo á cosinha.
Apóz um silencio, André approximou-se de Pavel.
—Percebeste-a?... Tem mais coração do que tu.
—Querem chá? perguntou a velha.
E sem esperar resposta, accrescentou logo:
—É que estou transida de frio.
Pavel dirigiu-se a ella, com um sorriso a tremer-lhe nos labios.
—Perdôa, mãe... Sou ainda uma creança... um garôto...
Ella estreitou-o a si.
—Não me ralhes mais. Não me digas mais nada. Deus seja comtigo, filho! Segue lá a tua vida, mas não bulas no meu coração. Como não haveria de uma mãe ter piedade do seu filho? Tenho piedade de todos...
—Está bem, mamã. Perdôa. Fiz mal.
E afastando-se, enleado:
—Nunca mais o esquecerei, palavra d’honra!
Passando á cosinha, Pélagué disse a André, que se conservara á porta:
—Não ralhe com elle. Bem sei que o André é mais velho, mas...
Elle não se moveu, e pôz-se a berrar comicamente:
—Ora! ora! ora! Ralho... e até lhe chego, se calhar!
A velha apertou-lhe a mão commovida.
—Meu bom amigo!...
André entrou na cosinha, e, continuando no mesmo tom ironico:
—Desapparece, Pavel, se não queres que eu te torça o pescoço. Por emquanto, não, porque estou arranjando o samovar! Oh! que pessimo carvão! Está molhado, com mil diabos!
Calou-se. Quando a viu perto de si, foi dizendo, baixinho, todo entretido no seu trabalho:
—Não tenha medo, mãesinha, que não lhe tocarei nem com um dedo! Sou simplorio como um nabo cosido. E gosto muito d’elle. Olha tu é que não deves dar ouvidos ao teu heroe! Anda como se tivesse estreado um collete garrido: com o peito espetado, empurrando em toda a gente para que lhe vejam bem o collete... É bonito, lá isso é; mas para que diabo empurra elle o proximo?
Pavel disse de lá:
—Ainda estás resmungando? E approximou-se logo.
André, sempre sentado no chão, tinha posto entre as pernas o samovar e contemplava-o. Pélagué, encostada á porta, fixava o olhar na nuca e no farto pescoço do russo-menor. Elle então deitou o corpo para traz, com as mãos apoiadas no chão, e, depois de ter observado a mãe e o filho:
—Em verdade, olhem que são muito boa gente!
Pavel abaixou-se para lhe pegar n’um braço.
—Não puxes por mim, que me fazes caír!
—Para que se zangam? perguntou ella tristemente. Não seria melhor que se abraçassem?
—Queres?... murmurou Pavel.
—Porque não?
Pavel ajoelhou-se e os dois homens abraçaram-se, unindo-se n’uma só alma, animada da mais quente amisade.
Pélagué chorava; era porem um pranto sem amargor. Enxugando os olhos, balbuciou:
—As mulheres gostam de chorar... de tristeza... e de alegria...
André afastou o amigo, e esfregando os olhos:
—Basta! basta! Que diabo de carvão! Tenho os olhos cheios d’elle!
Pavel sentara-se junto da janella, e murmurou:
—Lagrimas como estas não devem envergonhar.
—Sim! Acabámos de viver uns momentos de uma boa vida, humana, replecta de amor! exclamou André.
Ao que a mãe observou:
—Tudo está mudado! O pezar é outro... outra é a alegria... já nem sei... já não sei o que me faz viver... faltam-me as palavras...
—Tudo está mudado. E assim é que deve ser! acudiu André. E sabe porquê? Porque se desenvolve na vida um coração novo, mãesinha. Os corações estão todos elles despedaçados pela diversidade dos interesses, roídos pela cega avareza, mordidos pela inveja, cobertos de chagas e de feridas purulentas... de mentira, de covardia. Os homens são uns doentes, que teem medo de viver... perdidos como em um nevoeiro... conhecendo apenas a sua propria dor. Mas eis que apparece um homem que illumina a vida com o fogo da razão e que grita: «Eh! pobres insectos perdidos! Chegou o tempo de compreender que tendes todos os mesmos interesses e o mesmo direito á vida e ao desenvolvimento!» O homem que clama está isolado, sente-se triste e tem frio sósinho. E ao seu chamamento, todos os corações se reunem, formando um coração immenso, forte, sensivel como um sino de prata. E este sino diz assim: «Uni-vos, homens de todos os paízes, formae uma unica familia! A mãe da vida é a affeição e não o odio!» Irmãos, eu oiço este sino!
—E eu tambem! disse Pavel.
—Deitado, de pé, vá para onde fôr, oiço-o e sinto-me feliz. Eu sei: a terra está farta de supportar a injustiça e a dôr; éccôa como se quizesse responder, saúdando o novo sol que desponta no peito do homem!
Pavel ergueu um braço, ia falar; mas a mãe deteve-o, e disse baixinho:
—Não o interrompa.
—Sabem? ha ainda muitas dores reservadas aos homens; ainda muito sangue lhes será arrancado por mãos ávidas. Mas tudo isto, toda a minha dor e todo o meu sangue, nada são perante o que já possuo no meu cerebro, na minha medula, nos meus ossos! Já sou rico como uma estrella é rica em scintillações. Supportarei tudo, porque tenho em mim uma alegria, que ninguem nem coisa alguma matará, e que é a minha força!
E até á meia noite, a conversa proseguiu, harmonica e sincera, acerca da vida, dos homens, do futuro.
XXIV
De manhã muito cedo, apenas André e Pavel tinham sido, Maria Korsounova bateu á janella com estrondo.
—O Isaías foi assassinado! Vamos ver!
Pélagué estremeceu: o nome de assassino atravessou-lhe o peito como uma flécha.
—Quem o matou?
—O assassino fugiu!
Tendo posto um chale, á pressa, Pélagué foi ter com ella á rua.
—Naturalmente começam outra vez a fazer buscas. Ainda bem que a tua gente não saíu de casa áquella hora. Posso tesmunhar. Á meia noite passei eu por aqui, olhei pela janella e vi-os a todos trez sentados á meza.
—Mas, Maria, porque haveriam de accusal-os? perguntou aterrorisada.
—O assassino é forçosamente dos vossos! Todos sabem que o Isaías os espionava...
Pélagué parou, offegante, com a mão no peito.
—Que é isso? Não tenhas medo. O Isaías não merecia outra coisa. Vamos depressa, que não chegamos a tempo.
A pobre velha caminhava sem mesmo perguntar a si propria para que ia ver o cadaver; tremia pensando em Vessoftchikof: «Conseguiu o seu fim!»
Não distante da fabrica, sobre o entulho d’uma casa recentemente destruida por um incendio, grande ajuntamento de povo murmurava como uma nuvem de bezouros, e movia-se levantando em poeira a cinza com os seus passos. Já lá estavam muitas mulheres, ainda mais creanças, lojistas, os moços da taverna proxima, agentes de policia, o guarda Pétline, um guarda velho, de barbas brancas como prata, e com o peito coberto de medalhas.
Isaías estava meio deitado no chão; tinha as costas apoiadas a uma trave enegrecida pelo fogo, a cabeça descaída para o ombro direito. Conservava a mão direita na algibeira das calças; os dedos da esquerda desappareciam contraídos sob a terra fôfa.
Pélagué olhou para o rosto do morto. Um dos olhos tinha-o elle fixado no boné posto entre as pernas estendidas, a boca entreaberta n’uma como expressão d’assombro; a barbicha ruiva pendia. O corpo magro, com a cabeça ponteaguda, e o rosto ossudo coberto de manchas avermelhadas, parecia diminuido, comprimido pela morte.
Ella então benzeu-se suspirando. Em vida, aquelle homem fôra-lhe antipatico; morto, fazia-lhe dó.
—Não tem sangue! disse alguem. Talvez o prostrassem aos murros.
—Talvez ainda esteja vivo.
—Vão-se d’aqui! berrou o guarda.
—O medico já veio, e disse que elle estava morto!
—Fecharam a boca a um denunciador... Foi bem feito!
O guarda afastou as mulheres que o cercavam e perguntou ameaçadoramente:
—Quem é que falou?
Muitos recuaram; outros deitaram a fugir. Ouviram-se risos escarninhos.
Pélagué voltou para casa.
—Ninguem tem dó d’elle!... ia pensando.
—E o perfil macisso do bexigoso erguia-se na sua frente; os seus olhos tinham um brilho frio e rude; a sua mão direita balouçava, como se estivesse ferida.
Quando André e Pavel entraram para o jantar, perguntou-lhes logo:
—E então? Não está ninguem preso por causa do Isaías?
—Não ouvi nada... respondeu o russo-menor.
Ella notou que os dois vinham sombrios e reservados.
—Não falam do Vessoftchikof?... avançou.
O filho encarou-a com severidade e respondeu, accentuando muito as palavras:
—Não! Ninguem pensa n’elle. Está ausente. Hontem ao meio dia, partiu a caminho da ribeira e ainda não voltou... Tirei informações...
—Deus seja louvado! exclamou ella com um suspiro d’alivio.
Ao jantar, Pavel deixou caír de repente a colher no prato e disse:
—Não entendo isto!
—O quê? perguntou André, até ali triste e silencioso.
—Admitto que matem um animal feroz, uma ave de rapina... Julgo-me capaz de matar um homem que se tornasse uma fera para os seus semelhantes. Mas como ha quem possa levantar a mão para assassinar uma creatura miseravel e repugnante?
André encolheu os hombros, e depois:
—Elle era tão nocivo com uma fera.
—Sei...
—Nós tambem esborrachamos o mosquito que nos suga um pouco de sangue...
—Sim, é verdade. Não é esse o meu ponto de vista. Digo que é repugnante!
—Que se ha de fazer? e encolheu outra vez os hombros.
—Poderias matar uma creatura d’aquellas? perguntou Pavel depois de curta pausa.
—O russo-menor fitou-o, lançou um rapido olhar a Pélagué, e respondeu tristemente mas com firmeza:
—Se se tratasse de mim só, não tocaria em ninguem. Pelos companheiros, pela nossa causa, faria tudo. Mataria até meu proprio filho, se preciso fosse!
—Oh!... suspirou Pélagué.
Elle sorriu, concluindo:
—Impossivel proceder d’outra maneira! É a vida que assim o quer!
Como se obedecesse a um impulso intimo, André ergueu-se de repente.
—Que se ha de fazer? É-se obrigado a odiar o homem, para que venha mais cedo o tempo de admiral-o sem reservas. Temos que destruir aquelle que obsta ao curso da existencia, que vende os outros para adquirir honrarias ou o descanso. Se encontramos no caminho dos justos um Judas que nos espera para nos traír, eu proprio seria um traidor, se não o anniquilasse. É crime? É contra o direito? E os outros, os nossos senhores, com que direito se servem de soldados e carrascos, de casas publicas e de prisões, do degredo e de tanta coisa infame para protegerem a sua segurança e o seu bem-estar? Os nossos senhores assassinam-nos ás centenas, aos milhares; isto dá-me o direito de levantar a mão e de deixal-a caír na cabeça d’um inimigo, d’aquelle que mais se approximou de mim e que mais me prejudica na vida. Sei que o sangue dos meus inimigos não cria, que é esteril... Desapparece sem deixar vestigios, porque está podre; ao passo que quando o nosso rega a terra como uma chuva compacta, a verdade desenvolve-se exhuberante! Tambem o sei! Mas se vir que é indispensavel matar, matarei e revindicarei a responsabilidade do meu crime. Não falo senão de mim. O meu peccado morrerá comigo, não maculará o futuro com uma unica nódoa, não manchará ninguem, ninguem senão eu!
Cheia de tristeza e de inquietação, Pélagué sentia que elle tinha como que uma mola partida no seu espirito, e que soffria. Não a inquietava já o caso do assassinio: não tendo sido Vessoftchikof, nenhum outro companheiro de Pavel o seria, por certo.
André proseguia:
—Tempo virá em que os homens se admirarão uns aos outros, em que cada qual brilhará como uma estrella, em que escutará a voz do seu semelhante, como se fosse uma musica. Haverá na terra homens ricos, grandes pela sua liberdade, tendo todos o coração aberto, purificado de qualquer ambição ou interesse. A vida será então um culto prestado ao homem; a sua imagem será exhaltada porque para os homens livres todas as alturas são accessiveis. Viver-se-á então na liberdade e na egualdade, pela belleza; os melhores serão os que mais souberem abarcar o mundo no seu coração, os que mais o amarem! E por esta vida assim, estou prompto a tudo. Arrancaria o coração a mim proprio, e pizal-o-ia, com os meus pés!
O seu rosto tremia; as suas feições tinham uma excitação luminosa; uma a uma, as lagrimas deslisavam-lhe pelas faces.
Pavel levantou a cabeça e contemplou-o. Pélagué sentia-se inquieta, com um vago e terrivel presentimento.
—O que tens, André? perguntou Pavel, a meia-voz.
Elle esticou o corpo, e fitando a velha:
—Eu vi... eu sei...
Pélagué levantou-se, correu a elle, pegou-lhe nas mãos.
—Socega, André! meu filho!... socega!... murmurava.
—Esperem!... Quero dizer-lhes como a coisa foi...
—Não! não! accudiu ella, com os olhos razos d’agua.
Pavel approximou-se d’elle, com as mãos trémulas e muito pálido, e segredou-lhe:
—A minha mãe receia que tivesses sido tu...
Ella porem ouviu, e disse:
—Não receio, não. Sei que não foi elle. Ainda que tivesse sido, não acreditaria.
—Oiçam... pediu André, sem os fitar e buscando libertar as mãos que Pélagué não abandonava. Não fui eu... mas poderia ter evitado o crime.
—Cala-te, André! exclamou Pavel, pondo-lhe a mão no hombro, como para fazer cessar a tremura que lhe abalava todo o corpo.
O russo-menor explicou então:
—A coisa foi assim: quando nos deixaste, ficamos á esquina, eu e o Dragounof. O Isaías appareceu de repente... e conservou-se afastado... Troçava de nós, observando-nos... Dragounof disse-me: «Não vês! Anda-me a espiar todas as noites. Ainda venho a dar-lhe uma lição!» E afastou-se para entrar em casa, ao que julguei... Então o Isaías chegou-se a mim...
Suspirou:
—Ninguem me insultou mais rélesmente do que aquelle cão!
Sem falar, Pélegué fôra conseguindo puxal-o para junto da meza até obrigal-o a sentar-se.
—Disse-me que todos nós eramos conhecidos da policia, que tinha os olhos em nós, e que antes do primeiro de maio estariamos servidos!... Não respondi, limitei-me a rir-me, mas cá por dentro começava a ferver. Disse-me depois que eu era um rapaz intelligente, que não deveria metter-me a taes caminhos...
—Percebo!... murmurou Pavel.
—Isso! Acabou por dizer-me que seria melhor eu entrar ao serviço da policia...
E de punho cerrado erguido:
—Que alma infame a d’aquelle homem! Mais valia que me houvesse esbofeteado! ter-me-ia custado menos! e talvez fosse melhor para elle. Perdi a paciencia quando assim me cuspiu no coração a sua saliva infecta! Dei-lhe um muro em pleno rosto, e retirei-me. Ouvi uma voz atraz de mim: «Fizeste muito bem!» Era Dragounof, que por certo tinha ficado occulto na esquina. Não olhei para traz, apezar de sentir, de compreender a possibilidade... Ouvi depois um ruido, mas não fiz caso. Eu ia tão tranquillo como se tivesse acabado de esmagar um sapo. Quando cheguei á fabrica, dizia toda a gente: «Mataram o Isaías! Não quiz acreditar. A minha mão é que teve a culpa... Não sou senhor d’ella... Não me faz soffrer, não... mas dir-se-ia que a sinto retraída agora...
Lançou á mão um olhar rapido e exclamou:
—Não conseguirei nunca laval-a d’esta mancha!
—Tenhas tu bem puro o teu coração!... disse Pélagué chorando.
—Não me accuso, não! declarou elle com energia. Mas é repugnante... Não é agradavel ter esta lama cá dentro no peito!
—Que pensas fazer?
—O que quero fazer?
E depois de reflectir, de cabeça baixa, ergueu-a e respondeu com amargo sorriso:
—Não tenho medo de dizer que fui eu... mas tenho vergonha do que fiz! Não! não posso dizel-o! Tenho vergonha!
—Não te percebo bem! exclamou Pavel, encolhendo os hombros. Não foste tu quem matou; e ainda que...
—Irmão, apezar de tudo, era um homem. O assassinio é coisa repugnante. Saber que alguem assassina, e não o impedir... é talvez uma covardia infame!
—Continúo sem perceber!
Ouviu-se o apito da fabrica. André deixou tombar a cabeça para o hombro, escutando aquelle auctoritario chamamento e disse:
—Não quero ir trabalhar.
—Nem eu!
—Quero ir tomar um banho!
Vestiu-se á pressa e saíu.
Pélagué seguiu-o com um olhar de compaixão; depois abriu-se com o filho.
Podes dizer o que quizer, Pavel. Sei que é peccado matar um homem, mas n’este caso não encontro culpa em ninguem. Lembro-me de que o Isaías me ameaçou uma vez com a forca para ti... Eu não lhe queria mal, nem me alegro por elle ter morrido... Tinha apenas dó d’elle... E agora... nem mesmo isso já sinto...
—Ahi tens o que é a vida, mãe!
XXV
Alguem acabava de chegar sob o alpendre. Mãe e filho entreolharam-se, estremecendo.
A porta abriu-se e deu entrada a Rybine. Trazia vestida uma capa curta, de pelles, toda manchada de alcatrão, e nos pés sapatos de canhamo; do cinto pendiam-lhe grosseiras luvas de lã preta; na cabeça um boné de pelles.
—Como vão de saúde? Puzeram-te na rua, Pavel? E tu, Pélagué, como vaes?
—Ah! és tu? muito estimo ver-te!
—Olha que vens mesmo lindo! disse Pavel.
Rybine respondeu, tirando vagarosamente a capa:
—Sim. Fiz-me camponez. Tu e os teus vão-se transformando pouco a pouco em senhores; eu ando para traz.
E passando ao quarto, lançou o olhar em roda.
—Não teem mais mobilia do que d’antes. Os livros é que augmentaram. São o melhor bem que se pode possuir hoje. Como vão as coisas por cá? Conta-me.
Sentou-se abrindo muito as pernas, apoiou as palmas das mãos nos joelhos, parecendo satisfeito na espectativa da resposta de Pavel.
—Vão bem.
—Muito me alegro! muito me alegro!
—Queres chá? perguntou a dona da casa.
—Pudera! e um copinho de aguardente... e se me offerecessem de comer, tambem não recusaria. Estou contente por tornar a vêl-os!
—E como vae?
—Bem. Parei em Eguildiévo. Conhecem? É uma bella villa, com duas feiras por anno e mais de dois mil habitantes. Má gente. Não ha terras para cultivar; arrendam-nas, mas são de má qualidade. Entrei como assalariado ao serviço de um explorador do povo; não faltam d’estas sanguesugas; são como as moscas á roda de um cadaver. Fazemos carvão, extraímos alcatrão das bétulas. Trabalho duas vezes mais do que trabalhava aqui, e ganho quatro vezes menos. Ao serviço d’esta sanguesuga somos sete, todos lá da terra, menos eu. Sabem ler e escrever. Um delles, chamado Jéfim, é muito bulhento...
—E fala muito com elles?
—Está claro. Levei comigo todos os meus folhetos. Tenho trinta e quatro. Mas prefiro servir-me da Bíblia: encontra-se lá tudo o que se quer, e é um livro permittido, publicado pelo Santo-Synodo, e no qual se pode crer.
Piscou o olho, malicioso, e continuou:
—O peor é que não basta. Vim cá buscar leitura. Como vamos fazer uma entrega d’alcatrão, o tal Jéfim e eu, combinámos a patuscada de passar por tua casa... Dá cá livros antes que elle appareça... É inutil que elle fique sabendo...
Pélagué observava-o; parecia-lhe que ao largar a capa, largara tambem qualquer coisa da sua pessôa: estava menos grave do que d’antes, e havia no seu olhar mais astucia.
—Mamã, vae buscar os livros. Dize que vão para o campo, que logo sabem o que te hão de dar.
—Irei apenas o samovar esteja pronto.
—Quero livros proíbidos e bem incisivos. Distribuil-os-ei ás escondidas. E se o padre ou alguem da policia os descobrir, imaginarão que os mestres-escolas é que fazem a propaganda. De mim ninguem suspeitará.
Satisfeito por este achado, desatou a rir.
—Olha sabes? disse Pélagué. Tens assim o aspecto de um urso, e afinal és uma raposa!
Pavel ergueu-se, em tom de censura:
—Dar-lhe-emos os livros que deseja, mas o que pensa fazer não lhe fica bem.
—E porquê?
—Porque se deve responder sempre pelo que se faz.
—Não percebo o que dizes!
—Acha bem que os mestres-escolas sejam mettidos na cadeia como suspeitos de fazerem propaganda?
—Então? que tem isso? Essa é boa! Os livros são coisa que lhes dizem respeito, a elles; portanto elles que tenham a responsabilidade!
Pélagué interveio, mostrando-se da opinião de Rybine, ao que Pavel objectou:
—Se qualquer de nós, o André por exemplo, praticasse uma infracção da lei e me mettessem na cadeia, a mim, o que diria a minha mãe?
—Ah! ah! É um caso melindroso!... exclamou Rybine. Mas assumindo uns ares doutoraes:
—Ainda és muito ingenuo, irmão! Não nos devemos preoccupar com casos de honra, quando trabalhamos por uma causa secreta. Reflecte: quem primeiro caírá na cadeia será a pessoa a quem forem encontrados os livros, e não o mestre. Depois, o texto dos livros auctorisados que os mestres distribuem é o mesmo dos livros proíbidos, com simples differenças de palavras e com menos coisas verdadeiras do que os nossos. Portanto os mestres teem o mesmo fim que eu, mas servem-se de rodeios, ao passo que eu vou por caminho direito; e assim, aos olhos das auctoridades, somos igualmente culpados; não achas? Em terceiro logar, que tenho eu a ver com os mestres-escolas? Não procederia da mesma maneira com um camponez. O mestre-escola é um filho de padre; a mestra uma filha de proprietario; não sei porque se põem a querer levantar o povo. Eu, camponez, não posso conhecer os seus pensamentos de pessôas instruidas. Sei o que faço, mas ignoro o que elles querem. Durante milhares d’annos, os grandes eram verdadeiros senhores e tiravam a pelle do povo; de repente accordam e começam a abrir os olhos ás suas victimas. Nunca tive predilecção por contos de fadas, e este é um d’elles. Para mim, a gente rica e instruida, seja qual fôr, fica afastada de nós. No inverno, quando atravessamos os campos e vemos ao longe alguma coisa a mexer, perguntamos a nós mesmos: será uma raposa, um lobo, um cão? Sabe-se lá o que é!
E, passando a mão pela barba:
—Não tenho tempo para delicadezas. O momento é grave. Trabalhe cada qual, segundo a sua consciencia... Todas as aves teem o seu canto especial.
—Mas ha ricos que se sacrificam pelo povo, que passam toda a vida na cadeia... observou a velha, recordando-se de pessoas amigas.
—Com esses o caso é outro. Quando o homem do povo enriquece, acotovella-se com os senhores. Estes, quando empobrecem, tornam-se amigo do povo. Quando a algibeira está vasia, a alma torna-se pura, á força.
Ergueu-se e continuou, sombriamente:
—Durante cinco annos, desacostumei-me do campo, andando errante de fabrica em fabrica. Quando para lá voltei e vi o que se passava, disse comigo que não podia viver como vivem os camponezes. Percebes? Parecia-me impossivel. Por cá não se conhece a fome, nem a muita humilhação. Mas na aldeia a fome segue o homem como uma sombra durante toda a vida, sem nunca lhe dar a esperança de obter pão que chegue. A fome devorou as almas, apagou as feições humanas; não se vive: apodrece-se irremediavelmente na miseria. E as auctoridades vigiam, cuidadosas; como os corvos, espreitam, não se dê o caso de que o camponez tenha um bocado de pão a mais. Quando o descobrem, arrancam-lho da mão, e ainda lhe dão com elle na cara!
Encostado á mesa, de pé, falando muito perto de Pavel, proseguiu:
—Julguei que não poderia supportar semelhante vida. Todavia, dominei-me. Disse com os meus botões: «Não devo consentir que a minha alma me faça partidas! Ficarei aqui, e, não podendo dar pão aos camponezes, farei a zaragata!»
Com a fronte coberta de suor, exclamou:
—Dá-me livros que não deixem mais em descanso aquelles que os lerem. Ajuda-me! É preciso metter ouriços dentro da cabeça d’aquella gente. Dize aos que escrevem folhetos para os da cidade, que os escrevam tambem para os do campo. Que os escrevam de maneira a regar o campo de agua a ferver, para que os cultivadores, depois de lel-os, caminhem para a morte sem protestarem!
As frases vigorosas de Rybine impressionavam Pélagué. Havia n’aquelle homem o que quer que fosse que lhe recordava o marido: um e outro mostravam os dentes e arregaçavam as mangas, com a mesma irritação impaciente. Ao menos, Rybine falava.
—Sim! é indispensavel! disse Pavel. É indispensavel organisar um jornal para o campo. Dê-nos o assumpto, narre-nos os factos, e nós lhe daremos um jornal.
Ao que Rybine respondeu.
—Está dito! Mas escrevam com simplicidade, para que até os vitellos os entendam!
XXVI
Pélagué tinha saído. Pouco depois alguem entrava.
—É o Jéfim! informou Rybine. Entra! Anda cá. Este homem, que vês aqui, chama-se Pavel. Foi d’elle que eu te falei.
Jéfim era um rapagão de cara ampla, cabellos ruivos, olhos pardos, robusto e bem talhado, trajando uma capa curta. Avançou até Pavel, de boné na mão e olhar baixo.
—Ora viva! resmungou, apertando a mão de Pavel, e tendo percorrido o quarto com o olhar, demorando-o na estante dos livros, poz-se a alisar com a mão os cabellos asperos.
—Já os viu! exclamou Rybine.
Jéfim foi ver os livros mais de perto.
—Ih! quantos ha por cá! E naturalmente lê-os muito. No campo, não temos tempo...
—E pouca vontade, não? perguntou Pavel.
—Ao contrario! Hoje somos obrigados a pensar, se não, não nos resta mais do que deitarmo-nos e esperarmos a morte. Como o povo não quer morrer, poz-se a trabalhar com o cerebro. «Geologia?...» O que é isto?
Pavel explicou.
—Não precisamos d’isso! concluiu Jéfim pondo o livro no seu logar.
Rybine commentou:
—O camponez não tem curiosidade de saber d’onde veio a terra, mas sim como foi distribuida, como os proprietarios a arrancaram de sob o dominio do povo. Que ella se mova ou não, que importa! comtanto que dê de comer!
—«Historia da escravatura!» Isto é com a gente?
—Aqui tem um acerca da servidão.
—É já muito velho.
—Possue algumas terras?
—Somos trez irmãos, e temos quatro hectares... terreno de areia fina. Coisa fresca, para limpar metaes! mas para cultivar o trigo... Eu cá libertei-me da terra. Não sustenta o homem, antes o traz manietado. Ha quatro annos que me alugo como manufactor... Para o outomno vou para a tropa.
O Mikhaíl diz-me que não vá, porque obrigam os soldados a baterem no povo. Mas vou, por força! É tempo de acabar com isto. Que lhe parece?
—É tempo, é... respondeu Pavel, sorrindo. Mas o difficil está em saber falar aos soldados.
—Aprende-se!
—Mas se o apanham em flagrante, podem fuzilal-o.
—Sim... não me perdoarão... respondeu tranquillamente, voltando a vêr os livros.
—Vamos ao chásinho, companheiro, que temos que abalar! disse Rybine.
André entrou muito vermelho, encalorado e taciturno. Apertou a mão de Jéfim, sem falar, assentou-se ao lado de Rybine, e, depois d’olhar para elle, sorriu.
—Pareces triste, homem! Porquê? perguntou aquelle dando-lhe uma palmada no joelho.
—Porque sim!
Jéfim, observava attentamente André, até que disse:
—Os trabalhadores das cidades e villas são magrizellas, teem os ossos a romper a pelle. Nós cá, os do campo, somos mais roliços...
Rybine completou:
—O camponez tem mais firmeza nas pernas. Sente a terra debaixo dos pés, ainda que não lhe pertença. Mas o operario é como um passaro: não tem patria, nem lar; um dia aqui, outro dia ali.
Pélagué entrou. Jéfim tinha-se approximado de Pavel a quem pediu:
—Poderia dar-me um livro?
—Da melhor vontade.
O jubilo brilhou-lhe no olhar.
—Eu restituo depois. Obrigado! Hoje, os livros são tão precisos como á noite uma candeia.
Rybine tinha posto a capa.
—Vamos, que são horas.
—Olha: já tenho que ler! exclamou Jéfim, mostrando-lhe o livro, com um sorriso muito aberto.
Quando elles saíram, Pavel dirigiu-se a André.
—Que me dizes áquelles diabos?
—Parecem nuvens á hora do crepusculo: grossos, sombrios, arrastando-se lentamente...
—Tenho pena de que não chegasses mais cedo. Terias observado um coração, tu, que estás sempre a falar de coração. Rybine disse das suas... Não soube que responder-lhe. A minha mãe tem razão: aquelle homem traz em si uma força terrivel!
—Conheço isso! Essa gente do campo anda envenenada! Quando se revoltarem, derrubarão tudo, sem distincção. Querem a terra absolutamente sua, e arrancarão tudo o que a cobre.
Falava de vagar; percebia-se que pensava n’outra coisa. Pélagué disse-lhe com blandicia:
—Deves espairecer, André!
—Deixe, mãesinha, deixe... Embora eu não quizesse tel-o feito, a acção foi abominavel!
E voltando ao assumpto da conversa:
—O nosso camponez queimará tudo, como se tivesse havido uma peste, para que todos os vestigios das suas humilhações vôem com as cinzas.
—E levantar-se-á depois contra nós... continuou Pavel.
—O nosso dever é não lho consentir, reprimindo-o! Somos nós quem se encontra mais perto d’elle. Acreditar-nos-á... seguir-nos-á!
—Sabes? O Rybine pediu-me que fizessemos um jornal para os camponezes.
—Apoiado! É tratar d’isso.
E depois de commentar as ultimas palavras de Rybine, ergueu-se, dizendo:
—Vou dar um passeio ao campo.
—Depois do banho? Olha que faz muito vento... Vaes arranjar uma irritação na pelle! accudiu Pélagué.
—Deixal-o! Quero saír.
Vestiu-se e foi-se sem dizer palavra.
—Soffre! suspirou a velha.
—Tens um bello coração, mamã!
—Oxalá assim seja! Se ao menos podesse ajudal-os!... se eu soubesse!...
—Não te dê cuidado: has-de saber.
O russo-menor voltou tarde; estava fatigado; deitou-se logo, dizendo:
—Parece-me que andei uns dez kilometros...
—Isso vae melhor?
—Não sei... Não faças barulho... Deixa-me dormir.
Pouco depois, Vessoftchikof appareceu, sujo, esfarrapado e de mao-humor como sempre.
—Não sabes quem matou o Isaías?
—Não! respondeu Pavel.
—Até que houve um homem que não achou antipatico esse feito! E eu que me preparava para torcer-lhe o pescoço!...
—Não digas essas coisas, companheiro!
Pélagué interveio:
—És bom e tens sempre palavras tão crueis!... Para quê?
Era-lhe então agradavel tornar a vêl-o; o seu rosto bexigoso chegava até a parecer-lhe bonito; sentia mais piedade por elle.
—Eu não sirvo para nada, senão para taes emprezas! Pergunto constantemente qual é o meu logar. Não o encontro. Se é preciso falar... não sei... Vejo tudo, sinto todas as humilhações dos homens, e não posso exprimil-as. Tenho uma alma muda. Irmãos, dêem-me um trabalho penoso, seja qual fôr. Não posso viver assim, sem fazer nada em favor da nossa causa.
Pavel pegou-lhe n’uma das mãos.
—Havemos de pensar em ti, descansa.
—André disse lá da cama:
—Ensinar-te-ei a conhecer as letras d’imprensa, e serás um dos nossos compositores; queres?
—Se me ensinares, dar-te-ei de presente uma navalha.
—Vae para o diabo mais a tua navalha!
—Uma navalha bôa! insistia.
André e Pavel riram á larga. Elle parou no meio do quarto, perguntando:
—Estão a rir-se de mim?
—Então de quem?
E o russo-menor saltou da cama.
—Se fossemos dar um passeio pelo campo? A noite está bôa, ha luar. Vamos?
—Pois vamos! apoiou Pavel.
—E eu tambem vou. Gosto de ouvir rir o André!
—E eu gosto que me promettas presentes!
XXVII
...Os dias decorriam com tal rapidez que não deixavam que Pélagué pensasse no primeiro de maio. Só á noite quando se deitava, fatigada dos trabalhos e preoccupações, é que o seu coração se confrangia, e o seu cerebro a fazia monologar:
—Se ao menos já tivesse passado!...
Todas as noites as folhas impressas convidando os operarios a festejarem o primeiro de maio eram colladas até á porta das estações policiaes; todas as manhãs appareciam tambem na fabrica. Os policias percorriam o bairro logo de manhãsinha e arrancavam das paredes os pequenos cartazes côr de violeta; mas pelo meio dia elles tornavam a apparecer espalhados pelo chão. Da cidade vieram policias da secreta que ás esquinas espiavam os menores movimentos dos operarios que iam e vinham, animados, alegres, pelas ruas.
Era um prazer disfructar a impotencia da policia; até a gente de idade dizia, sorrindo:
—Tem graça isto!
Pavel e André quasi não dormiam. Regressavam a casa, palidos, fatigados, pouco antes do apito da fabrica soltar a sua estridula chamada. Pélagué sabia que elles organisavam reuniões na floresta, no pantano; não ignorava que a policia trabalhava para abafar o movimento, chegando até a prender alguns operarios; compreendia que todas as noites o filho e André se arriscavam a serem presos, e chegava a pensar que talvez isto fosse melhor.
Em volta do assassinio de Isaías tinha-se feito um silencio extraordinario. A policia interrogou a principio umas dez pessoas; depois desinteressou-se do assunto.
Um dia, Maria Korsounova, que vivia em paz com a policia como com toda a gente, dizia:
—É lá possivel encontrar o criminoso!... N’aquella manhã mais de cem pessoas viram o Isaías, e pelo menos noventa tel-o-iam esganado de bôa vontade.
...André transformava-se a olhos visto. As faces tinham-se-lhe encovado; as palpebras descaíam-lhe cerrando-lhe os olhos; sorria menos; das narinas descia-lhe uma ruga até ao canto dos labios. Todavia entusiasmava-se mais, falando do futuro, da festa luminosa e deslumbrante do triunfo da liberdade e da razão.
Falando de Isaías, declarou:
—Quanto mais penso n’elle, mais dó me causa. Não queria que o matassem, não! não queria!
—Acaba com isso! disse Pavel.
Pélagué acrescentou:
—Houve quem topasse n’um tronco pôdre, que se desfez em pó.
...Chegou emfim o dia tão impacientemente desejado: o primeiro de maio.
Como de costume, o apito da fabrica fez-se ouvir auctoritario, implacavel. Pélagué levantou-se d’um salto e foi accender o samovar, que ficára preparado de vespera.
—Ouves, Pavel? Chamam por nós... disse André.
—E nós levantamo-nos! respondeu Pavel alegremente.
—Já faz sol... e as nuvens vão-se embora. Seriam de mais, hoje!
Ao vêl-o perto de si, a velha supplicou-lhe:
—Meu André, não te afastes d’elle!
—Está dito! Andaremos sempre juntos. Descanse.
—Que estão a dizer? perguntou Pavel.
—Nada. É a mãe que quer que eu me lave mais que de costume, porque as raparigas hoje vão olhar muito para mim!
Pélagué pensava: «Elles agora estão de brincadeira; mas o que acontecerá ao meio dia?»
Á meza, tomando o chá, André contou:
—Quando eu era um garoto de dez annos, tive um dia a ambição de apanhar um raio de sol com o meu copo. Parti o copo, cortei a mão, e levei pancada. Saí depois para o pateo, e como o sol se reflectisse n’uma poça d’agua, saltei n’ella aos pulos. Levei mais pancada porque fiquei coberto de lama. Berrei para o sol: «Isto não faz mal! seu diabo ruivo! isto não faz mal!» E deitei-lhe a lingua de fóra, por vingança.
—Porque lhe chamavas diabo ruivo?
—Defronte de nós morava um ferreiro de cara vermelhaça e barba ruiva; era um rapagão sempre alegre; e eu achava que o sol se parecia com elle.
Pélagué exclamou:
—Ora esta! Pois não seria melhor que falassem do que vão fazer?
—Está tudo organisado! replicou o filho.
—No caso de sermos presos, mãesinha, o Nicolao Ivanovitch virá dizer-lhe o que tem a fazer, auxiliando-a em tudo.
O apito da fabrica tinha tocado de novo, mas dir-se-ia já menos firme, como receoso.
Pavel aventou:
—Se fossemos para a rua?...
—Não. Deixa-te estar em casa até á hora... aconselhou André. Para que has de atrahír a attenção da policia, que te conhece perfeitamente?
...Fédia Mazine entrou radiante.
—O povo já se mexe... Pelas ruas, as caras andam severas como machados. Vessoftchikof, Vassili Goussef e Samoílof estão á porta da fabrica e falam aos operarios... Muitos já voltam para casa. Vamos! são dez horas.
—Vamos! disse Pavel, resoluto.
Pélagué exclamou:
—Arde de impaciencia, como uma vela ao vento!
Levantou-se e passou logo á cosinha para vestir-se.
—Que vae fazer, mãe?
—Arranjar-me para ir tambem!
André lançou um olhar a Pavel, puxando pelo bigode. Rapidamente, elle foi ter com a mãe.
—Não falarei comtigo, nem tu comigo. Está combinado?
—Está combinado! Deus os acompanhe!
XXVIII
Quando na rua ella ia ouvindo o murmurio das vozes, quando via por toda a parte, nas janellas, ás portas das casas, grupos que seguiam com o olhar André e Pavel, o coração ora parecia brilhar-lhe, ora toldar-se de uma nuvem opaca.
Ouviam-se frases soltas:
—Ali vem os commandantes do exercito!
—Sabemos lá quem são os commandantes?!...
—Isto não foi por mal.
—Se a policia os agarra, estão perdidos!
—Isso agarra ella!
Um grito agudo, de mulher, partiu d’uma janella.
—Estás doido? És pae de familia!... Elles são solteiros!
Ao passarem defronte da casa de um tal Zossimof, operario inhabilitado que vivia d’uma pensão da fabrica, elle chegou á janella e berrou:
—Ó Pavel, olha que te cortam a cabeça, como a um salteador!
André e Pavel pareciam não ver, não ouvir nada. Caminhavam, calmos, sem pressa, falando em voz alta de varios assuntos.
Encontrando Mironof, homem d’idade, modesto, respeitado pela vida exemplar que levava:
—Tambem não trabalha hoje, Danilo Mironof? perguntou Pavel.
—A minha mulher está com as dôres do parto... e depois... anda uma coisa no ar... Dizem que os srs. querem fazer escandalo, partir os vidros da fabrica...
—Não somos uns bebados! exclamou Pavel.
André explicou:
—Atravessaremos apenas as ruas, levando bandeiras e cantando o hymno da liberdade. Oiça o nosso hymno, que elle lhe ensinará as nossas crenças.
—Já as conheço...
E vendo Pélagué:
—Tambem tu?
—Devemos caminhar com a verdade, mesmo á beira da cova.
—É isso! Aqui está porque dizem que tu levas folhetos proíbidos para a fabrica.
—E quem o diz? perguntou Pavel.
—Toda a gente. Adeus... adeus... Não façam algum disparate.
Pélagué poz-se a rir baixinho: envaidecia-a que assim falassem d’ella. O filho disse-lhe:
—Mettem-te na cadeia, mamã.
—Quem me dera!
Á esquina d’uma pequena praça, á entrada de uma rua estreita, umas cem pessoas cercavam Vessoftchikof, que discursava.
—Espremem-nos para nos tirarem o sangue, como espremeriam um limão para lhe tirarem o succo.
—É verdade! responderam algumas vozes que se confundiram depois no confuso ruido.
—Faz o que pode, o pobre rapaz! disse André. Vou ajudal-o.
Approximou-se do grupo, abaixou-se, penetrou n’elle como um sacca-rôlhas e começou:
—Companheiros! Dizem que ha na terra toda a especie de povos: judeus e allemães, francezes, inglezes, tartaros. Mas não creio que assim seja. Ha só duas raças, dois povos irreconciliaveis: os ricos e os pobres. Os vestuarios são differentes, as linguas tambem; mas quando se vê como os senhores tratam o povo, compreende-se que elles são verdadeiros carrascos para os miseraveis, uma especie de espinha atravessada na garganta.
Rebentou uma gargalhada.
O ajuntamento augmentou; os ouvintes estendiam o pescoço, punham-se nos bicos dos pés.
—No estrangeiro, os operarios já compreenderam esta simples verdade. E hoje todos confraternisam n’este luminoso dia primeiro de maio. Deixam o trabalho, e saem para a rua, para se verem, para medirem a sua grande força. Hoje formam um coração unico, porque todos os corações têem a consciencia da força do povo operario, porque a amisade os une, estando cada qual disposto a sacrificar a vida luctando pela felicidade de todos, pela liberdade, pela justiça a todos!
—A policia! gritou alguem.
Dez guardas a cavallo voltaram a esquina proxima e dirigiram-se para o ajuntamento, de chicote no ar, e intimando:
—Nada de ajuntamentos!
—Girem!
—Que conversas eram essas?
—Quem falava?
As fisionomias annuviaram-se: todos davam passagem aos cavallos; alguns treparam a uns tapumes.
Depois veio a troça.
—Olhem: montaram uns porcos a cavallo, e elles grunhem: «Nós tambem damos ordens!»
André ficou sósinho no meio da rua. Dois cavallos avançaram para elle, ao mesmo tempo que Pélagué o agarrava, dizendo-lhe:
—Prometteste não abandonar o Pavel, e vens expôr-te assim!...
...Chegaram afinal á grande praça, ao centro da qual se erguia a egreja. No largo havia umas quinhentas pessoas, movendo-se impacientes.
—Mitia! supplicava uma voz feminina. Tem cuidado em ti!
—Deixa-me em paz!
A voz amiga e grave de Sizof dizia, calma e persuasiva:
—Não! não devemos abandonar os rapazes. Teem mais juizo do que nós, e mais audacia. Quem foi que se metteu no caso do kopeck para o pantano? Foram elles. Não nos esqueçamos. Estiveram na cadeia por causa d’isso, mas todos nós aproveitámos da sua coragem!
O rugido do apito da fabrica supplantou o ruido das conversas. A multidão estremeceu; muitos empallideceram.
—Companheiros! gritou Pavel.
A seu lado, a mãe tremia. Decorridos instantes, quando tudo caíra em silencio:
—Irmãos! Chegou a hora de renegarmos d’esta vida cheia d’aridez, de trevas e de odio, esta vida de oppressão em que não ha um logar para nós, em que não somos homens! Companheiros! resolvemos declarar hoje, abertamente, quem somos, desfraldando a nossa bandeira, a bandeira da razão, da verdade, da liberdade!
Um pao de bandeira comprido e branco for levantado ao ar, tremulando n’elle, como uma ave vermelha, a bandeira do povo operario.
Pavel estendeu o braço, gritando:
—Viva o povo operario!
Centenares de vozes lhe responderam em unisono.
—Viva o nosso partido, companheiros! Viva a liberdade do povo russo!
Mazine, Samoílof, os dois Goussef tinham-se postado junto de Pavel; Vessoftchikof ia empurrando quem lhe impedia o caminho até elle. Pélagué, trémula, com os olhos cheios de lagrimas, agarrou-lhe novamente n’uma das mãos, balbuciando:
—Sim!... é a verdade!... meus amigos!
Elle contemplava a bandeira, rugindo palavras vagas, e com a outra mão estendida para o símbolo da liberdade. Depois abraçou-se a Pélagué, rindo.
—Companheiros! começou então André, dominando o sussurro com a sua voz meiga, potente e cantante. Erguemo-nos em honra d’um novo Deus, do Deus da luz e da verdade, da razão e da bondade! Partimos para a cruzada, companheiros, e o caminho será comprido e difficil. O fim está distante, e os espinhos estão proximo. Queremos ao nosso lado os que vejam o fim e creiam no bom exito; os outros não, porque só os esperam o pezar e o soffrimento. Entrae nas fileiras, companheiros! Viva o primeiro de maio, a festa da humanidade livre!
Pavel ergueu a bandeira.
—Reneguemos do velho mundo! cantou Fédia Mazine com voz sonora.
A resposta veio logo como uma enorme vaga potente:
—Saccudamos a poeira dos pés!
Pélagué, com um sorriso ardente, via por cima da cabeça de Fédia, o filho e a bandeira. No meio das vozes mais proximas que entoavam o hymno, chegava-lhe aos ouvidos a de André:
Ergue-te, ergue-te, ó povo operario! Revoltae-vos, esfomeados!...
E o povo corria, apertava-se, avançando para a bandeira, proseguindo no hymno, que em voz baixa tinha sido aprendido em casa.
Corramos para aquelles que soffrem...
Um rosto de mulher, meio jubiloso e meio assustado, surgiu ao lado de Pélagué.
—Mitia, onde vaes?
E a velha respondeu:
—Deixe-o lá! Não lhe dê cuidado! Eu tambem tinha mêdo, d’antes. O meu está á frente de todos. Aquelle que tem na mão a bandeira é o meu filho!
A outra porem continuava:
—Ó desgraçado! que fazes? Os soldados estão ali adiante!
—Não se assuste! Isto é uma missão sagrada! Até Jesus não teria existido, se não houvesse homens que morreram por sua causa!
Sizof appareceu perto d’ella, agitando no ar o boné, ao compasso do hymno:
—Isto é que é bem ás claras! ãn? Inventaram um hymno que é mesmo lindo! ãn?
O tzar quer soldados na tropa: Vossos filhos lhes daes...
—Não teem medo de nada! exclamou Sizof. O meu filho está na cova... Foi a fabrica que o matou!
Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
A multidão, allucinada, nem olhava para traz de si, com os olhos fitos na bandeira vermelha, que balouçava ao vento.
—Bello côro! bravo, rapaz! berrava um entusiasta; e invadido por um sentimento, que não sabia exprimir, desatou a rogar pragas.
D’uma janella partiu uma voz de canna rachada:
—Hereticos! Revoltarem-se contra Sua Majestade o Imperador! contra o tzar!
Mas o hymno continuava, firme, altivo.
Pélagué, que no meio dos encontrões, fôra sendo empurrada para distante do centro do grande ajuntamento, ouvia então frases soltas:
—Perto da escola está uma companhia de soldados, e outra na fabrica...
—O governador já chegou...
—O quê? é verdade?
—Vi-o com os meus olhos!
—Ainda bem! Começam a ter medo de nós! Já nos mandam soldados, e o governador.
As vozes do côro foram enfraquecendo; dir-se-ia um movimento de recúo. Alguns iam-se calando. Aqui e ali havia quem tentasse animar de novo o hymno moribundo.
Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido! Ao inimigo, ó gente esfaimada!
Pélagué não podia ver o que se passava no centro; abrindo á força caminho, notou que a multidão tendia a dispersar, de cabeça baixa, sobrolhos franzidos, com as narinas contrafeitas. Ouviam-se já alguns assobios trocistas.
—Companheiros! gritava Pavel. Os soldados são homens como nós. Não nos farão mal. Porque haviam de fazel-o? Porque levamos a liberdade a todos? Mas precisam tambem da nossa verdade. Não compreendem ainda, mas tempo virá, e muito em breve, em que entrarão nas nossas fileiras, em que já não marcharão sob o estandarte dos gatunos e dos assassinos, mas sim á sombra da nossa bandeira da liberdade e do bem! E para que elles compreendam mais depressa a nossa liberdade, caminhemos para a frente! Ávante! companheiros! ávante!
A sua voz era firme, mas o rebanho dispersava.
XXIX
Pélagué distinguiu á entrada da rua um como pequeno muro, cinzento baixo, composto de seres humanos sem fisionomia e que tapavam a saída da praça.
Era este muro que infundia o receio em toda aquella gente.
—Companheiros! continuava Pavel. A vida inteira está na nossa frente! Não temos outro caminho! Cantemos! P’rá frente!
Respondeu-lhe um silencio esmagador. A bandeira ergueu-se, balouçou, e agitando-se por sobre as cabeças, apontou para o muro cinzento dos soldados. Pélagué estremeceu, fechou os olhos e suspirou: apenas quatro pessôas se tinham destacado da multidão e avançavam: Pavel, André, Samoílof e Mazine.
Ouviu-se a voz trémula de Fédia, cantando:
—«Sois as victimas prostradas!...»
—Na grande lucta fatal! continuaram duas vozes como dois suspiros abafados.
E uma voz de commando chegou aos ouvidos de alguns:
—Cruzar baionetas!
O muro cinzento agitou-se, as baionetas fuzilaram no ar, na direcção da bandeira.
—Marche!
—Ahi veem elles! exclamou um vesgo que estivera proximo de Pélagué; e mettendo as mãos nas algibeiras, afastou-se com grandes pernadas.
Os soldados avançavam em fila, de baioneta calada. Pélagué approximou-se do filho, com as mãos no peito e viu André collocar-se na frente d’elle, como para protegel-o.
—Ao meu lado, companheiro! ordenou Pavel.
Com as mãos nas costas, André cantava, de cabeça erguida, avançando sempre. Pavel deu-lhe um encontrão com o hombro, exclamando:
—Aqui! ao meu lado! Não tens o direito de ir á minha frente! O primeiro deve ser o porta-bandeira!
—Dis... per... sae!... gritava um officialsito com voz aguda, de sabre no ar, marchando sem dobrar os joelhos e batendo com os tacões, raivoso.
A seu lado, um pouco atraz, marchava pesadamente um homem muito alto de farto bigode branco, com uma grande capa cinzenta, debruada de vermelho, e as amplas calças listradas de amarello. Como o russo-menor, caminhava com as mãos nas costas. Tinha os olhos cravados em Pavel.
Os da bandeira e os soldados iam-se approximando; estes, no seu caminho, iam fazendo dispersar a multidão sem lhe tocar.
—Salve-se quem puder!
—Vem, Vlassof!
—Para traz, Pavel!
—Dá cá a bandeira, Pavel! dizia Vessoftchikof. Eu a escondo.
E deitou-lhe a mão.
—Deixa! berrou Pavel.
O bexigoso retirou logo a mão, como se se tivesse queimado. O hymno cessára de todo. Os rapazes pararam, envolvendo Pavel n’um circulo, que elle acabou por transpor.
Sob a bandeira haveria, quando muito, uns vinte homens; mas firmes.
—Tenente, prenda aquelle! ordenou o velho alto apontando para Pavel.
O officialsito accorreu logo, e agarrou no pao da bandeira.
—Dá cá isso!
—Não! Abaixo os oppressores do povo!
A bandeira tremia; inclinava-se ora para a direita, ora para a esquerda, ficando depois erecta. Vessoftchikof passou pela frente de Pélagué, com o braço erguido, de punho cerrado, e com uma rapidez que ella não lhe conheceu.
—Agarrem todos! berrou o velho, batendo com o pé.
Alguns soldados avançaram, um d’elles com a coronha no ar; a bandeira estremeceu, baixou e desappareceu no grupo cinzento.
Pélagué soltou um grito, um rugido que não tinha nada de humano. Aos ouvidos chegou-lhe a voz do filho:
—Até á vista, mãe! até á vista!
«Está vivo! não se esqueceu de mim!» taes foram os seus dois rapidos pensamentos.
Poz-se nos bicos dos pés e conseguiu ver a cara de André.
—Meus filhos, meus queridos filhos! André! Pavel!
E elles iam dizendo:
—Até á vista, companheiros!
Algumas vozes lhes responderam, mas não em unisono; vinham das janellas, dos telhados, não se sabia d’onde.
XXX
Alguem deu um empurrão em Pélagué. Atravez do nevoeiro que lhe toldava os olhos, viu diante d’ella o officialsito, que lhe gritou:
—Vae-te d’aqui, velha!
Mediu-o com o olhar d’alto a baixo, viu-lhe aos pés o pao da bandeira partido em dois; a um dos pedaços estava preso um resto da bandeira. Abaixou-se para apanhal-o. O official arrancou-lho das mãos, lançou-o para distante, e ordenou de novo:
—Vae-te, velha!
Do meio dos soldados partiu o estribilho:
—Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
O official retrocedeu, rapido, e esganiçou-se, ordenando:
—Façam-os calar! Krainof...
Vacilante, Pélagué apanhou outra vez o destroço da bandeira. A dez passos d’ella formára-se novo ajuntamento. Urravam, grunhiam, assobiavam, recuando lentamente, e dispersando para os pateos visinhos.
—Vae para o diabo! berrou um soldado, empurrando Pélagué para cima do passeio.
Para não caír, porque os joelhos vergavam, ella caminhava apoiada ao destroço da bandeira, ouvindo sempre atraz de si os soldados. Até que estes passaram-lhe á frente.
Parou. Á entrada da rua, um cordão de tropa impedia a passagem para a praça, que ficára deserta. Quiz voltar para traz, mas sem saber o que fazia, continuou para a frente; metteu-se por uma ruasinha estreita. Parou de novo. Ao longe, o povo susurrava.
A ruasita quebrava perto d’ella para a esquerda. N’um grupo compacto discutia-se.
—Não é por insolencia que elles affrontam as baionetas, irmãos!
—Viram, ãn! Os soldados a marcharem sobre elles, e elles impassiveis! sem medo!
—Que valente é o Pavel Vlassof!
—E o russo-menor!
—Meus amigos! boa gente! exclamou ella, avançando.
—Olhem: traz na mão o resto da bandeira!
—Cala-te! ordenou uma voz severa.
Ella estendeu o braço, com um gesto largo.
—Escutem, em nome de Jesus! Sois todos dos nossos, gente sincera. Abride os olhos... olhae sem receio... O que se passou? Os nossos filhos levantam-se, pacificamente... Os nossos filhos, o nosso sangue, levantam-se em nome da verdade, abrem lealmente um caminho novo, largo, direito, destinado a todos... Por todos vós, pelos vossos filhos, empreendem uma cruzada... dirigindo-se para um mundo cheio de encanto. Em nome de todos e pelo nome de Christo, caminham contra todas as coisas por meio das quaes os maos, os mentirosos, os rapinantes, nos prendem, nos estrangulam prisioneiros. Meus amigos! é pelo povo, pelo mundo inteiro, por todos os opprimidos que os nossos filhos se sublevaram. Não os abandoneis, não os renegueis, não deixeis os vossos filhos seguirem sósinhos a sua estrella. Tende piedade de vós mesmos... amae-os... compreendei aquelles corações juvenis... tende confiança n’elles.
Fatigada, avergou. Alguem amparou-a.
—É Deus que a inspira! disse um d’elles. É Deus que a inspira, amigos! Escutem-na!
Outro lamentou-a:
—Ah! está-se matando!
—Não se está matando, não, idiota! A nós é que fére, fica sabendo!
A mesma voz aguda e anciosa tornou a fazer-se ouvir:
—Christãos! O meu Mitia... A sua alma é pura... O que fez elle? Seguiu os seus companheiros muito queridos. Fez bem. Por que abandonaes os nossos filhos? Que mal fizeram elles?
Sizof disse a Pélagué:
—Volta para casa... Vae... Estás arrazada!
Passando depois pelo auditorio o olhar severo:
—O meu filho Matwei foi esmagado, na fabrica, bem sabeis. Mas se vivesse, eu proprio o teria mandado entrar nas fileiras d’aquelles... Ter-lhe-ia dito. «Vae com elles, vae, porque defendem uma causa justa, uma causa santa!» É um velho quem lhes está falando. Conhecem-me todos. Ha trinta e nove annos que trabalho aqui... ha cincoenta e sete que vivo n’este mundo. O meu sobrinho, um bello rapaz, intelligente e honrado, foi preso hoje outra vez. Ia tambem á frente de todos com o Vlassof, ao lado da bandeira.
E pegando na mão de Pélagué:
—Esta mulher disse a verdade. Os nossos querem viver com honra, segundo o que manda a razão; e nós... nós abandonamol-os! Vae para casa, minha velha, vae!
—Meus amigos, a vida é para os nossos filhos! é para elles a terra! disse ella passando pela multidão o olhar toldado de lagrimas.
—Vae, Pélagué, vae... Toma o teu arrimo!
E deu-lhe o destroço da bandeira.
Olhavam para a velha com respeitosa tristeza; seguiu-a um murmurio de compaixão. Sem falar, Sizof abria-lhe caminho; e o povo afastava-se sem protesto, obedecendo a uma força inexplicavel, trocando em voz baixa breves palavras de lamento.
Ao chegar á porta de casa, Pélagué voltou-se para elles, e disse com muito reconhecimento:
—Obrigada a todos!
E accrescentou:
—Nosso Senhor Jesus Christo não teria vindo ao mundo, se os homens não morressem pela sua gloria!
A multidão olhou para ella em silencio.
Quando Pélagué entrou em casa acompanhada por Sizof, houve ainda na rua algumas frases em que a reflexão dominava... Depois todos dispersaram, vagarosos.