← Table of contents
A Mãe

PRIMEIRA PARTE

Augusto de Lacerda translation

I

Todos os dias, na atmosphera esfumaçada e grave do bairro operario, o apito da fabrica lançava aos ares o seu grito estridulo. Então, creaturas toscas, com os musculos ainda fatigados, sahiam rapidamente das pequenas casas pardacentas e corriam como baratas assustadas. Na fria meia-luz, iam pela rua estreita em direcção aos altos muros da fabrica que os esperava implacavel e cujos inumeros olhos quadrados, amarellos e viscosos illuminavam a calçada lamacenta. A lama estalava sob os seus pés. Vozes estremunhadas resoavam com roucas exclamações; pragas cortavam o ar; e uma onda de ruidos vagos acolhia os operarios: a pesada traquinada das maquinas, o regougar do vapor. Sombrias e mal encaradas como sentinellas, as altas chaminés negras prefilavam-se acima do bairro, semelhantes a grossos bastões.

Á tarde, quando o sol ia no poente, os seus raios vermelhos illuminavam as vidraças das casarias, a officina vomitava das suas entranhas de pedra todas as escorias humanas, e os operarios enegrecidos pelo fumo, espalhavam-se novamente pelas ruas, deixando atraz de si exhalações lentas da gordura das maquinas; os seus dentes esfaimados reluziam. Então havia na sua voz animação e até alegria: os trabalhos forçados tinham concluido por algumas horas; em casa aguardava-os a refeição e o descanço.

A fabrica absorvia o dia, as maquinas sugavam nos musculos dos homens todas as forças de que ellas precisavam. O dia fôra riscado do computo da vida, sem deixar vestigios; o homem tinha dado mais um passo para o tumulo, sem d’isso se aperceber; mas podia entregar-se ao goso do descanço, aos prazeres da sordida taverna, e estava satisfeito.

Nos dias santificados, dormia-se até quasi ás dez horas da manhã; depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia á missa, censurando aos novos a sua indifferença em materia religiosa. Ao regressarem da egreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo até á tarde.

A fadiga accumulada durante longos annos tirava o appetite; para poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estomago preguiçoso com a ardencia do alcool.

Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuiam capas de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse secco; os que tinham um guarda-chuva, com elle sahiam, ainda que fizesse sol. Não é dado a toda a gente possuir um impermeavel ou um guarda-chuva, mas cada qual ambiciona superiorisar-se ao seu visinho, seja de que maneira fôr.

Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fabrica, das maquinas, dizia-se mal dos contramestres. As palavras e os pensamentos não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A intelligencia desastrada e impotente lançava apenas umas scentelhas isoladas, um tenue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres, batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos ficavam na taverna ou organisavam pequenas reuniões em casa d’um ou d’outro, tocavam harmonio, cantavam canções estupidas e ignobeis, dançavam, contavam historias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensivel que precisava de encontrar sahida. Então, pelo mais futil pretexto, atiravam-se uns aos outros como animaes selvagens. Havia contendas sangrentas.

Nas relações dos operarios entre si, dominava este mesmo sentimento d’animosidade encubada; inveterara-se n’elles, tanto como a fadiga dos musculos. Estes seres nasciam com a doença da alma, herança de seus paes; e como uma sombra negra acompanhava-os até ao tumulo, impellindo-os á realisação de actos repellentes pela sua inutil crueldade.

Nos dias santificados, os novos regressavam tarde a casa, com os fatos esfarrapados, cobertos de lama e de poeira; com as caras esmurradas, gabavam-se dos murros que tinham dado nos companheiros; as injurias soffridas encolerisavam-nos ou faziam-nos chorar; eram lastimaveis na sua embriaguez, desgraçados e repugnantes. Por vezes, os paes levavam para casa os filhos que haviam encontrado a cahir de bêbedos na rua ou na taverna; as injurias e os murros choviam nos rapazes embrutecidos ou excitados pela aguardente; depois mettiam-nos na cama com tal ou qual precaução, e pela manhã accordavam-nos, apenas o silvo do apito da fabrica cortava os ares.

Embora repreendessem os rapazes e lhes batessem, a sua embriaguez e as suas contendas eram coisas naturaes para a familia; quando os paes eram ainda novos tinham bebido tambem e entrado em desordens, sendo egualmente castigados pelos paes e pelas mães. A vida decorria sempre assim; continuava a decorrer, não se sabia até onde, regular e lenta como um rio lodoso.

Appareciam por vezes no bairro creaturas estranhas, que a principio despertavam a attenção, simplesmente porque eram desconhecidas; mas dentro em pouco habituavam-se a ellas, e acabavam por passar despercebidas. Das suas conversas concluia-se que a vida do operario era em toda a parte a mesma coisa. E desde que era assim, para que falar sobre tal assumpto?

Havia porem alguns que diziam coisas novas para o bairro. Não discutiam com elles, não prestavam mais do que uma attenção incredula ás suas palavras extravagantes, que excitavam n’uns uma irritação cega, n’outros uma especie d’inquietação, ao passo que outros ainda sentiam-se perturbados por uma vaga esperança, e desatavam a beber ainda mais que de costume para afastarem tal impressão.

Se o recemchegado apresentava algum traço caracteristico extraordinario, os moradores do bairro punham-no em rigorosa quarentena, tratavam-no com instinctiva repulsão, como se receassem vel-o trazer para a existencia de todos o que quer que fosse perturbador do rame-rame penoso, mas tranquillo. Acostumados a serem opprimidos pela vida, aquella gente considerava todas as transformações possiveis como proprias somente a tornarem o seu jugo ainda mais pezado.

Resignados, faziam o vacuo em torno d’aquelles que pronunciavam palavras estranhas. Então estes desappareciam não se sabe para onde; se ficavam na fabrica, viviam á parte, não conseguindo confundir-se na multidão uniforme dos operarios.

Depois de ter vivido assim uns cincoenta annos, o homem morria.

II

D’esta maneira vivia o serralheiro Mikhaíl Vlassof, homem sombrio, de pequeninos olhos desconfiados e maus, protegidos por espessas sobrancelhas. Era o melhor serralheiro da fabrica e o hercules do bairro. Tinha porem modos grosseiros para o chefe; por isto ganhava pouco; todos os domingos sovava algum; todos o temiam e ninguem o estimava. Por varias vezes, haviam tentado dar-lhe uma tareia, mas nunca conseguiram. Quando Vlassof previa uma agressão, agarrava n’uma pedra, n’uma taboa, n’um bocado de ferro, e, solidamente firme nas pernas abertas, esperava em silencio o inimigo.

Com a cara coberta, desde as orelhas até ao pescoço d’uma barba negra, as suas mãos pelludas despertavam um terror geral. Principalmente tinham medo dos seus olhos penetrantes que atravessavam o proximo como pontas d’aço; quando lhe encontravam o olhar, sentiam-se em presença d’uma força selvagem, inaccessivel ao terror, prestes ao ataque impiedoso.

—Eh lá! Vá d’aqui, canalha! dizia elle roucamente.

Na espessa tez do seu rosto, os dentes amarellos brilhavam ferozes. Os seus adversarios recuavam, invectivando-o.

—Canalha! gritava elle ainda, e os seus olhos disparavam sarcasmos acerados como sovelas. Depois, erguendo a cabeça com ares provocadores, seguia os seus inimigos, berrando de quando em quando:

—Então! quem quer morrer?

Ninguem queria.

Falava pouco. A sua expressão favorita era: «canalha». Qualificava assim os chefes da fabrica e da policia; empregava o mesmo epitheto quando se dirigia á mulher.

—Ó canalha, não vês que as minhas calças estão rôtas?

Quando o seu filho Pavel tinha quatorze annos, Vlassof sentiu ainda uma vez o desejo de levantal-o ao ar pelos cabellos. Mas Pavel, deitando a mão a um martello, disse resumidamente:

—Não me toques!

—O quê? perguntou o pae, encaminhando-se para o pequeno de fôrmas esbeltas e delicadas. Dir-se-ia uma sombra cahindo sobre uma betula.

—Basta! exclamou Pavel. Não te deixarei continuar...

E agitou o martello, abrindo desmedidamente os grandes olhos negros.

O pae olhou para elle, pôz as mãos pelludas atraz nas costas, e disse em ar de troça:

—Está bem...

Depois accrescentou com um profundo sorriso:

—Ah! canalha!

Logo declarou á mulher:

—Nunca me peças mais dinheiro para os sustentar, a ti e ao Pavel.

—Vaes gastar tudo na bebida? ousou ella perguntar.

Deu um murro na meza, exclamando:

—Que tens tu com isso, canalha? Vou arranjar uma amante!

Não a arranjou; mas a partir d’aquelle dia até á morte, durante cerca de dois annos, nunca mais olhou para o filho nem lhe dirigiu palavra.

Tinha um cão tão forte e pelludo como elle. Todas as manhãs o animal o acompanhava até á porta da fabrica, onde o esperava á tarde. Nos dias santificados, Vlassof ia para a taverna. Andava sem dizer palavra, e como se procurasse o que quer que fosse, lançando olhares furtivos aos que passavam. Durante todo o dia, o cão seguia-o, com a espessa cauda descahida. Quando Vlassof, bêbedo, entrava em casa, ceava e dava de comer ao cão no seu proprio prato. Nunca batia no animal, assim como não lhe ralhava nem o acariciava. Depois da refeição, se a mulher não conseguia levantar a meza no momento opportuno, atirava com a louça ao chão, punha na sua frente uma garrafa de aguardente e, com as costas contra a parede, com a bôca muito aberta e os olhos fechados, cantava em voz roufenha uma canção melancólica. Os sons discordantes baralhavam-se-lhe no bigode, do qual cahiam migalhas de pão; os seus dedos grossos alizavam os pellos da barba. As palavras da canção eram incompreensiveis, arrastadas, a melodia recordava os urros dos lobos no inverno. Cantava emquanto durava a aguardente; depois estirava-se no banco ou encostava a cabeça á meza e dormia assim até que o apito da fabrica o chamava. O cão deitava-se ao seu lado.

Morreu d’uma hernia, apoz longa agonia. Durante cinco dias, enegrecido pelo soffrimento, agitou-se incessantemente no leito, com as palpebras cerradas, com a bôca em contorsões. De quando emquando, dizia para a mulher:

—Dá-me arsenico. Envenena-me! Ella chamou o medico, que receitou cataplasmas, informando de que seria indispensavel uma operação, e de que era preciso levar o doente para o hospital immediatamente.

—Vae para o diabo, canalha! Morro bem, sósinho! respondeu elle.

Quando o medico sahiu, a mulher lavada em lagrimas, quiz resolvel-o a submetter-se á operação; Milkhaíl declarou-lhe ameaçando-a de punho cerrado:

—Não experimento. Se eu ficasse bom, haverias de pagal-o caro!

Uma manhã, morreu, emquanto o apito da fabrica chamava os operarios ao trabalho. Deitaram-no no caixão; tinha o sobrolho franzido e a bôca aberta. Foi levado á ultima morada pela mulher, pelo filho, pelo cão, e por Danilo Vessoftchikof, velho ladrão e bêbedo expulso da fabrica, e por alguns miseraveis do bairro. A mulher chorou um pouco. Pavel tinha os olhos sêccos. Os que encontraram o prestito funebre pararam e persignaram-se, dizendo:

—Com certeza que Pélagué está satisfeita com a morte do marido.

Alguem emendou:

—Não morreu: rebentou.

Depois do caixão descer á terra, os que o acompanharam voltaram para casa; o cão ficou deitado na terra humida, farejando por muito tempo. Decorridos alguns dias, mataram-no; não se soube quem.

III

Certo domingo, uns quinze dias depois da morte do pae, Pavel entrou em casa embriagado. Parou cambaleando na primeira divisão, e gritou para a mãe, dando um murro na meza, como fazia Mikhaíl:

—A ceia!

Pélagué approximou-se, assentou-se ao seu lado; enlaçando-o com os braços, puxou para o peito a cabeça do filho. Elle repelliu-a, pondo-lhe o braço no hombro, e disse:

—Depressa, mamã!

—Patetinha! respondeu ella com voz triste e carinhosa.

—Tambem quero fumar! Dá-me o cachimbo do pae... rosnou, movendo a custo a lingua rebelde.

Era a primeira vez que se embriagava.

O alcool tinha enfraquecido o seu corpo, mas não lhe extinguira a consciencia; perguntava a si proprio:

—Estou bêbedo?... Estarei bêbedo?

As caricias da mãe vexavam-no; estava commovido pela tristeza do olhar d’ella. Tinha vontade de chorar; e para vencer este desejo fingiu-se ainda mais embriagado.

E a mãe acariciava-lhe os cabellos em desordem e cobertos de suor, dizendo suavemente:

—Não devias ter feito isso...

Pavel começava a sentir nauseas.

A seguir aos vomitos, foi levado para a cama pela mãe, que lhe collocou uma toalha humida na fronte pálida. Repoz-se um pouco; mas tudo lhe andava á roda; as palpebras pezavam-lhe; tinha na bôca um gôsto repugnante e amargo; olhava para o rosto da mãe e tinha pensamentos sem nexo.

—É ainda cedo para mim... Os outros bebem sem ficarem doentes; eu tenho nauseas.

A doce voz da mãe chegava-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe:

—Como poderás sustentar-me, se te entregas á bebida?

Respondeu, fechando os olhos:

—Todos bebem...

Pélagué suspirou profundamente. O filho tinha razão. Ella bem sabia que os homens não encontrariam outro sitio senão a taverna para se divertirem, que não tinham outro prazer senão o alcool. No entretanto, retorquiu:

—Tu não precisas de beber! O teu pae bebeu á farta por ti; e bastante me atormentou... Deves ter piedade da tua mãe.

Ouvindo estas palavras melancólicas e resignadas, Pavel pensou na existencia silenciosa e apagada d’aquella mulher, esperando sempre os espancamentos do marido. Nos ultimos tempos, Pavel pouco se demorava em casa, para não ver o pae; desprezava um tanto a mãe; regressando ao seu estado normal, examinava-a.

Era alta e levemente corcovada; o seu corpo pesado, abatido por incessante trabalho e por maus tratos, movia-se sem ruido, obliquamente, como se ella receasse topar n’alguma cousa. O largo rosto oval, sulcado de rugas e ligeiramente empapuçado, tinha a dar-lhe brilho uns olhos negros, de uma expressão triste e inquieta como o de quasi todas as mulheres do bairro. Na testa uma cicatriz profunda fazia-lhe subir um pouco o sobrolho direito; parecia tambem que a orelha direita estava mais acima do que a outra, o que dava ao rosto um ar receoso. Tinha no cabello espesso e negro madeixas grisalhas semelhantes a nodoas resultantes de violentas pancadas. Toda ella transpirava suavidade, uma resignação dolorosa.

E ao longo das faces corriam-lhe lentamente as lagrimas.

—Olha! não chores! supplicou Pavel em voz baixa. Dá-me de beber!

—Vou buscar agua gelada...

Quando voltou, elle dormia. Ficou immovel por um instante, retendo a respiração; a bilha tremia-lhe nas mãos, os pedaços de gelo tintilavam dentro. Depois de collocal-a na meza, Pélagué ajoelhou diante das imagens santas e orou silenciosamente. Os vidros das janellas tremiam sob as ondas sonoras da vida obscura e alcoolica do exterior. Nas trevas e na humidade d’aquella noite d’outomno, ouviam-se os rangidos de um harmonio; alguem cantava de guella aberta; passavam nas ruas palavras abjectas e obscenas; vozes de mulheres vibravam, assustadiças ou irritadas.

Na pequena habitação de Vlassof, a vida decorria uniforme, mas mais tranquilla e em paz do que outrora, distinguindo-se assim da existencia geral do bairro. A casa era situada na extremidade da rua direita, no cimo d’um pequeno alto, nos baixos do qual havia um pantano.

A cozinha occupava o terço da habitação; um delgado tabique, que não chegava ao tecto, separava-a de um pequeno quarto onde dormia a mãe. O resto formava uma casa quadrada, com duas janellas; a um canto, a cama de Pavel, no outro, dois bancos e uma meza. Algumas cadeiras, uma comoda onde guardavam a roupa, um pequenino espelho, uma mala para o fato, um relogio e duas imagens de santos, era tudo.

Pavel tentava viver como os outros. Fazia quanto era proprio a um rapaz; comprou um harmonio, uma camisa de peitilho engomado, uma gravata vistosa, galochas e capa de borracha, e uma bengala. Na apparencia assemelhava-se a todos os adolescentes da sua idade. Ia ás reuniões, aprendia a dançar a quadrilha e a polka; ao domingo entrava em casa embriagado. Nas manhãs seguintes, doia-lhe a cabeça, a febre consumia-o, o seu rosto estava palido e desfigurado.

Um dia, a mãe perguntou-lhe:

—E então, divertiste-te hontem á noute?

Respondeu com sombria irritação:

—Aborreci-me atrozmente! Os meus companheiros são umas maquinas!... Prefiro ir á pesca ou comprar uma espingarda.

Trabalhava com zelo; nunca era multado, nem gazeteava. Andava taciturno. Os seus olhos azues, grandes como os da mãe, tinham uma expressão de descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi á pesca; mas abandonou o caminho que seguiam os companheiros, frequentava cada vez menos as reuniões, e, embora continuasse a sahir ao domingo, voltava para casa em seu juizo. Pélagué observava-o sem dizer palavra e via o rosto moreno de Pavel tornar-se dia a dia mais magro, o olhar sempre mais grave e os labios cerrarem se com aspera severidade. Parecia soffrer de qualquer doença ou de qualquer colera misteriosa. Antigamente, os companheiros visitavam-no, mas como elle deixara de permanecer em casa, não voltavam. A mãe via com prazer que o filho não imitava os rapazes da fabrica; mas quando notou aquella obstinação em afastar-se da torrente obscura da vida monotona, a sua alma foi invadida por vaga inquietação.

Pavel trazia livros para casa; a principio, tentava lel-os a occultas. Por vezes, copiava alguns trechos n’um pedaço de papel.

—Não andas bem, meu filho? perguntou-lhe uma vez Pélagué.

—Vou bem, vou! respondeu.

—Estás tão magro! suspirou ella.

Ficou silencioso.

Falavam pouco, e apenas se viam. Pela manhã, o rapaz tomava em silencio o chá e ia para o trabalho; ao meio-dia vinha jantar; á meza não trocavam mais do que palavras insignificantes; depois desapparecia até á tarde. Findo o dia, lavava-se cuidadosamente, ceava e lia os seus livros. Ao domingo, sahia de manhãsinha e só voltava á noite. A mãe sabia que elle passeava na cidade, que ia ao theatro; mas da cidade ninguem vinha vêl-o. Parecia-lhe que, quantos mais dias passavam, menos o seu filho lhe dirigia a palavra; e ao mesmo tempo notava que dia a dia maior era o numero de termos novos, incomprehensiveis para ella, e que Pavel empregava em substituição das expressões grosseiras, outrora habituaes no seu falar.

Passára a ligar mais cuidado ao asseio do seu corpo e do seu fato; movia-se com mais ligeireza e facilidade; tornou-se mais simples na apparencia, mais docil; preoccupava-se de sua mãe. Tratava-a de uma maneira nova; ás vezes, varria o sobrado do quarto, fazia elle mesmo a sua cama, ao domingo; em geral, sem frases, sem ostentação, diligenciava auxiliar a mãe no trabalho caseiro. Ninguem fazia isto lá no bairro...

Um dia, trouxe comsigo um quadro que pendurou na parede e que representava trez personagens tendo impressas nas feições a resolução, a coragem.

—É o Christo ressuscitado dirigindo-se a Emmaús! explicou.

O quadro agradou a Pélagué; ella pensou porem:

—Respeitas o Christo e não vaes á egreja...

Depois vieram mais quadros adornar as paredes, o numero de livros augmentou na prateleira ali collocada por um marceneiro, companheiro de Pavel. O quarto ia tomando um aspecto agradavel.

O rapaz dizia a miudo «a sr.a» quando se dirigia á mãe, a quem tambem chamava «mamã». Era até mais prodigo em palavras, embora breves.

—Mãe, não fique em cuidado, peço-lhe; esta noite venho tarde.

E ao ouvil-o assim, ella sentia que se passava o que quer que fosse forte e serio, que lhe agradava.

Mas a sua anciedade augmentava dia a dia, e como não entrava em explicações com Pavel, adquiria o presentimento de alguma coisa extraordinaria que lhe apertava o coração. Pensava até:

—Os outros vivem como creaturas humanas, mas elle é como um frade... Tão grave!... Não é proprio da sua idade...

Perguntava a si mesma:

—Terá uma amiga?

Mas para ser amado pelas pequenas, é preciso dinheiro, e elle entregava-lhe quasi toda a feria.

Assim se passaram semanas, mezes, quasi dois annos, n’uma vida extravagante, cheia de pesares, de vagos receios cada vez maiores.

IV

Uma noite, á ceia, Pavel, tendo fechado as cortinas das janellas, assentou-se a um canto e pôz-se a lêr, depois de ter pendurado na parede, por cima da cabeça, uma lampada de metal.

A mãe tinha acabado o serviço da cozinha; approximou-se d’elle. Pavel ergueu a fronte e fixou-a com olhar interrogador.

—Não é nada... mesmo nada! disse ella rapidamente.

E afastou-se, pestanejando, a modos confuza. Mas depois de ter ficado immovel por um instante, no meio da cozinha, lavou as mãos e voltou, pensativa, preoccupada.

—Olha: queria perguntar-te o que andas sempre a lêr... declarou com simpleza.

Elle pôz o livro nos joelhos.

—Assenta-te, mamã.

Pélagué sentou-se pesadamente ao seu lado, apurou o ouvido, na espectativa de alguma coisa grave.

Sem olhar para ella, a meia voz, muito rudemente, Pavel falou.

—Leio livros prohibidos. Prohibem a sua leitura porque dizem a verdade da nossa vida, da vida do povo. São impressos ás escondidas, e se os encontrassem em minha casa, eu seria prezo... prezo por ter querido saber a verdade. Percebeste?

Ella sentiu de subito a respiração oppressa, e fixou o olhar esgazeado no filho, que lhe pareceu outro, um estranho. Tinha outra voz, mais grossa, mais cava, mais sonora. Com os dedos adelgaçados torcia as sedosas guias do bigode e para ella descia o olhar enigmatico. Pélagué teve medo, por elle.

—Para que é isso, Pavel?

Elle ergueu a cabeça, observou-a e respondeu tranquillamente:

—Quero saber a verdade.

A sua voz era em tom baixo, mas firme; brilhava-lhe no olhar um desejo obstinado. Pélagué comprehendeu que o filho se consagrára para sempre ao que quer que fôsse misterioso e terrivel. Tudo lhe parecera sempre inevitavel; estava acostumada a submetter-se sem reflectir; por isto começou de chorar baixinho, sem encontrar palavras no seu coração confrangido pela angustia e pela dôr.

—Não chores! disse-lhe Pavel, carinhosamente—e á mãe parecia que elle lhe dizia um adeus—reflecte! Que vida a nossa! Tu tens quarenta annos, e, francamente, podes dizer que tenhas vivido? O pae batia-te... compreendo agora que era o seu pezar da vida o que elle desabafava assim nas pancadas que te dava... o pezar da vida que o opprimia, e que elle nem mesmo sabia d’onde lhe vinha. Trabalhou durante trinta annos; começou quando o edificio da fabrica não tinha mais do que dois predios, e hoje tem sete! As fabricas desenvolvem-se e nós morremos trabalhando para ellas...

Pélagué ouvia-o, com receio e ao mesmo tempo com avidez. Os bellos olhos azues do rapaz luziam; com o peito apoiado á mesa, approximou-se da mãe, e tocando quasi no seu rosto banhado de lagrimas, dizia-lhe o seu primeiro discurso sobre a verdade, tal como elle a compreendia. Com a ingenuidade da juventude e com o ardor d’um collegial orgulhoso dos seus conhecimentos e sinceramente convicto de importancia d’elles, falava de tudo que lhe parecia tão evidente, falava tanto para se avaliar a si mesmo como para convencer sua mãe. Detinha-se por vezes quando lhe faltavam as palavras, e então via o rosto inquieto no qual brilhavam aquelles bons olhos velados pelas lagrimas, cheios de terror, de preplexidade. Apiedou-se de sua mãe e novamente falou d’ella.

—Que alegrias tens tu conhecido? perguntou. Que tiveste no passado que fosse bom?

Ella meneou a cabeça tristemente; invadia-a um sentimento novo, desconhecido ainda, doloroso e alegre ao mesmo tempo, que lhe acariciava deliciosamente o coração dolorido. Pela primeira vez, falavam-lhe d’ella e da sua propria existencia; vagos pensares, adormecidos havia muito, despertavam no seu ser, reanimavam os sentimentos extinctos com um vago descontentamento, as recordações, as saudades da sua mocidade longinqua.

Falou da sua vida, dos seus amigos, de todo o passado; mas, como os outros, não sabia mais do que lamentar-se; ninguem explicava o motivo da sua vida tão penosa e ardua. E agora, com o filho sentado a seu lado, tudo quanto os olhos de Pavel, o seu rosto, as suas palavras lhe diziam, tudo lhe falava captivantemente ao coração, enchendo-a de altivez: era o seu filho quem compreendera a vida da mãe e quem lhe apresentava a verdade sobre os soffrimentos, quem a lamentava.

Em geral, não ha quem lamente as mães.

Ella bem o sabia. Não compreendia que Pavel não falava d’ella só, mas tudo o que elle dissera da vida feminina era a verdade, verdade nua e crua. Eis porque lhe parecia que no seu peito se agitava um sem-numero de sensações que a aqueciam como desconhecida caricia.

—O que queres tu fazer? perguntou-lhe, interrompendo-a.

—Aprender e depois ensinar aos outros. Devemos aprender, sim, devemos saber, devemos compreender a razão porque a vida nos é tão penosa.

Era consolador para a mãe ver os olhos azues do seu filho, sempre serio e severo, brilharem ternamente, illuminando n’elle o que quer que fosse raro. Um sorriso de satisfação pairou nos labios de Pélagué, embora houvesse ainda lagrimas nas rugas das suas faces.

Um duplo sentimento dividiu o seu ser: era uma irmã do filho que queria a felicidade de todos os homens, que os lastimava a todos e que via a dôr da vida; e ao mesmo tempo não podia esquecer que elle era um rapaz, que não falava como os seus companheiros, que resolvera entrar sósinho em lucta contra a vida rotineira que ella e os outros tinham.

Sentiu desejos de dizer-lhe:

—Meu querido! o que podes tu fazer? Esmagar-te-ão. E morrerás!

Mas temeu deixar de admirar o rapaz que de subito se lhe revelara, tão intelligente, tão transformado...

Pavel via o sorriso nos labios da mãe, a attenção que ella lhe prestava, o amor expandindo-se-lhe no olhar; julgou ter-lhe feito compreender a verdade que elle tinha descoberto, e o juvenil orgulho da força da sua palavra exhaltava a sua mesma fé. Cheio d’excitação, falava sempre, ora rindo, ora franzindo o sobrolho; por momentos o odio transparecia na sua voz, e quando Pélagué lhe ouvia estes tons rudes, meneava timidamente a cabeça, perguntando baixinho:

—E tens a certeza de que isso é assim?

—Tenho! respondia elle com a voz forte e firme.

E falava-lhe dos que queriam o bem do povo, dos que semeavam a verdade e que por isto eram perseguidos como feras, mettidos em prisões, exilados para o degredo pelos inimigos da vida.

—Tenho visto d’estas creaturas! exclamava com ardor. São as melhores almas deste mundo!

Estes seres excitavam o terror da mãe, que tinha vontade de perguntar ainda:

—E tens a certeza de que isso é assim?

Mas não se atrevia, preferindo ouvir exhaltar creaturas que ella não compreendia e que tinham ensinado ao seu filho uma maneira de pensar e de falar tão perigosa para elle.

—Pouco falta para nascer o dia. Se tu te deitasses, se dormisses... É preciso ires para o trabalho ámanhã.

—Vou deitar-me, vou, concordou.

E abeirando-se d’ella, perguntou-lhe:

—Compreendeste-me?

—Sim! suspirou a mãe.

De novo lhe rebentáram as lagrimas, e acrescentou entre soluços:

—Morrerás!...

Elle ergueu-se e entrou de passear pelo quarto.

—Bem! Sabes agora o que faço, aonde vou! Disse-te tudo! Supplico-te, mãe, que se me amas, não me detenhas!

—Meu querido filho! exclamou ella. Teria sido melhor nada me haveres dito!

Pavel pegou-lhe na mão, apertando-a fortemente entre as suas.

Ella ficára impressionada por aquella palavra «mãe» pronunciada com ardor juvenil, e por aquelle aperto de mão tão novo e raro.

—Nada farei para te contrariar, disse em tom saccudido. Recommendo-te apenas: toma cuidado! toma cuidado!

E sem bem saber em que elle devia tomar cuidado, accrescentou tristemente:

—Estás cada vez mais magro.

E envolvendo n’um olhar caricioso o corpo robusto e harmonico do filho, disse em voz baixa:

—Que Deus esteja comtigo! Vive como quizeres, não te impedirei! Só te peço uma coisa: não fales levianamente. É conveniente desconfiar dos mais, que mutuamente se odeiam! Vivem d’avidez, vivem d’inveja! Todos se sentem felizes quando fazem mal. Quando quizeres accusal-os, julgal-os, odiar-te-ão, levar-te-ão á morte!

De pé, no limiar da porta, Pavel ouvia estas palavras dolorosas, ás quaes respondeu sorrindo:

—O proximo é mao, sim. Mas quando aprendi que havia na terra uma verdade, o proximo pareceu-me melhor.

Sorriu ainda e continuou:

—Eu mesmo nem sei como isto me veio. Na minha infancia, tinha medo de todos e de tudo... Quando cresci, comecei a odiar, a uns pela sua covardia; a outros... nem sei porquê. Mas agora já não acontece o mesmo: creio que tenho piedade d’elles. Não comprehendo como, mas o meu coração tornou-se mais terno quando soube que havia uma verdade para os homens e que elles não são todos culpados da ignominia da sua vida.

Calou-se por um instante, como para escutar o que quer que fosse dentro d’elle, e depois concluiu pensativo:

—É assim que a verdade transpira!

Ella, tendo-lhe lançado um olhar rapido, murmurou:

—Transformaste-te d’uma maneira perigosa! Meu Deus!

Quando elle adormeceu, Pélagué levantou-se cautelosamente e approximou-se-lhe do leito. O rosto moreno, de feições severas e obstinadas desenhava-se distinctamente sobre o travesseiro branco. Com as mãos juntas no peito, com os pés descalços, em camisa, a mãe permanecia immovel; os seus labios moviam-se em silencio, e de seus olhos desciam lentamente fartas e tôrvas lagrimas.

V

A vida recomeçou para elles; novamente se encontravam proximos e afastados.

Uma vez, n’um dia santo, no meio da semana, Pavel disse á mãe, quando ia sahir:

—No sabbado ha de vir gente cá a casa.

—Que gente?

—Gente d’aqui... e gente da cidade.

—Da cidade...? repetiu a mãe, meneando a cabeça. E desatou a chorar.

—Porque choras, mamã?! exclamou Pavel contrariado. Porquê?

Respondeu com froixa voz, limpando as lagrimas:

—Não sei... Porque sim.

Elle deu alguns passos pelo quarto, e parando deante d’ella:

—Tens medo?

—Tenho! confessou. Essa gente da cidade... sabe-se lá quem é!

Inclinou-se para ella e disse com a voz irritada, como o pae:

—É por causa d’esse medo que todos nós morremos! E os que mandam em nós aproveitam-se d’esse medo e ainda mais nos amedrontam. Comprehenda de uma vez para sempre: emquanto houver medo, apodreceremos como as bétulas nos pantanos.

Afastou-se, exclamando:

—Deixal-o! Nós nos reuniremos cá em casa...

A mãe atalhou, chorando:

—Não me queiras mal! Como não hei de eu ter medo? Passei entre sustos toda a minha vida... tenho a alma cheia d’elles.

Pavel retorquiu a meia voz, mas brandamente:

—Desculpe. Não tenho outro meio ao meu alcance. E sahiu.

Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora...

No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e saíu, dizendo sem olhar para a mãe:

—Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas medo, se fazes favor... São pessoas como as outras.

Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o sobrolho, e propoz—Talvez seja melhor saíres; an?

Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando:

—Seria o mesmo. Para que sairia eu?

Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os olhos fixos na porta.

Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado. Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem.

Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito, calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da parede.

Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos dilatados.

Abriu-se a porta. Appareceu primeiro uma cabeçôrra com um boné de pelles, depois um corpo acurvado que se esgueirou lentamente, que se endireitou, que levantou o braço direito vagarosamente, arrancando do peito em suspiro ruidoso:

—Boa noite.

Pélagué cumprimentou em silencio.

—O Pavel ainda não veio?

O homem tirou com vagar um casaco de pelles, levantou um pé, saccudiu com o boné a neve que lhe cobria as botas, atirou depois com o boné para um canto e entrou no quarto bamboleando-se nas suas altas pernas. Approximou-se d’uma cadeira, examinou-a como, para certificar-se de que era sólida, assentou-se por fim e pôz-se a bocejar, tapando a bôca com a mão. Tinha a cabeça redonda e o cabello cortado á escovinha, a barba feita, e grosso bigode de guias compridas e pendentes. Depois de ter examinado o quarto com os grandes olhos bojudos e acinzentados, cruzou as pernas e perguntou balouçando-se na cadeira:

—O casebre pertence-lhes ou é alugado?

Pélagué, sentada em frente delle, respondeu:

—Alugamol-o.

—Não é grande coisa! observou o homem.

—O Pavel não se demora; queira esperar, disse froixamente.

—É o que estou fazendo! replicou tranquillamente.

A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou:

—Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa?

Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a. Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza:

—E o que tem o tiosinho com isso?

Elle voltou-se de todo.

—Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.a. Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro. Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça, encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me.

Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso envergonhado:

—Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro?

O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente:

—Ainda não... ainda não sou tartaro.

—É que não fala exactamente como um russo! explicou ella sorrindo, porque lhe compreendera o gracejo.

—A minha lingua vale mais do que o russo! exclamou com um meneio importante. Sou russo-menor, da cidade de Kanief.

—E ha muito tempo que está por cá?

—Vivi na cidade, perto de um anno, e ha um mez que vim aqui para a fabrica. Travei conhecimento com excellentes pessôas... o seu filho... e mais alguns... não muitos. Quero fixar-me por cá, accrescentou, torcendo o bigode.

Estava agradando a Pélagué que, para agradecer o elogio feito ao filho, lhe perguntou:

—Quer chá?

—O quê? sósinho? observou, encolhendo os hombros. Faça o offerecimento quando estivermos todos juntos.

Ouviram-se passos outra vez, a porta abriu-se de chofre; Pélagué levantou-se. Com grande espanto seu, quem entrou na cosinha foi uma rapariga, de vestido leve e pobre, baixa, com cara de camponeza. A recemchegada, cujos cabellos eram loiros e espessos, perguntou:

—Ainda venho a tempo?

—Ah! vem! respondeu o russo-menor, que permanecia no quarto. Veio a pé?

—Podera! A sr.a é a mãe do Pavel Mikhaílovitch? Bôa noite! Eu chamo-me Natacha.

—E o seu pae? perguntou Pélagué.

—Vassilievna. E a sr.a?

—Pélagué Milovna.

—Bello! Estamos apresentados!

—Sim, estamos... concordou Pélagué, com um ligeiro suspiro.

E sorrindo observou a rapariga.

O russo-menor perguntou:

—Faz frio?

—Se faz! e muito, lá pelos campos; uma ventania!...

Tinha a voz pastosa, clara; a bôca era pequena e redonda; e toda ella era gorducha e cheia de frescura. Depois de tirar a capa, esfregou energicamente as faces coradas com as mãosinhas avermelhadas pelo frio; e, passeando pelo quarto com passos rapidos, batia no sobrado com os tacões.

—Não tem galochas de borracha! pensou Pélagué.

—Que frio! E arrastando muito as palavras: Estou entorpecida! gelada!

—Vou já, já, preparar o samovar! disse rapidamente a dona da casa.

E saíu para a cozinha.

Dir-se-ia que conhecia aquella rapariga de ha muito tempo e que a estimava como sua filha. Estava satisfeita por vêl-a; vindo-lhe á ideia os olhos pardos e piscos do russo-menor, sorriu satisfeita tambem; prestou attenção á conversa.

—Porque está triste, André? perguntou a rapariga.

—Porque sim! A viuva tem um olhar bondoso e lembra-me que talvez seja como o da minha mãe... Penso muito na minha mãe, sabe? Parece-me sempre que ella vive.

—Ouvi-lhe dizer que ella tinha morrido...

—Não! Falava da minha mãe adoptiva, e agora falo da minha verdadeira mãe. Imagino que ella pede esmola, algures, em Kief e que bebe aguardente...

—Porquê?

—Sei lá! E que quando está embriagada, os policias a esbofeteiam.

—Pobre homem! pensou Pélagué, suspirando.

Natacha passou a falar rapidamente, a meia-voz. Depois, tornou a ouvir-se a voz sonora do russo-menor:

—É ainda nova! não tem experiencia! Todos teem mãe, e apesar d’isso quantas creaturas más!... É difficil dar á luz, mas é muito mais difficil ensinar o bem ao homem.

—Isso! isso! exclamou lá de dentro Pélagué.

Desejava poder responder que ella, por exemplo, se consideraria feliz ensinando o bem a seu filho, mas que não sabia d’essas coisas; a porta porem abriu-se vagarosamente dando entrada a Vessoftchikof, filho do velho ladrão Danilo, o misantropo celebre em todo o bairro. Mantinha-se sempre afastado dos outros, que por este facto chasqueavam d’elle. Pélagué perguntou admirada:

—O que é que tu queres?

Fitou n’ella os olhos pardos, limpou com a palma da mão a cara bexigosa e de maçãs salientes, e, sem responder ao cumprimento de Pélagué, perguntou em tom cavo.

—O Pavel está em casa?

—Não.

Relanceou a vista pelo quarto e entrou, dizendo:

—Boa noite, companheiros.

—Tambem este!... Será possivel? pensou ella hostilmente.

E mais se admirou vendo Natacha estender a mão ao recemchegado com modo alegre e amigavel.

Vieram em seguida dois rapazes, duas creanças quasi. A dona da casa conhecia um d’elles: era o sobrinho de Fédor Sizof, velho operario da fabrica; tinha feições d’arguto, fronte elevada e cabellos encaracolados. O outro, de cabello corredio, era-lhe desconhecido, mas não a assustava, parecia modesto.

Afinal Pavel chegou, acompanhado de dois amigos, que ella reconheceu logo: eram dois operarios tambem da fabrica.

Amavelmente, o filho disse-lhe:

—Preparaste o chá? obrigado!

—Queres que vá comprar aguardente? perguntou, não sabendo como exprimir-lhe o seu reconhecimento pelo que quer que fosse que ella ainda não compreendia.

—Não. Não é preciso! respondeu, tirando a capa, e sorrindo bondosamente para a mãe.

De subito, veio-lhe á idéa de que o filho tinha exagerado propositadamente o perigo da reunião para brincar com ella.

—É então esta a tal gente perigosa?

—Esta mesma! disse Pavel entrando no quarto.

—Ah! e seguiu-o com o olhar caricioso.

Mas, no seu intimo:

—E elle é a mesma creança!...

VI

Quando a agua do samovar entrou em ebolição levou-o para o quarto. As visitas estavam sentadas em de redor da meza; Natacha tinha nas mãos um livro e ficára n’uma quina da mesa sob a luz da candeia.

—Para compreender por que as creaturas vivem tão mal... dizia Natacha

—...e porque são tão más... interveio o russo-menor.

—...é preciso ver primeiro como começaram a viver...

—Então, meus filhos, então!... murmurou Pélagué, preparando o chá.

Calaram-se todos.

—O que diz, mamã? perguntou Pavel franzindo o sobrolho.

—Eu?

Vendo todos os olhares cravados n’ella, explicou, embaraçada:

—Falava comigo mesmo... Dizia: então!...

Natacha desatou a rir assim como Pavel; o russo-menor exclamou:

—Obrigado, mãesinha, obrigado pelo chá!

—Ainda não o bebeu e já agradece?! replicou ella.

E, olhando para o filho:

—Não os incommodo?

Foi Natacha quem respondeu:

—Como pode incommodar os seus hospedes, se é a dona da casa?

E n’um tom infantil e lamentoso:

—Boa alma! dê-me chá depressa! Estou a tremer com frio... tenho os pés gelados...

—É para já! é para já!

Depois de ter bebido, Natacha suspirou á larga, atirou a trança para as costas e abriu um livro volumoso, illustrado e de capa amarella. Pélagué enchia os copos, deligenciando não os fazer retenir, e, com toda a attenção de que era capaz o seu cerebro pouco acostumado a trabalhar, escutava a leitura que a rapariga fazia com a sua voz harmoniosa, que se misturava ao murmurio da agua a ferver no samovar, semelhante a longinqua canção.

No quarto desenrolava-se tremente, como uma fita de côres magnificas, a historia simples e clara dos selvagens que viviam nas cavernas e atacavam com pedras os animaes. Era uma como lenda; por varias vezes, Pélagué olhava de soslaio para o filho, desejava saber o que haveria n’aquella historia de selvagens que a tornasse leitura prohibida. Mas a bréve trecho deixou de escutar e, sem que dessem por tal, começou a observar os seus hospedes.

Pavel estava sentado junto de Natacha; era bello entre todos os outros. A rapariga, inclinada sobre o livro, levantava a miudo os cabellos finos e encaracolados que lhe cahiam para a testa. Por vezes, sacudia a cabeça, e, com um olhar amigo, accrescentava algumas observações, abaixando a voz. O russo-menor tinha encostado o peito ao canto da meza, torcia o bigode, cujas guias deligenciava vêr, mettendo um olho por outro. Vessoftchikof, estava sentado n’uma cadeira, empertigado como um manequim, com as mãos nos joelhos; o seu rosto bexigoso, sem sobrolhos e de bigode muito raro, era immovel como uma mascara.

Sem desviar o olhar, contemplava obstinadamente a sua fisionomia reflectida no cobre brilhante do samovar; dir-se-ia que nem respirava. O pequeno Fédia escutava a leitura, movendo os beiços, repetindo para si as palavras do livro; o seu companheiro, o dos cabellos encaracolados, curvava-se, com os cotovellos nos joelhos, e sorria pensativamente, tendo a cara apoiada nas mãos. Um dos rapazes vindos com Pavel era ruivo e delgado; os olhos verdes tinham expressão alegre; parecia desejoso de dizer alguma coisa e fazia gestos de impaciencia; o outro, de cabellos loiros e curtos, passava a mão pela cabeça olhando para o sobrado, o que não permittia ver-se-lhe o rosto.

O quarto estava quente, n’uma temperatura especialmente agradavel n’aquella noite. No meio do murmurio da voz de Natacha, misturada á canção tremula do samovar, Pélagué recordava as noites tumultuosas da sua mocidade, as palavras grosseiras dos rapazes que cheiravam mal a alcool, os seus gracejos cinicos. Perante taes recordações, o seu coração humilhado confrangia-se compadecido d’ella propria.

Reviveu em pensamento o dia em que o marido pedira a sua mão. Foi durante uma reunião, á noite; elle detivera-a n’um corredor obscuro, obrigava-a á viva força a encostar-se á parede, dizendo-lhe n’um tom cavo e irritado:

—Queres casar comigo?

Ella sentira-se ultrajada; molestavam-na aquelles dedos grosseiros apertando-lhe os seios, aquella respiração offegante que lhe enviava ao rosto um hálito quente e humido. Tentou libertar-se d’aquelle abraço, fugir-lhe...

—Aonde vaes? urrou elle. Responde primeiro!

Ficara silenciosa, cheia de vergonha e de colera.

—Não te finjas embaraçada, pateta! Conheço-as, a todas! No teu intimo, estás satisfeitissima.

Porque alguem tivesse aberto uma porta, elle largara a rapariga, sem grande pressa, dizendo:

—No domingo mandarei pedir a tua mão.

Cumpriu.

Pélagué fechou os olhos e suspirou longamente.

—Não preciso saber como os homens viveram, mas sim como se deve viver! exclamou de subito Vessoftchikof num tom de surdo aborrecimento.

—Tem razão! concordou o rapaz de cabello ruivo, erguendo-se.

—Não estou d’acôrdo! disse Fédia. Se queremos caminhar para a frente, devemos saber tudo!

—Exacto! opinou o outro, a meia voz.

Veio em seguida uma discussão animada. Pélagué não comprehendia por que todos elles gritavam, com os rostos cheios de excitação. Mas ninguem estava irritado; nem mesmo se ouviam as palavras concludentes e obscenas ás quaes ella estava acostumada.

—Não se sentem á vontade na presença da pequena... pensou.

Sentia-se encantada pela fisionomia grave de Natacha, que parecia tomar conta em todos, como se fossem creanças para ella.

—Basta, companheiros! basta! disse de subito.

E todos se calaram, volvendo para ella o olhar.

—Os que affirmam que devemos saber tudo affirmam uma verdade. Devemos illuminar-nos a nós mesmos com a chamma da razão, para que as creaturas obscuras nos vejam; devemos responder a tudo com honestidade, com verdade. É preciso conhecer toda a verdade e toda a mentira.

O russo-menor meneava a cabeça ao rythmo das palavras de Natacha. Vessoftchikof, o rapaz ruivo e o operario que viera com Pavel formavam um grupo distincto; desagradavam a Pélagué, sem que ella soubesse porquê.

Quando Natacha concluiu, Pavel ergueu-se e perguntou tranquillamente:

—O que queremos nós ser? Apenas creaturas que comem e bebem? Não! queremos ser homens. Devemos mostrar aos que nos exploram e nos fecham os olhos, que vemos tudo, que não somos idiotas, nem brutos, que não queremos só comer, mas tambem viver como é proprio dos homens. Devemos mostrar aos inimigos que a vida de degredo que elles nos arranjaram não impede que possamos medir-nos com elles pela intelligencia e excedel-os pelo espirito...

Pélagué ouvia, estremecendo de orgulho por ser o seu filho quem assim falava.

—Ha muita gente farta, mas ninguem entre ella que seja honesto! disse o russo-menor. Construamos uma ponte que atravesse o pantano da nossa vida infecta e que nos conduza ao reino futuro da bondade sincera, eis a nossa tarefa, companheiros!

—Em tempo de guerra não se limpam armas! replicou soturnamente Vessoftchikof.

—Aliás fazem-nos os ossos n’um feixe, antes da batalha! exclamou alegremente o russo-menor.

Tinha passado meia noite quando o grupo dispersou.

O rapaz ruivo e Vessoftchikof foram os primeiros a saír, o que não agradou a Pélagué.

—Como vão apressados! pensou, cumprimentando-os.

—Acompanha-me, André? perguntou Natacha.

—Ora essa!

Emquanto Natacha se vestia na cosinha, Pélagué disse-lhe:

—Tem umas meias tão finas, com um tempo d’estes!... Se me dá licença, hei de fazer-lhe um par, de lã.

—Obrigado, mas as meias de lã arranham a pelle! respondeu, rindo.

Descanse, que, feitas por mim, não arranharão.

Natacha observou-a com os olhos semi-cerrados, e este olhar fixo embaraçou-a.

—Desculpe se é tolice, mas creia ser de bôa vontade!

—Sim. A sr.a é bôa! exclamou Natacha a meia voz, apertando-lhe a mão.

—Bôa noite, mãesinha! disse o russo-menor encarando n’ella; saíu, depois de beijal-a, acompanhando Natacha.

Pélagué olhou para o filho que no limiar da porta do quarto, sorria.

—Porque sorris? perguntou, como envergonhada.

—Ora! porque estou contente.

—Sou velha e tôla, bem sei, mas compreendo aquillo que fica bem.

—E tem razão. Vá deitar-se, vá, que são horas.

—E tu tambem deves ir. Eu é n’um instante.

Á roda da meza d’onde retirava os copos, sentia-se feliz: tudo se tinha passado sem novidade e terminado em paz.

—Tiveste uma bôa idéa, meu filho: é uma bella gente. O russo-menor... acho-o interessante. E a rapariga... Ah! que intelligente que é! Quem é ella?

—Professora de primeiras lettras, respondeu resumidamente, passeando ao comprimento do quarto.

—Por isso é tão pobre! Que mal vestida!...

Vae apanhar um frio!... Onde vivem os paes?

Em Moscou.

E Pavel, parando junto da mãe, disse em voz baixa e gravemente:

—O pae é muito rico, negociante de ferro, e possue varios estabelecimentos. Expulsou-a porque ella entrou neste caminho... Foi educada no luxo, toda a familia a amimava, dando-lhe quanto queria... E n’este momento é obrigada a andar a pé, sósinha, sete kilometros.

Estes pormenores impressionaram Pélagué. No meio do quarto, olhava para o filho sem dizer palavra, os sobrolhos erguidos n’uma expressão de assombro.

Depois perguntou a meia voz:

—Vae para a cidade?

—Vae.

—Ah! e não tem medo?

—Não, não tem medo! respondeu, sorrindo.

—Não tem?!... Poderia passar a noite cá em casa... Dormiria comigo.

—Impossivel. Vêl-a iam saír ámanhã pela manhã; e devemos evitar isso... Ella primeiro ainda.

Pélagué caíu em si, e tendo olhado para a janella, passeando, disse meigamente:

—Não percebo o que possa haver perigoso, e que torne prohibidas estas coisas. Que mal pode haver? Ella não sentia absoluta convicção e desejava obter do filho uma resposta negativa. Elle fitou-a, sereno, e respondeu com firmeza:

—Não fazemos nem faremos mal algum. Todavia, sabe que é a prisão o que nos espera.

As mãos de Pélagué tremeram. Foi com a voz enfraquecida que perguntou:

—Talvez... Queira Deus que tal não succeda!

Pavel, carinhoso, mas resoluto:

—Não! não quero enganar-te! O que te disse ha de succeder.

Acrescentou, sorrindo:

—Olha: vae deitar-te! Estás fatigada! Bôa noite!

Sósinha, a mãe approximou-se da janella e olhou para a rua. O vento passava, varrendo a neve dos telhados das casinhas adormecidas, batendo contra as paredes, murmurando não se sabe o quê, e baixando á terra para fazer correr ao longo das ruas nuvens brancas de flócos seccos.

—Jesus Christo, tende piedade de nós! supplicou baixinho.

As lagrimas accumulavam-se-lhe, a espectativa da desgraça da qual o filho falava com tanta tranquilidade e certeza, agitava-se dentro d’ella como uma borboleta nocturna. Perante os seus olhos desenrolou-se uma planicie coberta de gelo. O vento levando os flócos de neve, redemoinhava assobiando. No meio da planicie, um pequenino perfil de rapariga caminhava, solitario e vacillante. O vento enrolava-se-lhe nas pernas, enchia-lhe as saias, atirava-lhe ao rosto flócos aggressivos. O caminho era difficil para aquelles pequeninos pés que se enterravam na neve. Fazia frio e as trevas eram de metter medo. A rapariga inclinava-se para a frente como debil haste sacudida pelo sopro rapido do vento do outomno.

Á sua direita, no pantano, uma floresta erguia a sua sombra compacta onde as bétulas e os frageis pinheiros tremiam e gemiam tristemente.

Muito ao longe, na sua frente, scintillavam as luzes da cidade.

—Senhor! tende piedade de nós! disse ainda a pobre mãe, tremendo de frio e de medo.

VII

Os dias succediam-se; como as contas de um rosario, addiccionavam-se em semanas e em mezes. Todos os sabbados, os companheiros reuniam-se em casa de Pavel; e cada sessão era como um degrau da longa escadaria em suave declive que conduzia a muito distante, não se sabia aonde, elevando lentamente os que por ella subiam, e da qual se não via o fim.

Novas caras appareciam constantemente. O pequeno quarto dos Vlassof ia-se tornando apertado. Natacha continuava a comparecer, transida de frio, fatigada, mas sempre alegre e bem disposta. Pélagué tinha-lhe feito as taes meias que ella propria lhe calçou. A principio, Natacha tinha rido, depois calou-se, e, reflectindo por um momento:

—Tive uma creada, disse baixinho, que tambem me era extraordinariamente dedicada! Olhe, Pélagué Nilovna é muito para pensar este caso: o povo que tem uma vida tão ardua, tão cheia de humilhações, possue mais coração, mais bondade do que os outros!

Tinha erguido o braço, designando um ponto muito afastado d’ali.

—E a menina?—disse-lhe a mãe de Pavel—que sacrificou seus paes e o resto...

Não chegou a concluir o seu pensamento, suspirou e calou-se olhando para Natacha. Sentia-se-lhe reconhecida, sem bem saber de quê, e deixara-se ficar sentada no chão, diante da rapariga, que sorria pensativa, com a cabeça descaída para o peito.

—Sacrifiquei os meus paes... tinha repetido Natacha. Mas não é isto o peor. O meu pae é tão estupido e ordinario, o meu irmão tambem, e demais costuma beber! A minha irmã mais velha é uma desgraçada, causa compaixão. Casou com um homem muito mais idoso do que ella, muito rico, mas avarento e repugnante. De quem eu tenho mais saudades é da mamã!

—Coitadinha! lamentou a mãe de Pavel, com um triste movimento de cabeça.

A rapariga endireitou-se de subito e exclamou:

—Ah! não! Ha momentos em que a minha alegria, a minha felicidade não tem limites!

O seu rosto empallideceu, e saíam chispas de seus olhos azues. Pondo a mão no hombro de Pélagué, disse em voz profunda, n’um tom que parecia vindo do coração:

—Se soubesse... se podesse compreender a obra brilhante e enorme que estamos realisando!... Havia de sentil-a!

Uma impressão, não muito afastada da inveja, apoderou-se do coração de Pélagué, que disse tristemente, erguendo-se:

—Estou muito velha para essas coisas... sou ignorante... estou muito velha...

...Pavel falava muito, discutia cada vez com maior ardor, e emagrecia. Pélagué julgava notar que, quando elle conversava com Natacha ou para ella olhava demoradamente, o seu olhar severo se tornava suave, que a sua voz vibrava com mais carinho, que elle se revelava ainda mais simples.

—Deus o queira!... pensava. Sorria á ideia de que Natacha podesse vir a ser sua nora.

Quando, nas reuniões, a discussão tomava mais calor, o russo-menor levantava-se, e bamboleando como o badalo d’um sino, soltava com a sua voz sonora palavras claras e simples que faziam voltar o socego. O taciturno Vessoftchikof levava constantemente os companheiros a actos mal definidos; era sempre elle e Samoílof, o rapaz ruivo, quem esquentava as discussões. Tinham por partidario Ivan Boukine, o rapaz de cabeça redondinha, de sobrolhos brancos, e que parecia deslavado como o sol. Jacob Somof, sempre modesto, asseado e bem penteado, falava pouco e breve, em voz baixa e grave. Como Fédia Mazine, o adolescente de fronte alta, era sempre da opinião de Pavel e do russo-menor.

Por vezes, em logar de Natacha, era Nicolao Ivanovitch quem vinha da cidade. Usava occulos e tinha barbicha loira. Natural d’uma provincia distante, as inflexões da sua voz eram especiaes e cantantes, falando quasi sempre sobre themas simples, a vida em familia, as creanças, o commercio, a policia, o preço da carne e do pão, emfim a vida de todos os dias. E em tudo descobria êrros, confusão, coisas estupidas, divertidas ás vezes, mas sempre prejudiciaes para os homens. Parecia a Pélagué que Nicolao Ivanovitch viera de longe, d’outro paiz onde a existencia era facil e honesta, e que ali, onde ella vivia tudo lhe desagradava. Era de côr amarelenta; pequenas rugas lhe circumdavam os olhos, a voz era grossa, e tinha as mãos sempre quentes. Quando cumprimentava a mãe de Pavel, agarrava-lhe a mão por completo com os dedos vigorosos, e tal aperto era como um consolo para a alma d’ella.

Da cidade vinham ainda outras pessôas, por exemplo uma rapariga esbelta, de olhos grandes e rosto magro e pallido. Chamavam-lhe Sachenka. Havia o que quer que fosse masculo nos seus gestos e no andar; franzia os sobr’olhos negros como irritada; quando falava, as delicadas narinas estremeciam.

Foi ella que um dia disse primeiro que os outros:

—Nós, socialistas...

Quando Pélagué ouviu esta palavra, olhou para a rapariga com mudo terror.

Sabia que os socialistas tinham assassinado um tzar. Fôra durante a sua mocidade; dissera-se então que os proprietarios ruraes, indignados contra o imperador por ter libertado os servos, haviam jurado não cortar os cabellos emquanto elle não fosse morto. Por isso não podia compreender a rasão por que o seu filho e a companheira se tinham feito socialistas.

Quando todos se retiraram, perguntou a Pavel:

—Pavloucha, é verdade que és socialista?

—É! respondeu firme e franco como sempre.

Pélagué deu um profundo suspiro e disse, baixando os olhos:

—Parece-te bem, meu filho?... Elles são contra o tzar... já mataram um!...

Pavel entrou de passear pelo quarto, passando a mão pela cara, até que respondeu com um sorriso:

—Nós não precisamos d’isso!

Falou-lhe muito tempo a serio. Ella chorava e reflectia. Depois, a terrivel palavra foi repetida cada vez mais a miudo, e tornou-se tão familiar aos ouvidos de Pélagué como um amontoado d’outros termos incompreensiveis para ella. Mas Sachenka não lhe agradava; quando a via, sentia-se pouco á vontade, anciosa...

Uma noite, disse ao russo-menor, com um tregeito de mal-estar:

—É muito rispida a Sachenka! Está sempre a mandar: façam isto! façam aquillo!

O russo-menor riu ruidosamente.

—É a pura verdade! nem mais nem menos! Não é assim, Pavel?

E, piscando o olho, disse em tom escarninho:

—A nobreza!

Pavel replicou seccamente:

—É uma rapariga decidida!

E ficou-se com ar de mal disposto.

—Não ha duvida tambem! concordou o russo-menor. Ha apenas uma differença: não compreende que é ella quem deve e que somos nós que queremos e podemos.

Pélagué notara tambem que a severidade de Sachenka caía mais em particular sobre Pavel a quem por vezes chegava a repreender. Elle sorria, ficava silencioso, e contemplava a rapariga com o olhar suave que outrora tinha para Natacha. E isto não agradava a Pélagué.

Reuniam-se duas vezes por semana; e quando a mãe de Pavel via a attenção apaixonada com que os novos escutavam as falas do filho e do russo-menor, as interessantes narrativas de Natacha, de Sachenka, de Nicolao Ivanovitch e dos outros que vinham da cidade, esquecia as suas inquietações, e recordando-se dos fastidiosos dias da sua mocidade, meneava tristemente a cabeça.

Muitas vezes, Pélagué ficava surpreendida dos accessos de alegria ruidosa que os atacavam de subito. O facto dava-se geralmente quando tinham lido nos jornaes noticias da classe operaria estrangeira. Era uma alegria estravagante, como infantil; riam todos com um riso limpido e muito alegre, e batiam amigavelmente no hombro do companheiro mais proximo.

—Teem trabalhado a valer, os nossos companheiros allemães! annunciava qualquer d’elles, como embriagado de extasi.

—Vivam os nossos companheiros italianos! gritava outra voz.

E quando enviavam estas exclamações ao longe, aos amigos desconhecidos, pareciam convencidos de que elles os ouviam e participavam do seu enthusiasmo.

O russo-menor, cheio de um amor que abrangia a todos os seres, declarava:

—Deveriamos escrever-lhes, não acham, para que saibam que teem na Russia, tão distante, amigos, operarios que professam a mesma religião que elles, companheiros que teem o mesmo fim, e rejubilam com as suas victorias...

E, com o sorriso nos labios, falava-se durante muito tempo dos francezes, dos inglezes, dos suecos, como de entes queridos, em cujas felicidades e soffrimentos se tomava parte.

No pequeno quarto nascia assim o sentimento do parentesco espiritual, unindo os operarios de aquella terra da qual elles eram ao mesmo tempo os senhores e os escravos. Esta confraternidade, que lhes dava uma só alma, impressionava Pélagué, e embora ella lhe fosse inaccessivel, fazia-a elevar se sob a influencia d’aquella força alegre, triunfante, embriagadora e cheia de mocidade, acariciadora e cheia de esperanças.

—No meio de tudo, como os srs. são! disse ella um dia ao russo-menor. Para os srs., todos são companheiros: os judeus, os armenios, os austriacos... Falam d’elles como se falassem de amigos, entristecem-se e alegram-se com o mundo inteiro!

—Sim, mãesinha! exclamou elle. O mundo é nosso! o mundo é dos operarios! Para nós não ha nações, nem raças! ha somente companheiros e... inimigos. Todos os operarios são nossos amigos; todos os ricos, todos os que teem auctoridade, são nossos inimigos. Quando se olha para a terra com bons olhos, quando se vê quanto nós, os operarios, somos numerosos, que poder espiritual nós representamos, sente-se o coração invadido pela alegria e pela felicidade, como na celebração de uma festa solemne. O francez e o allemão teem o mesmo sentimento, e os italianos tambem rejubilam. Somos todos nascidos da mesma mãe, da grande, da invencivel idéa da fraternidade operaria, em todos os paizes da terra. Desenvolve-se, aquece-nos com o seu calor, é o segundo sol no ceo da justiça; e este ceo está no coração do operario. Qualquer que elle seja, seja qual fôr o seu nome, o socialista é nosso irmão em espirito, agora e para sempre, por todos os seculos dos seculos!

Esta exuberancia infantil, esta fé luminosa e inabalavel manifestava-se de mais em mais no pequeno grupo, n’uma força crescente.

E quando Pélagué via esta alegria, sentia instinctivamente que na verdade viera ao mundo o que quer que fosse grande e resplendente, como um sol semelhante ao que via no ceo.

Ás vezes, cantavam, alegremente e a plenos pulmões, canções familiares; por outras, aprendiam novas canções, tambem melodiosas, mas com musica melancólica e fóra do vulgar. Então, abaixavam a voz, as fisionomias tornavam-se graves, pensativas, como ao som de um hymno religioso. Os rostos tornavam-se pallidos, os que cantavam animavam-se, e sentia-se que uma grande força se occultava sob as palavras sonoras.

Uma d’aquellas canções principalmente perturbava e inquietava Pélagué. Não traduzia os gemidos, as preplexidades da alma ultrajada que vagueia solitaria nos atalhos obscuros das incertezas dolorosas nem dos gritos da alma incolor e informe assaltada pela miseria, embrutecida pelo medo. Não repetia os languidos suspiros do ser avido de espaço, nem os gritos de provocação da audacia fogosa prestes a destruir o mal e o bem, indifferentemente. O cego sentimento da vingança e do odio, capaz de aniquilar tudo, impotente para crear, não apparecia então; não havia em taes canções qualquer vestigio do antigo mundo, do mundo dos escravos.

As palavras rispidas, a melodia austera não agradavam a Pélagué, mas havia n’aquellas canções uma como força immensa que abafava o som e as palavras, despertando no coração o presentimento de alguma coisa grandiosa para o pensamento. Pélagué via isto nos rostos, no olhar dos novos, e, cedendo áquelle poder misterioso, escutava sempre a canção, duplamente attenta, com inquietação profunda.

—Já é tempo de a cantarmos pelas ruas! dizia o sombrio Vessoftchikof, em principios da primavera.

Quando o pae mais uma vez foi prezo, declarou tranquillamente:

—Agora poderiamos reunirmo-nos em minha casa...

Quasi todas as tardes, depois do trabalho, um ou outro dos companheiros ia a casa de Pavel; liam juntos, copiavam trechos das brochuras. Andavam preoccupados e nem já tinham tempo de se lavarem. Ceavam juntos e tomavam o seu chá sem pôrem de lado os livros; e as suas conversas cada vez se tornavam mais incompreensiveis para Pélagué.

—Precisamos de um jornal! repetia Pavel, a miude.

A vida tornava-se febril e agitada; dirigiam-se uns aos outros com mais celeridade, era com mais rapidez que passavam d’um livro a outro, como abelhas voando de flôr para flôr.

—Começa-se a falar de nós! disse uma noite Vessoftchikof. Provavelmente, acabamos por ser presos, dentro em pouco.

—Quem não quer ser lobo não lhe veste a pelle! observou o russo-menor.

Cada vez agradava mais a Pélagué. Quando elle lhe chamava mãesinha, parecia-lhe que uma suave mão de creança lhe afagava o rosto. Ao domingo, se Pavel tinha que fazer, era elle quem rachava a lenha; um dia appareceu carregado com uma grande taboa, pegou na ferramenta e substituiu com habilidade um degrau pôdre da porta d’entrada; doutra vez, recompoz a varanda que ameaçava ruina. Emquanto trabalhava, assobiava musicas melancólicas.

Pélagué disse um dia ao filho:

—Se nós fizessemos do russo-menor nosso hospede? Seria mais commodo para ambos, que não precisariamos de andar sempre a correr de casa d’um para casa do outro.

—Para que ha de ir arranjar mais esse trabalho? perguntou Pavel, encolhendo os hombros.

—Ora! Durante toda a minha vida tenho sido atormentada com trabalho sem saber para quê; posso perfeitamente fazer isto hoje em favor de tão bom homem.

—Faça o que quizer! Se elle acceitar, dar-me-á satisfação.

E o russo-menor passou a viver com elles.

VIII

A pequena casa na extrema do bairro despertava a attenção: as suas paredes já tinham sido como que atravessadas por olhares suspeitosos. As azas do rumor publico agitavam-se por cima della; tentava-se descobrir o misterio que ali se occultava. Á noite, havia quem fosse espreitar pela janella; por vezes, alguem havia que batesse na vidraça, fugindo logo.

Certo dia, na rua, o taverneiro Bégountzef fez parar a mãe de Pavel. Era um bonito velhote que tinha sempre um lenço de seda preta á roda do pescoço vermelho e enrugado. O nariz brilhante e agudo era adornado por lunetas de aro d’escama de peixe, o que lhe tinha grangeado a alcunha de «Olhos d’osso».

Sem tomar a respiração nem esperar resposta, surpreendera Pélagué com uma torrente de palavras sêccas e vivissimas:

—Como vae, Pélagué Nilovna? E o seu filho? Ainda não acha tempo de o casar? O rapaz já está afinal na devida idade para ter uma mulher. Quando os paes casam cedo os filhos ficam mais tranquillos. O homem que vive em familia tem mais saude, tanto de corpo como de espirito, conserva-se como um cogumello em vinagre. No seu logar, eu já o tinha casado. Os tempos que vão correndo exigem que abramos os olhos no que respeita ao ente humano; ha quem se entregue a uma vida a seu modo, deixando-se arrastar a toda a casta d’acções censuraveis. Já se não vêem os rapazes no templo de Deus; afastam-se dos logares publicos, mas reunem-se ás escondidas pelos cantos, a cochichar. Porque andam elles a cochichar? se me permitte a pergunta. Porque se occultam? O que é que um homem não póde dizer em publico, na taverna, por exemplo? Misterios! Mas o logar dos misterios é a nossa santa egreja apostolica! Todos os outros misterios, realisados a occultas, vem da desorientação do espirito. Muitos bons dias lhe desejo.

E tirou o boné com um gesto pretencioso, agitou-o no ar, e foi-se, deixando Pélagué immersa na perplexidade.

D’outra vez, Maria Korsounova, visinha dos Vlassof, viuva d’um ferreiro, e que vendia comestiveis na fabrica, disse a Pélagué ao encontral-a no mercado:

—Não percas de vista o teu filho, Pélagué!

—Porquê?

—Correm uns boatos a seu respeito... segredou com ares misteriosos. Coisas feias! Diz-se que está organisando uma especie de corporação, no genero dos flagelantes. Chama-se a isto uma seita. Fustigar-se-ão uns aos outros como os flagelantes.

—Não digas mais tolices, Maria!

—Vae ralhar com elle que é quem as faz, e não comigo, que te dou parte do caso! replicou a vendedeira.

Pélagué contou a conversa ao filho, que encolheu os hombros sem responder. Quanto ao russo-menor, desatou a rir, com as suas gargalhadas benevolas.

—As raparigas tambem estão zangadas! Sois todos aptos para vos tornardes bons maridos, trabalhaes bem, não bebeis... e nem olhaes para ellas! Diz-se que da cidade vem visitar-vos pessoas de má reputação...

—Já cá faltava! exclamou Pavel, fazendo uma cara de nojo.

—N’um pantano tudo cheira a pôdre! disse André suspirando. Seria melhor, mãesinha, que explicasse a essas patetinhas o que é o casamento. Talvez não ficassem com a mesma pressa de caír na asneira!

—Ah! exclamou Pélagué. Ellas bem sabem, mas como hão de passar sem casarem?

—Falta-lhes a compreensão, aliás achariam outra coisa em que se occuparem! disse Pavel.

Ella dirigiu o olhar para o rosto irritado do filho, balbuciando:

—É a vós que cabe ensinal-as! Convidem para isso as mais intelligentes.

—Impossivel! respondeu Pavel, seccamente.

—Se tu experimentasses!... arriscou André.

Depois de um silencio, Pavel respondeu:

—Começariam a passear aos pares, alguns acabariam por casar, e prompto!

Pélagué caíu em meditações. A austeridade monacal do filho atordoava-a. Via que elle era obedecido pelos companheiros, até pelos mais velhos, como o russo-menor, mas parecia-lhe que todos o temiam e que não gostavam da frieza dos seus modos.

Uma vez que ella estava na cama e Pavel e André ainda liam, apurou o ouvido ás suas palavras que lhe chegavam atravez do tabique.

—Gosto da Natacha, sabes? disse de repente o russo-menor, a meia voz.

—Sim, sei.

Pavel não respondera logo.

Pélagué ouviu o russo-menor levantar-se, vagaroso, e começar a passear pelo quarto, com os pés descalsos. Assobiou uma triste canção; depois tornou a falar:

—Ella terá notado?...

Pavel ficou silencioso.

—Que te parece? perguntou de novo o companheiro, baixando a voz.

—Tem notado! respondeu Pavel. E é por isso que já não vem.

André voltou a passear, assobiando; até que:

—E se eu lho dissesse?...

—O quê?

—Que...

—Para quê?

Pélagué ouviu André rir.

—Eu cá, sim, parece-me que quando se ama uma rapariga, devemos dizer-lho, se não é o mesmo que nada!...

Pavel fechou o livro com ruido e perguntou:

—E que resultado esperas?

Estiveram calados durante alguns minutos.

—E então? perguntou André.

—É preciso ver claramente o que se quer... disse emfim Pavel com vagar. Supponhamos que ella tambem te ama. Não creio. Mas supponhamos. Casam. É uma união interessante, na verdade, a d’uma rapariga com um operario!... Vem os filhos... serás obrigado a trabalhar sósinho... e muito. A vossa vida será a de toda a gente, luctareis para ter com que vos sustentardes, para terdes casa onde viver com os filhos. E afinal ambos ficareis perdidos para a obra.

Houve um silencio, até que Pavel concluiu:

—Deixa-te d’isso, André! Cala-te. Não a perturbes.

—Mas Nicolao Ivanovitch prégava a necessidade de viver a vida integral, com todas as forças da alma e do corpo... Lembras-te?

—Prégava, mas não para nós. Como atingirias tu a integridade? Não existe para ti. Quando se ama o futuro, temos que renunciar a tudo no presente, a tudo, irmão!

—É custoso! replicou André em voz abafada.

—E como poderia não ser assim? reflecte!

Houve novo silencio. Ouvia-se apenas a pendula do relogio, compassadamente, dividindo o tempo em segundos.

O russo-menor disse:

—Metade do coração ama; a outra odeia... E é isto coração, an?

—E como poderia não ser assim?

Seguiu-se o folhear d’um livro: por certo Pavel voltava á leitura. Pélagué permanecia deitada com os olhos fechados, sem se atrever a fazer nem um movimento. Sentia-se profundamente apiedada de André, mas ainda mais do seu filho. Dizia comsigo: «Meu querido filho... meu martyr! meu sacrificado!»

De subito, André perguntou:

—Devo então calar-me, não é isso?

—É o mais honesto, André...

—Bem! entrarei n’esse caminho! decidiu o outro.

Mas accrescentou tristemente, decorrido um instante:

—Has de soffrer, Pavel, quando chegar a tua vez.

—Chegou. Já soffro... e cruelmente.

—Tu tambem?

Lá fóra o vento soprava em torno da casa.

—Não tem nenhuma graça isto!... disse André lentamente.

Pélagué metteu a cabeça debaixo da roupa para poder chorar.

Na manhã seguinte, André pareceu-lhe como fisicamente amesquinhado, e sentiu-o mais proximo do seu coração. Como sempre, o filho tinha o porte secco, silencioso, rigido. Até então ella tratava o russo-menor por André Onissimovitch; d’aquelle dia em diante, sem querer, sem dar por tal, disse-lhe:

—Deve concertar as suas botas, meu André, senão tem frio nos pés.

—Hei de comprar outras, quando receber a féria.

Depois desatou a rir e perguntou-lhe de chofre, pondo-lhe no hombro a sua pesada mão:

—Talvez a senhora seja a minha verdadeira mãe, mas que não queira confessal-o, porque me ache muito feio! Será assim?

Sem falar, ella deu-lhe uma pancadinha na mão. Desejaria dizer-lhe palavras carinhosas, mas o coração confrangia-se apiedado, e a sua lingua recusava-se a obedecer-lhe...

IX

No bairro começavam a occupar-se dos socialistas que espalhavam por toda a parte folhas de papel escriptas a tinta azul. Eram papeis que falavam malevolamente dos regulamentos impostos aos operarios, das gréves de Petersburgo e da Russia meridional; exhortavam os trabalhadores a formarem uma liga e a luctarem na defeza dos seus interesses.

As pessoas de certa idade que occupavam bons logares na fabrica, irritavam-se e diziam:

—Seria conveniente dar uma sova mestra n’estes agitadores!

E levavam os papeis aos seus chefes.

Os rapazes, enthusiasmados com taes escriptos, exclamavam ardentemente:

—O que elles dizem é a verdade!

A maioria dos operarios, alquebrados pelo trabalho, indifferentes a tudo, pensavam indolentemente:

—Aquillo não dá nada.

No entanto as folhas volantes interessavam a todos e, quando não appareciam, diziam uns para os outros:

—Hoje não ha; deixaram de publical-as...

Mas quando, á segunda-feira, reappareciam, os operarios de novo se agitavam ruidosamente.

Na fabrica e na taverna eram vistas umas pessoas que ninguem conhecia. Interrogavam, examinavam, farejavam, e impressionavam a todos com a sua prudencia suspeita.

Pélagué sabia que toda aquella agitação era obra do seu filho. Via-os cercarem-no, elle porém não era só, o que tornava o caso menos perigoso. E o orgulho de ter tal filho juntava-se n’ella á anciedade que o futuro lhe inspirava: eram os trabalhos misteriosos do rapaz a misturarem-se como um limpido ribeiro á torrente lamacenta da vida...

Uma tarde, Maria Korsounova bateu á vidraça e, quando Pélagué a entreabriu, a visinha cochichou:

—Que te dizia eu, Pélagué? Prepara-te! Os teus passarinhos acabaram de rir! Esta noite hão de vir fazer uma busca em tua casa, na de Mazine e na de Vessoftchikof.

Não ouviu mais do que as primeiras palavras; as ultimas fundiram-se n’um rumor vago e melancolico.

Os labios espessos de Maria vibravam com rapidez, o seu nariz carnudo dilatava-se, os olhos tornavam-se piscos, e moviam-se vagamente para um e outro lado, como em procura de alguem na rua.

—E olha que eu não sei nada, nada te disse, minha querida, nem mesmo te vi ainda hoje... Percebes?

Desappareceu.

Pélagué fechou a janella e deixou-se caír n’uma cadeira, com a cabeça como vasia, sem forças. Mas a consciencia do perigo que ameaçava o seu filho fêl-a erguer de subito; vestiu-se á pressa, envolveu a cabeça n’um chale e correu a casa de Fédia Mazine, que estava doente. Quando entrou, viu-o sentado junto da janella, a lêr, e como que acalentando com a mão esquerda a direita, cujo pollegar se mantinha afastado dos outros dedos. Ao ouvir a má nova, elle pôz-se logo de pé, empallidecendo.

—Que historia esta!... E eu com um abcesso n’este dedo! resmungou.

—Que devemos fazer? perguntou Pélagué alimpando tremulamente o suor do rosto.

—Espere... não tenha medo! respondeu passando pelos cabellos encaracolados a mão válida.

—Mas se o senhor é o primeiro a ter medo!...

—Eu?

Córou de repente, e disse a sorrir, com embaraço:

—Sim, é verdade, c’os demonios! Precisamos de prevenir o Pavel. Vou mandar-lhe alguem... Volte para casa... Isto não ha de ser nada. Então! ninguem ha de bater-nos!

Apenas chegou a casa, Pélagué reuniu em monte os livros, metteu-os debaixo do braço e pôz-se á busca de um canto onde occultal-os. Olhou para o fogão, para o forno, para o canudo do samovar e até para o barril cheio d’agua. Dizia comsigo que Pavel largaria d’ali a pouco o trabalho e voltaria para casa; elle porem demorava-se. Por fim, vencida de cansaço, sentou-se n’um banco da cosinha, escondeu os livros debaixo da saia e ficou immovel até que apparecessem o filho e André.

—Já sabem?! disse sem se levantar, apenas os viu.

—Já sabemos! respondeu Pavel com sorriso calmo. Tens medo?

—Tenho, muito!

—Não deves ter medo. Não serviria de nada. Nem sequer preparaste o samovar?!

Ella ergueu-se, e, mostrando os livros, explicou, embaraçadamente:

—Era por causa delles...

O russo-menor e Pavel desataram a rir, o que a tranquillisou em parte. Depois, o filho pegou em alguns dos volumes e saíu para ir escondel-os no pateo; André dispoz-se a accender o samovar, e foi dizendo:

—Nada ha terrivel n’isto; o que faz envergonhar uma pessoa é pensar que haja quem se occupe d’estas coisas. Hão de vir por ahi uns homens vestidos de cinzento, com um sabre á cinta, esporas nos calcanhares, e rebuscarão por toda a parte. Espreitam para debaixo das camas, e do fogão; se ha adega, descem á adega; se ha sotão, sobem ao sotão. As teias d’aranha caem-lhes nos focinhos, e elles espinoteiam. Enfadam-se, envergonham-se, e por isto fingem-se muito maos e mostram-se furiosos contra a gente. O seu emprego é porco, e elles bem o sabem. Uma vez, foram dar busca á minha casa, não encontraram coisa alguma e... elles ahi vão! D’outra vez, levaram-me comsigo. Metteram-me depois na cadeia, onde estive quatro mezes. De tempos a tempos, iam buscar-me e faziam-me atravessar as ruas no meio de uma escolta de soldados. Perguntavam-me toda a casta de coisas. Não são creaturas intelligentes, não sabem falar com criterio. Depois diziam aos soldados que me levassem outra vez para a cadeia. E aqui está como fazem de nós gato sapato. Emfim, teem que ganhar os seus ordenados!... Acabaram por pôr-me na rua. E prompto!

—Que maneira de falar, meu André! exclamou Pélagué mal-disposta.

Ajoelhado em frente do samovar, o russo-menor soprava com toda a força pelo canudo; levantou a cabeça, mostrando a cara avermelhada pelo esforço e perguntou alisando com as duas mãos o bigode:

—Como é então que eu falo?

—Como se nunca o tivessem offendido.

Elle ergueu-se, approximou-se de Pélagué, e, tendo abanado a cabeça, disse, sorrindo:

—Ha por acaso alguem n’este mundo que não tenha sido offendido? É que tanto me ultrajaram já, que me cansei de encolerisar-me. Que fazer, se os mais não podem proceder d’outra maneira? Os ultrages incommodam-me muito, impedem-me de realisar a minha obra... mas não os podemos evitar, e, se pensamos n’isso, perdemos o nosso tempo. A vida é assim! D’antes zangava-me contra essa gente; depois, quando me veio a reflexão, vi que todos elles tinham o coração despedaçado. Cada qual tem medo de ser o primeiro a atacar. A vida é assim, mãesinha!

As palavras soltavam-se-lhe tranquillamente e faziam extinguir-se a anciedade de Pélagué. Os olhos polpudos d’elle sorriam, luminosos e tristes; todo o seu corpo era flexivel, elastico, embora como desengonçado.

Ella suspirou e disse com calor:

—Deus o faça feliz, meu André!

O russo-menor voltou para o samovar, ajoelhou-se outra vez e murmurou:

—Se me derem a felicidade, não a recusarei; mas não a peço e nunca irei buscal-a.

E pôz-se a assobiar.

Pavel voltou do pateo.

—Não encontrarão coisa alguma! affirmou, convencido.

Começou a lavar-se. Depois accrescentou, limpando cuidadosamente as mãos:

—Se lhes mostrar que tem medo, mamã, dirão que alguma coisa ha para despertar desconfiança. E nós nada fizemos ainda... nada! Bem o sabe, nada queremos que seja mao; a verdade e a justiça estão do nosso lado, trabalharemos por ellas toda a vida: eis o nosso crime! Porque havemos de tremer?

—Terei coragem, Pavel! prometteu.

Mas logo disse, angustiada:

—Se ao menos «elles» viessem depressa!

«Elles» porem não vieram n’aquella noite.

No dia seguinte, prevendo que Pavel e André iriam chasquear dos seus terrores, foi a primeira a rir-se de si mesma.

X

«Elles» chegaram quando menos os esperavam, quasi um mez depois. Vessoftchikof, André e Pavel estavam reunidos e falavam do seu jornal. Era tarde, perto da meia noite. Pélagué já estava deitada, ia adormecendo e ouvia-lhes vagamente as vozes receosas e em tom baixo. André levantou-se de chofre, atravessou a cosinha nos bicos dos pés e fechou de mansinho a porta apoz elle. No corredor ouviu-se o ruido d’uma celha que tombára. André disse em voz alta:

—Oiçam: é o ruido de esporas, na rua!

Pélagué levantou-se de salto, pegou n’uma saia, tremula; mas Pavel appareceu no limiar e disse-lhe tranquillamente:

—Fique deitada... Não está bôa...

Ouviu-se depois um deslisar furtivo sob o telheiro.

Pavel approximou-se da porta, e batendo nella com a mão, perguntou:

—Quem está ahi?

Rapido como um relampago, um corpo d’homem alto surgiu entre os umbraes; e outro ainda. Os dois guardas repelliram o rapaz, puxando-o depois para entre elles. Uma voz grave e irritada disse:

—Não é quem esperavas, un?

Quem falava era um official ainda novo, alto e magro, de bigode preto. Fédiakine, agente da policia do bairro, dirigiu-se para a cama de Pélagué; levando a mão ao boné, em continencia, indicou com a outra a mulher, dizendo com um olhar terrivel:

—A mãe é esta, meu Senhor!

Depois, apontando para Pavel:

—E o filho é aquelle!

—Pavel Vlassof? perguntou o official, franzindo os olhos.

O rapaz respondeu affirmativamente com a cabeça.

Passando a mão pelo bigode, o official informou:

—Venho fazer uma busca em tua casa... A velha que se levante! Quem está ali?

E, tendo olhado para o quarto, entrou n’elle a passos largos.

Ouviram-no perguntar:

—O seu nome?

Outros dois personagens appareceram ainda: o velho fundidor Tvériakof e o seu inquilino, o fogueiro Rybine, um homem de cabelleira negra e de bom porte. Tinham sido trazidos pela policia como testemunhas:

Rybine disse com voz grossa e possante:

—Boa noite, Pélagué!

Ella vestia-se, e, para se dar coragem, murmurava:

—Esta agora! Virem de noite!... quando uma pessôa está na cama!...

O quarto parecia pequeno e por elle se espalhara um cheiro activo a graxa. Os dois guardas e o commissario de policia do bairro, Riskine, tiravam da estante os livros com ruido, e empilhavam-nos diante do official. Os outros davam pancadas nas paredes, olhavam para debaixo das cadeiras; um trepou com custo ao cano do fogão. O russo-menor e Vessoftchikof, unidos um ao outro, conservavam-se a um canto; o rosto bexigoso do segundo estava coberto de manchas vermelhas, e os seus olhinhos pardos não podiam desfitar-se do official. André retorcia o bigode, e quando Pélagué entrou no quarto, fez-lhe com a cabeça um movimento amigavel.

Para occultar o terror, mexia-se não de lado, como de costume, mas com o peito deitado para a frente, o que lhe dava um aspecto d’importancia affectada e risivel. Andava ruidosamente e as palpebras tremiam-lhe.

O official ia pegando rapidamente nos livros com as pontas dos dedos brancos e delgados, folheava-os, saccudia-os, e rapidamente atirava-os para o lado. Alguns volumes caíram no chão. Todos estavam callados; não se ouvia mais do que o respirar dos guardas esbofados, o tintilar das suas esporas; de quando em quando um d’elles perguntava:

—Já viste aqui?

Pélagué collocou-se junto do filho, encostada á parede; como elle, cruzou os braços no peito e quiz observar o official. As pernas vacillaram-lhe, um nevoeiro toldava-lhe a vista.

De subito, a voz de Vessoftchikof soltou-se concludente:

—Para que serve deitar os livros ao chão?

Pélagué estremeceu. Tvériakof abanou a cabeça como lhe tivessem batido na nuca; Rybine resmungou e fitou attentamente o audacioso.

O official franziu os olhos e cravou-os no rosto bexigoso e immovel do rapaz... Depois os seus dedos folhearam o livro com mais rapidez.

De quando em quando, os olhos pardos de Vessoftchikof abriam-se tanto que dir-se-ia elle estar soffrendo atrozmente e prestes a gritar, furioso e impotente contra a dôr.

—Soldado! exclamou de subito. Apanha os livros!

Os guardas voltaram-se para elle, e olharam depois para o official. Este levantou a cabeça, e olhando rapidamente de soslaio para o rapaz, ordenou por entre dentes:

—Vá lá, apanhem os livros.

Um dos guardas abaixou-se, e observando furtivamente Vessoftchikof poz-se a apanhar os livros esfarrapados.

—Teria feito melhor estando calado... disse baixinho Pélagué para o filho.

Elle encolheu os hombros. O russo-menor estendeu o pescoço.

—Que cochichar é esse? Façam favor de estar calados! Quem é que lê aqui a Biblia?

—Eu! respondeu Pavel.

—Ah!... E de quem são estes livros?

—Meus.

—Está bem!... commentou o official apoiando-se ás costas da cadeira.

Fez estalar os nós dos seus dedos finos e brancos, estendeu as pernas debaixo da meza, cofiou o bigode, e perguntou a Vessoftchikof:

—És tu que te chamas André Nakhodka?

—Sou eu! respondeu o bexigoso avançando.

O russo-menor deitou-lhe a mão a um hombro e obrigou-o a recuar.

—Enganou-se! o André sou eu.

O official levantou a mão, e ameaçando Vessoftchikof com o dedo indicador erguido:

—Toma cuidado!...

Começou a remexer nos seus papeis.

A noite luminosa e clara olhava indifferentemente pela janella. Alguem ia e vinha em frente da casa e a neve estalava sob os seus passos.

—Já foste perseguido por delictos politicos, Nakhodka? perguntou o official.

—Já: em Rostof e em Saratof... Com a differença de que ali as auctoridades não me tratavam por «tu.»

O official franziu o olho direito, esfregou-o e disse depois, mostrando os dentitos:

—N’esse caso, Nakhodka, conhece talvez... Sim... deve conhecer os scelerados que espalham pela fabrica folhetos e proclamações prohibidas?...

O russo-menor teve um estremecimento, ia dizer o que quer que fosse com um sorriso aberto, quando se ouviu de novo a excitante voz de Vessoftchikof:

—É a primeira vez que vemos scelerados!

Houve um instante de silencio.

O rosto de Pélagué tornou-se pálido até na cicatriz, emquanto o sobrolho direito lhe era repuxado para cima. A barba negra de Rybine entrou de tremer de uma maneira estupenda; baixou a cabeça e passou a mão vagarosamente pelo bigode.

—Ponham fóra d’aqui essa besta! ordenou o official.

Dois guardas agarraram o rapaz por debaixo dos braços e arrastaram-no para a cosinha. Quando lá chegou, conseguiu parar, e apegando-se ao chão com toda a força de que os seus pés eram susceptiveis, gritou:

—Esperem! Quero pôr a minha capa!

O commissario de policia, que estivera a rebuscar no pateo, appareceu dizendo:

—Nada encontrámos. Vimos todos os cantos.

—Está claro! exclamou o official ironicamente. Já o esperava! Estamos a contas com homens já muito experientes.

Pélagué ouviu aquella voz fraca, tremula e imperiosa; e ao observar aquelle rosto amarellento sentia estar ali um inimigo, um inimigo implacavel, com o coração cheio de desprezo pelo povo. D’antes poucas pessoas assim ella tinha visto, e nos ultimos annos chegára a esquecer-se de que ellas existiam.

—É a estes que nós causamos inquietações!... pensava.

—Senhor André Onissimof Nakhodha, filho de pae incognito, está preso!

—Porquê? perguntou tranquillo.

—Depois lhe direi! respondeu o official com malevola delicadeza.

E voltando-se para Pélagué, berrou-lhe:

—Sabes ler e escrever?

—Não! interveiu Pavel.

—Não falo comtigo! disse o official com severidade. Responde, velha, sabes ler e escrever?

Invadida de um sentimento de instinctivo odio contra aquelle homem, Pélagué aproximou-se de súbito, muito trémula, como se tivesse caído n’um rio gelado; a cicatriz fez-se escarlate, e o sobrolho baixou-lhe.

—Não grite! exclamou, estendendo o braço para o official. É ainda novo, não sabe o que seja o soffrimento...

—Socegue, mamã... interrompeu Pavel.

—É melhor uma pessoa abafar o coração e calar-se! aconselhou André.

—Espera, Pavel! exclamou ainda Pélagué, n’um arranco para a meza. Porque é que o sr. anda prendendo a gente?

—Isso não é da sua conta. Cale-se! berrou o official, erguendo-se. Tragam cá o Vessoftchikof.

E pôz-se a ler um papel que collocara á altura do rosto.

Trouxeram o rapaz.

—Tira o boné! disse-lhe o official, interrompendo a leitura.

Rybine approximou-se de Pélagué e dando-lhe um encontrão:

—Não se apoquente, tiasinha!

—Como hei-de eu tirar o boné, se tenho as mãos agarradas?

O official atirou com o auto para cima da meza, dizendo simplesmente:

—Assignem!

Pélagué viu os assistentes assignarem o documento, a sua excitação desapparecera, faltava-lhe a coragem; affluiam-lhe aos olhos amargas lagrimas de humilhação e de consciencia da sua fraqueza. Durante os vinte annos da sua vida de casada, tinha chorado lagrimas como aquellas; mas esquecera-lhe o ardor quasi por completo desde que enviuvára. O official olhou para ella e commentou com uma expansão desdenhosa:

—Foi cedo para tanto alarde, minha prenda! Creia que é capaz de ficar sem lagrimas... para o futuro.

Respondeu-lhe, outra vez irritada:

—Ás mães nunca faltam as lagrimas!... Se tem mãe, ella deve saber isto, com certeza!

O official metteu rapidamente os seus papeis na carteira, que era nova e de feixos brilhantes; e dirigindo-se ao commissario de policia:

—Todos elles denotam uma independencia revoltante!

—Que insolencia! murmurou o commissario.

—A caminho! ordenou o official.

—Até á vista, André! até á vista, Nicolao! disse Pavel apertando calorosamente a mão dos companheiros.

—Está claro... até á vista! repetiu o official com ironia.

Sem dizer palavra, Vessoftchikof apertava a mão de Pélagué entre os seus dedos curtos. Respirava a custo; o pescoço robusto estava congestionado, os olhos brilhavam-lhe de raiva. André sorria e meneava a cabeça; disse algumas palavras a Pélagué, que fez o signal da cruz sobre elle, respondendo-lhe:

—Deus conhece os justos!

Emfim o bando de homens de capotes cinzentos desappareceu dobrando a esquina da casa, com um tintilar de esporas. Rybine foi o ultimo a saír; com o seu negro olhar prescrutou Pavel; em tom meio abstracto disse:

—Adeus, an...?

E foi-se, sem pressas, tossindo, de cabeça baixa.

Com as mãos cruzadas nas costas, Pavel entrou de passear de um para outro lado, por entre as trouxas de roupa e os livros espalhados no chão, até que perguntou em tom sombrio:

—Viste como é?

Sem deixar de olhar para a desordem em que ficára o quarto, ella disse baixinho, afflicta:

—Prender-te-ão tambem... tambem, a ti! Para que foi tão grosseiro o Vessoftchikof?

—Teve medo, provavelmente!... respondeu Pavel tambem em voz baixa. Não se deve falar áquella gente... nada se consegue d’elles! são incapazes de compreender...

—Vieram! prenderam-no! levaram-no! murmurou, com os braços erguidos.

Só lhe restava o filho. O coração de Pélagué começou a pulsar mais vagaroso; o seu pensamento immobilisava-se perante um facto que ella não podia admittir como real.

—Faz pouco de nós, aquelle homem amarello: ameaça-nos... e...

—Basta, mãe! disse de repente Pavel com decisão. Anda cá, arrumemos tudo isto.

Tinha dito aquelle «mãe» e tratara-a por tu como era seu costume quando se tornava mais communicativo. Ella approximou-se, encarou-o e perguntou em voz baixa:

—Humilharam-te?

—Sim! Custou-me muito! Preferia ir com elles.

Pareceu a Pélagué que elle tinha os olhos lacrimosos; e para o consolar d’aquelle desgosto que ella vagamente adivinhava, disse, suspirando:

—Tem paciencia... um dia virá em que tambem sejas preso!

—Bem sei... respondeu.

Decorridos uns instantes, ella accrescentou com tristeza:

—Como és cruel, meu filho! Se ao menos me tranquillisasses... Mas não! se eu digo coisas terriveis, o que tu me respondes é peor ainda!

Elle olhou de relance, approximou-se, e baixando a voz:

—Não sei que responder-lhe, mamã. Não posso mentir. Tem que acostumar-se...

Pélagué suspirou e calou-se; depois, estremecendo:

—Será verdade? Dizem que elles torturam os presos, que lhes retalham o corpo em tiras, e lhes quebram os ossos... Quando penso n’isto, tenho medo, Pavel, meu querido filho!

—Torturam a alma e não o corpo. É ainda mais doloroso do que a tortura tocarem-nos na alma com as mãos emporcalhadas!

XI

Soube-se na manhã seguinte que Boukine, Samoílof, Somof e mais cinco pessoas tambem tinham sido presos. Á noite, Fédia Mazine veio de corrida: haviam feito uma busca em sua casa; estava radiante por isso, e considerava-se como um heroe.

—Tiveste medo, Fédia? perguntou Pélagué.

Empallideceu, encovou-se-lhe o rosto, as narinas estremeceram-lhe.

—Tive medo de que o official me batesse! Tinha barba negra e era forte; os dedos cabelludos; usava lunetas de vidros pretos; parecia que lhe faltavam os olhos. Gritou, batendo com o pé: «Faço-te apodrecer na cadeia!» Em mim nunca ninguem bateu, nem o meu pae, nem a minha mãe, porque eu era filho unico, e elles queriam-me muito. Toda a gente tem levado pancada; eu, nunca.

Fechou por um instante os olhos avermelhados e apertou os beiços; com um gesto rapido, atirou para traz com os cabellos e disse, encarando em Pavel:

—Se alguem me bater, enterro-me n’elle como uma navalha, retalho-o com os dentes. É preferivel que me estendam de vez!

—Tão magrito e fraco!... exclamou Pélagué. Como poderias luctar?

—Pois luctarei! respondeu em voz baixa.

Quando elle saiu, ella disse para o filho:

—Será esmagado primeiro do que os outros.

Pavel não respondeu.

Minutos depois, a porta da cosinha abriu-se devagar, e Rybine entrou.

—Bôa noite! disse, sorrindo. Sou eu outra vez. Hontem á noite, obrigaram-me a cá vir; hoje venho por minha conta.

Apertou com vigor a mão de Pavel, e pondo a mão no hombro de Pélagué:

—Dás-me chá?

Pavel observou em silencio o amplo rosto atrigueirado do seu visitante, a sua espessa barba negra e os seus olhos intelligentes. Havia um tanto de gravidade no seu olhar tranquillo; todo o aspecto do recemchegado, de athletica corpolencia, inspirava simpathia pela sua decidida firmeza.

A mãe foi á cosinha preparar o samovar.

Rybine sentou-se, afagou o bigode, e, encostando-se á meza, envolveu Pavel n’um olhar.

—Com que então... Assim começou, como se reatasse o fio de uma conversa. Devo falar-te abertamente. Observei-te por muito tempo antes de vir á tua casa. Somos quasi visinhos, via que recebias muita gente e que ninguem se embriagava nem fazia escandalos. Isto dava nas vistas. Quando alguem se porta bem, é logo notado, vê-se logo quem é. Eu proprio chamo as attenções para a minha pessoa porque vivo á parte, sem praticar porcarias.

Falava vagarosamente, com ripanso; tinha inflexões que inspiravam confiança.

—Com que então, toda a gente fala de ti. O meu senhorio chama-te «herético» porque não vaes á egreja. Eu tambem lá não vou. Depois appareceram essas fôlhas, esses papeis... A idéa foi tua?

—Foi! respondeu Pavel sem desviar o olhar da fisionomia de Rybine, que tambem o fitava.

—Ora vamos! exclamou Pélagué, sobresaltada, e saíndo da cosinha. Não foste só tu...

Pavel sorriu. Rybine tambem.

—Ah!... murmurou este.

A velha fungou e saíu, um tanto irritada por não terem prestado attenção ás suas palavras.

—Era uma bôa idéa. Perturbam o povo. Quantas foram ao todo? Umas dezenove, não?

—Isso mesmo.

—Então li-as todas! Bem... bem... Ha por lá coisas incompreensiveis, superfluas. Quando o homem fala muito, acontece-lhe falar para nada.

Sorriu; tinha os dentes brancos e sãos.

—Depois, a busca que fizeram em tua casa... Foi o que me dispoz a teu favor. Tu, o russo-menor e Vessofchikof mostraram-se muito... muito...

Como não encontrava a palavra, calou-se, olhou pela janella, e bateu com um dedo na mesa:

—Mostraram-se decididos. Foi como se dissessem: «Faça a sua obra, Excellencia, que nós faremos a nossa!» O russo-menor tambem é um rapaz como se quer. Ás vezes, na fabrica, quando o ouvia falar, pensava: «Este não é para se deixar esborrachar, não! Só a morte poderá vencel-o. Tem um bigode, o typo!» Não acha, Pavel?

—Acho! respondeu, movendo a cabeça affirmativamente.

—Ora bem... Tenho quarenta annos, o dobro da tua edade; tenho visto vinte vezes mais do que tu. Fui soldado durante mais de trez annos; fui casado duas vezes; morreu-me a primeira mulher; deixei a segunda. Estive no Caucaso, vi os Doukhobors... Não souberam vencer a vida, irmão! oh! não souberam!

Pélagué escutava avidamente estas palavras; era-lhe agradavel vêr um homem de edade respeitavel procurar o filho como para confessar-se. Achava, porém, que Pavel o tratava com demasiada seccura, e para destruir esta impressão, perguntou a Rybine:

—Talvez tenhas vontade de comer alguma coisa, Mikhaíl Ivanovitch?

—Não, obrigado. Já ceei. Com que então, Pavel, pensas que a vida não vae por bom caminho?

O rapaz levantou-se e passeando, com as mãos atraz nas costas:

—Qual! Por magnifico caminho! E tanto assim que elle o trouxe até mim, agora que tem a sua alma francamente aberta. N’este caminho, a vida une-nos, pouco a pouco, a todos nós que trabalhamos incessantemente; e tempo virá em que ha de unir-nos a todos! As coisas acham-se dispostas de uma maneira injusta e penosa para nós; mas é a propria vida que nos abre os olhos, descobrindo-nos o que encerra amargo; é ella propria que mostra ao homem como lhe deve dirigir a norma.

—É verdade! Mas espera! É preciso renovar o homem. N’isto creio eu! Quando se apanha sarna, a gente toma banhos, lava-se, veste-se com asseio e fica bom, não é assim? Mas se a sarna ataca o coração, podemos por acaso arrancar-lhe a pelle, ainda que ficasse sangrando? podemos laval-o, vestil-o de novo? an? Então, como purificar o homem por dentro? O quê?

Pavel falou calorosamente de Deus, do imperador, das auctoridades, da fabrica, da resistencia que os trabalhadores do estrangeiro oppunham áquelles que queriam limitar os seus direitos. Rybine sorria por vezes; depois batia com o dedo na meza, como para pontuar o discurso de Pavel, sem comtudo deixar de dizer de quando em quando:

—É isso mesmo!

Todavia, commentou a meia voz com um sorrisinho:

—Ah! és ainda novo. Não conheces o proximo!

Pavel, de pé diante d’elle, explicou gravemente:

—Não falemos de novos nem de velhos! Vejamos antes qual é a melhor opinião.

—Portanto, em tua opinião até se teem servido de Deus para nos enganarem? Concordo. Tambem creio em que a nossa religião é nociva e erronea.

Pélagué interveiu. Quando o filho falava de Deus, das coisas sagradas e queridas que se ligavam á fé que ella tinha no seu Creador, tentava sempre encontrar o olhar de Pavel para pedir-lhe tacitamente que não lhe despedaçasse o coração com palavras de incredulidade, cortantes e aceradas. Ella porém sentia que, apezar de mostrar-se sceptico, o seu filho era crente; e isto tranquilisava-a.

—Como poderia eu compreender os seus pensamentos? dizia a si mesma.

Pensava que devia ser desagradavel e ultrajante para Rybine, um homem d’idade, ouvir taes palavras de Pavel. Mas quando Rybine dirigira aquella pergunta perdeu, de todo a paciencia.

—Sêde mais prudentes falando de Deus! disse resumidamente, mas com obstinação. Façam o que quizerem, mas...

E tendo tomado a respiração, continuou com mais vigor:

—Mas em que me hei de apoiar, no meio dos meus desgostos, eu que estou velha, se me tirarem o meu Deus?

Os olhos encheram se-lhe de lagrimas. Com as mãos trémulas, continuou lavando a loiça.

—Não nos compreendeu, mamã! disse Pavel com suavidade.

—Desculpe-nos! accrescentou Rybine em tom vagaroso, lançando um olhar risonho a Pavel. Esquecia-me de que estás muito velha para ser ainda tempo de te cortarem as verrugas!...

—Eu não falava, de maneira alguma, do Deus bom e misericordioso no qual a mãe acredita, mas sim d’aquelle com que os padres nos ameaçam como se fosse um flagello, e em nome do qual exigem que a grande maioria dos homens se submetta á vontade malevola d’alguns.

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings