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A Mãe

SEGUNDA PARTE (continued 2)

Augusto de Lacerda translation

—É a falta de habito... Assim como assim... não é cá da nossa classe!

E ficou-se cabisbaixo.

—Não quer dizer nada, replicou ella. Pois se elle é tão boa pessoa...

O operario volveu para ella o olhar, sorriram um para o outro e nada acrescentaram.

Ás vezes, apparecia por lá Sachenka.

Nunca se demorava, falava sempre apressadamente, sem se rir. E quando se retirava, perguntava invariavelmente a Pélagué:

—Como está o Pavel? Passa bem?

—Sim, senhora; graças a Deus! Está bom, bem disposto.

—Cumprimentos da minha parte! concluia a rapariga, e desapparecia.

Umas vezes por outras, queixava-se-lhe a pobre mãe por conservarem preso o Pavel tanto tempo, sem se fixar data para o julgamento. Sachenka calava-se, frazindo o sobrolho; tremiam-lhe os labios e os dedos agitavam-se-lhe nervosamente.

A mãe de Pavel tinha impetos de lhe dizer:

—Minha querida, eu sei que o amava... sim, bem o sei!

Mas não se atrevia: os ares serios da rapariga, a sua bocca franzida, a recusa do seu falar pareciam repudiar de antemão qualquer meiguice. Limitava-se a sorrir e a apertar a mão que lhe estendiam, dizendo comsigo:

«Pobre pequena!...»

Um dia, appareceu-lhe Natacha. Muito satisfeita com vêr que Pélagué a beijava affectuosamente, annunciou-lhe, em voz sumida, e entre outras coisas:

—Morreu minha mãe... morreu, a minha pobre mamã!

E, limpando os olhos, em rapido gesto:

—Que pena tenho!... Ainda não tinha feito cincoenta annos... Podia viver muito mais tempo. Mas, quando penso em tudo o que vejo, chego a pensar que a morte lhe ha de ser mais leve do que a vida! Vivia sempre só, estranha a todos; não era precisa a ninguem; meu pae tinha-a feito timida com os seus continuos ralhos... Pode-se por ventura dizer que era viver aquillo? Só vive quem espera alguma coisa bôa; mas ella, ella nada tinha a esperar, a não ser os maus tratos!

—É bem certo o que diz, Natacha! declarou a outra depois de reflectir. Para viver é preciso que se espere alguma coisa. Nada esperar é viver?

Affagou com mimo a mão da rapariga e perguntou-lhe:

—E agora, vive sósinha?

—Vivo, respondeu Natacha.

Calou-se Pélagué um instante; depois, concluiu com um sorriso:

—Que importa! Quando se tem uma alma bôa, nunca se está só, sempre se está acompanhada... Natacha foi residir, na qualidade de professora, para um districto onde havia uma fabrica de fiação. Pélagué ia de vez em quando levar-lhe livros proíbidos, proclamações, jornaes. Estava já encartada n’este officio. Varias vezes em cada mez, vestida de irmã da caridade, de vendedeira de rendas ou de retrozaria, de burgueza ricaça ou de peregrina, lá se ia pela provincia fóra, a pé, de caminho de ferro, n’uma carroça, alforge ao hombro ou de mala na mão. Nos hoteis ou nas estalagens, nos vapores, assim como nos comboios, a sua attitude era sempre calma e simples; com os desconhecidos, era a primeira a dirigir-lhes a palavra, e captava irresistiveis simpatias com o seu falar afavel, a sua tranquilidade de mulher que muito viu e aprendeu.

Agradava-lhe conversar com os infelizes e informar-se das suas opiniões sobre o mundo, dos seus infortunios e perplexidades. Enchia-se-lhe o coração de alegria sempre que observava n’estes interlocutores aquelle vivo descontentamento que, embora proteste contra os golpes da adversidade, ardentemente busca solução para os grandes problemas da humanidade. Mais vasto sempre e mais variado, desenrolava-se aos seus olhos o panorama da vida com todas as suas luctas. Em tudo e por toda a parte ella encontrava a tendencia cínica do homem para enganar o homem, para roubal-o, para tirar d’elle o maior proveito possivel. E tambem via a abundancia por toda a terra, ao passo que o povo jazia na miseria, vegetando a bem dizer esfomeado, no meio das incommensuraveis riquezas.

Das cidades, via os templos a abarrotar d’oiro e prata inuteis a Deus, emquanto fóra, nos adros, os necessitados tiritavam na vã espectativa d’uma esmola que não vinha. Aquelle espectaculo era-lhe já conhecido: as igrejas opulentas, as vestes bordadas dos padres, as mansardas dos pobres e os seus ascorosos farrapos; mas n’esse tempo tudo lhe parecia natural, pois que no presente considerava tal estado de coisas offensivo para os pobres, aos quaes, ella bem o sabia, a religião é mais necessaria que aos ricos.

Mercê das imagens de Jesus, das narrativas que ouvira, Pélagué sabia que Elle era um amigo para os miseraveis, que Elle se vestia sem ostentação; e nas igrejas, onde os pobres vinham a Elle para serem consolados, ia encontral-O opprimido em arrebiques d’oiro e de sedas, desdenhosamente insolentes em face de tanta privação.

E as palavras de Rybine voltavam-lhe á memoria:

—Até de Deus se serviram para nos ludibriarem! Disfarçaram-no com embustes e calumnias para nos assassinarem a alma...

Sem que desse por tal, Pélagué rezava agora menos, mas pensava mais em Jesus, nas creaturas que não falavam d’Elle que nem mesmo o conheciam, segundo parecia, mas que viviam segundo o Seu evangelho e, como Elle, consideravam a terra o reino dos pobres, queriam distribuir em partes iguaes entre os homens todas as riquezas. Reflectia muito em todas estas coisas, aprofundando-as, comparando-as com tudo o que via, e estes pensamentos tomavam corpo, revestiam a fórma luminosa de oração, derramando uma claridade igual na escuridão do mundo, na vida e na humanidade. E afigurava-se á bôa mulher que o proprio Christo, a quem sempre venerára com vago amôr, com um sentimento complexo em que o medo se alliava estreitamente á esperança, á ternura e á dôr, que o proprio Christo se approximava mais d’ella, que se transformára, que lhe era mais visivel, n’uma serenidade mais satisfeita. Agora, via os seus olhos sorrirem-lhe tranquillos com uma viva claridade interior, como se tivesse verdadeiramente ressuscitado, lavado e reanimado pelo sangue candente que por Seu amor generosamente derramam aquelles que teem a sabedoria de nunca O nomear. D’estas viagens voltava, portanto, feliz e animada, porque muito vira e ouvira, e satisfeita com a missão cumprida.

—É agradavel jornadear para um lado e outro e vêr tantas coisas, disse ella uma noite a Nicolao. Fica a gente percebendo como esta vida está arranjada. O povo é escorraçado, atirado á margem, refervendo na sua humilhação e perguntando a si mesmo: «Porque me põem de parte? Porque tenho fome, quando ha de tudo em abundancia? Porque sou eu estupido, ignorante, quando ha tanta intelligencia por toda a parte? E onde está Elle, esse Deus de misericordia, para o qual não ha ricos nem pobres, e de quem todos são bem amados?» Pouco a pouco, o povo revolta-se contra a sua existencia; o povo sente que ha de aniquilal-o a injustiça, se não tratar do seu bem estar.

E experimentava, cada vez com mais frequencia, a necessidade de falar, ella mesma, na linguagem que era a sua, das injustiças da vida; e, por vezes, era-lhe difficil resistir...

Quando a encontrava a folhear os desenhos, Nicolao contava-lhe coisas surpreendentes. Impressionava-a a audacia dos problemas que o homem se propunha; perguntava, incredula:

—Pois isso é possivel?

E Nicolao descrevia-lhe um futuro de sonho, com uma confiança inabalavel nas suas profecias.

—Os desejos do homem não conhecem limite, a sua força é inesgottavel! affirmava elle. Comtudo, o mundo só muito lentamente se enriquece em dons do espirito, pois que, para serem independentes, os homens são obrigados a juntar dinheiro, e não sciencia. Quando tiverem banido a avidez, libertar-se-ão da escravatura do trabalho obrigatorio.

Pélagué era raro que compreendesse o sentido das palavras de Nicolao, no emtanto, pungia sensivelmente a fé tranquilla que as dictava.

—Ha muito poucos homens livres n’esta terra; é o que faz o infortúnio da humanidade! dizia elle.

Com effeito, Pélagué conhecia pessôas que se haviam libertado dos rancores e da cubiça; e pensava que se o número d’essas pessôas avolumasse, o rosto sombrio e horrivel da existencia havia de tornar-se mais benevolo e simples, melhor e mais luminoso.

—O homem é obrigado a ser cruel contra sua vontade! dizia tristemente Nicolao.

Ella acquiescia com um aceno de cabeça e lembrava-se do russo-menor.

VIII

Um dia, Nicolao, por hábito tão pontual, chegou da repartição muito mais tarde do que o costume. Em vez de tirar o sobretudo, disse com vivacidade, a esfregar as mãos:

—Sabe, Pélagué? Fugiu hoje da cadeia um dos nossos companheiros, á hora das visitas!... Mas não consegui saber quem seja.

Ella sentiu-se cambalear, tomada de commoção; deixou-se caír n’uma cadeira e mal poude balbuciar, em segredo:

—Será o Pavel, talvez?

—Talvez! respondeu Nicolao, encolhendo os hombros. Mas como havemos de o ajudar a esconder-se? onde estará elle? Tenho andado a passear por essas ruas, a ver se o encontrava. É uma tolice, mas é forçoso fazer qualquer coisa! Eu torno a saír.

—Tambem eu saio! declarou a mãe de Pavel.

—Então, vá a casa do Iégor; talvez elle saiba alguma coisa... aconselhou Nicolao. E saíu.

Ella atirou para a cabeça um lenço, e foi-se nas peugadas de Nicolao, nadando em esperança. Levava a vista turvada; o coração batia-lhe em fortes pulsações que quasi a obrigavam a correr. Voava ao encontro d’uma possibilidade, de cabeça baixa, sem nada vêr em torno. «Talvez já esteja em casa do Iégor!» Este pensamento instigava-lhe o passo. Fazia calor; Pélagué ia offegante. Na escada de Iégor parou, sem forças para ir mais longe. Voltou-se então e soltou um grito de espanto: tinha-lhe parecido vêr na soleira da porta Vessoftchikof, de mãos nas algibeiras e um sorrisinho nos labios, a olhar para ella. Mas, quando tornou a abrir os olhos, não viu ninguem.

—Foi allucinação! concluia pela escada acima, apurando sempre o ouvido. Do páteo veio um ruido abafado de passos pachorrentos. Deteve-se a meio da escada, foi á janella e olhou: outra vez distinguiu uma cara bexigosa a sorrir para ella.

—O Vessoftchikof! foi elle! exclamou, descendo a correr-lhe ao encontro, mas com o coração confrangido por aquella decepção.

—Não! sobe! sobe! disse-lhe elle debaixo, a meia voz, apontando para o andar superior.

Obedeceu; entrou pelo quarto de Iégor, a quem encontrou estendido do canapé. Segredou, esbaforida:

—O Vessoftchikof fugiu da cadeia!

O outro ergueu a cabeça e n’uma voz áspera:

—O picado das bexigas?

—Sim, esse!... E vem para aqui!

—Está muito bem! Mas eu é que não estou para me levantar a recebel-o.

O fugitivo entrou n’este comenos. Fechou bem a porta no ferrolho, tirou o boné e poz-se a rir devagarinho.

—Se não te tivesse visto, não me restava mais que voltar para a prisão! Não conheço ninguem na cidade... Se tivesse ido lá para o bairro, prendiam-me logo! Eu dizia com os meus botões, emquanto ia andando: «Palerma! para que fugiste?» Quando n’isto, vejo cá a tiasinha a correr. Puz-me logo no seu encalço!

—E como pudeste fugir? perguntou Pélagué.

O rapaz sentou-se desastradamente na beira do canapé e disse com embaraço, encolhendo os hombros:

—Não sei... Foi a occasião que se offereceu.

Andava a passear no pateo... Os presos de crimes communs atiraram-se á bordoada a um carcereiro, um que foi da policia e que expulsaram por causa d’um roubo... É um que espia dá partes e torna a vida de toda a gente um inferno... Então, houve barafunda; os vigias tiveram medo, uns apitavam, outros corriam... Eis senão quando, vejo a grade aberta. Approximei-me, vejo um largo, a cidade... Foi uma atracção!... E saí sem pressa nenhuma, como se estivesse sonhando... Dei alguns passos e caí em mim. Para onde havia de ir?... Entretanto, as portas da cadeia tinham se tornado a fechar... Não me sentia bem; tinha saudades dos companheiros... emfim, aquillo era estupido; eu não fazia idéa de fugir...

—Hum! resmungou Iégor. Pois, meu caro senhor, devia ter voltado para traz, bater á porta e pedir delicadamente que o deixassem entrar: «Queiram perdoar, foi momento de distracção...»

—Sim, continuou Vessoftchikof, rindo, isso tambem era tolice, bem vejo. Mas ainda assim, andei mal com os companheiros. Não digo nada a ninguem e ponho-me ao fresco... Na rua, encontrei um enterro. Puz-me atraz do caixão—era uma criança—e lá fui de cabeça baixa, sem olhar para ninguem. Estive um bocado no cemiterio, de toitiço ao vento, e então veio-me uma idéa...

—Uma só? observou Iégor, e com um suspiro accrescentou: Parece-me que não lhe havia de faltar logar.

O bexigoso poz-se a rir, sem se zangar.

—Oh! já não tenho a cabeça tão vazia como d’antes... E tu, Iégor, continuas sempre doente?

—Faz-se o que se póde! respondeu o outro, saccudido por accesso de tosse. Continua!

—D’ali fui ao museu. Passei por lá vi, as collecções, mas sempre a pensar: «Para onde hei de eu ir, agora?» Estava furioso comigo mesmo e tinha uma fome horrorosa!... Voltei para a rua, puz-me a caminhar. Sentia-me envergonhado com aquillo! Percebi que os policias olhavam com attenção para quem passava... E dizia com os meus botões! «Bom! graças ao meu focinho, estou aqui, estou nas mãos da justiça!...» N’isto, vejo cá a velhota a correr. Passou-me ao lado; afastei-me para a deixar passar, voltei-me e segui-lhe no encalço... E mais nada!

—E eu que nem sequer dei por ti! notou ella em tom pezaroso. Examinava attentamente Vessoftchikof; achava-o mudado, mas para melhor.

—Os companheiros estão em cuidado, com certeza, sem saberem onde paro! proseguiu elle, coçando a cabeça.

—E dos guardas da cadeia, não tens saudades? Olha que elles tambem devem estar n’um cuidado!... observou Iégor.

Em seguida abriu a bocca e, movendo muito os beiços, como se quizesse absorver todo o ar, exclamou:

—Basta de brincadeiras! É preciso tratar de te esconder, o que é coisa agradavel de fazer, mas não muito facil de conseguir... Se eu pudesse levantar-me!... Teve uma crise de soffocação e poz-se a esfregar o peito, em debeis movimentos.

—Estas bem doente, Iégor! disse o fugitivo.

Pélagué, a esta observação, suspirou e relanceou um olhar de inquietação pelo modesto quarto.

—Isso é comigo! declarou Iégor. Ó mãesinha, não esteja com cerimonias, peça-lhe noticias do seu Pavel.

A cara do bexigoso abriu-se outra vez em franco sorriso.

—O Pavel? Está bom, está de saúde. Elle é uma especie de presidente lá da rapaziada. É sempre elle que fala com as autoridades, em nome da gente; é elle quem manda!... Nós temos-lhe respeito... E com razão!

A mãe bebia as palavras do rapaz; por vezes, lançava um olhar furtivo para o rosto macerado e entumecido de Iégor. Este, com a fisionomia estática, qual mascara desprovida d’expressão, e com uma apparencia singular de nullidade, só pelos olhos vivia, em scintillações de espírito.

—Se me dessem alguma coisa de comer... Palavra que tenho muita fome! exclamou de subito o bexigoso.

—Ó mãesinha, disse Iégor, n’aquella prateleira está um pedaço de pão; dê-lho. Vá depois ao corredor e bata á sua esquerda, na segunda porta. Ha de vir abrir-lhe uma mulher; diga-lhe que venha cá e que traga tudo o que possuir com respeito a comestiveis.

—Para que ha de ella trazer tudo!? protestou Vessoftchikof.

—Ah, não se assuste, que não ha de ser grande coisa... talvez até não seja nada!

Pélagué obedeceu, bateu á porta indicada e, apurando o ouvido, pensava com tristeza: «Está mesmo a morrer...»

—Quem está ahi? perguntaram de dentro.

—Venho da parte do senhor Iégor, respondeu baixo. Pede-lhe que vá a casa d’elle.

—Lá vou! responderam.

Pélagué esperou um instante e tornou a bater.

A porta abriu-se de brusco e appareceu uma mulher ainda nova, muito alta e que usava oculos. Vinha a alisar a manga do vestido, amarrotada. Seccamente perguntou:

—Que deseja?

—Foi o senhor Iégor que me mandou...

—Ah! vamos lá!... Mas eu conheço a senhora! exclamou. Como passou?... É que faz aqui muito escuro...

Pélagué fitou-a e lembrou-se de tel-a visto uma vez ou duas, em casa de Nicolao.

«Por toda a parte ha gente nossa!» pensou.

A mulher deixava livre o caminho, por fórma que Pélagué fôsse adiante.

—Está então muito mal? inquiriu.

—Muito mal; está deitado. Pede-lhe que lhe leve alguma coisa de comer...

—Ora! é inutil...

Ao penetrarem as duas mulheres no quarto de Iégor, este debatia-se em doloroso estertor.

—Lioudmila, disse por fim. Esse rapaz saíu agora da cadeia sem licença da auctoridade. Já é ser descortez! Antes de mais nada, dá-lhe de comer e esconde-o em qualquer parte, por um dia ou dois.

Lioudmila fez um signal d’assentimento e, ao passo que fitava attentamente o rosto do enfermo, dizia com certa severidade:

—Iégor, porque não me chamou logo que chegaram as suas visitas? E já vejo que por duas vezes se esqueceu de tomar o remedio! É um desmazelo!... Pois se é o primeiro a dizer que se sente respirar melhor quando o toma!... Venha para minha casa, camarada!... Não tarda que venham buscar o Iégor para o levarem para o hospital.

—É então forçoso ir para o hospital? perguntou o enfermo.

—De certo. Lá irei ter comsigo.

—O quê? lá, tambem?...

—Não diga tolices!

E emquanto falava, compuzera no peito do doente a manta que o cobria, observára fixamente Vessoftchikof e medira com o olhar a altura do remedio no frasco. A voz d’ella era monotona e grave, mas sonora; os movimentos amplos, o rosto branco, com umas sobrancelhas muito pretas, que quasi se reuniam na base do nariz. Tal fisionomia não agradou a Pélagué, que a ficou julgando arrogante; os olhos não tinham brilho e nunca sorriam; o tom da voz era imperioso.

—Vamo-nos d’aqui! continuou ella. Eu já volto. A senhora dê ao Iégor uma colher de sopa d’este remedio... Não consinta que fale.

E saíu levando comsigo o bexigoso.

—Que mulher extraordinaria! disse Iégor com um suspiro. Que admiravel creatura!... Para casa d’ella é que você devia ter ido, mãesinha. Ella trabalha muito... Até anda esfalfada!

—Não fales! Olha, bebe antes isto! supplicou Pélagué com meiguice.

Elle ingeriu o remedio e continuou, fechando um dos olhos:

—Que me importa! Que fale ou que não fale, sempre tenho de morrer.

Olhou para a velha, ao mesmo tempo que os labios se lhe entreabriam lentamente n’um sorriso. Ella tinha curvado a cabeça; agudo sentimento de dó lhe fazia derramar lagrimas.

—Não chore, mãesinha; é natural... O prazer da vida traz comsigo a necessidade da morte...

Ella pousou-lhe a mão na cabeça e, em voz baixa:

—Cala-te, sim?

O doente fechou os olhos como se estivesse a escutar o estertor dentro do peito. Teimosamente, objectou:

—Estúpida coisa o estar calado, mãesinha!... Que ganho eu com isso?—uns minutos mais d’esta agonia e o ficar sem o prazer de palrar um bocado com uma santa mulher como você... Não creio que no outro mundo haja tão bôa gente como n’este...

Ella interrompeu-o, agitada:

—Olha que vem ahi já aquella senhora, e depois ralha comigo se te ouve falar...

—Não é senhora nenhuma; é uma revolucionaria, uma companheira, um coração admiravel!... De toda a maneira, ha-de ralhar comsigo, mãesinha! Está sempre a ralhar com toda a gente!

E Iégor poz-se a contar a historia da sua visinha, lentamente, com um articular custoso dos labios. Só os olhos sorriam. Inquieta, Pélagué dizia comsigo, notando a maceração d’aquelle rosto banhado de suor:

—Vae-me morrer aqui!

Voltou Lioudmila. Fechou cuidadosamente a porta e disse para a velha:

—É absolutamente necessario que aquelle seu amigo se disfarce e se vá embora; vá já arranjar-lhe outro fato e traga-lho aqui! Que pena que a Sofia esteja ausente! É a sua especialidade, dar esconderijo a quem foge!

—Ella chega ámanhã, annunciou a outra, deitando o seu lenço para os hombros.

Sempre que a encarregavam de qualquer missão, era idéa fixa sua desempenhar-se d’ella bem e depressa. Sollícita e preoccupada, franzindo as sobrancelhas, perguntou ainda:

—Como o havemos de vestir? Que lhe parece?

—Pouco importa: como elle sae de noite...

—É muito peor que de dia: anda menos gente pelas ruas, é-se mais facilmente notado, e como o Vessoftchikof não é muito esperto...

Iégor soltou uma gargalhada rouca:

—Como você é fina, mãesinha!

—Posso ir vêr-te ao hospital? perguntou ella.

O doente acenou com a cabeça, tossindo muito. Lioudmila fitava na velha os seus grandes olhos pretos.

—Quer que lhe fiquemos de guarda, cada uma por sua vez? propoz. Sim? Está bem!... Mas agora, vá, vá depressa.

Agarrou Pélagué por um braço em gesto amigavel mas autoritario, fêl-a saír para o corredor e ali disse-lhe baixinho:

—Não se zangue por eu a despedir assim... Não é bonito, bem sei; mas faz-lhe tanto mal falar!... E eu tenho esperança...

Esta explicação commoveu Pélagué. Murmurou:

—Não diga isso!... Não é bonito! Mas a senhora é um anjo!... Até mais vêr; eu cá me vou.

—Cuidado com os espiões! recommendou a outra em segredo. E levando as mãos ao rosto, passando-as depois pelas fontes, com uma tremulencia nos labios, tomou uns ares de maior bondade.

—Sim, esteja descansada, respondeu Pélagué com uma pontinha de orgulho.

Ao chegar á grade da entrada, parou um instante como a arranjar a mantilha e lançou em torno um olhar vigilante, mas que passaria despercebido de qualquer. Sabia bem distinguir, e sem se enganar, os espiões d’entre o povo. O andar propositadamente descuidado, a placidez affectada dos movimentos, a expressão de cansaço e de tedio que fazia transparecer, o brilhar timido, confuso e mal dissimulado dos olhos, movediços e desagradavelmente esquadrinhadores, eram outros tantos disfarces que se lhe haviam tornado familiares.

D’esta vez, porém, não enxergou cara alguma conhecida. Então, sem pressa, tomou pela rua adiante, e subiu para um carro de praça, que mandou seguir para o mercado. Ali comprou o fato para o fugitivo, não sem regatear ferozmente, desfazendo-se em pragas contra o bebado do marido, a quem tinha de vestir de novo quasi todos os mezes. Esta mentira não fez impressão alguma ao adelo, mas causou-lhe muita satisfação por a ter inventado; tinha ido a pensar pelo caminho que a policia havia de suspeitar que o fugitivo se disfarçaria e não deixaria de proceder a um inquerito no mercado. Feito isto, Pélagué voltou a casa de Iégor e foi acompanhar o bexigoso ao termo da cidade. Cada um tomou por passeio opposto e a velha, satisfeita, divertia-se immenso a vêr o rapagão a andar no seu passo pesado, cabeça baixa, atrapalhado com a comprida roda d’um sobretudo amarello e atirando para traz o chapeu, que lhe ia sempre a escorregar para os olhos. N’uma rua deserta veio-lhes Sachenka ao encontro, e Pélagué voltou para casa depois de se despedir de Vessoftchikof com um aceno de cabeça.

Mas pensava com tristeza:

—Pois sim, mas o Pavel está na cadeia... e o André tambem.

IX

Foi recebida por Nicolao com um grito de mal contida inquietação.

—Sabe? O Iégor está muito mal! Levaram-no para o hospital; a Lioudmila veio cá pedir que fôsse ter com ella.

—Ao hospital?

Nicolao, depois de ter ajustado os oculos, em movimento nervoso, ajudou-a a vestir um casaco, apertou-lhe a mão entre as suas, seccas e febris, e, em voz trémula:

—Sim! Leve este embrulho comsigo. O Vessoftchikof ficou em segurança?

—Sim, tudo vae pelo melhor...

—Tambem hei de ir vêr o Iégor...

Pelagué estava tão cansada, que sentia a cabeça a andar-lhe á roda; a inquietação de Nicolao dava-lhe a presentir um drama.

—Vae morrer!... Vae morrer! dizia comsigo; e esta sombria idéa martelava-lhe no cerebro.

Mas quando entrou no quartosinho alegre e muito aceiado do hospital e viu o Iégor a rir de manso, sentado em meio d’um montão de almofadas brancas, socegou de pronto. Parou á porta a sorrir-lhe e ouviu o doente dizer ao medico:

—O remedio, é uma reforma!

—Não diga tolices, Iégor! obtemperou o doutor em tom appreensivo.

—E eu, que sou revolucionario, detesto as reformas!...

Certamente, o medico tomou a mão do doente e collocou-lha sobre o joelho; em seguida, levantou-se, poz-se a puxar pelas barbas, emquanto ia apalpando com um dedo os entumecimentos do rosto de Iégor.

Pélagué conhecia bem o doutor por ser um dos melhores camaradas de Nicolao. Approximou-se de Iégor, que, ao vel-o, lhe deitou a lingua de fóra. O medico voltou-se.

—Ah, é vocemecê?... Viva!... Sente-se. Que traz ahi?

—Livros, parece-me.

—Não póde ler declarou, o medico.

—Quer que eu fique parvo de todo! choramigou Iégor.

—Cala-te! ordenou. E poz-se a escrever qualquer coisa na carteira.

Do peito do doente exalavam-se breves suspiros forçados, de mistura com saliva, n’um estertor, violento; tinha o rosto coberto de camarinhas de suor, que elle enxugava de vez em quando, erguendo muito devagar as pesadas mãos, quasi inconscientes. A singular immobilidade das faces inchadissimas descompunha a expressão de bonhomia da sua ampla cara, onde as feições haviam desapparecido sob uma mascara cadaverica; e só os olhos, profundamente cavados entre os inchaços, conservavam um olhar puro e sorriam com condescendencia.

—An?! Esta sciencia!... Já não posso mais... Deito-me, doutor? perguntou elle.

—Não! respondeu com brevidade o medico.

—Então deito-me quando tu te fôres embora!

—Não lh’o consinta, mulhersinha. Arranje-lhe as almofadas. E tome muito cuidado, não o deixe falar, peço-lhe; faz-lhe muito mal.

Pélagué fez um aceno. O medico saíu em passinhos rapidos. Iégor deitou a cabeça para traz, fechou os olhos e ficou sem movimento; só os dedos se lhe agitavam um pouco. Das paredes brancas da cellasinha exalava-se um frio secco e uma tristeza velada e pálida. Pela alta janella divisavam-se os cumes ondulados das tilias; por entre a folhagem poeirenta e sombría destacavam-se vivamente manchas amarellas: eram as frias primicias do outomno, que chegava...

—Vem para mim a morte, devagar, como que sem vontade! disse Iégor, sem bulir e sem abrir os olhos. Parece que tem pena de mim!... Pois se eu era um bom rapaz, de bom genio!...

—Cala-te, Iégor! supplicou Pélagué, afagando-lhe a mão ternamente.

—Espere um pouco, mãesinha, eu vou-me calar...

E, offegante, continuou com esforço immenso a articular palavras entrecortadas de longas pausas:

—Gosto muito que vocemecê esteja comnosco, mãesinha... É-me muito agradavel ver a sua fisionomia, os seus olhos tão vivos, a sua candura... Quando a vejo, pergunto a mim mesmo: «Como irá ella acabar?» E fico triste, a pensar que a espera a cadeia, ou o degredo, toda a especie d’abominações... como os outros... Não tem medo da prisão?

—Não! respondeu ella com simplicidade.

—Está claro!... E, comtudo, a prisão... é nojenta coisa... foi ella que me matou... Porque, para falar com franqueza, eu não tenho vontade de morrer.

Ella sentiu desejo de responder: «Talvez não morras ainda,» mas calou-se e ficou a olhar para elle.

—Podia ainda fazer alguma coisa pelo bem do povo... Mas quando a gente já não póde trabalhar, é impossivel viver, é uma estupidez!

Á memoria da velha accudiram então estas palavras de André: «Isso é verdade, mas não é consolador!» Suspirou. Sentia-se fatigadissima e com fome. O murmurar monotono e rouco do doente resoava triste pelo quarto, como que rastejando, impotente, por sobre a lisura das paredes. A folhagem das tilias fazia pensar em nuvens que tivessem descido á terra, e impressionava pelo seus tons carregados e melancolicos. Tudo, em volta, se congelava singularmente em tristonha immobilidade, n’aquella desconfortante espectativa da morte.

—Como me sinto mal! disse Iégor. E calou-se, fechando os olhos.

—Dorme! aconselhou ella. Talvez te faça bem.

Apurou por alguns instantes o ouvido para a respiração do doente e relanceou o olhar em torno de si. Invadida por glacial tristeza, entrou a dormitar.

...Despertou-a um ruido de vestidos roçagantes. Estremeceu ao ver Iégor accordado, com os olhos muito abertos.

—Deixei-me dormir... desculpa! disse em voz baixa.

—E tu, tambem, perdôa-me! replicou elle igualmente n’um murmurio.

Pela janella, entrava o crepusculo; um frio nevoento opprimia a vista; tudo se fundia em singular opacidade; o rosto do doente tomava tons mais sombrios.

De novo se ouviu um roçagar de saias e logo depois a voz de Lioudmila, dizendo:

—Então, aqui ás escuras, a tagarelar?... Onde fica o botão da luz?

E de subito, uma claridade branca e desagradavel innundou o quarto. Lioudmila estava de pé, alta, toda vestida de negro.

Iégor teve um grande estremecimento por todo o corpo e levou a mão ao peito.

—O que é? exclamou Lioudmila, correndo para elle.

Fixou na velha um olhar demorado; parecia ter os olhos enormes, com um brilho estranho.

—Espera... balbuciou o enfermo.

Abriu muito a bocca, ergueu a cabeça e estendeu o braço para diante. Pélagué tomou-lhe a mão com cuidado extremo e fitou-o, contendo a propria respiração. Em movimento convulso e vigoroso, elle projectou a cabeça para traz e disse em alta voz:

—Deixei de existir... está acabado...

Percorreu-lhe o corpo ligeira contracção, a cabeça rolou-lhe lentamente no hombro, e, nos seus olhos esgazeados, a luz da lampada collocada por sobre o leito, espelhou-se com um reflexo frio...

—Meu amigo!... murmurou Pélagué.

Lentamente, Lioudmila afastou-se do leito; parou junto da janella a olhar para fóra e disse n’uma voz singular e sonora, que Pélagué nunca lhe tinha ouvido:

—Morreu...

Ella inclinou-se, apoiou-se á mesinha de cabeceira e entrou de balbuciar com a voz a tremer:

—Morreu... socegadamente... corajosamente... sem um queixume...

E de repente, como se lhe tivessem dado uma pancada na cabeça, deixou-se caír de joelhos, sem forças tapou o rosto com as mãos, e desatou em soluços abafados.

Depois de ter cruzado os braços pesados do morto, sobre o peito e de lhe ageitar nas almofadas a cabeça, extraordinariamente quente, Pélagué avisinhou-se de Lioudmila, curvou-se para ella e afagou-lhe docemente os espessos cabellos, ao mesmo tempo que enxugava as proprias lagrimas. Esta ultima voltou com lentidão para ella os olhos dilatados, febris e balbuciou por entre os labios trémulos:

—Havia muito que o conhecia... Estivemos juntos no degredo, estivemos nas mesmas prisões... Ás vezes, aquella tortura era insupportavel, horrorosa; muitos d’entre nós perdiam o animo e alguns endoideciam...

Comprimiu-lhe a garganta um espasmo violento; dominou-se com esforço, e em seguida, avisinhando do rosto da velha o seu rosto, a que uma nevoa de ternura dolorida dava desconhecida suavidade que o rejuvenescia, proseguiu em rapido murmúrio, com um soluçar sem lagrimas:

—E elle, elle sempre, sempre, andava alegre; nunca se cansava de gracejar, de rir, occultando corajosamente o seu soffrer, esforçando-se por reanimar os fracos... era tão bom, tão sensivel, tão meigo!... Na Siberia, a inacção em que se vive, deprava o espirito e faz nascer maus instinctos. Como elle os sabia combater!... Que companheiro aquelle era; se soubesse! a sua vida particular foi árdua, dolorosa... mas—sei-o bem—nunca ninguem o ouviu queixar... ninguem, nunca! Assim, eu, que era sua intima amiga, devo muito ao seu coração e recebi do seu espirito tudo o que podia dar-me; vivia triste, solitário e, no emtanto, nunca elle me pediu nada em paga, nem carinhos, nem disvelos...

Foi até junto do morto, curvou-se e beijou-lhe a mão.

—Companheiro, meu querido e amado companheiro, disse ella n’uma voz sumida e cheia de desconsolo, agradeço-te de toda a minha alma... Adeus! Trabalharei, como tu fizeste... sem me cansar... sem duvidar... toda a minha vida... pelos que soffrem... Adeus!

Todo o corpo lhe foi saccudido por violentos soluços e, offegante, a cabeça descaíu-lhe sobre o leito, aos pés de Iégor.

Derramava Pélagué bastas lagrimas que lhe queimavam as faces. Procurava retel-as, pois o seu desejo era consolar Lioudmila com um affago especial e animador, falar-lhe do morto com boas palavras repassadas de amor e de tristeza. Por entre o pranto, distinguia o rosto entumecido do defuncto, os olhos fechados, os labios negros, confrangidos em leve sorrisos... Reinava um silencio profundo em meio d’aquella claridade que opprimia.

O medico entrou em passinhos apressados, como sempre; parou bruscamente a meio do quarto, enterrou em rapido gesto as mãos pelas algibeiras e perguntou com voz nervosa e sonora:

—Ha muito tempo?

Ninguem lhe respondeu. Bamboleou-se nas pernas e approximou-se de Iégor, enxugando o suor da testa; apertou a mão do morto e afastou-se novamente.

—Não é para admirar... em vista do estado do coração... Isto já devia ter acontecido ha seis mezes... pelo menos... Sim, com certeza!...

Mas aquelle tom agudo da voz em que a placidez era forçada e a sonoridade fóra de proposito, logo se lhe velou. Encostou-se á parede e poz-se a passar os dedos rapidamente pela barba, olhando alternadamente para as duas mulheres e para o morto, com os olhinhos piscos.

—Mais um!... concluiu brandamente.

Lioudmila ergueu-se e foi abrir a janella. Pélagué como que accordou áquelle ruido e olhou em torno, com um gemido. E um instante depois, o doutor, ella e Lioudmila encontravam-se reunidos no vão da janella, apertados uns contra os outros, a contemplarem o aspecto sombrio d’aquella noite de outono. Por cima do arvoredo, scintillavam as estrellas e pareciam recuar, perdendo-se no negro infinito dos ceus. Lioudmila envolveu o braço de Pélagué com o seu e descansou-lhe a cabeça no hombro, sem uma palavra. O medico limpava a luneta com o lenço. Fóra, os ruidos nouturnos da cidade morriam, abafados, o fresco da noite regelava as faces e agitava os cabellos. Lioudmila sentia arrepios; e as lagrimas escorriam-lhe pelo rosto. Nos corredores do hospital, vagueavam ruidos amortecidos, assustados, passadas pressurosas, gemidos, murmurios desconsolados. Immoveis, á janella, os trez sondavam as trevas, em silencio.

Pélagué sentiu que era ali de mais e, depois de soltar com brandura o braço do da joven senhora, dirigiu-se para a porta, não sem que se inclinasse, ao passar, perante o morto.

—Vae-se embora? perguntou baixo o medico, sem se voltar.

—Vou.

Pela rua fóra, ia pensando em Lioudmila. «Nem ao menos sabe chorar!» dizia ella comsigo, recordando-se da parcimonia das suas lagrimas.

E as ultimas palavras de Iégor voltavam-lhe á memoria; faziam-na suspirar. Caminhando a passo vagaroso, revia em mente os olhos vivos de Iégor, os seus gracejos, as suas opiniões sobre a vida.

—Para a gente proba, a existencia é penosa e a morte leve... Como morrerei eu?

Em seguida, o pensamento representou-lhe Lioudmila e o doutor de pé, junto da janella, n’aquelle quarto muito branco e cruamente illuminado, os olhos embaciados de Iégor; e, invadida por um sentimento oppressor, de compaixão, suspirou profundamente e entrou a caminhar mais depressa, impellida por vago presentimento...

«É preciso marchar para a frente!» pensou sob o impulso de coragem valorosa e contristada, que lhe subia do coração.

X

O dia seguinte passou-o Pélagué a dispôr tudo para o enterro de Iégor. Á noite, quando tomava o chá, com Nicolao e Sofia, appareceu Sachenka, animada e expansiva, o que era para admirar. Vinha com as faces córadas, os olhos brilhantes, e Pélagué percebeu que ella trazia qualquer esperança risonha. Este radiante estado de espírito veio fazer uma irrupção barulhenta e tumultuosa no curso melancolico das recordações, mas sem o distraír era como uma viva claridade que tivesse brilhado de súbito n’aquellas trevas e que vinha incommodar a pequena reunião. Nicolao, pensativo, bateu na mesa:

—Acho-a mudada hoje, Sachenka!...

—Deveras! Póde ser! respondeu com uma risadinha de contentamento.

Pélagué lançou-lhe um mudo olhar de censura. Sofia fez notar, accentuando as palavras:

—Estavamos falando do Iégor.

—Que bello homem! não é verdade? exclamou Sachenka. Sempre tinha prontos nos labios um sorriso e um gracejo... Trabalhava tão bem! Era o artista da revolução; possuia em alto grao a idéa revoluccionaria, como um verdadeiro mestre! Com que simplicidade mas ao mesmo tempo com que veemencia elle sabia descrever-nos o homem—o homem falso, perverso e violento! Muito lhe devo eu!

Dizia isto a meia voz, com um sorriso de reflexão, mas que não lhe extinguia no olhar o brilho de alegria que era bem visivel e que nenhum dos trez compreendia. É que nos acontece ás vezes sentirmos prazer com um pezar, fazermos d’elle um brinquedo torturante que nos roe o coração. Mas Nicolao, Sofia e Pélagué, esses, não queriam deixar que se dissipasse a sua tristeza, nem abandonal-a aos sentimentos despreoccupados que Sachenka viera ali trazer; sem d’isso terem consciencia, defendiam o seu melancolico direito de se acolherem á dôr, e tentavam fazer entrar a recemchegada no circulo das suas preoccupações.

E, afinal, está morto! insistiu Sofia, fitando-a com attenção.

Ella vagueou pelos presentes interrogador olhar e baixou a fronte.

—Está morto?... repetiu em voz alta. Custa-me conformar-me com este facto.

Entrou a passear a todo o comprimento da sala, e em seguida, estacando de súbito, proseguiu em tom singular:

—Mas que significa isso: «Está morto?» O que foi que morreu? A minha estima pelo Iégor, a minha affeição por esse camarada, a memoria do que a sua intelligencia praticou, tudo isso morreu? A opinião que eu tinha d’elle—a d’um homem valente e leal—ficou por ventura aniquilada? Morreu tudo isso? Para mim, tudo isso, a melhor parte d’elle proprio, nunca ha de morrer, sei-o bem! Parece-me que ha sempre pressa de mais em se dizer que um homem morreu! Se os seus labios morreram, as suas palavras estão vivas no coração dos que as escutaram.

Muito commovida, tornou a sentar-se, encostou-se á mesa e continuou com mais brandura:

—Talvez sejam tolices o que digo, mas olhem, camaradas: creio na immortalidade da gente de bem!

—Teve alguma novidade? Está tão alegre! perguntou-lhe Sofia, amavel.

—Tive! respondeu Sachenka, confirmando a resposta com um aceno. Uma novidade muito agradavel, ao que julgo. Falei toda a noite com o Vessoftchikof. Antigamente não gostava d’elle; achava-o muito grosseiro, muito ignorante, o que realmente era verdade. Havia n’elle um mau humor, uma irritação indefinida e continua para com todos; estava sempre a antepôr-se a tudo com uma insistencia que chegava a aborrecer, sempre a falar de si mesmo... Aquelle homem tinha o que quer que fôsse de maldade, que enervava.

Interrompeu-se para sorrir e relanceou em torno um olhar radiante:

—E agora, não: fala já dos seus «companheiros». E se ouvissem como elle pronuncia esta palavra! Com uma veneração tão terna, com tanta meiguice, que ninguem o póde intimar! Caíu em si, sabe a força de que dispõe, sabe o que lhe falta... e hoje, o que sente sobre todas as coisas é o verdadeiro sentimento de camaradagem, uma immensa dedicação, capaz de ir ao encontro das maiores provações.

Escutava-a Pélagué, encantada com a alegria d’aquella rapariga, por hábito tão triste. Mas, ao mesmo tempo, no recondito do seu coração brotava secreto pensamento de inveja: «E o Pavel, que faz elle no meio de tudo isto?»

—Só pensa nos camaradas, continuava Sachenka; e sabem o que elle me persuadiu que fizesse? Que arranjasse uma fuga geral dos presos... É verdade! Diz que é facil.

Sofia ergueu a cabeça e, em tom de animação:

—E que lhe parece, Sachenka? É uma boa idéa.

A chavena de Pélagué entrou a tremer-lhe na mão; pousou-a sobre a meza. Sachenka ficou-se um instante calada, de sobrolho franzido, reprimindo o entusiasmo; depois, muito séria mas com um sorriso radiante, respondeu com alguma hesitação:

—Certo é que se as coisas são realmente como elle diz, devemos tentar... é o nosso dever.

Córou, deixou-se caír n’uma cadeira e nada mais acrescentou.

A mãe de Pavel esboçou um sorriso de muita meiguice, dizendo comsigo: «Querida! Querida da minha alma!» Sofia sorriu tambem; Nicolao soltou uma gargalhadinha, e attentou na rapariga, bondosamente. Então, ella ergueu a fronte, olhou em torno com severidade, e, pallida, com os olhos a faiscar, disse seccamente:

—Riem-se... Percebo porque é. Pensam que sou pessoalmente interessada no resultado da evasão, não é isto?

—Mas porquê, Sachenka? interrogou Sofia hypocritamente.

E, levantando-se d’onde estava, foi pôr-se ao lado d’ella. Pélagué achou a pergunta futil e humilhante para Sachenka e assim lho fez sentir com um olhar.

—Mas, então, não quero tratar de nada! exclamou Sachenka. Não quero tomar parte na discussão, desde o momento que consideram este projecto...

—Cale-se, Sachenka! disse Nicolao sem se exaltar.

A mãe de Pavel foi para a rapariga e afagou-lhe brandamente os cabellos. Sachenka agarrou-lhe logo a mão e voltando para ella o rosto, onde o sangue affluira, fitou-a, confusa. Sofia arrastou uma cadeira, sentou-se ao lado de Sachenka, passou-lhe o braço em volta da cinta e disse-lhe, ao passo que a fitava com curiosidade:

—Que caracter singular o seu!

—Sim, parece-me que disse tolice... mas é que eu gosto das coisas claras...

Nicolao interrompeu-a para dizer em tom sério e preoccupado:

—Se a evasão é possivel, trate-se d’isso, não temos que hesitar!... Mas antes de mais nada, é preciso saber se os companheiros encarcerados estarão d’accordo.

Sachenka curvou a fronte.

—Como se elles pudessem recusar! disse Pélagué, suspirando. O que eu não creio é que isso se possa fazer!

Todos ficaram calados.

—Deixem me falar com o Vessoftchikof, disse Sofia.

E Sachenka annunciou em voz baixa:

—Bem! amanhã lhe digo onde e quando póde encontral-o.

Nicolao approximou-se da velha, que estava lavando as chavenas.

—Vocemecê vae depois d’amanhã á cadeia; é preciso fazer chegar um bilhete ás mãos do Pavel. Compreende? É preciso que a gente saiba...

—Compreendo. Compreendo! interrompeu ella com vivacidade. Eu me encarrego de lho entregar.

—Vou-me embora! declarou Sachenka e, tendo distribuido pelos companheiros vigorosos apertos de mão, foi-se, sem mais uma palavra.

Poisou Sofia a mão no hombro de Pélagué e a sorrir:

—Queria ter uma filha como esta, Pélagué?

—Meu Deus! Se eu pudesse vel-os casados, ainda que não fôsse senão um dia! exclamou a bôa mulher quasi a chorar.

—Sim, a felicidade de cada um consiste em ser-se um bocadinho feliz... Quando essa felicidade é demasiada, tambem é de qualidade inferior.

E Sofia foi para o piano tocar uma musica triste.

XI

Na manhã seguinte, apinhavam-se ao portão de ferro do hospital algumas duzias de homens e de mulheres, á espera que saísse o enterro do companheiro. Pelo meio d’elles, cautelosamente, giravam varios espiões, escutando cada exclamação, retendo de memoria rostos, gestos e palavras; no passeio fronteiro, estava um grupo de policias, de revolvers á cinta. A imprudencia dos primeiros e os risos irónicos dos segundos, a fazerem alarde da força, irritavam o povo.

Uns disfarçavam a ira que os possuia e gracejavam; outros, ficavam-se cabisbaixos, olhando para o chão, para não verem aquelle apparato ultrajante; outros ainda, incapazes de conter o seu furor, zombavam dos poderes públicos e do seu medo de gente que por armas só tinha o dom da fala. Um ceu de outono, de azul muito pallido, illuminava a rua calcetada a seixos redondos, semeada de folhas mortas, que as lufadas erguiam em remoinhos diante dos pés dos transeuntes.

Entre a multidão, estava Pélagué. Ia contando as caras conhecidas e pensava tristemente:

—Não são bastantes!... não são bastantes!

O portão rodou nos gonzos. Trouxeram para a rua a tampa do caixão, enfeitada com corôas de fitas encarnadas. Silenciosos, os homens tiraram a um tempo os seus chapeus: dir-se-ia uma revoada de passaros pretos que se tivesse levantado das cabeças. Um official da policia, de avantajada estatura, de grossos bigodes escuros atravessados n’um rosto vermelhaço, cercado de policias e soldados, precipitou-se por entre o povo, empurrando todos sem cerimonia, e gritou com voz roufenha e autoritaria:

—Tenham a bondade de tirar as fitas!

N’um prompto viu-se rodeado de homens e mulheres, em circulo compacto, falando todos á uma, gesticulando, empurrando-se uns aos outros. Perante o olhar turvado de Pélagué, agitaram-se em confusão rostos lividos e excitados, com os beiços a tremer de ira; e pelas faces d’uma mulher corriam pesadas lagrimas d’humilhação.

—Abaixo a prepotencia! gritou uma voz juvenil que se sumiu, desacompanhada, no borborinho da discussão.

Pélagué sentia referver-lhe a amargura; voltou-se para o seu visinho, rapaz pobremente vestido, e disse-lhe:

—Até não nos deixam enterrar um camarada, como entendermos!...

Augmentava a hostilidade, a tampa do esquife vacillava por sobre as cabeças, as fitas agitadas pelo vento envolviam os rostos e as cabeças; ouvia-se-lhes o crepitar nervoso e secco da seda.

Pélagué, tomada de terror gelido por uma desordem possivel, dirigia aos que lhe ficavam proximos e a meia voz, frases rapidas:

—Que importa!... Uma vez que tem de ser... tirem-se as fitas... é melhor ceder... Para que serve resistir?

Resoou uma voz aspera e sonora, que dominou o tumulto:

—Queremos que nos deixem acompanhar á sua ultima morada um companheiro que vocês martyrisaram!

Alguem,—alguma rapariga com certeza—poz-se a entoar n’uma voz aguda e fina:

E vós caístes, victimas, na lucta...

—Façam favor de tirar as fitas! Jakovlef! corta essas fitas!

Ouviu-se o tinido d’uma espada a saír d’uma bainha. Pélagué fechou os olhos, na espectativa d’um grito. Mas tudo socegou; o povo rosnava, mostrava os dentes como os lobos perseguidos. Depois, de cabeça baixa, em silencio, esmagados sob o sentimento da impotencia, puzeram-se a caminho, fazendo ecoar pela rua o ruido dos passos.

Á frente, a tampa do caixão despojada dos seus ornatos, com as corôas esfrangalhadas, lá ia erguida no ar; depois, vinham os agentes de policia, balançando-se d’um e outro lado, em cima dos cavallos. Pélagué seguia pelo passeio; não podia enxergar o caixão, devido á muita gente que o cercava; augmentava sem cessar o número dos manifestantes, que occupavam já toda a largura do calcetamento. Atraz da multidão, alteavam-se tambem os vultos uniformes e cinzentos dos guardas de cavalaria; de cada lado, polícias, com a mão nos copos das espadas; e, por toda a parte, divisava Pélagué caras de espiões com os agudos olhares a prescrutarem as fisionomias.

—Adeus, companheiro, adeus! cantaram suavemente duas vozes bonitas.

—Silencio! gritou alguem. Calem-se, amigos! Calem-se por emquanto!

Havia n’esta exclamação uma rudeza tão suggestiva de ameaçador conselho, que o povo calou-se. O canto funebre ficou interrompido, e o ruido das vozes socegou; só se ouviam agora passos amortecidos, n’um tropel que se elevava muito alto, que se perdia na transparencia do ceu, agitando a atmosfera, assim como o ecco do primeiro trovão de tempestade ainda longinqua. O vento, cada vez mais frio, atirava aos rostos, com animosidade, poeira e lama entumecia os vestidos, entorpecia as pernas, vergastava os peitos...

Aquelle funeral silencioso, sem um sacerdote, sem um cantico, aquellas fisionomias oppressas e carrancudas, aquelle ruido de passos energicos, tudo provocava em Pélagué pungente angustia; o pensamento redemoinhava-lhe indeciso, revestindo de frases tristes as suas impressões:

—Ah! que não sois bastantes... luctadores da liberdade, não sois bastantes! E comtudo teem-vos medo!

Afigurava-se-lhe não ser aquelle mesmo Iégor seu conhecido que ia a enterrar, mas sim uma coisa habitual, que lhe fôsse intima e indispensavel. Dominava-a um sentimento de violenta revolta: não estava d’accordo com aquella gente. Pensava:

—Sei-o bem: Iégor não cria em Deus, como estes tambem não crêem...

Mas não conseguia concluir a sua idéa e suspirava, como a querer desembaraçar a alma de pesado fardo:

—Ó Senhor! Senhor!... Jesus!... Será possivel que tambem eu vá a enterrar assim?...

Chegaram ao cemiterio. Depois de muitas voltas por entre os sepulcros, parou o cortejo n’um vasto espaço livre, semeado de cruzinhas brancas. A multidão agrupou-se em torno d’uma cova e estabeleceu-se silencio. E este austero silencio dos vivos, entre tumulos, presagiava alguma coisa terrivel que sobresaltava o coração de Pélagué. Immobilisou-se então na espectativa. O vento uivava por entre as cruzes; em cima do caixão adejavam tristemente flôres murchas.

A gente da policia, vigilante, tinha-se alinhado, seguindo com os olhares os movimentes do chefe. Então, um rapaz alto, pallido, com a cabeça descoberta, negras sobrancelhas e comprido cabello negro, foi postar-se junto do coval. No mesmo instante, ouvia-se a voz roufenha do official da policia.

—Meus senhores!...

—Companheiros! começou o rapaz com voz sonora.

—Perdão! gritou o official. Tenho a declarar-lhes que não consinto discursos.

—Limitar-me-ei a dizer algumas palavras, observou socegadamente o orador: «Companheiros! Juremos sobre a sepultura do nosso mestre e amigo nunca esquecermos os seus ensinamentos, juremos trabalhar cada qual toda a nossa vida e sem descanso, para destruir a origem de todos os infortunios da nossa patria, a forca damninha que a opprime, a autocracia!»

—Prendam-no! gritou o official.

Mas logo teve a voz coberta por uma explosão de gritos:

—Morra a autocracia!

Afastando a multidão, ás cotovelladas, os polícias atiraram-se para o orador, a quem o povo formava estreito circulo, emquanto elle bradava:

—Viva a liberdade! É por ella que devemos viver e morrer!

Pélagué foi arrebatada para longe. Transida de terror, agarrou-se a uma cruz e fechou os olhos, á espera do golpe que havia de feril-a. Ensurdecia-a um turbilhão impetuoso de sons discordantes; sentia faltar-lhe o solo debaixo dos pés; opprimiam-lhe a respiração o vento e o medo. Os apitos da policia rasgavam o ar; resoavam vozes roucas, de commando; mulheres soltavam gritos nervosos; estralejavam madeiras das divisorias de covaes; no terreno, secco, resoava lugubremente o pesado tropel de toda aquella gente. Durou isto muito tempo.

Pélagué não podia conservar por maior espaço os olhos fechados; era demasiado lancinante o seu horror. Olhou em volta, e soltando uma exclamação entrou a correr, de braços estendidos. Não longe, em estreito carreiro, entre tumulos, estavam os policias cercando o rapaz de cabello preto e defendendo-se dos ataques da populaça. Scintillavam pelo ar com brancos e frios reflexos, as laminas desembainhadas; elevavam-se acima das cabeças e caíam rapidamente. Bengalas, destroços dos tapumes surgiam, para logo desapparecerem; em selvagem torvelinho, cruzavam-se os gritos da multidão amotinada; de vez emquando, divisava-se o rosto pallido do rapaz; com voz forte que dominava a tempestade das iras, bradava:

—Camaradas! Para que serve sacrificarem-se inutilmente?

Acabaram por lhe obedecer. Atiraram para longe os cacetes e uns apóz outros, foram-se afastando. Pélagué continuava a caminhar, arrastada por força invencivel. Viu Nicolao, com o chapeu para a nuca, a repellir os manifestantes, cegos de colera; ouviu-o dirigindo-lhes censuras:

—Endoideceram?... Soceguem!

Pareceu-lhe que trazia uma das mãos toda ensanguentada.

—Vá-se d’aqui Nicolao! gritou, atirando-se-lhe ao encontro.

—Onde vae a correr? Olhe que lhe fazem mal!

Sentiu-se agarrar por um hombro. Voltou-se. Era Sofia, sem chapeu, os cabellos em desalinho, sustendo nos braços um rapaz, quasi uma criança, que limpava á mão o rosto tumefacto e balbuciava com os beiços a tremer:

—Deixem-me... não é nada!

—Veja se trata d’elle. Leve-o para nossa casa.

Aqui tem um lenço... amarre-lhe a cabeça! disse Sofia rapidamente.

E introduzindo entre as mãos de Pélagué a mão do rapaz, deitou a correr, com um ultimo conselho:

—Vão se depressa, se não são presos!

Os manifestantes precipitavam-se por todas as saídas do cemitério; atraz d’elles, os polícias marchavam pesadamente por entre as sepulturas. Embaraçados com as compridas abas das fardetas, praguejavam e brandiam as espadas. O rapaz seguia-os de longe, com a vista.

—Vamos, depressa! disse-lhe Pélagué com brandura. E limpou-lhe o rosto.

O pequeno lançou um escarro de sangue e ciciou:

—Não lhe dê cuidado... não sinto nada. O polícia bateu-me com o punho da espada, na cara e na cabeça... E eu dei-lhe com o meu pau... Sempre apanhou uma sova!... Até uivava!

—Depressa! instava Pélagué, dirigindo-se rapida, para uma pequena aberta do muro do cemitério.

Pareceu-lhe distinguir para além do muro dois policias á espreita, disfarçados com a verdura e que os esperavam, para lhes saltarem em cima á pancada, tão depressa elles apparecessem. Mas depois de ter empurrado a portinha com precaução, espraiou a vista pelo campo, todo envolvido no tecido pardacento d’aquelle crepusculo outonal. O silencio e a quietação que n’elle reinavam tranquillisaram-na de súbito.

—Espere, deixe-me ligar-lhe a cabeça, propôz.

—Não senhora; não tenho que me envergonhar das minhas feridas.

Pélagué pensou-o summariamente.

Aquelle sangue fresco e vermelho apiedou-a immenso; ao sentir-lhe com os dedos a quente humidade, toda a percorreu um estremecimento de terror. Em seguida, conduziu o ferido pelo braço, pelo campo fóra, sem proferir uma palavra. Elle libertou os lábios da ligadura para dizer alegremente:

—Para que vae a puxar por mim, camarada? Eu posso bem caminhar sósinho!

Mas Pélagué sentia-o cambaliar, o andar vacillava-lhe. A voz ia-lhe enfraquecendo emquanto falava, interrogando-a sem esperar as respostas.

—Chamo-me Ivan, sou funileiro... e a senhora quem é? Eramos trez no club do Iégor... trez funileiros; ao todo, eramos onze! Gostavamos muito d’elle.

Na rua mais proxima, Pélagué tomou um trem e para elle fez subir Ivan, segredando-lhe:

—Agora, cale-se.

E para mais segurança, puxou-lhe outra vez a ligadura para a bocca. Elle levou logo a mão á cara, mas não conseguiu libertar os lábios; o braço recaíu inerte sobre os joelhos. Ainda assim, continuava a murmurar atravez do lenço:

—Nunca me esquecerei d’estas pancadas, amiguinhos da policia!... Antes do Iégor, era um estudante que nos dirigia... Ensinava-nos economia politica... Era muito rigoroso, muito aborrecido... Afinal, prenderam-no.

Ella passou-lhe o braço em volta e descansou no seio a cabeça do rapaz. De súbito, sentiu que lhe pesava mais, ao mesmo tempo que se tinha calado. Transida de medo, Pélagué olhava para todos os lados; parecia-lhe ver a cada esquina um polícia, pronto a agarrar Ivan e a matal-o.

O cocheiro voltou-se na almofada, com um sorriso:

—Bebeu, an?

—É verdade, até caír! respondeu ella, suspirando.

—É teu filho?

—É, sim. É sapateiro... Eu sou cosinheira...

—Ah, sim! É duro officio!

Descarregou uma chicotada no cavallo e logo tornou a voltar-se. Baixou a voz.

—Sabes? Houve ha pouco grande desordem no cemitério. Era o enterro d’um d’esses políticos, d’essa gente que está contra a autoridade... que tem questões com a polícia. Havia amigos do defunto no acompanhamento... Elles então puzeram-se a gritar: «Morram as autoridades, que arruinam o povo»!? A polícia bateu-lhes. Dizem que alguns ficaram mortos... Mas a policia tambem apanhou pancada.

Calou-se o cocheiro, abanou a cabeça com ares de desconsolo e proseguiu n’um tom de voz estranho:

—Assim se vão incommodar os mortos... accordar os cadaveres que dormem!

O trem ia aos salavancos pela calçada, chiando muito; a cabeça de Ivan rolava suavemente no peito da sua enfermeira. O cocheiro, virado para elles, continuou, pensativo:

—Anda a agitação entre o povo... As desordens parece que se levantam debaixo dos pés... É verdade! Esta noite veio a polícia a casa d’uns visinhos. Fizeram lá não sei o quê até pela manhã e depois, quando se foram, levaram preso um que é ferreiro. Dizem que uma noite d’estas vão leval-o ali á beira no rio e afogam-no em segredo. E todavia, era um homem intelligente, aquelle ferreiro.

—Como se chama elle? perguntou a velha.

—O ferreiro? Chama-se Savyl, mas tem um outro nome: Evetchenko. É muito mocinho ainda, mas já compreendia muitíssimas coisas, e é proíbido compreendel-as, ao que parece...

Ás vezes, apparecia lá pelas estações de carroagens e dizia-nos: «Que vida que vocês levam cocheiros!»

—É verdade, respondiamos-lhe nós, o nosso officio é peor que o dos cães!»

—Pára ahi! ordenou Pélagué.

O sobresalto produzido fez então que Ivan voltasse a si. Entrou a gemer devagarinho.

—Esse rapaz está muito doente, observou o cocheiro.

Vacillante, Ivan atravessou o páteo, custando-lhe collocar um pé adiante do outro.

—Não é nada, dizia. Ando perfeitamente...

XII

Sofia já estava de volta. Atarefada e mexendo-se muito, recebeu a velha, de cigarro na bocca. Deitou o ferido n’um canapé e ligou-lhe com perícia a cabeça, ao mesmo tempo que ia dando ordens. O fumo do cigarro obrigava-a a piscar os olhos:

—Doutor, ahi os tem. Sente-se fatigada, Pélagué? Teve muito medo, não é assim? Está bem, descanse agora um bocado... Nicolao vae-lhe já buscar o chá e um copo de Porto.

Emocionada por taes acontecimentos, Pélagué respirava com difficuldade e resentia-se de uma dolorosa sensação de picada no seio.

—Não se importem commigo, murmurou.

E toda a sua pessôa, transida de medo, supplicava um affago, um pouco de attenção... Nicolao veio do quarto contiguo. Trazia a mão ligada. Atraz d’elle entrou o médico, com os cabellos desgrenhados, como um ouriço. Correu para Ivan, curvou-se a examinal-o e pediu:

—Agua, muita agua! Pannos de linho limpos! Algodão em rama!

Já Pélagué se dirigia á cosinha, mas Nicolao travou-lhe do braço e disse-lhe affectuosamente, levando-a para a casa de jantar:

—Não é comsigo que elle fala, é com a Sofia. A minha querida amiga passou por bastantes commoções, não é verdade?

Aquelle falar apiedado respondeu ella com um soluço mal contido e exclamou:

—Ah! que horrivel coisa!... A espadeirarem o povo... a espadeirarem!

—Eu tambem lá estava, disse Nicolao, com um aceno confirmativo de cabeça. E encheu um copo de vinho quente. Dos dois lados houve egual exaltação... Mas não tenha receio; a polícia aggrediu só com a parte mais larga das espadas; só uma pessoa ficou ferida gravemente, ao que me parece... e essa vi-a eu caír ao pé de mim... Puxei-a até para fóra da batalha.

A fisionomia e a voz com que Nicolao lhe falava, a claridade e o calor que reinavam no aposento, socegaram os nervos de Pélagué. Dispensou ao seu hospedeiro um olhar de reconhecimento e perguntou-lhe:

—Tambem ficou ferido?

—Sim, e creio que por culpa minha... Sem querer, rocei com a mão não sei por quê e fiquei com a pelle arrancada. Beba o seu vinho... Faz frio e vocemecê tem um fato tão leve!...

Ella estendeu as mãos para o copo e reparou que tinha os dedos cheios de sangue coagulado. Em gesto instinctivo, deixou caír os braços sobre os joelhos. Tinha a saia húmida. Esgazeou os olhos, com as sobrancelhas muito erguidas, examinou furtivamente os dedos. A cabeça andava-lhe á roda, uma idéa martelava-lhe no cérebro:

—Ahi está, ahi está o que espera o Pavel um dia!

Voltou o médico. Vinha em mangas de camisa e estas arregaçadas. A uma interrogação muda de Nicolao, respondeu com a sua vozinha delgada:

—A ferida do rosto é insignificante, mas houve fractura do craneo, que tambem não é muito grave... O rapazola é valente, mas ainda assim perdeu muito sangue. Vamos leval-o para o hospital.

—Para quê? Póde ficar aqui! accudiu Nicolao.

—Hoje e ámanhã talvez, mas depois era preferivel que se tratasse no hospital, não tenho tempo para visitas. Encarregas-te do relatório do que se passou no cemitério?

—Bem entendido! respondeu Nicolao.

Pélagué levantou-se então sem fazer bulha e dirigia-se para a cosinha.

—Onde vae? exclamou Nicolao alvoroçado. Deixe lá a Sofia governar-se sósinha!

Com um olhar e um sorriso involuntário, singular, respondeu a tremer:

—Estou toda suja de sangue... Estou toda suja de sangue!

E ao mudar de roupa, no seu quarto, mais uma vez ficou a meditar na serenidade d’aquella gente, n’aquella faculdade de que dispunham de não demorar muito tempo o pensamento no horror dos acontecimentos. Esta reflexão fêl-a caír em si, vencendo o sentimento de terror de que estava possuida. Quando voltou ao quarto onde jazia o ferido, Sofia, curvada sobre este, dizia-lhe:

—Que tolice, camarada!

—Mas eu vou incommodal-os! observou elle em voz debil.

—Cale-se; é o melhor que tem a fazer.

Pélagué parou por detraz d’ella e pousou-lhe a mão no hombro; fitou depois, sorrindo, o rosto muito branco do ferido e pôz-se a contar o medo que lhe tinha causado o seu accesso de delírio, no trem. Ivan escutava-a com os olhos a arder em febre; fazia estalar os beiços e exclamava de vez em quando, como que envergonhado:

—Oh, que tolo que eu sou!

—Bem, agora vamos deixal-o, declarou Sofia compondo-lhe as roupas que o cobriam. Descanse!

E as duas mulheres passaram para a casa de jantar, onde, com Nicolao e o médico, por muito tempo conversaram baixinho sobre os acontecimentos d’esse dia. Já o drama era tratado como coisa remota, já se falava do futuro com tranquillidade; preparava-se a tarefa de ámanhã. Se os rostos exprimiam a fadiga, os pensamentos latejavam vivos. O doutor mexia-se nervosamente na cadeira, esforçando-se por velar a voz, que tinha aguda e esganiçada:

—Ora, a propaganda!... Não basta; os operários têem razão: é necessario exercer a agitação em terreno mais vasto. Creiam que os operários têem razão!

Nicolao acrescentou com ar desconsolado:

—Por toda a parte se queixam da insufficiencia dos livros e ainda não conseguimos montar uma bôa imprensa... A Lioudmila está esgotada de forças, vae nos caír doente, se não lhe arranjarmos collaboradores.

—E o Vessoftchikof? perguntou Sofia.

—Esse não póde residir na cidade. Ha de entrar para o serviço da nova imprensa... mas falta-nos ainda alguem...

—E se eu pudesse servir? propôz a velha com brandura.

Os trez fitaram-na um momento.

—É uma bôa idéa! exclamou Sofia de repente.

—Não; é muito difficil para você, creia, Pélagué, contestou Nicolao com secura. Era preciso que fôsse viver para fóra da cidade, que não pensasse mais em ver o Pavel, e em geral...

Ella replicou, suspirando:

—Olhe que não faria grande falta ao Pavel... e pela minha parte, tambem essas visitas me partem o coração. É proibido falar seja do que fôr! Até pareço uma idiota aos olhos do meu filho! Estão ali mesmo, sempre a espiar-nos!

Os recentes acontecimentos haviam-na fatigado, e agora, quando se lhe apresentava ensejo de afastar a idéa dos dramas da cidade, era quando se agarrava a esse assunto com todas as forças.

Mas Nicolao mudou o curso da conversa.

—Em que pensas? perguntou elle ao doutor.

Este, mal humorado, respondeu:

—Somos poucos! Aqui tens em que penso... É absolutamente necessario trabalhar com mais energia. É necessario decidir o André e o Pavel a evadirem-se; são dois trabalhadores preciosos de mais para estarem na inacção.

Nicolao franziu o sobrolho, meneou a cabeça em ar de dúvida e lançou um rápido olhar para a mãe de Pavel. Percebeu que se constrangiam em falar do filho diante d’ella e foi para o seu quarto, levemente irritada contra quem tão pouco se preoccupava com os seus desejos.

Deitou-se e, de olhos abertos, embalada pelo ciciar das vozes, sentiu-se tomada de inquietação. Parecia-lhe incompreensivel o dia que acabava de decorrer, cheio de allusões ameaçadoras; mas porque este genero de reflexão lhe fôsse penoso, afastou-as do cérebro e entrou de pensar no seu filho. Queria vel-o em liberdade e, ao mesmo tempo, tal idéa assustava-a; sentia que tudo se lhe agitava em torno; a situação tornava-se cada vez mais tensa, andavam imminentes violentas collisões. A paciencia do povo dera logar a enervada espectativa; crescia visivelmente a irritação publica, ouviam-se com frequencia frases rancorosas, de toda a parte soprava um hálito novo, um vento d’excitação. As proclamações eram discutidas animadamente no mercado, nas lojas, entre a criadagem e os artifices; cada prisão que na cidade se effectuasse despertava ecos tímidos, mas inconscientemente simpaticos e as suas causas eram commentadas. Pélagué ouvia agora com mais frequencia a gente do povo pronunciar as palavras que outrora a amedrontavam tanto: «socialistas, política, revolta». Taes palavras eram repetidas com ironia, mas esta ironia não chegava a disfarçar o fim principal, que era o de se informarem das opiniões; com colera, mas sob esta colera transparecia o medo, e todos andavam pensativos, entre alternativas de esperança e de ameaça... Em vastos circulos, lentamente, ia-se propagando a agitação na vida sombria e estagnada do povo; despertava o pensamento adormecido; os acontecimentos diarios já não eram tratados com o socego habitual e a antiga placidez dos fortes. Pélagué notava tudo isto mais distinctamente do que os seus companheiros, pois que melhor do que elles conhecia o aspecto desconsolador da vida, d’ella vivia mais proxima e n’ella divisava simtomas de reflexão e de irritação, uma sêde vaga de alguma coisa nova, o que a regosijava e assustava-a um tempo. Regosijava-se porque tudo considerava obra de seu filho; assustava-se porque sabia que elle, mal saísse da cadeia, logo iria collocar-se no posto mais perigoso, á frente dos companheiros... e que ali havia de morrer.

Sentia muitas vezes Pélagué agitarem-lhe o espirito os grandes ideaes indispensaveis á humanidade e experimentava o desejo de falar da verdade, mas quasi nunca conseguia realisar o seu desejo. N’esta mudez forçada, os seus secretos pensamentos acabrunhavam-na. Por vezes, a imagem do filho tomava a seus olhos as proporções giganteas d’um heroe de lenda; n’elle resumia todas as maximas fortes e leaes que ouvira, todos os seus affectos, todas as coisas grandes e luminosas que o seu espirito abraçava. Contemplava-o então com mudo entusiasmo; ufana, enternecida, nadando em esperança, dizia comsigo:

—Tudo ha de ir bem!... tudo!

O seu amor materno exaltava-se, comprimia-lhe o coração até fazel-o sangrar, mas impedia que n’elle o amor pela humanidade se desenvolvesse, chegando a destruil-o de todo; e no logar d’este grande sentimento só ficava uma minúscula idéa fixa a palpitar timidamente nas cinzas frias da inquietação:

—Vae morrer... Vae morrer!...

Adormeceu tardíssimo em profundo somno, mas accordou logo muito cedo, com o corpo dorido e a cabeça pesada.

XIV

Ao meio dia, já Pélagué estava na secretaria da cadeia. Com turvo olhar, examinava o rosto barbudo de Pavel, que se lhe sentára em frente, á espera do momento em que poderia passar-lhe o bilhete que apertava fortemente na mão.

—Estou de saúde, e outros tambem, dizia Pavel a meia voz. E tu? como vaes?

—Muito bem. Morreu o Iégor! respondeu maquinalmente.

—Palavra?! exclamou Pavel; e baixou a cabeça.

—Vinha a policia no enterro, houve uma desordem, e foi um homem preso, continuou ella com simplicidade.

O sub-director da cadeia deu com a bocca um estalo, aborrecido, e levantou-se a resmungar:

—Não falem n’essas coisas! É proíbido, já devem sabel-o. Não se consente que se fale de política... Oh, Deus poderoso!

Ella ergueu-se igualmente e em voz d’innocencia desculpou-se:

—Eu não falava de política, falava da desordem. E o certo é que elles bateram uns nos outros. Até um ficou com a cabeça aberta!

—Não faz mal, queira calar-se! Quer dizer: não profira uma palavra que não lhe diga pessoalmente respeito, a si, á sua familia ou á sua casa.

E para confirmar melhor as suas explicações, sentou-se á secretária e acrescentou n’um tom de cansaço e de enfado, ao mesmo tempo que punha em ordem uns documentos:

—Depois, eu é que sou responsavel.

Pélagué lançou-lhe furtivo olhar e introduziu rapidamente o bilhete na mão de Pavel. Depois, suspirou com allivio:

—Nem eu sei de que hei de falar...

Pavel sorriu.

—Nem eu tão pouco.

—Então para que serve vir fazer visitas? observou, irritado, o funccionario. Se não sabem de que hão de falar, não venham, não nos incommodem!

—Quando vaes responder? perguntou a mãe apóz curto silencio.

—O procurador esteve ahi um dia d’estes; disse que era para breve.

Trocaram ainda umas frases banaes. A mãe via que o seu Pavel a fitava amorosamente.

Não mudara; mostrava-se, como sempre, calmo e ponderado; unicamente, a barba que lhe crescera vigorosamente, o fazia mais velho; e tinha os pulsos mais brancos. Pélagué quiz causar-lhe prazer dando-lhe noticias de Vessoftchikof. Então, sem mudar de voz, no mesmo tom em que lhe falava de bagatellas, continuou:

—Vi o teu afilhado...

Pavel fitou-a com o ar interrogador. E logo para evocar o rosto bexigoso do fugitivo, ella cravou o indicador em diversos pontos da cara.

—Vae bem, o teu rapaz; é robusto, desembaraçado... Vae ter emprego d’aqui a pouco... Lembras-te? estava sempre a exigir que lhe dessem trabalho pesado.

Pavel tinha compreendido. Abanou a cabeça e respondeu com os olhos illuminados por um alegre sorriso:

—Ora essa!... se me lembro!...

—Pois ahi tens! disse ella com satisfação.

Sentia-se contente comsigo mesma e alegre com a alegria do filho. Ao retirar-se, apertou-lhe elle a mão vigorosamente:

—Obrigado, mamã!

Como o vapor da embriaguez, uma sensação de extase subiu á cabeça da mãe; sentia o coração do filho mais perto do seu; não teve forças para lhe responder com frases e contentou-se com apertar-lhe tambem a mão, sem uma palavra mais.

Em casa, encontrou Sachenka, pois tinha esta por costume visital-os nos dias em que Pélagué ia á cadeia. Nunca a interrogava ácerca de Pavel; se Pélagué, de motu-proprio, não falava do filho, Sachenka ficava-se a olhar fixamente para ella, e era tudo. Mas n’esse dia, acolheu-a com uma interrogação de desasocego:

—E então, que faz elle?

—Está bom.

—Deu-lhe o bilhete?

—Com certeza.

—E leu-o?

—Está visto que não. Como podia elle lêl-o?

—É verdade!... Esquecia-me!... emendou com lentidão a rapariga. Esperemos mais uma semana... E que lhe parece? Estará d’accordo? E olhou fito para a mãe de Pavel.

—Sim... não sei... creio que sim! respondeu. Porque não havia elle de se evadir? Perigo, não ha nenhum...

Sachenka concordou com um aceno e perguntou com seccura:

—Não sabe dizer-me o que é que se póde dar a comer ao doente? Diz que tem fome...

—Póde comer de tudo... de tudo! Eu mesma lá vou.

E encaminhou-se para a cosinha. Sachenka seguiu-a vagarosamente.

Pélagué foi ao fogão buscar uma cassarola.

—Escute! murmurou a rapariga.

Fez se pálida, os olhos dilataram-se-lhe n’uma angustia e com os beiços trémulos, segredou de enfiada:

—Queria perguntar-lhe... Eu bem sei: elle não ha de querer. Mas convença-o, diga-lhe que precisamos d’elle, que não podemos passar sem elle, que tenho medo que elle caia doente n’essa prisão... que tenho muito medo! Bem vê: nem ainda está fixado o dia do julgamento!...

Falava com difficuldade e tal esforço toda a inteiriçava; não se atrevia a fitar a mãe de Pavel; a voz saía-lhe desigual como corda que se puxa de mais, e logo se quebra. Com as palpebras cerradas mollemente, mordia os beiços e ouviam-se-lhe estalar as articulações dos dedos, enclavinhados.

Pélagué, ficou emocionada ao ver aquelle accesso de exaltação, mas compreendeu. Commovida, cheia de tristeza, abraçou-a e respondeu baixo:

—Minha filha: elle não dá ouvidos senão a si mesmo... A mais ninguem!

Permaneceram um instante em silencio, estreitamente enlaçadas. Depois, Sachenka soltou-se-lhe dos braços suavemente e disse enleada:

—Sim... tem razão! São tolices minhas... são os meus nervos!

E fazendo-se de repente muito séria, concluiu simplesmente:

—Mas agora me lembro: é preciso levar de comer ao doente!

D’ahi a pouco, sentada á cabeceira de Ivan, perguntava a este em tom de amigavel sollicitude:

—Doe-lhe muito a cabeça?

—Não, não muito... Mas vejo e oiço tudo vagamente... sinto-me fraco! respondeu Ivan confuso e puxando a roupa até o queixo. Pestanejava de contínuo, como se a luz se lhe tornasse demasiado forte. E porque notasse que o rapaz não se resolvia a comer na presença d’ella, Sachenka levantou-se e saíu do quarto.

Ivan sentou-se na cama, seguindo-a com a vista; e, piscando o olho:

—É tão bonita!...

Ivan tinha uns olhos claros e espertos, dentes pequenos e muito iguaes, a voz estava ainda na mudança da puberdade.

—Que idade tem? perguntou-lhe Pélagué pensativa.

—Dezesete annos.

—Onde vivem seus paes?

—No campo. Ha sete annos que vivo aqui; abandonei a aldeia ao saír do collegio... E a senhora, camarada, qual é o seu nome?

O ouvir tratar-se assim divertia sempre Pélagué, e sensibilisava-a. Muito risonha, retorquiu:

—Que precisão tem de o saber?

Calou-se um instante o rapaz, confuso, e explicou:

—É que um estudante do nosso grémio... quer dizer do grémio que nos fazia as leituras, falou-nos da mãe de Pavel Vlassof, sabe? aquelle que organisou a manifestação do primeiro de maio... o revolucionario Vlassof.

Ella confirmou com a cabeça e apurou o ouvido.

—Foi elle o primeiro a desfraldar a bandeira do nosso partido! declarou com emfase o rapaz, e esta exclamação de orgulho ecoou no coração da mãe. Eu não estava no grupo... Tinhamos tenção de fazer uma manifestação tambem aqui, mas fomos mal succedidos: eramos muito poucos! Mas este anno ha de ser outra coisa... Verá!

Offegava, emocionado, comprazendo-se á idéa de futuros acontecimentos. Agitando a colher, proseguiu:

—Falava eu então da mãe de Vlassof... Ao que parece, entrou tambem para o partido depois da prisão do filho... Dizem que essa velha é extraordinaria!

Pélagué teve um franco sorriso: sentia-se a um tempo lisonjeada e constrangida. Ia dizer-lhe que a mãe de Pavel era ella; mas conteve-se e pensou com tristeza e um pouco de ironia:

—Que velha tola que eu sou!

E de repente, dominando a sensibilidade que a dominava, curvou-se para o rapaz:

—Vamos, coma! Coma que mais depressa se ha de curar para proseguir nos nossos trabalhos! A causa do povo precisa de braços juvenis e robustos, de corações puros, de espíritos leaes! São essas forças que lhe dão vida; é por ellas que hão de ser vencidas toda a maldade e toda a infamia!...

Abriu-se a porta, deixando penetrar o fresco húmido do outono. Entrou Sofia, alegre, com as faces muito córadas.

—Os espiões andam a perseguir-me como os janotas arruinados perseguem uma herdeira rica, palavra d’honra! Tenho de me ir embora d’aqui.

—E então, Ivan, como vae?... Bem?... Pélagué, que diz o Pavel?... A Sachenka está cá?

Accendia um cigarro e ia fazendo todas estas perguntas sem esperar as respostas. Afagava no entretanto a velha e o rapaz com a caricia do seu olhar pardacento. Pélagué considerava a recemchegada, rindo interiormente e pensava:

«E eis como eu tambem me transformei em creatura humana... e n’uma bôa creatura, até!»

Inclinando-se de novo para Ivan, disse-lhe:

—Cure-se depressa, rapazinho!

E passou á casa de jantar, onde estava Sofia a dizer a Sachenka:

—Ella já preparou trezentos exemplares!... Mata-se a trabalhar... Que heroísmo o d’ella! Sabe Sachenka, que é uma verdadeira felicidade viver entre gente assim, ser seu camarada, trabalhar com elles!...

—É certo! respondeu a rapariga.

E á noite, Sofia annunciou:

—Mãe Pélagué, precisamos que faça uma nova excursão pelo campo.

—Com muito gosto. Quando é a partida?

—Dentro de trez dias... Está por isso?

—Certamente!

—Mas não ha de ir a pé, aconselhou Nicolao.

Alugam-se cavallos de posta e toma outro caminho: pelo districto de Nikolsky...

Aqui, calou-se; tomára uns modos sombrios que não condiziam com a sua expressão habitual; as suas feições tão calmas tiveram uma contracção singular de fealdade.

—É uma volta muito grande! fez notar a velha. E os cavallos custam caro.

—É preciso que saibam, proseguiu Nicolao. Sou geralmente contrario a estas viagens. Ha agitação lá para esses lados... ha pouco, fizeram-se por lá prisões, foi encarcerado um mestre escola... É bom ser-se prudente... Mais valia esperar um pouco...

—Ora! redarguiu Pélagué a rir. Se é certo o que dizem: que não se tortura ninguem n’essas prisões...

Sofia, que tamborilava sobre a mesa, observou:

—Mas é importantissimo para nós que a distribuição dos folhetos e dos manifestos se faça sem interrupção... Não tem medo de lá ir, Pélagué? perguntou bruscamente.

Sentiu-se melindrada.

—Tive eu alguma vez medo? Mesmo da primeira vez não me senti nada assustada... e a senhora...

Baixou a cabeça sem terminar a frase. É que sempre que lhe perguntavam se ella tinha medo, se podia fazer uma coisa ou outra, se isto ou aquillo era facil para ella, presentia que precisavam de si para alguma coisa, que tratavam de se descartar d’ella, e que a tratavam por fórma diversa da que usavam entre elles.

Quando tinham vindo os dias dos acontecimentos mais consideraveis, haviam-na ao principio assustado um pouco a rapidez dos incidentes e a repetição das emoções, mas logo, instigada pelo exemplo e sob o impulso das idéas que a dominavam, o seu coração transbordára do immenso desejo de se tornar tambem util. Era este o seu estado de espirito n’esse dia, e a pergunta de Sofia tornou-se-lhe assim, pois, tanto mais desagradavel.

—É inutil perguntar se tenho medo... ou outra qualquer coisa d’este genero, proseguiu ella. Porque havia de ter medo?... Os que possuem alguma coisa é que teem medo. E eu que tenho? O meu filho, unicamente... Tinha medo por elle... Tinha medo que o torturassem e que me fizessem outro tanto. Mas desde o momento que não ha torturas, que me importa o resto?

—Não está zangada comigo?! exclamou Sofia.

—Não... Somente noto que nunca pergunta aos outros se têm medo...

Nicolao tirou com vivacidade os óculos, tornou a pôl-os e olhou de fito para a irmã. O silencio contrafeito que se estabeleceu agitou a alma de Pélagué. Levantou-se constrangida; ia falar, mas Sofia, pegando-lhe brandamente em uma das mãos, disse baixinho:

—Desculpe... Nunca mais lho pergunto.

Esta promessa fez rir a anciã. E instantes depois, todos trez conversavam affectuosamente mas preoccupados, sobre a nova jornada ao campo.

XV

Logo ao nascer da aurora, lá ia a velha na carrinhola, em fortes solavancos pelas estradas enlameadas pelas chuvas do outono. Soprava húmido vento; a lama voava em mil respingos; o postilhão, sentado á beira do carro, virado para Pélagué, ia a lamentar-se n’uma voz anasalada e filosófica:

—Tinha eu dito áquelle meu irmão: façamos partilhas! E começámos a fazer partilhas...

Mas de repente fustigou o cavallo da mão com valente chicotada e gritou furioso:

—Queres andar, ou não, estuporado animal?

Os nédios corvos d’outono saltitavam com gravidade pelos campos nús; o vento vinha-lhes ao encontro, assobiando; elles então apresentavam o flanco ao vento, que lhes arrepiava as pennas e os obrigava a cambalear, e elles cediam á força da brisa e deitavam a voar com um palpitar indolente das azas.

—Finalmente prejudicou-me, e eu vi que não havia nada a fazer com elle, concluiu o postilhão.

As palavras do homem resoavam como n’um sonho, aos ouvidos de Pélagué; no seu coração germinava um pensamento muito diverso, a sua memoria fazia-lhe desfilar na frente a longa série dos acontecimentos passados nos ultimos annos. Outrora, a vida, para ella, era como uma coisa criada não se sabia onde, muito longe, não se sabia por quem, nem porquê, e, agora, um numero consideravel de coisas se faziam á sua vista e com o seu próprio auxílio. E um vago sentimento se apoderava d’ella: era perplexidade e suave tristeza, contentamento e desconfiança de si mesma...

Em torno d’ella, tudo se deslocava com lento movimento; no ceu, vogavam pesadamente as nuvens pardacentas, correndo para passarem umas adiante das outras; aos dois lados do caminho, fugiam as arvores encharcadas, com os cumes desnudados a baloiçarem; os campos estendiam-se em circulos regulares; monticulos adiantavam-se-lhe ao encontro, depois, ficavam para traz. Dir-se-ia que aquelle dia turvado ia a correr para alguma coisa longinqua, indispensavel.

A voz nasal do postilhão, o tintilar dos guisos, o assobiar húmido e o perpassar do vento, tudo se fundia em uma torrente sinuosa e palpitante, que corria por cima dos campos com força uniforme e que suggestionava os espíritos.

—O rico até no ceu acha o espaço pouco!... É sempre assim! Meu irmão entrou a chicanar... as autoridades protegem-no! continuava o cocheiro, sentado sempre no rebordo do vehículo.

Chegados ao termo da viagem, desatrelou os cavallos e disse á velha n’um tom desesperado:

—Bem me podias dar cinco kopecks para beber uma pinga.

E como ella acquiescesse ao pedido, o homem declarou no mesmo tom, fazendo tenir as duas pequenas moedas no concavo da mão:

—Pois vou comprar uns trez kopecks d’aguardente e dois de pão!...

Pela tarde, chegou Pélagué, esfalfada e transida á importante villa de Nikolsky. Dirigiu-se á hospedaria, pediu chá e, tendo occultado debaixo d’um banco a sua pesada mala de mão, foi sentar-se ao pé da janella, a olhar para o largosinho, revestido d’um tapete amarellado de herva calcada, e para o edificio da administração da communa, um casarão pardacento e triste, com os telhados a caír. Sentado nos degraus da entrada, estava um campónio calvo, de barbas compridas, a fumar o seu cachimbo.

Corriam as nuvens em massas sombrias; amontoavam-se umas sobre outras. Reinava silencio; tudo respirava um tédio de mau humor; dir-se-ia que a existencia inteira se tinha occultado não se sabia onde, silenciosa.

De repente, appareceu um official inferior de cossacos, a galope; sopeou o alazão que montava, em frente da entrada da administração e gritou o que quer que fôsse para o campónio, agitando o chicote no ar. Os seus gritos atravessavam as vidraças, mas Pélagué não podia distinguir as palavras. O campónio levantou-se, estendeu a mão para o horizonte; o official inferior saltou para o chão, cambaleou um pouco, atirou as rédeas ao homem; depois, firmando-se pesadamente na balaustrada, subiu os degraus e sumiu-se no interior do edificio.

Fez-se novo silencio. Por duas vezes o alazão bateu com o casco no solo empapaçado. Uma rapariguinha, de olhos cariciosos e rosto muito redondo, com uma pequena trança loira caída no hombro, entrou na sala onde Pélagué estava. De bocca franzida, trazia sobre os dois braços estendidos uma enorme bandeja de bordas já gastas, carregada de louça. Cumprimentou com a cabeça.

—Viva, minha lindinha! disse-lhe Pélagué amoravelmente.

—Viva!

Quando dispunha sobre a mesa pratos e chavenas, a pequena annunciou de chofre, muito animada:

—Apanharam agora mesmo um ladrão... Vão trazel-o para aqui.

—Que vem a ser esse ladrão?

—Não sei.

—Que fez elle?

—Não sei; só ouvi dizer que tinham apanhado um ladrão! Foi o guarda que saíu a correr da administração para ir buscar o commissário. Ia a gritar: «Está agarrado, tragam-no para cá!»

Pélagué olhou pela janella e viu que vários camponezes se approximavam. Uns caminhavam devagar, com todo o socego; outros, corriam e vinham a abotoar as suas capas de pelles mesmo a andar. Pararam todos em frente do casarão e dirigiram os olhares para a esquerda. Mas conservavam-se todos em singular silencio.

A rapariguinha olhou tambem para a rua e saíu da sala, batendo ruidosamente com a porta. Pélagué estremeceu. Occultou o melhor que poude a mala debaixo do banco, cobriu a cabeça com um lenço e veio fóra, a passo rápido, reprimindo o incompreensivel desejo de fugir que toda inteira a assaltava.

Ao chegar ao poial da entrada da estalagem, sentiu nos olhos e no peito um friosinho agudo; suffocou, teve as pernas dormentes: a meio do largo caminhava Rybine com as mãos amarradas nas costas, escoltado por dois guardas. Silenciosa, a multidão dos campónios estava á espera, em volta da escadaria da administração.

Atordoada, sem compreender bem o que via, Pélagué não desfitava Rybine. Este vinha a falar, pois que Pélagué lhe ouvia o som da voz, mas as palavras voavam indecisas, sem que tivessem éco no vácuo fremente e obscuro do seu espirito.

Voltou a si e respirou melhor. Um campónio de barba loira estava a fitar n’ella attentamente os olhos azues. Ella tossiu, esfregou o peito com as mãos trémulas de terror e perguntou com esforço:

—Que se passa?

—Veja vocemecê mesma, redarguiu o camponez, voltando-se de novo para ella. Outro rústico approximou-se do primeiro e postou-se lado a lado.

Os guardas fizeram alto em frente da populaça sem cessar crescente, mas que permanecia muda. De súbito, a voz de Rybine resoou com inergia:

—Teem ouvido falar d’esses papeis em que se escreve toda a verdade a respeito da nossa vida de campónios?... Pois bem: foi por causa d’esses papeis que me prenderam! Fui eu que os distribui pelo povo!

A multidão cercou então o preso. Este apparentava voz calma, reflectida, e isto aliviou Pélagué da oppressão em que se sentia.

—Estás ouvindo? perguntou o segundo camponez ao dos olhos azues, dando-lhe com o cotovelo.

Este, sem responder, ergueu a cabeça e de novo fitou a velha. O outro fez o mesmo. Era mais novo que o primeiro e tinha uma cara chupada, coberta de sardas, de barbinhas pretas. Os dois afastaram-se um pouco.

—Teem medo! disse Pélagué comsigo.

E augmentou de attenção. Da soleira da estalagem distinguia perfeitamente o rosto sujo e tumefacto de Rybine, divisava-lhe o brilho do olhar; desejava que elle tambem a visse; pôz-se nos bicos dos pés, de pescoço estendido.

Varios populares attentavam n’ella com modos frios, desconfiados, sem proferir uma palavra. Só nas primeiras filas do ajuntamento é que se notava um susurro continuado de conversações.

—Camponezes, meus irmãos, proseguiu Rybine com voz máscula e firme, tenham confiança n’esses escriptos! É para a morte talvez, que eu caminho por causa d’elles! Fui espancado, torturado, quizeram obrigar-me a dizer d’onde elles provinham... Pois que continuem a espancar-me—tudo supportarei!... Porque n’esses papeis encontra-se a verdade, e a verdade é para ser por nós mais presada do que o pão!... do que a própria vida!

—Para que diz elle aquillo? perguntou um dos dois campónios.

O dos olhos azues respondeu com lentidão:

—Que lhe importa, a elle? A gente não morre duas vezes... E agora que já está condemnado...

Os trabalhadores continuavam mudos, relanceando olhares furtivos e mal humorados; a todos parecia acabrunhar o que quer que fosse invisivel mas esmagador.

O official inferior appareceu n’isto na balaustrada da administração. Titubeante e em voz avinhada, regougou:

—Que vem a ser toda esta gente? Quem está para ahi a falar?

Precipitou-se para o largo, agarrou e saccudiu Rybine pelos cabellos, gritando:

—És tu que estás a falar, filho d’uma cadella... és tu?

Fez-se agitação entre o povo, que entrou a murmurar. Presa de violenta angustia, a cabeça de Pélagué descaíu sobre o peito. Um dos campónios suspirou com ruido. E de novo resoou a voz de Rybine:

—Pois bem, bôa gente, escutem!...

—Cala-te!

E o sargento deu-lhe um murro sobre o ouvido. Rybine cambaleou, depois, ergueu os hombros.

—Amarram as mãos a uma pessôa para a martirisarem á vontade!

—Guardas, levem-no! Olá! toca a dispersar! E, aos saltos na frente de Rybine, como um cão preso pela trela diante d’um naco de carne, o sargento atirava-lhe murros á cara, ao ventre e ao peito.

—Não lhe batas! gritou uma voz entre o povo.

—Para que lhe bates? perguntou outro.

—Vamo-nos embora! disse o dos olhos azues para o companheiro, abanando a cabeça. E, de seu vagar atravessaram o largo, emquanto Pélagué os acompanhava com um olhar de simpatia.

Suspirou então, mais aliviada. O sargento accudiu outra vez, em pesado passo, á balaustrada e entrou a gritar, furioso, brandindo o punho:

—Tragam-no para aqui, já lhes disse.

—Não! replicou uma voz sonora. (A velha percebeu que era a do camponez dos olhos azues.) Não devemos consentir! Se o deixam entrar ali, vae ser espancado até o matarem! E depois não faltará quem diga que a culpa foi nossa, que fomos nós que o matámos!... Não devemos consentir!

—Camponezes! gritou Rybine. Não vêem a vida que levam? Não vêem como são explorados, ludibriados, e que lhes tiram o sangue?... Tudo repousa em vós; vós sois a principal força da terra... toda a sua força!... E quaes são as vossas regalias? Unicamente a de morrer á fome!

De subito, os camponezes proromperam em gritos, interrompendo se uns aos outros:

—O homem tem razão!

—Chamem o commissário da policia rural! Onde está?

—O sargento foi chamal-o!

—Ora adeus! O sargento está bêbedo!

—Não é a nós que compete chamar as auctoridades!

—Fala, que não deixamos que te batam!

—O que foi que tu fizeste, an?

—Desamarrem-lhe os pulsos.

—Não, não, meus irmãos!

—Porque não? Que importancia tem isso?

—Pensem bem no que fazem!

—Doem-me os pulsos! disse Rybine, dominando o tumulto com a sua voz sonora e espaçada. Meus irmãos! descansem que não fujo!... Eu não posso fugir á verdade, pois que ella vive em mim!

Algumas pessôas separaram-se do ajuntamento e foram-se afastando com meneios de cabeça; alguns riam... Mas sem cessar, gente exaltada, mal vestida por terem envergado os fatos á pressa, vinha chegando de todos os lados. Fervilhavam em volta de Rybine qual negra escuma. De pé, no meio d’elles, tal um cruzeiro em meio da floresta, o preso ergueu os braços acima da cabeça e gritou:

—Obrigado, obrigado, bôa gente! Sim! devemos desligar as nossas mãos mutuamente! Quem nos havia de ajudar, se nós não nos ajudassemos uns aos outros?

Ergueu novamente uma das mãos, toda ensanguentada:

—Vêem o meu sangue? É pela verdade que o derramo!

Pélagué desceu o poial. Mas do nivel do largo, já Rybine lhe não era visivel; tornou pois a subir os degraus. Tinha o peito em fogo mas dentro d’elle sentia palpitar alguma coisa de vaga alegria...

—Camponezes! Busquem esses folhetos, leiam-nos. Não acreditem nas autoridades e nos padres, que andam a dizer-lhes que são ímpios e herejes aquelles que vos trazem a verdade!... A verdade vae sempre fazendo o seu caminho silencioso pela terra, e no seio do povo encontra abrigo. Para essas autoridades ella é peor que o ferro e que o fogo. A verdade é a nossa melhor amiga; para a autoridade é uma inimiga declarada.—ahi teem porque ella se esconde.

De novo resoaram entre a multidão varias exclamações.

—Irmãos, escutem!

—Ai, pobre homem, estás perdido!

—Quem te denunciou?

—Foi o padre, respondeu um dos guardas.

Dois dos camponezes vomitaram logo uma chuva de impropérios.

—Cuidado, camaradas! advertiu uma voz.

XVI

É que vinha chegando o commissário da polícia rural.

Era um homem alto e robusto, cara redonda. Trazia o bonné inclinado para a orelha; uma das guias do bigode vinha retorcida para cima, a outra pendia-lhe do canto da bocca, o que lhe dava uma expressão contorcida á cara, já de si desfigurada por um sorriso parado e estúpido. Na mão esquerda tinha uma pequena espada e balançava o braço direito ao ritmo dos passos. Fazia bulha, com o andar, pesado e firme. A populaça afastava-se na sua passagem. As fisionomias tomavam um aspecto de triste acabrunhamento.

O tumulto socegára, desapparecera como se se tivesse sumido pela terra. Pélagué sentiu estremecer-lhe em repuxões nervosos a pelle da fronte; offuscava-lhe a vista uma como névoa de calor. Novamente teve vontade de ir misturar-se áquella gente; inclinou-se porém, e ficou immovel, em angustiosa espectativa.

—Que temos? perguntou o commissário, parando diante de Rybine e medindo-o dos pés á cabeça. Porque é que este homem não tem as mãos amarradas? Porquê? Amarrem-lhas!

Tinha a voz aguda e sonora, mas sem timbre.

—Elle tinha as mãos amarradas... mas o povo desamarrou-lhas! respondeu um guarda.

—O quê? O povo? Que povo?

Percorreu com a vista o semi-círculo que o cercava e proseguiu na sua voz branca e uniforme:

—Quem vem a ser aqui o povo?

Tocou com o punho da espada o peito do camponez de olhos azues:

—És tu que és o povo, Tchoumakof? E quem mais? És tu, Michine?

E deu um puxão nas barbas d’outro camponez.

—Vamos a dispersar, canalha!... Senão, comigo se hão de haver...!

Não demonstrava no tom em que falava nem irritação nem ameaça, como tão pouco na fisionomia. Exprimia-se com uma tranquillidade completa e ia distribuindo as pancadas em gestos firmes e iguaes. Diante d’elle, os grupos recuavam, baixavam-se as cabeças, desviavam-se os rostos.

—Então, por que esperam? perguntou aos guardas. Amarrem-no!

E depois de uma chuva de insultos cínicos, virou-se de novo para Rybine:

—Olá, tu! Mãos atraz das costas!

—Não quero ser amarrado! replicou Rybine. Eu não fujo... não me defendo... Para que serve amarrarem-me?

—O quê?! exclamou o commissário, indo para elle.

—Já bastante martirisastes o povo, feras! continuou Rybine, erguendo a voz. Tambem vocês dentro em pouco hão de ter os seus dias de sangue!

O commissário parou-lhe na frente de chofre e pôz-se a miral-o, ao mesmo tempo que repuxava o bigode. Depois, recuou um passo e disse em tom de espanto e n’uma voz sibilante:

—Ah, filho d’um cão!... Que significam essas palavras?

E bruscamente, com toda a força, descarregou uma punhada no rosto de Rybine.

—Não se destroe a verdade a murros! gritou este, crescendo para elle. E tu não tens o direito de me bater!

—Eu não tenho o direito?! berrou o commissário, destacando muito as palavras.

E novamente atirou o braço para attingir o rosto de Rybine. Este baixou-se, por fórma que o commissário, com o impulso, esteve a ponto de caír. D’entre o ajuntamento alguem fungou com ruido. Furioso, Rybine repetiu:

—Já te disse que não tens o direito de me bater, grande diabo!

O commissário olhou em torno. Os homens, silenciosos e de má catadura, rodeavam-no em compacto círculo.

—Nikita! chamou. Olá, Nikita!

Um campónio baixote e atarracado, vestido de um curto casacão de pelles, saíu do grupo. Vinha de olhos fitos no chão, com a enorme cabeça baixa e os cabellos desgrenhados.

—Nikita! ordenou o commissário com a maior tranquillidade e retorcendo o bigode. Dá-lhe uma bofetada bôa!

O homem deu um passo para diante, parou em frente de Rybine e ergueu a cabeça. Rybine, á queima roupa, bombardeou-o com estas palavras sinceras e duras:

—Vejam vocês, bôa gente, como este bruto vos esmaga com a vossa própria mão!... Vejam bem... e reflictam.

Lentamente, o homem ergueu o braço e contundiu Rybine na cabeça, mas levemente.

—Assim é que eu te mandei fazer, canalha? gritou o outro, esganiçando-se.

—Eh, Nikita! disse alguem próximo. Não te esqueças de que Deus te está vendo!

—Bate-lhe, já t’o disse! gritou o commissário, empurrando o camponez.

Este afastou-se um passo e respondeu com frieza, de cabeça baixa:

—Não, senhor! não estou para mais!

—Como?

Contraíu-se o rosto da autoridade. Bateu o pé e precipitou-se sobre Rybine, rogando pragas. A pancada resoou em surdo choque. Rybine cambaleou, agitou o braço; em segundo assalto, prostrou-o o commissário no solo e, aos pulos em volta d’elle, entrou a dar-lhe pontapés na cabeça, pelo peito, nas ilhargas.

A multidão, soltando gritos hostis, pôz-se em movimento e cresceu para o commissário, mas este deu um salto para o lado e desembaínhou a arma.

—Ah, é assim? Revoltam-se? Ah, é isso?

Tremeu-lhe a voz, tornou-se mais aguda e passou a saír-lhe da garganta em guinchos, como se se tivesse quebrado. E ao mesmo tempo que perdia a voz, sentia-se perder todo o prestigio. Com a cabeça encolhida nos hombros, o dorso recurvado e relanceando em torno o olhar amortecido, entrou a recuar, tateando cautamente o solo atraz de si. Amedrontado, rouquejava, ao mesmo tempo que ia cedendo:

—Muito bem... Fiquem com elle... Eu vou-me embora!... Mas, depois? Fiquem bem sabendo: esse homem é um criminoso político, combate contra o nosso tzar, anda a fomentar revoltas! Compreendem? É contra Sua Magestade o Imperador... e vocês defendem-no! Sabem que ficam sendo rebeldes?

Immovel, o olhar de estátua, sem idéas nem acção, como n’um pesadello, Pélagué succumbia ao peso do terror e da sua piedade. Semelhantes ás vibrações d’um sino enorme, susurravam-lhe aos ouvidos os gritos irritados da plebe. Tudo lhe redemoinhava dentro da cabeça, a voz tremente do commissário, mil ruidos confusos...

—Se é criminoso, seja julgado!

—E não massacrado!

—Tenha dó d’elle, Excellencia!

—Pois está claro! Não tem direito de bater-lhe!

—Se isto são maneiras de proceder! D’essa fórma, começam todos para ahi a bater na gente! O que será então!

—Que brutos! que carrascos!

Dividia-se o povo em dois grupos: uns rodeavam o commissário, gritavam, exortavam-no, os outros, menos numerosos, permaneciam junto do ferido e discorriam em voz baixa e com ares de abatimento. Ergueram-no do chão alguns homens. Os guardas dispunham-se a ligal-o de novo.

—Esperem ahi, seus diabos! gritaram-lhes.

Rybine limpou a lama e o sangue que lhe empastavam a cara e, silencioso, olhou em torno. Deu então com a vista no rosto de Pélagué. Esta estremeceu, adiantou todo o corpo para elle, fez instinctivo gesto. Elle desviou os olhos. Mas, alguns instantes mais tarde, voltava o olhar do preso a fixar-se n’ella. Afigurou-se á pobre mulher que Rybine se endireitava na sua direcção, que erguia a cabeça para ella, com um movimento convulso das ensanguentadas faces.

—Reconheceu-me!... É possivel que me tenha reconhecido?!...

E, vibrante de uma pungente satisfação angustiada, fez-lhe um signal com a cabeça. Mas logo reparou no homem dos olhos azues, que se encontrava junto de Rybine e que a fitava. Dispertou n’ella a consciencia do perigo.

—Que estou eu a fazer?... Podem prender-me tambem.

O homem segredou algumas palavras a Rybine; este abanou a cabeça e disse nervosamente mas por fórma distincta e valorosa:

—Que importa? se eu não estou sósinho no mundo!... A verdade nunca poderá ser encarcerada! O povo ha de lembrar-se de mim por toda a parte onde passei... Ahi está! O ninho foi destruido, mas que mal vae n’isso, se dentro d’elle já não estavam nem amigos, nem camaradas?

É para mim que está a falar! pensou Pélagué.

—O povo saberá construir outros ninhos, em prol da eterna verdade, e ha-de chegar o dia em que as águias voarão livremente... em que o povo será libertado!

Trouxe uma mulher um balde d’agua e, desfazendo-se em lamentações, entrou de lavar o rosto do preso. A vózinha chorosa e fina da mulher confundia-se com a de Rybine e não deixava que Pélagué entendesse o que elle dizia. Precedido do commissário de polícia, avançava um grupo de camponezes. Alguem ordenou:

—Um carro para levar o preso para a cidade! Olá, a quem toca fornecer o carro?

Em seguida, o commissário gritou n’uma voz transtornada e como vexado:

—Eu posso bater-te, entendes? mas tu não me pódes fazer outro tanto, tu é que não tens esse direito, idiota!

—Ah! E quem és tu então? Deus de misericordia! replicou Rybine.

Algumas exclamações abafadas cobriram a resposta.

—Não discuta, tiosinho! Olhe que é um chefe!

—Não se zangue mais, Excellencia!

—Cala-te d’ahi, meu original!

—Vão-te já levar para a cidade!...

—Lá, ha mais respeito pela lei!

Os gritos da populaça tornavam-se mais conciliadores, supplicantes; conjugavam-se em indistincta vozearia, lamentosa, mas sem qualquer nota em que se traduzisse uma esperança. Os guardas agarraram Rybine pelos braços, conduziram-no pela escadaria da administração e com elle penetraram no edificio. Lentamente, a multidão foi-se escoando. Pélagué notou que o homem dos olhos azues se dirigia para o seu lado e a observava de soslaio. Tremiam-lhe as pernas; desconsoladora sensação de impotencia e de isolamento lhe alanceava a alma, causando-lhe nauseas.

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