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A Mãe

SEGUNDA PARTE (continued 5)

Augusto de Lacerda translation

—Sim! responderam algumas vozes surdas.

—Fecha-lhe a bôca!

Por detraz do ajuntamento, Pélagué avistou o espião acompanhado por dois guardas. Deu-se pressa em distribuir os últimos maços, mas quando a sua mão chegava mais uma vez á mala, sentiu o contacto de outra mão.

—Levem tudo! Levem tudo! disse ella, curvando-se. Para transformar esta vida, para libertar todos os homens, para os resuscitar d’entre os mortos, como eu resuscitei, nasceram creaturas filhas de Deus que andam a semear pelo mundo a verdade santa. Operam em segredo, pois, como bem sabem, ninguem póde dizer a verdade, sem que seja logo perseguido, suffocado, atirado para uma enxovia, mutilado! A verdade da existencia e a liberdade são inimigas para todo o sempre irreconciliaveis d’aquelles que nos governam, d’aquelles que nos opprimem. E são crianças, são creaturas purissimas e luminosas que vos annunciam a verdade. Graças a ellas, ella ha de chegar emfim ás nossas miseraveis existencias, ella ha de vir acalentar-nos e confortar-nos; ha de libertar-nos da oppressão das autoridades e de todos os que lhes venderam a alma! Creiam!

—Bravo, velha! gritou um.

Outro entrou a rir.

—Vamos, dispersem! regougaram os guardas, afastando brutalmente a multidão.

O agrupamento recuou, resmungando, impedindo os guardas entre a massa da gente e tolhendo-lhes os movimentos, mesmo sem querer. Sentiam-se dominados por aquella mulher de cabellos grisalhos, olhar de franqueza e modos bondosos. Indifferentes uns aos outros, isolados pela vida, confundiam-se agora em um todo, acalentados pelo ardor d’aquella palavra que muitos esperavam, sem duvida, ha muito tempo. Os que ficavam mais perto de Pélagué permaneciam em silencio. Pélagué sentia-lhes os olhares attentos fitos sobre si e o bafo das respirações.

—Sobe para o banco! gritou-lhe um.

—Vae-te d’aqui, velha!

—Vaes ser suffocada!

—Que insolente!

—Fala depressa, que elles ahi vem!

—Deixem o caminho livre! Vamos, a andar! gritavam outros guardas, chegados n’este comenos.

Já em numero crescido, estes desviavam a multidão com mais violencia ainda; toda aquella gente molestada, agarrava-se a quem lhe ficava próximo.

Parecia a Pélagué ter na frente como que um férvido cachão e que todos estavam prontos a compreendel-a e a acredital-a. O seu desejo era dizer ali, depressa, tudo o que sabia, todos os poderosos pensamentos que lhe subiam harmoniosamente, sem esforço, do âmago do coração; mas faltava-lhe a voz, não lhe saíam do peito mais que sons roucos, entrecortados e trémulos.

—A palavra do meu filho é a palavra pura d’um filho do povo, d’uma alma integra! Pela audacia se reconhecem os que são íntegros; pela verdade, quando ella o exija, sacrificam-se intrepidamente!

Entre o ajuntamento, olhos juvenis fitavam-na, a um tempo com entusiasmo e terror.

Recebeu uma pancada no peito, cambaleou e caíu para cima do banco. Por sobre as cabeças agitavam-se as mãos dos guardas, os quaes agarravam brutalmente os circumstantes pela nuca ou pelos hombros e atiravam-nos para o lado, arrancavam das cabeças os bonnés e arremessavam-nos ao longe. Pélagué sentiu confundirem-se e vacillarem as coisas em frente dos olhos, mas dominou a fadiga e serviu-se ainda da pouca voz que lhe restava.

—Povo, reune as tuas fôrças em uma só fôrça!

Caíu-lhe no pescoço e saccudiu-a a mão enorme e encarniçada d’um guarda.

—Cala-te!

Foi bater com a nuca de encontro á parede. Durante um instante, teve o coração envolvido n’uma névoa de ardente terror, mas este vapor logo se dissipou ao entusiasmo que a aquecia.

—Anda para a frente! disse o guarda.

—...Não ha soffrimento mais amargo que o que dia a dia devora o coração e exaure o peito...

O espião precipitou-se ao encontro d’ella e brandindo o punho em frente da cara da presa, gritou com voz aguda:

—Cala-te, canalha!

Os olhos de Pélagué abriram-se desmedidamente e scintillaram; as maxillas tremiam-lhe. Firmou os pés no lagedo escorregadio e gritou:

—Não se mata uma alma resuscitada!

—Cadella!

Com pequeno impulso, o capitão bateu-lhe no rosto.

—É bem feito para essa velha porca! gritou uma voz.

Uma coisa negra e vermelha cegou por instantes Pélagué; encheu-lhe a bocca o sabor salgado do sangue.

Reanimou a uma explosão d’exclamações:

—Você não tem direito de bater!

—Camaradas!

—Que vem a ser isso?

—Ah, patife!

—Dá-lhe!

—...Não é com sangue que se ha de suffocar a razão!

Empurravam-na pelas costas, pelo pescoço, batiam-lhe na cabeça e no peito; tudo oscillava e se sumia no sombrio turbilhão dos gritos, dos lamentos e dos silvos dos apitos. Alguma coisa espessa e que a ensurdecia lhe penetrava nos ouvidos e lhe enchia a garganta até á suffocação. O solo fugia-lhe debaixo das pernas, que vergavam, o corpo tiritava-lhe sob o aguilhão dos ferimentos; tropega e exausta, Pélagué cambaleava. Mas continuava a distinguir em volta de si numerosos olhares onde brilhava o entusiasmo decidido que ella conhecia bem e que tão querido era ao seu coração. Levaram-na aos encontrões para uma das portas.

Ella poude desembaraçar uma das mãos e agarrou-se ao batente.

—...Nem mesmo sob um mar de sangue a verdade desapparecerá...

Descarregaram-lhe logo uma pancada na mão.

—Só conseguis congregar os ódios, insensatos que sois! E este ódio, este rancor, ha de subverter-vos!...

O guarda agarrou-a pela garganta e entrou a apertar-lh’a cada vez com mais violenta pressão.

N’um estertor, balbuciou:

—Os desgraçados...

Respondeu-lhe alguem com prolongado soluço.

FIM

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