PARTE PRIMEIRA, QUE CONTEM A ANALYSIS DAS CORES.
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Contemplando o magestoso espectaculo do Universo, nos presentaõ os corpos naturaes huma maravilhoza, e quasi incomprehensivel variedade, e mixtura de differentes Cores[10]. Entre estas porem se destinguem positivamente seis, a saber: o Negro, o Vermelho, o Azul, o Verde, o Amarello e o Branco, com as quaes, todas as outras Cores deixaõ entrever alguma affinidade. Eu fiz abstracçaõ de todas estas, tomando somente aquellas seis mais positivas, claras, e distinctas por objecto da minha analysis, a que procedi no seguinte modo.
§ 15. Deixando a Cor branca, como desnecessaria, segundo o genero das minhas experiencias, dissolvi em cinco conchas as seguintes Cores[11]: Tinta da China, Carmim, Azul de Prussia, Verde-destilado e Gomma-gutta, e levando-as todas ao mesmo gráo de força, formei as cinco Cores, que com a Branca geralmente dominaõ no quadro do Universo. Puz em cada huma das conchas hum pincel fino; tomei outro, e huma palheta de marfim; e com este simplez apparato procedi ás experiencias.
§ 16. Meti sobre a palheta, com os respectivos pinceis, huma gotta de cadahuma das refferidas tintas, e mixturando-as docemente, fui observando, que passavaõ por degráos insensiveis a Cores mui differentes; e quando as mixturei bem todas, vi sobre a palheta huma Cor muito escura, tirando quasi nada para Vermelho Tab. I. n.º 1.[12].
§ 17. Repeti esta experiencia só com as ultimas quatro Cores, sem mixturar a Tinta da China; e da sua uniaõ me resultou huma Cor neutra, muito escura, e da mesma especie do Nankim, que naõ he muito carregado Tab. I. n.º 2.
§ 18. Este phenomeno me fez lembrar, que assim como a Cor negra era o resultado da uniaõ das quatro Cores, devia naturalmente da divisaõ das mesmas Cores, resultar a Cor branca.
§ 19. Sem excluir a Cor negra, formei a Tab. IV., que me deu quatro Cores mixtas n.º 1. 2. 3. 4., em que dominava o Vermelho; quatro outras n.º 5. 6. 8. 10. em que dominava o Verde; e duas n.º 7. 9. çujas, e faltas de energia. Exclui as do n.º 7. 9., como passivas, e com as outros formei a Tab. XIV. e tirando resultados de resultados, achei, á oitava combinaçaõ, a Cor branca, que procurava, taõ clara como o mesmo papel, em que fazia a prova. Por meyo destas duas experiencias, achei os dous Principios seguintes.
PRIMEIRO PRINCIPIO.
§ 20. O Negro he huma Cor positiva, na qual o Vermelho, o Azul, o Verde, e o Amarello se achaõ intimamente unidos, e em quantidades quasi iguaes.
SEGUNDO PRINCIPIO.
§ 21. O Branco he huma Cor igualmente positiva, onde o Vermelho, o Azul, o Verde, e o Amarello se achaõ extremamente divididos, athe o ponto de se fazerem invisiveis[13].
§ 22. No contemplar a Tab. VI. observei, que da reciproca mixtura das sinco Cores, de que se compoem, resultava do n.º 1. 2. 4., huma Cor mixta, onde reynava o Vermelho; do n.º 5. 6. 8. 10. resultavaõ Cores, em que predominava o Verde; do n.º 7. 9. resultavaõ Cores pardas ou çujas; e que finalmente do n.º 3. onde o Vermelho, e Verde se achaõ combinados em differentes proporçoens, resultava a mesma Cor escura, ou a mesma especie de negro, que tinha resultado da mixtura do Vermelho, Azul, Verde, e Amarello Tab. I. n. 2.[14].
§ 23. Este phenomeno me fez ver, que as quatro Cores Tab. I. n.º 2., e as duas Tab. VI. n.º 3, e ainda as das Tab. VIII. X. XII, no mesmo numero, importavaõ a mesma cousa; isto he, que o Vermelho, e Verde combinados em certas proporçoens, valem tanto como o Vermelho, o Azul, o Verde, e o Amarello; ou que no Vermelho, e Verde se contem as outras duas Cores. E reflectindo em que nas Tab. II. III. IV. V. VII. IX. XI, nas quaes em differentes proporçoens, se achaõ combinadas as sinco Cores, se descobrem sempre quatro numeros, em que domina o Vermelho, e saõ, o n.º 1. 2. 3. 4. e outros quatro em que domina o Verde, a saber, o n.º 5. 6. 8. 10. e que o Azul, e Amarello cedem sempre ao Vermelho, e Verde; e quando se combinaõ com o Negro, em diversas proporçoens, ou se confundem inteiramente com elle, ou recebem huma sombra, que as escurece sensivelmente, sem que jamais produzaõ huma terceira Cor: esta reflexaõ, digo, me suscitou outro Principio.
TERCEIRO PRINCIPIO.
§ 24. O Vermelho, e Verde saõ as Cores primitivas, e dominantes na Natureza: e o Azul, e Amarello naõ saõ que puras modificaçoens destas duas.
§ 25. Fiz todas as combinaçoens possiveis do Vermelho, e Verde, e naõ pude achar hum Azul, e Amarello igual ao de que me servia nas experiencias. Interrompias por algum tempo, e fui estudar no grande livro da Natureza[15], onde se podia achar a resoluçaõ destes problemas.
§ 26. Este vastissimo imperio, nos seus differentes reynos, me presentou duas analogias, que adiantáraõ a minha indagaçaõ. Vi que no reyno animal, dominava a Cor vermelha. O sangue dos animaes, e a carne em que elle se acha espalhado, me confirmáraõ em que o Vermelho he huma Cor universal, e primitiva. Vi igualmente que, o Verde coloria todo o reyno vegetal, o que me convenceo tambem, de que o Verde era huma Cor primitiva, e universal.
§ 27. Occorreu-me, que a carne dos animaes quando he contundida, ou passa a maceraçaõ, passa tambem da Cor vermelha á azul. Lembrou-me logo, que a mesma tinta azul das minhas experiencias, que era Azul de Prussia, se fazia de sangue de boi, ou de qualquer outro animal. Poucos dias antes eu tinha reiterado as observaçoens de M. de Buffon, ácerca da sombra da luz do Sol, tincta com a Cor da Aurora, e achei, que a sombra de huma palheta de marfim, de duas pollegadas de largo, sobre hum papel branco, era sempre azul, pondo a palheta, pouco mais ou menos, a hum pé de distancia do papel; e chegando-a quasi ao papel, achei entaõ sempre escura a sua sombra; o que naõ podia resultar senaõ da refracçaõ da luz vermelha do sol, que coloria a sombra de azul. Esta observaçaõ me produsio o Principio seguinte[16].
QUARTO PRINCIPIO.
§ 28. A Cor azul naõ he primitiva, mas sim gerada pelas modificaçoens, que recebe a Cor vermelha pela refracçaõ da luz, ou mixtura de outras substancias.
§ 29. Fiz a mesma especulaçaõ com a Cor verde, e achei, que todos os vegetaes, no estado da sua perfeiçaõ, nos presentaõ universalmente esta agradavel Cor; mas que geralmente todos os vegetaes, com as suas folhas, fructos, sementes &c. na sua decadencia, passaõ da Cor verde á amarella. Occorreu-me tambem, que a Cor amarella das minhas experiencias, era a gomma de huma arvore; e consequentemente naõ vinha a ser que hum Verde degenerado. Esta reflexaõ me deu outro Principio[17].
QUINTO PRINCIPIO
§ 30. A Cor amarella naõ he originaria, ou primitiva; mas sim secundaria, e derivada da Verde[18].
§ 31. Fiz muitas outras experiencias, combinando em differentes proporçoens, todas as sinco Cores; e de todas estas combinaçoens naõ resultou cousa alguma, que podesse formar principios, ou destruir os que ficaõ estabelecidos. As combinaçoens de cinco, ou quatro Cores, tomando quatro ou tres por primeiro termo, e combinando-as em proporção de ½, me deraõ resultados quasi similhantes; isto he, huma Cor escura, algumas vezes insensivelmente affectada de Vermelho, ou Verde; e por isso as regeitei todas. A combinaçaõ de tres Cores, tomando duas por primeiro termo, e comparando-as com a outra, me deu as Cores que constaõ da Tab. II, e III. A Tab. IIII, e seguintes me deraõ huma grande variedade de Cores, todas bastantemente fortes, e capazes de serem empregadas como Cores locaes.
§ 32. Era inutil passar adiante; por que já na Tab. XI., que he feita em proporçaõ de ⅕, os resultados saõ quasi iguaes ao primeiro termo dos antecedentes: e a Tab. XII. he quasi igual ás Tab. VI. e VIII. E se se fizessem outras Taboas em proporção de ⅟7 e ⅛ parte, em humas seriaõ os resultados quasi iguaes a os elementos; e nas outras coincidiriaõ os resultados com os da Tab. IIII.; pelo que era inutil o passar adiante. E como destas ultimas experiencias nada mais resultava, que a composiçaõ de diversas Cores, eu vi bem que a minha analysis degenerava em synthesis, e que consequentemente era tempo de passar á Segunda Parte.