NOTA IX. §. 14.
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NOTA IX. §. 14.
Luis de Camoens no seu incomparavel Poema, OS LUSIADAS, descrevendo a vista da Ilha Namorada, que Venus presentou a os seus Heroes, pinta o mais bello quadro, que se póde ver sobre a Terra.
LIII.
. . . . . . . . . Para lá logo a proa o mar abrio; Onde a costa fazia huma enceáda Curva, e quieta, cuja branca arèa, Pintou de ruivas conchas Cytherèa.
LIIII.
Tres fermosos outeiros se mostravão Erguidos com soberba graciosa, Que de gramineo esmalte se adornavão Na formosa Ilha alegre, e deleitosa: Claras fontes e liquidas manávaõ Do cume, que a verdura tem viçosa; Por entre pedras alvas se diriva, A sonorosa lympha fugitiva.
LV.
Num valle ameno, que os outeiro fende, Vinhaõ as claras agoas ajuntarse, Onde huma mesa fazem, que se estende Tão bella, quanto póde imaginarse: Arvoredo gentil sobre ella pende, Como que prompto está para enfeitar-se, Vendo-se no cristal resplandecente, Que em fim o está pintãdo propriamente.
LVI.
Mil arvores estaõ ao Ceo subindo Com pomos odoriferos, e bellos, A larangeira tem no fruto lindo A Cor, que tinha Daphne nos cabellos: Encostase no chaõ, que estâ cahindo A cidreira cos pesos amarellos, Os fermosos limoẽs, alli cheirando, Estaõ virgineas tetas imitando.
LVII.
As arvores agrestes, que os outeiros Tem com frondente coma ennobrecidos, Alamos saõ de Alcides, e os loureiros Do louro Deos amados, e queridos: Mirtos de Cytherêa cos pinheiros De Cybele, por outro amor vencidos, Está apontando o agudo cypariso Para onde he posto o eterno Paraiso.
LVIII.
Os doens, que dá Pomòna, alli Natura Produze differentes nos sabores, Sem ter necessidade de cultura, Que sem ella se daõ muito melhores: As cerejas purpureas na pintura, As amoras, que o nome tem de amores, O pomo, que da patria Persia veyo, Melhor tornando no terreno alheyo.
LIX.
Abre a Romãa, mostrando a rubicunda Cor, com que tu Ruby teu preço perdes, Entre os braços do ulmeiro estâ a jucunda Vide cũs cachos roxos, e outros verdes: E vós se na vossa arvore fecunda, Peras piramidais, viver quiserdes, Entregaivos ao dano, que cos bicos Em vós fazem os passaros iniquos.
LX.
Pois a tapessaria bella e fina, Com que se cobre o rustico terreno, Faz ser a de Achemenia menos dina, Mas o sombrio valle mais ameno: Alli a cabeça a flor Cefisia inclina, Sobolo tanque lucido, e sereno, Florece o filho, e neto de Cyniras, Porquem tu Deosa Pafia, inda suspiras.
LXI.
Para julgar dificil cousa fora, No Ceo vẽdo, e na terra as mesmas Cores Se dava às flores cor a bella Aurora, Ou se lha daõ a ella as bellas flores: Pintando estava alli Zefiro e Flora As violas da Cor dos amadores, O lirio roxo, a fresca rosa bella, Qual reluze nas faces da donzella.
LXII.
A candida Cecem das matutinas Lagrimas rociada, e a Manjarona; Vem se as letras nas flores Hyacintinas, Taõ queridas do filho de Latona: Bem se enxerga nos pomos e boninas, Que competia Cloris com Pomona; Pois se as aves no ar cantando voaõ, Alegres animaes o chaõ povoão.
LXIII.
Ao longo da agoa o niveo Cisne canta, Responde lhe do ramo Filomella, Da sombra de seus cornos naõ se espanta, Acteon n'agoa cristalina, e bella: Aqui a fugace Lebre se levanta Da espessa mata, ou timida Gazella, Alli no bico traz ao caro ninho O mantimento o leve passarinho.
Canto 9.