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Tratado das Cores

NOTA VII § 9.

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NOTA VII § 9.

Dos numeros, que na presente Nota se acharem entre (), os que forem precedidos do sinal §. se referem ao Tratado: e os que tiverem antes de si hum n. indicaõ os numeros desta mesma Nota.

Como a Doutrina de Newton sobre as Cores he principalmente fundada nas experiencias do Prisma, e estas dependem da combinaçaõ da Luz com os Corpos naturaes: faz-se indespensavel, para comparar os Principios, que presenta este Tratado com as Proposiçoens do Philosopho Inglez, o dizer preventivamente alguma cousa a respeito da quellas duas substancias, e dos phenomenos, que resultaõ da sua combinaçaõ, por meyo das prismaticas experiencias.

Da Luz.

2. A Luz consiste em pequenissimas partes de materia, que de hum corpo lucido, sahem em todas as direcçoens. Segundo o calculo do Dr. Niewentit, em hum segundo de tempo, sahem 418, 660, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000 partes de Luz de huma vela accesa; o qual numero contem, ao menos, 6, 337, 242, 000, 000 vezes, o numero de grãos de area, que conteria toda a Terra, suppondo, que cem grãos de area saõ iguaes à huma polgada de comprido, e que consequentemente, cada polgada cubica da Terra conteria hum milhaõ dos ditos grãos.

3. Se a Luz he taõ admiravel pela sua subtileza, naõ o he menos pela sua velocidade. Em hum segundo de tempo, ella corre 164 mil milhas, ou 50 mil legoas; vindo a ser desta sorte 1, 230, 000 vezes mais ligeira que huma bala de artelharia, que corre 600 pes, em hum minuto segundo: o que he innegavelmente certo, pelas observaçoens dos Satellites de Jupiter, feitas das duas oppostas extremidades do Orbito da Terra.

4. Quando as pequenas partes, de que se compoem a Luz, sahem de hum corpo luminoso, como o Sol, ou huma vela accesa, se propagaõ sempre em linha direita: o que se prova evidentemente do constante facto, que os corpos lucidos deixaõ de ser visiveis, pela interposiçaõ dos corpos opacos; como as Estrelas fixas, pela interposiçaõ da Lua, e dos Planetas; e o Sol em todo, ou em parte, pela interposiçaõ da Lua, de Mercurio, e de Venus.

5. Os rayos da Luz naõ só se propagaõ em linha direita, mas se encrusaõ huns pelos outros, sem que se confundaõ. Se em huma lamina subtil, de qual quer materia opaca, fazemos hum buraco, que naõ seja mayor, que hum ponto, e por elle observamos de noute os Ceos, vemos huma multidaõ de Estrellas, cujos rayos de Luz, sem confusaõ alguma, se crusaõ todos no buraco, por onde os observamos: o que demonstrativamente prova esta asserçaõ.

6. Aquella ley he innalteravel, quando a Luz passa por hum meyo de igual densidade; mas quando a Luz atravessa hum meyo, de huma densidade differente da quella, donde partio, neste caso se rompe ou quebra, avisinhando-se mais, ou menos, da perpendicular.

7. Os Rayos da Luz cahindo obliquamente de hum meyo mais raro, ou mais diaphano, sobre outro mais denso, ou menos transparente, como do Ar sobre o crystal, se avisinhaõ da perpendicular, tirada do ponto da incidencia, à angulos direitos, sobre a superficie do meyo mais denso; a qual se chama superficie rompente. Se, ao contrario, o rayo passa de hum meyo mais denso a hum, que o he menos, como do crystal a o Ar, no romper-se, se affasta da perpendicular. A primeira refracçaõ, chama-se refracçaõ á perpendicular; e a segunda, refracçaõ da perpendicular.

8. Quanto mais obliquamente os rayos da Lux cahem sobre qualquer meyo, tanto mayor he a refracçaõ. Assim a refracçaõ da Luz do Sol, a o nascer, ou ao por-se, he a mayor; por que ella fere mais obliquamente a superficie da atmosphera da Terra: e á proporçaõ que o Sol se eleva sobre o horisonte, diminue a obliquidade, e a refracçaõ, athe que no ponto culminante deste Astro, se reduzem à nada; como se prova pelas Taboas das refracçoens do Sol, da Lua, e das Estrellas, calculadas pelos melhores Geometras. He quanto basta à respeito da Luz.

Dos Corpos.

9. Sendo a verdadeira essencia dos Corpos absolutamente desconhecida, naõ se póde dar huma justa definiçaõ daquillo, que se chama Corpo. E como agora se naõ falla dos Corpos, que relativamente á luz, e a o sentido da vista, póde chamar-se Corpo tudo aquillo, que he capaz de ser illuminado pela Luz, e visto com os nossos olhos.

10. Os Corpos, assim considerados, devem ser tidos como hum aggregado de minutissimas partes de materia, e mesmo divisiveis ao infinito. Se consideramos, de huma parte, huma esphera de materia solida, que toque com o equator as duas Estrellas Anthares, e Aldebaram; e com os polos, no Norte, o Dragao, e a Dourada, no Sul: he indubitavel, que, por calculo, se póde redusir esta immensa esphera a partes taõ pequenas, como hum graõ de area. Se, de outra parte, consideramos huma esphera, que naõ tenha, que meyo pé de diametro, he igualmente indubitavel, que o calculo da primeira esphera se póde applicar á segunda; da mesma sorte que a escala, de huma carta de navegaçaõ, mede huma grande parte do Oceano; ou, que huma esphera armilar, de meyo pé de diametro, representa todo o systema do Mundo. Ora como as partes, que correspondem á ultima divisaõ da pequena esphera, haõ de ser a hum grão de area, na mesma proporçaõ, em que meyo pé está a o diametro da grande esphera; o qual he taõ grande, que segundo as observaçoens, e calculos de Bradley, huma bala de artilheria, a razaõ de 600 pés por segundo, de duas legoas por minuto, de 120 legoas per hora, de 2880 legoas por dia, e de 1,051,200 legoas por anno, deve gastar 2,000,000,000,000, de annos para o correr: segue-se, que as partes, que correspondem á ultima divisaõ da pequena esphera, saõ de tal pequenez, que naõ basta toda a força do entendimento humano, para as comprehender. Mas eu deixo estes calculos abstractos, aindaque exactissimos, para fazer ver athe onde póde chegar a physica divisaõ da materia.

11. Hum fio de seda, de 300 pés de comprido, naõ pesa mais de hum grão: ora, huma polgada he divisivel em 600 partes visiveis, sendo cadahuma dellas da subtileza de hum cabello finissimo; logo hum fio de seda, que naõ pesa mais que hum grão, pode physicamente dividir-se em 2,592,000 visiveis partes.

12. O ouro he o mais ductivel e maleavel de todos os metaes. De hum grão de ouro tem-se feito hum fio de 500 pés de comprido, o qual physicamente se podia dividir em partes visiveis 3,600,000.

13. Hum grão de Anil, ou de Azul de Prussia, he divisivel, por experiencias incontestaveis, em 24,788,000,000 partes, todas claramente visiveis.

14. Segundo o calculo de Niewentyt, a Eolipila resolve, pela actividade do fogo, huma onça de agoa, em mais de 13,365,000,000 partes. Basta isto, para dar huma justa idea da divisibilidade da materia, e para fazer conhecer, que qualquer corpo se compoem de minutissimas partes, que entresi coherem por huma ley da Natureza, ou por hum admiravel, e occulto mechanismo, que as theorias mais reflexivas naõ tem pódido athegora descobrir.

Da Luz, e dos Corpos, considerados juntamente.

15. Quanto, pois, á materia de que se trata, podem todos os Corpos ser divididos em lucidos, e opacos. O Sol, as Estrellas fixas, a Luz de huma vela &c., pertencem a os primeiros; a Terra, todos os Planetas, e qualquer producçaõ dos tres reynos da Natureza, pertencem a os segundos.

16. Os Corpos lucidos podemos considerallos, como outros tantos centros de immensas espheras de Luz; pois que a propagaõ em todas os direcçoens. O Sol he igualmente visivel, das duas oppostas extremidades, do vastissimo Orbito de Herschel; e o fanal de hum navio he igualmente visto, de todos os que o circundaõ sobre a linha do horisonte. A Luz, encontrando na esphera da sua actividade hum Corpo opaco, he por elle reflectida à os nossos olhos, e excita em nós a idea desse Corpo, formando-nos a sua pintura na retina. E como os Corpos saõ visiveis de todas as partes, a Luz deve ser reflectida por elles em todas as direcçoens. Assim os Corpos opacos tambem se devem ter, como huns centros de Luz reflectida, que delles se propaga em todas as direcçoens, que os mesmos Corpos saõ visiveis.

17. Mas, dos Corpos lucidos à os opacos, ha huma consideravel differença, a qual consiste, em que os primeiros naõ tem sombra alguma de si mesmos, sendo os centros absolutos de outras tantas espheras de Luz propria, que delles parte ao mesmo tempo: em lugar que os segundos, naõ sendo, que centros parciaes de huma Luz precaria, a reflectem só de huma parte da sua massa, proporcionadamente á incidencia dos rayos de Luz, que recebem dos Corpos lucidos; ficando a outra parte obscurecida com a sua propria sombra.

18. Tal he o caso de Mercurio, de Venus, e da Lua, na sua opposiçaõ, ou na sua conjunçaõ com o Sol. No primeiro caso, estes Planetas nos reflectem a Luz, que recebem do grande Luminar, e nos deixaõ ver ametade da sua massa illuminada. No segundo caso, porem, interceptando a Luz do Sol, nos presentaõ a parte obscurecida, com a sua propria sombra, a qual se distingue bem, quanto a Mercurio, e Venus, quando passaõ pelo disco do Sol; e quanto á Lua, ou poucos dias antes, e depois da sua conjunçaõ, ou quando nos eclipsa a Luz do Sol. Mas basta de preliminares; passemos ao nosso Ponto.

Dos Prismas, e das Prismaticas experiencias.

19. Quando as pequenas partes, de que a Luz se compoem (n. 2), cahem sobre qualquer Corpo opaco, e saõ por elle reflectidas a os nossos olhos, naõ só nos excitaõ a idea da figura desse Corpo, dessenhando-no-la na retina (n. 16); mas tambem no-la-pintaõ, com huma quasi incomprehensivel, e harmonica variedade de bellissimas, e differentes Cores. Mas, de todas estas, as mais vivas, e resplandecentes saõ, as que nos offerecem as experiencias do Prisma.

20. Prisma, geometricamente fallando, he hum solido, do qual duas faces oppostas saõ dous planos iguaes, e parallelos, sendo todas as outras faces parallelogrammos. Chama-se Πρισμα, Prisma, do verbo Grego Πριω, que significa serrar, ou cortar: e effectivamente o Prisma he huma figura truncada, que parece o segmento de outro Corpo. Porem, relativamente á Luz, e ás Cores, o Prisma he hum instrumento triangular, de grandeza indefinida, e de huma materia diaphana, pelo qual se observa, ou hum Ponto lucido, em hum ambiente escuro; ou hum Ponto escuro em hum ambiente lucido.

21. Estes Prismas saõ, ordinariamente, feitos de crystal branco; mas como he dificil o achallos desta materia, bastantemente grandes para se fazerem as experiencias, podem se os mesmos compor de vidros brancos, lizos, e delgados, unindo-lhes as junturas com betume, e enchendo-os de agoa pura, ou colorida, segundo o genero das experiencias, que se quiserem fazer.

22. Eu os fiz construir de todas as figuras, e com angulos de 10 gráos athe 90, mas a experiencia me mostrou, que os melhores Prismas, para observar, saõ os triangulares equilatros. Os de 45 gráos, ainda saõ bons. Os de angulos menores, naõ mostraõ bem as Cores: e os que excedem 60 gráos, ainda que mostraõ as Cores mui vivas, e fortes, desfiguraõ os objectos, curvando muito todas as linhas direitas.

23. Os Prismas, com que fiz as minhas experiencias, eraõ feitos de vidros brancos, lizos, e delgados, unidos com betume de cera, e resina; e da figura, grandeza, e cor seguinte.

Primeiro. Equilatro triangular, de 6 polgadas de comprido; e os parallelogrammos, de duas de largo; cheyo de agoa crystalina.

Segundo. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Carmim.

Terceiro. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Azul de Prussia.

Quarto. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Verde distillado.

Quinto. Da mesma figura e grandeza; cheyo de tintura de Açafraõ, que substitui á Gomma-Gutta, por esta dar huma tintura muito opaca, que naõ deixava passar os rayos da Luz.

Sexto. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Nankim.

Settimo. Hum parallelipipedo rectangulo, de duas polgadas de base, e seis de alto; cheyo de agoa pura.

Taes eraõ os Prismas com que procedi ás seguintes experiencias.

Experiencias do Prisma, feitas sobre hum Ponto lucido, circundádo de hum ambiente escuro.

24. Como, de todos os pontos lucidos, circumdados de hum ambiente escuro, os mais brilhantes saõ as Estrellas fixas, he por ellas que eu principiei as minhas experiencias. Regulus, Castor, a α do Cocheiro, Procyon, Cyrius, Rigel, a α de Orion, e Aldebaram, eraõ à o mesmo tempo visiveis, quando eu as observei, pelos seis primeiros Prismas (n. 23). O Prisma acromatico, por este entendo sempre o que he cheyo de agoa crystalina, fazia ver cadahuma destas Estrellas, como huma piramide de Luz, da qual a base era vermelha, e o resto verde. Com os Prismas coloridos, se alteravaõ alguma cousa estas duas Cores, fazendo-se mais, ou menos escuras; mas naõ se destruiaõ. O Prisma amarello naõ as alterava, mas antes as reforçava mais, que o branco.

25. A longitude geocentrica de Jupiter era, neste tempo, de 2 S. 24 G. e alguns minutos; e a de Marte, de 3 S. e quasi 27 G. consequentemente eraõ ambos visiveis, com as sobreditas Estrellas; achando-se o primeiro na constellaçaõ de Gemini; e o segundo na de Cancer. Observei pelos mesmos Prismas estes dous Planetas, e me deraõ as mesmas figuras, e as mesmas Cores, que as Estrellas fixas.

26. A lua, no tempo da sua opposiçaõ, vista pelo Prisma acromatico, se reduz a huma figura oblonga, que termina mais em ponta, de huma parte, que da outra; e deixa ver cinco Cores na ordem seguinte: Vermelho, Amarello, Verde, Azul, e Purpura. Exceptuado o Prisma amarello, todos os outros coloridos, alterando mais, ou menos estas Cores, as conservaõ todas; mas, o Prisma amarello, reforçando a Verde, e a Vermelha, destroe todas as outras.

27. Feitas estas mesmas experiencias sobre a Luz de huma vela, ou sobre hum pequeno circulo branco, de qualquer materia, posto sobre hum fundo escuro, como hum chapeo, ou qualquer seda, ou pano negro, se vem os mesmos resultados, que nos numeros precedentes: e assim qualquer outra experiencia que se faça, neste genero, será huma pura repetiçaõ das que ficaõ referidas.

Experiencias do Prisma, feitas sobre hum Ponto escuro, circundado de hum ambiente lucido.

28. Se, no meyo de huma janella aberta, se suspende huma pequena esphera, de qual quer materia opaca, observando-se da parte da sombra, a huma proporcionada distancia, com o Prisma acromatico, entaõ se ve huma figura oblonga, apparentemente diaphana, e colorida, de baixo em alto, na ordem que se segue: Amarello, Vermelho, Azul escuro, algum reflexo de Purpura, e Verde, que saõ, justamente, as mesmas Cores (n. 26. 27.), com a differença, de se mostrarem em huma ordem diversa. Se esta experiencia se faz com o Prisma amarello, todas estas Cores se reduzem a Vermelho, e Verde; occupando o Vermelho a parte inferior da esphera, e o Verde a superior: o que he bem o contrario, do que succede nas experiencias do Ponto lucido, em hum ambiente escuro.

29. Se, sobre huma folha de papel branco, pomos hum circulo de seda negra, ou de qual quer outra cousa da mesma Cor, vemos o mesmo phenomeno (n. 28), que he sempre inaltaravel em similhantes circumstancias.

Outras Experiencias do Prisma.

30. Se observamos, pelo Prisma acromatico as nuvens, que em differentes formas, cobrem o Ceo, da parte do horisonte, à o nascer, ou à o pòr do Sol, vemos, que as pequenas nuvens brancas nos presentaõ somente a Cor Vermelha, e Verde: a primeira, da parte donde recebem a Luz; e a Verde da parte opposta. As nuvens densas, e escuras, nos presentaõ da parte donde recebem a Luz, a Cor amarella e vermelha; e da parte opposta, as Cores azul, e verde; e em certas circunstancias, a Cor de Purpura: e quando as nuvens, assim coloridas, passaõ humas pelas outras, levadas por diversas correntes de ar, entaõ vemos, que as suas Cores se mixturaõ, e formaõ outras Cores diversas. Se giramos o Prisma, de sorte que os rayos da Luz cáhiaõ mais obliquamente sobre a sua face, que primeiro os recebia quasi perpendiculares, todas aquellas Cores se vaõ incorporando humas nas outras, e finalmente se reduzem a huma faxa de Cor mui forte, da qual ametade he vermelha, e a outra parte verde.

31. No ver huma Cidade illuminada, pela Luz do Sol, succede o mesmo. Os profis, dos edificios illuminados apparecem vermelhos, e amarellos; e os da parte da sombra, apparecem azues, e verdes, com algum reflexo de Purpura: mas girando o Prisma, como na experiencia (n. 30) todas estas Cores, e as que se tivessem composto da sua mixtura, se reduzem a duas, Vermelho, e Verde. O mesmo succede, se fazemos naturalmente a observaçaõ com o Prisma amarello. Obtem-se este mesmo resultado, observando da mesma sorte, de dentro de huma camara, as vidraças, as persiannas, ou a luz, que entra irregularmente pelas janellas mal fechadas.

32. A linha do horizonte, no mar, observada com o Prisma acromatico, se ve sempre de hum Verde mais, ou menos carregado, segundo os differentes reflexos da Luz, e o estado da superficie da agoa. As ondas mostraõ sempre a Cor Vermelha, e Verde; e o mesmo succede ás velas dos navios, e principalmente das pequenas embarcaçoens.

33. Fazendo, de hum terraço elevado, diversas observaçoens sobre as Cores, vi casualmente ao pòr do Sol, que as velas de hum moinho de vento, que me ficava à poente, pareciaõ compostas, ao comprido, de dous panos, hum vermelho, e outro verde, quando ellas estavaõ horizontalmente situadas. Quando, porem, se avisinhavaõ da perpendicular, começavaõ estas duas Cores a confundir-se, de sorte que, justamente na perpendicular, se resolviaõ em huma especie de nuvem, ou sombra muito escura, a qual se desvanecia á proporçaõ, que as velas se avisinhavaõ utraves da linha horizontal; em cuja situaçaõ recuperavaõ as duas primeiras Cores, e na mesma ordem, sempre inalteravel i. e. o Vermelho na parte inferior, e o Verde na superior.

34. Tambem outra casuàlidade me fez, em hum dia de vento fresco, encontrar com o Prisma, huma destas bandeiras, que em la se costumaõ pendurar nas ruas, para indicar festas mais solemnes. O vento a movia em todas as direcçoens; e muitas vezes a tinha suspensa horizontalmente. Vendo-a pelo Prisma nesta situaçaõ, parecia huma larga fita, ametade vermelha, e a outra ametade verde, e quando ondeava irregularmente, entaõ se via nascer destas duas Cores muitas outras que desapareciaõ todas, quando a bandeira tornava á situaçaõ horizontal: e neste caso se recolhia ás duas, de que se tinhaõ formado.

35. Se, em hum quarto de papel branco, colamos hum circulo de seda negra, de tafetá, por exemplo, e se, em hum pedaço de tafetá, desta mesma Cor, colamos hum circulo de papel branco, da mesma grandeza do primeiro; e pomos estas duas figuras, de sorte que os dous circulos fiquem em justa posiçaõ, hum ao lado do outro, e como comprehendidos entre duas parallelas: observando-os, pelo Prisma acromatico, os vemos coloridos com as mesmas Cores; mas em huma ordem diametralmente opposta. O circulo branco mostra, na sua peripheria superior, as Cores vermelha, e amarella; e na inferior hum Verde claro, pouco Azul, e hum quasi imperceptivel reflexo de Purpura. O circulo negro, porem, mostrando estas mesmas Cores, as faz ver em huma ordem toda opposta, isto he, o Vermelho, e Amarello na peripheria inferior; e as outras Cores, na superior.

36. Todas as experiencias feitas com o Prisma, sobre hum rayo de Luz do Sol, introdusido em huma camera escura, se redusem ás experiencias (n. 24. 25. 26. 27.), isto he, a observar hum Ponto lucido, em hum ambiente escuro. Este rayo de Luz, se se recebe em hum cartaõ branco, forma neste hum circulo mui claro, rodeado de hum ambiente escuro, correspondendo justamente a obscuridade da camera à o azul escuro dos Ceos, nas observaçoens das Estrellas, e dos Planetas (n. 24. 25.). Se observamos, pelo Prisma acromatico, este circulo de Luz, o vemos colorido da mesma sorte, e com as mesmas Cores, que elle se pinta no cartaõ, quando tem passado à o traves do Prisma; de sorte que tanto vale observar, pelo Prisma, o rayo de Luz, que sobre o cartaõ he branco, como ver sobre o cartaõ o rayo de Luz colorido, depois de ter passado pelo Prisma.

37. No que respeita á figura oblonga, formada da incidencia de muitos circulos, na qual se pretendem achar as sete Cores chamadas primitivas, deve reflectir-se, que esta figura naõ he que huma pura illusaõ. Ella se compoem indubitavelmente, de muitos circulos coloridos com as cinco Cores, que resultaõ da experiencia (n. 26. 27.), os quaes circulos cahindo huns sobre os outros, mixturaõ aquellas cinco Cores, e formaõ quantidade de outras compostas, entre as quaes se pertendem destinguir aquellas, que se chamaõ primitivas.

38. Tanto he isto assim, que, se applicamos ao tubo, que intreduz o rayo do Sol, huma lamina subtil, de qualquer materia opaca, na qual se tenhaõ feito cinco, ou seis pequeninos buracos, que naõ distem huns dos outros mais de oito pontos, ou huma linha; e fazemos passar estes rayosinhos de Luz pelo Prisma acromatico: entaõ vemos, à huma proporcionada distancia, sobre o cartaõ, outras tantas figuras coloridas, da mesma sorte, e na mesma ordem, que se ve hum so rayo mayor de Luz do Sol (n. 36.). Mas se affastamos, pouco a pouco, o cartaõ, aquellas figuras se avisinhaõ, cadavez mais, humas das outras; atheque, finalmente, se mixturaõ, formando huma figura oblonga, comprehendida entre duas parallelas, e circular nas duas extremidades; aqual figura he absolutamente similhante, á que forma hum rayo mais forte de Luz do Sol, quando se recebe obliquamente na face de hum Prisma. Ora as Cores que resultaõ da mixtura dos, cinco ou sete pequenos rayos de Luz, saõ indubitavelmente compostas: logo as que se vem na figura oblonga, que resulta de hum so rayo de Luz, a qual tamben he composta de circulos coloridos, mixturados huns com os outros, saõ da mesma natureza, e consequentemente naõ se podem chamar primitivas.

39. Se observamos, com o Prisma amarello, todas as experiencias, que na camera escura, se fazem com os rayos do Sol, naõ vemos senaõ a Cor vermelha, e verde: e se fazemos as mesmas experiencias com este Prisma, todas as figuras conservaõ as mesmas formas, que lhes dá o Prisma acromatico; mas naõ mostraõ senaõ as Cores vermelha, e verde.

40. Se em huma camera, em que naõ entre Luz alguma erratica, se faz entrar hum subtilissimo rayo da Luz do Sol, e tendo passado pelo Prisma, o recebemos em hum cartaõ branco, bem perto do tubo por onde entra, entaõ naõ vemos, que hum circulo luminosissimo, sem Cor alguma. Se affastamos mais o cartaõ, vemos este circulo menos luminoso, mas colorido. E se finalmente pomos o cartaõ em grande distancia, vemos hum circulo obscuro sem Cor alguma.

41. Fora da camara obscura, succedem os mesmos phenomenos. Se observamos o Sol, pelo Prisma, naõ vemos que hum circulo de Luz muito clara, sem Cor alguma. Se observamos da mesma sorte huma Estrella da primeira grandeza, ou hum Planeta, vemos huma figura colorida. Se finalmente olhamos pello Prisma para huma Estrella da segunda, ou terceira grandeza, naõ vemos que hum circulo obscuro, sem Cor alguma. Athequi as experiencias do Prisma.

Principios, que resultaõ das experiencias Prismaticas.

42. Todos os conhecimentos physicos se versaõ, ou sobre factos particulares, ou sobre leys geraes. O conhecimento dos factos, precede sempre o das leys, as quaes saõ meros resultados das observaçoens, do que ordinariamente acontece, em hum grande numero de casos particulares; e que depois servem de norma, para decidir outros casos da mesma natureza. Assim, das observaçoens feitas sobre o movimento projectil dos Corpos, em linha direita, e do universal poder da attracçaõ, que os tira desta linha, se formaraõ as leys, que applicadas a os Planetas, fizeraõ conhecer o seu curvilineo movimento. Quando as leys geraes servem, para explicar casos particulares, chamaõ-se entaõ Principios.

43. He com este nome, que se achaõ caracterisadas todas as leys physicas, que resultaõ das experiencias sobre as Cores, e fazem a materia da Primeira, e Segunda Parte do Tratado: e he com este mesmo nome, que eu vou designar as leys, que resultaõ das experiencias Prismaticas, que acabo de referir nesta Nota.

PRIMEIRO PRINCIPIO.

44. As Cores se manifestaõ, e se formaõ, por meyo da refracçaõ da Luz.

Escholio.

45. Se na camara obscura, se faz passar hum rayo de Luz, pelo Set. Prisma (n. 23.), nem a refracçaõ he sensivel, nem se ve Cor alguma. Se se faz passar o mesmo rayo de Luz, por hum angulo de 10 gráos, ja he sensivel a refracçaõ, e a Cor. Hum angulo de 30 gráos, refracte mais a Luz, e dá mais Cor. E finalmente, hum angulo de 60 gráos, dá huma grandissima refracçaõ, e as Cores muito vivas. E como as Cores nascem com a refracçaõ, e augmentaõ á proporçaõ, que ella cresce; naõ se póde, de forma alguma, contestar a evidencia deste Principio, que inteiramente concorda com os Principios Oitavo, e Nono, do Tratado (§ 43. 48.)

SEGUNDO PRINCIPIO.

46. A Luz, que emana dos Corpos lucidos, e a que he reflectida dos opacos, contem as mesmas Cores, e produz os mesmos phenomenos.

Escholio.

47. Se, pelo prim. Prisma (n. 23.), se observa Cyrius, e Jupiter, ve-se em ambos, a mesma figura, e a mesma Cor (n. 24. 25.). Ora a Luz de Cyrius vem immediatamente de hum Corpo lucido, e a de Jupiter de hum opaco: logo este Principio he de huma absoluta evidencia.

TERCEIRO PRINCIPIO.

48. A intensaõ da Luz he igualmente destructiva das Cores, como a densidade da sombra.

QUARTO PRINCIPIO.

49. He com huma Luz mediana, que apparecem, e se formaõ as Cores.

Escholio.

50. Este quarto Principio (n. 49.) he hum Corollario do Terceiro (n. 48.); e ambos se provaõ evidentemente, com as experiencias (n. 40. e 41.). A grande intensaõ da Luz do Sol faz, que observando-se este astro pelo Prisma, naõ mostre Cor alguma. A debil Luz de huma Estrella da segunda, ou terceira grandeza, he a causa, de que ella se veja pelo Prisma, sem Cor alguma. Mas a Luz de huma grande Estrella, que se póde reputar mediana entre o Sol, e huma pequena Estrella, presenta mui vivas, e brilhantes, as duas Cores Vermelho, e Verde. Os phenomenos (n. 41.) saõ identicos; pelo que he inutil o recapitullallos.

QUINTO PRINCIPIO.

51. As cores primitivas saõ duas, Vermelho, e Verde.

Escholio.

52. Simplez, e primitivo, só se póde chamar aquillo, que naõ he derivado, nem composto. Para conhecer esta qualidade, em qualquer substancia, he necessario descompolla, e resolvella nos seus elementos; que entaõ se chamaõ simplez, e primitivos, quando resistem ás analysis mais rigorozas, sem soffrerem alteraçaõ alguma. Assim, a respeito dos corpos, só se pódem ter por elementos simplez, e primitivos, a materia vitrea e calcarea; por que a estas duas substancias se reduzem todos os corpos do nosso Globo, por meyo de hum intenso fogo, que naõ tem mais a força de as descompor; e effectivamente he destas mesmas duas substancias, que se formaraõ todos os Corpos, de que se compoem a Terra, e que lhe estaõ inherentes (§. 4.)

53. Pela mesma razaõ, que se tem por simplez, e primitivos, só aquelles elementos dos Corpos, que resistem á analysis do fogo mais intenso; se devem ter tambem, por simplez, e primitivas, só aquellas Cores, que resistem ás analysis mais fortes, que sobre ellas se pódem praticar. E como as Cores naõ podem soffrer que duas sortes de analysis, huma sobre os Corpos coloridos, e a outra sobre a Luz tambem colorida: segue-se, que só se devem ter por Cores primitivas aquellas, que resistem á força destas analysis, conservando-se inalteraveis. Ora o Vermelho, e o Verde, saõ as duas Cores, que resistem á força das analysis mais fortes, e que se conservaõ inalteraveis; quando todas as outras Cores se descompoem, e se destroem; como se prova das experiencias feitas sobre os Corpos coloridos (§ 16. 17. 19.), e observaçoens (§ 22. 23.): e igualmente das experiencias feitas sobre, a Luz colorida (n. 24. 25. 28. 29. 30. 31. 32. 34. 39.): segue-se, que naõ se podem ter, physicamente, por Cores primitivas, senaõ o Vermelho, e Verde; por serem os elementos indestructiveis, a que se reduzem todas as outras Cores; e dos quaes as mesmas se compoem (n. 34.). Ainda que isto bastasse, para provar a evidencia deste Principio; elle tem ainda a seu favor as duas analogias (§ 26. 27. 29.), que na presente materia, saõ da mayor concludencia.

SEXTO PRINCIPIO.

54. A Cor Azul he derivada, e naõ primitiva.

Escholio.

55. Este Principio he hum corollario do Quinto (n. 51.); e a formaçaõ desta Cor, consta das experiencias, em que se funda o Principio Quarto (§ 28.).

SEPTIMO PRINCIPIO.

56. A Cor amarella he derivada, e naõ primitiva.

Escholio.

57. Este Principio he hum corollario do quinto (n. 51.): e o modo, por que esta Cor se forma, se ve das experiencias, e especulaçoens, em que se funda o Principio (§ 30.).

OITAVO PRINCIPIO.

58. O Negro he huma Cor positiva, e se forma do Vermelho, e Verde.

Escholio.

59. A Evidencia deste Principio, se mostra da observaçaõ (n. 33.). As velas do moinho de vento, de que ali se trata, estando horisontaes, pareciaõ duas largas faixas, unidas ao comprido, huma verde na parte superior; e outra vermelha, na inferior. E como estas duas Cores conservaõ sempre a mesma posiçaõ, sobre a linha horisontal, deviaõ necessariamente unir-se, à o passar pela perpendicular. He pois nesta passagem, e uniaõ, que se formava sempre a especie de nuvem ou sombra mui escura, como fica refferido. Aquela machina estava situada na linha visual ao ponto, em que o Sol se punha; as suas velas moviaõ-se em hum plano perpendicular à esta linha, e consequentemente eu as observava da parte da sombra, e de hum ponto diametralmente opposto à aquelle, donde partia a Luz, ellas eraõ, quadrilateras, e teriaõ 20 pés de comprido, sobre cinco, ou seis de largo; eraõ da mesma lona de que se fazem as velas dos navios; e me ficavaõ na distancia de 250 passos geometricos. Exponho todas estas circunstancias, porque em observaçoens deste genero, a direcção da Luz; a sua força; a grandeza, a figura, a materia dos objectos e a distancia em que se observa, influem muito nos resultados. As observaçoens feitas sobre as nuvens em movimento, daõ este mesmo resultado; e as experiencias (§ 16. 17.), feitas sobre as Cores materiaes, convem inteiramente com as da Luz colorida.

NONO PRINCIPIO.

60. O branco he huma Cor positiva, e nasce da extrema divisaõ das duas Cores primitivas, Vermelho, e Verde.

Escholio.

61. As experiencias (n. 40. 41.) mostraõ a evidencia deste Principio. O Sol, visto pelo Prisma, parece hum circulo de Luz mui viva; mas sem Cor alguma: por que a Cor se acha dividida em huma grande massa de Luz, e por isso he invisivel. O mesmo succede na experiencia (n. 40.), em que o rayo de Luz, depois de passar pelo Prisma, se recebe no cartaõ branco, ao pé do tubo, que o introduz na camara escura: e como, nesta distancia, a Luz se acha ainda mui intensa, e cahe sobre huma superficie branca, que tambem augmenta a sua massa, pela mesma razaõ da experiencia. (n. 41.) naõ deixa ver cor alguma. O mesmo succede com as Cores materiaes; como se prova pela Taboa XIIII. n. 43. e ainda mais palpavelmente, mixturando sobre o porphyro, hum graõ de Anil, com duas libras de Alvaiade, dividindo-o o Branco de tal sorte, que nelle senaõ destingue a minima sombra de Azul.

62. Digo que o Branco, e o Negro, saõ Cores positivas, (n. 58. 60.) porque o contrario repugna à todas as leys da physica. Nós recebemos indubitavelmente a idea dos objectos externos, pelo orgaõ sensoreo da vista, mediante o reflexo da Luz, a qual, cahindo sobre, os mesmos objectos, se reflecte à os nossos olhos, trasendo-nos comsigo à sua imagem (n. 15.). Ora, se a Cor negra naõ fosse que huma privaçaõ da Luz, seguir-se-hia, que naõ poderiamos receber a idea, nem de huma columna de marmore negro, nem de qual quer outro corpo da mesma Cor: mas a experiencia mostra, que estando em justa posiçaõ duas ou mais columnas, huma de marmore negro, e as outras de marmore branco, vermelho &c. recebemos taõ clara a idea de humas, como das outras; logo o negro he huma Cor taõ positiva, como qual quer das outras, a que senaõ disputa esta qualidade; e assim naõ póde consistir na privaçaõ da Luz.

63. Alem disto, huma taboa de marmore negro, bem polida, reflecte a Luz taõ exactamente, que nella vemos as imagens dos objectos, como em hum espelho. Ora, isto naõ póde acontecer, segundo as leys da Catoptrica, senaõ nos corpos, que reflectem fielmente os rayos da Luz; logo he imphilosophico o dizer, que a Cor negra consiste na absorbencia dos rayos da luz; quando os Corpos desta Cor os reflectem igualmente, que os coloridos de Branco, Vermelho &c. De mais he provado (§ 22. n. 23.), que a Cor negra se forma da mixtura do Vermelho, e Verde; ora, se a Cor de Purpura, que se forma de Vermelho, e Azul, he huma Cor positiva; da mesma sorte o deve ser a Cor negra, que se forma pór huma similhante combinação. Hum igual raciocinio prova, que o Branco he tambem huma Cor positiva.

64. O confundir estas duas Cores, huma com a Luz, a outra com a sombra, deu lugar ás ideas commumente recebidas. He preciso, differençar a Luz, da Cor branca, e a sombra, da Cor negra. A Luz faz visiveis os objectos, com as suas qualidades; e a escuridade, produz hum effeito opposto, isto he, de naõ deixar ver cousa alguma; mas a Luz, e a obscuridade, saõ tanto a Cor branca, e negra, como a azul, e verde. Ora, nimguem diria, que estas ultimas duas Cores equivalem á Luz, ou a escuridade; da mesma sorte senaõ póde dizer isto, das duas primitivas Negro, e Branco; sabendo-se de outra sorte, o mechanismo da sua formação, pelas experiencias (§ 16. 17. 19. 22. n. 33.)

65. Taes saõ os Principios, que resultaõ das observaçoens, feitas sobre as experiencias Prismaticas: os quaes se achaõ inteiramente conformes, com os que resultaõ das observaçoens feitas sobre as experiencias dos Corpos coloridos (§ 20. 21. 24. 28. 30. 37. 40. 43. 48.); e que tem ainda em seu favor, as analogias da Natureza (§ 26. 29.).

Phenomenos das Cores, explicados pelos Principios, que resultaõ das experiencias do Prisma.

66. Se as leys geraes, quando servem para explicar casos particulares, se chamaõ Principios (n. 42.); a explanaçaõ, ou injuncçaõ, destes Principios, he chamada theoria, ou systema; e os factos que se devem explicar com elles chamaõ-se phenomenos. Assim os Treze Principios que presenta este Tratado (§. 20. 21. 24. 28. 30. 37. 40. 43. 48. n. 44. 46. 48. 49.) formaõ huma theoria, ou systema de doutrina, com a qual se podem explicar todos os phenomenos das Cores.

67. Estes phenomenos saõ de duas sortes, porque ou se manifestaõ na Luz colorida, ou nas superficies dos Corpos naturaes. Eu vou explicar hum phenomeno de cadahuma destas especies, que servirá de norma para a intelligencia de todos os outros.

68. Dos phenomenos da Luz colorida, o mais bello e magestoso, he sem duvida, o Arco Celeste, que nos tempos mais antigos fez a admiraçaõ dos homens, e tem sido cantado, com o nome de Iris, pelos mais famosos Poetas. Este phenomeno, comtudo naõ he outra cousa, que hum grande, mas identico resultado, á o da experiencia (n. 40.) feita, com huma Luz mediana, em huma camara obscura.

69. O sol, na vasta camara do Universo, tem lugar do rayo da sua Luz, em huma pequena camara. As gotas de agoa, de huma nuvem desfeita, ou de huma nevoa pouco densa, saõ o grande Prisma, em que se refracte, e modifica, a Luz do Sol. E a parte do Ceo coberta de nuvens, que fica opposta ao Sol, he o immenso cartaõ, onde se mostraõ as Cores; que saõ mais distinctas, ou mais confuzas, e mais ou menos em numero, segundo a obliquidade da Luz do Sol, sobre o grande Prisma por onde passa: da mesma sorte que na camara obscura, recebendo o rayo da Luz do Sol perpendicularmente sobre a face do Prisma, naõ forma no cartaõ, que quatro ou cinco Cores; e recebendo-o obliquamente, forma muitas mais.

70. Quanto á curvatura do Arco, ella procede, de que passando a Lux do Sol por hum grande angulo, qual he o das gotas de agoa, que formaõ o Prisma Celeste, se produz aquela curva da mesma sorte, que o angulo de hum Prisma de 90 gráos, reduz á curvas todas as linhas direitas (n. 22.).

71. Os phenomenos das Cores, que nos presentaõ as superficies dos corpos naturaes, se explicaõ da mesma sorte. Todos os Corpos saõ compostos de partes taõ subtis, como fica provado (n. 10. 11. 12. 13. 14.). E como naõ ha Corpo, por mais compacto que seja, que reduzido a minutissimas partes, se naõ faça diaphano; segue-se que, a respeito da Luz, que he muito mais subtil, que as minutissimas partes, de que os Corpos se compoem, se devem reputar diaphanas, e transparentes as suas superficies. Ora, como a Luz, no reflectir-se dos Corpos, tem ja passado por este meyo mais denso, e menos diaphano, que o ar; segue-se que deve ter sofrido huma, ou mais refracçoens (n. 7.) e que deve necessariamente, fazer-nos ver colorida a imagem dos objectos (44. 45.).

72. Naõ paressa extraordinario, que as superficies dos Corpos, e ainda dos mais densos, sirvaõ de Prisma à os rayos da Luz, para se formarem as Cores. Todos os Corpos naturaes saõ compostos de dous simplez elementos, que saõ a materia vitrea, e calcarea, combinadas de mil modos differentes (§. 3.). Se a todos os Corpos se faz soffrer a analysis do fogo mais intenso, elles se reduzem outra vez a estas duas elementares sustancias, e a huma grande quantidade de vapor, que exhalaõ no tempo da operaçaõ. Ora, a materia vitrea, e calcarea saõ indisputavelmente transparentes, ainda a os nossos olhos, quando estaõ reduzidas a partes de huma certa grandeza: com muita mayor razaõ o devem ser sempre, a respeito das subtilissimas partes, de que a Luz se compoem.

73. Daqui se ve claramente, que a Cor Vermelha do Rubim, se forma pela concorrencia das mesmas circunstancias, que fazem parecer vermelha ametade de huma Estrella (n. 24.), ametade das velas de huma embarcaçaõ (n. 32.), ou ametade da peripheria dos circulos (n. 35.); e que o Verde da Esmeralda, se forma pela concorrencia das circumstancias, que fazem apparecer verde a outra ametade daqueles objectos: e assim a respeito de todas as mais Cores. Mas qual he o intrinseco mechanismo, que produz taõ admiraveis effeitos, e para que serve tanta variedade de Cores: quando no Rubim, e na Esmeralda, naõ vemos que huma mera crystalisaçaõ; e para as outras experiencias naõ concorre, que hum pedaço de vidro, pelo qual observamos, ou hum Ponto lucido em hum ambiente escuro, ou hum Ponto escuro em hum ambiente lucido (n. 20.); e quando a mayor parte dos Corpos naturaes nos seriaõ igualmente uteis, sendo, ou naõ, coloridos?—Esta he huma daquellas Questoens, de que eu já fallei no Tratado (§. 4.); e da qual a decisaõ depende de conhecimentos superiores, e á força dos nossos sentidos, e mesmo á efficaz penetraçaõ das nossas intellectuaes faculdades. Limitemo-nos prudentemente à os factos, e ás verdades que a imparcial, e continua observaçaõ sobre elles, nos podem procurar; e deixemos de escrutar as causas primarias e ultimas, que só podem comprehender-se, pela illimitada Sabedoria de hum SER SUPREMO.

Succinta comparação das Proposiçoens de Newton, com os Principios, que presenta este Tratado.

74. A doutrina de Newton sobre as Cores, se contem nas cinco Proposiçoens seguintes; que transcrevo na lingoa original, em que foraõ escriptas, para evitar qualquer iquivoco, que poderia recrescer, ainda da mais fiel traducçaõ.

PROPOSITIO I.

Radiis diverse refrangibilibus diversi competunt Colores.

PROPOSITIO II.

Radiorum formæ, sive dispositiones colorificæ non sunt refractione mutabiles.

PROPOSITIO III.

Colores albi & nigri, cum cinereis sive fuseis intermediis unius cujusque speciei, confusè mistis, generantur.

PROPOSITIO IV.

Primitivi Colores per compositionem Colorum sibimet utrinque confinium exhiberi possunt.

PROPOSITIO V.

Corporum naturalium Colores a genere radiorum derivantur, quos maximè reflectunt.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ I.

75. Para que esta Proposiçaõ fosse evidente, seria necessario, que Newton provasse: Que a differente refrangibilidade dos rayos da Luz, que attraveçaõ o angullo de hum Prisma, provem das diversas Cores destes rayos; ou que a diversa Cor dos rayos da Luz, saõ a causa da sua refrangibilidade: o que este philosopho naõ fez certo de forma alguma. Elle vio, que os rayos da Luz, que passaõ pelo Prisma, se refrangem huns mais que os outros; e que a Cor vermelha, nas suas experiencias, corresponde à os rayos menos refrangiveis, e a Cor de purpura à os que se refrangem mais: e desta observaçaõ concluio; que a os rayos mais refrangiveis competia a Cor de purpura, è a os menos refrangiveis a Cor vermelha; e a os que ficaõ entre estes dous extremos, todas as outras Cores[26].

76. Mas, como póde huma similhante asserçaõ concordar-se com a experiencia (n. 35.) que nos mostra, que aquellas duas Cores taõ oppostas, competem á mesma refracçaõ. Aquelles dous circulos saõ da mesma grandeza, e estaõ entre duas parallelas; vendo-os pelo Prisma, naõ se póde duvidar, que as refracçoens, que correspondem à cadahuma destas parallelas, sejaõ as mesmas. Ora, sobre cadahuma destas parallelas se ve, ao mesmo tempo, a Cor vermelha, e amarella, no circulo branco; e a verde, azul, e purpura no circulo negro: logo naõ se póde dizer, que a os rayos menos refrangiveis compete a Cor vermelha; e à os que soffrem mayor refracçaõ, a Cor de purpura; visto que de baixo da mesma linha, e da mesma refrangibilidade, vemos estas duas oppostas Cores.

77. A diversa refrangibilidade da Luz, que passa por hum Prisma, procedera, tal vez, de outra causa. O rayo de Luz do Sol, que attraveça hum Prisma, tem sempre dentro delle a figura de hum sylindro obliquo. Ora imaginando, que o lugar, que occupa este sylindro, he composto de milhoens de subtilissimos filamentos, alinhados a o comprido, elles devem ser todos de grandezas differentes; e consequentemente os subtilissimos rayos da Luz, á o attraveçallos, haõ-de achar mayor, ou menor resistencia. Póde ser que esta seja a causa, porque, á o sahir do Prisma, se refractem huns mais, que os outros: sem que isto tenha mais rellaçaõ com as Cores, que huma bala de artilheria, que attraveça os dous bordos de huma fragata, e se refrange passando o primeiro de hum navio.

78. A formaçaõ das Cores depende, tal vez, de outro mechanismo. As duas Cores primitivas se manifestaõ, por meyo da refracçaõ (n. 44. 45.); mas a formaçaõ das outras Cores depende de mais circunstancias. Da mesma experiencia (n. 35.), se prova esta asserçaõ. Se aquelles dous circulos, se observaõ, à o mesmo tempo, de dous pontos oppostos, então parecem a hum observador, azues ou purpureas as Cores, que à o outro observador parecem vermelhas, e amarellas; o que naõ póde nascer das refracçoens, mas sim da opposiçaõ, da Cor negra, e branca, combinadas com as que resultaõ da refracçaõ do Prisma.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ II.

79. Se Newton pretende persuadir, nesta Proposiçaõ, que qualquer Cor, conciderada na Luz, ou nos corpos naturaes, depois que he formada, se naõ muda com a refracçaõ do Prisma, neste caso nada se oppoem a os Principios deste Tratado. Mas se Newton pretende persuadir, que por isso que saõ inalteraveis, se devem reputar primitivas; sejame entaõ licito fazer a seguinte reflexão. Se observamos por hum Prisma duas superficies, das quaes huma seja vermelha, e a outra de qualquer Cor das que se naõ tem por primitivas, taõ inalteravel vemos a Cor primitiva como aquella que o naõ he: e consequentemente o dizer, que algumas das Cores Prismaticas saõ primitivas, porque se naõ mudaõ com a refracçaõ, naõ tem a menor concludencia.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ III.

80. Esta Proposiçaõ concorda inteiramente com os Principios, Primeiro, e Segundo (§ 20. 21.); e com o Oitavo, e Nono (n. 58. 60.); que saõ identicos, ainda que dedusidos de experiencias diversas. O Negro, e o Branco, contem todas as Cores; aquelle, intimamente unidas (§ 20. 22. n. 58. 59.); e este extremamente, divididas (§ 19. 21. n. 60. 61.): donde se ve, que a differença destas duas Cores, e de todo o claro-escuro, consiste só nas quantidades das Cores componentes, a respeito de huma certa massa de Luz, ou originaria, ou reflectida dos Corpos, com mais ou menos modificaçoens.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ IIII.

81. O sentido desta Proposiçaõ, he dificil de comprehender, muito mais dizendo Newton, que as Cores primitivas, saõ Cores simplez. Como se póde imaginar, que sendo as Cores primitivas, elementos simplez, como o mesmo Newton as caracterisa,[27] se componhaõ das que lhes ficaõ visinhas? Parece, que este philosopho naõ chegou a formar huma idea clara das Cores primitivas; porque quando as compara com o canon armonico[28] ou escala da Musica, deixa entender, que ellas saõ sete. Quando diz, que naõ entende por Cores primitivas só as cinco Vermelho, Amarello, Verde, Azul e Purpura, mas todas as que se formaõ desta sorte,[29] deixa em duvida o numero daquellas Cores. E quando diz, finalmente, que ellas saõ simplez, e elementares, deixa entender, que se naõ podem compor de outras Cores.

82. Seria preciso ser outro que Newton, para aclarar as suas ideas, se ellas saõ confusas. Mas quem reflectir, que o seu systema he fundado em huma mera conjectura, à que deu lugar a imagem oblonga, que hum rayo de luz do Sol, tendo passado pelo Prisma, faz ver na camara obscura, se convenserá facilmente, que de taes Principios se naõ podiaõ deduzir mui claros resultados. Aquella figura, pelo que ja fica dito, naõ he a pedra de toque para conhecer o metal das Cores primitivas. (n. 37. 38.)

83. Se, sobre o porphyro, se mixtura com agoa, e em certas proporçoens, Carmin, e Verde-distillado, forma-se a Cor de Purpura. Se se junta hum pouco mais de Verde, resulta huma especie de Azul, mui similhante à o que faz ver o Prisma. Se este Azul, e Purpura se estendem com o pincel sobre hum papel branco, e depois se tocaõ com hum pincel banhado em agoa pura, desaparecem estas duas Cores resolvendo-se em hum vermelho mais escuro, que o Carmin. Se qualquer planta, de hum bello verde, deixa de ser regada, a sua Cor natural se converte em Amarello; mas acudindo-lhe, à tempo, com agoa, recupera a sua Cor verde, desapparecendo absolutamente a amarella.

84. Se a Cor de purpura, e azul se formaõ, e se destroem, como fica dito (n. 83.); se a amarella se faz nascer do Verde, e se converte outra vez nelle; (Nota XVI.) Como se póde crer, que estas tres Cores sejaõ simplez, e primitivas?

85. As outras duas especies de Azul, e Amarello, que pretendem ver-se no Prisma, naõ podem ser, que meyas tintas das suas similhantes; por que seria contrario à o poder, e á simplicidade da Natureza, que, para formar as Cores naturaes, duplicasse os elementos da mesma especie; quando a Arte, que he mais composta e menos poderosa, que a Natureza, forma todas as Cores de huma especie, com hum so elemento, analogo a essa mesma especie, modificado com o claro-escuro, e com as outras Cores (§. 76. 77.)

86. Excluidas, assim, das Cores chamadas primitivas, as duas especies de Azul, e Amarello, e a Cor de purpura; segue-se, que só o Vermelho, e Verde, se pódem ter por Cores elementares, simplez, e primitivas.

87. Ja que fallei da comparaçaõ dos intervallos dos sons, e das Cores (n. 81.), naõ devo omittir, que ella se funda em calculos meramente hypotheticos. Os intervallos das Cores prismaticas naõ se podem exactamente medir, como o mesmo Newton confessa[30], servindo-se ainda, da palavra Grega ακριβεια, para dár huma justa idea da diligencia, que inutilmente empregou nesta operaçaõ. E os rapportos geometricos dos sons intermedios da oitava, tem taõ pouca similhança com os sons naturaes, como he notorio á todos os Proffessores da Sciencia da Musica, e a todos os Geometras[31] (§ 5.). Donde se ve a inconcludencia, de tudo quanto se tem escripto, neste concernente.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ V.

88. Nesta Proposiçaon diz Newton, que as Cores dos Corpos naturaes provem, de que huns reflectem huma parte dos rayos da Luz, que suppoem diversamente coloridos, e os outros outra; e que assim, o Corpo, que reflecte os rayos vermelhos, apparesse vermelho; e o que reflecte os purpureos, apparesse de Cor de purpura. Se Newton tivesse provado, que na Luz existem todas as Cores, que vemos nos Corpos naturaes; e depois fizesse certa a absorbencia de huns dos seus rayos, e o reflexo de outros, teria neste caso, toda a razaõ: Mas Newton naõ prova nenhum destes antecedentes.

89. Naõ prova o primeiro, porque logo, que faz differença de Cores primitivas à derivadas ou compostas, naõ tem lugar esta Doutrina: e quanto à o segundo, pretende provalho a posteriore, o que naõ conclue, tendo em contrario os factos de huma absoluta evidencia, ja refferidos (n. 35.).

90. Naõ se tenha, por huma refutaçaõ da Doutrina de Newton, o que digo a respeito de cadahuma das suas Proposiçoens; mas sim por huma resposta necessaria ás objecçoens, que se poderiaõ fazer contra os Principios, que presenta este Tratado, apoyadas na recebida theoria daquelle incomparavel philosopho. Eu ja dei a razaõ, porque me affastei da sua brilhante, e plausivel hypothesis; (§. 9.) e me parece, que sem temeridade, antepuz hum systema simplez, e natural, à outro que o naõ he tanto, e que se funda em huma mera conjectura[32].

91. Quanto he mais conforme á sabia economia, com que a Natureza procede em todas as suas operaçoens, o estabelecer sobre reiteradas, e decisivas experiencias, e sobre convincentes analogias; que na Luz residem só duas Cores simplez, e primitivas, que saõ o Vermelho, e Verde (§. 24. n. 51.); que da sua intima uniaõ se forma o Negro (§. 20. n. 58.); que da sua extrema divisaõ nasce o Branco (§. 21. n. 60.); que das mesmas duas Cores simplez emana o Azul, e Amarello (§. 28. 30.); e que em fim destas seis Cores, tomadas como elementos, se podem artificialmente formar todas as que vemos nos Corpos naturaes (n. 51. e seg. §. 68. e seg.): quanto he mais conforme, digo, á sabia economia da Natureza este systema, do que o dizer; que as Cores compostas, ou derivadas nascem da combinaçaõ de sete elementos, ou de sete Cores simplez, e que estas residem na Luz, com o poder de imprimir à os seus rayos differentes gráos de refrangibilidade.

92. Se era hum dogma constante, que os Corpos naturaes procediaõ de quatro elementos (§. 4); e se huma analysis mais rigorosa os reduz a duas unicas substancias simplez e primitivas (n. 72.); como se póde crer, sem ser mais que provado, que as Cores, que naõ saõ que meros accidentes destes Corpos (§. 2.), dependaõ, para a sua formaçaõ, de sete differentes elementos?

93. Os Amadores das Sciencias naturaes, à quem offereço a parte theoretica deste Tratado, se se acharem perplexos entre a novidade da Doutrina, que elle-lhe presenta, e as oppiniones recebidas, e firmadas sobre respeitaveis authoridades, e estipadas com a sancçaõ de tempo: os exhorto a por de parte toda a preocupaçaõ da authoridade, e de procurar a evidencia, que dezejaõ, na mesma Natureza, por meyo da experiencia, e de huma profunda meditaçaõ sobre os factos, que ella lhes suggerir.

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