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Os Filhos do Padre Anselmo

Front matter (continued 7)

Reading edition

―Oh! não! não! É impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga! Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um genio infernal, só pude semear a dôr, a desolação e a morte em toda a parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso pélago de crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e nojo! Não! não! eu não posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das minhas mãos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam uma nodoa indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o miseravel! O maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal... corrosivo como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá está elle, envolto na sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh! salva-me! salva-me!

E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se convulsivamente á sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem sentidos...

Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico, a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em deliquio.

O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de extrema fraqueza.

―Devêmos evitar a menor commoção, o menor abalo―disse elle.

Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fôra violento o abalo produzido pelas revelações que lhe fizera a sua amiga.

A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na mesma terra, habitando a casa que fôra d'ella e sempre alimentando-se das recordações de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança, matava-a.

A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só com a lembrança de que havia de supportar os olhares de Julio, tão franco, tão leal, tão amante e apaixonado e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.

Porque não lhe teria ella confessado francamente a sua situação, a sua desgraça, a sua queda irremediavel, quando no Sardão o mancebo lhe implorava de mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?

Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle coração lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella não passava de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando já não era só uma desgraçada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua corôa de innocencia, mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, manchado por toda a especie de crimes, semeando desolação e morte por toda a parte?

Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher, leviana e perversa, lançara-se imbecilmente nos braços de um monstro de sotaina, sacrificando o coração e a vida de seu primo, que a adorava, e deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barregã de um jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que as feras, relegara-o á fome, á miseria e á morte talvez. Amada sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas.

Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixão n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia manchára as mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo. Mas um crime não auctorisa outro e, seja qual fôr o sentimento que o dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no coração do criminoso.

Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordações de tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitação n'este mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse seguida da condemnação eterna para a sua alma.

As penas do inferno pensava ella que não podiam ser-lhe mais tormentosas e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldiçoada que arrastava havia já dezeseis annos.

Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga.

―Aurelia―disse-lhe ella―tu não sabes a grande desgraçada que acolhes em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a esmola da tua compaixão.

―Helena!―volveu-lhe a irmã de Gustavo―peço-te que não voltes a atormentar-te com as recordações do passado. Fui tua amiga e tua companheira de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao menos a consolação de te poder chamar minha irmã.

―Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua bondade nas curtas horas que me restam de vida... É isso um signal evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o arrependimento de tantos crimes...

―Helena! socega, minha irmã... Tem esperança na misericordia divina que ha de ainda conceder-te dias venturosos.

―Fazes-me um favor que te peço, Aurelia?

―Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes.

―Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do Sardão ou no das Sereias existe ainda ―Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do Sardão ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...

―Madre Paula!―replicou Aurelia―Existe, minha amiga, sei que existe.

―Como o sabes?―interrogou alvoroçadamente Helena de Noronha.

―Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto informar-se um homem de sua confiança, o mesmo que te encontrou desfallecida na estrada e que aqui te conduziu.

―E esse homem viu-a, fallou-lhe?

―Fallou.

―Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga?

―Porque não!?

Fez-se um instante de silencio.

―Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?

―Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome.

―Não o digas a ninguem, por ora.

―Socega. Cumprirei a tua vontade.

Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que fechou em seguida n'um

enveloppe

.

―Que parta sem perda de tempo!―disse ella, entregando a carta a D. Aurelia―Desejo que a resposta me encontre viva.

O

Tomba

partiu n'essa mesma noite para o Porto.

XXV Pobre Helena!

Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o acommettera. O restabelecimento, porém, fazia-se tão lentamente, o seu estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas conversas com quem quer que fosse.

Todavia, o

Tomba

lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula era viva e podia ser encontrada no Porto.

―Fallou-lhe, mestre

Tomba

?

―Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia que fallei... Fui ás Sereias

préscural-a

e não estava lá... Mas eu taes intrujices armei, que me mandaram ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca que nem parece a edade que tem... Aquellas bochechas não se criam só com

auga benta

, essa lhe juro eu!―commentou o sapateiro.

―Fallou-lhe de Helena de Noronha?

―A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse ó que eu lá ia e se espantasse... Nada! Eu

infingi

que ia de mando da prima de vossa

incellencia

, a snr.

a

D. Lucilinha de Villaverde...

―Ah!

―Ella ficou toda

estifeita

e tratou-me com muito bô agrado, mas a respeito de comer e beber... nem

burro queres tu auga

?! Eu támem não precisava―accrescentou―e indas que ella me offerecesse, não era o filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me armaram no Sardão, não cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas ó menos queria que ella tivesse um migalho de cortezia commigo...

Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do sapateiro escandalizado.

―Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou tão fraco, tão abatido, que não posso por emquanto fazer a viagem―murmurou.

―Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella?

―Sim... unicamente para fallar com ella...

―Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma carta, que eu levo-lh'a?

―O que desejo dizer-lhe não é coisa que se escreva em carta...

―Deixe lá! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde...

―Não, não... É preciso ir eu...

O

Tomba

encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim:

―O snr. Julinho lá fará como entender... Eu cá estou p'ró que fizer

minga

. E se vê que é coisa que não se póde arranjar sem vossa

incellencia

lá ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as paixões p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá está á espera...

―Vá, vá, mestre

Tomba

―despediu Julio.―Deixe-se andar por ahi, que póde ser-me preciso de um momento para o outro...

―Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são p'rás

incasiões

...

E sahindo dos aposentos do doente:

―Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma coisinha de sustancia, está aqui, está prompto... E foi o ladrão do padre

Inxelmo

que o pôz assim!...

De repente bateu na testa, exclamando:

―Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei novidades d'aquelle ladrão!

Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou:

―Dá licença, snr. Julinho?

―Entre, mestre

Tomba

―respondeu o enfermo, da cadeira em que se achava sentado.

―Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre

Inxelmo

, é raça de patife de que ninguem me soube dar relações...

―Já sei... já sei que esse homem ha muito que não reside no Porto―volveu Julio com um fundo suspiro.

―Pois eu ia com meu receio de o topar lá por aquellas casas de

santidade

―disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso―Que eu, se o apanhasse na rua, era

home

p'ra lhe rachar a corôa de meio a meio, como quem racha cinco tostões falsos... Mas lá dentro da

seve de pedreiro

é que eu não queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.

―É natural―respondeu Julio.

O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera á descoberta.

―Parece que já não se importa muito com o padre...―resmungou―

Támem

, n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas

galhetas

, não podia...

Quando o medico soube que o

Tomba

se demorára em conferencia com o doente, exasperou-se e ameaçou de não voltar a receitar, se não fosse obedecido.

É que notára no enfermo um novo accesso de febre.

Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.

―Era um favor―dizia elle―deixar que a doença acabasse com isto!...

Passaram ainda uns dias, e o

Tomba

faroleiro e mettidiço, não podendo ser admittido á presença de Julio, vingava-se indo para casa de D. Aurelia, a informar-se do estado da

probesinha

. Quando D. Aurelia o incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro não pôde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio.

―O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula?―perguntou.

―Porque? Vae fallar com ella?

―Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'rá senhora D. Aurelia, e se vossa

incellencia

quizesse, eu, de caminho, levava qualquer recado para Madre Paula.

Julio ficou pensativo.

―Não... não quero nada―disse por fim―Tenho immenso desejo de fallar com ella; mas não posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me. Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um serviço a prestar-lhe...

E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou descahir desalentado a cabeça sobre o peito.

O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua natural expansibilidade, exclamou:

―

Ameno

, sr. Julinho! O que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer ir... Mais velho sou eu, que já cá tenho

acaijo

carro e meio d'annos, e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo do mundo a pé...

E concluindo:

―E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a

arresolvesse

a vir por ahi arriba, assim como coisa minha?

―Como é que você havia de fazer isso, mestre

Tomba

?―interrompeu Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do sapateiro.

―Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como coisa minha... sem lhe dizer quem é que lhe quer fallar... A mim, já se sabe, que não me fica mal pedir uma coisa que não seja assim lá muito de grande inducação... Eu sou p'rá aqui um

probe

sapateiro, fazem á de conta que eu não sei o que digo... e ás vezes pegam as bichas.

―Não, não, mestre

Tomba

, não pense n'isso, que é uma coisa que não pode fazer-se...

―Está bô! Vossa

incellencia

que o diz, lá sabe a

rezão

porquê...

O

Tomba

partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os esforços para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo.

―Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo―pensava elle.―Entrego-lhe a carta da snr.

a

D. Aurelia e logo vejo na cara os

himores

de que ella fica... Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos do pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pêta de que a Lucilinha está muito mal e que lhe manda pedir de bocca―porque não póde escrever―se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e não queria morrer sem a vêr alli ó par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me enganei no caminho e passe por lá muito bem...

E contente d'esta esperteza, o

Tomba

achava impossivel que a sua lembrança não produzisse resultado.

―Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que é mesmo uma dôr de coração, morto por desabafar, e não vê meio de fallar c'oa madre Paula, senão indo elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho labia p'rá trazer cá... Ella inda está bem rija e fera, póde melhor andar do que elle... Ora deixa que eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette em cabeça hade ficar assim em

augas

de bacalhau!

Chegado ao Porto, o

Tomba

encaminhou-se á Bandeirinha, bateu á porta da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula.

A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares; e que não era esperada ainda por aquelles dias...

Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido onde já fallára com a madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta:

―Faça favor de dizer áquella senhora com quem fallei oitro dia que está aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella.

O criado foi e voltou pouco depois.

Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, estava madre Paula. O sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande profusão de zumbaias.

―Ora atão vossa reverendissima e incellentissima madre como passou? Passou bem?

―Obrigada, passei bem―respondeu madre Paula com risonho semblante.

―Pois eu támem passei bem, muito aguardecido á senhora... A menina de Villaverde manda muitas

bugitas

á senhora madre e mais esta cartinha...

E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com grande surpresa leu:

«Minha querida Paula:

«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada

irmã Dorothêa

que no seculo se chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa, antes que a morte lhe gele nos labios as revelações que deseja fazer-te e que só tu poderás receber.

Não te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se não vens immediatamente, receio bem que apenas possas abraçar o cadaver da

Tua Helena.»

―Minha pobre Helena!―murmurou attonita madre Paula, fixando na carta os olhos turvos de lagrimas.

E voltando-se para o sapateiro:

―Onde está ella?―perguntou.

―Quem? A menina de Villaverde? Está em S. Martinho de Campo, que é alli adiante da Povoa de Lanhoso...―principiou o

Tomba

, pondo em prática o seu plano de arrastar a religiosa á presença de Julio.―Ella deu-me essa carta muito afflicta p'rá vir trazer á senhora madre, porque ella foi p'ra lá tratar de uma

probe

senhora que está lá a morrer... E

díxe-me

de bôcca: «Diga á madre Paula―e senhora na

presencia

―que lhe mando pedir se ella me póde fazer o favor de cá vir fallar commigo, que eu pago todas as despezas de

camboio

e de carro p'ra cá e p'ra lá, que é um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'rá santa religião, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre lá verá... Mas ella

dixe-me

isto co'uma cara tão afflicta, que eu inté lhe dixe:―

Esteje

descançada, menina, não se

affleija

, que a snr.

a

madre Paula não tem

caratle

de dezer que não a uma coisa d'essas...»

―Sim... sim, eu vou!―exclamou madre Paula sensibiliaada―A que horas temos comboio?

―Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora madre quizer, inda hoje chegamos lá, porque a gente vae d'aqui

dereito

a Guimarães e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando forem oito ou nove horas da noite, estamos lá...

―Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e...

―Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas á minha bocca é que não vae nada, seja pelo que fôr!―interrompeu o

Tomba

horrorisado, ao lembrar-se da cilada do Sardão.

―Porque? Vocemecê jantou?

―Não, minha senhora... eu cá não jantei nem janto... É costume que não tenho... já estou desafeito...

―O que! está desafeito de comer!?

―Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É uma

promessia

que fiz de jejuar dia sim, dia não... e hoje é o dia do sim...

Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de receber, não prestou attenção á estranha physionomia do sapateiro recusando a refeição que se lhe offerecia.

―Pois então, se jejua, não q―Pois então, se jejua, não quebre o seu jejum, meu irmão. Mas tem de esperar que eu me aprompte para a partida...

―Ó reverendissima madre, eu espero o tempo que fôr preciso... Lá p'rá amor d'isso, não seja a duvida.

―Sente-se então ahi ou vá até lá fóra, á quinta.... Como quizer.

Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge de Gusmão.

―Sr. Padre Filippe―pediu ella―vossa reverendissima faz-me a fineza de me conceder alguns minutos de attenção em particular?

―Pois não, minha senhora!―respondeu o padre gentilmente.

Paulo e Jorge levantaram-se.

―Dêem-me licença, meus amigos―disse-lhes a abbadessa―que lhes roube por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe.

E dirigindo-se a Paulo:

―Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu amigo a quem pedirás desculpa da minha impertinencia...

Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe, exclamou:

―Helena de Noronha, a

irmã Dorotheia

, vive ainda!

―Como o sabes?―perguntou o padre Filippe surprehendido.

―Lê!

E apresentou-lhe a carta de Helena.

O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse:

―É a letra d'ella!

―É, não ha duvida... Minha pobre Helena!

―E o que tencionas fazer?

―O portador está lá fóra... E, pois que ella está a morrer, quero pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a...

O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural, respondeu sem hesitar:

―Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres partir?

―Hoje mesmo.

―Porém, Beatriz?...

―Beatriz ficará em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que é, como sabes, austera e de são conselho.

―Pois sim.

―Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as instrucções precisas... De resto, a nossa demora será curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como ella propria o diz...

―Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de vir visitar Beatriz emquanto nós não regressarmos...

Madre Paula sorriu.

―E porque não ha de vir?

―É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e não o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibição traduziria...

―Dizes bem.

―Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu até ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse?

XXVI Um amigo dos diabos

Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre

Tomba

, tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães, por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de Campo.

O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua astucia.

A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém, em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do secerdote.

―Este parece que é vinho d'outra pipa!―commentou comsigo o sapateiro―Mas

támem

se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o, porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe metter juizo á força na cachola...

Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador. Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito

bô

sujeito; aquelle

támem

não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de tudo dava relação exacta e minuciosa.

Quando chegaram a Guimarães, o

Tomba

perguntou se queriam descançar um pouco no

hotle

ou se queriam seguir logo para S. Martinho.

―É muito longe d'aqui lá?―? perguntou o padre Filippe.

―É alli logo

adiente

das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos lá em tres horas.

―Então é melhor que partamos já.

O

Tomba

, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com recommendação ao cocheiro de que urgia chegar breve.

Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de Julio de Montarroyo.

O

Tomba

, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle menos o esperava, em vez de parar á porta de D. Aurelia, guiou os seus companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha.

O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala, pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dár parte á senhora. E quasi sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripções medicas, entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando:

―Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas

incasiões

, e o

Tomba

, com um raio de diabos! p'ra servir um amigo é capaz de dar uma volta no inferno! Cá está ella!

―Ella, quem?―interrogou Julio de Montarroyo.

―A madre Paula, com seiscentos livros de missa!

Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle tivesse endoidecido.

―Mas está onde, mestre?―perguntou.

―Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... Vem acompanhada com um padréca, mas não tem

duveda

... Quer que os mande entrar p'ra aqui?

―Você falla serio, mestre Tomba?

―Ó sr. Julinho, isso não são coisas que vossa

incellencia

me diga a mim na minha cara!―exclamou o sapateiro escandalisado―Pois eu ando por lá a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,―que suei e tornei a suar primeiro que a

arresolvesse

―e o snr. Julinho, chego aqui, e não me quer

acuarditar

?! Eu serei capaz de lhe

dezer

uma coisa por oitra, sr. Julinho?

―Está bem, mestre...―tornou Julio―Não vale a pena zangar. Eu vou immediatamente cumprimentar essa senhora...

―Olhe lá, ó sr. Julinho―observou o sapateiro detendo-o quando elle ia já a transpôr a porta do quarto―eu enganei-a!

―Enganou-a?

―Disse-lhe que estava cá a

irmã Dorotheia

, muito doente e que lhe mandava pedir p'ra ella cá vir vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje lá as coisas de modo que não me deixe ficar por mentiroso...

―Você está doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se Helena não está aqui nem eu tenho noticias d'ella?

―Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já morreu e que se enterrou

honte

á noite... Eu cá por mentiroso é que á noite... Eu cá por mentiroso é que não hei-de ficar, senão ellas, em me apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma coça...

―Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula.

E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e o seu companheiro.

Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a observal-o com curiosidade.

―V. ex.

a

certamente não reconhece n'este velho o moço que ha desoito annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardão uma das mais austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?―disse Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que saudava com uma reverente inclinação de cabeça o padre Filippe.

―Está v. ex.

a

enganado, sr. Julio de Montarroyo―replicou madre Paula recobrando a serenidade―Reconheço-o perfeitamente, e é com verdadeira satisfação que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar aqui.

―A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que eu tambem, apezar do vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.

a

, não podia esperar a subida honra que me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque visitar um enfermo nas minhas condições é verdadeiramente uma obra de caridade, que só as almas sinceramente religiosas como a de vossa excellencia sabem comprehender e praticar.

Madre Paula escutava-o sem o comprehender.

Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus hospedes.

―Dignem-se v. ex.

as

sentar-se, e, pois que me dão a honra da sua visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias. Esta casa é pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia que não teem a direcção intelligente de uma mulher a governal-as.

No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitação da subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardão: o primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta, outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.

a

, a

irmã Dorotheia

, conhecida no seculo por Helena de Noronha.

―Helena!―bradou madre Paula―Onde está ella? Peço-lhe que me conduza sem demora até junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri immediatamente ao seu chamamento, e tenho fé que a minha presença ha de fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...

Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa.

―V. ex.

a

não sabe onde está Helena de Noronha?―perguntou elle.

―Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde me disseram que estava.

―D'onde lhe escreveu, diz v. ex.

a

?

―Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos conduziu.

E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de que o

Tomba

fôra portador.

―É a lettra de Helena!―exclamou Julio n'um brado de alegria extrema―Não ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde está ella?―perguntou por sua vez tambem.

―Pois deveras Helena de Noronha não está aqui?―interrogou ainda madre Paula, tomada de estranha surpreza.

―Não, minha senhora―volveu Julio―e até eu ignoro como e de que maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem não tenho noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.

a

, compadecida do meu estado de doença e do muito que tenho soffrido no esforço inutil de encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer indicações que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de morrer.

E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor não ignora, por já lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhães.

―Agora―concluiu―alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o meu empenho era procurar v. ex.

a

e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo procural-a no mundo dos espiritos...

―O homem que aqui nos guiou é que foi portador d'esta carta. Elle portanto, poderá dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a escreveu...―explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e surprehendida.

―Tem v. ex.

a

rasão. Vou mandal-o chamar á sua presença, e elle explicará...

Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu á porta da sala:

―Diga ao mestre

Tomba

que venha cá.

Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o ar petulante de quem está resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira responsabilidade dos seus actos.

―O sr. Julinho, chamou?

―Chamei, mestre. Venha cá...

―Prompto!

E o sapateiro avançou dois passos na sala, de cabeça erguida e olhar firme.

―Então como é isto?―ia Julio a dizer.

Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.

―Então como hade ser? Fui eu que armei esta

trempe

, p'ra fazer que aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre viessem á

presencia

do sr. Julinho... Vossa

incellencia

estava todos os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, que lhe queria fallar e que morria sem

estifazer

o seu desejo... Vae eu

atão

disse comigo: «Se eu, armar uma pêta bem arranjada e disser á nossa reverendissima madre que é a sr.

a

D.

Helenia de Laronha

que está a dar a alma a Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fóra atrás de mim, que é um ar que lhe dá... Ponto é que ella me

acuardite

... Vamos a vêr se as bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui está... Agora o sr. Julinho diga o que tem a

dezer

, e se eu fico por mentiroso, é o mesmo... Se quer ó menos,

intrujei

, mas foi p'ra

estifazer

a ultima vontade a vossa

incellencia

... Agora já póde morrer descançado.

―Mas venha cá,

Tomba

, como arranjou você a carta de Helena de Noronha?

O sapateiro arregalou os olhos:

―A carta da sr.

a

D.

Helenia

? A carta não é d'ella!

―Como não é d'ella?

―Não é d'ella, já lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a todos, se eu vi a sr.

a

D.

Helenia

ou sequer alguem me boquejou a respeito d'ella!

―Mas esta carta―disse madre Paula―foi-me entregue por vocemecê...

―Isso é oitra coisa...―tornou o sapateiro―Mas as cartas são papeis... Essa carta não é da sr.

a

D. Helenia

.

―Não é!―exclamou Julio―Mas a lettra e a assignatura são d'ella. Como arranjou você esta carta?

―São d'ella!?―disse por sua vez o

Tomba

muito admirado.

―Se esta carta não é escripta por Helena―tornou Julio de Montarroyo―então alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre dirá quem foi...

―E a carta o que diz, ó sr. Julinho?―interrogou o sapateiro com grande interesse.

―Pois você não o sabe, mestre?

―Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que está lá dentro, permitta que eu não arranje mais cinco réis d'esmola em toda a minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a abri para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz?

Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta, resolveu-se a esclarecel-o.

―Esta carta é assignada por Helena de Noronha e pede á virtuosa madre Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...

―Ella diz que está doente?

―Diz que está a morrer...

O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão:

―Quer vossa

incellencia

vêr que é ella!?―exclamou―Pois não é oitra coisa. É ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem o saber! Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, não ha que vêr!

―Ella quem?―interrogou anciosamente Julio.

―A doente que está em casa da sr.

a

D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por albarda...

E depois, n'um movimento de duvida:

―Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso?

―Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz que está doente e pede a madre Paula que venha vêl-a...

―Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pôz tão prompto para me acompanhar... Cá me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! Posso ir p'ró diabo que me carregue e mais a minha esperteza!

―Mas venha cá, mestre

Tomba

... explique-nos que doente é essa de que está fallando... Eu não sei nada!

―Pois se vossa

incellencia

tem estado ás portas da morte, vae hoje, vae amanhã, e todos me

deziam

que não lhe dissesse nada nem lhe

trouvesse

novidades, que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela cabeça e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia de lhe vir contar o que era passado? Mas agora é que eu percebo a

tramoia

... Antão lá vae!

O sapateiro contou como encontrára inanimada no caminho, quando regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que fôra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se encontrava.

―E atão agora está tudo explicado.―concluiu―A snr.

a

D. Aurelia foi que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui á snr.

a

madre, mas sem me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi escrevida pela snr.

a

D.

Helenia

,

atão

a coisa está bem clara: a doente que lá está e que eu topei na estrada é ella!

Julio ouvira com extraordinaria commoção a narrativa do sapateiro.

―Ah! meu Deus!―exclamou―até que emfim a encontro!

E voltando-se para madre Paula:

―Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a á casa onde ella se encontra.

Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo, acompanhados por mestre

Tomba

, entravam em casa de D. Aurelia.

A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão d'entrada, e não ficou pouco surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse:

―Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.

a

...

E indicando o padre Fillipe:

―E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita á sua amiga.

D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura ao

Tomba

que, interdicto, coçava na orelha, como quem comprehendia que tinha feito asneira.

―É verdade―disse por fim D. Aurelia―que tenho em minha casa Helena de Noronha; e se d'isso não informei immediatamente, como desejava, o snr. Julio de Montarroyo, foi devido a duas considerações imperiosas: a primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de vida a minha casa, me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial recommendação do seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua existencia.

―Oh!―protestou Julio―pois se toda a minha doença era não ter noticias de Helena!

―Helena, cuja vida continua ainda em perigo―proseguiu D. Aurelia―pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro...

―Essa, carta, minha senhora―disse madre Paula―eil-a aqui. Por ella verá v. ex.

a

que Helena reclama a minha presença...

E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um gesto.

―Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um momento da sua palavra... Simplesmente o que devo é prevenir v. ex.

a

do melindroso estado de saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoção violenta póde matal-a...

―Mas se Helena espera a visita de madre Paula―objectou Julio.

―Espera a visita de madre Paula, mas não espera a de v. ex.

a

...―retorquio D. Aurelia.―Era justamente essa surpreza que me parecia bem poupar-lhe por emquanto...

―Decerto!―atalhou madre Paula.―Nem eu creio que o snr. Julio de Montarroyo, que é tão dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso...

Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltação febril:

―A minha vida pela d'ella! Digam-me que é preciso fazer saltar os miolos para salvar Helena e eu não hesitarei um instante!

―Socegue, socegue, meu amigo, que não será preciso recorrer a esse extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em pouco. Aqui o que é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoção que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.

a

não imagina o estado em que a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a reconheci... Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, porque se tal não fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella fosse.

―Pobre Helena!―exclamou madre Paula.

―Parece-me, pois, tornou D. Aurelia―que seria bom dispôr a nossa doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera, convem prevenil-a com cuidado...

―Sim... sim!...―concordou madre Paula.

D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel:

―Tenha paciencia, meu amigo... Já não é pequena felicidade para o seu coração o saber que Helena vive, está aqui entre nós e que, dentro d'alguns dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que é preciso é que v. ex.

a

mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de apprehensões e de tristezas que já não têm razão de ser.

E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em silencio, proseguiu:

―Deem-me licença que eu vá junto da minha amiga, tratar de a predispôr para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem dar as ordens precisas para serem convenientemente installados.

Fez uma ligeira mesura e sahiu.

D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados.

XXVII Duas amigas

No dia seguinte, muito cêdo ainda, Helena de Noronha que passára a noite socegada, accordou inquieta e perguntou á creada se já tinha chegado uma senhora que devia vir do Porto.

―Não sei, minha senhora―respondeu a creada que estava já prevenida―mas eu hei-de dizer que senti ha pouco parar um trem ao portão...

―Oh! vá saber sem demora―pediu Helena―e se fôr a pessoa que eu espero, diga a sua ama que lhe peço para a fazer entrar aqui o mais depressa possivel...

A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco depois entrava a dona da casa.

―Veio?―perguntou-lhe Helena.

―Dá-me alviçaras, minha amiga―disse D. Aurelia alegremente―porque, contra a tua espectativa, madre Paula está n'esta tua casa!

Helena levantou-se a meio no leito.

―Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que entre já!

Madre Paula, que ficára occulta com o reposteiro, penetrou de um salto no aposento, dizendo:

―Não é preciso, minha querida Helena, não é preciso, porque a tua amiga está aqui!

―Paula!―exclamou Helena, estendendo para ella os braços, n'um alvoroço de indizivel contentamento.

Estiveram assim as duas amigas por muito tempo abraçadas, n'um silencio apenas cortado pelos soluços que se escapavam do peito de ambas.

D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma terrivel eloquencia na mudez d'aquellas lagrimas que ambas vertiam ao abraçarem-se.

Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando:

―Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela caridade com que attendeste o meu pedido!

―Minha pobre Helena!―respondeu madre Paula―quantas vezes me tens lembrado nos longos dezesseis annos da tua ausencia! Procurei por mil modos saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me dava relação de ti, ninguem te conhecia, ninguem sabia para onde tinhas partido...

―Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... tão longa que só devia terminar no começo desta outra viagem mais longa ainda, que vou emprehender...

―O que! pois não ficas ainda aqui? Tencionas partir outra vez?―perguntou madre Paula admirada.

―Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais voltar... Vou emprehender a eterna viagem do sepulchro... Por isso te pedi que viesses...

―Morrer!―exclamou a abbadessa―que extranha fraqueza é essa? A vida chama-te ainda, minha querida... Tu és nova, és forte, és ainda uma mulher valida, tens um espirito são, uma alma extraordinariamente bella... Chama a ti todas as energias, reage contra os soffrimentos, oppõe ás violencias da dôr que te avassala, a força suprema da tua vontade e triumpha do abatimento physico pela energia moral.

Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que não se illudem na approximação do seu fim.

―Tu é que estás ainda a mesma, minha querida!―disse ella.―Não parece que passaram por ti dezesseis annos desde que nos separámos...

―Os meus cabellos branquearam um pouco, porque ninguem resiste impunemente á acção do tempo―replicou madre Paula―mas, comquanto um pouco mais velha que tu, não penso ainda na morte...

D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio entre as duas amigas, que certamente tinham mais importantes assumptos a tratar, interveio pedindo que a dispensassem por um instante, pois tinha que ordenar serviços domesticos da maior urgencia.

―Espera!―replicou Helena―deixa-me primeiro dizer á minha Paula quem tu és...

―Não é preciso―accudiu D. Aurelia com meiguice―já nos conhecemos desde hontem á noite...

―Sim―confirmou madre Paula―já devo a esta senhora a mais amavel e gentil hospitalidade que ha muitos annos me foi dado receber fóra do meu convento...

―Pois tu já cá estás desde hontem?―perguntou Helena admirada.

―Vim acompanhada pelo portador da tua carta e pelo reverendo padre Filipe, de quem certamente ainda te recordas...

―Oh, decerto, decerto! E como são gratas as lembranças que conservo d'esse honesto e digno sacerdote! Porque não veio elle ver-me tambem?

―Temos tempo, minha querida―disse madre Paula―Uma das principaes virtudes christãs é a paciencia... E o p ―Temos tempo, minha querida―disse madre Paula―Uma das principaes virtudes christãs é a paciencia... E o padre Filippe, que é, como acabaste de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta virtude como poucos... Elle espera, e é dos que sabem esperar...

Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou fito Helena de Noronha e perguntou-lhe em voz sumida, n'um tom de mysterio:

―E o padre Anselmo?

―Matei-o!

―O que!―disse a religiosa empallidecendo―Mataste-o... quando?

―Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser superiora da casa conventual da Covilhã...

―É extraordinario! E como pudeste...?

―O miseravel, de quem eu tinha jurado vingança, não soube, no meio de toda a sua perversa astucia, desconfiar da apparente submissão da mulher que tão infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo procurar a occultas o castigo que a sua torpeza e maldade mereciam...

―E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario?

―Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar o pae no subterraneo do convento. Oh! foi uma vingança terrivel, e esse dia, minha querida Paula, foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, desde que abandonei a casa de meu pae... de meu pobre pae que ingratamente condemnei á morte!

Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda de furor satanico, ao recordar aquelle lance supremo em que havia dado morte horrivel ao jesuita que a perdera.

Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena de Noronha, mal podendo acreditar no que ouvia.

Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas exprimiam um mundo de pensamentos.

―Sim...―disse Helena de Noronha como respondendo á pergunta muda que lhe dirigia a sua amiga―o padre Hilario foi, por assim dizer, o executor da sentença de morte a que eu havia condemnado o pae... E era preciso que assim succedesse para que a minha vingança fosse completa...

―Mas não sabia elle os laços de sangue que o prendiam a esse miseravel?

―Não o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo patenteou-lhe toda a verdade do alto da cruz onde agonisava, amarrado como o mau ladrão. Disse-lh'o por entre maldições e injurias, e a voz do sangue não fallou no meu cumplice. Assistiu impassivel á agonia do pae, que elle immolava á minha vingança e sacrificava ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa hora aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crêr em Deus, foi justamente n'esse instante em que o maior dos criminosos expiava com a maior das agonias todo o seu passado de negras infamias!

E contou então como o padre Anselmo, apparecendo-lhe mysteriosamente no convento da Covilhã, desceu á cripta, no intuito, dizia elle, de orar aos pés da cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; a maneira como, acompanhada do padre Hilario, o seguiu ao subterraneo e como, quando elle vinha sahindo, depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido surdo de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso murro, o fez cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe a porta pelo lado de fóra... Depois, os tres dias de agonia lenta, torturado pela fome e pela sêde, todas as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingança e de sangue, que teve a sua acção no medonho

in-pace

da Covilhã.

Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, chegando por vezes a suspeitar que Helena de Noronha, tomada de loucura, estivesse phantasiando uma vingança que não realisára.

―E o padre Hilario?―perguntou por fim.

―Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O pensamento que nos uniu foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos.

―Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas do remorso que o torturava?

―Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, semeando-lhe no coração o odio por mim...

A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir:

―Trahiste o teu novo amante?...

―Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o instrumento da minha vingança emquanto o necessitava e arremesseio-o para longe de mim quando já me não era preciso... O padre Hilario amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, eu não poderia vêr nunca n'esse homem senão o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha vingança estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...

―Como?

―Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para não levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.

Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso crime não havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela paixão, não duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu por um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca mais nos tornámos a vêr...

―De modo que...

―De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo.

Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelações, quasi não atinava com palavras que dissesse.

Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiança de tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, que os mais poderosos agentes da Companhia não ousariam sequer sonhar.

―O que me contas é por tal modo extraordinario, minha querida Helena―disse ella, passados instantes―que me deixa muda de assombro! Se o não ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a acredital-o...

―Oh! minha boa Paula!―replicou Helena, ainda tremendo de ira―pois acaso não teria eu razão para muito mais? Não foi aquelle maldito a ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? Não abusou elle da minha innocencia e ingenuidade de creança para me aviltar, roubar e perder, fazendo de mim sua barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao maldito que tão infamemente lançou a desgraça e a deshonra sobre mim e sobre os meus?

―Tens razão. Mas não é a justiça da tua vingança que me surprehende...

―O que é que te surprehende, pois?

―Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o teu plano...

―Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio da propria Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para junto de mim...

―Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a Companhia.

―Era essa a sua resolução inabalavel quando nos separámos... Eu não sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo mysteres humildes, improprios da minha educação... Sujeitei-me a tudo, minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de meninos, e confesso que me era menos amargo o pão em casa de meus amos do que n'esse antro maldito onde, por tua commiseração, fui elevada á dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura, minha amiga!...

―Helena―disse madre Paula―pareceu-te assim porque não amaste... Se tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe...

―Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia ludibriado e escarnecido. No meu coração só havia odio por essa infame instituição que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre Anselmo e vive da exploração cruel das suas victimas.

―E não tens, já não digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres sacrificado ao teu odio e á tua vingança esse pobre rapaz que te amava e que pelo teu amor se fez parricida?

―Era filho

d'elle

. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos... Elle proprio devia ser um monstro como seu pae..

―Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em nada o parece... nem na figura, nem no coração. É nobre, é digno, é honesto, é leal, é amoravel e trabalhador...

―Fallas de...?

―De teu filho, Helena de Noronha!

―Elle vive ainda?

―Vive e é um bello e gentil rapaz...

―Padre tambem?

―Não. É um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes, longe de nós e estranho aos funestos exemplos da falsa religião que nos victimou.

―Não te conhece então?

―Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz honra aos nobres sentimentos da sua alma.

―Sabe esse rapaz quem foram seus paes?

―Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de Noronha.

―O que! pois tu...―ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito.

―Sim―atalhou madre Paula―quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim de que sua mãe um dia pudesse reconhecel-o e amal-o.

―Oh! nunca... nunca!

―Helena!―tornou madre Paula com severo aspecto―o odio que se estende ate aos proprios filhos das nossas entranhas é perversidade que repugna á razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos, jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo, esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao amoravel sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos filhos. E quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que póde caber no coração de uma mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferença e do abandono de seus paes? Que triste herança lhe queres legar, minha amiga! E comtudo, Paulo é digno de que o amem porque nas nobres qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo, reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso homem que foi teu pae.

―Meu pae!―gritou Helena de Noronha―Paulo parece-se com elle? Não tem na physionomia os traços odiosos de monstro que lhe deu o ser?

―Queres vêl-o?―perguntou madre Paula.

―Não, não!―recusou Helena tomada de subito terror―Para que has de pôr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu não posso amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordação dos negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga, no esquecimento d'um dever que eu não tenho forças para cumprir...

Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma:

―E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou tua mãe!» sem ter que lhe confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe não dizer: «Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana... Ladrão e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que tôrpemente entenebreceu a minha razão e abusou da religião de Christo para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não... não! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada com a certeza de que elle ignorará o nome da desgraçada que foi sua mãe!

―Socega, minha querida!―tornou-lhe madre Paula suavemente―O que eu te proponho não é bem isso que tu suppões...

―O que me propões então?

―Trazel-o até junto de ti para que o vejas e ouças e possas certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feições repellentes do padre Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma tortura, a sua presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande consolação. Crê, se eu fosse mãe de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e feliz da minha maternidade.

―E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula?

―Não me apresentaria como sua mãe... exactamente como eu te proponho que o faças... A felicidade seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que sejas sua mãe...

―E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não tivesse de lhe ser dita? Não... não! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...

―Filha! é impossivel que no fundo do teu coração não esteja o sentimento mais sublime que póde nascer em peito de mulher―o sentimento do amor maternal. Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e doce, tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, terás um coração insensivel á lembrança de teu pobre e innocente filho? Vamos! não me recuses a consolação de vêr que testemunhaste, ao menos secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de dedicação e ternura. Puzeste nos meus braços um pequeno sêr, debil e fragil. Restituo-te um moço util, uma alma d'eleição.

Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. Ama-me como filho e não estranhará que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias... Queres vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho, Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raça viverão n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre pae.

Helena guardou silencio.

―Pois bem―disse ella passados instantes―deixa-me recobrar alentos... e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo tencionas demorar-te aqui, minha amiga?

―Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença...

Helena teve um sorriso estranho.

―Pois sim... Convalescerei breve...―disse n'um tom cuja sinistra significação não escapou a madre Paula.

A freira atalhou:

―É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que, conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte, justamente porque a vida te offereceria encantos.

―Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que, sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta, minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo, conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras...

―Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava... Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para aquelle que te perdeu...

―Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse já indigna da estima de um homem de bem.

―Fallas de Julio de Montarroyo?

―Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle!

―Tornaste alguma vez a ter noticias suas?

―Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de Noronha nem

irmã Dorothea

deviam existir jámais... Portanto, a minha nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras... Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu, minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã...

Calou-se offegante e exhausta.

―Comtudo...―proseguiu passados instantes―comtudo eu poderia ter trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a trouxe...

―Uma grande riqueza, dizes?

―Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte―a noite da rigorosa justiça―elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao

in-pace

... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas porque o seu thesouro ninguem o descobriria...

Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de Helena...

―Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos momentos...―disse ella.

―Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli... manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o inferno confunda!

―E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do pae?

―O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida... Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso... Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de lá...

―E viverá ainda?

―Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura, mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.

―Socega, minha amiga...―observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez mais agitada.―Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave.

Disse e saiu deixando a doente em repouso.

XXVIII Coração morto

Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia, consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.

O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia, foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.

Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.

O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam gozar na plenitude da ventura que sonharam.

No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles. Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre

Tomba

encontrara exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na sua retina de allucinada.

E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos dezoito annos decorridos.

Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia crudelissima.

Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se encararam, quasi sem se reconhecerem.

Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.

―Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?

―Diga antes, meu amigo―volveu-lhe Helena―que não esperava tornar a vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa... Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é assim?

Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e, levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:

―Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua procura.

―Pobre amigo!―murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos olhos―Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia, Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me e creia―agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro gelido da morte―creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu pobre coração de mulher...

―Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!

―Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora em rosto a minha recusa!

―Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...

―Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.

Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos labios respeitosamente exclamando:

―Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para a felicidade...

―Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o,

Julio de

Montarroyo... amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...

―Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!

―Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em Paris?―balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar―Não tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em Paris.

―Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse noticias suas?

―Nunca lhe escrevi tal carta!―bradou Helena surprehendida.

―Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não foi realmente para Paris?

―Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me perdeu!

―A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!

―Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!

―Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações, aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia, á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a minha unica aspiração n'este mundo.

Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.

―Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!―suspirou ella.―Quiz Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de mais ventura!

Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a narrativa de Julio.

Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:

―Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!

E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:

―Meu amigo―acrescentou―uma outra patria nos espera, que não esta em que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê, recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga, comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!

Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.

Julio de Montarroyo tentou socegal-a.

―Minha amiga―disse-lhe elle―é bem certo que muito temos ainda que esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na companhia d'aquelles a quem mais queremos?

Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a estas palavras.

Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.

―Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha, quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...

―O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu amigo...―balbuciou Helena, cahindo agora em profundo abatimento―Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...

―Pois bem!―exclamou Julio n'um impeto de desespero―se de todo em todo pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.

―Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a confiou?

―Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!

―Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui, deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...

Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e, extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.

XXX Confidencias

Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de Paulo dava o tractamento de

Mestre

.

O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece ser o seu discipulo querido.

―E então―pergunta elle―como vão os negocios do nosso novel irmão?

―Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro, persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha, inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso.

―De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade.

―Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu indicio compromettedor.

―E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?

―Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou.

―O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada com a eliminação d'aquella existencia...

―Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo, partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia.

―Paulo partiu para S. Martinho de Campo?―perguntou o homem dos occulos, frazindo o sobr'olho.

―Partiu.

―É singular!―disse elle―E que genero de negocio retem madre Paula n'esse logar?

―Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos annos, e que se encontrava perigosamente enferma...

O

Mestre

ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma explicação para este facto.

―É extraordinario!―disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo―é extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio...

―Tambem me quiz parecer isso.

―Bem!―concluiu o Mestre―o verdadeiro motivo d'esse estranho chamamento ha de saber-se...

―Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações...

―Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de si madre Paula.

―É coisa facil. A

Mão Negra

está de tal modo ramificada, que em toda a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a prodigiosa importancia que conquistou.

O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os olhos no seu interlocutor e disse:

―Jorge, a

Mão Negra

póde ser um instrumento do Bem, como póde ser um instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fôr alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa mysteriosa aggremiação permittem concentrar na mão de um só homem a vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um poder de tal modo irredutivel, que força alguma da terra ousará combatel-o ou destruil-o. A nossa principal força está no mysterio em que ella se exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz do dia; os seus menores movimentos, as suas mais occultas intenções poderão ser observadas e surprehendidas. Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra, e a nossa acção, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria divindade. Assim, podemos dizer: «Os homens propõem e a

Mão Negra

dispõe».

―É certo―confirmou Jorge―Mas que outro cerebro, senão o do Mestre, poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associação, de modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que só um espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a cabo tamanha e tão extraordinaria empreza.

O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe:

―Tu, meu amigo, és novo, és forte e és intelligente. A ti está reservada a alta missão de continuares um dia a minha obra, que é realmente grandiosa.

―Eu, Mestre―replicou Jorge―tenho os hombros extremamente debeis para tamanha empreza.

―Não. Tu és o unico de entre tantos que deverá succeder-me. Como sabes, eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa Associação. Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, mesmo depois da minha morte.

―Pensa em morrer? Mestre!―exclamou Jorge surprehendido.

―A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo tanto, só não póde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na vida e no pensamento da nossa Associação; e, sendo assim, eu não podia deixar de pensar em ti como meu continuador...

―Oh, Mestre!―fez Jorge commovido.

―És o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; és o unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associação; és, portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e brio, com dignidade e consciencia, as tradicções já gloriosas da

Mão Negra

. Não esqueças, meu filho, que ella é a ingente força, o supremo poder, e terá no futuro em suas mãos os destinos da humanidade.

―Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo, essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo pensa, tudo prevê e tudo resolve, como poderei eu substituil-o?

O Mestre sorriu.

―Quando eu faltar―disse elle―virás a esta casa, encerrar-te-has n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e consultarás o archivo secreto da nossa Associação. Ha aqui―accrescentou―todos os elementos de que careces para proseguir desassombradamente o caminho que encetei.

Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a preto e com fechos de metal.

―Este livro―disse elle, abrindo-o―está em branco. Quando eu morrer, basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro, aquecida, para que a tinta sympathica em que está escripto se revele e te permitta fazer a leitura. Então encontrarás aqui a historia d'este homem mysterioso a quem tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces. Este livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, é tambem toda a vida da nossa Associação. Sê prudente, sê sabio e sê justo, meu filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal feito e recebido da mão da perfidia e da traição humana.

Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente commovido.

―Mestre!―exclamou elle com voz tremula e repassada de ternura―afastemos para longe de nós a ideia da morte. Não me assusta a perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico Mestre.

Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns instantes.

Evidentemente, uma profunda commoção embargava n'esse momento a voz áquelles dois homens energicos, tão fortes e tão activos que, consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar, dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e terriveis associações secretas dos nossos dias.

―Meu amigo―disse por fim o mysterioso personagem dos oculos―era indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de partir para a grande romagem. Não é que eu pense realisal-a breve; mas como a vida é um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor á ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicações precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito, assume a direcção suprema da

Mão negra

, e o meu espirito será comtigo.

XXX Mãe

Madre Paula enviára o

Tomba

ao Porto com uma carta a chamar para junto de si o

filho

da

Irmã Dorothea

, sob pretexto de que precisava da sua companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presença o aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma.

No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de Helena e disse-lhe sorrindo:

―Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedaço do ceu azul da tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime?

―O que queres dizer?

―Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolação de sua mãe, se sua mãe consentisse em o vêr e lhe fallar...

―Meu filho!?―bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de terror―Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da minha deshonra?

―Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo é meu sobrinho, e elle proprio está longe de pensar em que se encontra tão perto de sua mãe...

―Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa angustia!

―Helena, porque teimas em te mostrar sem coração, quando toda a tua vida está provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E comtudo, a sua presença, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presença te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e continuará a vêr-te, como uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laços que o prendem a ti...

Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma acquiescencia.

As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel persuazão, que a doente nada tinha a oppôr-lhes.

―Comprehendes―disse ella―que nem curiosidade nem affecto podem mover-me a receber esse rapaz que para mim não passa de um estranho...

―E como estranho se conservará a teu lado... Quem o duvida?―tornou a religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos impertinentes e caprichosos.―Aqui, ha apenas da minha parte o interesse de que conheças teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua infancia, recordando nas suas feições as feições de teu pae...

―Pois sim... que venha!―disse por fim Helena, com visivel esforço.

Paulo foi introduzido no quarto da doente.

O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se do leito; e pois que madre Paula lhe explicára que esta approximação tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito de dolorosas preoccupações moraes que a obsidiavam, envidou todos os esforços por tornar alegre e interessante a sua conversação.

―Disseram-me que v. ex.

a

―principiou elle por declarar, dirigindo-se a Helena―ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e santa senhora que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais breve que ser possa, porque, em verdade, minha senhora, começo a sentir-me lesado nos meus sagrados direitos... de filho.

―Não é minha vontade prejudical-o...―replicou Helena fitando-o e estudando-lhe demoradamente as feições.―Quando escrevi á minha amiga Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppôr que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem...

―Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome á lettra as minhas palavras―atalhou Paulo rindo.―Isto é mero gracejo da minha parte e tanto mais desculpavel quanto é certo que v. ex.

a

se me affigura em via de um prompto restabelecimento... E como não quero passar tambem sem o meu quinhão de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida á saude e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os meus direitos a um louvor que não mereço... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a encontrar n'um estado que está bem longe de ser o que á minha imaginação se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.

a

, embora um pouco abatida pela doença, apresenta um aspecto promettedor de muita vida... Antes assim!

―É demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de...

―De Noronha, minha senhora―apressou-se Paulo a dizer, notando a hesitação de Helena.

―Ah! v. ex.

a

usa esse appellido?―não pôde Helena impedir-se de perguntar.

―Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, não sei bem porquê...

―Naturalmente, appellido de seus paes...

―Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou podiam não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me alguma coisa com verdade a esse respeito era minha mãe...

―Sua mãe!―interrompeu Helena, mal podendo dominar o sobresalto―Conhece-a?

Paulo indicou rindo madre Paula:

―Pois eu não disse ainda a v. ex.

a

que minha mãe é esta santa senhora que v. ex.

a

tem por amiga?

Madre Paula interveio:

―Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me

mãe

, não obstante saber que não é a mim que deve a existencia...

―Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci eu, que affectos, que carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que não seja a nobre e santa creatura a quem me estou dirigindo?―accudiu Paulo voltando-se para a superiora,―É bem certo―creio-o e não discuto―que devo a existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, tão independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto não envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros paes e que são madre Paula e o padre Fillippe.

―Deve então odiar muito aquelles que lhe deram o sêr...―balbuciou Helena com os olhos fitos nos do filho.

―Não os odeio, minha senhora, lamento-os.

―Por natural instincto do coração talvez...

―Não. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram no crime ou na cobardia.

―É singular! Como explica isso? Se não conheceu seus paes, como póde saber se elles fôram cobardes ou criminosos?

―A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareço no mundo, filho de paes incognitos... isto é, filho de pessoas que me negaram a paternidade ou para se não macularem a si proprias ou para me não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta acção reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque não tiveram a coragem de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua situação era de tal modo contraria ás leis sociaes que, do chamarem-me

filho

, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida resta de que meus paes fôram criminosos. De qualquer modo, dois desgraçados com os quaes não tenho nem quero nada de commum, a não ser para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser dignos e honestos, o não são, faltando aos dictames da sua consciencia e ao cumprimento dos seus deveres.

―Então, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito que teem á sua ternura, repudial-os-ia―perguntou Helena com a voz de cada vez mais sumida.

―Não, minha senhora―replicou Paulo serenamente―não os repudiaria, que não é do meu animo repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas se pedissem ao meu coração mais do que o compassivo sentimento que se tem para com todos os desgraçados, responder-lhes-ia que o meu amor e a minha ternura filial pertenciam exclusivamente áquelles que me foram paes adoptivos na infancia―a madre Paula e ao padre Filippe.

Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe n'uma commoção facil de explicar.

―Tem razão―murmurou ella―No entanto, talvez que motivos ponderosos forçassem sua mãe a...

―A não ser minha mãe?―atalhou Paulo―Perfeitamente de accordo. A mim cumpre-me respeitar esses motivos que não conheço e que nem sequer tento conhecer. Mas v. ex.

a

comprehende muito bem que, se minha mãe teve motivos para me arredar de si como a um objecto incommodo e compromettedor, eu não posso ter no fundo do meu coração razões que justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura especial por ella. De resto, nós estamos apenas formulando hypotheses que estão muito longe de factos, pois não creio que venha a dar-se o caso de meus paes um dia apparecerem a reclamar o filho que por tantos annos repudiaram.

―Quem sabe?―observou madre Paula―Não admittiste ha pouco a hypothese de que possam soffrer ou arrepender-se?

―No campo das supposições, tudo póde admittir-se, minha boa mãe, porque tudo póde suppôr-se... Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos com um assumpto que não interessa a nenhum de nós, e principalmente a mim? O facto é, minha senhora―proseguiu elle, voltando-se para Helena―que eu, a despeito da irregularidade do meu nascimento, sou feliz quanto o póde ser um homem nas minhas circumstancias.

―Deve muito á Providencia, visto isso!―disse Helena suspirando,―ha tão poucas pessoas que, mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!...

―É certo. Porém eu, até agora, e presentemente, posso considerar-me a mais feliz das creaturas. Abandonado por meus paes...

―Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?―atalhou, docemente reprehensiva, madre Paula―É muito avançar, quando nada sabes a esse respeito, Paulo!

O mancebo sorriu.

―Se eu penso assim, a culpa não é por certo minha, mas tão somente d'aquelles que tenazmente se teem recusado a dizer-me uma palavra unica que me illucide ácerca do meu nascimento.

E voltando-se para Helena:

―Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente do amparo e dos carinhos do padre Filippe e de madre Paula, que considero meus paes pela grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. Não conheci outros, nunca me fallaram de outros, nunca d'outros me deram noticia. Já homem, tive um momento na minha vida em que senti a necessidade cruel de penetrar o mysterio do meu nascimento para poder dizer á mulher que amava e que escolhera para companheira de toda a minha existencia, o nome de meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me que não os conhecera, que d'elles não tivera nunca noticia, e que eu fôra passado á sua benevolente e humanitaria tutella, como um

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