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Os Filhos do Padre Anselmo

Front matter (continued 5)

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―Mas não é preciso nada d'isso, homem!

―Não é preciso? Pois você diz que com pannos quentes não se arranja nada e acha que não é preciso empregar a força?

―Acho que se póde empregar a força, sem que você passe por ser um pae cruel...

―Pois está claro que eu tambem não vou empregar a violencia diante de gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua. Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites!

―Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força que nós podemos empregar muito bem e a que a pequena não terá remedio senão obedecer...

―Mas que força é essa então?

―É a força das circumstancias, homem! Quem é que não se dobra á força das circumstancias?

―Ó demonio, mas essa força já eu empreguei; já disse á pequena que as nossas circumstancias não podiam ser mais desgraçadas e nem assim consegui convencêl-a.

―Pois bem; mudemos de systema―disse o Belchior, piscando um olho.

―Mudemos do systema como?―perguntou o Custodio, sem comprehender.

―Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a largal-a a ella...

―Quer você dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite quando elle cá vier á porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de tomar o freio nos dentes e então é que não haverá forças humanas que a obriguem a acceitar este casamento...

―Ninguem falla em empregar esses meios violentos...

―Não?

―Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o caso é outro...

―Mas então diga lá.

O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse:

―A questão é você querer...

―Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem!

―O processo é um bocado exquisito, mas dá resultado...

―Se dá resultado, vamos a elle!―concordou o Custodio―Então como é isso?

―É d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena...

―Hein! O que? Rapta-se?

―É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas de modo que a rapariga não tenha remedio senão casar com o Eugenio...

―Mas...―obtemperou o Custodio indeciso―torne a dizer, que eu não percebi bem?...

―Isto não tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae você com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais longe com a Beatriz, a admirar a paisagem...

―Sim... E depois?

―Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois amigos, salta de lá, agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas já é tarde―não lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente...

―O resto... Mas qual resto?

―Ora qual resto! O casamento. Pois que quer você que se siga senão o casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, não terá remedio senão acceitar por marido o homem que a raptou...

―Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim recusar...

―Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabeça ou com outro qualquer que não seja o Eugenio, não terá remedio senão resolver-se...

―E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim desiste?

―Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella desacreditada, só se elle não tiver vergonha.

―Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso não... isso é que eu não consinto! Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou para me sujeitar e andar fallado nas bôccas do mundo!―recusou honestamente o marido de D. Carlota.

―Que diabo! Você não sabe que tudo isto é uma

planta-fórma

para obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada, uma vez que o raptor a receba por mulher?

O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que ruminando o plano do seu amigo Belchior.

―A coisa―disse elle por fim―talvez desse bom resultado... Mas isso era um escandalo de seiscentos diabos!

―Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que convinha...

―O que! Convinha o escandalo―interrogou o Custodio escandalisado―Então você quer que eu, como pae―porque afinal ella não tem outro―goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida

em

escandalos?

―Você não comprehende, Custodio, você não comprehende... Isto era escandalo e não era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que convinha...

―Mas convinha porque?―insistiu o Custodio.

―Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois d'este escandalo, comprehenderia que não podia casar com outro homem, senão com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em alimentar no coração essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora, não teria remedio senão curar-se, porque o rapaz, depois d'ella desacreditada, não a queria e não lhe tornava a apparecer... Depois da

praça

abandonada, que remedio terá a pequena senão render-se?

―Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como é rapaz e estroina, depois de a ter raptado, não se resolve a tomal-a por mulher, senão debaixo de certas condições?

―Quaes condições?

―Por exemplo... exigir que eu augmente o dote á rapariga e querer que se façam escripturas, de modo que o que é d'elle fique perfeitamente a coberto...

―O Eugenio não é capaz d'isso!―protestou o Belchior.

―Eu sei lá! A gente vê caras e não vê corações... Depois da rapariga perdida, eu não terei remedio senão sujeitar-me ás condições que elle impuzer... Nada, isso não é bom plano.

―Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos do negocio, porque não vejo outro meio...

―Desistir tambem não... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com ordem de a tratarem com rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao namoro, isso desse bom resultado.

―Não dá resultado nenhum. Que diabo! Você é um homem desconfiado com quem se não póde tratar nada a sério...

―O mal dos meus burricos é que me tem feito alveitar―volveu o Custodio coçando a suissa―Por eu ter confiado demais nos amigos é que aquelle ladrão do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois é que eu vim a saber tudo... Mas era tarde, já lhe não podia dar remedio...

―Pois sim, mas agora não se trata de lidar com gente de sotaina... Você conhece-me ha

muito

tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus interesses como se fossem meus...

―Bem sei isso, mas o caso não é propriamente com você, Belchior. Se fosse você que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos fechados, porque bem sei que você não era homem capaz de faltar ao que promettesse... Mas com esse rapaz o caso é outro...

―Não é outro nada...―replicou o Belchior.―Se elle se comprometter comigo a casar com a pequena nas mesma condições em que está tratado, cumpre com toda a certeza.

―E se não cumprir?

―Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir por uma barra fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a justiça...

―E o que lucrava eu com isso?―perguntou o Custodio com um sorriso velhaco.

―O que lucrava?

―Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse todos os haveres pela maroteira feita a mim?

―Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o caso era sério, chegava-se á razão... Você não comprehende?

―Comprehendo... isso comprehendo eu...―mascou o Custodio indeciso.

―Então, se comprehende, que mais quer?

―E você compromette-se a fazel-o cumprir?

―Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... Não lhe digo que você está feito comnosco, porque, emfim, você é pae e é preciso salvar as apparencias...

―Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não perder o respeito.

―Justissimo! É isso mesmo!―apoiou o procurador.―Offereço-me a proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condição de que ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja encontrado com ella.

―Justo!―disse o Custodio.

―Porque, se assim não fizer, compromette-me e então será comigo que elle terá de se haver... Está bem assim?

―Está optimo!―apoiou o Custodio radiante.

―E o dito dito―tornou o Belchior―eu levo a percentagem combinada...

―Isso está sabido. Arranje você as coisas de modo que o casamento se faça nas condições combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.

XVI O rapto

Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz, que fôra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada por não poder furtar-se ao convite que lhe não proporcionava o minimo prazer.

O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito cêdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez lhe puzesse a saude em risco.

―Ora a minha desgraça!―clamava elle―Não basta ter tanta coisa que me afflija, senão ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo campo, a apanhar sol e a aturar senhoras!

―Mas se o papá não quer―propoz Beatriz―manda-se dizer que está doente e não vamos...

―Isso não! Não póde ser. O Belchior ficaria desgostoso...

―Mas se é um caso de força maior...

―Não, já agora, estou a pé, sempre vou... Não quero que o homem supponha que não tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto custa-me muito, porque a minha idade já não permitte estas folias...

A este tempo parava um trem á porta e o Belchior e a familia subiam açodadamente, gritando:

―Então vamos?

―Vamos lá... estou prompto!―disse o Custodio ao Belchior―A pequena tambem já está

preparada

, acho eu...

A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz n'uma grande alegria:

―Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda n'esse estado?

―Estou prompta. É só levar para o carro um pequeno cesto com umas coisas que mandei preparar...

―O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós levamos alli comida que chega para um regimento!...

―Por demais não perde...―apoiou o procurador―Vamos embora que são horas... O bonito é sahir cedo para andarmos por lá todo o dia...

Entraram no carro, um

char-á-bancs

enorme, e seguiram as duas familias aos solavancos em direcção á quinta da Lavandeira.

A mulher e a cunhada do procurador não faziam senão soltar exclamações de admiração e alegria, encantadas com a paisagem.

A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito.

Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos caseiros,

seguiram os

passeiantes por baixo do copado arvoredo, dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro pelos dois homens.

O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu o cocheiro, dizendo-lhe que não voltasse, porque regressariam a pé para a cidade.

―Vamos indo devagar por ahi fóra e até é mais pittoresco... não acha, amigo Custodio?

―A distancia, realmente, não é grande...

―Em chegando á Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres desce-se bem...

―Eu cuidei que o passeio era para mais longe―disse a mulher de Belchior.

―Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta é bonita e é muito grande, dá bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem é o ar...

Passou-se o dia como não podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que não lhe offerecia o menor sentimento de agrado.

O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador, esgotado o reportorio da má lingua contra a vizinhança e varias outras familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra de uma arvore frondosissima, começaram a cabecear com somno.

Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo passeio.

Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor.

Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez não lhe fosse possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia tão horroroso.

Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas noites que não apparecia a fallar-lhe.

Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas não se affligisse ella, porque elle voltaria com boas novas.

―Mas o que vaes fazer?―perguntara-lhe interessada em tudo o que o mancebo intentava.

―Permitte-me que por ora t'o não diga, meu amor. Breve saberás tudo e tenho bem fundadas esperanças de que has-de applaudir o meu procedimento.

Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios, quando Paulo não tinha tido até alli um unico pensamento que lhe não communicasse, impressionou-a.

E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, além das mágoas intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o soffrimento a presença de pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe pelo menos antipathicas.

Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma grande polemica a proposito de uma questão commercial palpitante; e com grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um ao outro, sem chegarem a accôrdo. De modo que, esquecidos da distancia que os separava do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde.

A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio pela fresca.

―São horas de nos irmos chegando a casa...―advirtiu a mulher de Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando.

―É verdade, vamos indo...―disse o procurador, travando de braço de Custodio para continuar na discussão acalorada em que estava interessado.

E voltando-se para as senhoras:

―Andem lá adiante...

Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta.

As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, tomaram a dianteira, e muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns numeros mais populares de uma revista em voga.

―Ah! que dia tão bem passado!―exclamava a cunhada do procurador―Não ha nada para abrir o appetite e dar saude á gente como é um passeio ao campo!

―E a noite está linda!―accudiu a mulher do Belchior―dá mesmo gosto passeiar por uma noite assim! Não gosta do campo, Beatrisinha?

―Não desgosto...―volveu a namorada de Paulo com o coração oppresso de ignoto receio.

O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados na controversia, paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo argumentos sem tom nem som.

Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que queriam encontrar-se no momento do assalto.

―Deixe-as ir... deixe-as ir...―murmurava o Belchior―Quanto mais longe estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva á pequena.

Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da estrada, as damas deram de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem.

Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direcção que ellas levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois homens mascarados saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais leve resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do carro, que partiu em carreira desabrida.

―A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande afflicção.

Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito açodados, perguntando:

―O que é? O que aconteceu?

―Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram com ella dentro d'aquelle trem!

E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada.

―E ella não gritou?―disse o procurador.

―Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a pobresinha não se tornou a ouvir!

―Talvez a amordaçassem...―aventurou o Belchior.

―Ou talvez perdesse os sentidos...―concluiu a mulher.

O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mãos á cabeça, não fazia senão gritar:

―Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de mim, que me roubaram a minha filha!

―Um rapto!―gritava o procurador―O crime foi praticado de noite, e de noite bastam os indicios... Vamos já ter com a auctoridade da freguezia e apresentemos-lhe a queixa...

―E quem diremos que foi o raptor?―

perguntou

o Custodio.

―Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser?

― Sim... foi elle...

―Está visto que foi―tornou o procurador―Elle queria, ella não queria... raptou-a!

E em tom mais baixo:

―Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos perfeitamente, que é para o entalarmos logo desde o principio, de modo que não haja outro remedio senão fazer-se o casamento sem escripturas.

―Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto não é coisa que se faça a um pae!

―Mas que coisa! que coisa!―dizia a mulher do procurador, simulando a maior consternação.―Ainda não estou em mim!

―Ai, meu Deus!―accrescentava a cunhada―Em que perigo nós nos mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a mim!

―Á senhora?!―disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso escarninho.

―E então?―retorquiu a cunhada do Belchior, offendida―Eu sou solteira, e elles eram dois...

―Ahi está a prova!―affirmou o procurador―Vinham dois e raptaram só uma... Logo, provará que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... Vamos ter com o regedor para perseguir os fugitivos!

Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois das nove horas da noite.

Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e contaram-lhe o succedido.

―E para onde fôram elles?―perguntou o funccionario.

―Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e afinal perdemol-os de vista...

―Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem?

―Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer, deixando vêr o rosto, e todos nós reconhecemos um rapaz que vive no Porto e que se chama Eugenio de Mello.

―Bem!―concluiu o regedor―Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vêr se descobrem os criminosos... E amanhã dou parte para a administração. Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá para formularem a queixa.

E preparando-se para tomar nota n'um papel:

―Os seus nomes, fazem favor?

O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso.

―Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia―disse o regedor―a vêr se se encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr. administrador terá conhecimento do facto e tomará as providencias precisas...

―Veja v. s.

a

, sr. regedor, a situação em que me encontro com uma filha roubada nas minhas barbas!...―lamuriou o Custodio.

―E demais a mais, menor!―declamou o procurador―É crime de casamento ou penitenciaria!

―Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem!―Concluiu o regedor.

―E agora―disse o Belchior muito solicito―em chegando á cidade, vamos direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa...

―Está visto...―apoiou o regedor―Ninguem sabe o caminho que os fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos, póde muito bem fazel-os capturar...

―O que vale é que nós conhecemos o raptor...

―Sim, isso é meio caminho andado―disse o regedor―e se tivessem photographias, ainda melhor...

―A verdadeira photographia é o nome―accudiu o procurador―Elle é conhecido.

―Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão na minha freguesia, mas não me parece... Amanhã, amanhã na administração do concelho, o snr. administrador dará as ordens.

Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de empacotar prégos para a Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu sahir.

―E d'aqui para a policia!―bradou o Belchior já na rua.

Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direcção á cidade.

―Tudo correu bem!―segredava o procurador ao Custodio―Agora, na policia, é que a coisa vae dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes...

―Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me a rapariga perdida!

―E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, porque não terá outro remedio senão casar com o Eugenio...

―Sim... isso é verdade.

―Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, melhor. Deixe fallar os jornaes... Tomaramos nós que elles berrassem bastante... Até nos convinha...

―Mas os jornaes só depois d'amanhã é que se occuparão do caso, porque já hoje não vão á policia...

―Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é preciso não deixar arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de casar, quer queira, quer não!

Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia dos dois mascarados que a raptaram.

Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braços possantes e atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a commoção que soffreu, que perdeu

os sentidos

.

Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada de ternura, pegando-lhe na mão:

―Beatriz!

Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, não se mexeu.

―Beatriz!―tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mão fina e delicada.

O mesmo silencio e a mesma immobilidade.

Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto, poz-lhe a mão na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a filha do Custodio não respirava.

―Perdeu os sentidos!―disse elle visivelmente commovido.

―É natural―replicou o companheiro.―Compleição franzina e delicada, assustou-se e desmaiou.

―E agora?―perguntou o que primeiro fallara.

―Agora é caminhar... caminhar sempre até chegarmos a casa... O trem vae em boa carreira e não devemos demorar muito a chegar lá.

E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e afflicto:

―Não te assustes―tranquillisou.―Isso passa. É um ligeiro deliquio, que até nos favorece o bom exito da empreza.

―Parece-me que não somos seguidos.―tornou o outro, inquieto.

―Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava tão bem combinado e tudo correu tão de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos foram os proprios que nos auxiliaram?...

―É verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras adiante...

―Já esperavam o lance, os patifes!

―Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara d'elles quando souberem que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam assignalado...

―Era para Villar do Paraiso, pois não era?

―Era.

O trem havia descido a rua do General Torres e parara á entrada do taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem.

―Estamos na ponte―disse o primeiro dos dois desconhecidos.

―Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. É questão de meia hora.

Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, até que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um largo portão de ferro.

―Eis-nos, emfim!―disse um dos dois raptores.

E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.

Immediatamente o portão se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo, seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, até junto de uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos campos que a circumdavam.

Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braços Beatriz, ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada.

Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e rapidamente, correndo-se um reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez aspirar a Beatriz um frasco de saes.

Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em Beatriz, sem preferir palavra.

Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria.

―Paulo! És tu?―disse ella.

―Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe na mão e beijou-lh'a com transporte.

―Paulo!―tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada―o que é isto? Como me encontro eu aqui?

―Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de um enorme perigo...

―Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu Deus!―disse ella, recordando-se da scena estranha que se déra.―Mas como pudeste tu saber?

―Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo com teu pae e com o procurador Belchior―esclareceu Paulo:―Era uma cilada infame que te estava armada e em que te queriam fazer cahir...

―Com o consentimento de meu pae?!―gritou Beatriz horrorisada.

―Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da desgraça a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.

―Ah! então os dois homens que me assaltaram no caminho e me lançaram dentro do carro...

―Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo que te queriam impôr, estás ao lado do escolhido do teu coração!...

Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto d'ella, o estava fitando com expressão de ternura maternal.

―E esta senhora―disse ella―quem é?

Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu á pergunta:

―É uma amiga que muito a estima e que só deseja a sua felicidade, minha filha.

―É minha mãe!―accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mão á religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares.

Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:

―Este louco―disse ella―teima em querer impôr-me um titulo que me não pertence e a que de forma alguma tenho direito...

―Não diga isso, minha mãe!―protestou Paulo―Pois quem me acalentou na infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de uma mãe por seu filho? Conheci eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar junto do meu berço outro coração que não fosse o seu, grande e generoso?

―Mas, meu filho...―ia a dizer madre Paula commovida.

―Meu filho! vês?―interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz―Diz que não é minha mãe e chama-me seu filho!

Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doçura:

―«Meu filho», é a formula terna, cariciosa do meu tratamento para comtigo... Mas se me deves affeições e cuidados que outra qualquer no meu logar te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem direito á funda veneração e aos ternissimos affectos do teu coração de filho...

―Outra!―exclamou Paulo indignado―Quem quer que ella seja não a conheço, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem a natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a este mundo, é tão pouco o que lhe devo em affeição e tanto o que d'ella me veio em dôres e soffrimentos, que já faço muito não a odiando, para sómente sentir por ella indifferença.

―Paulo, não digas isso!―reprehendeu madre Paula―Sabes que me mortificas fallando assim. Não te aconselhei e não busquei sempre incutir no teu coração o sentimento do amor e respeito que se deve aos paes?

―Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos não foram esquecidos nem os seus esforços baldados. E a prova é que a amo e a respeito com todas as véras da minha alma, com todas as forças do meu coração. Mas como quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de respeitosa veneração por uma outra que não conheço, que nunca vi, que me abandonou e me deixou entregue á generosa caridade de seu nobre coração, minha boa e santa mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo tudo o que um filho deve a sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a protecção o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. Quem é, pois, minha mãe? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a estima e gratidão que constituem a obrigação de um filho para com seus paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sêr e me abandonaram?

E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta scena:

―Responde tu, minha amiga! Tu, que tens sido tambem victima da crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento te torturava, consulta o teu coração e dize-me se sentes por elle o mesmo enternecido affecto que sentias por tua mãe, de quem me tens fallado com tão viva saudade?

Beatriz corou e disse:

―Se é um crime não amar os paes, que, depois de nos terem lançado ao mundo, se julgaram dispensados de ter por nós disvellos e amoravel compaixão para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem uma grande criminosa... Por meu pae não senti nunca o suave e dôce affecto que me inspirava minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e bondosa para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. Nunca me dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a não ser agora, nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia... inclassificavel, queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de um homem que eu não podia amar. Até ahi, porém, só teve para mim arremessos, gestos bruscos, despotismos de senhor que se vê compellido a tolerar um escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha mãe, esse mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, não me escrevia uma carta, não buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me prostrava no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal, este dôce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que não existia n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus a morte. E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras ao receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque é que a lembrança de meu pae não despertava em mim o mesmo sentimento, e o meu coração ficava frio e indifferente.

Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres.

―Minha filha―disse-lhe a abbadessa―eu creio bem que, apesar de não sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, não sentiu nunca por elle indifferença e muito menos odio...

―Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu não pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os sentimentos do meu coração.

E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado.

―E todavia―observou Paulo―esse homem não tem o minimo direito á obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce á ignominia de consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o homem que ella detesta, é um miseravel, um monstro despresivel, não é um pae!

―Paulo! Paulo... então!―supplicou Beatriz.

Madre Paula interveio:

―O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, não ha duvida; mas a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha.

E dirigindo-se a Beatriz:

―Minha menina―accrescentou―agradeça ao céo o havel-a protegido e amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do seu coração e grave offensa da sua reputação e da sua honestidade. Aqui se conservará em minha companhia, se assim o deseja, em quanto não puder livremente dispôr do seu destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao escolhido do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe e serei uma garantia segura da rectidão e honestidade de seu comportamento. Quer assim?

―Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente agradecida por tanta bondade e tão valiosa protecção!

―Paulo virá vêl-a―continuou Madre Paula―mas fallar-lhe-ha sempre na minha presença, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e correcção com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois, que d'este modo concorrerei para a realisação dos seus mais vivos e ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a honra e a reputação dos meus queridos filhos.

Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mão da gentil abbadessa.

Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente maternal, disse para Beatriz, levantando-a nos braços:

―Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve refeição e acompanhal-a em seguida ao seu quarto.

E dirigindo-se a Paulo:

―Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a estima e o affecto que ―Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a estima e o affecto que tens encontrado no meu coração.

XVII Quem semeia ventos...

O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.

O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.

A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio, esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos acontecimentos.

―Agora, amigo Custodio―disse-lhe o Belchior―como tudo correu á medida dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a fazer-se...

―Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da quinta...―respondeu o Custodio com um sorriso velhaco―o casamento vem em bôa occasião.

―Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao fundo...

Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte.

Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para, saber que novidade tinha havido.

―É bôa!―disse o procurador á mulher―Este maluco rapta a rapariga e quer que eu lhe diga a novidade que houve!

―Mas―observou a esposa―quando te deixou elle esse bilhete?

―Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o por algum portador de confiança, depois do rapto.

―Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou...

―É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella para Villar do Paraiso como haviamos combinado?

―Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?...

―Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido... Nada, aqui houve tolice do rapaz...

Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que levava o negocio do casamento a bom caminho.

No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio entrou:

―Então?―disse-lhe o procurador.―Você já aqui, em vez de estar a convencer a pequena!

―Qual pequena?―interrogou Eugenio, sem comprehender.

―Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez?

―O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla...

―Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a Beatriz?

―Eu?!

―Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!

―Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum...

―Mau!―disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava gracejando.―Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas brincadeiras!

―Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois d'isto, fosse raptar a pequena?

―Com os diabos!―berrou o procurador, desesperado.―Mas eu vi! Você, quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!

E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira grossa:

―Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar... Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se deixe enganar!

O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio zombeteiro, meio ameaçador:

―Você está doido, amigo Belchior?

―Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de cumprir tambem, ou então temos muito que vêr!

―O que quer você dizer com isso, Belchior?

―Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei, com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você lhe pareça o contrario!...

O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.

―Homem, não se zangue e fallemos sério―disse elle, procurando serenar o Belchior.―Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a dizer...

―Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o fazer preceber...―tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que o aventureiro o queria enganar.―É preciso que se lembre de que eu estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o contrario, que eu não o acredito.

―Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui!―protestou Eugenio, verdadeiramente espantado das affirmações do procurador.

―Não foi! Então quem foi?

―Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...

―Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?

―Certamente. Eu estava no

Suisso

, eram quatro horas da tarde, conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem, que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe:―«Onde está o sr. Belchior?»―«Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria você que eu fosse raptar a pequena?

O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.

Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do bohemio.

―Sim... tudo isso está muito bem―disse elle.― Mas o peor é que a rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada viram, e ninguem podia ter sido senão você...

―Mas você não está gracejando, amigo Belchior?―interrogou por sua vez o bohemio.―Realmente Beatriz foi raptada?

―Essa agora! Então não sabe que o foi?

―Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado...

―Dos prejuizos... Que prejuizos?

O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção:

―Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois, entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...

―Com seiscentos diabos!―gritou o procurador desvairado―Então já o ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli, e o preto no branco falla como gente!

E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.

―É verdade!―replicou o rapaz com soberano despreso―E esse preto no branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre!

―Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa!―berrou o procurador n'um gesto de ameaça.

―Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar.

―Pulha!―regougou o Belchior, rouco de colera―Ponha-se lá fóra! ponha-se lá fóra!

O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido de medo, foi recuando até á parede.

Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa sobre o hombro, disse:

―Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena. Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus!

O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se apressado a casa de Custodio.

Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos haviam combinado dar-lhe.

―É incrivel―murmurava elle―a desfaçatez com que aquelle maroto nega uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise... Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles!

Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no momento mesmo em que este se preparava para sahir.

―Ia agora mesmo a sua casa―disse-lhe o agiota.

―Sim? Então o que ha de novo?―perguntou-lhe o Belchior, que tivera tempo de serenar e recobrar o sangue frio.

―Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que fizemos hontem ao regedor e á policia...

―Pois está claro que sim!―tornou o procurador―Agora é carregar-lhe com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo que elle não possa negar ainda que queira...

―Você julga-o capaz d'isso?―perguntou o Custodio em sobresalto.

―Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso que a gente tenha força nas declarações para o obrigar.

―Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto...―observou o Custodio desconfiado.

―Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar. Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo...

―Eu estou prompto!―volveu o Custodio―Diga você como quer que puxe...

O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame negocio.

―Trabalha por conta propria―pensou―e quer vêr se faz jus a mais dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!

E voltando-se para o Custodio de Jesus:

―É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci, porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha mulher e minha cunhada juram a mesma

coisa

... e você, já se sabe, tem de dizer comnosco... não nos póde contradizer...

―Ágora contradigo! N'essa não caio eu...

―E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá...

―Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar?―insistiu o Custodio de cada vez mais apprehensivo.

―A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor...

―Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya.

Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram um trem á hora e partiram para Villa Nova.

XVIII Revelação

O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de ter assistido aos ultimos momentos de Maria do Carmo, tirou da sotaina a sacca das libras e o manuscripto que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para dentro da gaveta da sua secretária, sem se dar pressa em observar de perto o estranho legado.

Vinha fatigadissimo e como a idade já lhe não permittia prolongadas vigilias, recolheu-se ao leito, reservando para o dia seguinte o exame do mysterioso manuscripto.

A confissão da velha, porém, impressionara-o.

Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, pelo que lhe dissera madre Paula, que o novel capelão da Covilhã era filho do padre Anselmo. O que de todo o ponto ignorava eram as particularidades que a velha lhe revelára nos ultimos momentos.

Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem d'aquelle filho que o padre Anselmo parecia querer encobrir, não obstante a grande protecção que sempre lhe dispensára e que era o que afinal trahira o seu segrêdo. Mas, comparando os relativos cuidados havidos para o padre Hilario com o abandono a que Paulo fôra votado, o padre Filippe não sabia explicar a differença, senão pelo grau de affecto que separava aquellas duas mães no coração do padre Anselmo.

Todavia, madre Paula suppunha a

Irmã Dorothêa

vivendo em paiz estrangeiro, protegida pelo seu seductor, a essas horas talvez elevado ao cargo de Provincial ou Assistente, com outro nome diverso do que a principio tivera. E n'este caso, como é que os dois esqueceram Paulo, deixando-o entregue aos cuidados de duas pessoas amigas, de quem mais não quizeram saber?

Emaranhado n'esta ordem de considerações, o padre Filippe adormeceu, reservando para o dia seguinte a leitura do manuscripto, que talvez viesse fazer luz em tão escuro labyrinto.

Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos nós avaliar pela conversação que, na tarde d'esse mesmo dia, se travou entre elle e madre Paula, na casa das Sereias.

―Sabes, minha amiga―disse o padre Filippe, entrando na cella da abbadessa―que tive noticias do padre Anselmo?

―Sim?―perguntou madre Paula com curiosidade.

―É verdade. Noticias bastante retardadas, mas em todo o caso novas para mim e creio que tambem para ti...

―Decerto. Ha muitos annos que não tenho noticias do padre Anselmo. É ainda vivo?

―Não sei. A pessoa que d'elle me fallou é já morta, e, ao expirar, não soube dizer-me se elle ainda vivia.

―Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo?

―Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura muito d'elle...

―Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a vi duas ou tres vezes procurar o padre Anselmo, quando elle se demorava n'esta casa.

―Eu não a conhecia, mas fui chamado hontem á noute para a ouvir de confissão, porque a pobre creatura não queria morrer sem fazer revelações importantes.

Contou então toda a conversação que tivera com a moribunda e o legado de que ella o fizera depositario.

―E o manuscripto o que diz?

―O manuscripto―replicou o padre―é uma sentida e commovente narrativa feita pela mãe do padre Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu nascimento e dando conta dos funestos amôres que, desde muito nova ainda, a ligaram ao padre Anselmo...

―É singular!

―Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa mulher não vira mais o filho desde o momento em que o déra á luz. O padre Anselmo arrebatara-lh'o da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua educação, conservando no mais rigoroso mysterio as circumstancias do nascimento d'aquella creança. Chamava-se Carlota a mãe, e por suggestões do padre Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado Custodio de Jesus...

―Custodio de Jesus!―repetiu madre Paula, sobresaltada.

―Sim, Custodio de Jesus―tornou o padre Filippe―Porque te sobresalta esse nome?

―É porque Custodio de Jesus se chama tambem o pae de Beatriz, a namorada de Paulo; e creio ter ouvido dizer que esse homem residira primitivamente em Braga.

―É extraordinario!―exclamou o padre Pilippe―Dar-se-ha caso que Beatriz seja filha da amante do padre Anselmo?

―Não sei. É possivel, como é possível que a propria Beatriz seja... irmã de Paulo.

―Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo que não transpire a menor suspeita do que se trata.

Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa.

―Chamava-se D. Carlota―disse―a mãe do padre Hilario?

―Chamava.

―É ella mesma quem se declara casada com Custodio de Jesus, no manuscripto que te veio ás mãos?

―É. E posto não diga claramente que as suas relações intimas com o padre Anselmo continuaram, bem o deixa perceber nas differentes passagens em que se refere ás supplicas que frequentemente lhe fazia para que a deixasse vêr e beijar o filho, seu unico amor, sua unica aspiração.

―De modo que―tornou ainda madre Paula―se Beatriz é filha de D. Carlota...

―Não haverá remedio senão impedir por todos os modos o casamento d'essas duas creanças, ainda mesmo que não tenhamos a certeza moral do impedimento dirimente.

―E teremos então que revelar a Paulo o segredo do seu nascimento?

―Não me parece que o devamos fazer emquanto não tivermos esgotado todos os outros meios ao nosso alcance.

―Paulo ama loucamente essa menina e é correspondido com igual vehemencia por parte d'ella... Creio bem que será empreza difficilima arrancar ao coração dos dois um sentimento que alli tem creado tão fundas raizes.

―Buscaremos convenientemente empregar os nossos esforços no sentido de suavisar o melhor que pudermos o golpe que talvez sejamos obrigados a vibrar-lhes... E se queres que te diga, minha querida, acho extemporaneas quaesquer considerações a esse respeito... Primeiramente, devemos informar-nos acerca da identidade d'esse Custodio de Jesus. Póde muito bem acontecer que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos, se trate apenas de um homonymo do marido de D. Carlota.

―Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias do convento.

―O que não convem―recommendou o padre Filipe―é que Paulo tenha conhecimento d'estas nossas indagações que não devem perder o caracter do mais intimo segredo...

―Descança, meu amigo. Paulo nada saberá.

N'essa mesma tarde, madre Paula chamou á sua cella uma das serventuarias do convento e incumbiu-a de averiguar e saber de certeza certa quem era Custodio de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, qual o seu estado, e como se chamava a mãe de Beatriz.

―Quero saber isto com a maxima exactidão e a mais breve possivel―disse madre Paula.

―Isso é uma coisa que eu vou já tratar de saber... Alli perto tenho uma alminha do senhor, muito devota e que sabe a vida de toda a gente da vizinhança... Ella diz-me tudo assim que eu lá fôr...

―Veja lá, olhe que tenho o maximo interesse em saber tudo...

―Ó minha senhora! Fique vossa maternidade descançada que lhe trago aqui tudo sabidinho, sem faltar nada... Eu parece-me que essa familia não é lá de grande religião, porque não tenho ideia de a vêr muito pelas igrejas...

―Saiba se esse Custodio de Jesus é de Braga e se vive cá no Porto ha muito tempo.

―Sim, minha senhora.

―Saiba tambem se a mãe da menina que é filha d'elle, e que se chama Beatriz, tem o nome de D. Carlota...

―Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso...

Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava com tudo sabido.

―Já aqui estou de volta com tudo na ponta da lingua!―disse lépida a cuscuvilheira.

―Então, o que soube?

―O homem é de Braga, chama-se Custodio de Jesus e já cá está no Porto ha muitos annos. Empresta dinheiro sobre

hybotécas

e pelos modos leva coiro e cabello... Tem má fama, mas é home de dinheiro...

―E a familia?

―A familia é só elle e mais a filha e mais a creada―uma

focinho de cão

que primeiro que se lhe

arrinque

uma palavra do bucho é um dia de juizo!

―E a mulher? Elle não é casado?

―Já é viuvo duas vezes. A primeira mulher morreu-lhe ainda elle estava em Braga... Chamava-se D. Carlota e d'essa não teve filhos. A segunda chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama de trazer mundos e fundos, mas acho que eram mais as vozes do que as nozes...

―E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem?

―Pois já se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro muito rico...

―Então esta menina Beatriz é filha da segunda mulher, da tal snr.

a

D. Anna?...

―É como diz, minha senhora! Ella é um palminho de cara muito bonito... E parece que não ha de ter mau interior; mas o pae, que é má farda, não a deixa pôr pé em ramo verde... Veja lá como aquella alminha ha de estar carregada de peccados!

―Tem vocemecê bem a certeza de que essa menina Beatriz é filha da segunda mulher do Custodio de Jesus?

―Então não tenho, minha senhora?! Aquillo foi chegar a casa d'aquella santa Maria do Rosario e ella contar-me tudo p-a-pá Santa Justa, nem que estivesse a lêr n'um livro aberto! E olhe que ella não me engana, porque quem lhe disse tudo, como era e como não era, foi a criada do seu

préscurador

chamado o

snr. Mélchior

, que é lá todo da casa do Custodio de Jesus e mais as senhoras d'elle, que são as que contam estas coisas todas diante da criada... Inda ella honte lá esteve, porque agora, pelos modos, vae lá um inferno em casa p'ra amôr do namorico―Credo! Santo nome de Jesus!―que a pequena traz com um estudante que se chama Paulo... E o pae quer mas é que ella case com oitro, que diz que é pôdre de rico.

―Está bem!―disse madre Paula.

―Veja lá a senhora as

desgracias

que vão por esse mundo, tudo causado pela falta de religião e temor de Deus!...

―Está bem!―repetiu madre-Paula, despedindo a devota onzeneira.―Vá na graça de Deus e escusa de dizer a alguem que eu a incumbi d'este serviço...

Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre Paula disse jubilosa:

―Já sei tudo. O pae de Beatriz é o mesmo Custodio de Jesus, marido da D. Carlota do padre Anselmo... porém, esta pequena é filha do segundo matrimonio... A mãe era uma tal D. Anna, que tambem já morreu, pois que o Custodio de Jesus é viuvo duas vezes...

O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula:

―As tuas informações condizem perfeitamente com aquellas que eu pude obter...

―Ah! tambem indagaste?

―Tambem. Ha, porém, um ponto escuro que eu ainda não pude aclarar...

―Qual é?

―É que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada em Lisboa pelo padre Anselmo, e esta pequena Beatriz, se não tem mais, deve ter pelo menos uma idade que regula por esse tempo...

―D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, dizes?

―Morreu.

―Como o sabes?

―Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora extrema.

―De modo que essa desgraçada não chegou a vêr o filho?

―Não.

―E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda é vivo, deve ignorar quem foi sua mãe?

―Decerto.

―Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor especie!―disse ainda horrorisada a bella abbadessa.

―O padre Anselmo, que nós conhecemos, era um facinora como tantos outros que se acobertam com a religião santa do Crucificado... Ambicioso e profundamente perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo á sua desmedida ambição...

―Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? Quem sabe?

―Para isso, bastaria só que ella lhe fosse um leve estorvo na sua carreira de crimes...

―Não terias meio de indagar se ella ainda vive?

―Como? Se é hoje Provincial ou Assistente e usa de outro nome, como poderei descobrir-lhe o rasto? Mas nem isso agora nos serviria de nada. Paulo é para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua tomamos sob a nossa protecção essa creança devemos proceder para com ella como se foramos seus unicos e verdadeiros paes... De que serviria sabermos que o padre Anselmo e a irmã Dorothea são ainda vivos? A mãe renegou-o ao nascer, e o pae nem talvez tivesse noticia do seu nascimento. Dizer ao filho o nome dos que lhe deram o sêr era ensinar a Paulo o nome dos que devia amaldiçoar... Não, minha amiga... Sejamos caridosos para com a pobre creança. Uma vez que não tem fundamento o nosso receio de que Beatriz seja irmã de Paulo, deixemol-os amarem-se e unirem-se livremente. Concorramos na medida das nossas forças para a sua união e que sejam felizes amando-se como nós nos temos amado sempre.

O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta a despeito da idade, sellou estas ultimas palavras com um delicado beijo na face de madre Paula, que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante de alegria.

―Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre o mesmo generoso e nobre coração!―disse ella commovida.

―Esse Custodio de Jesus―continuou o padre Filippe retomando a sua attitude grave―é, ao que me consta, um sordido usurario que sonha um casamento rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o d'este proposito, que seria desculpavel se elle não tivesse a certesa de que vae assim sacrificar o coração de duas pobres creanças.

―Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer a dar o seu consentimento...

―Já me lembrou isso. Mas se elle alguma vez veio a ter conhecimento dos amores da sua primeira mulher com o padre Anselmo, a presença de um homem de sotaina não deve ser-lhe muito sympathica... E talvez mesmo que, em vez de o demover a favor de Paulo, isso o irrite e de cada vez mais o mantenha no proposito de contrariar o casamento...

Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fóra da porta da cella a voz de Paulo:

―Dá licença, minha mãe?

―Ah! és tu? Entra, entra, meu filho!―exclamou a abbadessa correndo ao seu encontro.

O mancebo beijou-lhe a mão com respeito filial, e vendo o padre Filippe dirigiu-se a elle, de braços abertos, dizendo com sincera alegria:

―Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos quando tanto precisava de os consultar e pedir o seu conselho e o seu auxilio!

―Tu dirás, meu amigo, o que desejas―disse, bondoso, o padre Filippe―e se fôr, como creio, coisa compativel com as nossas forças, pódes dispôr de nós...

Paulo principiou dizendo:

―O que venho pedir-lhes é realmente um sacrificio... Mas sacrificio de que está dependente a minha vida, mais que a minha vida, toda a minha felicidade futura, e porisso espero bem que o não recusarão ao seu filho, a este filho que não conheceu nunca outros paes nem tem no coração logar para outro affecto igual...

―Falla, falla, meu Paulo!―animou com doçura a bondosa abbadessa.

―O caso é este―continuou o mancebo―Beatriz, de quem lhes tenho fallado, está em risco de ser victima de uma monstruosa infamia com a cumplicidade de seu proprio pae!

―O que! O que dizes tu, meu filho?―interrogou madre Paula.

―A verdade, minha mãe!

O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, parecia observal-o com attenção.

―Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem uma accusação terrivel para o pae da tua amada, o que é sempre uma coisa grave e digna da maior censura, quando se não tem a certeza do que se affirma...

―Mas eu tenho a certeza!―protestou Paulo―E porque a tenho é que venho pedir-lhe o auxilio no sentido de obstar a que tal infamia se realise.

―Falla!―disse o padre Filippe.

O mancebo prosegniu:

―Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de ter inutilmente envidado todos os esforços para coagir a filha a casar com um tal Eugenio de Mello, que se diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu, de combinação com o pretendente e com o procurador Belchior, que tem sido o agente d'esta ignobil negociata, proteger o rapto da propria filha, com o fim de, por este meio, a violentar a acceitar o noivo que se lhe impõe e que ficará sendo o unico que em taes condições não duvide recebel-a por esposa.

―Isso é impossivel, Paulo!―bradou madre Paula, indignada―Não ha um pae que pense em realisar uma tal monstruosidade! Tu és por força victima de um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem que deseja vêr até que ponto vae a tua cegueira por essa menina, que não te recusas a acceitar invenções de tal ordem!

―Não, minha mãe!―volveu Paulo―O que lhe digo é absolutamente certo e vae realisar-se, se eu o não impedir como me cumpre. Um amigo intimo de Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na miseravel aventura foi quem o declarou diante de mim.

―É o que eu digo! gracejo de rapazes.

―Não é gracejo como suppõe, minha mãe. Quem isto revelou fel-o em taes circumstancias que não podia nem lhe era permittido gracejar. O rapto está combinado e deve effectuar-se amanhã, durante um passeio ao campo que as duas familias―a do Belchior e a de Beatriz―teem preparado.

―E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem armar?

―Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a.

―O que tencionas então fazer?―perguntou o padre Filippe.

―Castigar o miseravel pae que assim malbarata a honra da propria filha n'um trafico infame, aproveitando-me das circumstancias por elle preparadas, para lh'a raptar eu.

―Tu?!

―E porque não? Se ella me ama e eu a adoro e a quero para minha mulher, heide deixar que m'a roubem e levantem entre mim e ella uma barreira impossivel de transpor―a barreira da deshonra? Tenho tudo prevenido e tudo preparado para arredar sem escandalo, e até sem suspeita do que vae passar-se, os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro meu amigo o seu logar. Falta-me apenas uma coisa.

―O que é?―interrogou madre Paula.

―A salvaguarda de uma mulher honesta para garantir a reputação de Beatriz que eu não quero vêr maculada, com a sombra de uma suspeita, antes de a receber por esposa perante o altar do Deus Vivo.

O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido olhar.

Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua origem e saber a quem devia a vida, teria traduzido n'esse olhar esta phrase que estava no pensamento dos dois:

―«Não parece filho do padre Anselmo!»

―Desejas então...?―interrogou madre Paula dirigindo-se ao mancebo.

―Que minha bôa mãe, de cuja virtude ninguem ousará suspeitar, se digne receber a minha noiva em sua companhia durante todo o tempo que ella seja forçada a conservar-se occulta...

―Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu filho, é um passo muito grave, que póde pôr em risco a bôa ordem e segurança d'esta santa casa... Imagina que as auctoridades são obrigadas a intervir, e por qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, que, de mais a mais, não consultaste ainda sobre se consente em acolher-se á nossa protecção?

―É tal a confiança que tenho no amôr de Beatriz, minha mãe, que não duvido asseverar que ella dará por bem feito tudo quanto eu haja deliberado, logo que conheça os motivos que me obrigaram a raptal-a...

O padre Filippe, que durante esta conversação guardára absoluto silencio, resolveu-se afinal a intervir.

―Parece-me que tudo se póde conciliar muito bem―disse elle. Paulo deseja salvaguardar a reputação da sua noiva, o que é de todo ponto justo e nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua mãe adoptiva, porque sob a égide da virtude da madre Paula, ninguem se atreverá a julgar menos licitos os intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula deve intervir com a sua presença, porque é um acto de verdadeira caridade evangelica o que se lhe pede. Mas surge uma difficuldade, que é o poder comprometter por esta fórma os interesses d'esta santa casa, se a trouxer para aqui...

―É justamente esse o inconveniente que já apontei―interrompeu a abbadessa.

O padre Filippe fez um gesto e proseguiu:

―Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, de obviar a esse inconveniente...

―Qual?

―Paulo buscará uma casa profana para onde conduzirá a sua noiva; e ahi, madre Paula, vestindo trajos seculares, receberá a pobre menina e conserval-a-ha em sua companhia durante os primeiros dias. Se depois de Beatriz conhecer do que se trata, manifestar desejos de acompanhar madre Paula para esta santa casa, poderemos então, com as devidas cautelas e resguardos, internal-a aqui até que as circumstancias lhe permittam legalisar a sua união com Paulo. Não acha acceitavel este alvitre, minha amiga?―concluiu interrogando a abbadessa.

―As opiniões do padre Filippe teem para mim o valor de leis indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou madre Paula.

Paulo abraçou n'uma expansão de reconhecimento o padre Filippe.

―Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo com as lagrimas nos olhos.

―Vamos, vamos!―replicou o padre Filippe commovido, procurando furtar-se ás demonstrações de reconhecimento do pobre rapaz―Trata de procurar uma casa em condições de abrigar por alguns dias tua mãe adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos são minguados―concluiu―Sou um pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso dispôr... Mas até onde as minhas magras economias o permittam, tudo está á tua disposição, porque tudo é teu, meu Paulo.

―Oh, meu pae!

―Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que certamente esta habituada...

―Eu tenho amigos, meu pae!―affirmou Jorge.

―Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre Paula. Não tens, pois, o direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem os primeiros. A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que careceres. Vê bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia.

―Tenho um amigo, quasi um irmão, que não só me acompanha e auxilia na aventura do rapto, como põe á minha disposição a sua casa, onde não tem mais familia e onde nada falta.

―Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se sem perigo, deves acceitar.

―Já acceitei, meu pae!

O leitor já conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu com os extremos e carinhos de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior, por maneira tão original como inesperada.

Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubára e os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porém veridica, historia se empenham n'uma lucta de desconfianças e malquerenças, que são o seu verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e interessantes episodios se estão dando.

XIX Um velho amigo

Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe deu por desoccupada a casa que pertencera a Norberto de Noronha, tomou posse da sua nova propriedade e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo esperar que se fizessem os convenientes e indispensaveis reparos.

Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e amigos de Gustavo de Magalhães com um jantar lauto, em que houve discursos, brindes e poesias, como estava combinado muito tempo antes.

O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fóros de excentrico, supportou como pôde toda a ruidosa alegria d'aquelles amigos e passada a

glorificação

, como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo a convivencias affectuosas.

No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e qualquer recepção festiva em sua casa, dando como desculpa a falta de pessoal habilitado para bem servir n'um banquete de cerimonia.

O caso, porém, não era esse.

Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame fazer resoar os risos da alegria n'aquellas salas onde morreram abafados os gemidos de tamanha desgraça, de tão profunda e inconfortavel dôr.

Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a sua grande tristeza, o lucto eterno do seu coração.

Não podia por isso, ainda que o desejasse, converter aquelle tumulo, em que queria encerrar-se vivo com as suas recordações e os seus desalentos, n'um logar de festivas alegrias, de expansivos affectos.

Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, comprehenderam-n'o e não se offenderam.

―É um excentrico―dizia o juiz―Não ha que vêr, é um excentrico...

―É um paranoico com a tendencia romantica!―affirmava o medico.―Aquillo desanda n'um volume de lyricas mais hoje, mais amanhã. E talvez esteja ahi a sua salvação.

―Não é nada d'isso, meus amigos―contrariava Gustavo―Este homem é um de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro atravéssa os areaes do deserto, sem jámais encontrar o appetecido oasis. O maior beneficio que lhe podemos fazer é deixal-o entregue á sua grande tristeza, á sua enorme e insanavel dôr.

Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma figura estranha ás alegrias ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de amigos.

Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma taciturnidade de espirito aterradora.

Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez fallára a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa entrevista.

Mandára collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua disposição primitiva. Lá estava a cadeira de rodas, onde o desgraçado agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a monologar as suas recordações e os seus desgostos.

Um dia, viera ao jardim e sentára-se no caramanchão que olhava sobre a estrada.

Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irmã de Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido para as suas meditações ao ar livre.

De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de Montarroyo debruçou-se na grade do caramanchão e olhou.

Viu um pobre mendigo, um

ermitão

, de longas barbas brancas, vestindo um garnacho remendado e encostando-se a um bordão. Trazia ao peito, pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a imagem de um Santo Antonio, cercada de flôres artificiaes.

―O que deseja?―interrogou Julio.

―Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!―supplicou de baixo o pobre, tirando o chapéo e indicando o santo.

Julio de Montarroyo não reconheceu aquella figura, mas ficou estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte.

Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordações, aventurou uma pergunta.

―Você é d'estes sitios?

―Não, meu senhor... Eu sou de Braga.

―De Braga?!

―Sim, meu senhor, mas já lá não vou ha muitos annos...

―Vem então de muito longe?

―Venho, meu senhor!

―Espere ahi.

Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao pedinte.

―Entre!―disse elle.

O pobre entrou.

―Você é de Braga?―tornou a perguntar Julio.

―Nascido e baptisado, meu senhor!―confirmou o pobre.

―Ha que tempo sahiu da sua terra?

―Ha muitos annos, meu senhor...

―Olhe lá; você conheceu lá um sapateiro chamado

Tomba

?

―Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom

home

, amigo do seu amigo... E eu

támem

era muito amigo d'elle!

―Ah! você então era amigo do

Tomba

?

―Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma creação... Eu e mais elle eramos como a unha e a carne...

―E o que foi feito d'elle? Não sabe?

―Se não morreu... ha-de estar vivo por força, meu senhor...

Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro.

―Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre Anselmo?―interrogou Julio a meia voz.

O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou:

―Ora espera! Vossa

incellencia

é o sr. Julinho de Montarroyo, pois não é?

―Sou.

―Cá me queria a mim parecer!

E batendo na testa desesperado:

―Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces quem te deu tanto pão a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa

incellencia

perdoará, mas eu estava agora bem longe de o

topar

aqui! Antão

cumpassou

?―perguntou o

Tomba

, lisonjeiro e carinhoso.―Vossa

incellencia

está féro! Está que é uma bisarria!

―Estou velho, amigo

Tomba

, estou velho!

―Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que, graças a Deus e a Santo Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda as pernas me levam p'r'a onde eu quero.

Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia talvez elucidal-o ácerca de factos que elle tinha interesse em conhecer minuciosamente, conduziu o

Tomba

através do jardim, até ao interior da habitação.

―Venha cá,

Tomba

, venha cá, homem, que temos que fallar...

―Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me

trouve inté

aqui, por sua infinita

mesericordia

!

Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e disse-lhe:

―Arrume o santo, mestre

Tomba

, e diga-me se tem vontade de comer...

―Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, ha sempre...

―Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa.

Julio ordenou que dessem de almoçar ao

Tomba

que, fiel ao seu costume, honrou a cosinha do seu generoso amphytrião.

Depois, mais animado, e dando parabens á sua fortuna por ter encontrado aquelle grande e rico amigo, passou á sala onde o aguardava o dono da casa.

―Já matei quem me matava!―disse elle satisfeito.―Ora agora aqui tem vossa

incellencia

um

home

p'ra tudo que fôr preciso!

―Conte-me cá, mestre

Tomba

, o que é feito de você? O que foi feito de D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de Noronha?

―Pois vossa

incellencia

não sabe?―disse o sapateiro admirado.

―Nada! Não sei nada.

―Pois já tudo isso lá vae!

―Tudo?

―Tudo ou

acaijo

tudo...

Inté

é de

inorar

o sr. Julinho não saber as

desgracias

todas que se déram logo assim que o sr. Julinho

arretirou

p'ra Braga.

―Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do Porto e por lá andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal.

―Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se inté Paris de França e não deu mais cavaco ás tropas... Pois a sr.

a

D. Carlota, coitada! lá deu ao penagal em Lisboa... O padre

Inxelmo

―

rais

o parta!―lá teceu taes indrominas com o

Custoido

a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido falsa com o sr. Julinho...

―Comigo!―exclamou Julio admirado.

―Pois

antão

não sabia?

―Eu não sabia de nada...

―Bem digo eu!

Antão

já vejo que não sabe nem da missa a metade!... Pois o maroto do padre

Inxelmo

, emquanto nós estavamos no Porto a ver se lhe deitavamos a luva,

vêo

a Braga dizer ó

Custoido

que a sr.

a

D. Carlota andava lá pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo... E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe desfeiteou as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por pedras,

assubiu-lhe

a honra á cabeça, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra casa, pôl-a fóra e pouco faltou p'ra lhe bater...

―Isso é extraordinario!―disse Julio.

―E lá em Braga toda

a gente

se

acuarditou

, porque demais a mais, como o sr. Julinho se prantou na

planta-giria

, todos

dixeram

que foi verdade, porque quem se

cia alhos come

...

―Mestre

Tomba

, é impossivel que você não esteja doido! Isso que você está a dizer é tudo quanto ha de mais absurdo!

―Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é o que por lá se constou n'aquelle tempo...

―E você não podia desmentir esses boatos, não podia desmascarar os calumniadores?

―Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardão, mais morto que vivo,

estrelicadinho

com fome, porque aquellas carochas de seiscentos diabos tinham-me a jejum de pão e

auga

, que eu cuidei que não tornava mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, não se fariam mais para os queixos do

Tomba

!

E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento do Sardão e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira escapar-se da prisão, depois de ter pregado uma sova mestra na freira que o guardava quasi á vista.

―Eu só queria que vossa

incellencia

visse, sr. Julinho... Aquillo foi uma trépa co'as correias, que

inté

o

sengue

lhe esguichou pelo sitio da tripeça, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a saber novidades... A sr.

a

D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr. Alvarinho―Deus lhe perdôe!―lá tinha o

Perneta

dado cabo d'elle... Raios o parta! Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, que o enterrei!

―Ah! você foi testemunha no processo contra o

Perneta

, mestre?

―Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr. Alvaro tinha ido p'ra casa do

Perneta

, porque arrecebeu uma carta da sr.

a

D. Carlota―Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a chamo cá p'ra nada!―a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.

a

D. Helena de

Laronha

estava lá mettida com vossa

incellencia

...

―Comigo?!―tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais espantado.

―Tal e qual como eu lhe estou a

dezer

, sr. Julinho! Pode-se

acuarditar

em mim, porque eu ouvi lêr a carta e

escorda-me

como se fosse hoje tudo quanto ella dezia...

―E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo convivido comigo por algum tempo, pôde acreditar em

semelhante

carta, pôde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!

―Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes, começou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer

que

ia matar sete e esfolar quatorze e nem á mão direita de Deus Padre fui capaz de ter mão n'elle! Lá foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá e aquelle ladrão do

Perneta

e mais dois que elle lá arranjou deram-lhe tamanha carga de paulada que o deixaram

cadable

no meio da estrada! Eu, já se sabe, n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal coisa me passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga,

atão

é que eu soube tudo... E disse comigo: «Ai o alma do diabo do

Perneta

que deu cabo do

probe

rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...» Fui-me á Povoa, fallei com o sr.

amenistrador

, contei-lhe as coisas como foram e como não foram, e o

Perneta

, que inda estava preso, mas não confessava nada, assim que o

acarinharam

comigo, não teve mão em si, começou a

entoar

e

dixe

tudo! Lá foi por uma barra fóra, que o levou seicentos diabos!

Julio ouvia espantado estas revelações do

Tomba

.

―Mas como é―disse elle―que D. Carlota pôde escrever uma carta d'essas a Alvaro de Noronha na mesma occasião em que eu recebia uma carta de Helena, dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota vivia com o padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris?

―Vossa

incellencia

quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho?

―Diga lá, mestre.

―A mim ninguem me tira da

pinha

que a sr.

a

D. Carlota não escreveu carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre

Inxelmo

que mandou escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó probe rapaz! Vossa

incellencia

não se

escorda

do sr. Alvaro dizer muitas vezes que o patife do padre

Inxelmo inté

uma vez escreveu uma carta muito bem

escrevida

, co'a letra da sr.

a

D. Helena, a dizer ó pae d'ella que estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de contas vae-se a vêr e estava mas era

agachada

em casa do

Perneta

!

Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só ao ouvir estas palavras do

Tomba

é que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma infame mystificação.

―Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta escripta por Helena, ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo?

―Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver verga e tempo... O padre já tinha feito uma e porisso

támem

era capaz de fazer a outra...

Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandára aviso nem recado. Porque não teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo o interesse que elle tomava pela libertação da filha de Norberto e suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?

Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, e ao passo que elle a procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a deixara.

―Mestre

Tomba

―disse elle―sabe o que foi feito do padre Anselmo? Tornou a ter noticias d'elle?

―O padre

Inxelmo

, depois que roubou o

Custoido

nunca mais tornou a pôr os pés em Braga, ó menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se como o fumo, que nunca mais vi raça d'elle!

―Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio?

―Pois roubou! O

Custoido

, p'ra não dar nada á mulher, assignou letras a fingir ao João Ignacio, que era p'ra ella lhe não poder pegar em nada... E quem metteu o probe do

home

, coitado! n'essas fofas foi o patife do padre... Vae

óspois

a D. Carlota

esticou

o

pernil

em Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou a morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do

Custoido

co'as letras e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O

Custoido

barregava

escontra

o padre a

dezer

que foi elle que o metteu co'aquelle ladrão, que era uma coisa por demais! Mas o padre

esguipou-se

que ninguem soube mais d'elle!

Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e procurava o fio mysterioso que devia explical-os.

―É singular!―disse elle―E o Custodio? Morreu?

―Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um

bô casorio

... Foi co'uma brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha um

rôr

de annos e que

vêo

de lá rica que não sabia o que tinha de seu... O

home

, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella p'ró Porto, e acho que lá estão na santa paz de Deus...

Porfilhou-lhe

a filha que ella

trouve

e inda apanhou uma riquesinha bem bôa!

―De modo que―tornou Julio―você, mestre, não voltou mais a saber de Helena de Noronha?

―Eu, como a sr.

a

D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr. Julinho

támem

não dava rumor de si... tratei mas foi de governar a minha vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo aquelle tempo, sem dar nova nem recado, foram ó aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a oitro... O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me conta da

farramenta

do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja lá o alma do diabo, que

inté

co'a tripeça me ficou! Vi-me

desauriado

! P'ra me tornar a estabelecer, eu já não tinha

farramenta

nem freguezia... estava

desacuarditado

! Peguei e fui-me

inté

Villaverde, á tia do sr. Julinho, contei-lhe a minha

desgracia

e ella teve dôr de mim e deu-me uma libra d'esmola!

―E você contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a Helena de Noronha?

―Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, tal e qual como o meu compadre

Longuinhos

que

támem

se arranjou muito bem co'este modo de vida... Tenho corrido todas

essas

Europias

de Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...

―Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz de dar conta de uma incumbencia que eu desejo fazer-lhe?

―Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa

incellencia

que lhe eu não faça?!

―Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e indagasse nas

Sereias

ou no

Sardão

, se ainda lá está como abbadessa uma senhora chamada madre Paula...

―Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este nome.―Eu vou lá e trago-lhe isso sabido, que é um regalo... O diabo é o

Sardão

que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites que preguei na freira velha... Mas da raça do diabo será ella se não estiver já a fazer tijolo!

―Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... Eu mesmo, que tão de perto lidei comsigo, já quasi o não reconhecia, como hão-de conhecel-o pessoas que nunca lhe fallaram?...

―Bem! eu vou―decidiu o sapateiro―mas não levo o santo, porque se a policia do Porto me apanha lá com elle, é capaz de ferrar comigo no

Asylio da Mendecidade

, que, aquillo, pelo que me tem zoado cá pelos ouvidos, é peor do que estar nas profundas do inferno a arder!...

―Pois não leve o santo...

―Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor de ter cautela, que m'o não estraguem, que é o meu ganha-pão...

―Vá descançado, mestre

Tomba

. O santo fica a meu cuidado... Ninguem cá lhe bulirá n'elle...

―

Atão

quando quer o sr. Julinho que eu vá?

―O mais depressa que possa...

―Eu vou já hoje, se fôr preciso... É verdade: e se ella lá estiver, o que quer que lhe diga?

―Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas duas casas.

―E se lá não estiver?

―Saiba se é viva e em que casa religiosa da provincia se encontra.

―Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito para estas coisas―disse o

Tomba

radiante.

E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.

XX Alma negra

Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia, apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas mãos de João Lazaro.

O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito desconsolado, porque o

seu peccado

―que era assim que elle chamava á endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição insensata―havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do encarquilhado protector.

Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico, consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse

sangue alvoroçado

, que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo, porque todas

as molestias

em principio teem cura e depois de tomarem posse do corpo é que custam mais a debellar.

Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por algum tempo, sem aquelle

caustico

do commendador a importunal-a, a fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar com aquella vida que não podia continuar assim.

―Mas o que queres tu?―perguntava-lhe lacrimoso o commendador―Falta-te alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu sem ti não podia viver...

E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente, a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a sua vida, senão a de ser commendador.

A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:

―Ah! maganão, você é que a sabe toda!...

Aquella pessoa

está de cada vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer desfazer, endosse-me a letra...

Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com outro.

Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e extraordinaria mulher.

E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e constancia de Leonor―que para elle tinha sempre carinhos e meiguices que nenhuma outra saberia fazer-lhe.

Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente do infeliz commendador.

E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do

seu peccado

!

Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a. Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do medico que, no seu entender, devia pôl-a boa.

N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa.

A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir, deixando-lhe o

ninho

, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe fallar em medicos.

Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe prometter que não mais se pensaria em remedios de botica.

Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.

Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no tapete, pôz se a mordiscar as unhas.

―O João Lazaro―murmurava ella―prometteu de vir hoje fazer-me revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me dizer?

Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de Eugenio?

N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e appareceu a figura de João Lazaro.

Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em que vinha embuçado.

―Tardei, não é verdade?―disse elle.

―Esperava-o com anciedade―respondeu a loura febrilmente, levantando-se para o receber―Diga-me: que noticias traz de Eugenio?

―Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...

―Pois sim, bem sei―disse a loura impaciente―Mas Eugenio jurou-me que era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.

João Lazaro sorriu.

―No emtanto―disse elle―a policia procura-o, porque sobre elle recahem todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu. N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se homisiar...

―Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que partiu...

―Sem lhe dizer para onde...―tornou o Lazaro com um sorriso de mófa.

―Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia...

―E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o...

―O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar!―exclamou a loura irritada.

―Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber que elle diligenciava casar-se com Beatriz...

―A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte de Eugenio...

―Porque?

―Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão açodado em perseguição do raptor da filha.

João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.

―É bem deduzido―disse elle―Ahi ha logica. É pena que o raciocinio esteja muito longe da verdade...

―Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!―exclamou Leonor com impeto―tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o que hei-de pensar!

―Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que venho fazer.

Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos n'elle:

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