Front matter (continued 4)
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―Casa-te, meu amigo, casa-te!―aconselhou o commendador Seabra n'um tom de convicta auctoridade.―Olha que não ha como o casamento para fazer um homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém, cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...» Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado muito bem... Não é assim, Gracianinha?―rematou, pondo os olhos na esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco, toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma mulher que passa dos quarenta.
―É assim, meu amigo!―suspirou a D. Graciana, revirando para o marido os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma paixão confessada.
―Não temos tido filhos―tornou o commendador, muito roliço, muito gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso―mas não é por falta de amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês! Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!
E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete, e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o rotundo abdomen.
Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.
―Ora agora o que é preciso―propôz o juiz de direito, um velhote de oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades nervosas―é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela sua prolongada ausencia!
E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:
―Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho, pois, uma Paschoa
inter amicus
, uma festa alleluitica, em que se celebre condignamente o
resurrexit
d'este illustre cavalheiro, que eu não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!
Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as
sete partidas
do mundo, como o
infante D. Pedro
.
O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão que havia de proceder aos festejos.
Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de mais um dia de grossa pandega.
―Livra-me d'esta gente, meu amigo!―segredou Julio a Gustavo.―Tu, que conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria me mortifica!
―Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que só aos
eleitos
da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte, agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!
―Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!―murmurou Julio.―Venho a fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de tristezas!
―Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que ainda não
mudaram
. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...
No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio, dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.
Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no horisonte um vago olhar de tristeza.
Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia, era outra vez obrigado a expatriar-se.
Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:
―Bons dias!
O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:
―Muito bons dias!
―É o proprietario d'esta casa?
―Um seu criado!
―Li que ella se vende. Posso vêl-a?.
―Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...
E chamando pelo criado:
―Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!―ordenou.
O
Manéca
, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e obedecer.
Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este dialogo:
―V. s.
a
vende esta propriedade, não é assim?
―Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra tornar no Brazil...
―Esta casa―disse Julio―era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui morreu, o sr. Norberto de Noronha...
―Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas informações que dão-me d'elle, hein!
―Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.
a
s.
a
comprou a casa?
―Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella, já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto, dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por lá...
―Norberto de Noronha―tornou Julio―tinha uma filha... Foi a essa senhora que comprou esta casa?
―O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a familia de Norberto, já vejo...
―Conheci. A casa soffreu modificações?
―Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...
O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de que era uma vivenda
muito bôa ella
e que se conservava quasi no mesmo estado em que o fidalgo a deixára.
Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos, commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo, que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem morria.
Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar. Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara, achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.
―Isto áqui me tem sérvido para arrumações―explicou o brazileiro.―Aqui encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?
―Quanto pretende v. s.
a
pela casa?―perguntou Julio.
―Com mobilia ou sem ella?
―Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...
―Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.
a
me quizer comprar ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?
―Não, senhor!―acudiu Julio.―Se por doze contos lhe ficou, doze contos lhe darei por ella.
O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.
―Quer assim?―interrogou Julio.
―Mas...―objectou honradamente o brazileiro consciencioso―eu tenho vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle ágora...
―Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em o adquirir por menos do seu justo valor.
―Mas então a casa é de v. ex.
a
!―decidiu o brazileiro com uma profunda cortezia.
―V. s.
a
não me conhece―disse Julio―mas eu dou como fiador á validade d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho. Quando quizer, faremos a escriptura!
―O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.
a
é hospede d'elle, já vejo...
―Sou. V. s.
a
dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo dar-lhe de signal.
―Signal!―protestou o brazileiro―não é priciso elle... Os homens se conhecem pelas palavras, já viu?
―Como queira.
―Me dê v. ex.
a
oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no tabellião fazer a escriptura, hein!
―Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.
―Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre elles... Quando v. ex.
a
quizer, vamos no tabellião...
Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.
―Já comprei a casa de Noberto de Noronha―disse elle ao amigo, logo que chegou.
―O que!―exclamou Gustavo.―Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar um negocio d'essa ordem?
―Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha uma realisação legal.
―Por quanto a compraste?
―Por doze contos, tal como está.
―Podias tel-a adquirido por oito ou nove!
Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario da casa que pertencera a Noberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa alheia.
Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova propriedade.
Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo de Gustavo de Magalhães.
―Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o emocionar e lhe causar alegria―dizia o magistrado de voz aflautada, presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do espirito humano.
―Fatalmente―commentava o medico―alli ha desiquilibrio de faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de diversos e oppostos costumes...
―Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal succedidos...―aventou um dos menos theoricos e mais praticos.
―Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o
spleen
dos inglezes―opinou o juiz.―O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo―menos a amizade dos amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado. Nas viagens―accrescentou com grande auctoridade e emphase de sabedor―perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs, prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como é o de uma esposa por seu marido?...
―Pelo menos, quando não seja isso―disse o commendador―o casar devia fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da esposa!
Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro, com a D. Graciana.
―Que eu por mim―emendou logo com solicita dissimulação―com bem o diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e faço ideia do petisco que ha-de ser...
―Nós
tambem
fazemos ideia...―atalhou o juiz sarcasticamente, na sua voz de assobio.
―Meus amigos―interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem tomar parte n'ella―não se cancem em conjecturas sobre os motivos que pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas
risonhas
manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta, achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?
―Isso é verdade!―accudiu o commendador―eu já tive uma epocha na minha vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas, sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão simples...
―Não tanto!―replicou o juiz―Quem não tem que fazer caça môscas, diz o vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue ao divertimento...
―Agora não!―tornou o commendador.
―Por falta de pisco?―perguntou o medico.
―Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente... Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com passaros em casa.
A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.
A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães e travava-se entre os dois este dialogo:
―Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.
a
já comprou a casa de Norberto de Noronha.
―A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.
―Na intenção de a habitar?
―Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da minha vida.
―É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...
―É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...
―A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.
a
, snr. Julio de Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...
―E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...
―Pobre Helena!―murmurou D. Aurelia―se v. ex.
a
a conhecesse n'esse tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura. Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes, antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma religiosa pontualidade!
―V. ex.
a
nunca mais teve noticias d'ella?
―Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.
―Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um taberneiro da Serra do Carvalho...
―É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um sapateiro de Braga, por alcunha o
Tomba
, que foi testemunha no processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e condemnado a galés por toda a vida.
―O
Tomba
!―disse Julio―Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser até que já tenha morrido...
―Não sei, não conheci o
Tomba
. Ouvi fallar muito n'esse homem por aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.
―Se o
Tomba
esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não foi estranho o raptor de Helena...
―O padre Anselmo?
―Justamente. Como conhece v. ex.
a
esse nome?
―Pois não sabe v. ex.
a
que elle andou por aqui missionando e que foi com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a casa paterna?
―E v. ex.
a
era sabedora das intenções de Helena?
―Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios, breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me! O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque, apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão Gustavo, julgo-a irresponsavel.
―É esse o juizo que v. ex.
a
forma de Helena de Noronha?
―É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso assegurar a v. ex.
a
que não havia mais nobre alma, coração mais terno e cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.
―O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...
―Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.
―E Helena amava o primo?
―Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum rapaz a quem quizesse mais...»
―Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a abraçar a vida religiosa....
―Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse. Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa, fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.
Os dois calaram-se por instantes.
―Sabe v. ex.
a
―disse Julio de Montarroyo por fim―que me tem sido immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?
―É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.
a
ignorava...
―Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse conhecido. Com effeito, v. ex.
a
acaba de me contar pormenores que me eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu, onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!
―V. ex.
a
, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!
―Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...
―Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?
―Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.
Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel ouvir sequer fallar d'ella.
―Conclue portanto que Helena...
―Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...
―Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra vontade que não fosse a sua.
―Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua evasão.
―Seria possivel?
―Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.
―Mas não sabe v. ex.
a
que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a professar?
―Sei muito bem.
―Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as exigissem?
―O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo... Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para sempre á familia e á sociedade.
―Pobre Helena!―suspirou D. Aurelia―que negro destino foi o seu!
―Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e a desgraça comsigo.
―E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!
―V. ex.
a
que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.
a
D. Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce lenitivo de me fallar de Helena...
―A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer que hoje vivo, como v. ex.
a
, só de tristes recordações...―replicou D. Aurelia com um fundo suspiro.
A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das festas em honra de Julio.
Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:
―Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?
―Póde ser...―replicou o commendador―A D. Aurelia está ainda muito fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para se distrahir.
Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.
Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.
XIII Denuncia
João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.
O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos, no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos:
―Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para terem a honra de se sentarem ao meu lado!
―Não será bem isso―replicou o outro delicadamente, para não o ferir―Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és alvo...
―Communhão de ideias!―tornou o João Lazaro desdenhoso―Que communhão de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja arroz cosido em vez de miolos?
―Talvez tenhas razão, talvez...
―Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os. Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro, querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu, quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se aproximarem de mim.
O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se que não dissesse:
―Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com franqueza?
―Dize lá.
―Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o idiota és tu!
João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:
―Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente, vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos. Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os amigos me darem de cear...
―Para que então?
―Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação publica...
―Já lhes expuzeste o teu plano?
―O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha, é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me sujeito. Sinto aqui dentro―e batia na testa com impeto―alguma coisa de grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e, sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me rodeiam!...
―Bom! Mas, a final, o que queres tu?
―Dinheiro!
―Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente o que todos querem...
―Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes volverei cem por um!―exclamou o João Lazaro, convicto.―Não me falta mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a face do paiz.
―Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias...
―Quaes circumstancias?
―Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos...
―Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes, ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.
―Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...
―Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é só para mim, o bem é para todos.
―Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...
―Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo.
―E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o impõe, o que havemos de fazer?
―Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha dinheiro!―exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito.
―Eu não sei nada!―volveu-lhe o interlocutor.―Isto são apenas considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas? Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá difficuldade em a conseguir.
―Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia?
―Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo.
João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.
―E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do
Deve
e
Haver
! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a pedir João Branco e Pita Beserra!
Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos quaes agora malsinava de
bacalhoeiros ignaros
, visto que não lhe davam o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.
―Bem!―disse elle―tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...
E consultando o relogio:
―São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia, porque á noite talvez retire para Lisboa.
―O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?
―Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se...
―Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...
―Não, que eu não peço!―exclamou Lazaro com enfatuada altivez―Eu proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!
Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.
―Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso?―perguntou o outro despedindo-se.
―Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido que me não merece.
―Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido...
―Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas, se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se, porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses bilhostres.
Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel.
―Para o Palacio!―ordenou ao cocheiro.
Pelo caminho, ia monologando:
―Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim, á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes apanhar dinheiro para ir até Hespanha.
E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica reminiscencia da tanga:
―Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto!
Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria.
―Cuidei que não vinhas!―disse-lhe Eugenio.―Seria um grande desgosto para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te conhecer.
O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e, respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:
―Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos, que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia, insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os acompanham.
Seguiram-se as apresentações:
―Senhorita Lola...
―Senhorita Dolores...
―Senhorita Consuelo...
O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.
Abancaram á mesa e principiou o festim.
A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.
A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.
―Um moço de fretes com esta carta para a menina...
A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador, usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se achava a sós com Leonor.
―Dê cá!―disse a loura, pegando na carta e examinando o sobrescripto.―Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma declaração?
―O portador não esperou
reposta
.
―Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que entregou a carta.
E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.
―É singular! O papel não vem perfumado―disse ella, mostrando o papel vulgar em que a missiva vinha escripta.
―É de homem de dinheiro!―commentou a velha, muito pratica em negocios d'amôr.―Os
cheiros
são para os pelintras que só querem agradar com bugigangas e a respeito de
louça
... nem um pires!... Homem sério, homem de
massas
, não está lá com essas coisas... Confia no seu dinheiro e é bastante...
Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente pallida, amarfanhando o papel entre as mãos:
―Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia!
―O que é, menina?―perguntou a velha serviçal, n'um movimento de curiosidade.
―Dizem-me aqui―tornou Leonor com voz rouca de commoção―que Eugenio vae casar.
―Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a
avoar
!
Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:
«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito breve.
«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado, discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o procedimento de Eugenio.
«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente, libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio, receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro, escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro,
suspenda pagamentos
, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do commendador Garcia.
«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto, afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.
«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa
Leonor
, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.
«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.»
Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha confidente, exclamando:
―Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!
―Crédo, menina!―bradou a velha benzendo-se―Isso são tentações do demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um
bô
! Homens ha muitos, tão
bôs
e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma carinha d'essas, que parece mesmo uma
image
, não achava homem que lhe désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero dizer nada, mas tenho
osservado
muita coisa... Só eu é que sei!
―Que e o que você tem observado, Joanna?―interrogou Leonor roida da curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de Eugenio.
―Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr. Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta!
―E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse outro namoro?
―Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como isto!
E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação.
―Mas será verdade?―tornava a loura passeando agitadamente na sala―Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?
―O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora p'ró oitro, menina...
―Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando um golpe de morte ao meu coração!
E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi.
A velha apaziguava:
―Ás vezes
támem
se diz mais do que é,..
―Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus! que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!―exclamou por fim, rompendo em soluços.
―Desgraçado é o diabo!―consolou a velha Joanna―Quem conta um conto sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador
Gracía
dar por ella e não tornar cá...
Antão
sim,
antão
é que a menina se devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se arranja nada...
―Cale-se, Joanna, cale-se!―bradou Leonor n'um impeto de desespero―Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu alguma vez todo
o dinheiro
que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha posição―o proprio amor do homem que me sustenta―ás suas necessidades, aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta affronta!
No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade irritada, o odio, o ciume, emfim.
A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de prudencia ou de banal consolação.
De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a suspirar, murmurando em voz lamurienta:
―Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!
Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla, pareceu tomar uma resolução.
―Joanna―disse ella―de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma palavra ao sr. Eugenio.
―Ó menina! Crédo!―protestou a velha―a minha bôcca não se abre para nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu
tàmem
faço de conta que nada
assucedeu
... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e começar-lhe por ahi com
climas
, que elle logo desconfia...
―Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...
―Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle se encubra. E depois de se
infirmar
da verdade, já fica sabendo quem tem...
―É justamente isso o que eu quero.
―Porque ás vezes―commentou a velha―
támem
são
malquerencias
... Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo
támem
hão muitas
invejidades
!...
―Pois é por isso...―tornou Leonor dominando-se―Eu vou-me deitar... Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor...
―Bem sei; a menina quer-se
infingir
doente esta noite p'ra elle não desconfiar...
―É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo?
―Ora essa! A'gora esqueço!...
―Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...
―Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa, não tem senão chamar...
Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar as horas com a rapidez de minutos.
Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro horas da manhã, no quarto da amante.
Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes, recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.
Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer, tranquilla.
―Deitaste-te?―disse elle―Fizeste bem, minha querida. A ceia prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui, anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês!
Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:
―Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada... Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido...
―Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes?
―Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre...
―Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr quando eu chegava, e deu-te esse resultado!
―Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse...
―Mas estás melhor, não é verdade?
―Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco...
―Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria immediatamente.
―Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto passa.
A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.
O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte lhe notou nas feições.
Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um
transporte
de ternura infinita que lhe disse:
―Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente, sinto-me melhor...
―Não, eu venho cêdo...
―A que hora?
―Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé, filhinha...
―Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres, servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado...
―N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu?
―Pois sim.
Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.
Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia, Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao piano e começou executando a walsa
Leonor
, conforme o seu anonymo correspondente lhe havia indicado.
Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel desejo de conhecer toda a verdade.
Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um chapéo de feltro.
A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella, para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.
Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa curiosidade.
O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e, parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e disse, inclinando-se em garboso cumprimento:
―Não esperava que fosse eu, não é verdade?
―O senhor!―disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições de João Lazaro.
―Eu mesmo, é verdade!―replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio galanteador;―julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e acrisolou com a ausencia.
―Mas, perdão!―tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de impaciencia―creio que não foi para insistir nos seus protestos de estima que aqui veio...
―Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem recebeu...
―Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses factos para explicar o seu procedimento...
―Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira, porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente; e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma... Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora Leonor sabêl-o...
―Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada!
―É então certo que o ama muito?―perguntou o aventureiro com um sorriso ironico.
Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel desespêro:
―Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...
―Aliás?―interrogou João Lazaro, sorrindo.
―Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça.
E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.
―É justo!―disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel galanteador.―O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada?
―O que quer dizer?
―Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto, mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!
Leonor encarou-o com altiva dignidade:
―É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza?
―Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da negra perfidia de Eugenio!
Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente, como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim, respondeu:
―O meu coração, por emquanto, não está livre.
―Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado recanto do seu peito, Leonor?
―Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e estima sincera.
―Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!
A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe ficava proximo.
―Assim entendidos―disse ella―queira dar-me as explicações que me prometteu.
―Perdão, minha querida!―tornou o aventureiro, sorrindo amavelmente―Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a nada obrigam...
―O que deseja então?
―Que me prometta, que me jure duas coisas...
―Dirá.
―A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da infidelidade de Eugenio.
―Prometto.
―A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar que, n'esta casa, occupava Eugenio...
A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração de mulher ciumenta.
―E se eu recusar essa ultima condição?―perguntou.
―Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que póde ficar sabendo desde já.
―Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!
―Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...
―É de mais!―bradou Leonor, colerica e impaciente.―Se veio aqui, para se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a brincadeira!
―Ora vamos, minha querida... socegue!―volveu o Lazaro com um sorriso cynico.―Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue frio, para procedermos com acerto e prudencia.
―Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me vae fazer.
―Ora muito bem!―principiou o João Lazaro.―Disse-lhe na minha carta que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a verdade.
―Como se chama essa menina?
―Beatriz.
―Onde mora?
―Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.
―Diz então que o casamento está projectado para breve?
―Digo.
―N'esse caso, essa menina ama-o?
―Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a ama, pois que pediu a sua mão.
―Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?
―Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o seu segredo...
―Como o soube então?
―Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!
―Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se divertir á custa alheia?
―Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio pedir-me informações a seu respeito.
―O que lhe disse?
―O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.
―Mas é forçoso impedir esse casamento!
―Talvez não seja impossivel.
―Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?
―De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço amigos intimos seus. O que deseja d'elle?
―Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...
―Está doida! E o commendador Garcia?
―Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não case!―bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação indescriptivel.
―Venha cá, socegue!―disse João Lazaro, tomando-lhe a mão.―Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso que cumpra o que prometteu.
―Pois sim... Diga então o que devo fazer...
―Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.
―Como?
―Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...
―Merece...
―Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este mundo.
―E obtida a certeza?
―Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar. Faz isto?
―Faço.
―Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.
―Não suspeitará.
―E eu voltarei a informál-a.
―Quando?
―Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.
―E até lá nada devo dizer nem fazer?
―Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do Custodio de Jesus.
―Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente! Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...
―As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.
―As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás circumstancias?
―Todas. No seu caso, todas―replicou João Lazaro com reflexiva gravidade.
E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:
―Ora venha cá!―disse elle―Deixe-me pensar pela senhora e defender os seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto. E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e a attender-me...
―Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio, remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os seus torpes intentos!
―Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á senhora...
―Só a mim, diz?
―Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino», essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante para impedir o casamento?
Leonor baixou os olhos e não
respondeu
. João Lazaro continuou:
―O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade; pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem toma a sério.
A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe de colera, n'uma indignação suprema.
―Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu!―exclamou ella―E porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus juramentos?
João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe brincava nos labios.
―Tem razão―disse elle por fim―Mas que quer, minha querida? A sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a razão, que ninguem attende.
―Ha de pelo menos attendel-a elle!
João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.
―Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se. Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe assevero, o Eugenio pensa, em se
fazer homem sério
por meio de uma alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.
―Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que é!―bradou Leonor completamente dementada.
―Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim, minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê, Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está fallando.
―Mas o que devo então fazer, santo Deus!―clamou a formosa Laura, estorcendo as mãos em desespero.
―Ter prudencia e esperar.
―Ter prudencia! Esperar... o que e como?
―Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois tenha prudencia e vingue-se, Leonor...
―Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela?
―Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar. Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha a...
―A que?
―A realisar grandes emprezas que premedito...
Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.
―E que emprezas são essas?
―Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos. Posso contar com a senhora?
A loura hesitou. Por fim respondeu:
―Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou, pelo menos, a vingar-me d'elle.
―Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.
―Está bem!―disse a loura estendendo-lhe a mão―póde contar comigo.
João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e dispoz-se a sahir.
―Ámanhã voltarei á mesma hora―disse elle á sahida.―E o signal convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje.
―Espere!―reflectiu a loura―Se ás vezes, por qualquer motivo, não me fôr possivel recebel-o...
―Claro está que não dá o signal.
―Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde...
―Toque então a marcha da
Cadiz
.
―Está bem.
―Ainda mais―tornou o Lazaro―se quizer prevenir-me de que não venha no dia seguinte, substitua. a marcha da
Cadiz
pela
Cavallaria Rusticana
. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias depois.
―Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir...
―Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.
―Até amanhã.
O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um beijo, e sahiu.
XIV Miseravel!
João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte batia á porta de Jorge. Era uma casa modesta, de homem só, em que se notava o natural desarranjo de quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher a dirigir o serviço domestico.
―Venho fazer-te a promettida visita―disse João Lazaro ao amigo que estava já sentado á banca no seu gabinete de trabalho.
―Bem vindo sejas, meu caro!―volveu-lhe Jorge, interrompendo a escripta e indicando-lhe uma cadeira.
―Sempre a trabalhar!―disse João Lazaro com um sorriso de curiosidade.―Em que diabo te occupas agora?
―Tomo apontamentos para um bosquejo historico... Bem vês, a historia é a minha paixão...
―Bonito entretenimento para quem não tem que fazer...
―Que queres? Em alguma coisa se hade matar o tempo...
―Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que eu dirijo em Lisboa?
―Eu!
―Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me de immensissima utilidade. Ha tão pouco quem escreva bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um trabalho obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa, quando podias brilhar entre os primeiros, tornares-te lido, popular... Queres?
―Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, e principalmente os da tua côr.
―Mas, homem, eu não te peço a collaboração politica, posto que ella me fosse extremamente agradavel e vantajosa... Mas, ao menos, a collaboração litteraria. A litteratura pertence a todos os campos e não impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade de ideias politicas. O meu jornal está a precisar de sangue novo... Eu esforço-me por fazer d'elle um jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço se perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna brilhante que me secunde. Além d'isso, o publico não está educado, o publico não comprehende o que é bom nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau a que está habituado, deixando no olvido e na indifferença o que é bom!
―Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me havia de escassear publico...―disse Jorge rindo.―Mas não, meu caro, eu não estou resolvido a collaborar em jornaes...
―Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma formidavel, a unica que a sociedade respeita, porque é a unica que a faz tremer.
―Mas eu não pretendo amedrontar ninguem―tornou Jorge impassivel.―Não tenho ambições, não alimento a vaidade de querer tornar-me celebre por nenhum titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade do meu gabinete e a suave alegria de um estudo que me não cança á lucta violenta do jornalismo diario, famulento Minotauro, que consome vida, actividade, talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o sacrifica. Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre partes hoje para Lisboa?
―Não. Demoro-me ainda por cá uns dias, não sei quantos...
―Bem! Folgo com a tua permanencia entre nós... É signal de que tiveste bom acolhimento por parte dos teus amigos...
João Lazaro fez uma carêta de despeito.
―Uns pulhas, os taes meus amigos!
―O que! Acaso não estás contente com elles?
―Queres que te falle com franqueza? A ti posso dizer tudo, porque és meu amigo...
―Bem sabes que não tenho o menor interesse em revelar as confidencias que me fazes.
―Pois bem; declaro-te que estou arrependido de me haver sacrificado por um partido de verdadeiros bilhostres!
―Ai, já?!
―Já! E, com franqueza, agora não me fica bem recuar... seria um escandalo compromettedor da minha popularidade, do meu nome... Mas, acredita, que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas vistas, fazia-o sem a mais leve hesitação.
―Não pódes... isso com certeza não pódes―tornou Jorge.
―Pois esse é todo o meu desespero! Tenho de permanecer atrelado a estes imbecis que n'uma hora de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem, e não posso tirar d'elles a vingança que merecem!
―Mas de que te queixas? Qual é o motivo do teu desgosto?
―São uns miseraveis! Não ha quem lhes apanhe dinheiro para nada... Estou compromettido, cheio de dividas, porque tenho gasto sommas enormes, tudo para honrar o partido e sustentar o brilho do meu nome, unica coisa que ainda dá importancia a esse agrupamento de idiotas...
―És modesto, João!―interrompeu Jorge rindo.
―Que diabo! entre amigos não ha necessidade de estarmos com cerimonias. A verdade é esta...
―Tens razão.
Inter amicus non est gerigonça
, dizia-se no meu tempo. Continua.
―Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto que não passava de um plano bem combinado para arranjar uma somma de que preciso para me livrar de apuros. Bato á porta dos correligionarios mais endinheirados de Lisboa e digo-lhes que preciso de vir ao norte combinar com os nossos amigos um golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro, porque elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma, a suprema força. Claro está, eu não pedia para mim, pedia para o serviço do partido, para o triumpho da causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer para lhes arrancar os magros cobres com que fiz a viagem?
―Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!...―disse Jorge com sarcasmo.
―É sangue... mas não teem elles obrigação de dar o
sangue
pela patria?
―É que elles não estão talvez bem convencidos de que a patria és tu...
―Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira imagem, pelintra e cheio de necessidades como ella! Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria, porque ella tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre missão o salval-a! Pois os grandes burros não se capacitam d'isto!
―Mas, afinal, de que tens tu vivido?
―D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem ido largando os cobres, persuadidos uns de que a coisa estava para já, outros pela simples vaidade de se aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... Mas agora começam a retrahir-se, e sei que alguns até já teem dito que lhes sou pesado em demasia! Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento do seu partido!
―O mundo está cheio de ingratos, meu caro!
―Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço, reclamo dinheiro á ordem para a realisação do meu plano, e contra a minha espectativa, em vez de pôrem á minha disposição os seus cofres, torcem o nariz e perguntam-me quanto é preciso, como se isto fosse uma sacca de arroz ou um costado de bacalhau que convém regatear! É inaudito, não achas?
―Acho... acho que vieste sem dinheiro e que voltas sem elle... Meu caro João, sejamos francos, tens levado uma vida de expedientes, uma vida de exploração politica que não podia durar sempre... Tu devias pensar que não ha minas inexgotaveis e que o mais vigoroso organismo não resiste a sangrias repetidas...
―É certo, mas eu não vim ao mundo para viver de ar e de esperanças... Tenho trabalhado, tenho sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...
―Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente inutil, improficuo, e os factos demonstram que, em vez de prestares auxilio, o verdadeiro auxiliado és tu...
―Estás muito enganado! Eu tenho segredos que valem dinheiro... Se eu quizesse fallar, se eu quizesse reduzir a dinheiro tudo o que sei, não teria difficuldades...
Jorge sorriu.
―Isso tambem eu creio―disse elle.
―E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que elles não correspondem á sinceridade e dedicação com que eu os tenho servido...
―Queres dizer, se não continuarem a corresponder...
―Pois está claro! Eu não tenho obrigação de respeitar mais os interesses d'elles do que os meus...
Houve um silencio de alguns minutos.
―É verdade, ainda te dás com o Avioso?―perguntou o Lazaro.
―Continuamos a ser amigos como sempre fomos.
―Esse homem é meu adversario politico, dos mais ferrenhos e intransigentes, mas eu pessoalmente sympathiso com elle.
―É um bello e generoso caracter. O peor defeito que lhe conheço é o de ser politico.
―Talvez me convenha aproximar-me d'elle...
―Quando quizeres, estou ao teu dispôr.
―Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára... Mas, se me fôr preciso, conto comtigo, com a tua discreção, com a tua amizade...
―Já sabes que estou sempre ao teu dispôr...
―Bem; havemos de fallar.
N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento intimo do aventureiro, e disse comsigo:
―Temos o chefe mudado em espião...
João Lazaro accendeu um charuto e passado um instante, expellindo uma fumaça:
―A vida está para os vadios, para os valdevinos, para os impostores... Olha aquelle rapaz por quem na dias me perguntaste no
Suisso
, o Eugenio de Mello, como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!
―É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto de casamento?
―Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a respeito d'esse negocio, nem pio! Os amigos, em geral, são assim... guardam o melhor para elles.
―É que não estará ainda definitivamente resolvido o enlace...
―Mas tu disseste-me que sim...
―Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os homens de dinheiro. Primeiro que se resolvam a consentir no casamento de uma filha, tratam de indagar se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que vae adquirir... E como tu dizes que elle não tem nada de seu...
―Não tem onde cáia morto, essa te posso eu jurar!
―Então ahi está! talvez que não sejas tu o unico a saber essa particularidade com respeito ao teu amigo, e d'ahi sobreviessem difficuldades... Apesar de que o procurador Belchior affirma, segundo ouvi, que elle possue importantes propriedades no Alemtejo.
―O procurador Belchior? Que sabe o procurador Belchior ácerca do Eugenio?
―Não sei... talvez indagasse.
―Pois se indagou e diz que elle é rico, mente! Ahi ha de haver por força grande embrulhada.
―Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo d'esse tal Eugenio, que, não obstante, gasta dinheiro a rodos e sustenta bisarramente a fama de rapaz rico...
―Á custa do commendador Garcia...
―Será, não contesto. Mas para ser dinheiro fornecido por uma mulher n'essas condições, parece-me demasiado... Salvo se ella tambem é rica...
―Não é, mas o commendador dispende muito com ella.
―Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte de receita para tamanha dissipação...
―Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o.
―O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza e nunca uma fonte de receita, tu bem o sabes...
―Pois é verdade; mas como tem cambiantes, permitte a illusão...
―Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel viver como vive, dispender como dispende, e, sobretudo, conquistar a amizade do procurador Belchior... Alli deve haver mais alguma coisa...
―A não ser que o procurador vá feito com elle para embarrilar o capitalista...―aventurou João Lazaro.
―Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz d'isso.
―Hei de averiguar!―tornou o João Lazaro.
―Que interesse tens tu em o saber?
―O interesse que tem todo o homem em conhecer as patifarias do seu semelhante... Imagina tu que este Eugenio de Mello ámanhã me apparece rico, senhor de grandes capitaes, personagem importante na politica e que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes no homem que muda de posição para melhor, acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama amigo e offerece ceias?...
―E se tal acontecer, que te importas tu com isso? É mais um biltre que ficas conhecendo...
―Pois sim, mas é um biltre que me offenderá impunemente, se eu não tiver o cuidado de ir archivando as notas das suas patifarias d'hoje, para lhe dar com ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer fino...
―Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, nem mais me lembrava d'elle... O meu despreso seria castigo sufficiente á sua canalhice...
―Nada, nada, menino!―protestou João Lazaro―Quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre...
―Elle, porém, não é teu inimigo...
―Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia tem demonstrado que o homem previdente está sempre a coberto dos maiores perigos...
―Tu és extraordinario, João! Se procedes assim com os amigos, como procederás com aquelles a quem odeias?...
―Queres ver? Olha!
João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle uma carteira que abriu.
―Tenho aqui―disse elle―uma relação dos meus inimigos―a quem hei-de um dia dar lembranças minhas... É uma espécie de lista da loteria em que só estão os nomes dos individuos
premiados
... Vê!
Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes conhecidos.
―Para que é isto?―perguntou Jorge.
―Para que? São
crédores
meus a quem tenciono
pagar
um dia... Ha-de ser uma
liquidação
completa!
E fez um gesto de quem aperta um laço.
―Serias capaz d'isso, João?―disse Jorge n'um tom sombrio.
―Oh! os candieiros não se fizeram para outra coisa! Has-de vêr... Hei-de dar-te o espectaculo duma
illuminação
como nunca viste.
―Não darás...
―Porque?
―Porque se a
festa
se preparar, eu já sei que, para evitar o espectaculo de uma semelhante
illuminação
, tenho de te procurar e metter-te uma bala na cabeça antes de mais nada.
―Tu!
―Eu.
―Mas o caso não é comtigo. Tu não és meu inimigo.
―Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem como tu, é preciso estar sempre prevenido...
João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo, teve mêdo de Jorge.
―Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que não posso nunca duvidar da tua amizade. Alem d'isso, eu estava gracejando...
―E a gracejar confeccionaste esta lista...
―Para apavorar simplesmente. É uma fórma inoffensiva de vingança―aterrar os que são meus inimigos, os que me fizeram mal!...
Jorge sorriu com despreso:
―Mau processo é esse de apavorar os inimigos com ameaças que não tencionas realisar...―disse elle.
―Ao menos sobresalto-lhes as noites...―replicou o João Lazaro.
―Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que compromettes os teus dias... Queres um conselho, João?
―Dize lá?...
―Rasga essa relação de nomes, que é o mais infame documento que pódes dar do teu caracter... e se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a leviandade de a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade.
―Jorge, vejo que levas muito mais longe do que eu suppunha um caso de mera brincadeira da minha parte!―disse João Lazaro, verdadeiramente compromettido.
―É que a mim revoltam-me os actos de cobardia, mesmo quando não passam d'uma invenção absurda e idiota.
Fez-se um silencio constrangido entre os dois.
―A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a intenção de realisar a vingança quo te disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta relação, está em que t' ―A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a intenção de realisar a vingança quo te disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta relação, está em que t'a mostro justamente no momento em que mais afastado vou ficar do campo que lhes é hostil..
Jorge encarou-o.
―Vaes então mudar de campo de acção politica?―perguntou.
―Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, indifferente. Não me entendo com semelhante canalha!
―Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem dinheiro para a realisação do teu decantado plano, o que farás?
―Ao dinheiro? Gasto-o.
―E ao plano?
―O plano vou realisal-o para Hespanha; e é possivel que eu por lá fique e mais elle...
Jorge riu-se.
―É então ainda uma mystificação que projectas?
―Mystificação, propriamente dita, não é... Estreitarei relações com os principaes vultos da peninsula, darei importancia ao meu partido, farei que se falle n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel do que é... Isto creio que é serviço de algum valor e que bem vale o dinheiro que me derem...
―E se não conseguires que te dêem coisa alguma?
―Terei que pedir emprestado aos adversarios―que, mais avisados, não me recusarão o que os meus correligionarios me negam...
―Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste se eu estou ainda em boas relações com o Avioso?
―Foi.
―Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti, se eu não te apresentar.
―E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?
―Conforme. Se te comprometteres comigo a não abusar da boa fé do Avioso, estou ao teu dispôr. Do contrario, não.
―Até faço mais... Isto para tu veres a minha lealdade...
―Dize lá!
―Eu não me aproximo do Avioso, para não dar nas vistas nem despertar suspeitas... Faço-te as communicações a ti para tu lh'as transmittires. Já vês que assim assumo a responsabilidade inteira para comtigo. Acceitas?
―Está combinado. Acceito.
―Mas... tu comprehendes... a minha situação financeira é difficil...
―Já sei. Quanto?
―Por uma vez só?
―Não. Por mez.
―Diabo! Eu não sou um espião vulgar...
―O que é bom paga-se bem. Quanto?
―Duzentos mil reis será muito?
―Não sou eu que hei-de dizel-o...
―Pois quem?
―Tu e mais ninguem. Não se compra o homem, compra-se o serviço...
―Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis por mez e eu prestarei serviço que valerá muito mais.
―Têl-os-has.
―Mas―observou João Lazaro com uma certa hesitação―ha ainda uma coisa...
―Dize.
―Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos serios que não posso protelar por mais tempo.
―Bem sei, precisas de um adiantamento...
―É isso.
―Quanto calculas que te seja preciso?
―N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo, mas era um grande auxilio.
―Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o adiantamento. Mas, tu bem sabes, elle é curioso, excessivamente curioso mesmo...
―Comprehendo.
―Então, se comprehendes, não perderei tempo a explicar-te qual a maneira de obteres do Avioso a somma que desejas.
―Olha lá: uma relação completa dos que mais se salientaram nas ultimas reuniões secretas e das resoluções n'ellas tomadas bastará por emquanto?
―Basta.
―Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as minhas difficuldades não forem removidas por outra fórma, trarei tudo isso.
―Está bem.
―Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?
―Fallo.
―Mas recommenda-lhe o maior segredo e discrecção. Que isto não transpire por modo algum.
―A quem mais interessa guardar segredo é a elle. Bem vês que, inutilisado o agente, de nada serviria gastar dinheiro com elle.
―É precisamente isso.
―Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo que a elle proprio convem guardar.
João Lazaro accendeu outro charuto.
―Só a tua grande amizade e dedicação me poderia levar a isto!
Jorge sorriu.
―A minha amizade e a sovinice sordida dos teus amigos...
―É claro. Mas se não confiasse tanto como confio em ti, eu não acceitaria uma aproximação de semelhante natureza com o Avioso.
―E eu, se não fosse tão teu amigo co ―E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e não sentisse um grande desejo de te auxiliar na situação difficil em que te encontras, tambem não tomaria sobre mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te dinheiro. A proposito: sempre partes breve para Lisboa?
―Já, já, não. Demoro-me aqui ainda alguns dias. Mas quando partir para Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos.
―Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas indagar a especie de relações que existem entre Eugenio de Mello e o procurador Belchior?
―Estou resolvido a tratar d'isso.
―Não me disseste que esse Eugenio tem uns amores inconfessaveis, occulta fonte de receita que equilibra o largo orçamento em que estão representados todos os vicios com as respectivas verbas de despeza?
―Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: essa loura, ciumenta como um demonio e apaixonada como uma gata, já sabe que Eugenio projecta casar-se.
―Sabe? Quem lh'o disse?
―Eu. Tu não me pediste segredo.
―Nem me interessa que ella o não saiba.
―Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu me propuz, e tomou amores com Eugenio de Mello. A hora da minha vingança havia de chegar, e chegou. Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a esta hora está ella esperando impaciente que eu lhe leve as minhas informações e as minhas ordens.
―Eu já sabia isso.
João Lazaro encarou o amigo com espanto.
―Já?!―perguntou.
―Já.
―Como o soubeste?
―Eu sei tudo.
―Não suppuz que te interessassem os meus actos a ponto de me mandares espionar.
―Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do que eu se interessa em saber a tua conducta.
―Ah! sim...―fez João Lazaro reflectindo.―Mas esta visita que eu fiz não tinha caracter politico―e não acho correcto que me espionem e me sigam n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento com que me perseguem quando eu conspiro...
―Vamos a saber―disse Jorge.―Tens interesse em que Eugenio de Mello não realise o casamento com a filha do capitalista?
João Lazaro fez uma carêta.
―Não me importo absolutamente nada com isso. O meu empenho é só castigál-o pela sua falta de franqueza e lealdade para comigo. Devia ter-me dito que ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto pelo que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita a Leonor, vingo-me e preparo o terreno para occupar a praça, que vae ficar abandonada.
―Se Eugenio casar...
―Quer case, quer não, Leonor não lhe perdoará. Convencida do que o amante quiz trahil-a casando com outra, cortará immediatamente as suas relações com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir pelo maior amigo do perfido. Ora ella sabe que o maior amigo de Eugenio sou eu...
―E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades de vir a ser admittido ao logar vago...
―Justo!
―É curiosa essa aventura!
―É curiosa, mas muito vulgar entre amigos.
―Será, mas entendo que deves proceder com cautela...
―Porque?
―Porque não te fica bem que se torne publico o teu papel nada invejavel n'essa intriga. Queres fazer uma coisa?
―Dize.
―Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer aventura sem me consultares primeiro. Valeu?
―Está dito. Mas não te esqueças de fallar ao Avioso. Estou immensamente precisado de dinheiro...
―Não me esqueço.
O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se.
―Adeus―disse elle―Amanhã procuro-te.
―Pois sim. Adeus.
Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou com a vista até elle transpôr a porta da sala, murmurou:
―Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!
XV Conluio infame
No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente o dono da casa e o seu amigo e confidente, o procurador Belchior.
―A coisa é esta:―dizia o procurador―com pannos quentes não se faz nada.
―Ai, já? Você já é da minha opinião?―replicou o Custodio, triumphante.―Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha auctoridade de pae e levar a rapariga á força á igreja, você não deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e agora é tarde para tomar outro caminho...
―Qual outro caminho?
―O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... o caminho da auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido até ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a crista, a julgar que estou dependente da sua protecção, como é que eu hei-de chegar ao pé d'ella e dar-lhe dois safanões e quatro berros que a façam entrar na ordem?