Front matter (continued 3)
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―Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas, pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da origem honesta do nosso nascimento...
―O homem―volveu Jorge―creatura de Deus, não póde ser jamais responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir. Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou filho de um rei, elle é sempre um homem
igual aos outros
e d'elles só póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes.
―Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens a comprehendessem assim!
―Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos seculos, contra a
rotina
―que é a famosa trincheira erguida a impedir a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a conquista.
Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.
Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...
É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria.
Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada. Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.
Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a impellisse.
Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa, penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das escadas até ao primeiro andar.
Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:
―
Licet?
―Entrae!―disse de dentro uma voz.
Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se encontrava na sua presença.
Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de estudo, sabedor e profundo.
Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.
―É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins―disse elle rindo―para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a sciencia, Mestre!
O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e respondeu grave e pausado:
―Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca que vá pouzar-lhe no pára-raios.
Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao recem-chegado:
―Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e estava estranhando a vossa demora...
―Mestre―respondeu o outro―teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo.
―Um caso novo! O que temos, pois?
―Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende fazer victima um dos irmãos da
Mão-Negra
.
―A
Mão Negra
tem já força e poder bastante para desviar de sobre a cabeça de seus
irmãos
a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito alto que elles estejam collocados. De que se trata?
―Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...
―Ah! O que lhe succede?
―Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um herdeiro rico, que ella não deseja nem estima.
―E sabe elle dos amores da filha com Paulo?
―Não o deve saber, pois que este nosso
irmão
, movido de honestos e nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama.
―O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que precisa?
―De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.
―Está na mão d'ella. Que recuse.
―Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o que Paulo pretende evitar.
―Pois bem. A
Mão-Negra
cumprirá o seu dever. Como se chama o pae d'essa menina?
―Custodio de Jesus?
―E o pretendido noivo?
―Eugenio de Mello.
―Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens; conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.
―Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.
―Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos os
irmãos
que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas as informações, procederemos como fôr de justiça.
Jorge inclinou-se.
―Temos ainda mais―disse elle.
―O quê?
―Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu nascimento...
―Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram, que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser?
―Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um
abandonado
... A sua infancia correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as despezas da sua educação scientifica.
―Conhece elle esses protectores?
―Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial!
―N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus proprios paes?
―Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa o appellido Noronha...
―Madre Paula e padre Filippe, dizeis?―interrogou o homem dos oculos verdes com um leve tremôr na voz.
―Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.
O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de
Mestre
, cruzou os braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso em profunda reflexão.
Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o tremor da voz:
―Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira origem d'esse rapaz.
Depois accrescentou:
―Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu amigo.
Jorge levantou-se.
―Amanhã―disse elle―deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de Eugenio de Mello.
―Se assim acontecer―replicou o homem dos oculos verdes―poderemos deliberar em capitulo o que convirá fazer.
Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado.
Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa, encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em profundo scismar.
―Madre Paula e padre Filippe!―disse elle por fim.―Porque extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da
Irmã Dorothêa
?
Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.
Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume encadernado a preto, que abriu e começou folheando.
As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um pensamento negro.
Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém, que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente; retomando o papel a sua brancura immaculada.
É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.
Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle occulta no seio?
IX Amores faceis
Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.
O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em que se notava decencia e bom gosto.
Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever chamar a attenção do dono ou dona da casa.
Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher, trazendo na mão um castiçal de prata em que ardia uma vela.
―És tu, Eugenio?
―Sou eu, minha querida!
O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava, acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o fino roupão de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a longamente nos labios.
―Demorei-me, não é verdade?―perguntou elle, lançando-lhe um braço á roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella havia surgido.
―Principiava a desesperar-me... Imaginei que já não virias e pensava na maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono!
―Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te quer, que tanto te adora?!
―Que queres! O ciume começava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas talvez nos braços de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz quando te vê, quando te tem a seu lado!
A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, pousou o castiçal sobre um velador de pau ébano que ficava ao lado do marmore do fogão, e lançando os braços ao redor do pescoço do mancebo, sorveu-lhe nos labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e voluptuoso que o primeiro.
―Mas tu não estiveste com outra, não?―disse n'um gemido em que havia receio e esperança, supplica e perdão.
―Que ideia! Estive com uns amigos, de quem não pude ver-me livre...
―É que eu amo-te tanto que, quando não te vejo, penso sempre que te perco, que não voltas mais ao pé de mim, que me esqueces, que foges com outra para nunca mais!
Eugenio ria.
―Descança, meu amor... Quem é que me ha de querer? Não vês que eu sou tão infeliz, tão desgraçado, que não tenho ninguem no mundo que devéras me estime senão tu?
―E tambem de ninguem mais precisas!―disse com vehemencia a dama loura.―Não estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de affectos que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas as necessidades do teu coração, todas as ambições da tua existencia? Não faço eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?!
―Decerto, decerto, minha querida amiga!―fez Eugenio, suspirando.―Eu seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...
E interrompeu-se suspirando.
―Se quê? Anda, acaba!
―Se fosses minha sómente... se eu fosse rico bastante para não consentir que outro partilhasse os teus affectos...
―Mas eu não o amo!―protestou a dama loura.―Bem sabes que o não amo, Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me dá do seu amor, cada manifestação da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o meu despreso por elle!
―Ah! se eu fôsse rico―tornou a suspirar o bohemio―com que prazer eu o correria a pontapés d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a cacos, tudo a farrapos, para só salvar de todo este montão de ruinas, puro e intacto, o adorado coração da minha pobre Leonor!
Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos pelos cabellos, n'uma attitude de heroe de melodrama.
Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos alvas e pequeninas, em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando:
―Então! Vá! Não sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes que elle é velho... não póde durar muito... E como promette contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...
―Dias muito felizes!―repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir de novo sobre o estofo do sofá.―Antes d'isso hei-de eu morrer de desespero!
―Morrer!―exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos.―Não me falles em morrer, se és meu amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e receias que um velho dure mais que tu?!
―Não! eu não temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte... Ás vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade possivel n'este mundo só existe na paz da sepultura!
―Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, aposto!
―O não ter dinheiro é o menos... Desde que rompi com a minha familia, que quiz por força tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro, habituei-me ás privações inevitaveis que resultam de uma mezada, que minha mãe me manda ás escondidas de meu pae... Mas o peor não é isso... o peor são as decepções, os desenganos que todos os dias um homem nas minhas circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem e que nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o.
―Mas o que foi? Conta-m'o, filho!―supplicou Leonor com interesse.
―Para que hei-de eu affligir-te com coisas que não pódes remediar? Fallêmos antes de ti, do nosso amor, tão puro e tão ardente que, se não fôra elle, já ha muito eu teria acabado com este negro fadario!
―Não, não! quero saber... Anda, falla!―insistiu ella amorosamente.
Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a cabeça com um fundo suspiro e principiou contando, em tom de confidencia:
―Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos, todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e todas as horas me protestavam uma eterna dedicação, uma amizade sem limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses miseraveis!
O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes violentas uns amigos que nunca teve.
―Vamos! Não te afflijas!―aquietou em voz dôce a carinhosa e ingenua Leonor.
―Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz, nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se não apresentasse esta quantia. O pobre moço apaixonara-se por uma actriz e, arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. Veio ter commigo afflicto, contando-me a sua desgraça e pedindo-me que lhe valesse. N'essa occasião, infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro, porque tinha perdido em uma só noite perto de um conto de réis. Mas como a todo o custo queria salvar a reputação e o futuro do pobre rapaz, lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.
―Generoso coração!―exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa veneração.
O bohemio continuou:
―Valeu-se ao rapaz, que
continuou
desempenhando o seu logar, sem que nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, até que um dia, poucos mezes depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena d'elle!
―Coitado! Esse rapaz era infeliz,―commentou ingenuamente a loura, mais por comprazer ao amante do que por se sentir movida á compaixão.
―Era! Era muito infeliz!―suspirou o bohemio.―Como elle morreu, é claro que não pode pagar...
―Não deixou nada?
―Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli era o
menino bonito
da familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre mãe me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais enfurecido contra mim, teima em não me dar um real...
―Cruel pae!
―Retirei então para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem sou, para não dar ás pessoas que me conheciam o desagradavel e triste espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situação...
―Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor!
―Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de quem te fallo, este indigno, que é rico, que está altamente collocado, e que sabe a difficil situação em que me encontro, tem-me escripto mais que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe que eu não utilisei, que não foram para mim e que não posso pagar n'esta occasião! Escrevi-lhe a expôr-lhe a minha má situação e a pedir-lhe que não me apertasse por uma divida que, por emquanto, me é impossivel solver. Pois este miseravel, este infame ameaça-me com os jornaes, se eu não lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em consideração que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para amanhã morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e que me deixa tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a guela ignobil!
Dito isto com o calor e a convicção que põem nas mentirosas phantasias todos os intrujões que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a levantar-se de repellão, passeando agitadamente pela sala.
―E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um homem perdido! Sou um homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!
―Eugenio! meu Eugenio!―exclamou afflicta a loura Leonor―não penses em fazer tolices...
―Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que injuriado! E eu não posso... não posso com esta ideia de me vêr offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu só queria ter os trezentos mil reis para lhe atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi tens, miseravel! Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, do que tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!»
―E assim lhe dirás, meu amigo!―exclamou fremente de indignação a apaixonada loura.―Não será por trezentos mil reis que esse canalha, quem quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos mil reis tel-os-has amanhã.
―Oh! mas eu não posso acceitar...―recusou o bohemio, em cujos olhos fulgiu um raio de alegria.―Tens feito tantos sacrificios por mim... Devo-te já tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, que não devo consentir em que te sacrifiques mais...
―Cala-te, não sejas creança!―interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina mão na bocca para o impedir de continuar.―O meu maior prazer, a minha maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e feliz!
―Como és boa e como eu te adoro!―exclamou Eugenio, cingindo-a ardentemente nos braços com amoroso impulso.
Não devemos nem é justo deixar mais tempo o leitor sem a explicação que esta scena extraordinaria requer.
Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e sujos amores.
Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho commendador―o sr. commendador Garcia―encontrára um bello dia á sahida da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos, a preço de tres tostões por dia.
O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga, começou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu envolvel-a em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiçar no provavel matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado.
Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do generoso commendador.
Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza da sua figura gentilissima.
O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que passaram um tenue verniz de educação por sobre aquella rudeza nativa do berço humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, esquecida da sua pobre origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava nas ruas, fazendo gala do seu impudôr.
Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido pomo, tanto mais cubiçado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura em que o commendador bizarro e dadivoso a collocára.
Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara á roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de reis em uma das nossas praias mais concorridas.
O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, naturalmente fino e intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital e d'elles copiára as maneiras elegantes, a linguagem culta e até―oh supremo instincto de imitação!―o apparente despreso pelo dinheiro que os outros desperdiçavam ás mãos cheias, porque eram ricos e que elle raras vezes possuia, porque era pobre.
Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias são tudo, e que abre sem escrupulos os braços e as portas ao primeiro adventicio que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer de que maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não podia deixar de ser, logo recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense.
Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, além d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não podia senão diminuir-lh'os.
Começou então entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez horas e a impedir-lhe a expansão franca do seu coração amoroso.
Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo, futuro senhor de porcos e cortiça que chegariam para pagar a divida externa, mas, por desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae protervo e sem coração, que o condemnara á pobreza por elle não querer sacrificar o seu coração de rapaz brioso á cortiça e aos porcos de uma prima com quem pretendiam casal-o.
Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o coração rebelde de um moço que tão impavidamente resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma prima detestada, puzera á disposição do amante numero dois, o seu coração virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das despezas a que occorria o amante numero um.
Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada: á noite, depois das dez. De dia, a toda a hora.
Eugenio, porém, hospedara-se no
Hotel Francfort
como convinha e era prudente, para que estas relações, que deviam conservar-se clandestinas, não chegassem a escandalisar o commendador Garcia.
Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria os tresentos mil reis para atirar com elles á face estanhada do amigo indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restricções e sem sombra de melancholia á mais carinhosa e enthusiaetica adoração que um coração de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante.
―Sabes?―disse-lhe elle.―De ti recebo estas provas de affecto e orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo, porque o meu coração todo te pertence e, assim, vejo que entre nós não ha meu nem teu, tudo é commum, tudo é igualmente compartilhado pelos dois. E de minha prima... vê tu lá!―ainda que viesse de rastos lançar-se a meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a salvação da minha vida, a salvação da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o inferno, mas não acceitava d'ella um real que fosse!
―É porque não a amas...
―É porque te amo, Leonor! É porque só tu n'este mundo tiveste poder para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mãos!
―Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! Só queria ser bem rica para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti!
―Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, então, Leonor, o que tu hoje desejas fazer-me, é justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei de trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que é outra terra, e então verás o que é vida, o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres?
―Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo sósinha, sem estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do mundo, numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos!
―Amor e uma cabana!―disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a com enthusiasmo.―Graças a Deus, havemos de ter melhor do que isso...
E suspirando com tristeza:
―Para isso bastava só que morresse meu pae!
―Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura.
―Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... Mas acredita que, ás vezes, Leonor, até chego a pensar que não tenho pae!
O velhaco tinha razão.
Ele não só já o não tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pôde abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraçado vendia, como adelo, botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas immediações da travessa dos Fieis de Deus.
Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para o hospital de S. José, onde falleceu, nunca elle a conhecera.
Portanto, esta exclamação: «ás vezes até chego a pensar que não tenho pae», ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que desde criança se habituára a pensar que o não tivera.
No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos mil reis que o bohemio devia levar, não para o phantasiado amigo, mas para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel não só afundava o dinheiro que podia obter á custa de tranquibernias e abjecções, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem válido.
O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, não sem notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se repetiam.
No emtanto, como a sua paixão por Leonor era violenta como um incendio n'uma casa velha, ainda d'esta vez não se atreveu a fazer a menor objecção.
Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mãos do seu
anjo mau
o dinheiro extorquido á imbecilidade senil do commendador.
―Aqui tens―disse ella―paga a esse canalha, a esse falso amigo, e lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha!
―Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora tão ardentemente os teus encantos como eu!―replicou o bohemio, radiante de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante.
Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu destino.
Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio do Belchior.
―Olhe lá―disse elle―esta noite posso dispôr de mim, ou teremos nova estopada?
―Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. Elle lá ficou encarregado de tecer os pausinhos...
―O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas não tem duvida que, se me entra para a
loja
, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a tomar andadura regular.
―Isso, depois, é lá comsigo e com ella―respondeu rindo o procurador.―Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem, emquanto o Custodio não esticar o pernil...
―Isso é dos livros! Mas sabe você que já me vae enfadando tanta difficuldade?
―Meu amigo, não se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, é preciso muita paciencia, porque de outro modo não se faz nada.
―Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para uma ceia?
―Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem é que o ha de impedir?
―Quem me impediu hontem. Você é sempre o meu
desmancha prazeres
, amigo Belchior!
―Para seu bem.
―E para seu...
―Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito mais para você do que para mim.
O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio de Jesus.
―E então?―interrogaram os dois.
―Então, sabem o que ella me disse?
―O que foi?
―Adivinhem!
―Não somos bruxos!―replicou o procurador―Falle para ahi, com seiscentos diabos! Sim ou não?
―Pois bem―não!
―Hein?!―fizeram os dois espantados.
―É verdade! Disse-me agora muito terminantemente que não.
―E você não voltou á historia do tiro na cabeça?―observou o procurador.
―Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. A pequena não só me declarou abertamente que não queria casar com o sr. Eugenio, mas fez mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se encarregaria de resolver a questão de modo satisfatorio e que nos puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia...
―E você o que respondeu a isso?―perguntou o Belchior.
―O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim, porque você bem vê que, depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia dizer que ia dar um tiro na cabeça...
―Mas o que pensa então fazer?―interrogou Eugenio.
―Esperar, a ver o que sae d'aqui...
―D'ahi o que sae é ella perceber que você não está arruinado como diz, e não só recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas ainda pôr-se a
chuchar
comsigo!―exclamou o Belchior furioso.―Segue-se que você representou mal a scena e não é por esse modo que nós conseguiremos nada.
―Espere, homem, espere!―interrompeu o Custodio.―Eu tenho uma ideia.
―Que ideia é?
―Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda á janella fallar ao tal rapaselho que a namora...
―Você viu?
―Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu desconfio ninguem me faz o ninho atrás da orelha... Não ouvi o que disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faça...
―Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, e se prometteu isso, com certesa temos intrujice no caso, porque elle não póde arranjar cem mil reis, quanto mais uns poucos de contos.
―Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é apresentar-lhe a nota dos meus crédores e deixar que elle confesse que não póde fazer nada. Então eu torno a ameaçar que me mato e ella não terá remedio senão ceder.
―Mas isso então quer-se para breve!―objectou o procurador―Aqui o sr. Eugenio de Mello tambem não póde estar na contingencia da pequena querer ou não querer... Porque é pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas meninas em tão boas ou melhores condições de fortuna do que sua filha...
―Eu é porque devéras a amo!―explicou o bohemio―Sinto-me loucamente apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa. Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir a sua fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus?
―O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer todo o homem de juizo: pego no dinheiro com as mãos ambas, e depois não dou o consentimento para a pequena casar.
―Ande-me assim, seu Custodio!―bradou o procurador.―Essa é de mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos...
―Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que não havemos de ter questões por causa da partilha...
Os tres desataram a rir.
―Vamos a ver o que sae d'aqui!―disse por fim o Belchior.―Tinha graça se o rapazote nos sahia á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque d'uma varinha magica, tal qual como nas peças de theatro!
―Amigo Belchior―expôz o Custodio―parece-me que andei bem em não apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora é preparar uma relação dos crédores e apresental-a á rapariga...
―Qual relação de crédores!―protestou o procurador.―Você não tem senão um credor... Esse credor sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle que venha entender-se comigo...
―Justamente!―apoiou Eugenio.―E assim ficaremos sabendo os recursos de que o tal menino dispõe...
―Está dito!―decidiu o Custodio.―É claro que cincoenta contos não se arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça fallar em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a apparecer. Então ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro na cabeça, se a pequena teimar em não querer este casamento.
―Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o pé, a propria pequena, por despeito e por vingança, será a primeira a dizer que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe propõe―opinou o procurador.
―Fiquemos então n'isto. Você é meu credor, com letras acceites por mim, e impõe que ou este casamento se faça, ou eu pague no dia do vencimento, que está para breve―concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior.
―Exactamente―respondeu este.―E mandemos para cá, que eu me encarregarei de resolver a questão.
O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que sahisse.
O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa.
Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de Borba; apresentou-lh'a, dizendo:
―Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o nariz!
O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de Mello á Fazenda Nacional.
―Com os diabos!―disse elle―para pagar tudo isto, perto de dois contos de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme!
―Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?
―Pois, amigo Belchior―affirmou o Custodio com resolução―ainda que saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não deixo perder.
―Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir.
―Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você verá como a coisa se arranja...
Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar a conta do seu debito para apresentar á filha.
X Para os grandes males...
Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de as solver.
Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma noite fallar com Beatriz.
A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio, pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.
Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.
―E o que respondeu esse homem?―interrogou Paulo.
―Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.
―E tu?...
―Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com que me ameaçou.
―E se não encontrares esse meio?
―Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro homem que não sejas tu, meu Paulo!―exclamou Beatriz com firmeza.
O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas palavras.
―Ouve, Beatriz―disse elle.―É possivel que sejamos victimas de uma d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre, não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da responsabilidade d'ellas.
―Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?―interrogou Beatriz commovida, quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo.
―Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu, um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.
―Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno do santo amor que te dedico!―exclamou a donzella.
Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.
O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha, em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos os seus actos.
Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o que perdera em dinheiro e não em honra―porque essa nunca elle a tivera―achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim, apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha.
O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz, desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia.
Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do crédor e com vencimento em curto praso.
Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma, exigindo immediato embolso.
Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e, apresentando-lhe o papel, disse:
―Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio unico da nossa salvação!
―Não fallemos n'isso, meu pae!―retorquiu mansamente Beatriz―Vamos a vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos, conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue.
―Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes―observou o snr. Custodio―Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama loucamente...
―Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu consentisse em me vender a elle por dinheiro...
―Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle.
―Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o repudia...
―O coração!―fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de hombros―O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago não está mal...
―Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae...
―Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz.
O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como unico recurso que se lhe offerecia.
Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe relancear a vista.
―Eu verei isto―disse ella―e póde ser que Deus me inspire alguma ideia salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr. Eugenio de Mello.
―Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...
E depois de um curto instante de silencio:
―Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos. Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior, coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil arrazaram-me!―suspirou por fim.
―E foi só o pae que teve prejuizos com ellas?―perguntou Beatriz.
―Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual sente o seu mal...
―E Deus o de todos.
―Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente nada...
―Será o que Deus quizer.
O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado.
Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:
―Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer um tal desgosto...
―Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...
N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos, conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com Paulo.
Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da janella gradeada com o mancebo.
―Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de ti!...―resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de contente.―Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens.
E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.
D'ahi a pouco, ressonava.
Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:
―Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do homem que ha-de ser teu sogro.
―Então?―interrogou o mancebo.
―Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras implacaveis.
Paulo encarou o amigo:
―Tens bem a certeza d'isso?―perguntou.
―Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem contos de reis.
―Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar?
―Esse procurador Belchior―disse Jorge―é tambem um refinado patife. Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a quem pretendem casar com a tua namorada.
―E elle quem é?
―Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.
―De maneira que―observou Paulo―essa divida dos cincoenta contos...
―Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe offerece.
―Eu já tinha suspeitado isso mesmo!―redarguiu Paulo indignado―Mas o que precisamos agora é provas d'essa infamia.
―Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro d'elle―que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...
―Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...
―E nós cá estamos!
―Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado...
Jorge poz-se a rir.
―Desde que a
Mão-Negra
protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu procedimento, se não fôr correcto.
Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se encontrava o sr. Custodio de Jesus.
―Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior―disse-lhe o mancebo―Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...
―Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?―perguntou Beatriz admirada.
―Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois, receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.
―Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce sobre meu pae um tal ascendente?
―São alliados. Quem
apresentou
em vossa casa Eugenio de Mello?
―Foi o Belchior.
―Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto, qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo. Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e ouve o que elle te diz.
―É extraordinario!―disse Beatriz―Suppunha meu pae um homem de genio rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade paternal!
―Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto, e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de teu pae?...
―Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha mão e eu recusei...
―Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições, teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz.
―O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...
Paulo reflectiu por alguns instantes.
―Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos achaes...
―No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida...
―Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer.
―Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo...
―Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae a mudar de resolução.
―Oxalá que assim seja!
O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha, ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre menina, perguntou-lhe com fingido carinho:
―Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação?
―Já, meu pae―respondeu Beatriz baixando os olhos.
―E o que resolves?
―Por emquanto, nada.
―Nada!―exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto.―Pois é possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te apresentei?
Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:
―Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.
―O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar.
―Pagar ou casar...―replicou Beatriz com amarga ironia.
―Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr a minha
auctoridade
paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar a vida...
―Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.
―Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.
―Alguma coisa temos já adiantado...
―O que?
―A resolução em que estou de salvar meu pae...
―Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha filha?
―Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.
―Pois olha que não tens outro recurso, crê!
―Veremos.
―Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma?
―Talvez.
―Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes fallamos em dinheiro,―emigram!
Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e serena:
―Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos lances mais desesperados da nossa vida...
―Pois sim!―tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo―é bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para esposa...
―Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe pensar reflectidamente sobre o caso...
―Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor, comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que é, como sabes, nosso crêdor...
―Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...
―Sim, isso é justo...―tornou o Custodio com brandura―Mas quantas no teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!
―Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de me decidir...
―Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia... Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade... Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!
―Sim, meu pae...―respondeu Beatriz levemente ironica―Eu conheço quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus ha de valer-nos...
―Tens essa fé, Beatriz?
―Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?
―Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente apaixonado por ti.
―É pena que eu não possa apaixonar-me por elle...
―Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de difficuldades: casar e deixar de tolices...
Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado casamento que sonhava para a filha.
―Naturalmente―ia dizendo comsigo―lá o tal franganito mostrou-se desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê!
E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.
Mal sabia o velhaco que n Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!
XI João Lazaro
Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao
Suisso
tomar café, depois de jantar.
Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava, ou a lêr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante―para matar tempo.
N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes, porque ás vezes puxava do seu livro de lembranças e tomava notas a lapis nas folhas em branco.
Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe:
―Estás a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos?
Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado.
―És tu, João!―exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braços para elle.―Como estava longe de te ver agora aqui!
Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida.
―Ora o meu João Lazaro!―tornou Jorge com alegria―Com que, voltaste ao Porto!
―É verdade!―disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e tomando uma attitude de principe que regressa do exilio―O bom filho á casa torna...
―E o bonito é que encontras a casa como a deixaste...
―Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem espanta. Não era de esperar outra cousa desde que eu faltava cá para a reformar.
―Quando chegaste?
―Hoje de manhã.
―Que tempo te demoras?
―Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante, e não posso calcular o tempo que isso me levará...
―Não tencionas fixar residencia no Porto?
―Não. Isto é pequeno demais para mim...
―Bravo, seu João! Você está crescido!―disse Jorge galhofeiramente.
―Pois tu comprehendes um vulto politico de certa
importancia
a viver no Porto? Já Lisboa é uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como não ha outra terra maior, não ha remedio senão resignarmo-nos com ella...
Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do charuto caro, com affectação, e exclamou:
―Que mal servido está este café! Não ha aqui um criado que venha receber as ordens?...
Jorge bateu as palmas, chamando o criado.
―O que tomas?―perguntou ao amigo.
―Vou tomar cerveja.
―Cerveja a este senhor―disse Jorge ao criado que se aproximara.
Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de João Lazaro, e perguntou:
―Ingleza?
―Ingleza, sim!―respondeu o João Lazaro.
E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a ordem:
―Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes!
―Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo nosso vinho...
―Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!―disse o João Lazaro com olhar torvo.
―Pela
nossa
! Pois o Brazil tambem tem Africa?―interrogou motejador o amigo de Paulo―Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és brazileiro...
―Mas portuguez pelo coração!―respondeu o outro com emphase.
E accrescentou:
―Ah! se não fosse o coração, cuidas tu que eu teria posto a minha mocidade, a minha energia, o meu talento, ao serviço de um paiz tão pequeno como este?...
―Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de mais para uma terra tão pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu seio por duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que é a tua patria, com a grande vantagem de encontrares lá já realisado o teu ideal politico?
―Já te disse: sou portuguez pelo coração...
―E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o pão
negro
das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras...
A conversação foi interrompida n'este ponto pela aproximação de Eugenio de Mello que, tendo avistado João Lazaro, dirigiu-se a elle familiarmente:
―Ó João―preveniu o bohemio―não te compromettas para amanhã á noite, porque temos ceia de rapazes em tua honra...
―Oh, diabo!―replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor―Para amanhã não será possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e não sei se de dia ficarão concluidos...
―Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e é uma semsaboria se tu não appareces... Demais a mais, o elemento feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu não pódes deixar de ser gentil para com as damas.
―Está bem: irei.
E voltando-so para Jorge:
―Não se conhecem?
―Não tenho essa honra―disse Jorge.
João Lazaro então apresentou:
―O meu amigo Eugenio do Mello...
E para este:
―O meu amigo Jorge de Gusmão.
Os dois cortejaram-se.
―Estimo conhecer v. ex.
a
―disse um.
―Igualmente―disse o outro.
E apertaram-se as mãos.
―Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do João―disse Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge―V. ex.
a
, que é tambem amigo d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, ás 10 da noite.
―Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, o que muito sinto, associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanhã de tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e inaddiaveis―respondeu Jorge.
―Creia v. ex.
a
―tornou Eugenio amavelmente―que teria immenso prazer em o vêr lá...
Jorge agradeceu com uma inclinação de cabeça.
O bohemio, que não se sentara á mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro:
―Vê lá! Se não nos virmos antes, ás 10, lá te esperamos. Fui encarregado de te dirigir o convite e agora não queiras collocar-me mal perante a rapaziada.
Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o rival de Paulo, perguntou:
―Quem é este rapaz?
O outro sorriu desdenhosamente.
―Um aventureiro!―respondeu.
―A classificação é pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle...
―De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes que um homem politico tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar com a gente da mais baixa especie.
―Mas este rapaz é...?
―É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na confiança da gente fina e é util para muita coisa que nós outros não podemos fazer.
―E vive d'isso?
―Vive de tudo. A sua existencia é uma série de expedientes engenhosos.
―Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna...
―Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo, gasta sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz rico, á custa de uma loura, que é a
sanguesuga
deliciosa do commendador Garcia... Conheces?
―Conheço o commendador Garcia perfeitamente.
―E a loura?
―Poderei tel-a visto, mas não estou certo.
―Não sabes nada!―volveu o João Lazaro desdenhoso.
―Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, já pudeste saber tudo isso?
―Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e comigo não tem reservas. Conta-me tudo.
―Então, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma rica herdeira...
―Elle!?
―Elle, sim!
―Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. Fallas sério?
―Absolutamente sério. E o mais interessante é que o pae da noiva suppõe-n'o um rapaz riquissimo...
―É boa! E não me disse nada! Que grande patife!
―Pois é verdade.
―Tens bem a certeza?
―Conheço a noiva...
―Ella quem é?
―É filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus...
―Não conheço.
―Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves conhecer...
―De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, já do tempo em que vivi no Porto.
―Pois mantem ainda hoje a boa reputação que já gosava no tempo em que ouviste fallar d'elle. O que ou não sabia era que especie de relações podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me que elle é um cavalheiro d'industria, está explicado o caso. Os dois combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha...
―É bonita essa pequena?
―Creio que sim.
―Crês?
―Nunca a vi, e por isso não a conheço pessoalmente. Mas tenho d'ella informações que a dão como uma belleza indiscutivel.
―É pena, porque, se é formosa, merece outro marido que não um
escroc
... Mas que imbecil progenitor é esse, e demais a mais capitalista, que entrega assim a filha a um typo como é o Eugenio de Mello?
―Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como toda a gente.
―Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da cilada em que o querem fazer cahir.
―Eu!―replicou Jorge―Não tenho nada com isso... Deixemos lá o rapaz. Póde ser que a fortuna o regenere.
―A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, só está bem quando gasta ouro ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o amôr de varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro levando vida do principe e bellamente relacionado...
―E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se diz, está para breve...
―Os jornaes já deram noticia?
―Não. Este negocio trata-se no maior segredo. E é natural, porque elle não deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os planos...
―É curioso!―tornou o João Lazaro―Como as mulheres são estupidas nos seus amôres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir. Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligação com o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente... Contentava-me em que não me fizesse exigencias de dinheiro, porque para isso lá estava
o outro
. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu estylo... tu sabes! todo litterario, que até era mal empregado n'aquella couçoeira de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e não houve de quê! Por fim, apparece este idiota, sem instrucção, sem elegancia, sem espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!
―É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial para escolherem o peor.
―Não são só as mulheres. Toda a humanidade é assim. Segues uma estrada que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza de que o que escolheste é sempre o peor. Mas o que me irrita é a fortuna estupida d'esse imbecil. Não vale a pena um homem ter talento, ser distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, hão-do ser sempre pela materia contra o espirito!
O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado desdem e levou o copo da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos de suprema elegancia n'um salão aristocratico.
Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e disse:
―Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas...
―Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas essas, impede-me a minha posição politica de lhes corresponder, porque se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lançar sobre mim a suspeição, accusando-me de me deixar subornar pela aristocracia.
―Sacrificas o amor á politica...
―Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, crê, é que um homem póde affirmar-se capaz de salvar um paiz á beira do abysmo...
―Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o que é que pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca possuiste dez reis, tu não passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos obscuros, dos humildes. Chegou uma occasião em que julgaste poder especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem criterio, sem fé, sem consciencia, armando á popularidade, muito disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal... Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado, cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambição, e tambem porque te era impossivel retrogradar, visto que não tinhas adquirido valôr que te desse direito a uma cotação rasoavel no campo adverso, seguiste ávante, simulando convicção onde só havia má fé.
―Não é tanto assim, meu caro―protestou o João Lazaro frouxamente.
―Que diabo! sabes que te conheço e porisso de nada te vale o fingimento para comigo... Tu és um especulador politico, como o teu amigo Eugenio de Mello é um especulador amorôso... Vives dos
kalenderes do ideal
como elle vive das infelizes sonhado como elle vive das infelizes sonhadoras do amôr. As tuas fontes de receita são tão occultas e tão inconfessaveis como as d'elle.
―Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!
―Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não admitto que os amigos, porque o são, vão julgando que me illudem e que não os conheço cabalmente.
―Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade para não ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faça n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho senão proseguir no caminho mau em que me lancei?
―Tambem não é tão mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada, porque as repartições estão atulhadas de ociosos e mais um importa já um verdadeiro attentado orçamental. Assim, dás-te ares de martyr, de principe desthronado, diante dos papalvos que vêem uma aureola de gloria a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes sustentar o prestigio da causa...
―Oh! mas estão já desmoralisados... São uns verdadeiros biltres! Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque quem não apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil reis!
―Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa.
―Eu?
―De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que não custa a fazer quando se tem ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos tambem ás vezes ganham juizo...
―Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias em que me encontro, se deixo de honrar a minha posição, apresentando-me em harmonia com o meu nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...
―E o que vens tu fazer ao Porto?
―Venho arranjar dinheiro...
―Para quem?
―Para mim.
―E suppões que t'o dêem?
―Ainda aqui ha gente de muito bôa fé...
―Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada?
―Isso já esqueceu. Agora o processo é outro...
―Bem; anda lá!
João Lazaro levantou-se.
―E tu, sempre o mesmo?
―O mesmo sempre.
―És um homem singular!
―Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que é realmente o livro mais curioso e mais difficil de lêr.
―Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde só os audaciosos vencem.
―Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheço-os tão bem!
João Lazaro consultou o relogio.
―Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir?
―Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá todos os dias até á uma hora da tarde.
―Irei dizer-te adeus.
―Pois sim.
Apertaram-se as mãos e despediram-se.
João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de despreso pelos frequentadores abancados ás mesas.
Já na rua, ia murmurando:
―Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um capitalista!
Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um sorriso mau. É que ao cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel.
―Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento!―rosnou por entre dentes―Decididamente, eu sou um homem de genio e não devo consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amôr, em fortuna e em posição social.
João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça de preto e branco, minado de inveja, roido d'ambições, irritava-se e agitava-o um rancor profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por esforço proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de posição e subia mais um furo na escala das considerações sociaes.
A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com a filha de um capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro dá, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de maio, prenhe de trovões, e como a propria
parda
brazileira de quem era filho e cujas feições retratava na côr bronzeada, nos labios grossos, nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha.
De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de preto
capoeira
, tinha o quer que era de elegante e distincto, e chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se não fôra a pretensão ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor.
Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o leitor terá occasião de apreciar melhor em capitulos subsequentes.
Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos nós travar relações com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica historia.
XII Velhos conhecimentos
Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da casa de Norberto de Noronha, que os leitores da
Irmã Dorothea
já conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia,―
casa nobre
, como lá se diz,―mas de severo e melancholico aspecto.
Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria e de festa.
É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver tornava ainda mais profunda.
Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores.
Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do santo sacrificio.
O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na
Irmã Dorothea
vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha, doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.
Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.
Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam, reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e alli se demorava de junho a setembro.
Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos―e já contava nada menos de tres―que a vida entrava na casa, e ao silencio e á tristeza succediam o ruido e a alegria.
Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias, havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo campo.
E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto, acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.
―Aurelia―dizia-lhe o irmão―se vivesses um anno em Lisboa, verias como isso te fazia bem.
―Não, Gustavo, não―replicava a dolorida viuva.―Aqui nasci, aqui vivi feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na saudade dos que me fôram queridos.
―Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não é verdade?
―Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes que perdi.
No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital, sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um linitivo ás amarguras do seu espirito.
Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa.
Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.
Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas composições mais em voga.
A noite estava bella, de luar―d'esse luar sereno e calmo das noites claras do estio.
Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias, apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos, symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro pôde ainda devassar.
Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães, attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas continuando as conversações em que estavam entretidos.
―É verdade, sabes, Gustavo?―disse D. Aurelia―vende-se outra vez o palacete que foi de Norberto de Noronha.
―Vende?―respondeu o advogado―Então o Pinho, o brazileiro para onde vae?
―Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á Mathilde, á minha criada de quarto.
―É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande fortuna e não tencionava tornar para o Brazil.
―O Pinho―esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra substituir o Negrão, fallecido ha annos―tem soffrido, ao que me consta, prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem economico... tem dispendido.
―Pois parece que não deveria ser assim―objectou Gustavo―Um homem, com uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!
―Pois é verdade!―tornou o doutor―Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo, o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em dez annos.
Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.
―Não póde ser!―insistiu Gustavo―Elle comprou a casa que foi de Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe attribue.
―Pois ahi é que está a desgraça!―retorquiu o medico―Soube ganhal-o e não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde que chegou...
―A todo o mundo!?
―É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma contos de reis...
―Isso é verdade!―concordaram alguns do grupo.
―Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro!―contestou ainda Gustavo.
―Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios, tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda a gente e d'onde se tira e não se põe...
―Bem sei! Em todo o caso...
―Em todo o caso―concluiu o doutor―se não fossem os ultimos revezes soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente sem nada.
―Pobre homem! Tenho pena.
―O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A ultima não lhe ficou por menos de dez contos...
―E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!
―A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para elle...
―Que miseria!―disse Gustavo enojado.
―E até foi bom para o Pinho―tornou o doutor.―Porque, se lhe tivessem dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem: um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas...
―Deve ser horrivel!
―Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...
―E quanto quer elle agora pela casa?
―Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não...
N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da casa de Gustavo.
―Quem nos honra?―disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado.
―Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio até cá para se distrahir um pouco?
Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:
―Senhor doutor, saberá v. ex.
a
que está lá em baixo um senhor que diz que deseja fallar ao sr. doutor....
―A qual de nós?―disse rindo Gustavo.―Aqui ha uns poucos de doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da jurisprudencia, esse estranho recemchegado?
―Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.
―Ah! então é comigo... Não disse o seu nome?
―Não quiz
dezer
... É um senhor de barbas...
―Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.
E voltando-se para os hospedes:
―Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me procure... Eu volto já.
Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido visitante.
Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos, estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres claras.
Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma expansão de velha amizade, dizendo:
―Já me não conheces, não é assim, Gustavo?
―Julio! Pois és tu?
―Sou eu, meu amigo!
E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos braços o seu amigo e companheiro de infancia.
―Mas o que é feito de ti?―perguntou Gustavo―Ha quantos annos não tenho tido noticias tuas!
―Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...
―Singularissima ausencia!
―Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções do imprevisto, porque precisava de esquecer...
―E esqueceste, afinal? Ainda bem!
―Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e onde tudo me hade ainda fallar d'ella!
Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam desgraçadamente transtornadas.
Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:
―Julgas-me doido, não é verdade?
―Não, não julgo...―replicou o irmão de Aurelia de Magalhães―Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão.
―Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida, uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar, é porque sinceramente não a amou.
―Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha?
―Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para Pariz, transferida para uma casa de
irmãs Dorotheias
e pedindo-me que a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas. Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr...
―E como pudeste esperar tanto tempo?
―Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi, pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha, percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a, e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado, velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal, convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela
irmã Dorotheia
, já não existe!
―Meu pobre amigo!―disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda compaixão―que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua existencia!
―Bem pensado, não foi―volveu Julio―Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.
―Comprar a casa de Norberto de Noronha!
―Sim.
―Com que fim? O que pretendes fazer?
―Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa...
―Mas vens só, não tens familia?
―Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram, constituiram familia, e eu encontro-me só... só com
as minhas
recordações!
―Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia emquanto me demorar por estes sitios.
―Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua interferencia n'este negocio.
―Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos, que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr, porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua ingratidão... Vem!
Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com grande curiosidade.
A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos circumstantes.
Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades―Braga e Guimarães―pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres da educação.
Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva, scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos.
―De modo que―disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos condiscipulos de Julio―eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que regressa á casa de seus paes!
―É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um canto onde possa morrer descançado.
―Morrer! Quem falla aqui em morrer?―atalhou Gustavo alegremente―Tens ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem ter cumprido a minha missão...
―É justo―respondeu Julio―Ha um objectivo na tua existencia, que te faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos, das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu, abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão a morte redemptora dos grandes desgraçados?