Front matter (continued 2)
Reading edition
A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou:
―Digo que é uma grande desgraça, meu pae...
―Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha.
―Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior...
―Não te comprehendo, Beatriz!―exclamou o sr. Custodio―O que queres dizer?
―Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria mais...
―Porque, minha filha?
―Porque eu não o amo.
―Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia.. Tendo tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle.
―Mas eu não necessito de coisa alguma!―protestou vivamente Beatriz.
―Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...
―Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho―acudiu corajosamente a nobre menina.―Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares, e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade, viveremos remediados e livres de maiores privações...
―Tu estás doida!―berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha.―Bem se vê que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura!
―O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que preço fôr...
―Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá!
―Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um affecto que eu não posso sentir por elle!
―Historias! Affecto não é coisa que se coma!
E recahindo nas lamentações primitivas:
―Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a minha desgraça!
Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.
Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel, afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias.
O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se lamuriava, dizia comsigo:
―Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha!
Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:
―E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio?
―Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores e ficarmos sem nada!
―Mas haviamos de viver...
―Viver como?―interrogou o sr. Custodio impaciente.
―Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria...
D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão habitual.
―Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso de teres causado a morte de teu pae!
Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar.
―Mato-me!―continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero que lhe ia na alma―mato-me, porque não tenho animo para soffrer os horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa traz comsigo!
―Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir aos golpes da adversidade.
―Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti! Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver!
Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel, perguntou:
―O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de teu pae!...
A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar abertamente.
―Meu pae―balbuciou por fim―deixe-me ainda reflectir até amanhã.
O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar a victoria.
―Amanhã será tarde―disse elle―A resposta tem de ser dada hoje ao Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o sei!...
Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu:
―Paciencia! Tinha de ser assim... seja!
E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando:
―Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo!
―Meu pae!―disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela commoção―Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem que eu falle primeiro com esse rapaz!
―Com quem?―interrogou o sr. Custodio, fixando a filha.
―Com esse... sr. Eugenio.
―Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim, filha!
―Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a declaração de que me quer por mulher.
―E casarás?
―Casarei, se não houver outro remedio.
O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi.
―Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae! Vou mandar avisar o Belchior.
E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento.
IV Dois patifes
O procurador Belchior está no seu escriptorio, sentado á carteira, conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfação. No rosto d'este rapaz, que poderá contar, quando muito, vinte e quatro ou vinte e cinco annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida tem apenas uma difficuldade séria: arranjar dinheiro para gastar.
Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila constantemente nos labios, meio disfarçado pelo bigode fino, lustroso e petulantemente encaracolado nas guias, dão-lhe á physionomia uma expressão velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado, mas que ao sr. Belchior não parece inspirar a minima desconfiança.
Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á mão de Beatriz.
Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr se por ella podemos conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento.
―O velhote está enthusiasmado―diz o procurador―e o meu amigo apanha, além de uma linda mulher, uma bôa maquia―uma maquia de se lhe tirar o chapéo!
―Pois é o que se quer―responde o outro―o que se quer é
massa
. Quanto calcula você, amigo Belchior, que viremos a apanhar?
―Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque o Custodio é manhoso... Depois que foi roubado por um padre, não descobre a sua vida a ninguem. Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, aquella besta deve ter para mais de setenta contos.
―Menos mau!―considerou o bohemio, piscando o olho.―Mas isso está ainda tudo nas unhas do velho, que póde ter a má lembrança de não morrer estes dez annnos mais chegados...
―E os vinte contos que couberam á rapariga, no inventario por morte da mãe?―accudiu o procurador.―Esses é que lhe passam já para as unhas assim que o casamento se fizer...
―Vinte contos... que diabo!―tirando-lhe as commissões, o que é que
me fica
?―considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo.
―Sim, que você agora tem mais!―contraveio o procurador sarcasticamente.―Que diabo! vocês são todos assim! Quanto mais teem mais querem!
―Não é isso, amigo Belchior. É que eu penso e vejo as coisas como ellas são... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas é para você...
―É bom para ambos! Ou você queria que eu trabalhasse de graça para lhe encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca?
―Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?...
―Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho.
―Não esperemos por sapatos de defuncto, e façamos calculos positivos. Por agora e para já, realisado o casamento, podemos contar com vinte contos, não é isso?
―Perfeitamente.
―Você quanto leva de commissão?
―Trinta por cento, por sermos amigos.
―Obrigado!―respondeu o bohemio zombeteiramente―trinta por cento sobre vinte contos, são seis contos de réis...
―Muito justos.
―E venho eu a ficar só com quatorze!...
―E acha pouco? Para quem não tem presentemente quatorze vintens, parece-me que quatorze contos de mão beijada e uma mulher bôa, é dinheiro...
―Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome você conta da mulher, dos encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e de pagar aos meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e dê-me para mim os seis que você recebe limpinhos e sêccos... Quer?
O procurador fez uma carêta.
―Você está a fazer-se de manto de sêda!―disse elle descontente.―Se acha que é mau o partido, não o acceite, que não faltará quem lhe pegue.
―O partido não é mau, mas não é tão bom como você me quer fazer acreditar...
―Com os diabos!―gritou o procurador arreliado.―E os setenta contos do velho não é nada? Você acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me lá n'este negocio por seis contos de réis, se não fosse a certeza de vir a apanhar mais, logo que o velho
estique o pernil
? Não que o meu tempo é dinheiro e eu não ando a trabalhar para o bispo!
―Bem sei―tornou o Mello―mas eu é que tambem não estou para perder a minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso á perna, a troco de quatorze contos que os crédores me hão-de vir buscar, logo que saibam que tenho por onde pague...
―Mas você póde arranjar uma coisa.
―O que é?
―Faça uma concordata com elles antes de casar...
―Mas eu não sou commerciante, não posso lançar mão desses meios que são privilegio do commercio honrado...―considerou epigrammaticamente o estroina.
―Agora não póde! Cace-lhes você o recibo em como estão pagos, e veremos depois se elles lhe pedem alguma coisa.
O Mello pareceu meditar.
―Effectivamente, você tem razão... Se áquelles a quem devo seis pagasse com dois, a coisa ainda não iria muito longe...
―Menos a mim!―protestou o procurador―a mim é que você me ha-de pagar tudo por inteiro.
―Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a saber: como é que eu hei-de propôr esse negocio aos meus crédores, se não tenho dinheiro para liquidar de prompto antes de casar?.
―Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos crédores, que eu cá arranjarei isso da melhor maneira...
―Abona você o dinheiro?
―Certamente. Você acceita-me letras na importancia do que eu pagar e depois nós cá nos entenderemos.
―Pois bem, arranje lá isso.
―Ora agora―tornou o procurador―temos ainda uma questão a decidir...
―Diga lá.
―O velho está persuadido de que você é um homem riquissimo... Metti-lhe essa
caraminhola
em cabeça, porque, de outra forma, elle não lhe dava a filha...
―Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...
―A questão não é dizer-lh'o, a questão é provar-lh'o. Você não me disse que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza immensa?
―Disse e ha.
―Bom. Pois então é pedir ao escrivão de fazenda respectivo uma certidão das decimas e contribuições pagas por esse sujeito ao estado...
―Para que?
―Para que! É boa! Para podermos provar ao Custodio que você é um importante proprietario do Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque não hão de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos.
O bohemio soltou uma gargalhada.
―Você é o diabo, Belchior!―disse elle.
―E se for preciso provar que você tem quarenta ou cincoenta contos de reis representados em letras, tambem se arranjam com
acceites
valiosos e de muito credito...
―Como?
―Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras na importancia que se quizer, acceitando-lhes você outras de igual importancia. Comprehende?
―Não comprehendo muito bem...
―Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no valor de oitenta contos e você, na mesma data, acceita-me letras d'igual importância. Você quer
provar
que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por mim... Mas ellas realmente não valem nada, porque se você vier recebel-as, eu apresento os seus
acceites
, que você tem igualmente de me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora?
―Agora, percebo!
―Bem. Pois este é também um expediente de que podemos lançar mão quando nos fôr preciso. Mas obra mais limpa é certamente essa da confusão dos nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello?
―Em Borba.
―Está muito bem! E então eu que conheço o escrivão de fazenda que lá está agora. Vou já escrever-lhe, e na volta do correio temos cá a certidão.
―Olhe lá, não será conveniente eu amiudar as minhas visitas ao Custodio?
―Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora não... que o deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois fallaremos...
―E essa delambidita porque é que me hade recusar Eu não valerei mais do que o franganito que lhe anda a arrastar a aza?―disse o bohemio.
―Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas...
―E escolhem sempre o peor...
―É a unica probabilidade que você tem a seu favor!―exclamou o procurador rindo―Porque peor do que você, com franqueza, não conheço!
―Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto!
Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.
―Ora agora―disse por fim o Mello―não se esqueça de que estou a precisar de dinheiro.
―Já?
―Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de provincia, tem sorvedouros terriveis!
―Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis.
―E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil réis gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...
―Mas você, que diabo! está hospedado no
Francfort
, um hotel de primeira, onde o tratamento é magnifico, não tem necessidade de comer fóra...
―Amigo Belchior, você sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas não sabe como elle se gasta. Não falle, portanto, d'aquillo que não sabe, e chegue-me cá mais duzentos mil reis, que é o essencial.
―Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, já os haveres da noiva estão espatifados...
―Não diz você que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho?
―Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, são sapatos de defuncto...
―Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos convier...
―Você seria capaz d'isso?―interrogou o procurador com um sorriso indescriptivel de cynismo.
―Nós somos capazes de muito mais―respondeu o Mello, frisando intencionalmente a palavra
nós
.
―Você é o diabo! Mas olhe lá, não se alargue muito, que eu agora estou sem dinheiro...
―Pois sem
massas
não se faz nada! Você bem sabe, que sendo eu um rico proprietario do Alemtejo, que faço quinze contos de cortiça de tres em tres annos, afóra os porcos, não devo deixar de gastar em harmonia com os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, não são de grande luxo, mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle
Suisso
teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Além d'isso, ha sempre uns amigos
depennados
, que se
encostam
e que não ficam baratos...
―Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!―aconselhou o Belchior, indignado.
―Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes amigos são os comparsas da grande comedia que eu preciso de representar. São elles os que fingem de
povo
e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de cinco mil réis que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a
pastilha
que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa, e ámanhã eu serei o pelintra, o intrujão que realmente sou, e toda a gente saberá, até o Custodio, que eu não tenho nem cortiça, nem porcos, nem sequer bolota para comer como elles...
―Você tem razão!―disse o procurador―Mas, com os diabos, gaste menos.
―Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e decerto não chegaria o que você me dá, se não tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este negocio do casamento é bom, mas é preciso empatar capital... Eu sou o socio d'industria; você é o socio capitalista: chegue-me cá as
massas
, porque eu preciso de mostrar quem sou.
―Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo entornado!―clamou o procurador, levando as mãos á cabeça n'um gesto tragico.
O Mello riu com vontade.
―Você nasceu para mim, e eu nasci para você!―disse elle.―Difficilmente se encontram e se juntam dois como nós. Ande, vá buscar o dinheiro.
O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, e voltou com ellas e com um livro na mão.
―Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este dinheiro―disse.
―Quanto?
―Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o que você pediu?
―Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta!
―É isso. Os cincoenta mil réis são de juros.
―Ladrão! Roubar ao inferno!―clamou o Mello em tom de amigavel censura.
―E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se este casamento se não fizer, ou se a você o levar o diabo d'hoje para ámanhã, quem perde sou eu!
―Não leva, que eu sou cá preciso para animar as artes e as industrias!―retorquiu risonho e senhor de si o bohemio.
―O que me anima é que o gado ruim não tem perigo―disse Belchior gracejando.
O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir.
―Você ande-me com o velho!―disse elle.―Não o deixe resfolegar, e elle que obrigue a filha por geito ou por força a casar comigo.
―Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido!
―Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... Ás vezes o diabo, quando lhe parece, faz das suas...
―Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez!
―Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que a differença do naipe não é tamanha como parece...
Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior, rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio.
―Isto é que é um mariola!―murmurava o procurador satisfeito.―Não ha dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de acabar mal este patife!
V Madre Paula
Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da
Irmã Dorothêa
certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento.
Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.
A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e constante director espiritual.
Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona, escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece, traz novidades importantes a communicar-lhe.
A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis da mais solida confiança.
―Sabes, minha querida amiga?―disse-lhe o padre Filippe depois de a beijar carinhosamente nas faces―tive hoje a visita do nosso Paulo, do filho da irmã Dorothêa...
―Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e conta-me: como está elle?
―Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto
á bóla
, o rapaz tem-n'a um pouco transtornada...
―O que! que dizes tu?―perguntou madre Paula com visivel interesse―Notaste n'elle qualquer alteração?
―Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem é meu pae?!»
―Elle fez-te essa pergunta?
―E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento.
―Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante coisa?
―Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o fez.
―E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa creança?
―Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu nascimento; e foi isso o que fiz.
―Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes?
―Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario n'aquella alma juvenil...
―E indagaste?
―Indaguei e soube.
―O que é, pois?
―O nosso Paulo ama!
―Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno!
―Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito...
―Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves prejuizos de futuro ao nosso protegido...
―Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma d'ellas...
―Sempre optimista, sempre!―disse madre Paula com um sorriso de leve censura.―Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o segredo do seu nascimento...
―Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã―replicou o padre Filippe―Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber quem são ou quem fôram seus paes...
Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes.
―Creio que fizemos mal―disse ella―em dar a esse rapaz a educação livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creança entregue aos imprudentes impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz amiga que a aconselhe, sem a presença de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel desvario de Paulo.
―Os homens formam-se na adversidade; o coração retempera-se nas amarguras para as grandes luctas da vida―retorquiu o padre Filippe.―A educação moralisadora de um preceptor austero corta os vôos ao espirito, e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas ao sentir individual, dá em resultado a falsificação de um caracter. O individuo assim creado não é nunca um producto apreciavel da natureza, é o producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu espirito. Não é mais um homem são―bom ou mau―é um hypocrita; isto é, um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fóra, tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a disfarçar as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se é bôa, avigorada pela liberdade da educação, ella bracejará frondescente como arvore de bons fructos; se é má, não haveria destra mão de habil podador capaz de extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pôz na raiz.
―Elle é filho do padre Anselmo!―disse madre Paula―e se herdou a indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que arrecear-se.
―É tambem filho da irmã Dorothêa―atalhou o padre Filippe―e é possível que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais tornámos a vêr!
―É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito d'essas tres creaturas!―exclamou madre Paula.―Parece incrivel que até hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã Dorothêa, nem ainda do padre Hilario!
―Como sabes, minha amiga―ponderou o padre Filippe―nas congregações jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois, de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas grandezas...
―Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou!
―Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios...
―Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse homem, que tão profundamente detestava agora!
―Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no convento da Covilhã, de que ella era abbadessa?
―Ella propria m'o confessou.
―Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na santa vinha do Senhor.
―Se tudo se passou como suppões―ponderou madre Paula―se realmente o padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella cruelmente engeitou...
―Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem podemos obtel-as d'ella...
―Mas é ingrata!―repetiu ainda madre Paula.―Por quanto procederia eu de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial e inconstante nos meus affectos?
―Minha querida amiga―volveu risonho o padre Filippe―eu sempre fiz justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça, succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer...
―Sabes que foste sempre o preferido do meu coração!
―Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me.
―E agora?
―Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha velhice. Bemdita sejas!
E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo extincto n'aqueile organismo gasto pela edade.
Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer:
―Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me faltasses, morria!
―Se o amôr é a vida―tornou-lhe o padre Filippe―se é a grande lei universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós, minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho?
―Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos abysmos da desgraça irremediavel.
―O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia, talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz, ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle.
―Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz.
O padre Filippe sorriu.
―Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora!―acquiesceu elle―Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e conduzil-o triumphante á realisação dos seus desejos.
―Eu devo-lhe protecção e carinhos de mãe―disse ainda madre Paula―Não posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forçada, na grande desgraça do seu nascimento. Essa creança é o fructo das milagrosas apparições do Christo á desvairada Helena de Noronha. Se não fosse eu, talvez que o padre Anselmo não realisasse a infame burla por esse processo tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a intenção com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz poupar a essa desgraçada os horrores de uma desillusão brutal, de uma violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida, immolada no Sardão aos instinctos bestiaes do padre Anselmo.
―Não recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa situação subalterna nos tem obrigado a presenciar e até a proteger com o coração confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos males que temos sido forçados a fazer. Paulo é para todos os effeitos nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios compativeis com a nossa consciencia e com a nossa posição, e que Deus nos leve em conta o bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os dictames do nosso coração, que não é mau, mas que a fatalidade acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades.
Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte.
A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza.
―É o unico que a alma negra da seita não perverteu de todo!―murmurou ella.―Que adoravel esposo e que exemplar cidadão se não perdeu n'este homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrerás como eu na dôr e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram!
VI Á hora da morte
Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram violentamente á porta do sacerdote, era uma hora da noite.
O padre Filippe não se tinha ainda deitado.
Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer annotações curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater á porta com a violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel, o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em que interrompia a leitura e veio á janella indagar quem batia. Á porta estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça para se resguardar do frio cortante da noite.
―É aqui que móra um senhor que é padre e que vae dizer todos os dias missa aos Grillos?―perguntou ella.
―É aqui. O que deseja?
―É que está alli uma velhinha, que é minha visinha, a morrer, e a pobre de Christo não faz senão pedir que lhe chamem um padre, porque se quer confessar; e eu venho cá vêr se v. s.
a
faz a esmola de a ouvir de confissão...
―Onde móra essa mulher?
―Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É pertinho... é d'aqui a dois passos, e se v. s.
a
fizesse a esmola de vir comigo, chegava lá n'um instante!...
―Espere ahi, que eu desço já.
Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na cabeça o seu chapéo alto, pegou da bengala, e pouco depois estava na rua.
―Vamos lá!―disse elle.
Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta distancia, nas proximidades do paço episcopal. A mulher que viera chamar o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava.
―Seja pelas almas!―lamuriava ella.―Está a pobresinha a appellidar por um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem se confessar, e não havia uma alma de Christo que se
arresolvesse
a vir chamar v. s.
a
ou oitro qualquer que lhe deitasse a
assolvição
!
―Não tem familia essa mulhersinha?―inquiriu o sacerdote.
―Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha como as serpes, e não tem filhos nem parentes. Vive lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou por cinco tostões por mez, e dês que caiu emprégadinha, o que vale é a gente ir olhando por ella, por caridade, senão morria p'rá alli, sem ter quem lhe chegasse uma sêde
d'auga
!
―Coitada!―lamentou o padre Filippe.
―Mas que!―tornou a mulher―a gente
támem sêmos probes
...
támem
temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o não ganhar, ninguem nol-o vem trazer... De sorte que a
probesinha
tem passado muita necessidade...
―Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram para o hospital?
―No
isprital
, meu senhor, não na acceitaram, porque lá diz que não curam a velhice... Nem ella queria... Eu ás vezes inda lhe
dezia
: «Ó sr.
a
Maria do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr se a
arrecolhiam
no
Azylio
das velhas?» Mas ella: «que não, e que não», nem queria que lhe fallassem n'isso!
Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da rua escancarada.
A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares superiores, gritou:
―Ó sr.
a
Izabelinha,
alumeie
, que vae aqui o sr. padre!
No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a arrastar, e na balaustrada do corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz d'uma candeia de petroleo.
―É vocemecê, sr.
a
Barbora
?―perguntou uma voz lá do alto.
―Sou eu, sou, alminha do Senhor!
Alumeie
, que não vá este senhor cahir...
A sr.
a
Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus.
E voltando-se para o padre Filippe:
―É melhor v. s.
a
agarrar-se ao corrimão, que não vá por ahi cahir e partir alguma perna... Isto, quem não está costumado, nada mais
facel
do que aleijar-se...
O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua cuidadosa guia lhe aconselhava.
Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento corrimão da escada, e tacteando os degraus com os pés e com a bengala, revestira-se de coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima ascenção.
Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de cabeça estopenta e candeia na mão o aguardava, o amante de madre Paula parou offegante e cançado.
―É cá muito em cima!―disse elle.
―E as escadas são ruins
d'assobir
, meu senhor!―accrescentou a velha.―Eu
támem
, quando venho de lá de baixo e chego cá arriba, fico que, se me puzessem uma mão na bocca, arrebentava!
―Onde está a doente?―interrogou por fim o padre Filippe.
―Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo a
espedir
, coitadinha! Já desde
honte
que não lhe foi nada á bocca, e não faz senão pedir
auga
... Parece que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o confessor!
―E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade?
―Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.
a
ha de conhecer, mas como a gente
semos probes
, fez á de conta que não era pressa e inda
inté
agora cá não appareceu...
―É que vocemecês não lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma pessoa em artigos de morte...―desculpou o padre Filippe.―Ora vamos lá... vamos lá ouvir essa creatura de Deus...
A velha, com a candeia lançando de si um enorme pennacho de fumo negro e suffocante, allumiou o padre Filippe até ao escuro e fétido cubiculo encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de todas as miserias.
Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de honestidade, de honra, de civismo e de labôr persistente, que fariam o orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes são generosos, hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e exemplo a quantos se presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades. Mas a par d'isto, quantos defeitos de educação, deprimentes da dignidade de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da civilisação do seu paiz!
Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria, sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mãos e cara accusando uma ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se fazer respeitar!
Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal, percorrem as ruas, descalças, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas de lendeas, e os pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!
E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua―e o rio Souza, e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem tanta!―e dez reis de sabão bastavam!
É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza nas classes proletarias, uma das mais sympathicas e civilisadoras missões que estão reservadas á imprensa periodica dos nossos dias.
Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas salutares e tantas noticias perniciosas ás classes humildes, que por elles se guiam e norteiam,―quando se não desnorteiam―não poderiam, com um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a propaganda da limpeza publica e particular dos cidadãos como base primaria de toda a hygiene social e moral?
Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando da facil e comesinha acção do romance para as considerações sabias e profundas de um sabio e profundo auctor de originaes opusculos?
Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, visto que não ha outro remedio, o padre Filippe através dos corredores defumados e mal cheirosos, resumando das paredes e do soalho podridão e esterco, até ao humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma mumia, enterrada sob um montão de farrapos.
É a sr.
a
Maria do Carmo.
Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi extincta:
―Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.
a
me ouça de confissão!
O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, á luz de uma candeia de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e magro da pobre creatura.
―Então deseja reconciliar-se com Deus, não é verdade, minha irmã?
―Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de... peccados que não sei se Deus m'os perdorá!―balbuciou a enferma, com voz entrecortada e de cada vez mais debil.
―Deus é infinitamente bom, infinitamente misericordioso―aquietou o padre Filippe―e está sempre prompto a perdoar á creatura que, humilde e contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o divino perdão!
Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á cabeceira do leito e, fazendo signal ás duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a sós com a enferma, continuou:
―Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se accusa?
A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa:
―Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graça, porque desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e havia muitas almas bôas que me soccorriam, compadecidas da minha pobreza...
―Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa nunca o seu divino amparo áquelles que na sua infinita misericordia depositam inteira fé e confiança...
―Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus amigos...
―É porque reconheciam em vocemecê verdadeira devoção e temor de Deus...
―Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E até quando via certas beatas fingidas―Deus me perdôe!―a fazerem da casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse commettido o peccado... E aonde não chegava mandava... que era para ellas terem vergonha!
O padre Filippe sorriu indulgente:
―E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdão a Deus? Tem razão, minha irmã! A moral do evangelho, a religião santa do Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e não façamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa da reputação d'aquelles que peccaram...
―Não é d'isso que eu me accuso, meu padre!―accudiu a velha reanimada um pouco pelo prazer da confissão―Isso até os meus santos padres confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles não andarem a ser enganados... e saberem quem tinha religião e quem não tinha...
O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão e de enfado, e perguntou:
―De que é então que se accusa, minha irmã?
―Eu... de mim... não me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa religião...
―Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus semelhantes tambem não são as que hão-de fazer-lhe carga aos olhos do Altissimo, se para ellas não concorreu nem estava na sua mão impedil-as... Portanto, como onde não ha culpa não ha perdão, eu nada tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem póde como vocemecê apparecer no tribunal divino com a alma limpa de macula.
Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir, quando a velha, estendendo para elle as mãos convulsas, bradou com indizivel accento de pavôr:
―Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, ouça-me! Ouça-me que eu quero... confessar-me!...
―Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão a confessar-se, creatura de Deus?
―Como v. s.
a
ainda me não perguntou nada...
―Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... Vocemecê consulta a sua consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em nome de quem eu a estou escutando...
A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida:
―É que eu... criei como se fosse meu filho uma creança... que era filha... de um padre e d'uma mulher casada...
―E vocemecê concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creança?
―Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um santo...
―Só Deus sabe quem é santo!―murmurou o padre Filippe, surprehendido ao ouvir fallar no padre Anselmo.
―E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu tomar conta d'aquella creança debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe devia muitas obrigações, trouxe-a e tratei a creança como minha... E o sr. padre Anselmo é que pagava as despezas...
―Que nome tinha essa creança?―perguntou o padre Filippe, agora interessado na estranha narrativ ―Que nome tinha essa creança?―perguntou o padre Filippe, agora interessado na estranha narrativa da velha.
―Chamava-se Hilario, meu senhor...
―Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico―disse o padre Filippe.
―V. s.
a
conhece-o? Sabe d'elle? Onde está?―perguntou a velha.
―Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual das irmãs Dorothêas, na Covilhã...
―É esse mesmo! É esse mesmo!―bradou a velha―E onde está agora?
―Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar n'elle... Supponho que talvez haja partido para as missões ultramarinas ou viva em alguma casa religiosa do estrangeiro...
―Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o!
―Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter interesse na morte d'esse obscuro sacerdote?...
―O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota...
E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, murmurando:
―Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario, coitadinho!
E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio.
―Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não foi victima de nenhum attentado como suppõe―disse o padre Filippe―A morte de um sacerdote não é coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte é resultante de um crime. Ora eu não me recordo de ter lido a noticia do fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que leio todos os dias.
―Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!―murmurou afflictivamente Maria do Carmo.
―Vive decerto―affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a doente.
―Mas então porque não me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei com tanto amor... eu a quem elle chamava mãe...
―Julgará que vocemecê já não é viva...
―Não... não!―tornou a velha―Mataram-n'o para o roubar!...
O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha beata, perguntou:
―Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha pouco que a mãe d'esse rapaz foi assassinada...
―Foi... foi...
―Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava?
―Não... o marido não... Foi o outro... o proprio amante...
―Quem?
―O padre Anselmo!
―O padre Anselmo!―disse o padre Filippe com espanto.
―Foi em Lisboa...―continuou a velha enferma―D. Carlota, a mãe do meu Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles ao filho...
―E entregou-os?
A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.
―Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a um homem... um tal João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me levou tudo, tudo!
O padre Filippe esforçava-se por comprehender a confusa narrativa da velha.
―Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo matou a mãe do proprio filho d'elle?
―Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella e mais a mim, promettendo a ambas que o nosso Hilario iria lá ter comnosco, para vivermos todos juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá no quarto da D. Carlota e... envenenou-a!
Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela recordação d'aquelle crime.
―Como o soube?―interrogou o padre Filippe.
―Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do chá com duas chávenas... Desconfiei e fui espreitar á porta do quarto... Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que a matava por ella lhe faltar á obediencia... Depois, no outro dia, veio a justiça e achou um bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do marido...
―E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse crime?
―Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me...
―Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?
―Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia ter com elle á Covilhã e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu digo que elle o foi matar!...
A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:
―Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio veio cá com os da justiça e tomou conta de tudo o que era da sr.
a
D. Carlota... Acho eu que tomou conta, porque a mim não me chegou nada ás mãos...
―E quem era esse João Ignacio?
―Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...
―Sabe se
elle
ainda vive?
―Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos... Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!...
―Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta da creança?
―Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci quando o sr. padre Anselmo a
trouve
p'rás Sereias e depois a levou p'ra Lisboa enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao pequeno... Até me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar só depois d'ella morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse que era filho d'ella...
―E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo?
―Essa carta...―fez a velha―tenho-a aqui... guardada... como ella m'a deu... Nunca mais tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude entregar...
Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.
―É por isso...―proseguiu a velha―que eu me queria confessar a quem contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu Hilario... se elle algum dia apparecer vivo...
Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada e tremula debaixo do travesseiro e tirou de lá uma sacca de chita, surrada do attrito das mãos e dos farrapos, e apresentando-a ao
padre
Filippe, disse com a voz estrangulada pelo esforço:
―Aqui está a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse... Tome v. s.
a
conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma...
―Não tem filhos, vocemecê?―perguntou o padre Filippe, acceitando com repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.
―Tenho... Mas esses... estão arrumados... Nunca quizeram saber de mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu Hilario... coitadinho!
―Não seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o padre Hilario talvez não precise?
―Não! Não! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a vida começava a extinguir-se. Se elle não apparecer... missas pela minha alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para a religião torna! São tres centos de libras... Tres centos!
―Está bem! Socegue. A sua vontade será cumprida―aquietou o padre Filippe.
―Graças a Deus! Morro descançada... E agora, meu padre... deite-me a sua absolvição... para que Deus me perdôe!
O padre murmurou em latim as palavras da absolvição.
―E elle... se fôr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que não lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo é pae d'elle... mas envenenou-lhe a mãe... para o roubar!...―murmurou ainda a velha, deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando logo na agonia ultima.
O padre Filippe, impressionadissimo com as revelações que ouvira dos labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia.
Chegado ao patamar, respirou com força e disse para a outra velha que o aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mão.
―Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo que ella expire dê-me parte, porque o enterro fica por minha conta.
―Sim, meu senhor!―disse a velha―Não seria bom dar-lhe ao menos a Santa Uncção, já que não póde tomar o Senhor?
―É tarde―respondeu o padre Filippe―Quando cá chegasse esse ultimo soccorro espiritual, encontraria um cadaver.
―Seja pelas almas!―lamuriou a velha―Não
sêmos
nada n'este mundo!
―Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto!―concordou philosophicamente o sacerdote―Vocemecê faria uma obra de caridade, indo assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada...
―Sim, meu senhor... eu vou―concedeu a velha.
Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra chamar e que tambem viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu:
―E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o favor de me alumiar até ao fundo da escada, que é tão cheia de precipicios para a minha idade?
―Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir?
E tirando da mão da outra a candeia:
―Vá vocemecê pró par da creaturinha de Deus, emquanto eu
alumeio
ó sr. padre...
A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:
―Estes
carólas
do inferno, em não sentindo dinheiro a uma creatura, põem-se logo a
avoar
e dizem aos oitros que se
aguantem
co'as massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava d'aqui pé emquanto ella não fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no
quente
e tanto se lhe dá que a
probesinha
de Christo vá p'ró céo como que vá p'ró inferno!
O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da terrivel escada com as costellas direitas.
―V. s.
a
quer que o vá acompanhar
inté
casa?―offereceu a mulher.
―Não, não é preciso... D'aqui até lá é perto e não ha escadas a subir nem a descer. Amanhã procure-me para se comprar um caixão á pobre creatura. Boa noute!
―Vá v. s.
a
na graça de Deus, meu senhor!
VII Tres miseraveis
Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu a procurar o seu amigo Belchior.
O agiota ia radiante de satisfação.
―Beatriz―disse elle ao procurador―está no caminho!
―No caminho de quê?
―No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello.
―Sério?
―Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me fazendo sahir fóra dos eixos, porque eu não sou para graças... Mas depois...
―Conseguiu intimidal-a?
―Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê tem figados! Ameacei-a com as irmãs da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer com que ella fosse á egreja dizer o
sim
!...
―É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as mulheres são assim... são peores que cabras... Em encarreirando para um lado, não ha diabo que as faça voltar para trás!
―Mas consegui eu que ella voltasse...
―Como?
―Com bons modos... Você, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella, porque eu estava pobre, estava desgraçado, tudo quanto tinha já não chegava para pagar aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar com isto por uma vez. Chorei, que se você visse até se admirava!
―E afinal?
―Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que não e que não, poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o noivo...
―Com o Eugenio de Mello?
―Pois então com quem? Quem é o noivo?
―O noivo é aquelle com quem ella estiver para se casar...
―Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se trata de outro.
―Que diabo lhe quererá ella?―commentou o procurador.
―Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor, que está a morrer de paixão por ella, que não sonha com outra coisa senão com o momento ditoso,
et coetera
... coisas que todas as raparigas gostam de ouvir aos namorados.
O Belchior pôz-se a rir.
―Vá lá a gente fiar-se em mulheres!―disse elle.―Muito amor ao outro, capaz de se deixar matar antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe cheirou a que o negocio era de
cobres
e que sem elles não teria mais vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades,―venha de lá o
homem da massa
e atire-se com o querido do coração ás ortigas! Ah! mulheres, mulheres! quem não as conhecer que se fie n'ellas!...
―Pois por eu saber isso―retorquiu o Custodio―por ter a experiencia de que não ha amor que resista á perspectiva da miseria, é que eu me lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora elle que lhe
cante
umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle d'amor, de paixão e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam, e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro!
―Quando entende você que deve ir fallar-lhe o Eugenio?
―O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder...
―Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á noite com elle tomar o chá...
―Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca piano, você gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe finezas, e ás duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não terá remedio senão dizer que sim.
―Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo você não vir mais cêdo, porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos rende seis contos de réis, só em cortiça! É um doidivanas... Não sabe o que tem de seu e anda sempre a
pillar
por dinheiro!
―Afinal―considerou o Custodio de Jesus―este casamento até é uma providencia para elle... Porque se nós não ―Afinal―considerou o Custodio de Jesus―este casamento até é uma providencia para elle... Porque se nós não lhe puzessemos uma tutella, por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...
O Belchior disfarçou um sorriso velhaco.
―Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos haveres? Mas é preciso que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico em peores lençoes...
―Porque?
―Porque este diabo é maluco, e depois, quando você e sua filha lhe moverem um processo de interdicção, quem paga as favas sou eu... Contra mim é que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de proposito para lhe apanharem a fortuna...
―E a você que se lhe dá? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma acção bôa... que importa lá que elle grite?
―Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me metter em
alhadas
sem interesse, e que se elle, por fim, como é maluco, me quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo que este casamento esteja combinado, nós temos um pequeno negociosinho a fazer...
―Que negocio?―interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho.
―Que diabo! É justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma acção bôa... bôa para si e bôa para elle... Parece que tambem não será fóra de razão que a pratique bôa para mim...
―Mas o que é então que você quer dizer com isso?―tornou o Custodio desconfiado.
―Quero dizer que o negocio é negocio, e que se eu lhe metto a você para cima de noventa contos de reis no bolso, é de justiça que leve n'isso uma pequena commissão...
―Uma commissão! Mas que commissão quer você?
O Belchior sorriu:
―Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os outros só a espinha... Ahi uns
dezitos
por cento sobre a fortuna do rapaz, não é coisa que empobreça ninguem...
―Dez por cento! Você está doido!―exclamou o Custodio de Jesus, fazendo uma careta terrivel―Dez por cento sobre noventa contos, atirava lá para nove contos. Isso era melhor do que fazer meia!
―É... é melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que está em vesperas de casar com um rapaz que não tem de seu oitenta reis, o que é? É barro!
―Não que eu não a deixo casar senão á minha vontade!―barafustou o Custodio.
O Belchior teve um sorriso desdenhoso.
―Você não a deixa casar senão com quem muito bem entender, e ella não casará senão com quem muito bem quizer―replicou por fim.―Mas o nosso caso é muito outro, amigo Custodio... Se você arranjar o casamento da pequena com outro rapaz, sem ser por minha intervenção, ainda que o noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu não vou lá metter-me no negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros... Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o principal agente d'este negocio que lhe mette a você para cima de noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commissão é justo que se pague...
―Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você que queria o seu trabalho de graça!―prorompeu o Custodio.―Mas é preciso ter consciencia... é preciso que você não queira a melhor parte para si...
―A melhor parte! Então nove contos de reis é a melhor parte de noventa?
―Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a choramigar e sem ter que andar ás testilhas com o noivo para o fazer entrar na ordem, acha você que não é nada!
―E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que é um touro de força, e que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me lançar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso não representa nada, não?!
―Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... Tem a justiça de casa, fica-lhe barato...
―Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, do lombo é que ninguem m'as tira!―berrou o procurador.―Homem, é preciso que você veja que isto é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas... não me serve!
E n'um repellão:
―Então acabemos com isto, não se falla mais em tal e você case lá a pequena com quem quizer.
O Custodio amaciou um pouco.
―Ora venha cá...―disse elle.―Você sempre tem um demonio d'um genio!
―Mas pela razão!... pela razão é que eu tenho genio!―contestou o Belchior.―Você, se fosse outro, dava o valôr ás coisas e não estava a fazer questão de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro n'isto por ser seu amigo...
―Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu amigo; e por isso mesmo é que eu esperava que você fosse mais rasoavel...
O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha.
―Mais rasoavel!―exclamou elle.―Póde-se ser mais rasoavel do que isto? Você, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro noventa contos de reis comprados a troco de nove?!
―Pois sim, mas isso não é dá cá, toma lá... O dinheiro é do rapaz e elle é que continua sendo senhor d'elle...
―Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse a você como é que as coisas se arranjam... Mas se acha que é prejudicado ou que o negocio não vale a pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você casamento melhor para a pequena.
Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar o negocio. O Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse já posto a mira n'outra noiva para o seu cliente.
―Homem!―disse elle―a gente não está aqui a jogar facadas. Nem você quer o meu prejuizo nem eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica a coisa reduzida a seis por cento...
―Sete tenho eu quem me dê!―volveu o procurador.―E é porque eu não quiz entrar em transacção, senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim aborrece-me regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse que hão de ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz não casa no Porto. Então dou um passeio com elle até Lisboa, e você verá como até apanho lá uma viscondessa para elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali dá-se valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...
―Bom! Você é teimoso... tambem não quero que diga que, sendo eu seu amigo, estou a fazer questão por pouca coisa... Está tratado.
―Ora até que, emfim, chegou-se á razão!―disse o procurador, como quem se alliviava d'um grande peso―Eu bem sabia que você não deixava fugir o bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu não gosto d'abusar com os amigos...
―Vamos lá!―suspirou o Custodio.―Para amigos, você carregou um bocadito na mão... Mas acabou-se! Está tratado, está tratado. Não volto com a
palavra
atrás.
―Sim, senhor!―tornou o Belchior.―Ora agora temos a regular a forma do contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos noivos irem para a egreja...
―O que! Então você põe-me assim as facas ao peito?!―exclamou o Custodio de Jesus muito admirado.
―Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo até sua casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na meação dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu ganhei é meu, você passa-m'o para a mão e estamos quites. Pois como queria você?
―Isso não podia ser depois do casamento realisado?
―Póde, acceitando-me você letras...
―Você sabe-a toda!―fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de effectuar um bello negocio.―Vá lá! No dia do casamento entrego-lhe o dinheiro e está a conta arrumada.
―Antes dos noivos partirem para a egreja...
―Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja.
―Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para não faltar.
O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao
Francfort
a prevenir Eugenio.
N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro da odiosa farça que os tres miseraveis se dispunham a representar á roda do coração de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo mesmo pensamento de interesse commum.
O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára pela casa de D. Barbara, viuva d'um general reformado e mãe de tres filhas feiissimas que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar o chá e fazer um bocado de companhia á Beatriz, que já tinha fallado n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma visita.
O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D. Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas,―a D. Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos.
Eram estas as relações mais intimas do Custodio que, usurario e forrêta, detestava reuniões e convivencias que o forçassem a incommodos e despesas.
Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as pensões com extraordinaria usura; e quanto á
familia
do Belchior, está bem patente o interesse que lhe advinha das suas relações.
Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas, preparou-se para as receber.
A candida menina preferiria antes a solidão do seu quarto á enfadonha conversação de tão estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria desempenhar os deveres de dona da casa, não teve remedio, sacrificou-se ás leis da boa educação e foi com risonho, embora contrafeito, semblante que veio á sala.
Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e attencioso em extremo para com as damas.
Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem; emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de Portugal.
Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou:
―Então não temos um bocadinho de musica? Vá, sr.
a
D. Rufininha, dê-nos um bocadinho de piano.
Rufininha era a filha mais velha do general.
―É verdade! apoiou Custodio―e a sr.
a
D. Therezinha canta aquella canção
Murmura, rio, murmura!
que é tão bonita.
A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar, começou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que não se sentia bôa da garganta, que hoje não, para outra vez cantaria.
Mas o Belchior e o Custodio insistiram,―que cantasse, que eram desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz tão bonita não devia ser tão avara do seu thesouro.
E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a até junto do piano, onde já a irmã pingava notas preparando-se para o acompanhamento.
Assim instada, a Therezinha começou esganiçando-se terrivelmente, a pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forçada attenção dos circumstantes.
Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este dialogo:
―Dá-me licença, sr.
a
D. Beatriz, que lhe faça uma pergunta?
―Queira v. ex.
a
dizer, sr. Eugenio de Mello―respondeu Beatriz, sem poder reprimir um movimento de terror instinctivo.
―Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo... Acaso
devo eu
attribuir á minha presença a melacholica expressão do seu rosto?
―Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello?
―Perdão, se fui indiscreto!―tornou o mancebo.―Mas, em primeiro logar, interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver feliz da sua felicidade...
Beatriz baixou os olhos.
―Creio que quer referir-se―disse ella―a um projecto de casamento de que já ouvi fallar meu pae...
―Não me atrevi a patentear a v. ex.
a
o sentir intimo do meu coração, e dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.
a
. Fiz mal?
―No logar de v. ex.
a
, eu não teria procedido assim...
―Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.
a
não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do auctor dos seus dias?
―V. ex.
a
esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no emtanto a elle que v. ex.
a
devia dirigir-se primeiro, creio eu...
―Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo que eu, infeliz, morro por v. ex.
a
.
―Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr. Eugenio de Mello.
―Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu coração?
―Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e franqueza que devo a v. ex.
a
e á minha dignidade de mulher. Se depois de me escutar, ainda persistir no seu proposito...
―Consentirá em ser minha esposa?
―É possivel.
―Pois bem; falle! Diga-me v. ex.
a
o que tem a dizer, porque eu anceio pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do meu amôr!
―O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,―respondeu friamente Beatriz―é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.
a
dar-lhe peso e eu exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a necessidade que tinha de me entender com v. ex.
a
sobre o assumpto em questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente auctorisada por elle.
―Virei então ámanhã―disse Eugenio.―Mas, por Deus, não me roube a esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.
Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.
―Amanhã!―disse ella.
Esta conversa passara-se po Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D. Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz.
Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da retirada.
A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.
Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:
―E então?
―Então... nada!
―Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão por ella?
―Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a dizer-me...
―Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de amar até á morte...
―Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer... Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim... Que quererá dizer-me?
―Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar da ponte abaixo―disse rindo o procurador.
―Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella quer...
―Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da sua quinta―porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo!
―Não parece que seja isso―volveu Eugenio―Pelo contrario, supponho outra coisa...
―O que?
―Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente confessar-m'a antes de casar...
―Pois você suppõe?...
―Não sei... Mulheres são mulheres...
―Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!...―preveniu o procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.
―Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer cá são os vinte contos...
―E que o Custodio morra breve para vir a
maquia
completa!―accrescentou o Belchior.
―Nem mais nem menos!
Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do Custodio.
O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.
Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o mancebo.
―Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello―disse ella gravemente, indicando-lhe uma cadeira―Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...
―Oh, minha senhora!―exclamou o mancebo―Amo-a tanto que, mesmo sem essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as suas palavras como um inestimavel thesouro!
―E devem realmente valer para v. ex.
a
um thesouro pela franqueza e lealdade que revestem. V. ex.
a
, segundo creio, manifestou a meu pae o desejo de me tomar para sua esposa...
―De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v. ex.
a
... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha, que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração apaixonado! Se errei, v. ex.
a
saberá perdoar-me o inconsiderando passo com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me moveram.
―É v. ex.
a
um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara, franca e leal da minha situação...
―Dos labios de v. ex.
a
está dependente a minha sorte, o meu futuro, a minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança!
―Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre―disse Beatriz―Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas irmãs que desejam unir-se no mesmo destino...
Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção.
―Beatriz!―disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da joven―não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz, passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar, de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!
―Engana-se, sr. Eugenio de Mello!―retorquiu Beatriz―Este amor que me prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa existencia, o nosso destino...
―Todavia―observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso―essa declaração de v. ex.
a
harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.
a
a seu pae e que elle me transmittiu ácerca do nosso enlace...
―É justamente por isso que desejei fallar-lhe―volveu Beatriz, com altiva dignidade.―Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões de v. ex.
a
á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com v. ex.
a
. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe: Quererá v. ex.
a
acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a outro e que unicamente,―unicamente, tome v. ex.
a
nota―por salvar a vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor, acceitando o enlace que v. ex.
a
lhe propõe?
Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada dignidade dos seus sentimentos.
―E v. ex.
a
no meu logar o que faria?―disse elle por fim, respondendo com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita.
―Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma união em taes circumstancias.
―N'esse caso, o que é que v. ex.
a
exige de mim?
―Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.
a
, guardando absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou.
―Oh! isso nunca!―protestou vivamente o bohemio―Com que pretexto diria eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra de v. ex.
a
. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na reputação de v. ex.
a
o stygma affrontoso de um repudio aviltante?! Repare v. ex.
a
que isso é exigir-me mais que a propria vida!
―Pois bem; não diga v. ex.
a
que desiste inteiramente das suas pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços emprevistos, uma viagem longa, demorada...
―Quer v. ex.
a
dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar, de viver na mesma terra em que v. ex.
a
vive, de frequentar os mesmos logares que v. ex.
a
frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.
a
respira!―exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada eloquencia―E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor sem esperança, fica um
outro
, um
outro
a quem v. ex.
a
ama, na posse feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me!
Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.
―Peço perdão―balbuciou ella―mas propondo isto, eu parto do principio de que v. ex.
a
, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre banido da sua lembrança...
―Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.
a
!―exclamou cynicamente o bohemio.―Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e perfeições que fazem de v. ex.
a
a creatura mais adoravel do Universo, agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu coração a amal-a doidamente! V. ex.
a
está pobre. Eu sou rico. Do meu casamento com v. ex.
a
depende não só o seu futuro tranquillo e feliz, mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem póde dar!
A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por uma commoção indescriptivel.
―Sr. Eugenio de Mello―disse ella com os olhos brilhantes de indignação―o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.
a
, nem eu quiz com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V. ex.
a
persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia consentir em conceder-lhe a mão de esposa?
―Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.
a
!
―Nunca! Nunca!―protestou Beatriz―Mulheres como eu, amam uma só vez na vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram.
Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.
―V. ex.
a
é livre, minha senhora―replicou elle―Póde impunemente matar seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto amor que lhe consagro.
Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre dois sêres.
―Tenho entendido, senhor―disse ella em tom breve e secco―Preciso de meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae o informará da minha resolução.
Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da sala com altiva serenidade.
―Tens cabellinho na venta―disse comsigo o bohemio, descendo as escadas que conduziam ao escriptorio do Custodio―mas, se me caes nas mãos, eu te porei macia que nem velludo!...
No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.
Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.
―Então?―perguntaram ao mesmo tempo.
―Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.
―Mas o que disse ella?―insistiu o Custodio.
―Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a querer para esposa...
―Mas você nem
nentes
!―atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de tudo.
―Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você amigo Belchior bem sabe se isto é verdade...
―E ella?―interrogou o Custodio.
―Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria resposta definitiva...
―Amigo Custodio!―disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do usurario―o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...
―Não tem duvida!―aquietou o Custodio―Ella ha de ir... O que eu quiz foi apanhar-lhe o
fraco
... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar, a fingir que me mato... E ella ha de ir!...
VIII Entre irmãos
Paulo de Noronha, depois que se filiara na
Mão-Negra
, não obstante saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha.
Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe perguntasse o nome de seus paes.
O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto, buscando para a filha uma alliança
limpa
, e o sigillo que o padre Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que não podia responder.
Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que, se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse homem não era seu pae.
O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse dever dar-lhe.
Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.
Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o mesmo que o iniciára nos mysterios da
Mão-Negra
.
―Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge?―perguntou-lhe elle.
―Como se fallasses a um irmão―replicou o outro―Desde hontem que nos achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como verdadeiros irmãos.
―Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal prestarás attenção ao que vou dizer-te.
―Falla.
―Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida!
―Já m'o disseste.
―Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu, simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a mão da filha...
―Mas―objectou Jorge―que necessidade tens de que elle o saiba antes de haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia?
―A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão.
―Ah! ah!―fez Jorge―E a pequena?
―Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe inffligir...
―Não estamos em terra de selvagens―replicou Jorge sorrindo.―Como se chama esse
amavel
progenitor?
―Custodio de Jesus....
―Mora?
―Na rua do Principe.
―E o outro?
―Qual outro?
―O teu pretendido rival?
―Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.
―Eugenio de de Mello... É do Porto?
―Não; supponho que é um rico proprietario na provincia.
―Já
entrado
na edade, não?
―Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz.
―Os homens ricos são sempre
rapazes
em questão de casamento... A mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro...
―Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz.
Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.
―Muito bem!―disse elle―Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos depois o que convem fazer...
―Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...
―Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz não será maltratada pelo pae...
―Obrigado, meu amigo, meu irmão!―exclamou Paulo, cahindo-lhe nos braços.―Escuta ainda,―continuou. ―Preciso de te dizer tudo. Entre nós não deve haver segredos...
―Falla, meu irmão!
Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.
―Chamas-me
irmão
―e comtudo eu creio que não posso ser irmão de ninguem.
―Porque?
―Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou, ignoro quem sou!
Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a protecção e amparo.
―Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me encontro!―concluiu elle desalentado.―Ainda que me encontrasse de um momento para o outro em
circumstancias
de pedir Beatriz, como poderia eu fazel-o não sabendo o nome de meus paes?
―Os irmãos da
Mão-Negra
―disse Jorge gravemente―são todos filhos do mesmo pae―o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma mãe―a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um rico burguez chamado Custodio de Jesus!