Front matter (continued 6)
Reading edition
―Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio a conhecer que eu a informára da verdade.
―Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento―objectou Leonor.
―Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias, porque eu ainda não me esqueci...
E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:
―Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém, influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe disseram as suas informações?
―É.
―Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto que se effectuou como se havia projectado...
―Por Eugenio?
―Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se combinou comigo.
―Mas é isso o que Eugenio nega...
―Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que não admitte duvidas.
―Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais depressa realisaria o casamento?
―É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas enormes á conta d'este casamento...
―Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a Eugenio?...
―Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os charutos...
―Que exaggero!―disse Leonor com desgosto.
―Minha querida amiga―tornou João Lazaro com modo affavel―não é isto desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo esse dinheiro...
―Tanto, não...
―Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do rapto...
―Mas para quê! meu Deus! para quê?―exclamou a loura de cada vez mais aturdida.
―Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a augmentar o dote da filha...
―Mas isso é uma infamia!
―Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço...
―Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim?―interrogou Leonor com os olhos chammejantes de colera.
―Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado em confidencia pelo proprio Belchior.
―Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde elle se encontra...
―Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o reembolsar logo depois do casamento.
―Que sucia de miseraveis!―bradou a loura enojada.
―Verdade, verdade―observou João Lazaro, rindo―a partida foi bem pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada, emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu natural desenlance na egreja da freguezia.
―Nunca! Nunca!―protestou Leonor levantando-se enfurecida.―Antes d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame perfidia!
―O que quer fazer?―perguntou João Lazaro fleugmaticamente.
―O que quero fazer? Procural-o até o encontrar.
―E depois?
―Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.
João Lazaro soltou uma gargalhada.
―A escolha está feita, minha amiga!―disse elle.―Pois ainda tem duvidas?
Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro.
―Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita?―perguntou.
―Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em casar?
―Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho...
―E casa-se com ella por amor.
―Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o casamento...
―Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo, pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle impuzer.
Leonor bateu o pé furiosa.
―O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á gente!―disse ella.
―Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol.
Houve uns momentos de silencio.
―Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa rapariga?―perguntou por fim.
―A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em expedientes para se esquivar á perseguição da policia...
―Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto?
―Que juizo fórma de mim?―perguntou João Lazaro encarando-a com desdem―Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero, julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu?
―Mas não foi isso o que o senhor me prometteu!―bradou Leonor indignada.―O senhor disse-me que me informaria de tudo...
―E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa, senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes...
―Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente prevenida...
―Elle ainda não casou...
―Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe mil protestos, mil juras de amor!
―Tudo isso, porém, não é casar―tornou João Lazaro com placidez.
―Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me!―gritou Leonor n'um despedaçamento do coração.
―Bem! E o que quer a senhora?
Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de colera:
―Pois ainda não comprehendeu?―rouquejou ella―Quero vingar-me!
―Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca...
―Cale-se!―intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro, que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar―Essa não é a vingança que me satisfaz, a vingança que eu sonho!
João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:
―Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias?
A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em cheio uma bofetada na face.
―Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?―disse ella tremula de colera.
―Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia á vingança ruidosa contra Eugenio...
―Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á
qualidade
da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou!
―Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do commendador Garcia?
―E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração?
―Punir, disse?
―Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu, ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não! Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto de ficar viuva...
João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de uma ameaça realisavel.
―Minha querida―disse elle―socegue e veja bem que n'esse estado de excitação nada podemos fazer...
―Mas se eu já não quero fazer nada!―bradou Leonor.―O que eu quero unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio...
―Venha cá, Leonor!―exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim?
―Oh! sim! sim! quero!―respondeu anciosamente Leonor, n'um estremecimento nervoso.
―Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar?
―A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o!
―Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves responsabilidades perante a justiça―ponderou João Lazaro.
―E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me ludibriou, porque me trahiu!»
―A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo o rigor da lei...
―Embora! Mas eu ficarei vingada.
―Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e nos affectos do seu coração?
―Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!
―Mas, minha amiga―tornou João Lazaro com a voz mais doce e persuasiva―não é isso tambem o que lhe estou dizendo...
―O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente!
―Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem por consequencia a morte de um homem, chama-se
crime
e é punida rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem, chama-se
desastre
,
doença
,
fatalidade
, e a justiça não tem alçada para a punir.
―Não entendo!―disse Leonor.
―Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á justiça?
―De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no peito de uma mulher como eu, se existe
o amor que salva
, tambem ha o
amor que mata
.
―Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança que deseja?
―Como poderia eu recompensal-o?
―Amar-me-hia?
―O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz amar-me comprehende assim o amôr?
―Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada, pertencer-me-hia?
―Em espirito, não. Materialmente, sim.
―É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o corpo...
―Imponho uma condição, porém―objectou Leonor.
―Diga.
―Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia ás minhas complacentes attenções...
―Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.
―É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o senhor onde está Eugenio?
―Talvez...
―Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha tranquillidade...
―Diga antes―de que depende a satisfação do seu orgulho ferido...
―Seja! Onde está Eugenio?
―N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras...
―Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde?
―Nunca é tarde para a vingança.
―Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada!
―Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.
―Como o sabe?
―Disse-m'o elle.
―Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa...
XXI Tal vida, tal fim
Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.
No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave, traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e de que tudo lá dentro estava em silencio.
Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução, encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas, voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros, na escuridão da sala, com os dentes cerrados
pela colera
, ia murmurando com rancôr profundo:
―Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima, roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então quanto custa ludibriar uma mulher como eu!
E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado.
Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel. Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança seria terrivel!
Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.
Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.
Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.
Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:
―Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e recommendou que a não acordassem.
―Essa ordem não pode entender-se comigo―volveu Eugenio, admirado do modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara.
―Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a.
Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho atrevimento, a que não estava habituado.
―Marianna―disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel―o que se tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado?
―O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo na mesma.
―Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra. Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a precaução de se fechar por dentro. Porque é isto?
―Porque ha de ser?―respondeu a criada fazendo uma careta inexpressiva.―O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões!
―Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta da rua e se fechou no quarto, por dentro?
―Olhe, senhor, eu não sei!―rematou a velha.―Ella não me dá contas nem
estifações
do que manda fazer... Ella é que dá as
ordes
, é a senhora, e eu cá d'essas coisas não sei.
O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:
―Marianna, quem está alli n'aquelle quarto?
―Quem ha de estar? Está a senhora...
―Só?
―Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr.
encommendador
, não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais ninguem....
―Parece-lhe? Não tem a certeza...
―Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi embora, tirante de ser o sr.
encommendador
... Então ella, coitadinha, que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam aqui estas rodilhices...
―Rodilhices de quem?
―Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera! Outra qualquer faria o mesmo.
Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.
―Leonor tem-se então affligido muito?―perguntou elle.
―Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda ruim que não ha quem a ature... O pobre do
encommendador
anda parvinho de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é uma coisa por demais!
O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa.
―É doida a Leonor em dar importancia ―É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes―disse elle―principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de pêtas.
―São pêtas, são pêtas―retorquiu a velha com um sorriso de incredulidade―mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá ella deitar a mão...
E depois n'um tom de reprehensão amigavel:
―O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha! Quem se fia n'elles está perdida.
―Pois você tambem acredita, Marianna?
―Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito e estes ouvidos teem
ouvisto
inda mais―disse ella, levando alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.
―O que é que você tem visto e ouvido, Marianna?
―Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade... O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra amor de quem agora andam estas
questães
...
E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de prudencia:
―P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei... E dinheiro
támem
não lhe havia de faltar, que se não fosse o
encommendadôr
, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella querer.
―Está bem, Marianna, acabe com o sermão!―ordenou o bohemio, de mau humor.―Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde.
E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar.
Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.
Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um amplexo carinhoso.
A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:
―Tu por cá! Que novidade é essa?
―Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor!―exclamou o bohemio com artificial commoção.
Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando a Eugenio que a imitasse.
―O que é então que desejas?―perguntou.
―A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente―principiou dizendo o bohemio―de modo que não só me é impossivel continuar a viver no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...
―E d'ahi?
―D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o pensamento de te deixar...
A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem.
―Faço ideia!―disse ella friamente.
O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante, proseguiu:
―Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti! Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação!
―Foi talvez feitiçaria que te fizeram!―disse a amante com um aggressivo sorriso de sarcasmo.
O bohemio encarou-a espantado.
―Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça?―lamuriou elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.
―Eu? Que lembrança!―casquinou nervosamente a loura.―Eu posso lá escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por força a mulher que por bem não quiz amal-o?!
Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e de odio mal reprimido.
Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume, e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece querido:
―Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na injustiça que me fazes...
―Injustiça?!
―Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo, que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura escandalosa dos seus amores, a que sou―juro-o!―completamente estranho!
Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro, continuou:
―Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha. Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua honra e do seu bom nome...
―Como é então que o acusam ao senhor?―disse Leonor, cravando n'elle um olhar que o gelou.
―Tudo obra dos meus inimigos!―balbuciou o bohemio, desconcertado―Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a esta hora sabedor das nossas relações?
―Basta!―bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de salto―basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua causa, não lh'o consinto!
―Bravo!―tornou o bohemio sarcasticamente―Vejo que o commendador tem feito progressos no teu coração durante a minha ausencia!
E encolhendo os hombros com desprezo.
―Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe tirou.
Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o capote.
Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante.
―Adeus!―disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir.
Leonor avançou para elle:
―Foi para isso que o senhor cá veio?―rugiu indignada―Foi unicamente para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo para essas distracções...
O bohemio retrocedeu.
―Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam e atraiçôam os que dizem que amam...
―O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça favor!
―Digo―volveu o bohemio―que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas para as horas negras da desgraça.
Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir.
―Venha cá!―disse ella.―A accusação que o senhor acaba de fazer é mais uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui?
―Vinha despedir-me da mulher que amava e...
―E...?
―E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...
―Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio cá? Vamos! explique-se! O que desejava?
O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto, sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.
―Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou?
―Talvez se engane... talvez ainda não acabasse
tudo
como o senhor suppõe...
Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor, tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.
―Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo?―bradou elle.
―O que desejas de mim? Dize!
―Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro, está tudo na tua mão!
―Como? O que posso eu fazer?
―Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer, emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome... Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me recusam...
Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da perfidia do amante.
João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração, arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.
Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da vingança.
―Quinhentos mil reis...―disse com voz tremula.―Não é isso o que precisas?
―Sim, é isso mesmo!―exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita―Quinhentos mil reis é quanto eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos...
Leonor sorriu e disse:
―E se eu fosse comtigo?
O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.
―O que!―exclamou―querias ir comigo para Madrid?
―E porque não?―tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.
Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr das suas joias e pouco mais.
Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça.
Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil.
Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal passo, respondeu:
―Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro e do teu bem estar o que um tal passo importa!
O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas
Leonor
é que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida.
―Eu já esperava a resposta, miseravel!―bradou ella enfurecida―Eu bem sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque, indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me trocaste, vil!
―Leonor!
―Não tentes negar! Sei tudo, canalha!
―Leonor! Juro-te...
―Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de mulheres!...
E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á fronte direita e disparou.
O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.
Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada, a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando por soccorro em brados afflictivos.
A primeira que acudiu foi a velha Marianna.
―Meu Deus! o que foi, senhora?
―Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá depressa!
E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro lancinantissimo.
O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que iam passando.
Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações, participando o caso para o commissariado. Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações, participando o caso para o commissariado.
XXII Mysterio
Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula, passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os personagens d'esta singela narrativa.
Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, propellidos ao natural desafogo de suas mágoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia das leis do decoro e do respeito devido á posição de cada um.
D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmão, quando um ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua criada de quarto e era recebida na presença da velha governante de Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do rendimento de sua casa.
Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em não dar pasto á maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa do que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, como coisa mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial contrahido entre os dois.
Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães e Julio de Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel laço de sympathia que une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel fraternidade, as dôres intimas que os dilaceram.
Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo á sua magoa quando podia referir á irmã de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem não se sentia menos feliz quando podia recordar, na presença de quem bem a comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdêra com o marido e com o filho, prematuramente mortos.
Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o encontro com o
Tomba
e a missão de que o encarregara na esperança de poder descobrir, com a existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a
irmã Dorotheia
.
―Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica,―dizia elle―não é tanto a ingratidão de Helena como é este mysterio que pesa sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não resta duvida, pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e noviças que com ella estiveram no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, sendo assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da sua passagem?
―As congregações religiosas―observou sensatamente Aurelia de Magalhães―ao que me consta, parece que teem o costume de mudar frequentemente o nome das
irmãs
; de modo que a que aqui se chama irmã Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, n'outra parte irmã Sophia, e assim por deante, tornando por esta fórma impossivel estabelecer a identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, com Helena, não terá succedido o mesmo?
―Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda quando assim fosse, Helena não teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer das casas que percorri. Porque não me limitei a simples informações. Apparentando decidido amor pelas instituições jesuiticas, consegui, á custa de donativos, captar a confiança e a estima de todos os superiores e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e auxiliar valioso; isto é, como um jesuita de casaca.
D. Aurelia sorriu tristemente.
―E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiança, o senhor não era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade absolutamente conhecida?
―Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do meu segredo?
―Isto é apenas uma supposição que eu faço―apressou-se a dizer D. Aurelia.―Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia na defesa dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar que elles pudessem illudir e annullar todos os esforços empregados pelo sr. Julio para encontrar Helena...
―Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias d'ella... Se o
Tomba
encontrar madre Paula, ella confirmará, estou certo, esta minha funesta previsão...
―E se, pelo contrario, Helena viver ainda?
Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.
―Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de sacrificar os ultimos dias da minha vida!
Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irmã de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de seu irmão, uma distracção que lhe aligeirasse as horas tristes das pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho da freguezia, que não era já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de Norberto de Noronha.
Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra de consolação para todas as amarguras.
Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, ora visitando Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impressões sobre os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.
D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora habitual da visita e entrava na sala, já tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a noticiar.
―Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora―disse elle com o seu eterno sorriso bondoso―mas não foi culpa minha...
―Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel...―disse amavelmente D. Aurelia.
―Que quer v. ex.
a
, minha senhora? Este, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho de Thayde contando-me um caso extraordinario...
―Sim?
―É verdade. Imagine v. ex.
a
que ha oito dias que se vê todas as noites na Senhora do Porto uma mulher
desconhecida
, prostrada com a face no chão, resando em frente á porta principal do templo e passando assim as longas horas da noite n'uma oração muda. De manhã, aos primeiros alvôres do dia, some-se e ninguem mais a vê!
―Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos invencioneiros das nossas aldeias―disse D. Aurelia sorrindo―É lá crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada á porta d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o caminho que toma e o destino que leva?
―O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas não se atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida e que já vae formando lenda.
―Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a?―disse Julio.
―Ninguem. Como v. ex.
a
sabe, esta nossa gente do Minho é temivel com um cacête nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, desde que a sombra de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a precipitação de quem foge do diabo. Por isso, não admira que, oito dias volvidos, sobre a extraordinaria apparição que a todos apavora, ainda até agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.
―Mas o que julgam elles que seja?
―As versões variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto apresente fórmas humanas, é comtudo um enviado do espirito das trevas para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em corpo e alma para o inferno...
―E vossa reverendissima o que diz?―interrompeu Julio.
―Eu digo que, se não é a sombra de alguma arvore, transformada pelos olhos medrosos dos aldeãos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural, então é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e que busca na solidão da noite e no balsamo da oração o allivio e perdão de suas culpas.
Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel, como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relação intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanças perdidas.
―E acredita, padre Manoel―disse elle por fim―que a oração, por tal modo, constitua balsamo efficaz para as tribulações de uma alma alanceada de remorsos?
―Creio que a oração é sempre um balsamo consolador de afflictos―respondeu o padre.―Quando nas angustias do soffrimento volvêmos os olhos á roda de nós e não encontramos em nada do que os cerca um lenitivo á nossa dôr, então volvemos os olhos ao céo e, pondo em Deus toda a esperança, achamos o conforto e o allivio que nenhuma força humana póde dar-nos.
―Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde phantasiaram ou realmente viram na Senhora do Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na oração o balsamo suavissimo da esperança, que as coisas terrenas já não pódem dar-lhe: ha uma expiação, ha um rigor de penitencia, que revela a existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança aterra e apavora a propria creatura que os commetteu...
―Por isso eu disse a v. ex.
a
―volveu o padre, com bondoso sorrir―que, a ser verdade o que se diz, não ha duvida que se trata de uma desgraçada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão de suas culpas...
―Se a expiação corresponde ás faltas commettidas, devem estas ter sido muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante modo.
―Só Deus lê no coração da creatura e só Elle póde julgar com justiça dos erros de cada um... Em todo o caso, o que é evidente é que estamos em frente de uma creatura desgraçada e como tal merecedora da nossa compaixão...
Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do sacerdote.
―Ás vezes―concluiu por fim―a imaginação exagera em nós a gravidade de erros commettidos, avultando-os até os fazer tomar as proporções de crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Póde ser que essa pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que não commetteram...
―Tudo póde ser―tornou o sacerdote―Na minha opinião, toda a penitencia significa arrependimento e todo o arrependimento affirma a existencia de uma alma bôa, embora um momento transviada do recto caminho pelo diabolico poder das paixões... Alma feita para o mal e endurecida no crime não experimenta arrependimento. Póde simulal-o, é certo, por mêdo ao castigo, mas, em tal caso, não busca as sombras da noite nem a solidão dos logares desertos para exercitar o seu fingimento... Pelo contrario, ostenta-se publicamente á luz do dia, prostra-se nos templos, em face dos altares, aos olhos de todos aquelles a quem quer illudir... derrama lagrimas fingidas, bate murros no peito, grita que tudo, espera de Deus e tem o diabo a rir no coração. Não é d'esta natureza a mysteriosa penitente que traz sobresaltados os habitantes de Thayde, creio eu, porque desapparece e esconde-se, aos primeiros clarões da aurora, nas covas do monte, sem que ninguem conheça onde se occulta.
―O que é estranho―ponderou Julio―é que ninguem até agora se lembrasse de verificar se realmente se trata de uma creatura humana, ou se tudo isso não passa de uma absurda ficção de espiritos broncos... Porque não irá o proprio regedor com os seus cabos proceder a uma diligencia n'esse sentido?
―Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor é o primeiro a recolher a casa ao cahir da noite, tomado de um terror supersticioso... Para aquella gente, é ponto de fé que se trata da D. Rita de Briteiros, morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado o irmão e a cunhada para lhes herdar os bens. E o regedor de Thayde não quer nada com almas do outro mundo..
―O que me parece―opinou D. Aurelia―é que tudo isso não passa de uma grosseira invenção d'algum malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo depois de morta quer deixar-lhe o descanço da sepultura... O sr. padre Manoel não ignora quanto é má e ás vezes profundamente perversa esta gente da aldeia, perseguindo com os seus odios, ainda além da campa, aquelles que em vida lhe não mereceram sympathias...
―Sim, é certo―concordou o padre Manoel―e creio bem que a sr.
a
D. Aurelia tem razão em pensar assim, tanto mais que a D. Rita―Deus lhe perdôe!―era geralmente odiada, e supponho que com algum motivo...
―Devemos perdoar aos mortos―tornou D. Aurelia n'um tom de suave recriminação―pois não é justo que vamos revolver-lhes o pó da sepultura para desenterrar crimes de que a justiça humana lhes não tirou contas e que, affectos ao tribunal da justiça divina, só a Deus pertence julgar...
―Eu tambem concordo, minha senhora―replicou o padre Manoel―que devemos perdoar aos mortos e deixal-os repousar na eterna paz do sepulchro. Todavia, não deixo de reconhecer que esta deshumana e talvez impiedosa crueldade do povo para os que se finaram e que em vida não seguiram as normas do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador, qual é o de dizer aos que ficam que os seus crimes nem mesmo depois da morte obteem o perdão e o esquecimento do mundo...
―Mas quantas abusões, quantos erros, quantos absurdos e quantas injustiças lançadas sobre a memoria de pessoas erroneamente julgadas pela opinião, sempre fallivel, do vulgo ignaro?―interrompeu Julio―O sr. padre Manoel não ignora decerto que, por via de regra, não são os peores aquelles que o povo aponta como maus...
―
Vox populi, vox Dei
... A voz do povo é a voz de Deus―argumentou o padre Manoel, repetindo o proloquio latino.
―Mas tambem
vox populi, vox diaboli
...―retrucou Julio―E mais vezes é a voz do povo a voz do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa reverendissima bem sabe, argumentar com superstições absurdas, com apparições sobrenaturaes de almas penadas, é uma cobardia tão abjecta e repugnante, que só tem desculpa na estupidez do vulgo semelhante fórma de castigo infligido aos mortos!
O padre Manoel não insistiu, limitando-se a responder:
―Isto já vem assim do principio do mundo...
―E porque vem assim, devemos nós consentir que assim continue? Não me parece justo. Illustremos o povo, desfaçamos-lhe erros e abusões em que vive. Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia do dever e não por principios erroneos de superstição absurda. E, pois, que em Thayde não ha alguem sufficientemente sensato e honesto para dar um exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite mesmo á Senhora do Porto investigar o que ha de verdade na mysteriosa apparição.
―Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a ir d'aqui á Senhora do Porto!―observou D. Aurelia, espantada.
―E porque não?―respondeu Julio―Conheço o caminho e o meu cavallo é seguro. Dentro de uma hora, estarei lá.
―É uma imprudencia!―reprovou o padre Manoel―V. ex.
a
sabe que as nossas estradas são mal frequentadas de noite...
―Estou habituado a toda a especie de encontros. Na minha mocidade fiz muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo do Papa Assucar...
―A mysteriosa apparição―tornou o padre Manoel―póde mesmo não ser mais do que o pretexto para uma cilada.
―Uma cilada, a mim!―exclamou Julio―Não ha nada menos provavel... Quem poderia esperar que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse com o que se passa de noite na Senhora do Porto?
―Não digo que seja uma cilada propositadamente armada para v. ex.
a
. Mas é sempre um perigo ir a gente metter-se nas ratoeiras armadas para outros―aconselhou prudentemente o padre.
Julio sorriu desdenhoso.
―Seja como fôr―decidiu elle―irei certificar-me do que se trata. Se é um conluio de malfeitores que pretendem por esta fórma espalhar o terror no sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, para mais á vontade effectuarem o assalto e o roubo, a auctoridade ficará sabendo com quem tem de se haver. Se, pelo contrario, é uma creatura infeliz, uma existencia desgraçada que busca na penitencia e na oração o remedio para as dôres da alma, é uma obra de caridade levar-lhe o balsamo da piedade e da compaixão como lenitivo a tanto soffrer.
E consultando o relogio d'algibeira:
―São 10 horas―disse elle―Vou partir. Se antes da meia noite não estiver de volta, amanhã de manhã poderá vossa reverendissima ouvir em minha casa a narração fiel do que tiver acontecido.
―Repare, meu amigo―tentou impedir D. Aurelia―que a noite está tempestuosa e que vae pôr em perigo a sua saude, bastante abalada.
―A minha existencia―replicou Julio com amargura―ha muito que decorre batida pelos vendavaes do infortunio. Que importa uma noite de chuva a quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite de tempestuosas desgraças? Até amanhã! Nada receiem por mim, que eu vou preparado para tudo.
E sahiu, na resolução inabalavel de cumprir o que dizia.
XXIII Allucinação
No dia seguinte de manhã, D. Aurelia e o padre Manoel, movidos da extraordinaria curiosidade de saberem o resultado da audaciosa aventura de Julio de Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o interrogarem.
O excentrico apaixonado de Helena de Noronha estava no leito ardendo em febre.
Ao vêr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu os braços para elles, exclamando:
―É horrivel, meus amigos, é
horrivel
!
―Como assim! Viu
alguma
coisa?―interrogou o padre com espanto.
―Vi... vi!...
―E então?
―Então... oh! não posso dizer-lhes o que vi...
―Malfeitores por certo...―aventurou D. Aurelia―teve de bater-se com elles...
―Não... não!―contradisse o doente com vehemencia―Não se trata de malfeitores... Ha effec ―Não... não!―contradisse o doente com vehemencia―Não se trata de malfeitores... Ha effectivamente alli uma creatura extraordinariamente desgraçada, um ser mysterioso que tem alguma coisa de sobrenatural e phantastico, impossivel de reconhecer...
Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido olhar como se quizessem significar um ao outro que havia talvez motivo para duvidar da integridade mental do seu interlocutor.
Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada pela febre, n'uma grande agitação, proseguiu:
―Fui. A noite estava realmente tempestuosa e horrivel. Atravessei Quintella sob uma chuva violenta e, quando cheguei a Thayde, o temporal desencadeou-se n'um vendaval desfeito. Ainda assim, não parei. O meu fito era ganhar a Senhora do Porto e surprehender o mysterioso vulto no extasis da oração. Chegando ao sopé do sanctuario, apeei-me, prendi o cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com o revolver engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, até á crista do monte onde se ergue o templo da Senhora... A treva era profunda e eu mal poderia divisar quem quer que fosse, por muito perto que estivesse de mim, se a luz dos relampagos, fendendo a miudo o espaço, me não illuminasse o caminho. No alto, tudo estava em silencio e tudo deserto...
―Não viu, portanto, pessoa alguma?―interrogou o padre Manoel.
―Quando cheguei, não vi. Mas, pensando que talvez a tempestade tivesse retardado a vinda á penitente, resolvi-me a esperar alli, até de manhã, para poder testemunhar com verdade até que ponto os terrores da gente de Thayde tinham fundamento, ou então que todas essas atoardas de uma phantastica apparição não passavam de grosseira patranha de torpes invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, encostado á porta principal do templo, sem fazer um movimento, quasi sem respirar.
―Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de Montarroyo!―não pôde deixar de exclamar a irmã de Gustavo.―Se não estava ninguem no local, como pôde permanecer tanto tempo encostado ao templo, debaixo d'um temporal desabrido, provocando um arrefecimento que podia prejudicar-lhe a saude?
―Morrer hoje ou morrer amanhã, que importa, minha senhora, quando não sentimos o menor apêgo á vida? Eu tinha ido alli para desvendar um mysterio ou desfazer uma illusão de espiritos ingenuos e credulos. O meu dever era ficar e fiquei... Ainda bem que fiquei, porque, uma hora passada, os meus olhos, habituados á escuridão, viram mover-se na treva da noite um vulto que se aproximava lentamente do portico a que eu me encostava.
―Então sempre era certo!―exclamou o abbade triumphante.
―Certissimo. O vulto, que não suspeitava a minha presença alli, a semelhante hora, chegou junto do primeiro degrau do templo, ajoelhou e n'um grito lancinantissimo, implorou a morte á Senhora do Porto!
―A morte!―exclamaram a um tempo D. Aurelia e o padre Manoel.
―A morte, sim!―confirmou Julio―Era uma voz de mulher, lamentosa e dôce, e de tal modo parecida com... com outra voz que eu já tinha ouvido, que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado á porta do templo! Essa voz repetia por entre gemidos, com a face collada no degrau da egreja:―«Senhora do Porto! Mãe Misericordiosa! ouve a minha supplica, dá por terminado o martyrio da minha existencia, leva para ti esta miseravel creatura!»―
Depois soluços e gemidos abafados seguiram-se a estas palavras...
―É singular!―disse D. Aurelia.
―E extraordinario!―accrescentou o padre Manoel.
―Não posso dizer-lhes, meus amigos, o que se passou em mim... Tomado do sagrado respeito que inspiram os grandes desgraçados que só ao céo dirigem as suas supplicas, permaneci por alguns minutos mudo e immovel como uma estatua. Todavia, cada um d'aquelles gemidos penetrava no meu coração como uma lamina de aço. Identifiquei-me de tal modo com aquella dôr, que cheguei a pensar que conhecia de ha muito tempo a infeliz creatura que alli jazia prostrada e que a minha presença devia ser-lhe como que o apparecimento de um irmão querido. Então, sem pensar no que fazia, recordei um nome, o nome de uma mulher que eu conhecia e que devia ser aquella mesma: «Helena!»―bradei-lhe―«Helena!»―e desloquei-me da porta do templo descendo um degrau. Ao ouvir este nome, a mysteriosa creatura soltou um grito de terror, levantou-se espavorida e fugiu... Corri em seu seguimento, mas a escuridão da noite e a incerteza do caminho não me permittiram alcançal-a... Sumiu-se. Procurei-a toda a noite chamando-a em altos brados, dizendo-lhe o meu nome, porém tudo foi baldado!
―Não pôde então conhecer quem fôsse a estranha penitente?―aventurou-se a dizer D. Aurelia.
―Os meus olhos não puderam distinguir-lhe as feições, mas o meu coração reconheceu-a. Era Helena, era a filha de Norberto de Noronha, a antiga herdeira d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta noite em Nossa Senhora do Porto!
―Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse ella, para que fugiria ouvindo que a chamavam pelo seu verdadeiro nome e que quem assim a tratava era por força uma pessoa amiga?―retorquiu D. Aurelia.
―De noite todos os gatos são pardos―philosophou plebeiamente o padre Manoel―Já uma noite, vindo eu das Caldas, vi debruçado sobre o muro da estrada um homem com uma fouce roçadoura na mão, como quem se preparava para me abrir a cabeça de meio a meio quando eu fosse a passar. Suspeitando que fosse algum ladrão, sustei a egua e disse ao meliante que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto não respondeu e agitou com mais força a fouce roçadoura n'uma silenciosa ameaça. Eu então era rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, puxei de um revolver e intimei tres vezes o meu aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe mandar uma bala. Não obedeceu e eu então dei ao gatilho―pum! pum! pum!―e mal vi que elle deixara cahir a foice com que me ameaçava, metti esporas á egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro dia fiquei muito admirado de não ouvir fallar do caso de apparecer algum homem morto na estrada e, depois do meio dia, montei a cavallo e lá fui eu muito disfarçadamente estudar o sitio onde tinha tido o terrivel encontro... Não lhes minto se lhes disser que fiquei envergonhado ao reconhecer que o malfeitor contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo que bracejava para fóra do muro uma das suas vergonteas, a tal que eu tomára por uma foice roçadoura e que lá estáva cahida na estrada, cortada pela bala do meu revolver... De noite, a gente vê coisas extraordinarias, que não passam de ordinarissimas coisas, observadas de dia, á luz do sol...
―Sr. padre Manoel―protestou Julio, agitado pela febre e deveras irritado pela incredulidade insultuosa do padre―faça-me a fineza de acreditar que eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no espirito o mêdo deprimente de uma foice roçadoura, quando vi aproximar-se de mim a penitente de que se trata. Estava tranquillo como v. s.
a
o está agora e tinha o entendimento tão claro como v. s.
a
o póde ter―logo de manhã, em jejum, quando vae para o altar dizer missa.
O padre Manoel, que não era tolo, inclinou a cabeça n'um sorriso bondoso e apressou-se a dizer:
―Não foi meu proposito pôr em duvida a veracidade da sua narrativa, sr. Julio de Montarroyo... Creio que v. ex.
a
visse e ouvisse tudo o que diz, mas podia muito bem acontecer que, por uma illusão que a noite favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto de Noronha uma outra pessoa bem differente... Era simplesmente n'este ponto que a confusão podia dar-se...
Julio aquietou-se um pouco com esta explicação do padre.
―Tambem não affirmo que fosse ella―disse―mas tenho a convicção intima, profunda, de que não é outra.
―E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?―perguntou D. Aurelia.
―Voltar lá. Procurei-a durante a noite até de manhã. Bati o monte em todas as direcções, observei-o em todos os recantos, e não pude atinar com o sitio em que ella se occultou. Todavia, é certo que ella se escondeu alli, porque nem teria forças para me fugir n'uma longa caminhada a pé, nem a vereda que seguiu lhe permittiria poder andar muito tempo a descoberto, sem que eu a encontrasse.
―Mas―observou D. Aurelia―se a mysteriosa penitente, surprehendida por v. ex.
a
, fugiu, é que não quer ser vista; e sabendo que é conhecida a sua frequencia n'aquelle sitio, áquella hora, certamente não voltará lá com receio de ser novamente surprehendida... Mórmente se v. ex.
a
acertou chamando-lhe pelo nome verdadeiro...
―Sim, é certo..―concordou Julio―mas eu tenho de cumprir o meu dever que me manda procurar vêl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto possivel para pôr termo áquelle soffrimento.
―Tenciona, pois, voltar lá esta noite?
―Tenciono.
―Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado.
―Porque?
―Pelas razões que já lhe disse. Se é realmente Helena de Noronha e não quer tornar conhecida a sua presença, esta noite evitará apparecer junto do templo onde sabe que é esperada pela pessoa que a reconheceu e lhe chamou pelo nome...
―O que devo fazer então?
―Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer regularmente, e tomar todas as medidas para a seguir de longe até lhe descobrir o paradeiro.
―É o que se me afigura mais prudente e mais acertado―approvou o padre Manoel.―Demais, o sr. Julio de Montarroyo está n'um estado tal de excitação febril, que uma segunda noite passada como a primeira póde alterar-lhe profundamente a saude. Eu me encarrego, se v. ex.
a
quer, de mandar vigiar o local, e saber se a penitente continua a apparecer lá...
―Com a condição, porém, de que não hão de perturbal-a na sua oração nem afugental-a d'aquelle sitio.
―A recommendação é inutil. Descance v. ex.
a
que tambem eu e a sr.
a
D. Aurelia estamos com verdadeiro interesse em saber quem é a mysteriosa creatura de que se trata. Prometta-me que não sahirá esta noite a expôr a saude a um verdadeiro perigo, e amanhã ficará sabendo com certeza se a penitente voltou ao templo.
Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se os dois do doente, recommendando-lhe socego e promettendo voltar no dia seguinte a informal-o do que tivesse occorrido.
Já cá fóra, disse o padre Manoel á D. Aurelia:
―E que lhe parece a v. ex.
a
este caso extraordinario que acabamos de ouvir?
―Parece-me―respondeu a irmã de Gustavo―que o nosso pobre amigo tem razão para estar bastante sobreexcitado com o que lhe succedeu.
―E v. ex.
a
acredita que elle visse lá alguem?
―Acredito... Porque não hei de acreditar, se o que elle conta é a confirmação dos boatos de que v. s.
a
se fez echo?
―Oh, minha senhora! mas repare v. ex.
a
que: eu apenas contei como extravagante phantasia dos habitantes de Thayde o rumôr que corria entre elles de que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro mundo.. a alma da D. Rita de Briteiros.
―Mas v. s.
a
não crê nas almas do outro mundo; e certamente não recusará acreditar que a estranha apparição tenha realmente um fundo de verdade, e que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura em corpo e alma, como tantas que, batidas pela desgraça irremediavel, fogem dos povoados para habitarem os logares desertos, entregando-se á oração e á penitencia!...
―Custa-me muito menos a crêr que o nosso amigo, allucinado pela febre e pela estranha situação em que se encontrava, áquella hora e em semelhante local por uma noite tão tormentosa, foi victima de uma allucinação e julgou vêr o que não viu nem podia, vêr... Não reparou v. ex.
a
que elle tinha as faces afogueadas e os olhos brilhantes da febre? Quem nos diz a nós que tudo aquillo não será o delirio da doença? O mais acertado parecia-me chamar o medico...
―Conhece Julio de Montarroyo e sabe a organisação nervosa e irritavel que elle é... Se lhe mandamos o doutor sem elle o reclamar, é muito capaz de não o receber e de se offender comnosco...
―Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos ao doutor o que se
passou
e elle simulará um motivo qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da doença... Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para qualquer obra de beneficencia... ou pedir-lhe informações sobre qualquer instituto medico das grandes cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. O que não devemos é deixal-o abandonado dos soccorros medicos, porque o pobre homem, se já tinha
falha
antes d'este caso, agora, com a mania de que viu a filha de Norberto de Noronha, é muito capaz de ensandecer de todo...
D. Aurelia intimamente revoltada contra esta apreciação do padre, teve bastante força em si para responder apenas:
―Durante o tempo que tenho tratado com o sr. Julio de Montarroyo, ainda não pude colher elementos que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades mentaes... Se agora me pareceu n'um estado de excitação febril, acho natural que assim succeda depois da noite tempestuosa que passou e do violento abalo que devia ter-lhe causado a apparição falsa ou verdadeira da estranha penitente que elle diz ter visto... Como quer que seja, sr. padre Manoel, a doença de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo não é d'aquellas que se curam com synapismos e xaropes receitados pelo medico.
―O que quer então v. ex.
a
que se faça?
―Que v. s.
a
cumpra o que prometteu... Que encarregue alguem de sua confiança para vigiar o templo da Senhora do Porto e vêr se realmente Julio de Montarroyo tem razão e os habitantes de Thayde tambem...
O padre Manoel encolheu os hombros:
―Pois v. ex.
a
julga...?
―Julgo que ha de haver um motivo para que tal boato se espalhasse, como creio que o sr. Julio de Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas que não tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe não tivessem affigurado... O nosso dever, pois, é tirarmo-nos de duvidas e esclarecer quanto possivel este mysterio.
―Está bem! Se v. ex.
a
assim o deseja, mandarei o João Mil-homens, que é arrojado e valente, e não crê em almas do outro mundo, rondar a Senhora do Porto, esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, até não restar duvida de que não apparece lá viva alma...
―Porém, que isso se faça em segredo, com a maxima prudencia e cautella, para não causar alarme na povoação nem dar logar a que a mysteriosa penitente se afaste d'estes sitios.
―Fique v. ex.
a
descançada, que o Mil-homens é fino como uma raposa e tem o faro de um cão de caça para descobrir o esconderijo da tal creaturinha, onde quer que ella se occulte. Vou já d'aqui prevenil-o e estou bem certo que não ha nada, ou, se ha alguma coisa, não levará muito tempo que não saibamos tudo.
O aldeão encarregado pelo padre Manoel de vigiar durante muitas noites seguidas o templo e immediações da Senhora do Porto nada pôde observar que confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem sequer os boatos que corriam entre os aldeãos de Thayde.
O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao relatar á D. Aurelia os baldados
esforços
empregados pelo Mil-homens para descobrir a penitente e dizia:
―São tudo imaginações, minha senhora, são tudo imaginações... Eu já sei o que isto é: um vê uma sombra e diz que é um homem; outro olha e vê um gigante. Vem um terceiro e affirma logo que é um gigantarrão e jura até que o ouviu fallar! Sabidas as contas, vae-se a vêr e não é nada... Eu sempre disse que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas tinha qualquer propensão para visionario...
D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena.
―É certo―dizia ella―que o sr. Julio de Montarroyo é dominado por uma paixão violenta que quasi constitue n'elle uma doença incuravel. Mas não creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por tal modo as faculdades, que o faça imaginar coisas que não vê nem ouve... Isso seria a loucura, e o seu entendimento é por demais lucido para o suppôrmos um allucinado...
―Valha-me Deus! não digo que elle esteja doido varrido... Elle conhece as pessoas e sabe o que diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v. ex.
a
paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente como eu vi os milagres de Santo Antonio...
―Mas acredita n'elles!...
―Acredito, que é o meu dever...
―Pois então acredite tambem o sr. padre Manoel nos factos narrados pelo sr. Julio de Montarroyo, por muito inverosimeis que elles lhe pareçam... Note v. s.
a
que elle não diz que prégou aos peixinhos e que elles o ouviram devotamente com muita attenção, nem affirma que fez levantar Norberto de Noronha da sepultura para dizer quem o matou... Conta simplesmente que viu uma pobre mulher prostrada nos degraus de um templo, invocando a Senhora do Porto para que lhe désse a morte... Isto não é tão inverosimil, acho eu, que repugne acreditar-se...
―Minha senhora―volveu o padre Manoel fungando uma pitada―o sr. Julio de Montarroyo não é santo Antonio nem tem como aquelle santo reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha senhora, S. Thomé tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu já me contentava, para crêr, com o testemunho do João Mil-homens, que não é nenhum doutor da egreja, mas que é homem capaz de averiguar se uma coisa que vê é pau ou é pedra. Mas o João Mil-homens diz que não viu nada na Senhora do Porto... Ora se elle não viu nada, como é que os outros podem ter visto?
―É possivel e até provavel que a estranha creatura cuja existencia real o sr. padre Manoel põe em duvida, ao vêr-se surprehendida na sua oração pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada e reconhecida e resolvêsse mudar de sitio e fugir para bem longe...
―Póde ser―acquiesceu o padre Manoel, incredulo.
―No emtanto, e seja como fôr, v. s.
a
faz-me o obsequio de continuar a mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo trabalho que lhe está incumbido.
―Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.
a
que tanto faz ir como estar na cama... O homem, não pôde vêr lá pessoa alguma, pela simples razão de nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que se diz... Os tempos de fé acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de o fazer com ostentação, á luz do dia, diante de toda a gente... não se vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das lampadas, a piar miserias á porta dos templos desertos...
XXIV Estranho encontro
D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando nas palavras do sacerdote.
―Será realmente Helena de Noronha?―dizia comsigo―Julio de Montarroyo affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma allucinação, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez uma phantastica visão dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel Mil-homens, que é arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio.
Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas pancadas.
Estranhou que assim batessem áquella hora, e calculou que não podia ser senão um estranho desconhecedor de que o portão tinha uma sineta que facilitava a chamada.
―Batem ao portão―disse ella para a criada.―Diga ao Francisco que vá vêr quem é...
D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:
―Está lá em baixo um homem que pede para fallar á senhora com toda a urgencia.
―Que qualidade de homem é?
―Parece una homem do povo, minha senhora; mas não é d'estes sitios.
―Não disse como se chama, nem de mando de quem vem?
―O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. Julio de Montarroyo, mas que não o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que deseja dar só uma palavrinha á senhora.
―Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que não vá ser algum mal intencionado.
―Não me parece... Só se fôr algum desgraçado que use d'este meio para pedir abrigo por esta noite...
―Bem; vejamos o que elle quer.
Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre
Tomba
.
D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o logo.
―Ah! é vocemecê, mestre
Tomba
?
―Sou eu, minha... Vossa
incelencia
perdoará eu vir
trupar
á porta a esta hora, mas ha um
causo
que não póde deixar de ser...
―Diga, mestre, diga!―exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e gestos solemnes do velho sapateiro―Occorreu alguma desgraça?
―Uma grande
desgracia
, minha senhora! E se vossa
incellencia
não acode e manda alguem comigo, a
probe
de Christo está aqui, está a dar o ultimo suspiro!... Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o
assucedido
.., Mas lá
dixeram-me
que elle
támem
estava de
catrambias e atão
eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta obra de caridade...
―Mas de que se trata, mestre? Falle.
―Trata-se de uma
probe
creatura, uma triste mulhersinha que eu topei alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda!
―Uma mulher!?
―Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava ó canello com toda a força, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque
támen
já trazia uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não sei como reparo e vejo estirado ao canto da estrada um
burto
preto que me parecia coisa viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que não fosse ser algum alma de cantaro que estivesse a
infingir-se
morto, p'ra me deitar as unhas e alimpar-me o que eu
trouvesse
, e vi que o dito
burto
não mexia com pé nem com mão... Accendi um
phrophe
, cheguei-lh'o á cara, e era uma mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual quê! a
probe
de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem grande e eu
támem
já vinha estafado, sem poder comigo... de modos que deitei a correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle támem está doente...
D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, não deixou que o sapateiro terminasse.
Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz.
―Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. Vá, não se demorem... lembrem-se que é uma vida que vão salvar!
Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos decorridos, seguia o
Tomba
, pela estrada, á frente do grupo, em soccorro da infeliz creatura.
Uma hora depois regressavam o
Tomba
e os criados de D. Aurelia, conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o sapateiro encontrára abandonada no caminho.
A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o portão, acudiu á sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam, deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde já havia uma cama preparada.
A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento, julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da propria D. Aurelia.
―Então, quem temos por cá doente?―disse elle ao encarar D. Aurelia―Já vejo que não é v. ex.
a
. E antes assim.
―Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso dos seus soccorros. Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo, na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.
―Onde está ella?
―Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama.
―Vamos vêl-a.
E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia.
A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si.
Informou a criada que a despira, que a desgraçada trazia os vestidos rotos e sujos da terra da estrada.
Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado asseio nas roupas brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa que está habituada á limpeza―que é o primeiro indicio de uma boa educação.
O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida.
Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os vestigios profundos de mil soffrimentos e privações.
Com os olhos cerrados e a respiração quasi imperceptivel, a desditosa similhava um cadaver.
Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o rosto triste.
D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e não se recordou de ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam á porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe assimilhasse.
―Esta pobre mulher―disse ella―não deve ser d'estes sitios.
―Tambem me parece―affirmou o doutor―Pelo menos, não é d'estas aldeias proximas onde exerço a clinica e onde conheço quasi toda a gente.
―O que tem ella, doutor?―perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava de auscultar a doente.
―Frio e fome, talvez...―respondeu o homem de sciencia, fazendo uma careta―Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.
a
a não amparasse. Vamos tratar de a restituir á vida, e encetaremos depois o tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porém, que não teremos grande necessidade de recorrer á botica... Afigura-se-me que bastará apenas recorrer á cosinha...
―Vou mandar-lhe já matar uma gallinha!―acudiu D. Aurelia.
―Sim―approvou o doutor.―E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me cá a criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a doente.
―Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso fazer...
―Não, não! A Brigida que traga um pouco de vinagre, para lhe dar uma fomentação nos pulsos e nas fontes, a vêr se assim conseguimos restituir-lhe os sentidos.
D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicações do medico.
Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia que a pobresinha voltára a si, olhara espantada á roda do leito sem reconhecer pessoa alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um cordeal e que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador.
O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D. Aurelia voltar no dia seguinte.
―Deixem-n'a socegar―aconselhou elle―e amanhã veremos o tratamento a que temos de submettel-a.
―Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar cuidados?
―De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar nem obrigal-a a grande esforço de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas limitar-se a ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a fallar mais que o indispensavel. Mas por esta noite não acordará nem necessitará de outra coisa mais que o descanço. Amanhã voltarei. Boa noite.
―Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que não conheço. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a minha casa...
―Não morrerá, minha senhora, a não ser que outra doença mais grave sobrevenha. Por emquanto, o mal é este: frio e fome.
―Coitadita!―murmurou compungidamente a irmã de Gustavo―E pensarmos que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade!
―Minha senhora―volveu o medico philosophicamente, encolhendo os hombros―o mundo compõe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se.
E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, e com um
cache-nez
enrodilhado desde o pescoço até á ponta do nariz.
―Que
barbeiro
!―disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da noite, para o homem que á porta o esperava com o lampeão acceso afim de o acompanhar no trajecto até casa―Este
barbeirinho
é o tal das pneumonias!
No dia seguinte voltou. A doente recuperára os sentidos, mas apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria.
A febre consummia-a. Delirava.
Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma confusão que não deixava perceber-lhes o sentido.
O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante, prohibindo que dessem de comer á enferma.
―Então, doutor?―interrogou D. Aurelia.
―Enganei-me, minha senhora―disse o medico―julguei que um caldo de gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que o remedio não está só na cosinha, está tambem na botica.
―É então grave o estado d'essa infeliz?
―Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio bem que tenhamos de nos vêr a contas com uma pneumonia...
―Pobre mulher!
―Se v. ex.
a
quer, e isso parece-me o mais sensato, é pregar com ella ás costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimarães.
―Oh! isso não!―fez D. Aurelia com vehemencia.―Acaso o doutor não terá recursos na sua sciencia para valer a essa desgraçada?
―Oh! minha senhora! não se trata de mim, que estou prompto a soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente evitar a v. ex.
a
os incommodos e cuidados que taes casos sempre acarretam...
―Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha casa. Aqui será tratada com os cuidados que o seu estado requer.
―Faça-se a sua vontade, minha senhora.
D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta.
―Que não falte nada a essa infeliz―disse a irmã de Gustavo―Não lhe façam perguntas indiscretas, não inquiram coisa alguma do seu passado, e façam-lhe comprehender que está entre pessoas amigas que se interessam pela sua saude e que desejam vêl-a restabelecida.
Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo diminuído a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor.
―Está salva―disse o medico a D. Aurelia―Agora o que precisamos é ter muito cuidado com a alimentação.
―Tel-o-hemos.
Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente foi obedecido que, oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescença.
Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o João Mil-homens não lobrigava viva alma na Senhora do Porto.
―É escusado!―dizia o bom do parocho―aquillo foi tudo sonho do nosso Julio. E quem sabe mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na asneira de se metter a caminho com uma noite d'aquellas... Não quiz attender, ainda é dos que dão credito a tolices e invenções da gente rude do povo, e o resultado foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos de dias...
―Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...
―É verdade. Até já lhe deu ordem para receber o
Tomba
, que esteve hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que é mais curioso é que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho.
―Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez vá logo visital-o.
―O que eu não sei é que diabo de intimidade é a do
Tomba
com elle. Um homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal consideração em casa d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por força!
―Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem direito á estima e consideração das pessoas superiores, quando possuem qualidades de honradez e honestidade que os recommendam...
―Sim, sim... Mas não se vê isso muito frequentemente... A não ser que v. ex.
a
queira attribuir ao
Tomba
qualidades unicas e até hoje nunca vistas e apreciadas em remendão portuguez.
―Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do povo, e nada mais.
O padre fez uma carêta significativa.
―Sim, sim, minha senhora... V. ex.
a
é uma santa, acha tudo muito natural porque não conhece o mundo... O
Tomba
é bom homem, não digo que não, mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram o acolhimento de que este se póde gabar...
―Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella é...
―Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraçada sem eira nem beira... Ha tantas por esse mundo!
―Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo é esta a primeira que, em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa.
A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida.
―Minha senhora―disse ella―a nossa doente...
―O que tem? Peorou?
―Não, minha senhora. Até está muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me onde estava, que casa era esta e quem é que a tinha trazido para aqui...
―O que lhe respondeu?
―Cumpri as ordens de v. ex.
a
, disse-lhe que estava em casa de pessoas amigas e que não se affligisse, que não lhe havia de faltar nada... Mas ella quiz por força saber como se chamam os donos da casa... e eu disse-lh'o.
―E então?
―Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á senhora...
―Para me fallar a mim!―disse D. Aurelia―Pois bem; diga-lhe que vou já vêl-a...
E voltando-se para o padre Manoel:
―Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenções que lhe devo... Bem vê, a enferma está melhor, aliás teria pedido antes o seu soccorro espiritual...
―Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor―replicou o padre Manoel gracejando.―Realmente, v. ex.
a
com a sua extrema caridade faz que os infelizes esqueçam que só aos ministros do altar devem confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça que a sua protegida quer fazer-lhe revelações intimas...
―Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel que serei tão escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.
a
o costuma ser...
―Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae confiar-lhe.
―Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei...
―N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar a sua confessada... E se o caso fôr de consciencia, estou bem certo que v. ex.
a
lhe aplacará os escrupulos tão bem ou melhor do que o mais auctorisado mestre de casos...
―O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro para mim―replicou D. Aurelia sorrindo.―Não tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa. Faço o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.
―V. ex.
a
é inquestionavelmente uma santa!―affirmou o padre sahindo.
D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a entrar, a desconhecida fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas.
A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto não lhe permittia analysar as feições da enferma.
―Então, como está?―perguntou a irmã de Gustavo com voz doce e carinhosa.
―Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor―replicou a doente com voz debil. O som d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa. Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe não era estranho.
Voltou-se para a criada e disse-lhe:
―Deixe-nos sós―ordenou.
―Sim, minha senhora―replicou a criada. E sahiu.
―Disseram-me que queria fallar-me...―interrogou D. Aurelia com os olhos fitos na doente―Poderei ser-lhe util em alguma cousa?
―Queria―tornou a doente―que tivesse a bondade de abrir um pouco aquella janella e attentar no meu rosto...
D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, sem poder reconhecel-a.
―Não me conheces, Aurelia?―balbuciou a infeliz por entre lagrimas.―Tens razão! Estou tão mudada que nem meu proprio pae me reconheceria, se fosse vivo e me visse agora!
E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um choro convulso e abafado.
Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel alvoroço de espanto:
―Helena de Noronha! serás tu?!
―Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta e faminta, que vem receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixão!
Estas ultimas palavras foram já proferidas nos braços de D. Aurelia, que estreitava a sua infeliz amiga ao coração, cobrindo-lhe o rosto de beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas.
―Vamos! não chores, minha querida―disse por fim D. Aurelia.―Quiz Deus que viesses a esta casa que é tua e onde encontrarás a mesma amisade sincera de sempre.
―Obrigada... obrigada!―murmurou Helena de Noronha―Peço-te apenas que me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar bemdito, da tua santa caridade!...
―Não, minha amiga, não! Tu viverás, tu acharás ainda n'esta casa, que é tua, no meu coração que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem tão digna.
―Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te... Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque não desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratidão...
D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu carinho.
―O medico disse-me que estás melhor... Agora, o que é indispensavel, é muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento far-se-ha breve e por completo.
Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha.
―Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso que as forças me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu não poderei viver mais que alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das minhas desgraças, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima de compaixão para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia.
―Eras tu a penitente da Senhora do Porto?―interrogou de repente D. Aurelia.
―Era! Como soubeste que eu estava alli?
―Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se é que não possuia a intima certeza...
―Esse alguem era...?
―Julio de Montarroyo...
A enferma soltou um grito.
―Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que era elle... não foi uma allucinação dos meus sentidos?
―Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou antes, adivinhou-te nas trevas da noite...
―Sim... sim... eu vi um homem encostado á hombreira do portico, e quando eu, julgando-me só, elevava áquella imagem, a minha fervorosa prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a d'elle...
―Não te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava.
―Como veio elle para aqui, para esta terra, que não era a d'elle e onde não me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade?
―Trouxe-o para aqui o coração, o desejo ardentissimo de se vêr rodeado de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que tão infeliz e desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos sitios que ella amou. O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella, mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi toda a sua esperança e que é todo o seu martyrio. «É impossivel―disse-me elle um dia―que ella algumas vezes não pense com saudade n'estes sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordação, consola-me a ideia de que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, através a distancia que os separa».
Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mãos o coração, que parecia querer saltar-lhe fóra do peito.
D. Aurelia proseguiu:
―Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a casa que foi de teu pae,―que foi tua,―e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo lentamente, ralado de dôr e de saudade...
―Meu Deus! quantas victimas eu fiz!―bradou Helena de Noronha angustiadamente, estorcendo-se n'uma dôr incomportavel.
―Vamos, minha amiga!―tornou-lhe D. Aurelia, querendo confortal-a.―Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que fizeste áquelle desgraçado. A maior felicidade para elle será o tornar a encontrar-te.
―Ah! não! não!―bradou Helena de Noronha, pondo as mãos supplicante:―Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este mundo, não lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me encontrasse na sua presença... Eu não sou digna d'elle... Deixa-me morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia!
A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de lagrimas.
―Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que a tua vida é ainda precisa, porque pódes ser util a alguem. Julio de Montarroyo ama-te com um amor que só as almas essencialmente delicadas conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto, sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança de poder ainda encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem á Senhora do Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de longe até ao sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manhã que o vigia regressa sem dar novas da penitente, é para elle uma cruel angustia que o approxima da sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida que tão nobre e desinteressadamente se te devotou? Se está na tua mão minorar tamanho soffrimento, se com a tua presença pódes fazer voltar a felicidade ao coração d'aquelle desgraçado e banhar de luz e de alegria os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o não has de fazer?