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Noticias de Portugal

MEMORIAL

Reading edition

De alguns Cardeaes Portuguezes.

Os grandes desejos, que sempre tive de ver conservada a memoria dos Varoens illustres deste Reyno, me obrigou hà annos a escrever o que pude alcançar dos Cardeaes Portugueses. E posto que bem se vé neste Tratado a verdura da primeira idade, com tudo he taõ pouco o que se tem alcançado nesta materia, que me naõ pareceo inconveniente dar com estas lembranças principio às vidas, que em varias occasioens tinha composto, para poderem usar destes notados, os que quiserem seguir semelhante argumento.

§. I.

S. Damaso Summo Pontifice.

Foy S. Damaso Portuguez, filho de Antonio, nasceo em Entre Douro, e Minho, junto a Guimaraens, ou no mesmo povo, como claramente o testificaõ os Breviarios Bracharense, e Eborense antigos. E Joaõ Vaseu varaõ douto, Joaõ de Barros Jurisconsulto nas suas Antiguidades de Entre Douro, e Minho c. 13. fallando de Guimaraens, onde àlem dos Authores, que por si allega, diz que duas legoas de Guimaraens, e huma de Braga estaõ no Couto de Pedralva humas casas, e edificios muito antigos, e arruinados, os quaes tem por tradiçaõ antiquissima os daquelle lugar, que morou alli a mãy de hum Papa, que foy em Roma Santo, e que dalli se foy para là. O que àlem de ter authoridade pela tradiçaõ, concorda com o que lemos em sua vida, que foy enterrado em Roma com sua mãy, e irmaã; as quaes parece deixaraõ sua pátria, e assento natural, por viver em companhia deste Servo de Deos. Porèm invejosos alguns Estrangeiros do lustre, e honra, que a esta Provincia resultava de ser mãy de taõ santo filho, no lo quiseraõ usurpar, para illustrar com elle suas Patrias; como foy o Doutor Pedro Antaõ Beuter, que sem fundamento, por engrandecer a sua, o faz de Barcellona, e os Castelhanos, que contendem ser nascido em Madrid, e allegaõ com Marineo Siculo, o qual ainda parece sentir o contrario; pois tratando no seu quinto livro muy particularmente dos Santos dos Reynos de Castella, e Aragaõ, naõ poem este, sendo taõ notavel; e sómente fallando de Madrid no livro segundo, acaso diz estas palavras: Est præterea felicissimum Sancti Damasi Summi Pontificis meritis, qui Maioritanus fuisse perhibetur a multis. E desta sua opiniaõ naõ dà mais razaõ alguma, nem mostra outros Authores, em que se funde, senaõ huma pedra moderna sem author, nem authoridade. Pelo que se vè claramente, que só suas paixoens particulares os fazẽ desviar da verdade conhecida. Temos àlem de tudo por nós Onufrio Panvino, o qual o nomea sempre Portuguez. E posto que no livro, que compoz de Vitis Pontificum, & Cardinalium, diga que era Egitanense, ultimamente no Chronicon dos Pontifices Romanos diz, que he de Guimaraens. E o Doutor Gonçalo de Ilhescas em sua vida confessa esta verdade, e diz estar tido universalmente por Portuguez. O que parece he bastante para abonar a parte de nosso, em que tanto interessamos. De suas acçoens, e hida a Roma, e o mais que passou, atè ser posto no Pontificado, hà pouca noticia. Onufrio diz, que seu antecessor Liberio o fez Diacono Cardeal; por morte do qual foy promovido ao Pontificado no anno 366. Foy insigne Pontifice, muito erudito nas Escrituras Sagradas, e por isso estimou tanto a S. Hieronymo: condennou no Concilio Constantinopolitano as heresias de Eunomio; e Macedonio: fez outro Concilio em Aquileya: edificou em Roma, junto do Theatro de Pompeo, hum insigne templo ao Martyr S. Lourenço Espanhol com huns sumptuosos Paços, que servem de Chancellaria, e se chamaõ commummente S. Lourenço in Damaso, e o enriqueceo com muitas doaçoens. Edificou outros fóra de Roma na estrada Ardeatina ad Catacumbas; chamado agora S. Sebastiaõ, onde consagrou a Platonia, sepultura que foy algum tempo dos Apostolos S. Pedro, e S. Paulo. Achou muitos corpos de Santos, cujos sepulchros illustrou com elegantes epitafios. Deixou muitas obras escritas em prosa, e verso, principalmente de Virginitate. O que delle exta hoje, saõ cinco Epistolas Decretaes: hum Poema às sepulturas dos Apostolos S. Pedro, e S. Paulo: e as vidas dos Summos Pontifices Romanos atè seu tempo; a qual obra depois supriraõ Anastasio Monacho Bibliothecario da Igreja Romana, e Guilhelmo tambem Bibliothecario, e Pandulfo Pisano, que tambem teve o mesmo officio. Ordenou se cantassem nas Igrejas alternativamente os versos dos Psalmos, e no fim de cada hum o Gloria Patri, &c., posto que jà em algumas Igrejas havia este costume. Governou 17. annos, dous meses, e 26. dias, e cheyo de virtudes passou desta vida em Roma quasi de 80. annos, no de Christo 384. a 11. de Dezembro. Foy sepultado na Basilica, que elle edificou na vida Ardeatina; e depois transferido para a de S. Lourenço, que hoje se chama In Damaso, onde sobre sua sepultura se poz este epitafio, que elle em vida compoz.

Epitatphium Papæ Damasi, quod sibi editit ipse. Qui gradiens pelagi fluctus compressit amaros, Vivere qui præstat morientia semina terræ; Solvere qui potuit Lazaro sua vincula, mortis Post tenebras, fratrem post tertia lumina solis. Ad superos iterum Mariæ donare sorori, Post cineres Damasum saciet, quia surgere credo.

§. II.

O Cardeal D. Payo Galvaõ.

Pelos annos de 1221. floreceo o Cardeal D. Payo Galvaõ Conego Regular do Mosteiro da Costa, junto a Guimarens, donde era natural, e filho de Pedro Galvaõ, e de Dona Maria Paes. Foy Conego Regrante de Santa Ctuz de Coimbra, e Mestre em Theologia pela Universidade de Pariz. Foy Mestre Escola de Guimaraens, e Embaixador de Obediencia a Roma por ElRey D. Sancho I. O Papa Innocencio III. o creou Cardeal Diacono do titulo de Santa Maria in Septisolio no anno de 1206. e no de 1211. foy Cardeal do titulo de Santa Cecilia, e no de 1215. Cardeal Albanense. O Papa Honorio III. o mandou Legado Apostolico com a Crusada à Conquista da Terra Santa no anno de 1219. e no anno de 1225. foy Legado ao Emperador Federico II. Com grande satisfaçaõ foy Legado nas guerras da Terra Santa em tempo de Joaõ Breno Rey de Chipre, e por ser Portuguez lhe pareceo, que em seu tempo se havia de tomar a Terra Santa por huma prophecia, que dizem hà, que hum natural da ultima Espanha a hà de restituir, segundo se vè da Historia de Basilio Joaõ Helora na continuaçaõ da Terra Santa lib. 3. cap. 2. e se confirma com a memoria do livro dos Obitos do Mosteiro de S. Vicente de fóra de Lisboa no primeiro de Junho, onde se acha deste Cardeal expressa mençaõ.

§. III.

O Cardeal D. Joaõ Froes.

O Cardeal D. Joaõ Froes foy natural de Coimbra filho de Alvaro Froes Senhor de Mayorca, e Alhadas no territorio daquella Cidade de D. Elvira Cidiz tambem Senhora de terras. Foy Conego Regular de Santa Cruz de Coimbra, e sendo Bispo Sabinense, e Legado Apostolico consagrou a Igreja do mesmo Mosteiro em 7. de Janeiro de 1228. como consta de hum letreiro da mesma Igreja, e pelo livro dos obitos de Santa Cruz falleceo aos 9. de Agosto de 1236. A noticia deste Cardeal deu o Licenciado George Cardoso a este Reyno, como muitas outras de que està cheyo o seu Agiologio, obra taõ insigne, e de tanto estudo, que se pòde admirar igualmente o zelo, e piedade, com que està composta, e o immenso trabalho, com que seu Author tirou das trevas do esquecimento tantas noticias de gloriosos Santos, com que Deos tem illustrado a este Reyno, e avantejado a muitos outros de Europa.

§. IV.

Joaõ 20. ditto 21. Summo Pontifice.

Joaõ 20. ditto vulgarmente 21. foy natural de Lisboa da Freguezia de S. Juliaõ, filho de Juliaõ, donde tomou o patronimico de Juliaens; posto que nas obras que compoz sómente se intitula Petrus Hispanus. E Onufrio lhe chama tambem Pedro Perez. Foy Arcediago de Vermuim na Sè de Braga, e D. Prior de Guimarẽes apresentado por ElRey D. Afonso III. no anno de 1273. Foy doutissimo Varaõ, particularmente nas Mathematicas, e Medicina; creou o Bispo Cardeal Tusculano Gregorio X. no Concilio Geral Lugdunense no Pentecostes do anno 1274. Teve o nosso Cardeal a estimavel circunstancia de ser creado pelo Papa S. Gregorio X. e ter por companheiros a S. Boaventura, a Fr. Pedro de Tarantasia, que depois foy Papa Innocencio V. a Fr. Visdomino de Visdominis, que alguns dizem que foy eleito Papa, e que morreo no dia da sua eleiçaõ, e Fr. Bertando de S. Martinho Arcebispo de Arles, a quem concedeo Clemente IV. que trouxesse diante de si a Cruz à maneira do Summo Pontifice. Era jà neste tempo Arcebispo de Braga, como o diz Joaõ de Barros Jurisconsulto em hum Prologo de certa obra que compoz, e dedicou ao Cardeal Infante D. Afonso, sendo Arcebispo de Braga, e Commendatario do Mosteiro de Pedroso, no qual lhe mandou fazer, e reformar o Cartorio; e nesta obra, que contèm o numero das Escrituras daquella casa (que saõ muitas, insignes, e antigas) diz fallando em muitos deste Reyno, que foraõ eminentes em virtudes, e letras, estas palavras. Da Cidade de Lisboa foy natural o Papa Joaõ XXI. que primeiro se chamou Mestre Pedro Hispano, e que primeiro foy Physico, e fez Summulas da Logica, que hoje se lèm; e assim outras muitas obras, do qual Pedro Hispano eu achey neste Cartorio huma Epistola, assellada do seu sello, que elle escrevia sendo Cardeal, estando em Perosa aos Officiaes de Braga, sendo tambem eleito Arcebispo de Braga; cuja vida foy pelos annos do Senhor 1270. Atèqui Joaõ de Barros.

O tempo, em que parece succedeo nesta dignidade, devia de ser o primeiro anno de 1274. porque este foy o ultimo do Arcebispo D. Sancho de Braga, a quem elle succedeo.

Por morte de Adriano I. foy eleito Summo Pontifice em Viterbo aos 20. de Setembro de 1276. Teve grande cuidado de prover os beneficios da Igreja em pessoas benemeritas por virtude, e letras. Intentou fazer huma insigne jornada para recuperar, e libertar a Casa Santa; e a posera por obra, se a vida lhe naõ faltara. Mandou fazer huns ricos, e sumptuosos Paços em Viterbo (que entaõ era o assento ordinario das Cortes dos Pontifices) que foraõ a causa de sua morte; porque estando vendo hum quarto, que se tinha acabado de novo, se veyo o edificio abaixo, e o maltratou de maneira, que dahi a seis dias deu o espirito ao Senhor com grandes mostras de devaçaõ a 16. de Mayo de 1277. Viveo outo meses no Pontificado, e cinco dias: naõ creou Cardeaes. Està sepultado na Igreja de S. Lourenço em huma sepultura ordinaria com este Epitafio Joanni Lusitano 21. Pontificatus Max. sui mense 8. Moritur 1277. Deixou escritas muitas obras cheyas de grande erudiçaõ, principalmente em Medicina o livro, que se intitula: Thesaurus pauperum; e outro Canones Medicinæ, e outros alguns; compoz tambem certos Problemas, como os de Aristoteles; e as Summulas, que se lem em muitas Escolas de Filosofia com seu nome. Viveo este Pontifice em tempo delRey D. Afonso III.

§. V.

O Cardeal D. Martinho.

Dom Martinho Bispo de Lisboa foy creado Presbytero Cardeal no anno 1383. aos 13. de Dezembro em Avinhaõ por Clemente VII. que se chamava Papa, da qual parcialidade era este Bispo, como se vè da Chronica delRey D. Joaõ I. p. 1. o qual foy morto pelo povo, por naõ querer mandar repicar os sinos da Sè em favor do Mestre de Aviz em Lisboa. Onufrio no seu livro dos Cardeaes lhe chama Portuguez, ainda naõ falta, quem o tem por Castelhano.

§. VI.

O Cardeal D. Joaõ Afonso de Azambuja.

Dom Joaõ Afonso de Azambuja foy filho de Afonso Esteves Cavalleiro, Reposteiro Mòr delRey D. Pedro, e irmaõ de Joaõ Esteves o Privado. Foy feitura delRey D. Joaõ I. e da sua facçaõ, em quanto duraraõ as guerras de Castella. Em seu principio foy Conego de Evora, e Prior da Igreja de Monçaõ em Entre Douro, e Minho; e depois da Alcaçova de Santarem. ElRey D. Joaõ o mandou a Roma por duas vezes a buscar a sua dispensaçaõ para poder casar: a primeira, sendo ainda Prior da Alcaçova em companhia de D. Joaõ Bispo de Evora; e a segunda, sendo elle jà Bispo de Sylves, juntamente com Joaõ Rodrigues de Sà ao mesmo negocio. E naõ sómente neste particular, porèm em todas as cousas importantes, que naquelles tempos succederaõ, usou sempre ElRey muito de seu Conselho, e pessoa, por ser sogeito de muitas partes, e grande authoridade.

Foy Bispo do Algarve dous annos, do Porto sete, de Coimbra quatro, e ultimamente Arcebispo de Lisboa sete, e meyo: foy creado Cardeal de S. Pedro ad Vincula, do titulo de Santa Eudoxia em Roma por Joaõ XXIII. anno 1411. a 6. de Junho, e lhe ficou o Arcebispado em Encomenda. Fundou em Lisboa sendo Arcebispo, o Mosteiro do Salvador de Religiosas da Ordem de S. Domingos, a quem deixou por seu herdeiro, cujo padroado tem hoje os descendentes de Joaõ Esteves o Privado irmaõ do Cardeal, posto que usaõ appellido de Noronha. Morreo em Bruges, vindo de Roma para Portugal a 23. de Janeiro de 1415. mandou trazer seu corpo ao Mosteiro do Salvador, e nelle està sepultado na Capella Mòr da parte do Evangelho: os Padroeiros apresentaõ hum Vigario, e dous Capellaens, que dizem Missa quotidiana pelo Fundador; na sepultura tem este letreiro: Senhor D. Joaõ Arcebispo de Lisboa, e Cardeal de Roma, Baraõ sabedor, e virtuoso. Na Sè de Evora fazem hum Anniversario aos 24. de Janeiro por este Prelado, o qual lhe mandou dizer Alvaro Dias Pestana Conego da mesma Igreja, seu criado que foy, e feitura sua; no qual lugar do livro dos Anniversarios se refere muita parte desta relaçaõ; e diz que morreo a 22. de Janeiro de 1415. e que foy creado Cardeal a 3. de Junho de 1411.

§. VII.

O Cardeal D. Pedro da Fonseca.

Dom Pedro da Fonseca foy filho de Pedro Rodrigues da Fonseca Alcaide Mòr de Olivença, e de Ines Botelha parenta da Rainha Dona Leonor de Portugal; por occasiaõ do qual parentesco seguio Pedro Rodrigues as partes da Rainha Dona Beatriz, e D. João o I. de Castella, para onde se foy, e là o fez ElRey seu Guarda Mór, deixando elle em Portugal muitas Villas, e lugares, de que era Senhor. Quando se Pedro Rodrigues foy de Portugal, jà levava a Pedro da Fonseca seu filho, ainda que pequeno; e assim posto que se criou em Castella, lhe chama sempre Onufrio Portugalense, e os Authores Castelhanos o confessaõ.

Foy Bispo Portuense, e depois o creou Cardeal Benedicto XI. que de antes se chamava Pedro de Luna, nas Temporas de Setembro, anno 1409. Era jà neste tempo Benedicto declarado por naõ Papa, e deposto pelo Concilio de Pisa, a quem elle naõ quiz obedecer. Durou D. Pedro em sua parcialidade, atè ultimamente ser deposto pelo Concilio de Constancia no anno de 1417. ao qual pertinazmente resistindo, foy desamparado de quasi todos os seus Cardeaes, e D. Pedro da Fonseca se foy para Martinho III. (a quem ordinariamente chamaõ V.) o qual o confirmou na Dignidade em 17. de Março de 1419. e conhecendo bem suas partes, o mandou por seu Legado a Constantinopla, quando o Emperador Manoel lhe mandou dizer por sua Embaixada, que a Igreja Grega queria vir em uniaõ com a Latina. Nesta Legacia se ouve o Cardeal com tanto acordo, e prudencia, que trouxe os Gregos a Italia ao Concilio de Ferrara, que depois se passou para Florença contra os Prelados de Basilea, que com grande instancia pretendiaõ levar os Gregos ao seu Concilio. Morreo depois em Vicovaro a 20. de Agosto de 1422. Està sepultado em Roma em huma Capella junto da grande de Pio IV. que serve de Choro; tem a sepultura cinco Estrellas em aspa, que saõ as armas dos Fonsecas, e este Epitaphio:

Hortus in Hesperiis Præsul dignissimus oris Fonseca è prole Petrus, lux, gloria magni Sanguinis, & patrii superexaltator honoris, Hic jacet: è sacro titulum Michaele recepit Cardineum; cujus sapientia claruit altas In laudes sensati animi, mirabilis iste Doctor erat, divina colens, & amator honesti, Mente pius, recti prudens, moderator & æqui. Venit amara dies, qua diræ syncopa mortis, Heù patrem hunc rapuit, Domini labentibus annis Mille, quadringentis, bis denis, atque duobus, Dum vigena Dies Augusti panderet astra. Spiritus in Cælo tecum sacer Angele vivat.

§. VIII.

O Cardeal D. Antaõ Martins de Chaves.

Dom Antaõ Martins de Chaves sendo Deaõ de Évora, foy eleito Bispo do Porto pela vacancia de D. Vasco Bispo da mesma Igreja, quando foy transferido para a de Evora pelos annos de 1424. atè 25. Foy D. Antaõ insigne Prelado de muita virtude, e sciencia, e grande defensor da liberdade Ecclesiastica, como bem o mostrou em hum Concilio, que o Papa Martinho V. mandou ajuntar em Braga no anno de 1426. para a conservaçaõ da izençaõ dos Ministros Ecclesiasticos, os quaes com a licença, que a guerra traz consigo, andavaõ muy opprimidos dos Capitaens, e Soldados, em quanto as guerras delRey D. Joaõ I. duraraõ com Castella; e para remedio de taõ grandes males se ajuntaraõ dous Concilios neste Reyno, hum em Braga, e outro em Lisboa; e no de Braga, em que se D. Antaõ achou presente, se ordenaraõ muitas cousas tocantes à liberdade Ecclesiastica, e mostrou bem nelle este Prelado o valor, que em si tinha.

Depois no anno de 1434. foy mandado D. Antaõ por ElRey D. Duarte ao Concilio Geral de Basilea em companhia do Conde de Ourem D. Affonso, que depois foy Marquez de Valença. Assistio em Basilea todo o tempo, que durou aquelle Concilio, atè que o Papa Eugenio IV. o revogou, e tranferio para Ferrara para onde veyo, por obedecer aos mandados Apostolicos. Pela qual razaõ, querendo-lhe depois o Pontifice agradecer seus trabalhos, o creou Presbytero Cardeal, estando em Consistorio no Concilio Geral de Florença a 15. de Janeiro de 1439. dando-lhe o titulo de S. Chrysogono.

Viveo depois em Roma alguns annos, aonde edificou, e dotou a hospedaria, e hospital de Santo Antonio dos Portugueses, e lhe deu os Estatutos, que hoje guarda: na qual obra merece certo grande louvor; porque àlem do serviço, que nella fez a Nosso Senhor, applicando-lhe muitas rendas para ajuda, e refugio dos naturaes deste Reyno, que naquellas partes andaõ, foy occasiaõ para que os outros Portugueses, que naquella Corte viveraõ, deixassem suas fazendas à mesma Casa, com o que cada dia se vay augmentando mais, assim as boas obras, que nella se fazem, como a reputaçaõ, e honra da naçaõ Portuguesa; na qual Igreja se mandou sepultar aquelle insigne Doutor, e Santo Varaõ Martinho de Aspilcueta Navarro, o qual naõ sómente nos costumes em vida, mas ainda na morte, quiz mostrar com esta sepultura o amor, que sempre tivera a este Reyno, e a seus naturaes.

No Cartorio do Cabido da Sè de Evora està a copia de huma carta, que o Cabido escreveo a este Cardeal, em que lhe mandava pedir alcançasse do Summo Pontifice hum Breve para o Cabido administrar a fabrica da Igreja, lembrando-lhe que os Bispos faziaõ este officio, como elle vira no tempo que servira esta Sè. E ainda que consta, que o Cardeal impetrou esta graça para o Cabido; naõ parece que teve de todo effeito, e os Prelados ficaraõ com a posse della. Morreo depois o Cardeal em Roma a 11. de Julho de 1447. està sepultado em S. Joaõ de Latraõ, onde estaõ huns orgaõs, que segundo tradiçaõ deu elle àquella Igreja, e tem este Epitafio.

Sepulchrum D. Antonii Cardinalis Portugalensis, qui obiit Romæ die 11. mensis Julii anno a Nativitate Domini MCDXLVII cujus anima requiescat in pace. Amen.

§. IX.

D. Luiz do Amaral

ElRey D. Joaõ I. mandou por seu Embaixador ao Concilio de Basilea D. Luiz de Amaral Bispo de Viseu, o qual se partio deste Reyno no anno de 1433. (que foy o em que ElRey morreo) havendo jà dous, que o Concilio era começado; fez o caminho por Bolonha, aonde entaõ estava o Summo Pontifice, e por occasiaõ da morte delRey D. Joaõ, que o mandava, se deteve naquella Corte, atè chegarem o Conde de Ourem, e o Bispo do Porto D. Antaõ, aos quaes, e a elle mesmo D. Luiz mandava ElRey D. Duarte por seus Embaixadores ao proprio Concilio.

Partiraõ no anno seguinte de 1434. Juntos todos em Basilea, foy tido em grande reputaçaõ entre aquelles Prelados, o Bispo D. Luiz por sua grande virtude, constancia, e inteireza, pela qual razaõ o elegeraõ os Prelados de Basilea por hum dos Embaixadores, que mandaraõ a Grecia ao Emperador de Constantinopla Joaõ Paleologo, que a Manoel seu pay tinha succedido com intençaõ de reduzirem os Gregos à uniaõ da Igreja Catholica Romana, e os trazerem ao Concilio de Basilea. Partio desta Cidade o derradeiro de Fevereiro de 1435. e o foraõ acompanhando atè fóra da Cidade o Conde de Ourem, e o Bispo do Porto com outros Padres do Concilio, como tudo particularmente se refere em hum livro grande escrito de maõ, que chamaõ de varias cousas, que foy da Guardaroupa do Cardeal, e Rey D. Henrique, e hoje està na Livraria do Collegio do Espirito Santo da Companhia de Jesus da Cidade de Evora, em que està escrita esta jornada do Conde de Ourem, e tudo o que em Basilea passou muito ao largo por hum seu criado, que em todo o caminho o acompanhou.

Vindo de Grecia, intentou levar o Concilio de Basilea por diante a despeito do Papa Eugenio IV. com outros Bispos, que em Basilea estavaõ. Para cujo effeito foy mandado outra vez do Concilio ao Emperador de Alemanha Alberto II. no anno de 1438. mas por este tempo andar o Emperador muy occupado na guerra, que queria fazer ao Turco em favor do Despote da Servia, naõ se pode tomar meyo, em que os Concilios viessem a concordia; antes com a morte de Alberto tomaraõ os de Basilea nova licença contra o Papa Eugenio, e ousaraõ a proceder contra elle com censuras; até que ultimamente depois de passados os termos dellas, pronunciaraõ contra elle sentença de privaçaõ da dignidade Papal; e havendo a Sede por vacante, entraraõ em nova eleiçaõ de Pontifice. Mas vendo que dos Prelados, que no Concilio estavaõ, sómente Ludovico Arelatense era Cardeal, acordaraõ de dar-lhe 32. adjuntos para Eleitores 8. de cada naçaõ; entre os quaes na de Espanha entrou o Bispo D. Luiz. Desta eleiçaõ sahio por Papa Amadeo, Duque, que tinha sido de Saboya, o qual tendo-se por legitimo Pontifice, se quiz chamar Felix V. e se coroou neste anno de 1439. Depois creou por vezes Cardeaes, e fez todas as mais cousas, que aos Summos Pontifices convinhaõ. E na quarta creaçaõ, que foy a sua ultima anno 1443. no mez de Abril, creou Presbytero Cardeal ao Bispo D. Luiz. Durou o Scisma atè o anno de 1449. em que o Emperador Federico III. acabou com o Antipapa Felix cedesse de algum direito, que ao Pontificado podia ter. Em gratificaçaõ da qual cessaõ o Papa Eugenio o fez Deaõ dos Cardeaes, e lhe deu muitos outros honrados cargos. E dos 24. Cardeaes, que tinha creado, confirmou sómente tres. Porèm jà a este tempo era deposto, ou morto o Bispo D. Luiz; porque no anno 1444. D. Luiz Coutinho era jà Bispo de Viseu, de modo, que sua morte foy pouco depois de sua creaçaõ.

§. X.

O Cardeal D. Gemes.

O Cardeal D. Gemes foy filho do Infante D. Pedro Regente destes Reynos, e de Dona Isabel sua mulher, filha do Conde de Urgel D. Gemes, e netta delRey D. Afonso III. de Aragaõ. Depois de ser preso na batalha de Alfarrobeira (em que seu pay morreo) se foy para sua tia a Infanta Dona Isabel Duquesa de Borgonha, sendo ainda de muy pouca idade. Vindo depois a Roma houve a perpetua administraçaõ do Arcebispo de Lisboa; e foy creado Cardeal de Santa Maria in Porticu na primeira creaçaõ, que o Papa Calixto fez anno 1456. no primeiro dia de Outubro, em que creou sómente tres; convem a saber dous sobrinhos seus, a este Senhor. Duarte Nunes do Leaõ, e outros homens graves, e de letras, dizem que foy Cardeal do titulo de Santo Eustachio; naõ sey com que fundamento, porque Onufrio sempre lhe chama de Santa Maria in Porticu na particular historia, que dos Cardeaes compoz. Porèm segundo todos os nossos, lhe dão o titulo de Santo Eustachio; podia bem ser que succedesse nelle por morte de algum outro Cardeal mais antigo.

Foy Principe de grande modestia, gravidade, engenho, e erudição, de cujas partes Eneas Sylvio, que depois foy Summo Pontifice Pio II, faz honradissima mençaõ, fallando da primeira creaçaõ do Papa Calixto na sua Europa cap. 58. com estas palavras: Tertius fuit Jacobus de Portugalia Regio sanguine natus, in quo ea modestia, ea gravitas, id acumen ingenij, id studium literarum, is amor virtutis emicuit, ut quamvis juvenis adhuc, tardius tamen opinione omnium ad eam dignitatem ascenderit.

Sendo de idade de 25. annos, e 9. meses, morreo em Florença a 19. de Setembro de 1459. com nome de castissimo; e he tido nesta Cidade em opiniaõ de Santo. Jaz sepultado na Igreja de S. Miniato, que he dos Frades de S. Bento, situada fóra dos muros da Cidade, na qual està o Crucifixo, que se inclinou a S. Joaõ Gualberto Author dos Ermitaens de Valumbrosa. Tem na sepultura este letreiro.

Regia stirps, Jacobus nomen, Lusitana propago Insignis forma, summa pudicitia. Cardineus titulus, morum nitor, optima vita, Ista fuere mihi, mors juvenem rapuit. Vixit Ann. XXV. Mens. XI. Dies X. ob. A.S. MCCCCLIX.

§. XI.

O Cardeal D. George da Costa.

Dom George da Costa foy natural de Alpedrinha lugar do Bispado da Guarda, nasceo no anno de mil quatro centos e sesenta, foy varaõ dotado de grande engenho, virtudes, e altos pensamentos, em seus principios foy Lente de Santo Eloy de Lisboa, donde era Reytor hum tio seu varaõ de grande virtude, e Mestre que foy da Infanta Dona Catharina, filha delRey D. Duarte: e por respeito deste seu tio, e suas boas partes, o admittio a Infanta à sua familia: foy esta Princesa de muita virtude, que nunca quiz casar, nem fez alguma hora mudança nos trajos; teve porèm sempre grande casa, e Capella; e affeiçoando-se muito às letras, e procedimento de D. George, lhe deu algumas Igrejas rendosas; depois das quaes fez com ElRey D. Afonso V. seu irmaõ o appresentasse no Deado de Lisboa, donde servindo-se ElRey delle em cousas de mais momento, o mandou a Roma com negocios de muita importancia, a que elle soube dar taõ bom despacho, que vindo a este Reyno, movido ElRey de sua rara prudencia, e governo, lhe deu grande parte na administraçaõ, e regimento delle, tendo sempre muito credito em seu Conselho, e usando sempre delle em todos os negocios de paz, e guerra, que se offereceraõ em seu tempo. Achou-se com ElRey em Gibraltar, quando anno de 1464. se vio com ElRey D. Henrique o IV. de Castella; e em suas mãos juraraõ ambos os Reys de guardarem bem, e como deviaõ os acordos, que no proprio lugar entre si fizeraõ; no qual tempo era jà D. George Bispo de Evora; posto que poucos meses depois, e quasi no mesmo anno foy transferido para o Arcebispado de Lisboa, na qual dignidade fez muitos serviços a ElRey D. Afonso, o qual o enviou a Castella por seu Embaixador, quando ElRey D. Henrique lhe pedio, que lhe mandasse seus Embaixadores, para tratar os casamentos, que pretendia, convèm a saber entre a Infanta Dona Isabel sua irmãa com o mesmo Rey D. Afonso, e a Princesa Dona Joanna sua filha com o Principe D. Joaõ. A os contratos dos quaes desposorios jà tinha sido presente, e padrinho em Gibraltar. Foy a esta Embaixada com todo o estado, e acompanhamento conveniente à pessoa, e dignidade, que representava; posto que naõ teve este negocio effeito. Depois na empreza, que ElRey D. Afonso commetteo da conquista de Castella, o acompanhou sempre com muitas gentes à sua custa, e com sua pessoa.

Com estes serviços, e partes, crescendo cada dia mais em authoridade com ElRey D. Afonso, foy à sua instancia creado Presbytero Cardeal do titulo dos Santos Marcellino, e Pedro; por Sixto IV. no primeiro de Janeiro de 1476. Com a grandeza destas dignidades, e com a valia, que com ElRey tinha, era tanta sua authoridade no governo do Reyno, que veyo a ser pouco grato ao Principe D. Joaõ, como homem, que naõ quiz ser nunca governado por outrem. Pela qual razaõ se lhe mostrou contrario, e lhe chegou a dizer palavras taõ asperas, que por viver seguro, e sem molestia, se foy occultamente para Roma; pouco depois da chegada delRey D. Affonso de França.

Em Roma foy muy aceito ao Papa Sixto IV. e lhe deu o Arcebispado de Braga, que teve juntamente com o de Lisboa, atè que no anno de 1487. o renunciou em seu irmão uterino D. George. Valeu tambem muito com Innocencio VI. que a Sixto succedeo, e de Presbytero Cardeal o fez Bispo Cardeal Albano.

Era já neste tempo taõ grande sua authoridade no Collegio dos Cardeaes, que morto Innocencio, esteve muy perto de o elegerem em Summo Pontifice; porque dividindose todo o Collegio em duas parcialidades, huma dellas seguia a Ascanio Esforçia, que procurava o Pontificado para Rodrigo de Borja Vicecancellario, e a outra seguia ao Cardeal de S. Pedro, que declarava querer fazer Pontifice ao nosso D. George. Porém posto que os que seguiaõ esta parte, fossem os mais antigos, e graves do Collegio; a outra, que tinha grande poder, e muitas Personages levaraõ ao fim seu designio, creando Pontifice ao Vice-Chanceller, que se chamou Alexandre VI. o qual lhe teve sempre grande respeito, e o fez Bispo Cardeal Tusculano, e depois Portuense, e de Santa Rufina.

Em vida deste Papa lhe mandou pedir muito ElRey D. Manoel, que a D. Joaõ II. havia succedido, se viesse para este Reyno, para lhe ajudar a administrar o governo delle; conhecendo bem, que pela muita prudencia, e experiencia, que nelle havia dos negocios daquelle tempo, e das cousas passadas, lhe seria de grande proveito tello junto consigo. E tanto fez com elle por cartas, e mensageiros, que lhe prometteo de vir. Pelo que mandou ElRey a Roma Pedro Correa Fidalgo de sua casa, para o acompanhar no caminho, e negociar com o Papa algumas cousas por meyo do Cardeal. Mas depois de Pedro Correa ser em Roma, achou jà a D. George mudado do proposito, dando por escusa sua idade, e mà disposiçaõ, e sobre tudo naõ lhe querer o Papa para isso dar licença, e o querer ter apar de si, pela necessidade que tinha de seu conselho, e ajuda nas cousas, que lhe compriaõ. E assim encomendando-lhe muito Pedro Correa os negocios, que levava, se tornou para o Reyno. Eraõ estes negocios, que ElRey lhe mandava encommendar as dispensaçoens do voto de castidade, que faziaõ os Commendadores da Ordem de Christo, e de S. Bento de Aviz, o qual o Cardeal despachou facilmente com o Papa, e as Bullas mandou depois a ElRey, cousa que elle estimou muito, porque atè entaõ senaõ pode nunca alcançar; posto que muitos de seus antecessores fizeraõ com os Summos Pontifices grandes instancias nesta materia.

Com os grandes redditos destas Prelasias, e de outras muitas, que teve em varias Provincias de Espanha, e beneficios, que provia de todo Portugal, deixou a todos seus parentes ricos, e em grandes dignidades, a outro irmaõ seu, chamado D. Martinho renunciou o Arcebispado de Lisboa; e do mesmo modo proveo em outros ricos beneficios muitos criados, e amigos seus, e casou suas irmaãs com Fidalgos muy illustres, e principaes, e seus irmaõs da mesma maneira. E em quanto a vida lhe durou em lembrança do que devia à Infanta Dona Catharina, trouxe por divisa humas rodas de navalhas. As mesmas vi esculpidas numa antiga alampada de prata, que inda alcancey na Capella Mor da Sé de Evora, a qual o Cardeal mandou fazer sendo Bispo desta Igreja.

Tambem tenho huma medalha grande, em que està esculpido ao natural com hum letreiro à roda, que diz: Georgius Cardinalis Portugalen. George Cardeal de Portugal: e da outra parte tem a imagem de huma mulher com hum Anjo defronte, que numa maõ tem hum livro, e a outra aponta para o Ceo com o letreiro: Theologia, donde parece que esta foy a sua empresa, denotando o grande affecto que tinha à sciencia da Theologia, e contemplaçaõ das cousas divinas.

Morreo em Roma a 19. de Setembro de 1508. sendo de idade de 102. annos; jaz sepultado na Igreja de Nossa Senhora de Populo na Capella de Santa Catharina; dentro da qual no alto da parede està hum vulto de marmore com este letreiro.

Georgius Episcopus Albanens. Card. Ulixp. dum se mortalem animo volvit, vivens sibi posuit.

Abaixo deste vulto, e letreiro està huma caixa grande de marmore com estas letras.

Georgius Lusitan. Episc. Portuens. S. R. E. Card. Ulixp. virtutis doctrinæque ergo in Regiam adscitus, ac multis domi, forisque præclaris facinoribus editis, ad Regnique procurationem provectus à Xisto IV. in Senatum adlectus, Romamque adscitus, magnam ingenii, pietatis, prudentiæque laudem adeptus sub Julio II. Pontifice Maxim. quem unicè dilexit, & observavit, annum agens secundum supra centesimum obiit M. D. VIII.

§. XII.

O Cardeal D. Affonso.

O Cardeal D. Affonso foy filho delRey D. Manoel. Sendo de idade de 8. annos, lhe mandou o Papa Leaõ X. o Capello de Diacono Cardeal do Titulo de Santa Luzia, e juntamente o fez Protonotario Apostolico, e Bispo Targitano; foy creado em Roma a 27. de Junho de 1517.

Depois teve o Titulo de Cardeal de S. Braz, e ultimamente de S. Joaõ, e S. Paulo. Foy neste Reyno Bispo de Viseu, Arcebispo de Lisboa, Abbade de Alcobaça, e perpetuo administrador do Bispado de Evora; cujo governo teve em seu nome D. Fr. Henrique Frade Franciscano Bispo de Ceita Primaz de Africa, como se elle intitulava.

Em todas as Prelasias que teve, se houve com grande governo, e usou de homens eminentes em todas as materias, e em seu serviço. Foy Principe de grande virtude, e amou muito as letras, e seus professores, de que elle naõ alcançou pequena parte. Morreo em Lisboa a 21. de Abril de 1540. e està sepultado no Real Mosteiro de Belem, na Capella que chamaõ do Cardeal, e tem este Epitafio.

Heu quot in Alfonso viduantur honore Tiara! Plorat Ullisipo, Roma, rubensque toga! Visenses pueri, quos ipse side erudiebat, Solaque congaudent æthera cive suo.

§. XIII.

O Cardeal D. Miguel da Sylva.

Dom Miguel da Sylva foy filho de Diogo da Sylva de Meneses, e de Dona Maria de Ayala filha de Diogo de Ferreira, Senhor das Ilhas de Lançaròte, Forte ventura, e Gomeira nas Canarias. Era Diogo da Sylva Ayo delRey D. Manoel, sendo ainda Duque de Beja, e assim depois que succedeo no Reyno, em gratificação de seus serviços, o fez Conde de Portalegre, Senhor de Gouvea, Celorico, e S. Romaõ, e muitas outras Villas, e Lugares, e lhe deu o officio de Mordomo Mòr, e o fez seu Veador da Fazenda, e Escrivaõ da Puridade. D. Miguel seu filho sendo moço, o mandou ElRey estudar a Pariz, aonde neste tempo costumavaõ hir aprender todos os Nobres deste Reyno; para o qual effeito sustentavaõ os nossos Reys hum Collegio naquella Universidade, em que todos estudavaõ. Sahio D. Miguel muy douto na sciencia, que aprendia, e muito mais nas humanidades, e elegancia da lingua latina. Pelo que naõ se contentando de dar mostras das flores de seus estudos somente em Pariz, se foy a Bolonha, e depois a Roma no anno de 1530. onde communicou todos os homens eminentes daquelle tempo; dos quaes sendo recebido com grande applauso, os deixou taõ affeiçoados à sua agradavel benevolencia, que lhe ficaraõ chamando em Roma Il. nostro Micheleto. Aqui se encontrou com Hieronymo Osorio (Bispo, que depois foy do Algarve) e como combinavaõ ambos na erudiçaõ, e elegancia latina, se foraõ a Veneza, por saberem, que naquella Cidade se tinhaõ junto muitos engenhos raros daquelle tempo sobre a correcção de Plinio, e chegados a ella, dizem que deu D. Miguel grandes mostras da viveza de seu engenho; porque ordinariamente emendava dous, e tres lugares, em quanto os outros emendavaõ hum. Foy álem disto insigne Poeta latino, e tinha tal graça nesta faculdade, que disseraõ por elle em Pariz, que assim como Hieronymo Osorio levava a ventagem a todos em descrever qualquer cousa na prosa, D. Miguel a naõ concedia a ninguem em fazer o mesmo no verso.

Acabados os estudos, vindo a este Reyno, assim pela valia de seu pay, como por seus proprios merecimentos, o fez ElRey D. Joaõ III. do seu Conselho, e lhe deu a Abbadia de S. Tirso em Riba de Ave, com outros muitos beneficios; e ultimamente o presentou no Bispado de Viseu, e o mandou por seu Embaixador a Roma, onde esteve muitos annos. E tornando a este Reyno, lhe deu ElRey o mesmo officio de Escrivaõ da Puridade, que seu pay tivera.

Movido neste tempo o Summo Pontifice Paulo III. das partes, letras, e virtudes, que em D. Miguel conheceo, o quiz fazer Cardeal; porèm ElRey D. Joaõ III. por alguns respeitos de estado, o naõ consentio nunca; de modo que posto que D. Miguel aceitou a mercè do Papa sendo creado Presbytero Cardeal da Basilica dos doze Apostolos a 5. de Setembro de 1539. na 7. creaçaõ, com tudo naõ se publicou por entaõ, atè ver se em alguma maneira consentia ElRey aceitasse esta dignidade. Porèm nunca se pode alcançar delle esta licença. Pelo q́ desenganado D. Miguel, se partio escondidamente para Roma o anno de 1541. naõ dando a ElRey os papeis, que como Escrivaõ da Puridade em seu poder tinha, por fazer com mayor segredo sua jornada. ElRey tanto que soube della, teve grande paixaõ, e parecendo-lhe, que sempre D. Miguel defiriria ao que elle mandasse, o enviou chamar por cartas suas, em que lhe dizia se viesse logo para elle sem detença alguma, e por lhe tirar o receyo, que podia ter, o segurou por hum seguro Real, que para isso lhe mandou. Mas D. Miguel, que estava bem inteirado do desgosto, que ElRey tomara com sua ida, e quanto sempre lhe repugnara aceitar elle o Capello, naõ se atreveo a apparecer outra vez ante elle. Do que ElRey se houve por taõ desservido, que logo o desnaturalizou de seus Reynos, e o privou de todas as mercès, que lhe tinha feitas por huma carta sua, dada em Lisboa a 26. de Janeiro de 1542. e nesta desgraça delRey ficou sempre.

Chegado a Roma, foy logo publicada a sua Creaçaõ, que atè entaõ estivera secreta, e o festejou grandemente o Summo Pontifice Paulo III. e todo o Collegio dos Cardeaes, com quem foy sempre muy grande sua authoridade, por as raras partes, que nelle havia, com que levava a benevolencia de todos; e tal era a opiniaõ com que estava tido na Corte Romana (ou por melhor dizer) em toda Italia, que naõ achou o Conde Balthasar Castilhoni, a quem com mais razaõ podesse dedicar o seu livro do Perfeito Cortesaõ, que a elle; e assim o escolheo entre todos os Varoens famosos (de que aquelle tempo foy taõ abundante) por elle representar mais ao vivo todas as perfeiçoens, que no verdadeiro Cortesaõ imaginava.

Depois disto foy muitos annos Legado de Ravena; huma das principaes Legacias do Estado Ecclesiastico, e era tal a ordem, e expediencia, que dava aos negocios, que ainda hoje anda em proverbio na Curia a audiencia de Viseu. Depois do titulo dos doze Apostolos, com que foy criado, teve o de Santa Praxedes, e Julio III, o fez Presbytero Cardeal de Santa Maria Trans Tiberim, junto da qual Igreja viveo nuns sumptuosos Paços, que ainda hoje conservaõ seu nome. Teve votos para o Summo Pontificado. Morreo em Roma a 5. de Junho de 1556. e está sepultado na mesma Igreja de seu Titulo.

§. XIV.

O Cardeal D. Henrique.

O Infante D. Henrique foy filho delRey D. Manoel, e da Rainha Dona Maria, sendo de 14. annos se fez Clerigo, e o primeiro Beneficio que teve, foy o Priorado de Santa Cruz de Coimbra. Depois no anno de 1522. lhe deraõ o Arcebispado de Braga, que possuhio com outros Beneficios, até que por morte de seu irmaõ o Infante D. Afonso foy feito Bispo de Evora; creando no mesmo anno o Papa Paulo III. esta Igreja em Arcebispado Metropoli, de Sylves, e Ceita, e depois se lhe acrescentou Elvas. Foy creado Cardeal do Titulo dos Santos quatro Coroados pelo Papa Paulo III. em Roma na undecima creaçaõ a 16. de Dezembro de 1545. Foy Legado à Latere neste Reyno, em quanto viveo. Teve do mesmo modo o Officio de Inquisidor Mòr, e levantou quatro Casas do Santo Officio; convem a saber, Lisboa, Evora, Coimbra, e Goa. Reformou as Religioens neste Reyno, e fez muitos Mosteiros, e Casas de Oraçaõ; entre os quaes foy celebre a Universidade, e o Collegio do Espirito Santo da Cidade de Evora. Por a infelice morte delRey D. Sebastiaõ succedeo na Coroa deste Reyno, anno 1578. e morreo em Almeirim no de 1580 no derradeiro de Janeiro, onde esteve seu corpo depositado atè o de 1582. em que ElRey D. Filippe de Castella o mandou levar a Belèm, onde està sepultado, e tem o seguinte Epitafio.

Hic jacet Henricus gemino diademate clarus, Quod Patrio sceptro Purpura juncta fuit. Conditur & Regnum pariter cum Rege sepultum, Ut foret imperii vitaque, morsque sui.

§. XV.

O Cardeal D. Verissimo de Lancastro.

Foy filho de D. Luiz de Lancastro, Comendador Mòr de Aviz, e de Dona Filippa de Vilhena, filha de Manoel de Vasconcellos Regedor da Justiça. Nasceo em Lisboa, e foy bautizado na Igreja Parroquial de Santos a 9. de Julho de 1615. Foy Doutor em Canones pela Universidade de Coimbra. Foy Conego, e Thesoureiro Mòr da Sè de Evora, Deputado, e Promotor do Santo Officio da Inquisiçaõ da mesma Cidade, lugar de que tomou posse em 19. de Novembro de 1644. Foy Inquisidor da mesma Inquisiçaõ, e tomou posse em 16. de Março de 1649. donde veyo para lnquisidor de Lisboa, e tomou posse em 7. de Julho de 1660. Deputado do Concelho Geral, de que tomou posse em o primeiro de Abril de 1664. Foy Sumilher da Cortina delRey D.Pedro II. e por elle nomeado Bispo de Lamego, que naõ aceitou. Foy Arcebispo, e Senhor de Braga, Primaz de Espanha. Tomou posse por Procurador em 8. de Julho de 1671. Entrou naquella Cidade em 3. de Novembro do mesmo anno. Visitou a sua Diocesi com muita diligencia, e caridade. Administrou o Santo Sacramento da Confirmaçaõ a innumeraveis pessoas de hum, e outro Sexo. Residio na sua Igreja atè 27. de Março de 1677. em que veyo para Lisboa, e foy provido no lugar de Inquisidor Geral, deixando a Cidade de Braga muito sentida de perder hum taõ benigno Senhor. No lugar de Inquisidor Geral logrou occasioens de mostrar alèm do zelo da Fè, todas as virtudes moraes, de que foy dotado. Em 12. de Setembro de 1686. o creou o Santo Pontifice Innocencio XI. Cardeal da Santa Igreja Romana. A eminencia da Dignidade nunca dantes vista em Portugal dos que entaõ viviaõ, lhe naõ diminuhio a sua natural affabilidade, pela qual era amado de todos. Continuou em dar Ordens todos os Domingos na sua Capella a todos, os que tinhaõ privilegios para tomalas extra tempora com grande cõmodidade dos ordinandos, naõ só deste Reyno, mas dos vesinhos, donde vinhaõ muitos a tomar Ordens a Lisboa, que elle dava a todos com tanto gosto, que dizia, que nisso naõ fazia favor, mas que o recebia. Ainda sendo muito velho se levantava muito cedo para estudar na sua copiosa Livraria, e assim era taõ versado nas materias Canonicas, que nenhum ponto se lhe allegava Author algum, que elle naõ accrescentasse a allegaçaõ com muitos outros, sem que a applicaçaõ lhe fizesse damno à saude, que conservou robusta atè a ultima idade, em que assaltado de hum violento achaque se rendeo à cama, e em poucos dias de doença deu muitos exemplos de piedade, e de todas as virtudes. Achava-se naquelle tempo em Lisboa o Reverendissimo Padre Fr. Joaõ de Alvim Ministro Geral de toda a Ordem dos Menores, Successor de S. Francisco, que tinha vindo a vizitar as Provincias deste Reyno, Varaõ prudentissimo, e de santa vida, e foy significar ao Cardeal o quanto era sensivel para toda a sua Religiaõ, o estado, em que se achava sua Eminencia, e o Cardeal o recebeo com as expressoens de humildade christãa, que pudera fazer o menor subdito daquelle grande Prelado. Conservando sempre a constancia do animo, recebeo todos os ultimos Sacramentos com tal piedade, que edificou a toda a Corte. Em todas as Casas Religiosas se faziaõ Preces pela vida daquelle Principe, que excedeo a todos no amor às Sagradas Religioens; mas se lhe naõ alcançaraõ huma vida mais dilatada, conseguiraõ-lhe huma morte santa, pela qual entregou a alma nas mãos do seu Creador em 13. de Dezembro de 1692. Aberto o seu Testamento se achou cheyo de disposiçoens pias, e prudentes: entre outras mandou, que se lhe fizesse huma Capella no Adro da Igreja de S. Pedro de Alcantara de Lisboa com outenta mil reis de renda perpetua para a fabrica della, e que nella se lhe dissessem quatro Missas quotidianas perpetuas, deixando por cada huma a esmolla de quarenta mil reis cada anno. Foy a sua morte sentida em todo o Reyno pela muitas, e singulares virtudes, com que se tinha feito amavel a todo elle. Mandouse sepultar no Atrio da Igreja de S. Pedro de Alcantara do Mosteiro dos Capuchos da Santa Provincia da Arrabida, da qual tinha sido grande bemfeitor, adonde o seu corpo foy levado por entre duas alas de Religiosos de todas as Ordens, que ha em Lisboa, que principiando na porta do Palacio da Inquisiçaõ, acabavaõ na dita Igreja, tendo todos vèlas acesas. Ao mez se lhe fez hum solennissimo officio na mesma Igreja, funebre, mas ricamente adornada, com elevadissimo Mausoleo cheyo de luzes. Prègou naquellas honras o Illustrissimo Bispo de Pernambuco D. Fr. Francisco de Lima da Ordem de N. Senhora do Monte do Carmo com a sua costumada elegancia, e erudiçaõ.

§. XVI.

O Cardeal Luiz de Souza.

Foy filho de Diogo Lopes de Sousa, segundo Conde de Miranda, Governador do Porto, Presidente do Concelho da Fazenda, do Concelho de Estado de Portugal na Corte de Madrid, e da Condessa Dona Leonor de Mendoça. Nasceo na Cidade do Porto em 16. de Outubro de 1630. No de 1639. foy com a Condessa sua Mãy para Madrid, adonde desde o anno antecedente estava o Conde seu Pay, que alli faleceo em 27. de Dezembro de 1640. vinte, e sete dias depois de se ter acclamado em Lisboa ElRey D. Joaõ IV. Neste tempo jà Luiz de Sousa era Menino da Rainha no Paço de Castella, aonde continuou atè o anno de 1646. em que em companhia da Condessa viuva, com permissaõ delRey D. Felippe IV. voltou a Portugal. Em Lisboa estudou Latinidades no Collegio de Santo Antaõ da Companhia de Jesus. Declarouse logo por elle o favor do Principe D. Theodozio, augmentado pelo amor dos Livros, em que era muito semelhante ao Principe, Luiz de Sousa, que tendo só dez annos, começou a diligencia de juntar Livros, em que perseverou por toda a vida, comprando naquella tenra idade os primeiros trez, que ainda que de materias agradaveis aos annos pueriz, foraõ principio da copiosissima, selecta, e celebrada Livraria de Luiz de Sousa, que para ajuntalla, fez huma larga peregrinaçaõ. Naõ tendo completos vinte, e hum annos, partio para Roma em 8. de Fevereiro de 1651. no Pontificado do Papa Innocencio X. No anno de 1653. lhe chegou a funesta noticia da morte do seu adorado Principe D. Theodozio, succedida em Alcantara de Lisboa a 15. de Mayo daquelle anno, a qual fez nelle tanta impressaõ, que teve grandes impulsos de entrar na Cartuxa, para se retirar totalmente do Mundo, e morrer para elle, seguindo do modo, que lhe era licito, ao Principe defunto. Mas a Divina Providencia, que destinava Luiz de Sousa para Principe da Igreja, lhe tirou os pensamentos daquella estreita clausura, e a que sempre conservou hum grande amor, pelo qual tinha resoluto nos ultimos annos de sua vida doar à Cartuxa de Laveiras, no Termo de Lisboa, a sua grande Livraria, e lhe começou a fabricar huma capacissima Sala para a collocar, a qual ficou imperfeita, e a meditada doaçaõ sem effeito. Testemunhou publicamente o sentimento da morte do Principe D. Theodosio com erigir em Roma hum Monumento perene à sua memoria, com esta inscripçaõ.

TUMULUS Serenissimi Principis Lusitania THEODOS II Ornatus virtutibus, oppletus lacrimis Illius inmorttalitati A LUDUVICO DE SOUSA Comitis Mirandæ filio Uno ex intimis Aulæ Erectus.

No qual em elegantes versos latinos choraõ aquella lamentavel perda as quatro partes do Mundo, a que se estende o Imperio Portuguez. Em Roma estudou Luiz de Sousa os Sagrados Canones, em que se graduou Doutor. Ainda se achava naquella Corte ao tempo da morte de Innocencio X. a 3. de Janeiro de 1655, e no da eleiçaõ de seu successor Alexandre VII. exaltado ao Summo Pontificado em 7. de Abril do mesmo anno. Do qual obteve o Deado da Sè do Porto, com o qual sahio de Roma em Setembro do dito anno, e depois de visitar a Santa Casa do Loreto, passou a Veneza, e dahi a Alemanha, Flandes, Olanda, e Pariz. Restituido a Portugal em 26. de Setembro do anno seguinte de 1655. foy Governador do Bispado do Porto, e Governador da mesma Cidade, e da sua Relaçaõ, occupando estes tres lugares com admiravel inteireza, prudencia, e desinteresse. Em 1669. o nomeou ElRey D. Pedro o II, (sendo ainda Principe Regente, e Governador deste Reyno) para a dignidade de Capellaõ Mòr, e o Papa Clemente X. o fez Bispo de Bona. Sagrouse na Capella Real em 14. de Junho de 1671. Em 17. de Setembro de 1675. foy nomeado Arcebispo de Lisboa. Tomou posse em 22. de Janeiro de 1676. Fez magnificas obras no Palacio Archiepiscopal. Alcançou para Lisboa o Jubileo do Laus perenne, e hia visitar todas as Igrejas, em que elle se achava por todo o circulo do anno. Duas vezes foy Provedor da Mizericordia, huma no anno de 1674. e outra no de 1683. em ambas fez aquelle officio com grande assistencia, piedade, e generosidade. Reedificou o Templo de Santa Catharina de Ribamar, de Religiosos da Santa Provincia da Arrabida, com todo o primor da Architectura. No Real Mosteiro da Batalha na Capella de S. Miguel fez o sumptuoso Mausolèo para que fez trasladar em 24. de Mayo de 1691. os ossos do Conde seu Pay, como testemunha a inscripçaõ, cuja elegancia compete com o polido da obra, como sahida da penna do Reverendissimo Padre D. Rafael Bluteau, Clerigo Regular da Divina Providencia, Academico da Academia Real, Varaõ bem conhecido no Mundo pela sua celebre, e admiravel obra do Vocabulario Portuguez em dez tomos de folha, e outras muitas obras de grandissima estimaçaõ, que imprimio, e deixou manuscriptas em Latim, e Portuguez.

Em 30 de Agosto de 1679. foy feito do Concelho de Estado. Foy creado Cardeal da Santa Igreja Romana, pelo Papa Innocencio XII. em 21. de Junho de 1697. Trouxe-lhe o Barrete D. Jeronymo Colona, que por isto teve de pensaõ duzentos mil reis no Bispado de Miranda. E perguntando-lhe o Senhor Rey D. Pedro II. se havia continuar no Officio de Capellaõ Mór, sendo Cardeal, elle lhe respondeo, que se a Purpura lhe houvesse de ser embaraço para servir a Sua Magestade naquelle Officio, por nenhum caso a aceitaria. Morreo piamente em 4. de Janeiro de 1702. Mandouse sepultar na Capella de Nossa Senhora da Piedade da Terra Solta na Claustra da sua Sè, para a qual tinha Tribuna do seu Palacio, no pavimento da Capella, em huma sepultura raza, em cuja campa, que he de pedra negra, mandou esculpir por Epitafio estas palavras: Sub tuum præsidium. Fizeraõ-se-lhe as honras na sua Sè, com a magnificencia devida a tal Principe: prégou nellas o Reverendissimo Padre Fr. Rodrigo de Lancastro, da Ordem dos Pregadores, hoje do Concelho de Sua Magestade, e do Geral do Santo Officio, por suas virtudes, letras, e alto Sangue, acredor das mayores dignidades. Trataõ do Cardeal Luiz de Sousa, Manoel de Sousa Moreira no Theatro Genealogico da Casa de Sousa. O qual he huma excellente obra, e em que se està vendo a boa eleiçaõ do Cardeal Sousa, porque a mandou fazer por hum dos maes discretos homens de seu tempo, que era Secretario do Padroado Real, e depois foy Abbade das Chans, e ultimamente da Igreja de Sambade, adonde morreo sendo Academico da Academia Real, na Provincia de Traz os Montes. Mandou o Cardeal imprimir esta excellente obra na Impressaõ Real de Pariz, no anno de 1694. em folha de grande papel, a qual enche mais de mil paginas, he livro muito adornado de estampas, com os retratos de todos os Senhores da Casa Sousa, desde o seu principio até aquelle anno, tudo feito com tal primor, que pareceo querer competir a arte Typografica com a elegancia do estylo, sacrificando-se huma, e outra a elevaçaõ do Assumpto daquella obra. O Padre Daniel Papebrochio da Companhia de Jesus, lhe dedicou o quinto tomo da grande obra intitulada: Acta Sanctorum Maij, e a Dedicatoria he hum elegante Panegyrico do seu Patrono; nella celebra tambem a sua famosa Livraria; à qual o sobredito Padre D. Rafael Bluteau dedicou o seu segundo tomo das suas Primicias Evangelicas, e he a Dedicatoria naõ só hum Panegyrico daquella Livraria; mas hum grande theatro de toda a erudiçaõ. Faz tambem honorifica memoria de Luiz de Sousa Jorge Cardozo, no terceiro tomo do Agiologio Lusitano, no commentario de 15. de Mayo letra G. pag. 283. tratando do Principe D. Theodosio; e este Author accrescentou, e enriqueceo muito a dita Livraria do Cardeal, com os preciosos Manuscriptos, que lhe deixou, os quaes tinha junto com grande trabalho, despeza, e desvelo em trinta annos: em ordem à composiçaõ da nunca dignamente louvada obra do Agiologio Lusitano de tanta gloria de Deos, e honra deste Reyno, de que deixou impressos tres tomos dos seis primeiros meses do anno, e nos taes Manuscritos a materia disposta para os outros seis.

§. XVII.

O Cardeal Nuno da Cunha de Ataide.

He filho de Luiz da Cunha de Ataide, Senhor de Povolide; Castro Verde, e Paradella, e de sua mulher Dona Guiomar de Lancastro, filha de D. Alvaro de Abranches, do Conselho de Estado, e de Dona Maria de Lancastro. Nasceo em Lisboa no anno de 1664. em 8. de Dezembro, (e naõ em 7. de Agosto, como erradamente trazem alguns livros impressos em Roma.) Foy bautizado na Igreja de S. Jozè, em cuja Parochia està o Palacio de sua Casa, pelo Senhor D. Verissimo de Lancastro, Deputado entaõ do Conselho Geral do Santo Officio, e depois Arcebispo de Braga, Primaz das Espanhas, Inquisidor Geral de Portugal, e Cardeal da Santa Igreja Romana. Foy seu Padrinho do Bautismo Luiz de Vasconcellos, e Sousa, Conde de Castello Melhor, do Conselho de Estado, Reposteiro Mòr, e Escrivaõ da Puridade delRey D. Afonso VI. e Madrinha, a Senhora Dona Elvira Maria de Vilhena, Condessa de Pontevel.

Estudou Latinidades em Lisboa com insignes Mestres. Estudou Filosofia na mesma Cidade, na Aula do Mosteiro da Santissima Trindade, e em Coimbra tomou o grào de Mestre em Artes. Sendo naquella Universidade Porcionista do Collegio de S. Paulo, estudou os Sagrados Canones, em que fez exame privado. Foy Conego da Sè da mesma Cidade. Em moço acompanhou a seu Tio Paterno Nuno da Cunha, Conde de Pontevel, na jornada, que fez a França, para dahi passar a Inglaterra, para cuja Corte hia por Embaixador extraordinario. He comendador de Santa Martha de Bornes da Ordem de Christo.

Foy Deputado da Inquisiçaõ de Coimbra, de que tomou posse em 2. de Novembro de 1691. e em 29. de Julho do anno de 1692. entrou a ser Promotor da mesma Inquisiçaõ; em 8. de Abril de 1692. tomou posse no lugar de Deputado da Inquisiçaõ de Lisboa; desta foy tambem Inquisidor, e tomou posse do lugar em 5. de Abril de 1700. Foy Deputado da Junta dos Tres Estados. Sendo nomeado Bispo de Elvas, naõ aceitou. O Senhor Rey D. Pedro II. o nomeou Capellaõ Mòr em 14. de Setembro de 1704. o Papa Clemente XI. lhe deu o Titulo de Bispo de Targa. He Inquisidor Geral nestes Reynos, e suas Conquistas, lugar de que tomou posse em 6. de Outubro de 1707. He do Concelho de Estado, e Cardeal da Santa Igreja Romana, creado em 18. de Mayo de 1712. pelo mesmo Papa Clemente XI. por cuja morte partio de Lisboa para Roma ao Conclave em 9. de Mayo de 1712. O Papa Innocencio XIII. que entaõ foy eleito lhe deu o Chapeo em 10. de Junho do mesmo anno, com o Titulo de Santa Anastasia, de que tomou posse em 21. de Julho do mesmo anno, e o fez das Congregaçoens de Bispos, e Regulares, de Propaganda Fide, dos Ritos, e da Consistorial. Esteve em Roma com grande credito da Naçaõ Portuguesa, assim pelas suas letras, e piedade, como pela sua magnificencia. Restaurou a Basilica de Santa Anastasia, fazendo nella magnificas obras, e augmentos, de que agradecido o Cabido della, em 2. de Março de 1722. determinou, que naquella Igreja se fizesse todos os annos, atè o fim do mundo, especial memoria do seu grande Bemfeitor, e mandou gravar em num marmore huma larga inscripçaõ para eterna lembrança de tudo isto, que traz o doutissimo Director da Academia Real Portugueza D. Manoel Caetano de Souza no seu Catalogo Historico dos Summos Pontifices, Cardeaes, e Bispos deste Reyno, onde se pòde ver. A grande devaçaõ, que tem à Glorioaa Santa Barbara Virgem, e Martyr, o moveo a solicitar em Roma, e conseguir do Papa Innocencio, logo que chegou à Curia, que neste Reyno se pudesse rezar della com liçoens proprias, e rito Duplex, sendo dantes simples, e deu para a sua Ermida do Castello de Lisboa huma fermosa alampada de prata. Voltou a esta Corte em 22. de Outubro de 1722. aonde foy recebido por S. Magestade, por toda a Corte, e Nobreza com as demonstrações de estimaçaõ, que sempre mereceo.

§. XVIII.

O Cardeal D. Jozè Pereira de Lacerda.

Foy filho de Francisco Pereira de Lacerda, e de sua mulher Dona Antonia de Brito, Fidalgos illustres. Nasceo na Provincia de Alentejo, na Villa de Moura em 7. de Junho de 1661. Estudou Canones na Universidade de Coimbra, em que tomou o grào de Doutor, foy Oppositor às Cadeiras, e leo algumas por substituiçaõ. Foy Promotor, e Deputado do Santo Officio na Inquisiçaõ de Evora, lugares de que tomou posse no anno de 1691. em 10. de Dezembro vespera de S. Damaso Pontifice Portuguez. Na mesma Inquisiçaõ foy Inquisidor, lugar de que tomou posse em 2. de Setembro 1692. Largou o serviço do Santo Officio. Foy Prior da Igreja Parochial de S. Lourenço de Lisboa, na qual succedeo ao Eminentissimo Senhor D. Thomaz de Almeida, hoje Cardeal Patriarca de Lisboa Occidental. Foy nomeado Prior Mòr da Ordem Militar de S. Tiago em 12. de Setembro de 1709. Tomou posse do Priorado Mòr no Convento de Palmella em 4. de Novembro do mesmo anno. Foy nomeado Bispo do Algarve em Novembro de 1715. Foy Sagrado em Lisboa na Igreja do Mosteiro da Santissima Trindade em 30. de Agosto de 1716. pelo Eminentissimo Senhor Cardeal da Cunha, sendo assistentes os Illustrissimos Senhores D. Luiz Simoens Brandaõ, Bispo de Angola, e D. Manoel da Sylva Francez, Bispo de Tagaste, e Coadjutor do Arcebispado de Lisboa. Foy Executor da Bulla Aurea para a Creaçaõ do Patriarcado de Lisboa Occidental. Foy creado Cardeal Presbytero da Santa Igreja Romana pelo Papa Clemente XI. no Consistorio de 19. de Novembro de 1719. Trouxe-lhe o Barrete Cardinalicio Monsignor Sacripante, o qual recebeo na sua Capella em 3. de Novembro de 1720. Nos principios de Mayo de 1721. o nomeou S. Magestade do Conselho de Estado. Em 9. do mesmo mez, e anno se embarcou em Lisboa para Roma, a entrar no Conclave, a que tinha sido convocado pelo Sacro Collegio; por morte do Papa Clemente XI. A 10. de Junho do mesmo anno, estando jà em Roma, lhe deu o Papa Innocencio XIII. que tinha succedido a Clemente XI. em 8. de Mayo, o Chapeo; e a 16. do mesmo mez lhe deu o Anel Cardinalicio, e o Titulo de Santa Susana, do qual tomou posse no mesmo anno em 11. de Agosto, dia da mesma Santa. E aos 7. de Setembro seguinte tomou posse do lugar de Protector da Capella do Santissimo Sacramento da mesma Igreja.

No mesmo anno lhe consagraraõ huma festa Academica de Letras, e Armas os Porcionistas do Collegio Clementino, que saõ Fidalgos da primeira Nobreza de Italia; e no mesmo anno se imprimiraõ em Roma as obras, que nella se recitàraõ, todas em louvor do Summo Pontifice, delRey Nosso Senhor D. João V. e do mesmo Cardeal, com a relação da mesma festa. Foy das Congregaçoens do Concilio Tridentino, da Immunidade Ecclesiastica, do Indice, e das Indulgencias. A Academia dos Arcades, da qual hoje he Protector ElRey Nosso Senhor, elegeo a sua Eminencia por acclamaçaõ, e lhe deu o nome Retimo Sidiano.

A Roma lhe chegaraõ os rogos dos moradores do Reyno do Algarve, seus subditos, pedindo-lhe, que declarasse dia Santo de guarda na Cidade de Faro, e seus arrebaldes o dia 4. de Dezembro dedicado a Santa Barbara Virgem, e Martyr, a qual elles tinhaõ escolhido por sua Protectora, para se livrarem dos terremotos, e tempestades, que padeciaõ; calamidades, que naõ experimentaraõ depois de terem recorrido ao seu patrocinio; o que sua Eminencia lhes concedeo no anno de 1725. como Bispo que he daquelle Reyno, com que ambos estes Eminentissimos Cardeaes cooperaraõ em Roma para os mayores cultos, e veneraçoens da Gloriosa Santa Barbara. Alli entrou em Conclave por morte do dito Papa Innocencio com os mais Cardeaes, e com elles fez a prudentissima eleiçaõ do Santo Padre Benedicto XIII. em 29. de Mayo de 1724. que dantes era Cardeal Vicente Maria Ursini Arcebispo de Benevento da Ordem de S. Domingos. Viveo em aquella Curia admirando-a com as suas Letras, erudiçaõ, e acçoens generosas. Voltou para Portugal em Setembro do anno de 1728. e chegou a esta Corte em Dezembro, aonde assistio algum tempo, e recolhendo-se ao seu Bispado, se applicou a satisfazer às obrigaçoens do seu Pastoral Officio. Entrou na Visita Geral, e em 26. de Abril de 1738. administrando o Sacramento da Confirmaçaõ se começou a sentir taõ mal, que encarregando a visita a Miguel de Ataide Corte Real, Conego Penitenciario da Sè do Algarve, e Vigario Geral do Bispado, se recolheo a Loulè em 23. de Junho, e a 24. dia. de S. Joaõ entrou no seu Palacio da Cidade de Faro, em que sem embargo de multiplicados remedios se aggravou de forte a doença, que muitas, vezes se confessou, e comungou por devoçaõ, atè que em 25. de Setembro recebeo o Senhor por Viatico, que acompanhou o Cabido, de quem se despedio com grande ternura, e com muitas lagrymas de todos, mandandosse fazer preces pela sua saude. A 29 do dito Mez amanheceo com tanta melhoria, que se entendeo, que estava livre de perigo; mas às dez horas da noite se achou taõ privado de repente dos sentidos, que hum Medico Castelhano, que lhe assistia, começou a chamar pela familia dizendo, acudan que se muere el siervo de Dios, e assim espirou sendo de idade de 77. annos, tres mezes, e vinte e dous dias. No dia 30. foy levado o cadaver aos hombros de Sacerdotes por entre duas alas dos Soldados do Regimento daquella Praça a Sè, e se celebrou Missa Solemne, e se lhe deo Sepultura no jazigo dos Prelados daquella Diocesi. A 20. de Outubro se lhe celebraraõ na mesma Cathedral Solemnissimas Exequias, em que fez a Oração funebre o P. Fr. Joze Lobo Mercenario Descalço, natural do Reyno do Algarve. Sendo o Cardeal ainda D. Prior de Palmella foy S. Magestade àquelle Convento sem ser esperado; sahio a recebello com a Cõmunidade dos Freyres, e lhe fez de repente huma taõ douta pratica, que subio muito no Real conceito a sua sciencia. No anno Santo de 1725. fez no seu Palacio em Roma hum Hospicio para doze Clerigos pobres, que fossem a ganhar de Espanha aquelle Jubileo.

§. XIX.

O Cardeal D. João da Mota, e Sylva.

Nasceo na illustre Villa de Castellobranco em 14. de Agosto de 1685. fazendo-a ainda mais celebrada com o seu nascimento. Começou a estudar Theologia na Universidade de Evora, e continuando os mesmos estudos na de Coimbra, nella tomou o grào de Doutor. Sua Magestade que Deos guarde, attendendo ás suas letras, e procedimento, que saõ as bazes das mayores felicidades, o nomeou Conego Magistral da insigne Collegiada de S. Thomè. No tempo em que Monsignor Firrào (hoje Cardeal da Igreja Romana) se achava em Lisboa, fez no seu Palacio humas Conferencias, em que se tratavaõ materias dos Concilios, e se faziaõ eruditissimos discursos, para o que convidou as pessoas mais doutas, que havia na Corte. Entre ellas foy huma o Conego Joaõ da Mota, e Sylva, que mostrou em elegantes papeis o muito que estava adiantado em hum estudo, que não costuma ser muy frequente nas Espanhas, e na facilidade de escrever em latim, como tinhaõ por obrigaçaõ os que discorriaõ.

A sua literatura, modestia, e gravidade o fizeraõ de tal modo aceito a Sua Magestade, que pela sua Real nomeação o creou Cardeal a Santidade de Benedicto XIII. no Consistorio de 26. de Novembro de 1727. Trouxelhe o Barrete Monsignor Lercari, que hoje he Legado de Avinhaõ. Foy ouvida esta noticia com applauso commum, porque Sua Eminencia merece a geral estimaçaõ do Reyno pelo seu agrado, cortesania, e affabilidade. Delle faz memoria o Padre Fr. Agostinho Fabri da Ordem dos Prégadores na primeira continuação de Roma Santa, impressa em Ausbourg em 1729.

§. XX.

O Cardeal D. Thomaz de Almeida.

Naceo em Lisboa, aonde foy bautizado em casa de seus Pays os segundos Condes de Avintes D. Antonio de Almeida, Governador do Reyno do Algarve, do Conselho de Estado, e Guerra, e Dona Maria Antonia de Borbon, e tomou os Santos Oleos na Parrochia de Santa Engracia. Depois de estudar Filosofia com o Padre Manoel Vieira no Collegio de Santo Antaõ da Cidade de Lisboa, passou a Coimbra, aonde foy Porcionista no Collegio Real. Estudou Canones, e sendo Deputado do Santo Officio na Inquisiçaõ de Lisboa, foy despachado para Dezembargador da Relaçaõ do Porto, donde veyo para a Casa da Supplicaçaõ, em que teve a serventia de Aggravos. Foy Prior da Igreja de S. Lourenço, aonde para memoria da sua piedade mandou fazer huma Capella a S. Thomaz de Villanova, o arco da Capella Mòr, e os dous Altares Callateraes dedicados hum ao Senhor Jesu, e outro à Conceiçaõ da Senhora. Foy Deputado, e Provedor da Fazenda, e Estado da Rainha, Sumilher da Cortina, Cavalleiro da Ordem de Christo, Deputado da Mesa da Consciencia, e Ordens, Chanceller Mòr do Reyno, Secretario das Mercès, e Expediente, e ultimamente de Estado.

Attendendo às suas grandes virtudes, e merecimentos a Magestade do Senhor Rey D. Pedro II. de saudosa memoria o nomeou Bispo de Lamego, e sendo confirmado pelo Papa Clemente XI. foy sagrado na Igreja de Nossa Senhora da Graça em 3. de Abril de 1707. pelo Bispo Inquisidor Geral Nuno da Cunha de Attaide (hoje Cardeal de Santa Anastasia) sendo Assistentes D. Fr. Antonio Botado, e D. Fr. Pedro de Foyos, aquelle Bispo de Hypponia, e este de Bona, ambos Irmãos, e Eremitas de Santo Agostinho.

Havendo tomado posse deste Bispado pelo seu Provisor o Reverendissimo P. Fr. Antaõ de Faria Monje de S. Bento, que depois foy dignissimo Geral da sua Congregaçaõ, entrou na Cidade de Lamego em 22. de Mayo do dito anno, e foy recebido com todas as demonstraçoens de alvoroço, e alegria, que se deviaõ à sua pessoa, e affabilidade.

Chegado a Lamego, teve noticia que o Bispo de Viseo D. Jeronymo Soares trazia com o seu Cabido gravissimas contendas, que haviaõ sahido a autos publicos depois de fulminadas repetidas censuras. Era a causa de taõ escandalosa perturbaçaõ hum Conego da mesma Sè, que sendo conhecido pelos seus companheiros, o naõ era pela sinceridade do Bispo. Estranhou o nosso Bispo taõ indignas demandas, como quem em poucas horas, e sem paixaõ havia examinado o principio, e sem dar parte da sua resoluçaõ a ninguem, foy a Viseo a serenar huma tormenta, que havia tempo perturbava aquella Diocesi. Soube o Bispo de Viseo da visita que naõ esperava, e veyo mais de huma legoa a esperar taõ zeloso hospede. Voltaraõ para a Cidade com todas as demonstraçoens de cortezania, e da conversaçaõ foy a principal parte a presente discordia. Deputou o Cabido dous Conegos, que vieraõ visitar o Bispo de Lamego, a quem recebeo com a sua costumada urbanidade. Haviase queixado o Bispo da contumacia dos seus Capitulares, agora se queixaraõ os Capitulares do injusto procedimento do seu Prelado. Ouvidas huma, e outra parte entrou a compollas o Bispo de Lamego, e feito arbitro de taõ dilatados litigios pelo Bispo, e pelo Cabido, poz termo àquelles pleitos com satisfaçaõ dos litigantes, e como a sua jornada naõ tinha outro fim senaõ o da paz, concluida ella, voltou aos negocios da sua Igreja.

Em vinte, e hum mez que foy Bispo de Lamego, deixou da sua generosidade repetidos argumentos, porque na Cathedral para receber mais copiosa luz, lhe abrio seis grandes janellas, fez as grades do Cruzeiro, as portas da Igreja, que pela qualidade do seu artificio saõ dignas de particular memoria, e lageando o Adro, que estava indecente, o guarneceo com grades de ferro, que lhe servem de adorno, e de reparo. Enriqueceo a Sancristia de muitos, e preciosos ornamentos, e àlem dos materiaes para se fazerem as varandas do Claustro, lhe deixou mais de nove mil cruzados para obras. No Mosteiro das Chagas de Religiosas de S. Francisco fez o Mirante religiosamente magnifico, e no Convento de Santo Antonio dos Capuchos da mesma Cidade fez a Sancristia, que adornou com peças de muito preço.

Por carta assinada pela Real maõ em 30. de Mayo de 1708. foy visitar a Coimbra o Collegio Real, em que havia sido Porcionista, e desta visita resultou acrescentar Sua Magestade, que Deos guarde, as rendas ao Collegio, devendo a taõ benemerito filho hum notavel augmento na fazenda.

Em 26. de Setembro de 1708. vagàra o Bispado do Porto por morte do virtuosissimo Prelado D. Fr. Jozè de Santa Maria, e por carta de 30. de Abril de 1709. nomeou ElRey D. João o V. nosso Senhor Bispo do Porto ao Bispo de Lamego, e logo por carta de 6. de Mayo do mesmo anno lhe fez merce o dito Senhor do lugar de Governador das Justiças daquella Relaçaõ, e das Armas da Cidade, e seu districto. No mesmo tempo, em que o Cabido do Porto teve a noticia desta nomeaçaõ, por assentos de 15. e 17. de Mayo elegeo ao Arcediago de Oliveira Luiz de Magalhaens, para que da sua parte fosse a Lamego visitar, e dar os parabens a Sua Illustrissima. Foy absoluto do vinculo de Lamego, e confirmado no Bispado do Porto por Clemente XI. a 22. de Julho do sobredito anno de 1709. e mandando tomar a posse pelo seu Provisor o Reverendissimo Padre Fr. Antaõ de Faria, se lhe deo em 17. de Outubro. Chegou o Prelado a 30. passou o Douro, e se recolheo no Convento de Santo Antonio do Valle da Piedade de Religiosos Capuchos, aonde depois de comprimentado, e assistido de toda a Nobreza, Relaçaõ, Officiaes de Guerra, e de Justiça, fez a sua entrada publica na Cidade em 3. de Novembro do mesmo anno, e a 9. começou a exercitar as occupações de Governador das Justiças, e das Armas com geral estimaçaõ de toda a Provincia.

Foy extraordinaria a pompa, e magnificencia, com que a opulentissima Cidade do Porto celebrou esta entrada. Houve tres dias de luminarias, de repiques, de excellentes encamisadas, e outras demonstraçoens de alegria, em que rompeo o alvoroço da Cidade, acresentando a todo este applauso fazerem representar em hum dos pateos do Palacio Episcopal vistosissimas Comedias, o que tudo descreveo em outava rima Antonio Cerqueira Pinto, natural de Amarante, e morador na Cidade do Porto, pessoa digna de toda a estimaçaõ pelos seus estudos, e vastissimas, e profundas noticias das Antiguidades deste Reyno, em que he summamente versado com douta, e exacta critica, e que já em outro Poema do mesmo metro havia cantado a esclarecida Ascendencia do Bispo D. Thomaz de Almeida.

Executando a piissima disposiçaõ de S. Magestade ordenou, que se celebrasse a festa de N.Senhora da Conceiçaõ com a mayor solemnidade que fosse possivel, e para este fim se cantaraõ as Matinas em a noite antecedente, e no dia celebrou Missa de Pontifical com assistencia de toda a Nobreza, e do Tribunal da Relaçaõ.

Attendendo à grande necessidade, que havia de Synodo Diocesano, o celebrou no anno de 1710. com todas as formalidades, e nelle se dispuzeraõ muitas cousas pertencentes ao melhor governo do Bispado.

No mez de Mayo de 1711. foraõ taõ repetidas as innundaçoens de agua, que temendo-se alguma esterilidade, mandou o Bispo, que sahisse em Procissaõ pelas Ruas da Cidade, o Senhor d’Alem, com o qual tem aquelle povo bem fundada devoçaõ pelos grandes beneficios, que tem experimentado da sua piedade. Fez-se a Procissaõ em 14. do dito mez, com a Pompa, e Magestade, que em semelhantes occasioens se costuma; e como naquelle anno era Ministro da Ordem Terceira de S. Francisco, para aplacar a indignaçaõ Divina, na noite de 21. do mesmo mez fez outra Procissaõ de preces, em que a Ordem Terceira, e os Religiosos foraõ descalços, de que compadecida a Divina bondade, restituhio a serenidade do tempo, naõ se experimentando o danno, que naturalmente se temia. Na mesma occasiaõ padeceo aquella Cidade grande falta de peixe, e fazendo-se por esta causa segunda Procissaõ em 27. do dito mez de Mayo, em que sahio outra vez a Imagem do Senhor d’Alem, se encaminhou à barra, e benzendo-a o Prelado, teve outra vez a Cidade do Porto a costumada abundancia.

Em 4. de Dezembro de 1711. nasceo em Lisboa Occidental a Senhora Infanta Dona Maria Barbara, hoje Princesa das Asturias, e em 21. do dito mez, em acçaõ de graças, fez o Bispo D. Thomaz Pontifical, e Solemnissima Procissaõ, e como a esta solemnidade se unio a Trasladaçaõ do Santissimo Sacramento para a sua Capella na Sè, que se havia reformado com extraordinaria magnificencia, prègou neste dia o Conego Magistral da mesma Sè o Doutor Manoel dos Reys Bernardes, com a elegancia, acerto, e propriedade, que sendo nelle dotes naturaes, saõ a enveja de todos os que o ouvem, e lem os seus escritos.

Em 20. de Fevereiro de 1713. lançou a primeira pedra no arrogante, e magestoso edificio da nova Capella dos Terceiros de S. Domingos; obra de tanta magestade, que havendo na Cidade do Porto grande numero de Fabricas Sagradas magnificamente edificadas, esta na sua proporção naõ he inferior a nenhuma.

Para a sua Cidade do Porto alcançou este zelosissimo Prelado de Clemente XI. pelo espaço de sete annos, hum Jubileo com Lausperene em todo o tempo da Quaresma, a que logo se deu principio na Sè, no primeiro dia da Quaresma do anno de 1713. continuando-se pelas mais Igrejas dous dia em cada huma.

Em 16. de Julho do mesmo anno de 1713. que era o ultimo dia do Triduo, com que os Religiosos de S. Domingos celebraraõ a Canonizaçaõ do Summo Pontifice Pio V. fez o Bispo o Pontifical com toda a grandeza, que pedia a Sollemnidade daquelle acto.

Mandou rasgar, e abrir mais a porta de Carros, e o Postigo de Santo Eloy, intentando, que no Campo das Hortas, junto à Fonte da Arca, se fizesse huma nova Praça. Naõ teve effeito esta obra, mas teve-o o povoar-se aquelle sitio de muitas, e nobres casas, em que se vay dilatando a povoaçaõ com incrivel grandeza. Na Igreja de Santo Antonio, que he dos Padres da Congregaçaõ do Oratorio de S. Fillippe Neri, mandou fazer hum grande Adro, que ennobreceo muito aquella fabrica, e nos pilares das grades se lhe gravaraõ as suas Armas.

Reformou a Quinta do Prado, accrescentando-lhe gallarias, e no Palacio Episcopal mandou abrir janellas em muitas Salas, e fez de novo a Casa da Camara Ecclesiastica, em cujo tecto estaõ pintadas as Armas dos Almeidas.

Por ordem de Clemente XI. presidio em dous Capitulos Geraes da Religiaõ de S. Bento. Celebrou-se hum no Mosteiro de Santo Tyrso, e nelle foy eleito geral o Reverendissimo Padre Fr. Antaõ de Faria, Provisor do Bispado do Porto, e o outro se celebrou no Mosteiro de Tibaens, que he a Cabeça desta Monastica, e Illustrissima Congregaçaõ nos Reynos de Portugal.

Neste tempo determinou a Magestade delRey D. João V. Nosso Senhor illustrar a sua Corte com huma Igreja Patriarchal, que nos privilegios, e grandeza se distinguisse com incomparavel differença de todas as outras Cathedraes. Conseguio esta graça da Santidade de Clemente XI. que lha concedeo por huma amplissima Bulla, chamada Aurea, expedida em Roma aos 7. dos Idus de Novembro, que he aos 7. do dito mez do anno de 1716. e por esta causa nomeou S. Magestade, que Deos guarde, ao Bispo do Porto D. Thomaz de Almeida Patriarcha de Lisboa Occidental, em 4. de Novembro do mesmo anno, e em 7. do dito mez o absolveo o Papa do vinculo de Bispo do Porto, e o confirmou em primeiro Patriarcha da mesma Cidade de Lisboa Occidental.

Chegada esta feliz noticia à Corte, mandou o Senhor D. Thomaz de Almeida tomar posse do Patriarchado pelo Arcediago da mesma Patriarchal Jozè Dionysio Carneiro, cujo acto se fez em 8. de Janeiro de 1717.

Era necessario q́ o Senhor Patriarcha tomasse a posse pessoal, e que fizesse entrada publica na sua Igreja, como dispoem o Ceremonial dos Bispos. Para esta funcçaõ, verdadeiramente magestosa, se destinou a tarde de Sabbado 13. de Fevereiro do anno jà dito de 1717. Da Quinta do Duque de Aveiro, sita nas visinhanças da Parrochia de S. Sebastiaõ da Pedreira, sahio o Senhor Patriarcha para a Igreja deste Santo, aonde o esperava montado a cavallo, toda a Nobreza de Portugal, e tomando o Coche, veyo marchando com todo este lusido acompanhamento atè à Igreja de Santa Martha, aonde apeando-se, tomou a Capa Consistorial, e pondo-se a cavallo continuou a marcha atè às portas de Santo Antaõ, em que estava levantado hum excellente, e bem adornado Altar. Aqui deixada a Capa Consistorial, se revestio de Pontifical com Capa, e Mitra de tella branca, e montando em huma mula ruça, cuberta com huma gualdrapa de tella branca, o levou de redea seu Irmaõ D. Luiz de Almeida Conde de Avintes; ao sahir das portas de Santo Antaõ, o receberaõ de baixo de hum Pallio de preciosa tella os Vereadores dos Senados de ambas as Lisboas, e desta sorte, por entre duas alas, que formavaõ as Communidades Religiosas, as Confrarias, e Irmandades de Lisboa Occidental, chegou à Santa Basilica Patriarchal, dando-se fim a esta vistosissima Ceremonia com o Hymno Te Deum Laudamus, solemnissimamente cantado.

Depois da posse começou logo a exercitar a Dignidade de Capellaõ Mòr, que como consta da mesma Bulla Aurea, ha de andar annexa a quem tiver a de Patriarcha de Lisboa Occidental; e para lhe naõ faltar a authorizadissima circunstancia de Conselheiro de Estado, foy S. Magestade servido fazer-lhe dentro de poucos dias aquella mercè.

Tratou de visitar a sua Diocesi, obrigaçaõ a que satisfez pessoalmente, como quem sabe o quanto emenda mais a vista, do que as informaçoens, naõ cessando depois em tempo algum de mandar Visitadores, que reformem os vicios com caridade, e naõ estrondo, porque as culpas, em quanto naõ degeneraõ em obstinaçaõ, melhor se remedeaõ com a suavidade, que com o rigor.

Para o sitio de Rinhafolles, que he contiguo ao Convento de Santo Antonio dos Capuchos, se haviaõ mudado os Padres da Missaõ, cujo principal instituto he ensinar as Ceremonias Ecclesiasticas aos Ordinandos. Sobre os principios desta obra entrou o Senhor Patriarca a fazer nova despeza, e se vay continuando hum edificio, em que possaõ naõ só viver commodamente os Padres, mas tambem o grande numero de pessoas, que concorrem a aprender o Ministerio do Altar, e a fazer algumas vezes a utilissima devoçaõ dos Exercicios Espirituaes, para o que mandou levantar no interior da Casa hum Oratorio, que naõ cede na grandeza ao primor do seu ornato.

No anno de 1721. deo o Senhor Patriarca o dezejado principio à clausura do Mosteiro de N. Senhora dos Remedios de Campolide de Religiosos da Ordem da Santissima Trindade, para o que mandou ao seu Vigario o Illustrissimo D. Joaõ Cardoso Castello Arcebispo de Lacedemonia, que fosse benzer a Igreja, e logo sem mais dilaçaõ, sahiraõ as quatro Fundadoras do Convento de Santa Marta em 25. de Junho de 1721. Foraõ as Fundadoras a Madre Izabel Maria das Montanhas para Prioreza, a Madre Maria Jozefa de S. Filippe para Sub-Prioreza, a Madre Antonia Thereza de Jesu para Mestra da Ordem, que he o mesmo, que Mestra de Noviças, e a Madre Eufrasia Maria do Sacramento para Porteira.

Disposto tudo o que era preciso para a entrada das Noviças, na tarde de 2. de Julho de 1721. em que se celebra a Visitaçaõ de N. Senhora a Santa Izabel, com assistencia da Rainha N. Senhora, e da Senhora Infanta Dona Francisca, e de muita parte da Nobreza, e de hum extraordinario concurso de povo, se lançou o habito às primeiras Noviças, dando todos graças a Deos por verem concluida huma obra, a que havia pouco menos de hum seculo, que se lhe dera principio.

Mandou o Senhor Patriarca fazer Constituiçoens, que elle mesmo confirmou em 26. de Junho de 1721. as quaes se compoem de nove Titulos, que comprehendem cincoenta Capitulos, e se imprimiraõ em Lisboa Occidental na Officina de Jozè Antonio da Sylva em 1726. em quarto.

Tambem para as Religiosas Descalças de N. Senhora da Conceyçaõ da Luz, que he da jurisdicçaõ ordinaria, e fundado pelo piissimo Varaõ Nuno Barreto Fuzeiro, àlem da Regra approvada pelo Papa Julio II. e modificada por Innocencio XII. mandou fazer Constituiçoens, que constaõ de 37. Capitulos, que confirmadas em 8. de Julho de 1727. se imprimiraõ na mesma Officina no dito anno em quarto.

Tem a Mitra de Lisboa huma Quinta no lugar de Santo Antonio do Tojal, cuja Igreja, como diz a tradiçaõ, fez o Arcebispo D. Fernando de Vasconcellos, e lhe começou huma Torre, que depois acabou o Arcebispo D. Miguel de Castro. Com o progresso do tempo, e descuido estava esta Quinta, e Palacio quasi arruinado, e o Senhor Patriarca a tem restituido, e renovado de sorte, que Igreja, e Palacio saõ dignissimos de se verem, naõ só pela grandeza, como pelo bom gosto.

Faltava a este grande Prelado a Purpura Romana, e no Consistorio de 20. de Dezembro de 1737. o creou Cardeal Clemente XII. e lhe mandou o Barrete por Monsignor Julio Saccheti Sobrinho de Monsignor Cavallieri Nuncio em Portugal, que chegou a esta Corte em 3. de Mayo de 1738. Foy esta noticia summamente estimada, e applaudida por toda a Corte, e povo, celebrando o premio das grandes virtudes, que venera no seu Prelado.

Card. D. José Manoel ... D. Francisco de Saldanha ... D. Paulo de Carvalho ... D. Joaõ Cosme da Cunha ... D. Fernando da Silva e Menezes ... D. Joseph Francisco da Mendoça

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