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Noticias de Portugal

DISCURSO III.

Reading edition

Da nobreza das familias de Portugal com a noticia de sua antiguidade, origem dos Appellidos, e razaõ dos Brazões das Armas de cada huma.

§. I.

Sendo a Nobreza das Familias a cousa mais prezada nas Republicas politicas, he juntamente a menos conhecida, e bem entendida de muitos, que se della prezaõ. E como os nobres Portugueses estimaõ, e com razaõ, tanto sua generosidade, e fidalguia, he justo que naõ falte em nosso vulgar esta materia particularmente escrita. Pelo que me pareceo fazer este Discurso, em que se veja, que cousa he a Nobreza, de que partes consta, e da origem, que tiveraõ os Appellidos, e Brazoens das Linhagens nobres, e como se illustraraõ com a clareza das dignidades, e acçoens das virtudes.

Familia he huma ordem de descendencia, que trazendo seu principio de huma pessoa, se vay continuando, e estendendo de filhos a netos, de maneira, que faz huma parentella, ou linhagem; a qual da antiguidade, e clareza das cousas feitas he chamada Nobre.

Esta palavra Nobre, he latina, e se derivou de Nobilis; que tanto val, como notavel, e conhecido. Segundo Scipiaõ Amirato[91] nos Discursos, que faz antes das Familias de Napoles, e de outros, que melhor sobre esta materia escreveraõ, se mostra, que a Nobreza consta de duas partes sómente, que saõ antiguidade, e clareza. A antiguidade se mostra nas Familias contando nellas pelos tempos passados muitos gràos, idades, ou geraçoens; e confórme a melhor opiniaõ, tanto val huma idade moralmente fallando, como 34. annos de tempo. Porque por estes annos ordinariamente começaõ os filhos a succeder aos pays; e assim quanto mòr numero destas successoens, ou idades mostrar cada hum de noticia de sua Familia, ainda que naõ conte os gràos successivos de pay a filho, tantas idades, ou geraçoens mais mostrarà. Os gràos saõ as successoens continuadas de pay a filho sem interrupçaõ. Sendo duas Familias antigas, huma que mostre mais gràos continuados de pay a filho, e outra menos; porèm que haja della mais antiga memoria por Chronicas, ou outros documentos certos, serà esta tida por mais antiga, ainda que continue menos successoens.

A antiguidade das Familias de Hespanha he das mayores de Europa, porque se conservou sempre com seus Reys, que saõ dos mais antigos della. E assim dos Godos para cà se hade tomar a sua principal origem; posto que tambem dos Romanos venhaõ algumas das illustres Linhagens de Hespanha, pois a possuhiraõ tantos seculos. E ainda que os Romanos foraõ expellidos pelas Naçoens do Norte, que aborreciaõ grandemente o nome Latino; todavia ficaraõ muitos em Italia, França, e Hespanha, como parece claro das leys de Fuero juzgo, que delles fallaõ.

Depois da entrada dos Arabes em Hespanha, foy Portugal hum dos primeiros Reynos, que se recuperou pelos Christaõs; e os primeiros Fidalgos, que de Leaõ, Asturias, e Galliza os vieraõ povoar, foraõ em tempo delRey D. Ramiro, como se ve do Conde D. Pedro. Porèm dando depois ElRey D. Fernando o I. de Leaõ esta Provincia a D. Garcia seu filho, entraraõ outros muitos de novo com sua Corte, e ultimamente com a Rainha Dona Thereza mulher do Conde D. Henrique; ao qual acompanharaõ tambem alguns Fidalgos Franceses; àlem dos quaes vieraõ outros, que ficaraõ no Reyno, por se acharem nas tomadas de Lisboa, Sylves, e Alcacer do Sal, que se conquistaraõ com o favor das Armadas das Provincias do Norte, que hiaõ à Conquista da terra Santa. Entraraõ depois algumas Familias de Castella no tempo do nosso Rey D. Pedro, e muitas mais nos delRey D. Fernando pela pretençaõ, que teve de se fazer Senhor daquelle Reyno. A servir ElRey D. Joaõ I. assim nas guerras de Castella, como na tomada de Ceita, vieraõ muitos Fidalgos de França, e Inglaterra, que ficando no Reyno, deraõ principio a algumas Linhagens delle.

Tornaraõ a entrar novas Familias de Castella em tempo delRey D. Afonso V. quando se veyo daquelle Reyno, deixando a pertenção, que tinha delle por parte da Excellente Senhora. E com todas as Rainhas de Portugal vieraõ Fidalgos, assim dos Reynos de Aragaõ como de Castella, e de Inglaterra, de que hà linhagens illustres no Reyno. E ultimamente depois de descuberta a India, vieraõ algumas Familias nobres de Italia por razaõ do cõmercio. Estas saõ as antiguidades, que com certeza podemos dar às linhagens de Portugal.

A clareza, que como dissemos, he outra segunda parte da Nobreza se mostra pelas dignidades, ou honras, que os daquelle Appellido alcançaraõ na Republica, como saõ os Estados Titulares, ou Senhorios de terra, Officios Mòres da Casa Real, governos, cargos supremos militares, e civîs. Fazem tambem clareza as dignidades grandes Ecclesiasticas, como Pontificados, Cardinalados, e Bispados; e assim mesmo as letras, o valor, e lealdade, liberalidade, justiça, e sobre tudo a santidade, pois excedendo todas as grandezas humanas, se levanta às divinas. E assim quando qualquer destas cousas he insigne, naõ illustra menos a familia, que muitos Titulos.

Tem a clareza sobre a antiguidade, segundo Scipiaõ Amiranto, que ainda que seja moderna, val mais, que a antiguidade sem ella. Pelo que estando huma Familia Titulada, ainda que seja conhecida de pouco tempo, fica preferida à outra mais antiga, se atè então naõ alcançou semelhante dignidade. Em iguaes Titulos de dignidade será mais clara a familia, que tiver mayor numero, e a mayor dignidade (ainda que menos em numero) vence a multidaõ das menores. De modo, que val hum Ducado por muitos Condados, e hum Senhor livre, mais que todos os avassalados.

Hà neste Reyno cinco gràos de Nobreza, segundo a Ord. l. 5. t. 139. o primeiro, saõ os Vassallos, que tem cavallos, o segundo os Escudeiros, o terceiro os Cavalleiros, o quarto os Fidalgos de Cotta de armas, e geração, que tem insignias de Nobreza, o quinto he dos Fidalgos, que tem assentamentos, e foro na Casa delRey. Entre estes tambem hà diferença; porque as leys do Reyno fazem mençaõ de tres generos de solares, que saõ solar conhecido, solar com jurisdicçaõ, e solar grande. Os de solar conhecido, segundo o Doutor Antonio Francisco,[92] saõ aquelles, que tem a Nobreza dos Avòs, e Bisavòs; de modo, que senaõ pòde pòr em duvida ser o tal Appellido Nobre, e de fidalguia antiga. Os de solar com jurisdicçaõ saõ os Senhores de terras, que por doaçaõ Real as possuem, e governaõ com suas jurisdicções. Os de solar grande, saõ os Duques, Marqueses, Condes, Viscondes, e Baroens de Titulo, que saõ verdadeiramente Grandes, e por esta causa os chama a Ordenaçaõ Fidalgos de grande solar. Os Reys deste Reyno fizeraõ sempre tanto caso da Nobreza, que só della se serviraõ, assim nos cargos de Estado, como nos da Justiça, Fazenda, e Milicia; e no serviço da Casa Real naõ saõ admittidos senaõ os Nobres.

§. II.

Da origem dos Appellidos dos Nobres de Portugal.

Os nomes foraõ inventados entre os homens para distincçaõ delles, porèm crescendo o numero da gente, e faltando nomes singulares para cada hum, vieraõ a ser muitos homens de hum mesmo nome. Pelo que para evitar confusaõ, acrescentaraõ os sobrenomes, ajuntando o nome dos pays aos seus, e por isso se chamaraõ patronimicos; destes usaraõ mais os Gregos, que os Romanos; mas nem por isso tiveraõ os Latinos menor numero de nomes; porque muitas vezes tinha hum homem quatro nomes, que eraõ prenome, nome, cognome, e agnome. Exemplo disto seja Quinto, Fabio, Maximo, Ovicula. O primeiro podemos hoje chamar nome proprio, o segundo sobrenome da Famillia, o terceiro Appellido, e o quarto tambem Alcunha.

Com o Imperio Romano entraraõ em Espanha seus costumes; e assim usaraõ desta fórma de nomes, como se vè largamente das historias latinas. Porèm vindo os Godos, e extinguindo quasi de todo os Romanos nella, se tornaraõ a introdusir os nomes proprios singulares sem sobrenomes alguns, que duraraõ atè a entrada dos Arabes, depois da qual se começaraõ a usar os patronimicos, Dias, Esteves, Fernandes, Gonçalves, &c. que se derivaraõ de Diogo, Estevaõ, Fernando, Gonçalo. Porèm naõ foy isto bastante para os homens poderem ser conhecidos; porque de hum pay procediaõ muitos filhos, e de todos tomavaõ o mesmo patronimico. Pelo que ordenaraõ tomar por Appellido os nomes das terras donde viviaõ, ou donde eraõ naturaes, como fizeraõ neste Reyno os de Beja, Castello-Branco, Chaves, Santarem, e outros, mas o mais ordinario foy tomar cada hum o nome da terra, onde tinha senhorio, ou alguma jurisdicçaõ. E tanto he isto assim, que mostra o Bispo D. Prudencio de Sandoval, que Alvar Fanhes famoso Cavalleiro em tempo do Emperador D. Afonso VII se chamou de Çurita, quando a teve a cargo, e de Toledo, quando o fizeraõ Alcaide daquella Cidade.

O mesmo se affirma das Familias de Aragaõ; e daqui vieraõ os Appellidos de muitas linhagens, indose depois continuando em seus successores. A estas terras chamavaõ Solares, derivando o nome da palavra latina solum, que quer dizer terra, e assento, donde o homem està. Edificaraõ aqui estes Fidalgos suas torres, e casas fortes donde viviaõ; assim para se defenderem dos rebates dos Mouros, como por ser este modo de edificar casas fortes no campo, proprio das naçoens do Norte, como ainda hoje se vè em toda França, Alemanha, e Inglaterra. Pelo que neste Reyno se naõ concedia licença para fazer estas torres, e pòr ameas nellas, senaõ a pessoas illustres; como parece das que estaõ registadas nos livros das Chancellarias dos Reys antigos. Destes Solares, e torres hà ainda muitos neste Reyno, como saõ os de Abreu, Ataide, Bayaõ, Britto, Carvalho, Cunha, Faria, Goes, Lima, Nobrega, Pereira, Sampayo, Sousa, Sylva, Vasconcellos, e outros muitos, donde estes Appellidos tiveraõ seu principio.

Alèm dos Solares se tomaraõ tambem outros Appellidos de alguns feitos assinalados na guerra, como fizeraõ os Bandeiras, Machados, Mouras, Menagens; e outros os tomaraõ das Provincias, que descobriraõ, ou sojeitaraõ, como os Baharens, Minas, Camaras; outros da Casa Real donde descendem, como saõ neste Reyno os de Aragaõ, Lancastres, Portugal.

Tomaraõ-se tambem os Sobrenomes de Alcunhas, que se poseraõ a varios homens de animaes da terra, peixes, e aves, assim como Perdigaõ, Pegas, Falcaõ, Touro, Coelho, Raposo, Sardinha, Salema. Das cores, como os Pretos, Trigueiros, Morenos. De alguma qualidade do corpo, como Barrigas, Calvos, Delgados, Feyos, Magros, Pestana, Velhos, Unhas. Outros de instrumentos, como Caldeiras, Calças, Correas, Lemes, Pontes. Outros de arvores, hervas, e flores, como os Figueiras, Oliveiras, Pinheiros, Moreiras, Carvalhos, Flores, Rosas, Carrascos. E assim outros. Estas saõ as origens, a que se reduzem todos os Appellidos, que hoje hà neste Reyno, como particularmente em cada Familia veremos. E porque os Appellidos saõ os sinaes hoje da descendencia das familias, e nobrezas dellas, foraõ os Reys deste Reyno taõ desejosos de cada linhagem conservar o seu, que sabendo ElRey D. Joaõ o II. que Simaõ Gonçalves da Camara, filho herdeiro do Capitaõ da Ilha da Madeira Joaõ Gonçalves da Camara se chamava Simaõ de Noronha, que era o Appellido de sua mãy, lhe mandou dizer, que logo se chamasse do Appellido de seu pay; pois havia de herdar a sua casa, senaõ que passaria a successaõ della a Pedro Gonçalves da Camara seu irmaõ.[93] Ao que Simaõ Gonçalves obedecendo, lhe foy bejar a maõ pela mercè. Porèm ElRey D. Manoel procedeo nisto mais rigorosamente, porque mandou nas Ordenaçoens com penas gravissimas, que ninguem tomasse o Appellido de nenhuma familia, que lhe naõ pertencesse; e o mesmo se ordena na ultima reformaçaõ, que se fez das leys deste Reyno.

§. III.

Das origem das Armas, que trazem os Fidalgos, e Nobres de Portugal.

As insignias militares foraõ inventadas para distinguir as companhias dos Exercitos. De maneira, que conhecendo cada soldado a sua bandeira, ainda que nas batalhas se desordenassem as Cohortes, podessem acudir a ellas, e com facilidade recuperar seu lugar. Para este effeito usou Romulo do Manipulo, e depois se introdusiraõ, o Lobo, Aguia, Minotauro, e Javali, que os Romanos trouxeraõ por insignias, como os Assyrios a Pomba, e a Lua os Egypcios, os Bizancios o Cacho de uvas, os Thebanos a Tartaruga, os Africanos a Espiga; e assim outras varias cousas. Porèm os soldados particulares costumavaõ trazer os escudos brancos, atè que faziaõ algum feito insigne, cuja historia pintavaõ nelles, ao qual costume alludio o Poeta,[94] quando disse de Heleno.

Ense levis nudo, parmaque in glorius alba, &c.

E o Satyrico significa pelo mesmo termo ter sahido da idade juvenil, dizendo:[95]

Permisit sparsisse oculos jam candidus umbo.

Estas pinturas dos escudos eraõ varias, e naõ ficavaõ depois a filhos; posto que algumas vezes, quando o predecessor era muy insigne, usavaõ seus descendentes da tal figura, como empreza, segundo se vè de Virgílio,[96] fallando de Aventino filho de Hercules.

Clypeoque insigne paternum Centum angues, cinctamque gerit serpentibus hydram.

Entre os Romanos usava a Familia dos Torcatos do collar de ouro, e os Cincinnatos da cabelleira, porèm naõ como armas, porque como consta de toda a historia latina, as armas das Familias Romanas foraõ as imagens, e estatuas de seus mayores, que tinhaõ nos pateos à entrada das casas.

§. IV.

Da origem dos Leoens, e Aguias, e outros animaes, que se trazem nos escudos.

Depois que entrou o governo dos Cesares, e foy necessario accrescentarem-se os Exercitos, e havellos sempre nos confins do Imperio, multiplicando-se as Legioens, foy necessario dar-lhes tambem novos nomes, e insignias. E como os Romanos estavaõ ja mais polidos, naõ escolheraõ estes nomes, e sinaes a caso, mas com muita consideraçaõ, denotando em cada hum delles algum bom pensamento. E porque cada Soldado fosse conhecido de que Cohorte era, mandavaõ, que logo nas officinas de armas, quando se faziaõ os escudos, lhe pintassem, ou esculpissem no meyo a mesma imagem da mesma Cohorte, e pela parte de dentro escreviaõ o nome do Soldado, e a Cohorte, e Centuria, de que era. Tudo isto diz claramente Vigecio nestas palavras:[97] Ne milites aliunde in prælii tumultu à suis contubernalibus aberrarent, diversis cohortibus diversa in scuto signa pingebant, quæ ipsi nominant pegmata; sicut etiam mori est fieri. Præaterea in averso uniuscujusque militis erat nomen adscriptum, addito, ex qua essent cohorte, & ex qua centuria. E Claudiano[98] allude ao mesmo, dizendo da Legiaõ invicta.

———Nomenque probantes Invicti, clypeoque animosi teste leonis.

Deste costume diz Guido Pancirolo[99] se introduziraõ as armas, que agora temos. Porque vindo depois a professarem a Milicia os filhos, e netos dos mesmos Capitaens, e Soldados, usavaõ sempre das proprias insignias, e depois que se perdeo o Imperio Romano, se ficou continuando o mesmo uso, pondo segundo aquella imitaçaõ cada hum no Escudo o animal, ou figura que melhor lhe parecia, denotando sempre com estes hieroglylphicos alguma cousa de valor, constancia, ou virtude, por onde se alcança a honra militar. E assim daqui nasceraõ os Leoens, as Aguias, os Touros, Serpentes, que trazem as Familias de Europa, e particularmente as deste Reyno. As que usaõ de Leoẽs nos Escudos, saõ as seguintes.

Achiolis illustres Florentinos, que vieraõ povoar a Ilha da Madeira, e dahi passaraõ a este Reyno, Alvos, Arnaos, ou Ernaos, Barrosos, Betancor, Britos, Cayados, Campos, Castelobranco, Cerqueira, Chanoca, Conestagio, Esmeraldos, Frótas, Galhardos, Gamboa, Giraldes, Gondim, Gramaxo, Gravas, Groymis, Morel, Neto, Ossem, Pains, Pò, Ribeira, Rolaõ, Salvagos, Santarèm, Serraõ, Simoens, Toscanos, Valladares, Valentes, Unhas, Vogados.

As que trazem aguias saõ: Abul, Abreu, Azevedos, Botados, Bovadilha, Carregueiro, Serrabodes, Coroneis, Correaõ, Dagraã, Guivar, Jacome, Lemes (Marletas sem pès) Maciel, Medeiros, Montarroyos, Ourem, Penha, Proença, Rodrigues, Sampayo, Tinoco, Villanova.

As que trazem Serpes, saõ, Alfaros, Brandoens de Inglaterra, Covas, Dragos, Mendaos, Moutinhos, Rebaldos, Roboredos, Regras, Serpes, Villasboas.

As que trazem Lobos, saõ, Ayalas, Haros, Lobos, Villalobos.

As que trazem outros animaes, saõ: os Carreiros hum Gatto caçando, os Garros huma Onça, os Leoens entre sete Estrellas

dous libreos negros armados de prata, alludindo à fidelidade destes animaes, os Osorios dous Touros, os de Valdés hum Elefante.

§. V.

Da origem das Faxas, Bandas, Barras, e Escaques, que se trazem nos Escudos.

As Barras, Faxas, Bandas, e escaques, tiveraõ origem dos Alemaens, que como affirmaõ alguns Authores, costumavaõ trazer listrados os Escudos de cores, e se prezavaõ muito disto. E senhoreando-se estes das Provincias do Imperio, introduziraõ seus costumes nos povos, que sojeitaraõ; e como com elles se acabaraõ as boas artes, foy facil por falta de Pintores, usarem os Soldados nos Escudos daquellas bandas, e pinturas simplicissimas. Donde vem, segundo diz Scipiaõ Amirato, que as mais das Familias antigas tem em Europa estas insignias, como se vè nos Escudos das Faxas da casa de Austria, das Bandas de Borgonha, Barras de Aragaõ, e Escaques dos Duques de Nivers. Isto se confirma com a authoridade de Cornelio Tacito no segundo dos Annaes,[100] que diz dos Escudos dos Alemaens, que eraõ humas taboas de pintura simples: Tenues, & sucatas colore tabulas. E no livro de Moribus[101] Germanorum refere, que pintavaõ os escudos com varias cores: Scuta tantum lectissimis coloribus distinguunt. Pelo que conclue Scipiaõ Amirato,[102] dizendo que destas simples pinturas argue a antiguidade das armas: Onde io, diz elle, sono indotto a credere quello che etiamdio volgarmente vego dalcune a ser tenuto, che quanto le arme sono piu simpleci, piu sieno antiche, &c. Destes principios se pòde conjeturar, que tenhaõ origem as armas de muitas Familias de Portugal, que trazem Faxas, Bandas, Barras, e Escaques.

Faxa he hum listaõ entre duas linhas, que atravessa o Escudo ao largo. As Familias, que trazem Faxas, saõ: Almas, Avelar, Austria, Cio, Durmaõ, Escrocios, Ferreiras, Landins, Leitaõ, Mascarenhas, Matela, Mexia, Pamplonas, Pedrosos, Pestanas, Rebellos, Sylveiras, Vargas.

Banda he hum listaõ entre duas linhas, que atravessa o Escudo de canto a canto.

As que trazem Bandas, saõ Almadas, Albernoses, Ataides, Azambujas, Azeredos, Barbato, Barbosas, Bardes, Bairros por Bandas tres troncos, Barreiros, Barros, Belchiras, Bembos, Beringes, Bivares, Botelhos, Bracamonte, Calados, Caminha tres bastoens de prata em Banda, Canto, Carvalhaes, Castanhedas, Çuniga, Feijòs, Feyos, Frazaõ, Freyres de Andrade a Banda da Ordem Militar da Banda de Castella, de que foraõ Cavalleiros, Leys, Limpos, Lyra, Lordello, Mendanhas trazem huma cotta de armas passada com settas, Mouzinhos, Nogueiras, Ornellas, Pegados, Pegas, Privados, Quintal, Sandovaes, Tovar a Banda da Cavallaria da Banda, Varellas.

Barra he hum listaõ, que toma o Escudo de alto a baixo. As que trazem Barras, saõ: Aragaõ, Barrayola, Contreiras, França, Godinho, Guimaraens, Nobregas, Patalins, Patto, Refoyos.

Escaques he hum Escudo pintado com as casas do taboleiro do Xadrès, ou em parte, ou em todo.

As que trazem Escaques, saõ: Aboins, Alcaforado, Altro, Areas, Avinhal, Barbança, Barbuda, Bermudes, Buzios, Cotrim Dante, Espindola, Fafes, Folgueiro, Fuzeiro, Gamas, Godins, Magalhaens, Maracote, Negreiros, Pavia, Peixoto, Porto Carreiro, Pretto, Quadros, Raposos, Sà, Sandes, Severim, Souto Mayor, Toledo, Velasques, Utre, Xarce de Valença.

§. VI.

Da origem das Cruzes Floreteadas, Cruzes da Cruzada, e de S. Jorge, que se trazem nos Escudos.

Depois da entrada dos Arabes em Hespanha, se começou a usar das insignias nos Escudos mais ordinariamente em tempo do nosso primeiro Rey D. Afonso Henriques, e de seu primo ElRey D. Afonso VII de Castella, como o mostra doutamente o Chronista Ambrosio de Morales,[103] e o Arcebispo D. Antonio Agostinho;[104] e por isso se pòde dar com razaõ principio às de Portugal des do tempo delRey D. Afonso Henriques para cà. E sendo certo, que em Castella, e em outras partes de Espanha se tomaraõ as Cruzes, Aspas, Luas, e Estrellas pelas occasiaõ da guerra, que naquellas Provincias ouve com os Mouros, podemos ter por conjectura provavel, e quasi certa, que nas que se offereceraõ neste Reyno semelhantes, se deu principio às que cà se trazem.

O primeiro, que pintou Cruz nos escudos, foy o Emperador Constantino, o qual depois, que lhe appareceo este divino sinal no Ceo, o mandou pintar nas bandeiras, e dahi nos escudos. E porque os Capitaens antigos eraõ muito pios, traziaõ os mais delles ordinariamente Cruzes por divisas. Disto temos em Espanha assás de exemplos; porque a primeira insignia, que tiveraõ os Reys de Aragaõ, foy a Cruz, e os primeiros Reys de Leaõ, que succederaõ a ElRey D. Afonso o Casto, a trouxeraõ tambem por armas; e do mesmo modo o Conde D. Henrique, que trouxe huma Cruz chaã. Daqui tiveraõ origem as Armas de Portugal, porque trazendo a mesma Cruz seu filho D. Afonso, depois que ganhou a batalha do Campo de Ourique, em memoria das cinco Chagas, com que Nosso Senhor lhe appareceo Crucificado, partio a Cruz em cinco Escudos, pondo dentro de cada hum trinta circulos, que denotaõ os dinheiros, porque Christo nosso Senhor foy vendido. Alèm disto para ficar lembrança da grande vitoria, que alcançara dos Mouros, atravessou quatro cordoens no escudo, dous em Cruz de meyo a meyo; e dous em aspa de canto a canto, fazendo de outro cercadura, e por todos elles pendurou muitos escudos; posto que quatro, que ficaõ dentro no escudo, e o do chefe da bordadura, saõ notavelmente mayores; e feitos a modo de adargas; estes parecem dos cincos Reys, que alli foraõ vencidos, e os mais seriaõ de outras pessoas principaes, ou dos que ElRey por sua maõ alcançasse. Esta me parece a origem, que tem estes escudinhos, e cordoens delRey D. Afonso, os quaes se vem nesta fórma, assim na sua sepultura em Santa Cruz de Coimbra, como em todos os seus privilegios, depois da batalha, dos quaes estaõ alguns no Cartorio do Cabido de Evora. Porèm D. Sancho I. despejou logo o escudo destes escudetes, como parece entre outros exemplos pelos cunhos dos seus maravidîs; hum dos quaes tenho de ouro do tamanho de hum tostaõ, no qual elle està esculpido de huma parte armado a cavallo com espada na maõ, e da outra os cinco escudos em Cruz, que nòs chamamos Quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais.

Hà com tudo nas mesmas Cruzes, que se trazem por mais, varias differenças; porque humas saõ chaãs, como as de S. Jorge, outras floreteadas, como as de Aviz, outras com as pontas quadradas, como as da Cruzada, e finalmente outras feitas em aspa. As armas de Morimundo Convento Cisterciense eraõ huma Cruz floreteada;[105] quero dizer, era huma Cruz, cujos braços, e haste rematavaõ em flores de liz. E porque Calatrava foy de sua jurisdicçaõ, ficou à sua Ordem huma Cruz semelhante por armas; e depois a Alcantara, e a Aviz, por serem Ordens Militares, que lhe estiveraõ sojeitas.

Mas sem embargo disto dizem muitos Authores, que as Cruzes floreteadas, que se trazem nas armas em Espanha, tiveraõ principio da batalha das Navas de Tolosa, por huma semelhante, que appareceo no Ceo o dia da peleja, como diz largamente Gonçalo Argòte:[106] e posto que elle mostra isto mais propriamente dos Castelhanos, e Navarros, como seja certo, que de Portugal mandou ElRey D. Afonso II. grande socorro a ElRey seu primo D. Afonso IX. de Castella, consta que muitos Fidalgos Portugueses se acharaõ nella, assim por acudirem ao urgente perigo, que toda Espanha corria pelo grande poder dos Mouros, que contra os Christaõs vinha, como por mostrarem o valor de suas pessoas, para o que sahiaõ da patria a buscar semelhantes empresas, quando cà havia paz, e particularmente a Castella, como o testifica o Conde D. Pedro,[107] dizendo, quando trata da tomada de Sevilha: Em aquel tempo os Fidalgos Portugueses hiaõ a Castella muitas vezes, por se provarem pelos corpos, quando em Portugal mesteres naõ havia, &c. Destes foy hum o Conde D. Rodrigo Frojaz Pereira; e assim tomou por armas esta Cruz;[108] e o mesmo se pode entender dos Almadas, Albergarias, e Farinhas, que trazem estas armas, que provavelmente se deviaõ là achar, florecendo entaõ nestas Familias Cavalleiros de muito nome, como em suas linhagens se refere; o mesmo se pòde dizer das outras, que hà no Reyno.

As Cruzes da Cruzada tomavaõ por insignias os que hiaõ à Conquista da Terra Santa, e saõ como as de Christo; como se vè nos Cavalleiros Gaitanes de Castella, e cà as trazem os Pimenteis, e Teixeiras.

Outras Cruzes hà, como as de S. Jorge, que tomaõ os escudos de alto a baixo, e de ilharga.[109] Estas se introdusiraõ por devaçaõ do Santo, por ser advogado da Milicia, e particularmente o invocavaõ os Ingleses, e Portugueses nas pelejas. As que hà em Portugal desta fórma, parece se deviaõ tomar na batalha, que se deu em Alcacere do Sal aos quatro Reys Mouros, que o vinhaõ descercar;[110] porque antes da peleja viraõ os nossos no Ceo hum homem muy resplandecente com huma Cruz vermelha nos peitos; em memoria do qual he de crer, que os que presentes se acharaõ, tomaraõ por insignia este divino sinal na mesma fórma, em que lhes appareceo.

As Familias, que trazem Cruzes floreteadas, saõ: Alarcaõ, Albergaria, Leaõ, Meira, Meireles, Moreiras, Pereiras, Soares de Albergaria, Sisneiros.

As que trazem Cruzes da Cruzada, saõ Bulhoens, Gançoso, Pimenteis, Teixeira.

As que trazem Cruzes de S. Jorge, saõ Almeidas, Atouguia, Beja, Frades, Loja, Mello, Pào, Sarzildes, Veigas.

§. VII.

Aspas.

As Cruzes em Aspa se trazem nas armas por devoçaõ de Santo Andre, como mostra Argòte[111] na Conquista de Baeça, a qual Cidade tomou no dia deste Santo Apostolo o Conde D. Lopo Dias de Haro com 500. Cavalleiros, que foraõ ao socorro do Castello, que os Mouros tinhaõ cercado, e em memoria do favor, que de Santo Andre receberaõ nesta taõ grande vitoria, pintaraõ todos as Aspas nos escudos, alèm das divisas, ou armas, que cada hum jà trazia. Os Navarros daõ esta mesma origem às Aspas, que muitas Familias daquelle Reyno trazem, posto que naõ conste pro historias, que elles se achassem neste feito. Pelo que com razaõ podemos entender, que as Aspas, que muitos Fidalgos deste Reyno trazem por armas, se tomaraõ por outro semelhante caso, que aconteceo na tomada de Beja, a qual foy recuperada pelos Christaõs vespera de Santo Andre com notavel esforço, por ser este hum dos mayores lugares, e mais fortes da Lusitania.

As Familias, que trazem Aspas, saõ: Araujos, Azevedos, Filippes, Gago, Guariços, Miranda, Palameque, Oroscos, Rochas. A Aspa dos Mirandas pòde ser pela razaõ jà dita, se naõ he em memoria do seu solar de Miranda, que està em Asturias, junto a Santo Andre.

§. VIII.

Vieiras.

Conta D. Mauro Ferrer[112] na vida do Apostolo Santiago que trazendo os Discipulos do Santo seu Apostolico Corpo em hum Navio, quando hia para Galliza, se estavaõ fazendo na praya humas grandes festas pela celebraçaõ do casamento de hum principal Senhor da terra de Maya, e que o cavallo, em que andava, se meteo pelo mar atè chegar ao Navio; deixando suspensos a quantos o viaõ, e muito mais o Cavalleiro, por se achar todo cuberto de Vieiras a si, e ao cavallo; e dizendo aos Discipulos o que lhe tinha acontecido, elles lhe declararaõ, que com aquelle milagre quisera Nosso Senhor honrar o Corpo do seu Apostolo, e depois de o bautizarem, soou huma voz do Ceo, que disse como aquellas Vieiras haviaõ de ser a insignia do Santo: e tornando o Cavalleiro a terra com taõ grande milagre, foy occasiaõ da conversaõ de todos. O qual caso alèm de se contar no Santoral de Alcobaça, se confirma pelos versos de hum Hymno, que canta a Igreja de Oviedo a 25. de Julho, que diz assim.

Cunctis mare cernentibus, Sed à profundo ducitur, Natus Regis submergitur. Totus plenas conchilibus.

Diz o Author, que daqui vem muitas Familias nobres de Hespanha trazerem por este caso Vieiras nas armas.

Por razaõ deste principio os Cavalleiros da Espada, que se dedicaraõ a Santiago, logo depois da grande vitoria de Clavijo, trouxeraõ nas bandeiras por sua devoçaõ as Vieiras, e ornaraõ com ellas os Templos, que ao Santo dedicaraõ. Pelo que como este glorioso Patraõ de Hespanha fosse o principal advogado dos Soldados, por devoçaõ sua tomaraõ muitos esta insignia. E assim tenho por muy provavel, que as Vieiras, que se trazem em Portugal, se tomaraõ da batalha do Campo de Ourique, por se alcançar esta vitoria vespera de Santiago, que por ser em tal dia, a deraõ os nossos com certa confiança de vencimento, e vendo que ElRey tomava armas novas por memoria deste feito, faria cada hum o mesmo.

As Familias, que trazem as Vieiras nos Escudos, saõ os Barbosos, Barrosos, Barradas, Calças, Calvos, Calheiros, Camelos, Màrizes, Pimenteis, Rochas, Seraiva, Sequeira, Velhos, Vieyras. Pela mesma devoçaõ de Santiago tomaraõ os Falcoens os Bordoens, que costumaõ trazer os Peregrinos do mesmo Santo.

§. IX.

Meyas Luas.

As Meyas Luas saõ insignias proprias dos Mahometanos, como mostra Joaõ Botero,[113] e o Padre Frey Marcos de Guadalajara na sua Expulsaõ dos Mouriscos,[114] onde dà largamente as razoens, que para isso tem; e assim as trouxeraõ sempre por sinaes em suas bandeiras todos os Principes daquella Seita, como he notorio, e se vè de Argòte,[115] Pelo que os Cavalleiros, que nas batalhas tomavaõ algumas bandeiras aos Mouros, pintavaõ nos Escudos para memoria, e tropheo as mesmas meyas Luas, como se vè em muitas Familias de Castella. Neste Reyno se tomaraõ muitas nas batalhas com os Mouros, e principalmente na de Sevilha. Exemplo seja Gonçalo Mendes de Sousa, que acompanhou ao Infante D. Sancho, quando foy sobre Sevilha, e na batalha de Guadalquibir, tomou aos Mouros quatro bandeiras, e porque cada huma dellas tinha huma meya Lua, tomou por armas no Escudo huma quaderna feita das quatro meyas Luas, e as bandeiras mandou ao Mosteiro de Pombeiro, onde ainda hoje se conservaõ.

De semelhantes casos podemos dizer tiveraõ origem as meyas Luas, que trazem nos Escudos as Familias nobres deste Reyno, que saõ Alardos, Alpoem, Amaral, Bessa, Cassena, Carvalho, Froes, Goes, Homem, Lemos, Pessoas, Pintos, Queiròs, Sousa, Taborda, Valentes, Zagallos.[116]

§. X.

Estrellas.

A mesma occasiaõ tiveraõ as Estrellas; porque ordinariamente usaõ os Mouros, àlem das Luas de cinco Estrellas nas bandeiras, por denotaçaõ dos cinco Planetas, que tem Estrellas, a que chamaõ Errantes, como se vè nas armas do Miramolim Rey de Cordova, Granada, e Baeça, que traz Argòte.[117] Exemplo seja disto Memmonis, que acompanhou ao Infante D. Sancho, quando foy na batalha de Sevilha, do qual se conta na Chronica delRey D. Afonso Henriques, e o refere Duarte Nunes na mesma, fol. 51. vers. que este Fidalgo tomou a bandeira delRey de Sevilha, na qual tinha pintado cinco Estrellas, como refere Gonçalo Argóte de Molina lib. I. c. 44. da Nobreza de Andaluzia, e assim tomou por armas as mesmas cinco Estrellas. Por semelhante occasiaõ trazem os Fonsecas outras cinco Estrellas por armas, por as trazer nas bandeiras ElRey de Lamego, a quem os primeiros desta geraçaõ cativaraõ, e tomaraõ a Cidade. E dahi as tomarão tambem os Coutinhos, que delles descendem. As Familias, que as trazem, saõ Alvellos, Avelares, Barbedos, Barbudos, Çacoto, Coutinhos, Freytas, Macedo, Perestrellos, Rojas, Salazares, Tavares, Leaes.

§. XI.

Arruelas.

Arruelas saõ circulos redondos, que muitos tem para si significarem Escudos; por quanto foy costume entre os antigos tomarem por sinal do inimigo vencido o Escudo, ou Elmo. Porèm Gonçalo Argòte de Molina[118] no liv. da Nobreza de Andaluzia cap. 103. diz que ElRey Artur de Inglaterra, quando instituhio os Cavalleiros da Tabola redonda, que he o mesmo, que mesa redonda, deu por armas a Janazio o Forte (que era hum dos mais valerosos) treze Arruelas, significando na figura de Arruela a mesa redonda; e o numero de treze serem outros tantos os Cavalleiros; porque doze foraõ escolhidos à honra dos doze Apostolos, e o decimo tercio era o mesmo Rey Artur. Depois o Emperador Carlos Magno fez outra companhia de doze Cavalleiros, a que chamou Pares, que quer dizer iguaes; e por isso tambem comiaõ em mesa redonda, onde naõ ha cabeceira.[119] Pelo que muitos Fidalgos, ou por descenderem destes Cavalleiros, ou por se mostrarem semelhantes a elles no valor, e merecimento, tomaraõ por armas as mesmas Arruelas, variando no numero: mas de ordinario eraõ seis, porque parece, que usando do vocabulo, Par, que naõ somente significa igual, mas tambem dous, sendo as Arruelas de pares, as seis montavaõ por doze. Daqui parece, que tiveraõ principio as treze Arruelas, e as seis dos Castros, e as seis Arruelas dos Mellos, e Almeidas, as quaes estaõ metidas entre duas Cruzes dobradas, que tambem denotaõ o mesmo nome de Par. As Familias, que trazem Arruelas, saõ Almeidas, Castros, Doutiz, Ferraz, Gouvea com Cruz dobrada, Mellos, Taveira, Teives.

§. XII.

Flores de Liz.

A origem dos Lirios nos Escudos, parece que se tomou do successo delRey de França Clodoveo,[120] o qual antes que se bautizasse, dizem que trazia no Escudo huns Sapos, depois que se bautizou, lhe appareceo hum Anjo com huns Lirios de Açucena na maõ, a que os Franceses chamaõ Flor de Liz; e lhe mandou, que tirados os Sapos, puzessem por insignias aquellas Flores. Saõ os Lirios hieroglyphicos da perfeiçaõ, da pureza, e da esperança do bem publico, como mostra largamente Pierio Valeriano nos seus Hieroglyphicos;[121] e por ser a mais fermosa Flor de todas, he Nosso Senhor nos Cantares comparado a ella. E no Evangelho disse Christo, que nem Salamaõ em toda sua gloria se vestira taõ ricamente, que chegasse à belleza de hum Lirio. Por estas razoens tomaraõ muitos Cavalleiros as Flores de Liz por armas, e as deixaraõ a seus descendentes, como foraõ os Albuquerques, os Gouveas, &c. Os de Faria trazem as Flores de Liz sobre o Castello, por quanto em cima do monte, donde o Castello de Faria està, permanece ainda hoje huma Igreja antiga de grande devoçaõ, e romagem, que chamaõ Nossa Senhora da Branqueira, a qual fundaraõ alli huns Monges Bentos, que foraõ os primeiros, que de França vieraõ a Portugal; e alli tiveraõ hum celebre Mosteiro, e por serem estes Monges Francos, e de França, puzeraõ nas armas Flores de Liz Francesas. Os de Miranda tambem trazem Flores de Liz Francesas no vaõ da Aspa, a razaõ he, porque se prezaõ de virem de huma Senhora da Casa de França, cuja figura trazem por timbre do Brazaõ numa imagem de Donzella, e em sua memoria puzeraõ tambem os Lizes Franceses no Escudo.

As mais Familias, que trazem Flores de Liz, saõ: Aldana, Atouguia, Borges, Carrilhos, Casal, Frasoens, Guedes, Leytes, Toronhas, Madureira, Maldonado, Marinhos, Martines, Matta, Motas, Moitinhos, Pavias, Rangeis, Reymondo, Rodrigues, Soares de Toledo, Travaços, Varejola.

§. XIII.

Castellos.

Os Castellos saõ antigas divisas das mesmas terras, como se pòde ver largamente na Noticia dos Imperios. Pelo que os mais dos Alcaides, e Senhores, que os tiveraõ por solares, ou os tinhaõ a seu cargo, os tomaraõ por armas. As Familias, que os trazem em Portugal, saõ Alcacevas, Asturias, Barrigas, Benambia, Berredos, Botos, Cameras, Carvalhosa, Castilhos, Celemas, Correlhas, Cotifer, Coutos, Esparragosa, Farias, Frias, Flores, Giroes, e huns Guzmaens com arminhos, por virem dos Duques de Bretanha, que os trazem por armas; ainda que outros trazem Caldeiras de Ricos homens, Horta, Larzedos, Malafaya, Menagem, Mouras, Pinas, Rolins, Saldanhas, Sobrinhos, Tangere, Ternate, Vellez, Vellosos, Zusarte.

§. XIV.

Cifras dos Appellidos.

As insignias mais ordinarias de todas as armas de Espanha saõ a cifra do mesmo Appellido, como confessa Argòte de Molina l. 1. 42. & 43. aonde diz, que os Reys de Leaõ tomaraõ por armas hum Leaõ, como cifra do titulo de seu Reyno de Leaõ, e os de Castella hum Castello. E assim vemos em quasi todos os Appellidos, que significaõ algum sinal, ou instrumento, os daquella linhagem tomarem por armas a mesma figura do Appellido. Os que trazem em Portugal nos Escudos por armas as peças, que significaõ os Appellidos, por cifra, saõ as seguintes. Os de Abreu, ou Avreu, os Cotos de aves; Alvernazes, ramos de Carapeto, alludindo ao verde perpetuo de Veraõ; os de Arco, o arco; os de Agumias, gumiz; os de Aguiar, aguias; os Aranhas, huma aranha; os de Azinhal, azinheira; os Azambujas, hum azambujeiro; os Bacellares, huns bacellos verdes; os do Appellido de Badajoz, a Imagem de S. Joaõ Bautista com a mesma Cidade na maõ, que tomaraõ, por a Sè de Badajoz ser do orago de S. Joaõ Bautista, e ser o Castello a Cidade; Bayaõ, cabras, por haverem sido Senhores de Cabriz; os de Belliagua, as aguas; Bicudo derivado de pecudum, que he gado, hum carneiro; Biscaya, as armas de Biscaya; Biveiro, Caldeiras de Ricos homens; Borreco, borregos; Botilher, humas botelhas; Brandoens, brandões; os Caceres trazem huma palmeira, que he insignia de vitoria; porque ainda que a parte delRey D. Pedro, que seguiraõ, ficou vencida, e elles foraõ desterrados de Castella, ficaraõ com a vitoria de se naõ sogeitarem à parte contraria, e conservando sua lealdade. Tambem se trazem as folhas de Golfaõ, por sinal da vitoria do campo, onde se deu a batalha, como se vè nos Furtados, Montoyos, e Taveiras; Cabral, cabras; Caldeiras; Camoens a serpente, que Cadmo matou, por se prezarem de descenderem delle; Çapatas, humas çapatas; os Cardosos, cardos; os Carneiros, carneiros; Carrascos, hum carrasco; Carvalhaes, hum carvalho, Carvoeiro, matta para carvaõ; Carvalhos, carvalho; Cerveiras, cervas, Chacins, os arminhos por antiphrasi; Chaves, chaves; Cirnes, hum cirne; Coelho, coelhos; Cordovil, oliveira cordovil; Cordeiros, cordeiros; Corvachos, corvos; Costa, costas; Correa, correas, Cotas, huma cota de armas; Couros, a serpe assim chamada, Cogominhos, Chaves, por terem por solar esta Villa, e haverem sido seus Alcaides Mòres; Cunha, cunhas; os Delgados, hum limoeiro com huns limoens de ouro, alludindo à celebre Albergaria de Payo Delgado, que fundaraõ em Lisboa no sitio do Limoeiro; Dragos, dragos; Evangelhos, as figuras dos quatro Evangelistas; Fagundes pelo solar de Chaves, trazem chaves; Farinha, bolos de farinha; Fialhos, tres mundos, alludindo à palavra: Fiat lux; Figueira, humas figueiras; Figueiredo, folhas de figueira; Fogaças, duas fogaças; Fragosos, que; em latim se chamaõ: Fulgosos, tres Soes resplandecentes; Galvaõ, hum gaviaõ. Gaviaõ, huns gavioens; Garcez, garça, Gatachos, e Gatos, huns gatos, os Guantes trazem manoplas (que saõ guantes) de prata; Lagartos, lagartos; Lagos, huma torre com huma ribeira ao pè; Lançoens, Lançoens: Laras, caldeiras de Ricos homens: e do mesmo modo os Manriques: Lobatos, lobos, Lobeira, lobos: Lobia, cordeiros, por ser a relè dos lobos: Lobos, lobos: Lousadas, as lousas dos lagartos: Lucenas trazem hum Sol, alludindo ao nome da luz, da qual he o Sol a fonte: Lucio, o peixe lucio: Lunas, humas luas, Machados: Mattos, matta com leoens: Moraes, amoreira, Monteiros, cornetas de montaria: Nabaes, e Novaes, novellos. Oliveiras, oliveira: os de Ortiz trazem hum Sol, pela equivocaçaõ de Ortus, que por antonomasia, quer dizer o nascimento do Sol, e pela allusaõ do verso do Psalmo: Ortus est sol: Pachecos, caldeiras de Ricos homens: Padilhas, humas paz, Paçanhas, huma banda vermelha com dentes de Serra pelo solar em Genova se chamar Penha, ou Serra roxa, que em nossa linguagem he vermelha: os Pedrosos, cinco pedras em aspa: Perdigão, perdigoens: Perestrellos, estrellas: Pinheiros, pinheiros: os Porras, humas cachaporras: os Puges, humas espòras quasi pungentes, ou picantes: Rego, rego: Ribafria, Castello sobre ribeira: Ribeiros, ondas, Sardinhas, hum ribeiro de sardinhas: Rio, e Rios, faxas de agua: Sarmento, huns sarmentos: Seixos, Pombas seixas: Serniches, humas serras: Serpas, Serpe: os Sylvas, a sylva: Tavora, o rio Tavora: Torquemadas, huma torre abrazada: Tourinhos, touros, Sodres, quasi sobrij, e temperados, tres gomiz: Trigueiros, espigas: Vasconcellos, as ondas dos ribeiros, por descenderem delles: Segurados, cinco machadinhas; que os latinos dizem Securis: Torres, torres: os Correas da Sylva trazem huma pelle de Leaõ, alludindo ser propria morada de Leaõ a sylva, confórme aquillo da Escritura.[122] Hereditas mea, quasi leo in sylva: e que de pelles de Leoens saõ as suas correas.

§. XV.

Descendencia.

Muitas Familias tomaraõ as armas daquella Casa, e Familia donde tiveraõ seu tronco, de que podem ser exemplo as que descendem dos Reys.

Os de Sousa trazem as Quinas Reaes, por casar D. Gonçalo de Sousa com Dona Urraca Sanches, que era sobrinha delRey D. Afonso Henriques; e assim mesmo o Leão, por descenderem de hum filho bastardo delRey D. Fernando o Grande de Leaõ, que foy o primeiro de Castella.

Os Sylvas trazem o Leaõ por armas, por serem descendentes delRey D. Afonso de Leaõ, pay que foy de D. Rodrigo Afonso da Sylva, cuja mãy era Dona Aldonça Martins da Sylva, como refere o Conde D. Pedro tit. 58. §. 2. das suas Linhagens.

O mesmo Leaõ trazem tambem os Telles, por serem descendentes de huma filha delRey D. Ordonho de Leaõ.

Os Limas trazem o mesmo Leaõ, por serem descendentes de huma irmãa delRey D. Afonso Henriques, filha da Rainha Dona Theresa, e neta delRey D. Afonso VI. de Leaõ, e Castella, como se refere na 3. p. da Monar. Lusit. l. 9. c. 23.

Pela mesma causa trazem os Albuquerques as Armas Reaes, por descenderem de hum filho bastardo delRey D. Diniz.

Os de Eça como descendentes delRey D. Pedro de Portugal trazem as Armas antigas Reaes com os cordoens, como as trouxeraõ os primeiros Reys deste Reyno.

Assim mesmo os Noronhas, e Henriques por serem descendentes de D. Afonso, filho natural delRey D. Henrique o Nobre Rey de Castella, e Dona Isabel filha natural delRey D. Fernando de Portugal, trazem o Escudo quarteado das Armas de Portugal, e Castella.

Os Senhores da Casa de Bragança atè o Duque D. Gemes, e os que delles descendem, que saõ os Duques de Cadaval, os Condes de Vimioso, de Odemira, os de Fàro, e os do Vimieiro trazem as Armas de Portugal em Aspa, por descenderem delRey D. Joaõ I.

Os Lancastres trazem as Armas de Portugal, por descenderem delRey D. Joaõ II.

Os Manoeis, ou de Vilhena, como descendentes do Infante D. Manoel, filho delRey D. Fernando o Santo de Castella trazem as Armas, que o mesmo Infante tomou, que foraõ hum Escudo quarteado, numa parte hum Leaõ, que significa o brazaõ dos Reys de Leaõ, e noutra hum braço com huma aza, e na maõ huma Espada, que vem a ser a maõ de hum Anjo, alludindo a sua mãy, que era descendente de Isacio Angelo Emperador de Constantinopla.

Os Lacerdas vem do filho mais velho delRey D. Afonso o Sabio de Castella, e por isso trazem as Armas de Castella, e Leaõ misturadas com as de França, que por sua mãy lhe pertenciaõ.

Os de Mendoça trazem o Escudo dividido em campo verde, e banda vermelha, em cada parte hum S. negro; o Escudo verde tomaraõ do Cid Ruy Dias, de que muitos Authores affirmaõ, que os desta Familia saõ descendentes; o qual como consta do Conde D. Pedro, quando falla da batalha delRey D. Garcia, e D. Sancho sobre Santarem, refere que vendo ElRey de Castella hum pendaõ verde, disse, que tinha em sua ajuda o Cid, por ser muy conhecida esta divisa por sua, e os S. S. trazem por fuziz de cadea, como descendentes dos Furtados de Mendoça, que em Castella trazem sobre o Escudo as cadeas, que tomaraõ no rompimento da batalha das Navas de Tolosa, e as folhas de golfaõ por outra grande vitoria, que alcançaraõ, tomando por armas estas hervas do campo, como refere Argòte de Molina l. 2. c. 110. da Nobreza de Andaluzia.

Os Vasconcellos descendem dos de Ribeira, os quaes tomaraõ por armas as ondas, alludindo à Ribeira. E como os Vasconcellos succederaõ no Senhorio grande dos Ribeiros, e seu illustre sangue, trouxeraõ tambem suas armas.

Os de Alvarenga trazem as mesmas, por serem descendentes dos Vasconcellos.

Os Barbudos pela mesma razaõ.

Os Barretos tomaraõ as armas dos Arminhos, por serem descendentes dos Senhores de Chacim, que foraõ Fidalgos muito principaes deste Reyno; os quaes por contraposiçaõ do nome do solar, que tinhaõ de Chacim, que quer dizer porco, por denotarem sua pureza em toda a materia contra a immundicia do porco, usaraõ de arminhos no Escudo, que saõ os animaes, de quem faz mençaõ Plinio l. 8. cap. 37. que saõ brancos como neve; e delles se diz, que estimaõ tanto a brancura de seu pello, que se lhe cercaõ o lugar, onde se recolhem, de lodo, ou cousa, com que se possaõ manchar, se deixaõ antes prender do caçador, que ficarem sujos. Donde nasceo a celebre empresa: Malo mori, quam fædari. Tomaraõ os Barretos estas armas dos Chacins, por descenderem de Nuno Martins de Chacim, e de Dona Maria Rodrigues Chacim sua filha, com quem casou Martim Fernandes de Barreto, como consta do Conde D. Pedro tit. 39. §. ult. Os Arminhos dos Castanhedas, Botetos, Gayos, e Goyos procedem da mesma descendencia.

Os Fonsecas trazem por timbre hum Bezerro, por descenderem dos Bezerras de Castella, como consta do Conde D. Pedro tit. 66. §. 3.

Os Peixotos trazem por timbre hum Corvo por descenderem de Mem Corvo Alcaide Mòr de Lanhoso, Fidalgo muy conhecido nos tempos antigos; por quanto Joaõ Vaz Peixoto casou com D. Guiomar Annes neta de Mem Corvo.

Os Resendes trazem duas Cabras por armas, por descenderem dos Senhores de Cabriz.

Os Palhas trazem as armas dos Almeidas, por descenderem delles.

§. XVI.

Armas tomadas por casos particulares.

Pertenderaõ os Emperadores de Alemanha, que todos os Reys de Europa se reconhecessem por seus vassallos; e havendo em Roma hum Cavalleiro Alemaõ, que pelas armas defendia este Direito, segundo o Conde D. Pedro conta,[123] D. Sueiro Mendes da Maya o Bom entrou com este Alemaõ em desafio, e vencendo-o libertou o Direito de Hespanha do feudo, que pertendia o Imperio. E dizem os de Amaya seus descendentes, que por este caso tomàra D. Sueiro por armas a Aguia negra do Imperio, que era a que o Cavalleiro Alemaõ defendia.

Conta o Conde D. Pedro no tit. 64. em que falla na Familia dos Valles, que Martim do Valle, chamado da Espada, servindo a certo Conde, outro Conde seu inimigo o matou; e Martim do Valle tomando a espada do Conde seu amo, lidou com o matador, e o matou, donde dizem seus descendentes, que trazem por armas as tres espadas, que saõ a sua, a do Conde seu amo, e a que tomou ao Conde, a quem elle venceo; e por isso foy chamado o da Espada.

Os do Appellido Corte Real trazem sobre as armas dos Costas huma Cruz branca, que dizem ganhàra Vasque Annes Corte Real a hum Cavalleiro, que viera pedir desafio à Corte delRey D. Duarte; e porque o venceo com grande valor, dizem, que disse ElRey, que a sua Corte era Real, quando Vasque Annes estava nella; e daqui tomou elle o Appelido, e o accrescentamento da Cruz nas armas.

Quando ElRey D. Afonso V, passou a Africa a tomar Arzilla, o acompanharaõ cinco Irmãos da Familia dos Pimenteis naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a Cidade, os Mouros se fizessem fortes na Mesquita, donde faziaõ grande resistencia, sem poderem ser entrados: estes irmaõs, tirando os cintos, e atados huns nos outros, os lançaraõ a huma ameya, e sobindo por elles acima, levantaraõ huma bandeira, e por alli foy entrada a Mesquita, e mortos os Mouros. Por este feito taõ honrado, lhe deu ElRey D. Afonso V. por armas em campo de ouro cinco cintos vermelhos com fivellas de prata, e tachoens, e huma bordadura azul com sete Flores de Liz, por timbre hum meyo Mouro com huma azagaya na maõ, e huma bandeira de prata, e por Appellido o mesmo nome de Mesquita.

Estando o nosso Exercito sobre Tangere, veyo hum Mouro a fazer grandes algazares, e pedir desafio, ao qual sahio logo Gabriel Gonçalves Themudo, e correndo com a lança, o derrubou do cavallo abaixo, e lhe cortou a cabeça, e appresentando-se com ella diante delRey D. Afonso, lhe deu em memoria por armas huma Aguia de duas cabeças, com huma cabeça de Mouro aos pès, e cercado o Escudo com hum cordaõ de S. Francisco; por haver acontecido em seu dia este valeroso successo.

Gonçalo Pires Bandeira, naõ só se houve na batalha do Touro com grande valor, mas vendo, que hum Cavalleiro Castelhano levava presa a bandeira Real de Portugal, investio com elle, e lha tomou das maõs, e a libertou;[124] e por este feito insigne ElRey D. Joaõ II. lhe deu por armas huma bandeira branca com hum Leaõ nella de prata, denotando na bandeira a Real, que libertàra, e no Leaõ o valor, e esforço, que neste caso mostràra. E assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeaõ.

Fernaõ Gomes natural de Lisboa, se obrigou a ElRey D. Afonso V. a continuar o descobrimento da Costa de Africa, que tinha começado o Infante D. Henrique.[125] E porque comprio este intento com grande diligencia, e descobrio a Mina, donde veyo tanta copia de ouro a Portugal, lhe deu ElRey D. Joaõ II. o Appellido de Mina, e por armas hum Escudo em campo de prata, e nelle tres meyos Ethyopes de preto dos braços para cima em roquete, com colares de ouro ao pescoço, arrecadas nas orelhas, e nos narizes.

Diogo Caõ Capitaõ de valor hindo por mandado delRey D. Joaõ II. descobrir a Costa de Ethyopia, foy o primeiro, que deu noticia do Rio Zaire, em cuja boca poz hum padraõ; em razaõ do qual se chamou tambem Rio do Padraõ, e foy o primeiro, que descobrio o Reyno de Congo, e deu noticia de nossa Santa Fè àquelle Rey.[36.] Em memoria deste feito lhe deu ElRey por armas duas Colunnas, ou Padroens de prata com duas Cruzes em cima pelas que poz neste descobrimento, em que chegou atè o Cabo da Boa Esperança.

Depois que o grande Vasco da Gama veyo do descobrimento da India, entre outras merces, que ElRey D. Manoel lhe fez em remuneraçaõ de taõ heroico feito, foy huma, que elle podesse trazer no meyo de suas armas as Quinas Reaes de Portugal;[126] porque assim como com este descobrimento se accrescentava o Reyno de Portugal por aquella parte do Mundo de Asia, assim era razaõ, que quem abrira caminho a este novo senhorio de Portugal, participasse das Reaes insignias delle.

Vasco Fernandes Cesar andando guardando o Estreito com huma Caravella, lhe sahiraõ seis Galeòtas de Mouros, que apartadas em duas alas o investiraõ, porèm elle com incrivel valor as venceo todas.[127] Pelo que ElRey D. Joaõ lhe mandou accrescentar ao Escudo de suas armas as seis Galeòtas, e a sua, com que elle venceo, por Timbre do Escudo.

Em hum socorro, que ElRey D. Manoel mandou a Arzilla, foy Christovaõ Leitaõ por Capitaõ de Infantaria, onde por seu esforço, e industria defendeo huma Torre, que quasi os Mouros tinhaõ entrada. Pelo que ElRey D. Manoel lhe concedeo, que sobre as armas dos Leitoens posesse a Torre de Arzilla encravada de settas em campo vermelho, e em outro quarto duas bombardas, que tomàra aos Mouros.

Nicolao Coelho foy hum Fidalgo de grande valor,[128] a quem ElRey D. Manoel deu a Capitanîa dum Navio, para hir em companhia do Grande Vasco da Gama a descobrir a India, no que elle se houve com grande esforço, e prudencia; e quando voltou, chegou primeiro a Cascaes, que Vasco da Gama. E por elle soube ElRey todo o succedido naquelle descobrimento. Pelo que entre outras mercès, que ElRey D. Manoel lhe fez, lhe deu por armas em campo vermelho hum Leaõ rompente entre duas colunnas de prata, que estaõ sobre huns montes verdes, e em cima de cada huma, hum Escudo com cinco dinheiros, e ao pé o mar; no que significou os padroens, que deixou postos no novo descobrimento do mar, e terra do Oriente; e no Leaõ o valor, com que neste heroico feito se houve.

Levantando-se o Rey de Barem contra ElRey de Ormuz, cujo tributario era, foy mandado Antonio Correa por Capitaõ da nossa gente, para que reduzisse o Mouro à obediencia delRey de Ormuz.[129] Antonio Correa se houve nesta empreza com tanto valor, que tendo o Rey de Barem muita mais gente, elle o desbaratou, e matou, e senhoreando-se da Ilha, a restituhio a ElRey de Ormuz. Por este heroico feito lhe deu ElRey o Appellido de Barem, e lhe acrescentou nas armas huma cabeça de hum Rey Mouro coroada, cortada em vermelho com a Coroa de ouro.

Duarte Coelho foy hum Fidalgo de grande esforço na India, e hum dos primeiros nossos Capitaens, que chegou à China.[130] Pelo que ElRey D. Joaõ III. lhe deu a Capitanîa de Pernambuco para a povoar, e pacificar; o que elle fez com grande valor, e trabalho, e com tanto fruto, que ficou sendo Pernambuco a mais rica, e populosa Capitanîa do Brasil. E assim ElRey D. Joaõ III. no anno de 1536. entre outras mercès, que lhe fez; lhe deu novas Armas, que foraõ em campo de ouro huma Cruz chãa affirmada em hum pè de verde, e hum Leaõ de purpura passante, e hum chefe de prata com cinco estrellas de ouro, e huma bordadura de azul com cinco castellos de prata. A Cruz denòta seu solar, e senhorio de Pernambuco na terra de Santa Cruz, que este nome lhe deu seu descobridor; e as cinco estrellas significaõ o Cruzeiro do Polo Antartico, por o Brasil ficar no outro Emispherio; o Leaõ, o valor, com que se houve na Conquista daquella Capitanîa, e por serem proprios dos Coelhos os cinco castellos por outras tantas povoaçoens, que na Capitanîa fizera.

Luiz Loureiro foy hum Fidalgo muy celebrado neste Reyno por seu grande esforço, o qual sendo Capitaõ de Mazagaõ, foy sobre a Cidade de Azamor, e lhe deu o assalto sobindo elle primeiro pela escada ao muro, e levantando a sua bandeira, foy a Cidade entrada, e saqueada. Pelo que ElRey D. Joaõ III. no anno de 1551, entre outras mercès lhe deu por Armas o campo esquartelado; ao primeiro em campo vermelho hum castello de prata, e elle arrimado a huma escada de ouro, e ao contrario huma bandeira branca com a haste de ouro, como trazem seus descendentes juntamente com as Armas dos Figueiredos, de quem elle descendia.

Lopo Rodrigues Camello foy muy aceito a ElRey D. Sebastiaõ, pelas boas partes, que nelle havia de erudiçaõ, e cortesia, e haver visto muitas Provincias de Europa. E quando ElRey foy a Coimbra, vindo de S. Marcos por Tentugal, achou a ponte do Mondego quebrada; e querendo passar a valla, Lopo Rodrigues, que hia só com ElRey, lhe disse, que aquelle passo era perigoso. Ao que ElRey tornou: Ora passay primeiro. Respondeo Lopo Rodrigues: Se Vossa Alteza me engana, ditoso engano he esse. Entaõ se deitou na valla, e ficou cravado só com o pescoço, e hum braço fóra. Quando ElRey o vio em taõ grande perigo, lhe pedio a maõ, e tomando-o ElRey por ella, em pouco espaço o poz em terra. Lopo Rodrigues, porque deste caso ficasse a seus descendentes memoria, lhe pedio, que lho desse por Armas, ElRey lhas concedeo, e as mandou debuxar no escudo desta fórma: em campo de agua com hum braço vestido de ouro, e outro braço; como que sae da agua, de cor azul, e o braço do Rey o tem apertado pela maõ, como se vè esculpido sobre o seu sepulchro na Igreja de Nossa Senhora da Luz.

§. XVII.

Origem dos Timbres.

Saõ parte das Armas os Timbres, que hoje se trazem sobre os Elmos, o qual uso he antiquissimo, assim entre os Gregos, e Romanos, como nos Alemaens, segundo se vè de muitos lugares de Virgilio na guerra Troyana, e no Catalago da gente, que veyo em favor de Turno contra Eneas. E Plutarco escrevendo a vida de Mario, diz[131] que a cavallaria, dos Cymbros fazia terrivel apparencia tanto pelo resplandor das Armas, que traziaõ vestidas, como pela variedade das cimeiras, ou timbres, que cahiaõ sobre as celadas, que representavaõ diversas figuras de feras: Galeas, diz elle, ornatas horrendis hiantium animalium formis ferebant, &c. Teve este costume principio das gàleas, ou capacetes, que era armadura da cabeça feita antigamente de couro; a qual para mayor bravosidade, e fortaleza ornavaõ por cima com a cabeça do animal, cujo elle fora: e depois vindo-se a usar a mesma gàlea de ferro, naõ perdeo com tudo a forma antiga, ainda que mudou a materia, como se vè em Alexandre ab Alexandro;[132] e parece ainda das medalhas, e estatuas antigas dos Romanos, e Gregos. Os paquifes ou folhagens, que acompanhaõ os timbres, tiveraõ principio dos penachos dos elmos, como parece do mesmo Author.

Tambem os Principes, e Senhores Titulados trazem Coroneis em cima dos elmos, o qual costume, segundo se vè de Plinio, era ja introdusido em seu tempo. Porque tendo as Familias Nobres de Roma nos pateos das casas por insignias as imagens de seus antepassados de pào, ou cera, com as cores, e proporçoens de cada huma a mais natural, que podia ser; diz Plinio, que em seus tempos usavaõ jà em lugar destas imagens, huns escudos de bronze, no meyo dos quaes entalhavaõ de meyo relevo em prata os rostos de seus mayores, ornando-lhes as cabeças com as insignias triumphaes, ou quaesquer outras Coroas, que lhes competiaõ, como costumavaõ às imagens de vulto. Porèm vindo-se depois a perder as artes com a entrada das Naçoens barbaras do Norte; se contentaraõ de pòr em cima dos escudos pintados os elmos sómente em memoria dos rostos, com as coroas, cristas, ou cimeiras, que he o mesmo, que os Franceses chamaõ Timbre, que lhes competiaõ. Do elmo descem penduradas duas correas, que parece tiveraõ principio do Baltheo, ou tiracollo, insignia propria da Milicia Romana.

§. XVIII.

Dos Officiaes que os Reys de Portugal crearaõ para conservaçaõ das insignias dos Nobres, e da Casa das Armas de Cintra.

Na conservaçaõ das Armas da Nobreza poseraõ os Reys muito cuidado,[133] entendendo, que foraõ ganhadas pelo valor dos Fidalgos deste Reyno, na recuperaçaõ delle. E como a grandeza, e segurança de seus Estados consistia no valor dos Nobres, por galardaõ, e agradecimento de tantos serviços, procuraraõ conservar as Armas de cada Familia. Foy este intento taõ antigo nos Reys de Portugal, que se conta na Chronica delRey D. Fernando cap. 30. que mandou fazer hum rico paramento todo bordado de aljofares com as Armas dos Fidalgos de Portugal, de modo, que naõ tiveraõ menos cuidado da conservaçaõ dos seus brazoens, que dos Appellidos; querendo, que só aquelles, a quem de direito tocavaõ, fossem honrados com ellas. Para isto ordenaraõ os Reys de Armas, em cujos livros mandaraõ pintar as insignias de todas as Linhagens do Reyno.

Começaraõ estes Officios em tempo delRey D. Joaõ I. porque atè entaõ, pelas poucas mudanças, que houve em Portugal, eraõ todos os Nobres conhecidos; e pacificamente possuhia cada hum as heranças, e honras, que de seus passados alcançàra. Porèm como por morte delRey D. Fernando se seguiraõ taõ largas, e continuadas guerras sobre a successaõ desta Coroa, sustentando huns as partes da Rainha Dona Brites filha do morto Rey D. Fernando, e mulher delRey D. Joaõ de Castella, e outros, as do Mestre de Aviz, e Rey D. Joaõ I. de Portugal, foy tanta a variedade, e alteraçaõ das cousas, que com razaõ diz o Chronista,[134] que começou entaõ neste Reyno, em certo modo, a setima idade do mundo; porque graõ parte das Familias Nobres, que seguiraõ a opiniaõ de Castella, ficaraõ extinctas, e acabadas de todo, e algumas, que sustentaraõ as partes delRey D. Joaõ I. foraõ de novo levantadas a grande lugar. Estes, como naõ eraõ dantes conhecidos, para se acreditarem com o povo, tomaraõ em muitas partes os Appellidos, e Armas de outras Familias antigas, que lhes naõ pertenciaõ. E assim diz o mesmo Author, que no dia da batalha de Aljubarrota estavaõ as Bandeiras dos Aventureiros cheyas de varias Armas, e insignias, que a muitos naõ competiaõ. Pelo que considerando ElRey D. Joaõ I. depois de ter o Reyno pacifico, como a confusaõ desta materia era de graõ prejuizo à Nobreza, movido do exemplo dos Reys de Inglaterra, com quem estava aparentado, introdusio o Officio dos Reys de Armas: e de entaõ para cà os hà em Portugal. Prova-se isto, porque Fernaõ Lopes na 2. p. cap. 39. da Chronica deste Rey dà a entender claramente, que atè o tempo da batalha de Aljubarrota os naõ houve; e o mesmo parece das historias dos outros Reys atè entaõ, nas quaes senaõ acha feita mençaõ alguma de Reys de Armas; e com tudo de entaõ para cà se trata delles nas Chronicas dos Reys ordinariamente nos lugares, que lhes cabe. Pelo que he evidente; que ElRey D. Joaõ foy o primeiro, que os mandou vir a Portugal. Porém vendo ElRey D. Manoel, como ainda esta materia naõ estava em sua perfeiçaõ, mandou Antonio Rodrigues seu Rey de Armas às Cortes dos mais dos Principes Christaõs a saber em particular as obrigaçoens, e usos, que os Officiaes da Nobreza tinhaõ: e depois que assentou a ordem, que se havia de guardar, poz o nome, ou (como se diz nos livros de Armaria) bautizou de novo fallando equivocamente, com grande solennidade nos Paços da Ribeira tres Reys de Armas com seus Arautos, e Passavantes; e mandou ver as Sepulturas do Reyno para dellas se notarem as armas, e insignias dos Fidalgos; de muitas das quaes fez pintar os Escudos com suas cores, e Timbres em huma fermosa sala, que para isso mandou edificar nos Paços de Cintra; e deu comprido Regimento aos Officiaes da Armaria para a conservaçaõ da Nobreza, e armas das Familias, de modo que naõ houvesse mais a confusaõ antiga.

Na Casa de Cintra naõ estaõ todos os Brazoens, porque naõ cabiaõ, e só se pintaraõ os das Familias, que entaõ parece andavaõ na Corte, e no serviço do Paço.

No meyo do tecto da Sala estaõ as Armas Reaes de Portugal, ao redor as do Principe, Infantes D. Luiz, D. Fernando, D. Afonso, D. Henrique, D. Duarte, Dona Isabel, Dona Brites.

Em baixo se vem 74. Brazoens, com o que està sobre a porta, de diversos Appellidos, pendurados cada hum do collo de hum Veado, que nos cornos tem o Timbre; estaõ em dous circulos, que por o serem, naõ ha nelles precedencia; e por isso vaõ aqui pela ordem das letras.

A

Abreu, Aboim, Aguiar, Albergaria, Albuquerque, Almada, Almeida, Andrada, Arca, Azevedo, Ataide.

B

Barreto, Betancor, Borges, Britto.

C

Cabral, Carvalho, Castelbranco, Castro, de seis Arruelas, Castro de treze, Coelho, Corte Real, Costa, Coutinho, Cunha.

E

Eça

F

Faria, Ferreira

G

Gama, Goes, Gouvea, Goyos.

H

Henriques.

L

Lemos, Lima, Lobatos, Lobeiras, Lobo.

M

Malafaya, Manoel, Mascarenhas, Meiras, Mellos, Mendoça, Meneses, Miranda, Moniz, Motta, Moura.

N

Nogueira, Noronha.

P

Paçanha, Pacheco, Pereira, Pimentel, Pinto.

Q

Queirós.

R

Ribafria, Ribeiro.

S

Sà, Sampayos, Sequeira, Serpa, Serveira, Sylva, Sylveira, Souto-Mayor, Sousa.

T

Tavares, Tavora, Teixeira.

V

Valente, Vasconcellos, Vieira.

Por baixo ao longo da aba do forro deste tecto estaõ escritos estes quatro versos nos quatro lados das paredes da Casa com letras palmares de ouro.

Pois com esforço, e leaes Serviços foraõ ganhados Com estes, e outros taes Devem de ser conservados.

Desta casa faz mençaõ Damiaõ de Goes na Chronica delRey D. Manoel, quarta parte cap. 86. fol. 112. com estas palavras: Mandou ver todalas sepulturas do Regno, para dellas se notarem as armas, e insignias, e letreiros, que nellas havia, das quaes armas mandou no Paço de Sintra pintar todolos Escudos com suas cores, e Timbres em huma fermosa Salla, que para isso mandou fazer: àlem do que mandou fazer hum livro muito bem luminado, em que estaõ pintados os mesmos Escudos da linhagem da Nobreza destes Regnos, &c.

Succederaõ estes Reys de Armas modernos aos Antigos Feciales Romanos,[135] que eraõ os que publicavaõ as pazes, e guerras nos Exercitos, de que faz mençaõ muitas vezes Livio, e outros Autores Latinos. Este cargo tinhaõ entre os Gregos os Caduceatores, e entre Carthagineses os Trombetas, e outros em outras Provincias, segundo o uso de cada Naçaõ. Diogo do Monte citado por D. Sebastiaõ de Covarruvias[136] affirma, que Julio Cesar instituhio certas dignidades, que se davaõ a doze Cavalleiros antigos depois de jubilados na Milicia; os quaes levavaõ nas vestiduras as insignias do Principe, e nenhumas armas offensivas; porque estes naõ pelejavaõ, mas advertiaõ, e notavaõ sómente os feitos valerosos dos Soldados; para que depois se desse o premio aos benemeritos, e esforçados, e lhes deu nome de Heroes, e diz que Carlos Magno renovou estes cargos com as mais cousas do Imperio Latino; e do nome Heroes se disseraõ Heraldos, e Heraos, como os chamaõ em França. E assim tiveraõ antigamente grande authoridade, e delles usaraõ os Principes de Alemanha, Inglaterra, Castella, e Portugal.

Ha tres especies delles, os primeiros, e menores saõ chamados Passavantes, os quaes tem o nome da principal Villa da sua Provincia. Estes antigamente tinhaõ por officio andar por varias Provincias vendo os usos, e costumes dellas. Os segundos se chamaõ Arautos, e eraõ ordinariamente os interpretes dos Reys, e os que levavaõ seus recados na guerra, de que ha assaz de exemplos na historia delRey D. Afonso V. e na de D. Carlos V. Emperador, e Rey de Castella: para o que quasi de todas as gentes tiveraõ salvo conduto. Tomaraõ o nome da principal Cidade do Reyno. Ultimamẽnte saõ os Reys de Armas, que se intitulaõ do nome da Provincia.

Neste Reyno ha tres Officiaes de cada Provincia, cada hum de sua especie. Os nomes de que usaõ, saõ Rey de Armas Portugal, Arauto, Lisboa, Passavante, Santarèm, Rey de Armas Algarve, Arauto Sylves, Passavante Lagos, Rey de Armas India, Arauto Goa, Passavante Cochim. Os Reys de Armas tem obrigaçaõ neste Reyno, segundo o Regimento, que lhes deu ElRey D. Manoel, de cada hum em sua Provincia fazer hum livro, em que se escrevaõ todas as Familias dos Nobres, e Fidalgos, que nella vivem, apontando os casamentos, e filhos, que cada hum ha; e fazendo disso arvores certas, e distintas com seus nomes; e por este trabalho manda ElRey lhe dem os Fidalgos suas gajas. Tem mais obrigaçaõ de fazer, que cada hum traga as armas, que lhe pertencem de direito, e de visitar cada qual sua Provincia de dous em dous annos. Manda-lhes assim mesmo ElRey se appliquem ao estudo da Armaria, de maneira que entendaõ as causas, porque se deraõ as armas a cada Familia; e as possaõ explicar, quando lhe pedirem as declaraçoens, assentando tudo em seus livros. Obrigados a por em lembrança todos os feitos de armas, que em suas Provincias passarem; e assim mesmo as mesagens, recados, torneos, justos, retos, e desafios, especificando os actos de cada cousa, como na verdade passaraõ. Manda que elles sós possaõ passar as Cartas de Armas, que se pedirem de novo, appresentando as petiçoens aos Desembargadores do Paço; hum dos quaes farà exame de testemunhas, porque conste, que o que pede a Carta de armas, he daquella linhagem, e lhe pertence, e que só o Rey de Armas as assinarà.

Tem tambem obrigaçaõ de assistirem nos levantamentos dos Reys, nos actos das Cortes, nas entradas solennes das Cidades, e nos Exercitos, quando os Principes se achaõ nelles. Acompanhaõ nos actos publicos aos Fidalgos, a quem os Reys daõ novos Titulos, assistem nas mesas ao comer dos Reys, e quando vaõ fóra pela Cidade, e finalmente nos enterros, e exequias. Estas saõ as obrigaçoens dos Reys de Armas, muitas das quaes naõ sey se se cumprem, e se he por descuido, ou pelos poucos premios, que recebem de seu trabalho; porque tirando a assistencia, que fazem aos Principes nos actos publicos, e acompanhamentos, e o passar as cartas ordinarias de Armas, no apontar as geraçoens, naõ vi memoria alguma. Porèm acudiraõ a esta obrigaçaõ alguns particulares, movidos do zelo do bem commum, por naõ se acabar a memoria da Nobreza de todo. E deixando o primeiro, que isto fez em Portugal, que parece foy conhecidamente o Conde D. Pedro, filho delRey D. Diniz (a quem deve a Nobreza de Espanha isso, que se della sabe, como confessaõ os Historiadores Castelhanos.) Depois delle seguio esta empresa no que toca a este Reyno sómente Xisto Tavares Quartanario da Sè de Lisboa continuando algumas Familias, de que tratou o Conde. Porèm ainda que o fez com diligencia, escreveo de poucas. Imitou-o Damiaõ de Goes Chronista Mór, e fez o livro de Geraçoens, que hoje està na Torre do Tombo imperfeito, por lhe naõ dar a vida lugar ao acabar de todo, e assim tratou sómente de poucas Familias. O Cardeal D. Henrique, como Principe taõ zeloso, encommendou esta empreza a Gaspar Barreiros Conego de Evora, na qual elle confessa, que trabalhou muito, porèm naõ lhe deu fim: e por sua morte encarregou o Cardeal o livro ao Bispo Jeronymo Osorio, que o acrescentou de algumas cousas; e por seu fallecimento o recolheo o Bispo Capellaõ Mòr D. Jorge de Ataide. D. Antonio de Lima fez tambem hum Nobiliario collegido dos livros dos Registos dos Reys muy apurado, e bom. Outro livro compoz tambem de Geraçoens Diogo de Mello Pereira Prior de Tentugal, parte do qual chegou a se imprimir; mas por justos respeitos, e defeitos, que tinha na composiçaõ, foy mandado tirar da imprensa. Destes livros, e doutros, que nesta materia fizeraõ muitos Fidalgos, se tem tirado muitas arvores de Geraçoens; as quaes para serem perfeitas, costumaõ os Italianos fazer com os retratos naturaes de cada pessoa dentro no seu circulo, e à roda delle lhe escrevem o nome, e em cima lhe poem a insignia da dignidade, que teve, como o Coronel, sendo Titulado, a Mitra, ou Chapeo, sendo Cardeal, ou Pontifice: aos Santos cercaõ os circulos de resplandores; aos Generaes dos Exercitos poem por insignia o Bastaõ; aos Capitaens da Cavalleria, o Elmo; e aos Cavalleiros das Ordens Militares assentaõ os circulos sobre as mesmas Cruzes; e do tronco da arvore penduraõ o Escudo das Armas da tal Familia.

Na explicaçaõ das Armas fizeraõ os Officiaes da Nobreza pouca mais diligencia; porque usando sómente de certos livrinhos estrangeiros, que trataõ das cores, e metaes dos Escudos, todo seu intento poseraõ em explicar estas cores; dizendo, que o vermelho significa sangue, o branco pureza, e assim outras cousas vulgares, que de cada cor, e metal ordinariamente se dizem, e por aqui explicaõ com regras geraes todos os Brazoens. O mesmo quasi fazem das peças dos Escudos, dizendo que os animaes saõ mais nobres, que as plantas, e estas, que os metaes, e os metaes, que os edificios, e outras cousas semelhantes contra toda a boa razaõ. Porque deste modo ficavaõ sendo mais nobres as Armas de hum particular, que tivesse no Escudo hum Lobo, ou hum Leaõ, que naõ as de hum Rey, que tivesse hum Castello, ou huma Cadeya; como saõ os de Castella, e de Navarra, ou huns Escudos, como os de Portugal. Pelo que com razaõ reprovaõ esta opiniaõ Thomaz Garsone[137] na sua Praça universal, e Gregor. Lopez Madeira[138] nas Excellencias da Monarquia de Espanha; os quaes resolvem, que a Nobreza das Armas naõ se hà de regular pelas cores, ou materiaes, de que constaõ; mas pela dignidade de quem as traz, ou pela bondade do acto, em que foraõ ganhadas. Sò na ordem de trazer as Armas poseraõ mayor cuidado, ordenando que sò os Chefes tragaõ as Armas direitas, que he o mesmo, que sem differença; e a todos os outros filhos segundos se lhes poem alguma peça no Escudo para differença. Esta peça se toma ordinariamente das Armas dos Avòs. E sendo muitos irmaõs, o primeiro tem a escolha para tomar a melhor differença, Ve-se isto muy distinctamente na Casa das Armas de Cintra, onde mandou ElRey D. Manoel pòr as suas no meyo, e à roda as de todos os seus filhos; dos quaes hum tomou por differença as de Castella, outro as de Aragaõ, outro as de França, Inglaterra, &c. cada hum por sua precedencia. Quando pintaõ os Escudos, os poem sempre inclinados para a parte direita; posto que os Chefes os trazem hoje direitos com os elmos fronteiros, havendo algum animal no Escudo, ou outra peça, se poem tambem por Timbre: ninguem sendo Chefe pòde trazer as Armas com outra mistura, tirando se o for de muitas geraçoens; porque entaõ as poderà trazer juntas. Os outros podem usar das dos quatro Avòs, quarteadas, ou das de sua mãy sómente. As mulheres trazem as Armas em Escudos quadrados postos com a ponta para cima, partindo o campo em palla, e deixando a parte direita delle para as Armas do marido.

§. XIX.

Do modo, com que saõ postos os nomes aos Officiaes da Armaria.

ElRey D. Manoel depois, que mandou fazer o Regimento dos Officiaes da Armaria, diz Damiaõ de Goes no cap. 80. da 4. p. da sua Chronica, que em Lisboa nos Paços da Ribeira fez hum acto publico muito solemne, em que deu nome a todos os Reys de Armas, e Arautos, e Passavantes destes Reynos, a cada hum delles separadamente da sua Provincia. Pelo que me pareceo bem pòr aqui as ceremonias, com que estes actos se fazem; porque alèm de pertencerem a este lugar, atègora as naõ vî escritas em outra parte. Estando ElRey sentado debaixo do Docel em Sala publica, vem o novo Passavante, e o Rey de Armas o appresenta sem cotta, nem Brazaõ diante delRey, e posto o Passavante de joelhos faz o juramento seguinte. Foaõ Passavante juro a estes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que bem, e verdadeiramente, e com todo o cuidado, e diligencia aprenda todo o que necessario for ao nobre officio das Armas, para que dignamente possa passar, e ser acrescentado ao officio de Arauto, e de Rey de Armas, quando ElRey Nosso Senhor disso houver por seu serviço de me prover. E assim juro em todo o que pelo dito Senhor, e por aquelles, que para elle seu lugar tiverem, me for mandado, que de meu officio de Passavante faça, e farey toda a fidelidade, cuidado, e diligencia, assim como devo, e saõ obrigado fazer ao serviço de meu Rey natural, e Senhor.

Acabado o juramento, o Copeiro Mòr traz huma taça de prata branca com agua, e sem cobertura, e o Veador huma toalha, e dando o Copeiro Mòr a taça a ElRey, lhe lança por cima da cabeça huma pouca, e lhe poem o nome da Villa, que quer, e o principal Senhor, que està na Sala, toma a toalha da maõ ao Veador, e a dà a ElRey para alimpar as maõs. Feito isto, o Rey de Armas lhe poem o Brazaõ no peito à parte esquerda, e veste a cotta de Armas atravessada, como he costume trazerem os Passavantes, e depois de vestidos, assim elles, como os mais Officiaes de Nobreza, e o Rey de Armas bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro Mòr dà ao Passavante a taça de prata, em que esteve a agua, a qual leva na maõ, porque de direito lhe pertence.

O Arauto vem a este acto vestido, ainda como Passavante, e acompanhando-o diante todos os Officiaes da Nobreza, leva-o pela mão o principal Rey de Armas, o qual o appresenta diante delRey: o Arauto entaõ posto de joelhos com a mão em hum Missal, que o Rey de Armas tem aberto, faz o juramento seguinte.

Juro aos Santos Evangelhos nas maõs do Rey de Armas Foaõ, que bem, e fiel, e lealmente servirey a ElRey Nosso Senhor toda a minha vida, e me naõ mudarey, nem passarey para nenhum outro Rey, nem Principe, nem mudarey o nome, que pelo dito Senhor me he posto, resalvando, se para elle o dito Senhor me der licença.

Juro assim mesmo, que em qualquer maneira, e em qualquer tempo, que sentir danno, ou proveito do dito Rey Nosso Senhor, que a meu officio toque, e pertença, o revelarey, e direy a sua propria pessoa, ou a quem por elle me for mandado, resalvando em guerra, se o dito Rey nosso Senhor com algum Rey, ou Principe a tivesse, ou com qualquer outra pessoa, a que por meu officio saõ obrigado guardar segredo, assim a meu Senhor, como à parte contraria.

Juro assim mesmo, que em todas as mesagens, recados, embaixadas, de que for encarregado, assim pelo dito Rey Nosso Senhor, como pelos que seu lugar, e mandado para elle tiverem, como de qualquer outro Rey, ou Principe; posto q́ estè em imizade com o dito Rey nosso Senhor, farey verdadeiras, e fieis relaçoens: inteiramente direy, e fallarey o que me for dito, e mandado, e naõ acrescentarey, nem minguarey disso cousa alguma por odio, dadivas, nem prometimento, nem por outro respeito algum, e em tudo farey verdade, servirey fielmente, &c.

Juro assim mesmo, que quando me achar em algumas justas, ou torneos, ou em guerras, escaramuças, desafios, assaltos, ou em quaesquer outros actos de guerra de qualquer sorte, e qualidade que sejaõ, sempre diga fiel, e verdadeiramente tudo aquillo, que vir por meus olhos à boa fé, e sem engano, nem malicia, e sem acrescentar, nem diminuir alguma cousa em nenhum modo que seja; e de tudo farey verdadeiro, e fiel testimunho, sem tirar, nem minguar, nem acrescentar a honra, e louvor, e fama de nenhuma pessoa por nenhum respeito que seja.

Juro assim mesmo, que serey verdadeiro, e leal, fiel, secreto a todo o Estado de Nobreza; e tudo o que for dito em segredo, naõ sómente nestes Reynos, e seus Senhorios, mas em qualquer outro Reyno, em que me achar, ou Senhorio.

Juro assim mesmo, que naõ farey desafio, nem entrevirey nelle entre nenhumas pessoas de qualquer qualidade, e condiçaõ que sejaõ, sem mandado Especial delRey nosso Senhor.

Juro assim mesmo, que qualquer dadiva, bem, ou honra, que receber de qualquer Rey, Principe, ou Senhor, a que por ElRey Nosso Senhor for enviado, ou por quem seu lugar, e mandado para elle tiver, o direy a ElRey Nosso Senhor: e assim a quaesquer outros Reys, e Principes, se por elles por isso for perguntado, naõ direy mais, nem menos, do que receber, nem me for feito por tal, que verdadeira, e fielmente notifique a Nobreza de cada hum.

Acabado o juramento traz o Copeiro Mòr huma copa dourada sem cobertura com agoa, e o Veador a toalha; e ElRey na fórma ja dita lança a agoa pela cabeça ao Arauto, e lhe poem o nome da principal Cidade, que ha por bem, e tomando ElRey a toalha na fórma jà dita, o Rey de Armas vira a cota ao novo Arauto, e lhe poem o Brazaõ à maõ direita, publicando todos os Officiaes da Armaria em voz alta por tres vezes o nome do mesmo Arauto. O que feito bejaõ a maõ a ElRey, e o Copeiro dà a Copa ao novo Arauto, que a leva na maõ por ser de direito sua.

Quando ao Rey de Armas se lhe poem o nome, vay tambem ao Paço acompanhado de todos os Officiaes da Nobreza vestidos com suas còtas, e postos de joelhos diante delRey, faz o juramento seguinte em hum Missal, que o principal Rey de Armas tem na maõ, dizendo.

Juro a estes Santos Evangelhos nas maõs de Foaõ Rey de Armas, que bem, e verdadeiramente darey do livro de meu Regimento das Armas aos Nobres as armas, que direitamente se lhes pertencem, segundo a ordem, e Regimento, que para elle me he dado por ElRey Nosso Senhor, que em tudo guardarey, cumprirey: e que por temor, nem por amor, nem por dadiva, nem por prometimento; nem por outro nenhum respeito, naõ farey nisso cousa, que naõ deva; e finalmente guardarey nisso a justiça, e direito da parte a que tocar.

Juro assim mesmo, que quando for enviado com algum Embaixador, que ElRey Nosso Senhor enviar, serey com todo o cuidado diligente a seu serviço, e fielmente farey, cumprirey tudo o que me for mandado, e com minha cota de armas vestida entrarey onde quer que me for mandado por ElRey Nosso Senhor, ou por seus Embaixadores.

Juro de em todo cumprir, e guardar o juramento, que feito tenho, quando fuy feito Arauto, e todas as cousas, obrigaçoens do dito juramento, e cada huma dellas cumprirey, e sarey fiel, e verdadeiramente, como no dito juramento he conteudo.

Feito o juramento, o Copeiro Mòr traz outra copa dourada com sua cobertura, e o Veador huma toalha, e tomando ElRey a copa, lança ao novo Rey de Armas a agoa pela cabeça, e lhe poem o nome da Provincia, que ha por bem. E depois de lhe darem a toalha na fórma referida, os Officiaes da Nobreza publicaõ logo o nome do novo Rey de Armas, e recebe a copa, que teve a agoa, da maõ do Copeiro Mòr, e a leva por ser gaja sua.

§. XX.

Dos Titulos, que antigamente se davaõ aos Grandes do Reyno; e particularmente dos Ricos Homens.

Os Titulos, que os Reys concederaõ à Nobreza, foraõ varios, e que o tempo tem mudado muito. Porèm começando dos mais antigos, trataremos somente de tres, por serem os mais communs, e que duraraõ até quasi nossos tempos, a que succederaõ os Duques, Marqueses, Condes, Viscondes, e Baroens, que de presente se usaõ.

O nome de Ricos Homens, diz ElRey D. Afonso, se lhes deu porque àlem da riqueza temporal, foraõ tambem ricos de partes naturaes. Porèm isto he moralizar; e assim me parece mais certo o que diz Fr. Hieronymo Roman,[139] o qual affirma, que no tempo daquelles primeiros Reys, que succederaõ a D. Pelayo pelas miserias em que todos estavaõ, naõ havia Titulos, e a cada hum se dava o nome das cousas, com que servia aos Principes, e ajudava na guerra contra os Mouros, chamando Escudeiros aos que pelejavaõ com Espadas, e Escudos; e Cavalleiros aos que serviaõ a cavallo. E aquelles, que pelas riquezas de bens se avantajavaõ aos outros, mantendo à sua custa gente de guerra, os intitulavaõ Ricos Homens. Estes depois foraõ os Mestres de Campo, e Generaes na guerra, que só podiaõ fazer gente, e trazella a seu cargo, e naõ reconheciaõ outro Capitaõ, senaõ o mesmo Rey. Era este nome de Rico Homem, segundo se collige dos Foros de Sobrarve, pelos quaes em seu principio se governaraõ os Navarros, e Aragoneses, generico, e o dava o povo a quem lhe parecia. Porèm depois que os Reys vieraõ a mayor crescimento, e magestade, tomaraõ para si o concedello. E assim vemos no livro das Linhagens do Conde D. Pedro,[140] como ElRey D. Afonso fez Rico Homem a D. Ruy Gomes de Briteiros, e lhe deu Pendaõ, e Caldeira. E na Chronica delRey D. Afonso IV. se faz mençaõ de como concedeo este titulo, e insignias a Lopo Fernandes Pacheco. E nas de Castella se le, que D. Afonso Fernandes Coronel, com ser senhor de muitas Villas, desejava o titulo de Rico Homem, e o alcançou delRey D. Pedro.

Faziaõ os Reys este acto com grande solennidade; porque o que havia de receber tal titulo, velava primeiro as armas com as ceremonias da Cavallaria para ser armado Cavalleiro, que era o fundamento sobre que todas as dignidades militares antigamente assentavaõ. Depois o levavaõ com grande acompanhamento aonde ElRey estava, e posto de joelhos diante delle, lhe entregava hum pendaõ, ou bandeira em sinal, que o fazia General, e lhe dava poder para capitanear, e governar a gente na guerra. No pendaõ hiaõ pintadas humas Caldeiras; pelas quaes se demonstrava, que podia trazer gente na guerra, e sustentalla. Destes Ricos Homens ficou, parece, o costume de darem aos Condes, e Titulos, que depois aos Ricos Homens succederaõ (como quer ElRey D. Afonso o Sabio) as bandeiras, quando com solennidade se lhes dà a investidura de suas dignidades, como o sente Garibay.[141] As Caldeiras, que o pendaõ levava por divisa, tiveraõ sua origem do pouco dinheiro, que entaõ havia em Hespanha; por cuja causa senaõ dava aos Soldados soldo de dinheiro, mas mantimento. E como para o poder guisar a tanta gente eraõ necessarios grandes vasos, usavaõ destas Caldeiras de notavel grandeza, como ainda hoje se vem nos Conventos da Batalha, e Alcobaça, onde ficaraõ algumas da vitoria de Aljubarrota. Continuou-se o Titulo de Ricos Homens neste Reyno por muitos annos, e ainda ElRey D. Manoel faz mençaõ delles, e das Ricas Donas, que eraõ suas mulheres. Porèm nas Ordenaçoens[142] he mais nome generico, que naõ particular Titulo; e com tudo hoje està jà de todo exincto, succedendo em seu lugar os outros Titulos modernos.

§. XXI.

Dos Vassallos.

Este nome Vassallo, confórme diz Scipiaõ Amirato,[143] se derivou de Vasso, que significa inferior; e mostra com varias authoridades, que os Vassallos se diziaõ antigamente Vassos por estarem sogeitos a alguns Senhores. Daqui podemos entender, que se introduzio esta palavra em Hespanha com o Imperio Gotico, pois a Italia, e França o trouxeraõ as Naçoens do Norte. Debaixo deste nome se comprehenderaõ antigamente neste Reyno muy differentes generos de pessoas; o que naõ advertindo alguns Authores, se enganaraõ grandemente, cuidando que só os Grandes, e Senhores de terras tinhaõ tal Titulo, como affirma Fr. Hieronymo Roman,[144] e em parte o Doutor Jorge de Cabedo,[145] dizendo, que o nome de Vassallo atè o tempo delRey D. Afonso V. era só de grandes Senhores; mas que de entaõ para cà se deu a homens de grande qualidade, chamados Vassallos acontiàdos; sendo assim, que de todos estes generos de Vassallos se faz mençaõ nas Chronicas antigas, muitos annos antes delRey D. Afonso V. Para o que he de saber, que debaixo deste nome se comprendiaõ tres generos de gente, os primeiros eraõ Senhores de terras, e Alcaides Mòres, os segundos Fidalgos, e os ultimos gente rica popular. De todos elles faz mençaõ ElRey D. Afonso Sabio[146] nas Partidas, com estas palavras: Vassalos son aquellos, que reciben honra, e buen echo de los Señores; assi como Cavalleria, o tierras, o dineros, por servicio señalado, que le ayan de fazer. Do primeiro genero de Vassallos falla o mesmo Rey em outra Partida, especialmente ordenando, que elles só confirmem as Doaçoens dos Reys; com tudo neste Reyno os Grandes, e Senhores de terras, e Alcaides Mòres tinhaõ este titulo, como mostra largamente o Padre Fr. Jeronymo Roman; onde vemos, que a D. Afonso de Meneses Conde de Barcellos, ao Condestable D. Nuno Alvares Pereira, a Vasque Annes de Castello Branco, a Joaõ Cesar, e outros semelhantes deraõ os Reys este nome. Pelo que parece claro, que todos os Senhores, que hoje chamamos de terras, se diziaõ entaõ Vassallos delRey absolutamente.

O segundo genero de Vassallos se chamavaõ Acontiàdos; porque estavaõ prestes para servir a ElRey com certas lanças na guerra por certa quantia de dinheiro, que dos Reys aviaõ, e por isso se chamavaõ Acontiàdos. Delles, e do modo, com que eraõ aceitados por Vassallos, se faz mençaõ nas Chronicas do Reyno, e particularmente no primeiro Capitulo da Chronica delRey D. Pedro, fallando das condiçoens do mesmo Rey, diz:[147] Elle foy graõ creador de Fidalgos de linhagem, porque naquelle tempo naõ se costumava ser Vassallo, senaõ filho, e neto, e bisneto de Fidalgos de linhagem; e por usança, haviaõ os taes a contia, que agora chamaõ maravidis, dar-se no berço logo, que o Fidalgo nascia, e a outro nenhum naõ. Este Rey acrescentou muito nas contas dos Fidalgos depois da morte delRey seu padre, que naõ embargante, que ElRey seu padre D. Afonso fosse cumprido no dar de muitas, e boas bondades, tachavaõ-no porèm de ser escasso muito em grandeza, &c. Pelo dito se mostra a qualidade destes Vassallos, os quaes ainda, que eraõ Fidalgos, differiaõ dos outros Senhores de terras, que temos dito. Este costume, como ja dissemos no Discurso da Milicia, mostra depois o Chronista,[148] que innovou ElRey D. Joaõ, mandando dar à lança do Fidalgo 1U000. livras, e à do que o acompanhava 700. e que os filhos naõ vencessem contia, senaõ depois de terem idade para poderem servir; e entaõ lha assentavaõ nos livros, a respeito da que o pay havia, porèm sempre mais pequena, para dar lugar aos acrescentamentos ordinarios.

O terceiro genero de Vassallo eraõ tirados de cada povo, confórme à contia das fazendas,[149] por razaõ das quaes eraõ obrigados a ter cavallos, e Armas; e tiveraõ origem das listas, que os Reys mandaraõ fazer de toda a gente do Reyno, confórme se costumou em todos os grandes Estados, e o usaraõ os Romanos, elegendo para isso os seus Censores. Nestas listas se assentavaõ os nomes dos moradores de cada povo, e a fazenda, e renda de cada hum, e a respeito dellas se mandava pòr ley, que os que tivessem tanta contia de fazendas, fossem obrigados a ter cavallos, e certas Armas. O tempo, em que este genero de Vassallos teve origem, naõ consta das historias, porèm jà na Chronica delRey D. Fernando se faz mençaõ delles. Pelo que se enganou o Doutor Jorge de Cabedo,[150] cuidando que no tempo delRey D. Afonso V. começaraõ. Fizeraõ-se estas listas no Reyno por muitas vezes, e particularmente em tempo delRey D. Fernando, D. Joaõ I. D. Afonso V. D. Manoel, e de entaõ para cà ficaraõ por ley expressa. O Doutor Antonio Francisco[151] diz, que estes Vassallos tem o primeiro grào da Nobreza; fazendo a Ordenaçaõ sempre esta distincçaõ: Se for Vassallo, e dahi para cima, ou se for piaõ, &c. Com tudo o nome de Vassallo, parece que nesta particular significaçaõ està extincto, de especial se fez geral, e comprehende hoje todos os subditos do Reyno, assim grandes, como pequenos.

§. XXII.

Dos Infançoens.

Sobre o nome, e qualidade de Infançoens naõ hà menor alteraçaõ entre os Authores,[152] afirmando muitos, que se dava sómente este titulo àquelles, que dos Infantes descendiaõ, e que por isso eraõ assim chamados. E disto hà sentenças em favor dos Cidadaõs de Lisboa, e do Porto, que todos tem privilegios de Infançoens, concedidos pelos Reys passados. Porèm o contrario desta opiniaõ consta claramente das historias, dos privilegios, e das mesmas Provisoens Reaes. Porque sabido he, que o nome de Infante naõ passa aos filhos dos Infantes; mas acaba juntamente com elles; e se passara, e se chamaraõ Infançoens, como estes Authores querem, sem duvida mayor honra fora a de Infançaõ, que a de Rico Homem. Porèm consta, que sendo os Ricos Homens Senhores particulares, em quem naõ havia sangue Real, precediaõ em tudo aos Infançoens, logo naõ podiaõ ser filhos de Infantes. Ve-se isto em muitos lugares do Conde D. Pedro,[153] o qual refere nos livros das Linhagens de Espanha, que sendo Ruy Gomez de Britteiros Infançaõ, o fizera ElRey D. Afonso Rico Homem, como atraz deixamos Escrito. E tratando de D. Diogo Lopez o Bom Senhor, de Biscaya, quando veyo de vencer hum graõ torneo, que se fez entaõ em Castella, diz[154] que desarmando-o sua Mulher Dona Toda com as Donas, e Donzellas de sua Casa, lhe acharaõ hum ferro de setta em huma perna; e espantando-se Dona Toda de como o podèra sofrer tanto tempo, lhe disse elle: Honrada està agora a filha, do Infançom. Ao que ella respondeo: Este Infançom, que vòs dizedes, por Rico Homem era tido em sua terra. Por onde se vè claro; que mòr dignidade era a de Rico Homem, que a de Infançaõ. O mesmo consta dos privilegios, e em particular do delRey D. Afonso IV. que traz o Doutor Jorge de Cabedo; porque nas aposentadorias, que entaõ era costume dar-se nos Mosteiros aos Fidalgos, manda que se dem aos Ricos Homens 30. reis, e aos Infançoens 15. e aos Cavalleiros 10. E disto hà outros muitos exemplos, que naõ refiro por escusar molestia. E assim tornando à origem deste nome, deixadas as opinioens, a mim me parece muy provavel o que escreve Vidal Canhelas Bispo de Huesca Author antigo de Aragaõ,[155] de quem Jeronymo Çurita faz muita conta, o qual affirma, que assim como os filhos de Reys, que naõ herdavaõ, se chamavaõ Infantes; assim aos filhos dos Fidalgos, que naõ herdavaõ as Casas, e Morgados de seus pays, lhes chamava o vulgo à sua imitaçaõ, Infançoens, e o mesmo a seus descendentes; o que tambem affirma Gonçalo Argote de Molina, dizendo na Nobreza de Andalusia. 1. c. 77. que os Infançoens eraõ filhos dos Ricos homens. E assim mesmo Escolano[156] na Historia de Valença. Pelo que ainda, que lhes faltavaõ as riquezas, e grandeza, por naõ serem os principaes de sua Casa, naõ deixavaõ de ser muito privilegiados, e honrados. A esta opiniaõ favorece muito ElRey D. Afonso, quando fallando dos Infançoens nas suas Partidas,[157] diz: E como quer que estos vengan antigamente de buen liñage, & hayan grandes heredamientos, peró nó son en cuenta destos grandes Señores, que de suso diximos. E bem se vè serem de boa linhagem, pois casavaõ suas filhas com Ricos Homens, e os Reys lhes davaõ com facilidade o mesmo titulo, e os avantajavaõ aos Cavalleiros ordinarios. Pelo que muitos impetravaõ dos Reys os privilegios, e titulo de Infançoens, como foraõ as Cidades jà nomeadas; o que os Reys concediaõ sem mais ceremonias, que passarlhes disso suas cartas.

§. XXIII.

Da antiguidade dos Duques em Portugal, e do que à sua dignidade pertence.

Duque se derivou da palavra Dux, que em latim significa guia, e Capitaõ.[158] Sendo este nome generico, se foy fazendo especial em tempo dos Emperadores Romanos. Porque Augusto Cesar depois de se ver Senhor do Imperio, dividio as Provincias delle entre si, e o Senado; e dando à Republica as pacificas, tomou para si aquellas, que confinavaõ com os inimigos, e tinhaõ necessidade de presidios; e assim fez nove fronteiras nos confins do Imperio, onde constituhio outros tantos Exercitos. Estas foraõ Espanha, Alemanha Baixa, Alemanha Alta, Dalmacia, Panonia, Syria, Egypto, Africa, Misia. A cada Exercito destes nomeou hum General, que chamou Capitaõ, ou Dux, que he o mesmo. Estes Exercitos se multiplicaraõ depois pelos Emperadores successivos. Mas daqui foy a primeira origem de tomarem os Duques o nome das Provincias, e terem o governo dellas; com tudo este cargo naõ durava entaõ sempre, mas era por tempo limitado. Porèm entendendo depois os Emperadores, que os Capitaens, e Soldados fariaõ melhor officio de defender os limites do Imperio, se tivessem dahi particular proveito, concederaõ assim aos Duques, como aos Soldados dos Exercitos todas as terras, e campos, que tomassem aos inimigos, para os poderem possuir em sua vida sómente, ou de seus filhos, quando lhes succedessem na Milicia. Com esta[159] occasiaõ se ficaraõ aproveitando os Duques, e principaes Capitaens de muitas terras nos confins do Imperio, logrando o Senhorio dellas, e os governos por toda a vida. Pelo que de officios se ficaraõ fazendo dignidades, como aconteceo quasi aos Capitaens deste Reyno nas Ilhas, e no Brasil, que de cargo ordinario se lhes deu em vidas, e fez hereditario, de modo que tanto monta agora chamar a hum homem Capitaõ de huma Capitanîa do Brasil, ou de huma Ilha, como Senhor, e Governador della. Passado o Imperio a Grecia, ainda que os maes deste Capitaens ficaraõ com nomes de Condes, pelas razoens, que logo diremos; com tudo em muitas Provincias se conservou o nome de Duques, os quaes tinhaõ particulares insignias, com que andavaõ, porque os vestidos eraõ vermelhos, o baltheo, ou cinto Militar de prata, ou ouro, no dedo traziaõ hũ anel com duas pedras, e hum colar lançado a tiracollo, capacete, e escudo dourado, e só elles podiaõ trazer gente armada consigo, e diante hum estendarte, cousa que a outrem senaõ concedia. Algũs dos Governadores, que os Emperadores Gregos mandaraõ a Italia, Duques se chamaraõ; posto que depois tomaraõ o nome de Exarcos. Hum destes, que foy Longino (segundo Sigonio)[160] introduzio o nome de Duques mais comummente em Italia; porque tirando os Varoens Consulares, ou Rectores, que havia nas Cidades, poz em cada huma seu Presidente com nome de Duque, e lhe deu grande jurisdicçaõ para cobrar os tributos Imperiaes, e administrar justiça. Neste tempo entraraõ em Italia os Longobardos trazidos por Narzetes, Exarco que fora de Ravena, os quaes achando este modo de governo, o seguiraõ, e poseraõ em lugar destes Duques, Capitaens seus, com o mesmo nome, fazendo este officio dignidade, durante a vida de cada hum; e principalmente fizeraõ naquella Provincia quatro Ducados mayores, que foraõ o Espoletano, Forojuliense, Benaventano, e Taurinense; a que depois se seguiraõ os de Perusia, Romano, Toscano, e Campano. O mesmo estylo tiveraõ os Godos em Hespanha,[161] porque imitando em muitas cousas os Emperadores Romanos, poseraõ em suas fronteiras Capitaens geraes com o nome Latino de Duces, ou Duques; os quaes governavaõ os seus territorios, e Provincias, como agora fazem os Viso-Reys, e delles fallaõ muitas leys do Fuero juzgo. Vindo depois Carlos Magno a Italia, e vencendo o ultimo Rey dos Longobardos, tomou para si a mayor parte da Provincia, e deu os Ducados della àquelles principaes, que o ajudaraõ a ganhar a terra; porèm com mais liberdade, que os Reys Longobardos, porque naõ sómente lhes deu estes Senhorios em sua vida, como entaõ muitos tinhaõ; mas para seus descendentes, com condiçaõ que lhe guardassem fidelidade, e reconhecessem vassalagem. Daqui tiveraõ nascimento os Duques nà fórma, em que hoje os vemos; porque como muitos Senhores Grandes de Italia ficaraõ com este Titulo, se estimou mais, que o dos Condes, posto que mais antigo. A isto se ajuntou dar o Papa Nicolào II. a Roberto Guiscardo titulo de Duque de Apulha, e Calabria com ceremonias quasi Reaes,[162] dando-lhe cetro, estoque, e barrete vermelho cuberto de pedraria, com licença para fazer moeda; do que fizeraõ tanto caso outros Senhores, que largando os antigos titulos, que tinhaõ de Condes, e Marqueses, se chamaraõ Duques, como foraõ os Condes de Saboya, Borgonha, Moravia, Bavaria, Saxonia, e outros muitos; dando assim os Emperadores, que succederaõ a Carlos Magno, com os Reys de França, e Inglaterra à sua imitaçaõ em seus Reynos este Titulo a muitos. E de Inglaterra veyo esta dignidade a Hespanha muitos annos adiante em tempo delRey D. Joaõ I. quando D. Joaõ Duque de Lencastre, filho segundo delRey D. Duarte, passou a Hespanha a pretender o Reyno de Castella, por sua mulher, que era filha delRey D. Pedro de Castella o Cruel. Pelo que o nosso Rey D. Joaõ I. seu genro à sua imitaçaõ deu a mesma dignidade de Duque aos Infantes D. Pedro, e D. Henrique seus filhos, quando veyo de tomar Ceita;[163] e foraõ os primeiros, que houve neste Reyno, e quasi no mesmo tempo ElRey D. Joaõ I. de Castella fez Duque a seu segundo filho D. Fernando, que depois foy Rey de Aragaõ.

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Note 1 · Scipiaõ Amirato no principio das familias de Nap.Note 2 · O Doutor Ant. Fran. no tratado da Nobreza.Note 3 · Rezende Chronica. de D. Joaõ II. Cap. 87.Note 4 · Virg. lib. 9.Note 5 · Satyr. 5.Note 6 · Virg. l. 7.Note 7 · l. 2. c. 18.Note 8 · Claud. de Bello Gildon.Note 9 · Pancirol. in notit. utriusque Imper. 2. c. 20.Note 10 · Tacito Annal. l. 2.Note 11 · Tacit. de Mor. Ger.Note 12 · Scipiaõ Amirato Familias de Nap. t. delle Ensegni.Note 13 · Morales l. 13. c. 5.Note 14 · D. Ant. Agost. Dial. 3. das moed. sub Capadoc.Note 15 · Yepes tom. 7. anno 1117. c. 5.Note 16 · Argote Nobleza de Andal. l. 1. c. 48.Note 17 · Conde D. Ped. t. 21.Note 18 · Argote ubi sup.Note 19 · Hist. dos Condes de Barcel. de Fr. Franc. Diogo l. 2. c. 7.Note 20 · Chron. delRey D. Af. 2. c. 7.Note 21 · Argot. l. I. c. 7.Note 22 · D. Mauro Ferrer. l. 2. c. 2. & l. 3. c. 11.Note 23 · Boter. Rel. un. p. 3. l. 2.Note 24 · Fr. Marc. de Guadalajara c. 12.Note 25 · Argote l. 1. c. 44. e 74.Note 26 · Hist. Benedictina. de Port. Trat. 1. c. 8. p. 2.Note 27 · Argòte no lugar citado.Note 28 · O mesmo Nobil. de Andal. l. 1. c. 103.Note 29 · Hist. de Avil. p. 4. §. 1.Note 30 · Hist. de França.Note 31 · Pier. Hierogl. l. 55. de lilio.Note 32 · Hierem. 12.Note 33 · Conde D. Ped. t. 22. delRey Ramiro.Note 34 · Chro. de D. Joaõ II. de Duarte Nun.Note 35 · Decad. 1. de Barros l. 2. c. 2.Note 36 · Dec. 1. de Barr. l. 4. c. 11.Note 37 · Chron. delRey D. Manoel p. 4. c. 58.Note 38 · Dec. 1. de Barros l. 4. c. 11.Note 39 · Hist. da India de Castanh. l. 5. c. 59. c. 60.Note 40 · O mesmo Brazaõ. O Brazaõ.Note 41 · Plutarc. Vit. Marij.Note 42 · Alexander. ab Alex. l. 1. c. 20Note 43 · Regimento dos Officiaes da Armaria.Note 44 · 1. p. c. 163.Note 45 · Blond. Roman, triumph. l. 4.Note 46 · Thes. de la lang. Cast.Note 47 · Piazza univers. discur. 77.Note 48 · Excel. de la Monar. de Hesp. cap. 4.Note 49 · Republ. 2. p. l.4. c. 16.Note 50 · Conde. D. P. t. 75.Note 51 · Garibay p. 1. l. 10. c. 4.Note 52 · Ord. l. 1. t. 56. §. 22. & l 3. t. 5. §. 5.Note 53 · Scip. Amir. principio da Nobreza de Napoles.Note 54 · Fr. Hier. Rom. p. 2. da Republ. l. 4. c. 16.Note 55 · Cabedo 2. p. decis. 6.Note 56 · Partid. 4. t. 25. l. 1.Note 57 · Chron. de D. P. c. 10.Note 58 · Chron. de D. Joaõ I p. 2. c. 73.Note 59 · Chron. delRey D. Fern.Note 60 · Cabedo ubi supra.Note 61 · Comp. da Nobr. Verb. Vasallo.Note 62 · Antonio Franc. supra.Note 63 · Conde D. P. t. 23.Note 64 · Conde D. P. t. 9. §. 1.Note 65 · Annaes de Aragaõ de Çurita l. 2. c. 64.Note 66 · Hist. de Valenc. Dec. 1. l. 5. c. 27Note 67 · Part. 2. t. 1. l. 13.Note 68 · Guid. Pancirol. c. 139. Notitia utriusq. Imperij.Note 69 · Lamprid. apud eundem.Note 70 · Carol. Sigonius de Regno Ital.Note 71 · Moral. l.12. c. 31.Note 72 · Pandulf. Colenucio l. 3. c. 3.Note 73 · Tomada de Ceita cap. antepenult.
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