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Noticias de Portugal

DISCURSO VI.

Reading edition

SOBRE A PROPAGAÇAM DO Evangelho nas Provincias de Guiné.

§. I.

Das condiçoens, com que os Summos Pontifices deraõ aos Reys de Portugal o Senhorio de Guiné.

Sendo a prègaçaõ do Evangelho na Provincia de Guinè, a primeira que os Portugueses fizeraõ, e a mais vizinha a este Reyno, he muito para sentir ser esta a que tem dado menor fruito. Pelo que me pareceo necessario apontar as causas que impediraõ naõ se reduzir esta obra à sua perfeiçaõ, para que remediados os impedimentos produza a seara Evangelica nestas regioens os grandes augmentos, que se della pódem esperar; pois este he o intento, com que os Reys Portugueses emprenderaõ as suas Conquistas, e consentem que seus naturaes se desterrem da propria Patria, e occupem suas forças em habitar, e cultivar as alheyas.

O Senhorio, que os Reys de Portugal tem em Guinè, em que se incluem os Estados do Caboverde, Mina, S. Thomè, Angola, e parte de Congo, foy primeiramente concedido[233] aos Reys de Portugal por huma Bulla do Papa Martinho V. e depois por outras de Eugenio IV. Nicolao V. Xisto IV. e Leão X. nas quaes dizem os Summos Pontifices, que daõ o dominio daquelas terras a esta Coroa com condiçaõ, que os Reys della provejaõ de Sacerdotes, e Ministros do Evangelho, que bautizem, e ensinem nossa Santa Fè aos naturaes da terra, encarregando-lhes sobre isso suas consciencias, como se ve do theor de todas ellas, e por o mesmo respeito deraõ tambem aos Reys o Padroado de todas as Igrejas daquellas Provincias, e os dizimos dellas applicaraõ a Commenda Mestral da Ordem de Christo, para mais largamente acudirem os Reys a estas despezas; o que por ser nonotorio, e largo de referir, senaõ aponta com as mesmas palavras das Bullas Apostolicas.

Foraõ os Reys deste Reyno taõ pios, e zelosos da honra de Deos, que o principal intento, com que emprenderaõ estas conquistas, foy a propagaçaõ da Fè Catholica, e conversaõ daquella Gentilidade; e acrescentando-se de novo a este seu desejo a obrigaçaõ de que se encarregaraõ aos Summos Pontifices acima referidos, procuraraõ com muito cuidado desencarregar-se desta promessa; e por isso erigiraõ Igrejas Cathedraes na Ilha de Santiago, de Cabo-Verde, e na Ilha de S. Thomè, e na Cidade do Salvador de Congo, e em outras partes levantaraõ Igrejas, e poseraõ Vigarios para administrar os Sacramentos, e ensinar a Doutrina Christãa; e mandaraõ muitas vezes Religiosos àquellas partes, particularmente ao Reyno de Congo a fazer esta conversaõ, e para haver mayor copia de Ministros, fez ElRey D. Joaõ III. o Collegio da Companhia de Coimbra, e ElRey D. Henrique a Universidade de Evora, donde sahiraõ, e saem muitos Religiosos, e Varoens doutos nas Letras Sagradas, que empregaõ as vidas nesta gloriosa empresa. O primeiro lugar, que os Portugueses povoaraõ na Costa de Guinè, foy a Mina no anno de 1482. nelle se fez a primeira prégaçaõ, como o dà a entender Joaõ de Barros Dec. 1. l. 3. c. 2. e com haver mais de 150. annos ao tempo que se perdeo, naõ havia mais naturaes Christãos, que os de tres, ou quatro aldeas junto das fortalezas de S. Jorge, e Axem, sendo o districto deste governo taõ grande, que passa de 200. legoas.

A segunda prégaçaõ se fez em Congo,[234] e começou no anno de 1491. em que ElRey D. Joaõ II. mandou os Religiosos de S. Francisco, que bautizaraõ os Reys, e principaes Senhores daquelle Reyno: e por estes Religiosos morrerem em poucos annos, enviou depois ElRey D. Manoel à mesma empresa doze Padres dos Azues, a que neste Reyno chamaõ de S. João Evangelista. E ElRey D. Joaõ III. quatro Sacerdotes da Companhia, que huns, e outros acabaraõ em breves dias nesta empresa; a qual continuaraõ depois os Bispos, Conegos, e Clerigos, que o mesmo Rey D. Joaõ III. mandou, fazendo huma Igreja Cathedral na Cidade do Salvador. Porém de todas estas prégaçoens se tirou pouco fruito, ainda que foraõ feitas com grande zelo da salvaçaõ das almas, e concorrendo Deos nellas com obras maravilhosas, e sem haver resistencia nos naturaes da terra para receber o Bautismo; porque como a Provincia he muito grande; e os Ministros muito poucos, a mayor parte dos naturaes do Reyno naõ tem mais que o nome de Christãos, e os mais delles nunca viraõ Sacerdote; e tirando o Bautismo, e os nomes, que dos Santos tomaraõ, nos ritos, nos costumes, e na doutrina, saõ como de antes, quando eraõ Pagaõs. E assim nascem sem haver Sacerdote, que ensine os filhos, nem quem encaminhe os pays, nem quem leve por diante a obra de Deos naquella terra. De modo que sendo esta huma das grandes Christandades de que se podèra colher copioso fruito, està toda bravîa, por falta de quem a cultive, sem valer a seus Principes pedirem por tantas vezes ao Papa, e a Sua Magestade o remedio deste mal.

A Ilha de S. Thomè se povoou no anno de 1493.[235] que hà 159. annos; e em todo este tempo se doutrinaraõ sómente os Negros Cativos dos moradores da Ilha; e na terra Firme, só em Oere, porto onde residem Portugueses, hà alguns Christãos da terra.

Em Angolla des do anno de 1575. em que começou a conquista, atégora tudo foraõ guerras,[236] e da conversaõ dos naturaes se tratou pouco, ainda que tem em Loanda hum Collegio da Companhia, e outro Convento dos Padres Terceiros; porque o Evangelho de Christo he de paz, e naõ se ha de prègar com as armas nas mãos. E assim tirando os Negros de Loanda, e Massangano, naõ hà na terra outros Christaõs, senaõ os escravos, que saem daquelle porto de resgate para Europa, e Novo mundo; aos quaes bautizaõ, sem os cathequizarem, de maneira, que morrem nas mesmas embarcaçoens como brutos. Os outros moradores daquella grande Provincia, assim estaõ como quando nella entramos, antes escandalizados de nossas armas, que edificados da nossa doutrina.

O Cabo Verde, e suas Ilhas se descobriraõ no anno de 1440.[237] que hà mais de 200. annos; e a conversaõ, que se fez em todo este tempo, foy sómente nos escravos das Ilhas de Santiago, e do Fogo, onde estaõ as nossas povoaçoens, e na terra firme nos portos do Rio de S. Domingos, Guinalla, Biguba, Rio das Pedras, Bissao, Cacheu, e Joala, em que os nossos Portugueses residem. Fazem do mesmo modo bautizar os Negros, que compraõ, ou de que se servem, e nunca se prégou o Evangelho geralmente a nenhuma daquellas Provincias, até que no anno de 1605. por ordem do Concelho de Portugal se mandaraõ àquellas partes alguns Religiosos da Companhia, de que foy por Superior o Padre Balthesar Barreira Varaõ Apostolico, que nellas fez grande fruito, convertendo alguns Reys da Serra Leoa, e doutros districtos com muitos dos seus principaes; porém morrendo-lhe logo os seus companheiros, e elle pouco depois, ficaraõ outra vez os novamente convertidos desamparados de todo o socorro espiritual, para continuarem no conhecimento de Deos, e aproveitamento de suas almas.

§. II.

Das causas porque em tantos annos se tem feito taõ pouco fruito na conversaõ dos povos de Guinè.

Do que està dito se tem visto bastantemente o zelo, com que continuaraõ os Reys deste Reyno na conversaõ dos povos de Guiné, e o pouco fruito, que deste trabalho se tem colhido; as razoens, que para isso hà, saõ tres, a primeira nasce dos Ministros Ecclesiasticos, a segunda dos Portugueses, que trataõ naquellas partes, e a terceira da malignidade dos clymas daquella terra.

Os Ecclesiasticos, que alli vaõ ter, ou saõ Bispos, ou Religiosos, ou Clerigos: dos Bispos, ainda que houve alguns zelosos do bem de suas ovelhas; com tudo os mais delles as desampararaõ, vindo-se dos seus Bispados pouco tempo depois de là chegarem: de maneira que os mais delles vieraõ, e morreraõ neste Reyno, e naõ nas suas Igrejas; e ainda houve alguns que depois de as aceitarem, foy necessario usar com elles do rigor de justiça, para os fazerem embarcar para hirem residir nellas (que com taõ pouco animo de residir se aceitaõ às vezes estas Prelazias) a causa disto he por a terra pela mayor parte ser muito doentia, habitada de Negros barbaros, e sem policia alguma, de modo que naõ querem viver nella, senaõ aquelles, que pretendem tirar disso, ou grande interesse para a alma, ou para o corpo. Os Religiosos, que foraõ àquellas partes, eraõ poucos, e como naõ tiveraõ successores (porque as suas Religioens naõ aceitaraõ a empreza) acabaraõ em breve tempo, depois de gastarem a mòr parte delle em aprender a lingua dos naturaes: e assim hà muitos annos, que tirando-os das duas casas de Loanda, senaõ vem naquellas terras Religiosos, senaõ he a caso, e mais a buscar remedio temporal para seu bem proprio, que naõ o espiritual da gente della. Por tanto os Ecclesiasticos, que mais continuaõ nestas Provincias, saõ Clerigos; destes recebem os naturaes pouca doutrina, porque muitos delles saõ degradados deste Reyno; ou quando naõ, saõ os que naõ pòdem ter cà outro remedio de vida. De modo que sendo estes os que lhes haõ de dar exemplo, e doutrina, saõ impedimento para a salvaçaõ dos naturaes; porque alguns delles com seus costumes escandalizaõ aquelles povos, que com sua virtude, e doutrina houveraõ edificar, e converter. E assim, diz destes o Padre Balthesar Barreira,[238] que só se occupaõ em comprar, e vender, e que nunca dizem Missa, nem fazem officio algum de Sacerdote, tendo o intento principal em se tornarem logo para o Reyno, como se vém ricos, ou como algum remedio para o fazerem.

A segunda causa da conversaõ naõ ir avante he o mào exemplo, que de ordinario daõ os nossos Portugueses[239] naquellas partes; porque ainda que nellas vivem alguns bons Christãos, e zelosos do serviço de Deos, com tudo os mais dos que nelles moraõ, saõ degradados do Reyno por delitos graves; e os que andaõ no cõmercio, ou saõ tratantes, ou soldados, gente pela mayor parte cativa do interesse, a quem respeitaõ mais que a tudo. E assim muitas vezes estes saõ os que sem temor de Deos fazem naquellas partes grandes enganos, roubos, e extorsoens, por cativarem os naturaes contra justiça, e satisfazerem a sua cobiça. Pelo que naõ he muito que seja este roim exemplo dos Christaõs impedimento para se os naturaes converterem. Assim procedem muitas vezes os nossos misturados entre aquelles Gentios, passando muitos annos sem Missa, sem Sacramentos, sem ouvir a palavra de Deos, e pòde ser que sem se lembrar delle.

A terceira causa he a malignidade do clyma de muitas daquellas Provincias, que por serem de ares pestilenciaes, em breves dias consome, e mata a mais da gente, que deste Reyno là vay ter, e os que escapaõ, depois de os apalpar a terra, andaõ sempre com cores de homens mortos, atè que pouco a pouco os acaba de matar de todo aquelle Anjo percuciente, porque como diz o nosso Joaõ de Barros[240] poz alli Deos por seu occulto juizo com huma espada na maõ de mortaes febres, com que nos impede aquella habitaçaõ. Por tanto os mais dos Religiosos, e Bispos, que àquellas partes passaraõ, duraraõ muito pouco tempo, principalmente os que quiseraõ tomar mais trabalho abrazando-se com febres, ou exhalandose-lhes os espiritos pelos poros abertos com a grande inflamaçaõ do calor, de maneira que o Bispo de Cabo Verde D. Joaõ Parvi espirou estando chrismando, afrontado com o trabalho da muita gente; e D. Fr. Sebastiaõ da Assumpçaõ por fazer hum Pontifical, e prègar juntamente, acabou ao outro dia a vida.

Faltando pois aos naturaes a presença dos Bispos, e o exemplo dos Sacerdotes, e escandalizando-os algumas vezes o trato ordinario dos seculares, e matando a terra os Prègadores, que haviaõ de dar soccorro a estes males, naõ he muito que frutificasse taõ pouco esta sementeira, porque como diz o mesmo Senhor no Evangelho: Pouco importa semear, se a semente cae no caminho, e he pisada dos que passaõ, ou comida das aves, sem haver quem a guarde, ou he affogada das espinhas, faltando quem a monde. E S. Paulo confessa, que sua prègaçaõ em Corintho fora sem fruito, se Apollo seu discipulo a naõ regàra: pelo que carecendo esta Sementeira da cultivaçaõ necessaria, naõ he de espantar, se fizesse bravia, e de trigo tenha degenerado em zizania.

§. III.

De como se podem remediar todas estas tres causas havendo Seminarios destas Naçoens.

Todas estas tres causas acima referidas da falta dos Sacerdotes, escandalo dos tratantes, e enfirmidades da terra, se pòdem remediar facilmente com hum só meyo, o qual he ordenar Sua Magestade, que haja Seminarios nos lugares, que parecer mais convenientes, como Loanda, e Cacheu, que he na terra firme do districto de Cabo-Verde, em que se crie certo numero de moços de cada huma destas Provincias, onde estaõ os nossos governos, os quaes moços aprendaõ, e sejaõ ensinados nos mesmos Seminarios em bons costumes, e virtudes por alguns Religiosos, que só por serviço de Deos se entreguem deste cuidado, e espiritual empreza; de maneira que quando os Seminaristas tornarem para suas patrias, possaõ fazer o officio de Prégadores, e succedendo huns aos outros, continuem na cultivaçaõ espiritual daquellas Provincias, atè as converter de todo. Este remedio he taõ notorio, e a obrigaçaõ taõ precisa, que jà se mandou fazer hum Seminario na Ilha de Santiago do Cabo-Verde, mas como naõ se lhe applicou governo conveniente, ficou quasi como se o naõ houvesse. Por onde se vè que estas cousas fóra da Barra naõ pòdem ter effeito, senaõ forem administradas por huma Religiaõ, que nunca morre, como se vè no Seminario de Goa. Todos os inconvenientes apontados se remedeaõ com estes Seminarios. Primeiramente evitarse haõ com os Sacerdotes deste Seminario as faltas, que dissemos nos nossos Ministros Ecclesiasticos, porque os do Seminario seraõ mais em numero para poderem discorrer por todas os povoaçoens de suas Provincias, e seraõ tambem de bons costumes, pois os levaõ da creaçaõ do recolhimento, e boa doutrina. Poderàõ os do Seminario muito melhor fazer o officio de Pregadores, porque escusaõ interpretes na doutrina, e prègaçaõ, que he hum dos grandes impedimentos, que os nossos Clerigos tem para ensinar; porque gastaõ muito tempo em saber a lingua, e ainda quando a alcançaõ, nunca a pòdem tambem saber como os naturaes. Seràõ os Sacerdotes mayor effeito na prégaçaõ, porque como naturaes da terra, haõ de permanecer sempre nella, e naõ virse logo como fazem os nossos; e com o natural amor, que tem aos de sua naçaõ, se moveràõ com natural zelo aos ensinar, e elles os ouviraõ com muito melhor vontade; por verem que os que lhes prégaõ, e daõ exemplo, saõ de sua mesma patria, e gente, e que naõ hà nelles outro interesse.

Naõ se remediarà menos com estes Sacerdotes do Seminario a segunda causa, que apontamos do mào exemplo de alguns nossos naquellas partes; porque vendo os mesmos Portugueses a virtude que resplandece nestes de novo convertidos; confundirse hão considerando a vantagem, que lhes levaõ nos costumes, sendo os nossos os que lhes ensinaraõ a Fè. E quando todavia succeder algum escandalo, os do Seminario tiraràõ a opiniaõ aos naturaes da terra de serem todos os nossos semelhantes na vida, dizendo-lhes da grande Christandade deste Reyno, e que por huns se naõ haõ de julgar todos os outros.

Finalmente fazendo se os Seminarios, se evitaràõ com isso as doenças, e mortes, que padecem os nossos, que vaõ prègar a Guiné; porque como estes moços sejaõ naturaes da terra, seguramente podem andar, e viver nella. Por estas razoens se fez em Goa o Seminario da Santa Fé, em que se criaõ os sojeitos de todas as naçoens Orientaes. E neste Reyno o vimos por experiencia no mesmo Guiné; porque em se descobrindo o Reyno de Congo; mandou ElRey D.Joaõ II. doutrinar logo alguns moços nobres; porque depois de ensinados na Fè, tornassem a prègar a seus naturaes. E o mesmo fez ElRey D. Manoel aos filhos, netos, e sobrinhos delRey D. Afonso de Congo, e outros moços nobres, os quaes aprenderaõ, naõ sómente as nossas letras, mas ainda as latinas, e sagradas; de maneira que delles sahiraõ muitos Sacerdotes, e prègadores; e dous Bispos, que exercitando seu officio, serviraõ a Deos com grande aproveitamento espiritual daquelle Reyno, como testifica Joaõ de Barros Dec. 1. l. 3. c. 10. Pelo que naõ hà duvida, que aprendendo estes sogeitos, faràõ agora os mesmos effeitos, principalmente se os Governadores, Bispos, ou Religiosos, a quem Sua Magestade cõmetter a escolha dos sojeitos, que haõ de vir para o Seminario, fizerem boa diligencia em escolherem os de engenho mais vivo, e melhor inclinaçaõ: e posto que em alguns naõ haja taõ bom successo (como acontece em todos os Seminarios, e Collegios de qualquer naçaõ que sejaõ) isso não tira, que de ordinario nos mais se acerte, principalmente sendo todos estes povos de Guinè muito differentes do novo mundo, e muy doceis, e capazes para toda a doutrina, como o experimentaraõ jà por vezes os que ensinaraõ os de Congo, e Cabo-Verde, e o confessaõ de todos os Olandeses nas suas navegaçoens Orientaes p. 6. cap. 9. dizendo: Viri omnes habent proprietates, quibus virum cordatum, circunspectum, & prudentem ornatum esse convenit, ingenio sunt, & intellectu optimo, & facilè quod vel semel saltem viderunt, apprehendentes imitari, & æmulari non infeliciter conantur, &c. E de hum delles conta o Author Gorardo que lia, e escrevia na lingua Portuguesa, e q́ foy argumentar com os Olandeses, para lhes confutar suas heresias, allegando muitas authoridades do Evangelho, e livros Apostolicos; como refere p. 6. c. 21. nestas palavras: Quin, & unus inventus est, qui linguam Lusitanicum legere, & scribere perfecte potuit, inque sacris literis adeo versatus fuit, ut de religione cum Batavis conferre, & si quid contrarium proferentis, ipsi refutationem ejus ex Evangelistarum, & Apostolorum scriptis suscipere non dubitaret; unde videre est, ingenium quidem eis non deesse, quo ad veritatis agnitionem pertingerent, modo haberent aliquem à quo in capitibus pietatis, & religionis Christianæ principijs recte erudirentur. Quo magis eiiam optandum, ut talia Deus ipsis media largiatur, quæ ad propagationem verbi sui, & salutem ipsorum facere, & prodesse possint.

§. IV.

Do proveito temporal, que resultarà à Coroa de Portugal de se fazerem estes Seminarios.

Notorio he a quem tem noticia das cousas deste Reyno, que a contrataçaõ, e direitos da Costa de Guinè foraõ por muitos annos a principal renda da Coroa de Portugal, e a com que ella se enriqueceo, e lhe deu cabedal para poder fazer as conquistas do Oriente, e novo mundo, pelo muito que importavaõ os direitos de Cabo-Verde, e rios de Guinè, Mina, S. Thomè, e Angolla, como se pòde ver dos Contratos, em que muitas vezes andaraõ arrendadas. Estas rendas, nas quaes os rendeiros ganhavaõ ainda muito, e eraõ taõ certas, que diz Joaõ de Barros[241] della estas palavras: Quanto ao acrescentamento do patrimonio Real, eu naõ sei neste Reyno jugada, portagem, dizima, siza, ou algum outro direito Real mais certo, nem que regularmente cada anno assim responda, sem rendeiros allegarem esterilidades, ou perdas, do que he o rendimento de cõmercio de Guinè; porque dà ouro, marfim, cera, courama, assucar, pimenta, malagueta, e daria mais cousas, se tanto quisessemos della descobrir, como descobrimos, alem dos povos Japões, que passaõ acerca de nós por Antipodas.

Porèm he muito para sentir,[242] que este taõ grande rendimento da Coroa Real esteja quasi de todo acabado de alguns annos a esta parte. A causa saõ os Olandeses, e naçoens do Norte, que navegando àquellas partes em suas nàos, levaõ là as mercadorias, que nòs levavamos em muito mayor abundancia: e naõ contentes com isto, roubaõ todas as nossas embarcaçoens, que por aquellas Costas andaõ de maneira que estaõ hoje quasi senhores daquelle commercio, e tiraõ delle tanto proveito, que se julga por homens praticos lhe vem a importar o trato perto de dous milhoens: e esta foy a fonte das riquezas, que hoje possuem os Olandeses. Para remedio deste mal se tem applicados alguns meyos, mas nenhum delles foy de effeito; porque como aquellas Provincias saõ taõ distantes, e tenha cada huma tantos centos de legoas de Costa he impossivel defenderem-selhe todos os portos com armadas nossas, nem com fortalezas; e assim senaõ acabarmos com os mesmos naturaes da terra, que os naõ queiraõ receber em seus portos, nem commerciar com elles, naõ poderemos ser restituhidos a nosso antigo Senhorio.

Para se isto alcançar daquella gente, parece que naõ póde haver outro meyo mais poderoso, e facil, que o dos Seminarios, que dizemos; porque com elles se alcançaõ dous importantissimos effeitos. O primeiro he segurarmos em nossa amizade os Regulos confederados; porque tendo estes entre nòs seus filhos, e parentes, quasi como em refens, naõ poderaõ declararse em favor dos Olandeses em publico, nem em secreto. O segundo he a universal benevolencia, que adquirirémos com aquelles Principes, e povos de Guinè, os quaes vendo o grande beneficio, que se faz a seus filhos, e parentes em os mandar sua Magestade ensinar, e doutrinar à sua custa, honrando-os, e engrandecendo-os com a dignidade Sacerdotal, admittindo-os aos Beneficios, Cortesias, e Dignidades de suas Igrejas, forçosamente haõde ficar obrigados a taõ grande mercè, e unidos com nosco em paz, e amizade, e feitos inimigos de nossos contrarios, principalmente depois que os Seminaristas seus naturaes lhes começarem a prègar, e persuadir, que se apartem de sua communicaçaõ. Disto temos jà visto hum grande exemplo[243] em ElRey D. Filippe da Serra Leoa, o qual sem receber beneficio algum temporal da Coroa deste Reyno, mais que o espiritual do Bautismo, foy este bastante para lançar fóra de seus portos os Olandeses, e prender os que depois a elles chegaraõ. Pelo que mais se pode esperar que façaõ os outros daqui por diante, vendose obrigados a Sua Magestade com lhes mandar ensinar, e honrar seus filhos, e naturaes.

He este meyo de taõ grande importancia, que naõ póde haver outro mayor, nem mais certo para as Naçoens do Norte deixarem aquelle cõmercio; porque nenhuma cousa cria taõ grande odio entre as gentes, como a diferença das Religioens. E assim ainda em razaõ de estado este he o meyo mais principal, com que os Reys fazem mais obedientes os vassallos, e inimigos de seus vizinhos, como conta a Escritura Sagrada de Jeroboaõ, que fez idolatrar a gente de Samaria, para ficar firme no Reyno novo. Pelo que se estes, e outros muitos alcançaraõ este seu intento prégando falsa doutrina; com muita mais razaõ devemos pretender a conversaõ desta Gentilidade; pois com ella àlem do bem de suas almas se confirmarà em perpetua obediencia o senhorio, que esta Coroa tem naquellas partes, fazendo aborrecer, e odiar nellas os Herejes, de maneira, que naõ sejaõ nellas mais admitidos.

Seguirseha tambem destes Seminarios a paz de Angolla, deixandose o meyo das armas, que ha tantos annos a andaõ destruindo, das quaes senaõ tem colhido fruito algum; porque o pensamento de nos senhorearmos das Minas, a experiencia o tem mostrado impossivel, naõ só porque as naõ hà da fineza, e abundancia, que se requerem para serem de proveito; mas pela grande dificuldade, que haveria em se conservar o dominio dellas tantas leguas pelo sertaõ dentro, o que naõ poderia ser sem muitos presidios. Onde os inimigos, e doenças eraõ bastantes, para consumir toda a gente de Portugal. E assim destes metaes nunca poderémos ter mais, que aquelles que os Negros nos trouxerem a resgatar, movidos pelo interesse do ganho; e as guerras, que por este respeito se fazem, só servem de gastarem a fazenda de Sua Magestade ha muitos annos, por custar muito naquellas partes a sustentaçaõ dos soldados, e naõ para algum bom effeito. Porque ainda que sempre tivemos vitoria, naõ se contentaõ muitos Capitaens com este vencimento por ganharem mais com Sua Magestade nestas guerras, do que as mesmas rendas de Sua Magestade poderiaõ ganhar com o commercio da paz. E sendo assim que a conquista de Angolla naõ se intentou para povoarmos aquella Provincia (pois neste Reyno nos sobejaõ terras muito melhores, que por falta de gente se deixaõ de cultivar) senaõ por respeito da conversaõ dos naturaes da terra, e do comercio: não sey que espirito de guerra tem entrado naquelle Estado, que o tem destruido quasi de todo. E feito cessar huma, e outra cousa, por ser a guerra a destruidora dos commercios, e da promulgaçaõ do Evangelho, que sendo como temos dito, de paz, naõ se pòde prègar com as armas na maõ. E por isso dizem os Santos, que ordenou Nosso Senhor houvesse huma paz universal no Mundo, quando quiz que se convertesse, e prégasse nella sua Santa Ley. E o que em Angolla està feito de conversaõ, e commercio, se deve aos que a governaraõ em paz, e naõ com guerra. Por tanto se devem mandar extinguir estas infaustas guerras, e trazer aquelles Povos à nossa amizade com beneficios, e boas obras, ensinando-lhes os filhos, e honrando-lhos por meyo dos Seminarios; e por esta via se alcançarà a benevolencia daquellas gentes, e naõ com as mortes de seus parentes, e assolaçoens de seus Povos, que cada hora recebem de nossas mãos, em lugar dos favores, e caricias, com que os haviamos de attrahir para se converterem, e estimarem nossa communicaçaõ.

Finalmente com esta obra dos Seminarios alcançarà Sua Magestade hum nome gloriosissimo de Pio, e Religioso Principe, porque vendo as outras Naçoens estes Seminarios, e o grande zelo da honra de Deos, com que Sua Magestade manda taõ longe, e a terras taõ barbaras doutrinar sogeitos para a prègaçaõ do Evangelho, e fazer politica huma das mayores partes do Mundo, naõ poderaõ deixar de lhe dar grandes louvores, edificando-se de taõ grande zelo da salvaçaõ das almas. E com isto se calaraõ de todo nossos inimigos,[244] que vendo nosso descuido, naõ deixaõ de nos calumniar, dizendo que naõ himos àquellas partes, por estender o Evangelho, senaõ por fazer nosso proveito. As quaes calumnias falsas, e outras semelhantes, de que andão seus livros cheyos, cessaraõ de todo, vendo com estes Seminarios, que a salvaçaõ das almas he o principal interesse, que Sua Magestade pretende destas Conquistas.

§. V.

Como se poderaõ fazer os Seminarios com pouco custo.

Do que temos atègora dito, consta que esta obra da conversaõ dos Ethyopes desta Costa, naõ se pòde fazer sem ajuda dos mesmos naturaes da terra doutrinados, e ensinados por nòs. Pelo que resta sómente vermos os meyos, com que isto se hade fazer: estes saõ notoriamente dous, ou vindo os sogeitos de Guinè aprender a Portugal, ou hindo os Prègadores de Portugal a Guinè a ensinallos.

Bem sey que de muito mòr proveito fora fazer estes Seminarios em Portugal, applicando-se a creaçaõ delles a alguns Religiosos; porque cà seria de mòr fruito a doutrina, e aprenderia juntamente a policîa, como aconteceo aos primeiros Sogeitos que de Congo vieraõ, que chegaraõ a ser depois Bispos. Mas se pelas occasioens presentes naõ pòde isto agora ter inteiro effeito, ao menos bem se poderiaõ repartir alguns a dous, a dous pelos Conventos de Religiosos com ordem de Sua Magestade, para que fossem doutrinados nas boas letras, e podessem depois hir fazer o mesmo officio com seus naturaes. O que meyo com muita facilidade se podia executar. Porém quando isto agora naõ possa ser, facilmente se poderaõ ordenar em Guinè; porque as fabricas, que se usaõ naquellas partes, saõ taõ pouco custosas, e do mesmo modo a sustentaçaõ dos sugeitos pela barateza dos mantimentos da terra, que ElRey D. Affonso de Congo fez huma cerca, em que tinha mil moços nobres com Mestres, que os ensinavaõ, e delles sahiraõ Mestres, que poseraõ escolas por todo o Reyno, e por este meyo se veyo converter todo elle, como se diz na Chronica delRey D. Manoel p. 4. c. 3. Pelo que tornando as rendas daquellas Provincias seu estado com huma moderada ordinaria, se poderiaõ sustentar os sogeitos, que parecessem convenientes.

Para se fazerem estes Seminarios, àlem do de Loanda em Cacheu, ou em Biguba ha a mayor commodidade, que pòde ser, naõ só para os Discipulos, mas para os Mestres, que naõ saõ naturaes da terra. Cacheu, diz o Padre Balthesar Barreira nas cartas do anno de 1607. e 1608. que he o mais composto, que se póde escolher; porque he porto frequentado de todos os navios de Europa, e Caboverde, pelo grande resgate, que aqui ha de escravos, os quaes antes de se embarcarem, se bautizaõ, e por isso he alli mais necessaria huma casa de Religiosos doutos. Confessa o Padre, que aqui fez mayor fruito, que em nenhuma outra parte de Guinè, com estar alli menos tempo. E com tudo era grande a magoa, e dor, que sentia de ver a perdiçaõ de tantas almas, que se poderaõ salvar, se deste Reyno lhes mandaraõ quem os doutrinasse; porque com o bom entendimento, que tem, se sojeitaõ tanto às razoens, que lhes daõ, que sem duvida se converteriaõ todos. E he esta Provincia taõ perto deste Reyno, que naõ dista de Portugal mais que 20. dias de navegaçaõ. E o que mais he de notar, que diz o Padre em muitos lugares, que os ares da Serra Leoa, e dos mais lugares daquella costa levaõ ventagem aos melhores de Portugal; e que se naõ morre naquella terra de doença, senaõ de velhice; porque naõ tem excesso nos frios, nem nas calmas pela frescura que sempre corre, e assim naõ he necessario no veraõ usar de remedios de aguar as casas, nem de avanos. E affirma o Padre, que tem esta terra por mais accommodada à vida humana, que todas as de Europa.

A facilidade da conversaõ he tanta, que diz o Padre Balthasar Barreira, que naõ ha Rey dos que vivem pela Costa, que naõ queira receber o Evangelho com toda a sua gente: exemplo seja, que os mais delles lhes deraõ os mesmos filhos, para que os levasse consigo, e os ensinasse, e assim entre outros trazia dous filhos delRey de Tora, e outros dous, da Serra Leoa.

O Cõmercio he taõ grande, que excede o que se tira de todas as outras partes, porque diz, que só os Olandeses tiraõ delle todos os annos dous mil arrateis de ouro. Na terra hà melhor pào de tinta, que o do Brasil, mais algodaõ, e mais fino, ambar, marfim, cera, malagueta, courama. As canas de assucar nascem naturalmente, grande abundancia de mantimentos, ferro, e outros metaes, muitas arvores de espinho, as uvas se daõ pelo campo, bananas, arroz, milho, castanha, a que chamaõ Cola, de que se leva para todo Guinè, e nascem em ouriços sem espinhos, palmeiras, toda a sorte de aves, e animaes, muitos, e bons pescados, pelo que naõ só havendo Prègadores, se ficaria ganhando hum numero quasi infinito de almas para a Igreja Catholica, mas hum muy rendoso comercio para este Reyno.

Para Sua Magestade mandar contribuhir das rendas de Guinè esta ordinaria, hà assaz de razoens: porque àlem de naõ ser muita a porçaõ, he esta obrigaçaõ imposta pelo Sagrado Concilio Tridentino àquelles dizimos, àlem de os Summos Pontifices concederem com esta condiçaõ à Coroa deste Reyno o Senhorio de Guinè; da qual só Angolla rendia quarenta contos. Pelo que naõ he muito, que para esta obra de tanta obrigaçaõ, e proveito espiritual, e temporal se acrescente esta Ordinaria às outras de Angolla, e Caboverde, a qual naõ servirà de despeza, senaõ de accrescentamento dellas; porque como dissemos, naõ se pòde fazer mayor guerra aos Herejes naquellas partes, que por meyo do Seminario. De maneira que continuandose elle, em poucos annos se colherà sem comparaçaõ muito mayor fruito temporal, do que pòde ser o gasto; mas ainda que se este naõ seguisse, assaz se alcança com a salvaçaõ de tantas almas: sendo cada qual de tanto preço, que só por huma dellas, viria Nosso Senhor de novo do Ceo à terra a se fazer homem, se isso fora necessario para sua salvaçaõ.

Este zelo da honra de Deos foy o que dilatou o Senhorio de Portugal posto num canto de Espanha atè os fins da terra, dando-lhe as riquezas de Africa, Asia, e America. Esta grandeza hirà sempre em crescimento, se se continuar o zelo da conversaõ das mesmas gentes. Para o qual ministerio Nosso Senhor escolheo por sua particular graça, e misericordia aos Portugueses, como o certificou ao nosso primeiro Rey D. Affonso Henriques. Este he o fundamento de nossas vitorias, esta he a causa de se sustentarem as Colonias de Portugal por todas as Costas da redondeza da terra; o que naõ pòde ser senaõ milagrosamente, porque naõ houve nunca Monarquia, que tanto se estendesse, nem Imperio algum, que tivesse poder para defender tantas mil legoas de Fronteira confinantes contra os mayores Principes do mundo. A esta divina obra deraõ principio os Portugueses, como outros novos Apostolos, por ella derramaraõ tantas vezes o sangue, e sacrificaraõ as vidas, como tem visto o mundo todo no grande numero de Martyres, assim Religiosos, como Seculares, que padeceraõ no Japaõ, China, Siaõ, India, Cafraria, e no Brasil.

Botero no livro intitulado: Del officio di Cardinali l. 2. fol. 138. estranha grandemente aos Portugueses o esquecimento que tem de prègarem na Ilha de S. Lourenço; tendo tanto zelo, que se empregaraõ na conversaõ espiritual da India, Malucas, Japaõ, e China, que lhe ficava muito mais longe. Pelo que com quanta mais razaõ se podéra queixar de faltarmos com esta doutrina aos povos de Guinè, se fora informado das commodidades, que para isso temos muito mayores, que naõ para a Ilha de S. Lourenço, suas palavras saõ: Non voglio pero lasciar de dire che io mi maraviglio grandemente, che i Portuguesi, che con lode, e con gloria loro immortale an aportato la luce del Evangelio a la India, a le Maluche, a la China, i al Giapone, & che no hanno incio risparmiato, ne speza, ne travaglio, ne periculo alcuno, lascino, in abandono, la Isola de San Lorenzo, posta quasi a media strada de le navigationi loro.

Finalmente se desejava[245] S. Francisco Xavier de hir prègar aos Doutores da Universidade de Pariz a obrigaçaõ, que tinhaõ de exercitar o talento na conversaõ dos povos da India, que por falta de semelhantes obreiros se hiaõ à perdiçaõ; com quanto mais razaõ pòdem temer esta conta aquelles, a cujo cargo estiver procurar a conversaõ de tantas almas, que por esta falta se perdem cada dia? E assim parece se deve mandar entender nesta materia com muita diligencia, e consideraçaõ; pois della resulta taõ grande serviço de Deos, e de Sua Magestade.

NOTAS DE RODAPÉ:

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