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Noticias de Portugal

DISCURSO IV.

Reading edition

SOBRE AS MOEDAS DE Portugal.

§. I.

A noticia, e ponderaçaõ das Moedas, e Medalhas antigas tem occupado a grandes engenhos, e vemos hoje muitos volumes, que trataõ sómente deste argumento, por quanto nas imagens das Moedas, e suas inscripçoens se conserva a memoria dos tempos mais, que em nenhum outro monumento. Os livros depressa se consomem, se senaõ copiaõ, as fabricas, e estatuas naõ passaraõ de hum lugar, e ahi mesmo acabaraõ, as pyramides, e obeliscos, em que se esculpiraõ os hieroglyphicos mysteriosos, que continhaõ as propriedades occultas, jà delles naõ ha memoria. Pelo que nenhuma cousa conserva tanto a antiguidade, como as Moedas, e Medalhas, que pela incorrupçaõ dos metaes perseveraõ perpetuamente, e por seu grande numero estaõ em toda a parte, onde representaõ os verdadeiros rostos, que tiveraõ os mais antigos Principes, seus nomes, suas vitorias, suas fabricas, e finalmente o valor de todas as cousas, porque todas ellas se reduzem ao pezo, e valia da Moeda. Exemplo seja disto a historia dos Emperadores, que fez Roberto Herbipolita tirada só das suas Medalhas. A Religiaõ, Milicia, e Exercitos da mesma Republica se mostraõ em outro volume de Guilhelme de Choul tirado das Moedas antigas. Julio Orsino pelas mesmas Medalhas escreveo, e deduzio as geraçoens das antigas Familias de Roma. O Arcebispo de Tarragona D. Antonio Agostinho, e Sebastiaõ Eriso mostraraõ em grandes volumes as empresas, hieroglyphicos, e mysterios, que em outras muitas Medalhas os Principes, e Respublicas quizeraõ significar ao Mundo. Sobre os Siclos, e Moedas naõ saõ de menos erudiçaõ, e estima os doutissimos Budeu, e Covarruvias, e outros muitos, que nesta materia escreveraõ. Por onde atè no Evangelho Sagrado[188] se nos dá por exemplo da Sabedoria o Perfeito pay de Familias, cujo thesouro se compoem das Moedas antigas, e modernas: Qui prosert de thesauro suo nova, & vetera. E porque naõ ha atègora quem divulgasse inteiramente o que toca às Moedas deste Reyno, e da antiga Lusitania, me pareceo fazer dellas este breve Discurso.

§. II.

Moedas Romanas.

Antes da entrada dos Romanos em Espanha, ou os Espanhoes naõ usaraõ de Moeda propria; ou se as houve, naõ chegaraõ a nòs; porque algumas, que se acharaõ com letras Gregas, ou Carthaginesas, saõ mais das Colonias, que cà tinhaõ estas Naçoens, que de Espanha. E a razão he, porque como não havia cá Principe universal; e os que mandavão varias Respublicas, erão mais como Capitaens, e Governadores, que como Reys absolutos, não havia quem obrigasse aos povos a aceitar Moeda esculpida com seu rosto, e nome, mas vindo este poder a mãos de Sertorio, como sua intençaõ foy fazer-se Senhor de Espanha, como Mario, a quem elle seguio, intentàra fazer-se de Roma, foy o primeiro que achamos, que bateo Moeda; a qual tinha de huma parte o seu rosto com huma vista menos, e da outra parte huma cerva, que era a sua divisa; porque huma branca, que consigo trazia, fingio que lha mandàra a Deosa Diana. Em Evora se achou huma moeda de prata com esta escultura, que eu tenho na fórma, que aqui està estampada.

moeda
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O Mestre Ambrosio de Morales refere outra semelhante, que lhe veyo às mãos, que era de bronze, e tinha o nome de Sertorio.

Outra teve o Arcebispo D. Rodrigo da Cunha de prata achada em Almeida com o mesmo nome de Sertorio, e escultura. Porèm com a morte de Sertorio, e reduzida Espanha a Provincia de Republica, e do Imperio, naõ teve mais Principe particular, que batesse moeda, e assim todas as que houve desde Julio Cesar atè a entrada dos Godos em Espanha, não pertencem particularmente a este Reyno; porque ainda que em algumas dellas se acha o nome de Hispania, era mais como empresa, que como particular Moeda. Tambem as Cidades particulares batiaõ Moeda com o nome da Cidade, e sua insignia, e da outra parte o rosto do Emperador. Destas tenho eu muitas de Merida, que era Cabeça da Lusitania, as quaes de huma parte tem as Torres sobre a ponte com a inscripçaõ: Emerita colonia Augusta. E da outra parte o rosto do Emperador Augusto, e Tiberio. Mas estas Moedas mais saõ particulares, que universaes, e se batiaõ com particular privilegio, como se vè de huma da mesma Merida, que de huma parte tem hum junta de hum touro, e de huma vaca, com a letra: Augusta Emerita; e da outra: Cæsaris Augusti P. P. permissu.

Das Moedas dos Emperadores Romanos se tem achado em Evora, e sua Diocesi grande numero, e a minhas mãos tem vindo mais de 3U000. Moedas de ouro, prata, metal Corinthio, e bronze de todos os Emperadores, cousa difficultosa de achar, ainda em huma Cidade de Italia; o que denota bem a grandeza, que entaõ teve a nossa Evora; pois ainda depois de tantos seculos conserva taõ inteiras memorias da Monarquia Romana. Porèm como estas Moedas sejaõ universaes a todas as Provincias do Imperio, naõ me parece fazer dellas particular mençaõ.

§. III.

Moedas Gotticas.

Depois que Espanha foy apartada do Imperio pelo poder dos Godos, que a occuparaõ, ainda que se governava pelos Reys, que elles elegiaõ; com tudo atè o tempo de Leovigildo nenhum delles bateo moeda, por serem mais Capitaens, que Principes. Porèm como Leovigildo apoderando-se do Reyno dos Suevos, onde foy chamado para socorro, ficou absoluto Senhor de toda Espanha, foy o primeiro, que tomou insignias Reaes, e batendo moeda, se senhoreou de tudo; e assim de entaõ atè ElRey D. Rodrigo hà moedas de todos os Reys, que a Leovigildo succederaõ, das quaes eu tenho muitas achadas em Evora, e em seu territorio, que me pareceo devia apontar, por quanto Leovigildo, e seus successores naõ sómente foraõ Senhores de toda Espanha, mas fizeraõ particular estimaçaõ da Lusitania; porque Leovigildo deu titulo de Rey della ao Santo Martyr Hermenegildo seu filho, que residia em Merida, de maneira, que só desta Cidade se conserva hoje mayor numero de moedas Gotticas, que de nenhuma outra Cidade de Espanha; e ainda se pòde dizer, que ella só compete com todas as outras juntas. Pelo que com razaõ podemos ter estas moedas por Lusitanas, e proprias; alèm das quaes tambem se apontaraõ algumas, que trazem outros Authores, para ficar a noticia desta materia mais inteira.

§. IV.

Leovigildo.

Nas Moedas dos Reys Godos se vé melhor, que em nenhuma outra cousa o haver-se perdido quasi de todo a esculptura em Espanha; porque podemos dizer, que naõ tem figura de rosto humano, o que nellas està esculpido, mas com tudo isso por ellas se averiguaõ muitas cousas, que de outra parte naõ se poderaõ saber: e podéramos attribuir esta falta da esculptura a ser os Godos gente pouco amiga de taes policias, senaõ se achara a mesma barbaria nas Moedas dos Emperadores de Constantinopla por estes tempos.

DelRey Leovigildo dizem muitos Escritores,[189] que foy o primeiro, que acrescentou os Dereitos do Fisco Real, e ajuntou grande thesouro de bens confiscados, e despojos de inimigos, e com soberba tambem, e altivès se vestio de roupas preciosas, e assentando-se em alto throno, tomou insignias Reaes; porque antes, como apontamos, e o diz Santo Isidoro, os Reys dos Godos naõ se differençavaõ no trage, nem em outra pompa da gente commum.

Deste Rey tenho huma Moeda de ouro com rosto de ambas as bandas, letra: Leovigildus Rex: e da outra: V.M.D.O.P.T.I.N.I.T.S.P. Estas letras naõ achey quem as interpretasse, por serem letra por parte; mas parece se pòde dizer: Cum Dominium optinit Spaniæ. Bem vejo, que nesta interpretaçaõ fica o latim errado; porque houvera de ser, obtinet. E Spaniæ, houvera de ser com H. porém os Godos eraõ taõ barbaros, que nestes letreiros comettiaõ outros erros, escrevendo Tustos por Justus; e Recarepus, por Recaredus; como notou o Arcebispo D. Antonio Agostinho, e escreveraõ: Emeretæ, por Emerita; e assim naõ serà muito estar este letreiro errado no latim.

moeda
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Outra Moeda traz deste Rey Gaspar Estaço nas Antiguidades de Portugal cap. 68. num. 13. & 14. a qual tem de ambas as bandas a sua imagem, e letra: Leovigildus Rex: e da outra parte: Brachara Victor; a qual Moeda parece que se lavrou quando Leovigildo foy socorrer os Suevos, e lhe usurpou o Reyno; e como Braga era cabeça de Galiza, intitulando-se vencedor de Braga, que era a Metropoli dos Suevos, se ficava intitulando Senhor do Reyno.

Naõ vio o Mestre Ambrosio de Morales nenhuma Moeda de Leovigildo, pelo que he de notar, que estas duas, que apontamos deste Rey, pertencem ambas a Portugal; porque a que eu tenho, se achou em Evora, e assim denota mandalla Leovigildo lavrar depois, que unio a si o Reyno dos Suevos, e ficou Senhor de toda Espanha.

A terceira he a que traz o Arcebispo D. Antonio Agostinho,[3] que diz Elvora Justos, que quer dizer, Justo em Evora; e se devia bater por alguma acçaõ insigne de justiça, que ElRey fez na nossa Cidade de Evora; por onde parece, que nestas partes de Portugal foy a sua residencia mayor.

§. V.

Hermenigildo.

ElRey Leovigildo deu ao Principe Hermenigildo seu filho o titulo de Rey, e por assento de sua Corte a Merida, como aponta o Arcebispo de Turs; e porque Merida era a cabeça da Lusitania, podemos ter a este Santo Principe por particular nosso. O titulo de Rey se vè numa Moeda sua de ouro, que tenho, e se achou em Almeida; e de huma parte tem o seu rosto bem esculpido com huma Cruz nos peitos, e a letra Hermenigildus. Da outra huma figura assentada com a coroa na cabeça, e na mão huma cousa, que parece cetro, e a letra à roda, que diz: Rex inclytus; e ao pè do assento, E. M. que parece: Emerita. Esta Moeda parece se lavrou, quando se lhe deu logo o titulo de Rey.

moeda
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O Mestre Ambrosio de Morales[190] faz mençaõ de outra moeda deste Santo Principe, que mandou lavrar, quando se levantou contra seu pay em favor dos Catholicos, dizendo: Esto escriven expressamente el Papa San Gregorio, y otros autores, y parece claro en una moneda de oro, que yo tengo deste Santo Principe de las que batió en esta rebelion, hallose cavando cerca de Cordova en una dehesa, que llaman Casablanca, donde parecen señales de grandes edificios antigos: es una insigne antigualla, y que tiene cosas muy notables; aun que y o la tengo, y la precio mas por otros respetos Christianos, y por my devocion con este Santo. De la una parte está el rostro del Principe sobre un trono con una Cruz en medio del, y al derredor dizen las letras: Ermenegildi. Por donde se entiende como su verdadero nombre deste Principe es Ermenegildo, y no Ermergildo, ni Ermegildo, como en muchos libros corruptamente se lé, y commummente se pronuncia por el uso muy antigo de Hespana en corromper siempre todos los nõbres proprios con mudarlos, y acortarlos algo de su verdadera origen, y principio, pues siendo ya cabeça de los Catholicos el Principe, todavia tiene este nõbre, no es creible, que lo mudó, como el de Turs dizia: de la otra parte tiene la moneda una vitoria, por poner el Principe en los suyos con su vista buen esfuerço, y esperança en Dios de alcançarla: la letra, que està al derredor en este reverso, es excelente, y cierto parece ser lo que San Ermenegildo en aquella guerra apellidava, pues dize. Regem devita; y en Castellano quiere dizir: Huye delRey: y luego en oyendo se esta letra, entienden los Doctos manifiestamente como fue tomada de las palabras de San Pablo a Tito su Discipulo, que son estas: Hæreticum hominem post unam, & secundam corretionem devita: huye del hereje (diz el Apostol) despues que uma, y dos vezes le huvieres amonestado. Assi el Santo Principe apellidando con estas palabras, justifica el alçarse contra su padre, muestra el intento Catholico, que tuvo en la rebelion, y esto mismo pone en los suyos, para que lo sean leales, y amonesta a los demas, como deven seguirle, y parece que con mucha modestia respeto de hijo no dixo: Hæreticum devita; ni tan poco: Patrem devita sino que se buscò el vocablo, que con menos nota de su padre se pudo usar; y todo està tan admirablemente pensado, y aplicado, que se puede bien creer fue invencion de San Leandro, y de Santo Isidoro, tios del Principe, que con su santidad, y alto juizio dieron en un tal acrescentamiento. Y tiendo todas las monedas, que se hallan, de los Reyes Godos, de oro baxo, esta es de muy fino. Porque como quien tenia neccessidad de atraher gentes a su parte, las combidava con esta riqueza. Assi con ser esta moneda del mismo pezo, que las demas de aquellos tiempos solen ser, tiene quasi doblada ventage en el valor por la fineza.

§. VI.

Recaredo.

DelRey Recaredo irmaõ do Santo Principe Hermenegildo se tem achado muitas Moedas de ouro em Evora, que me vieraõ à maõ: huma dellas tem de huma parte a imagem de Recaredo armado com a letra: Recaredus Rex, e da outra a mesma imagem, letra: Emerita Pius.

moeda
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Esta Moeda parece mandou lavrar ElRey em memoria de sua insigne clemencia; porque numa grande conjuraçaõ, que se fez contra elle em Merida, perdoou a todos os culpados benignamente.

Outra Moeda tenho do mesmo Rey com a sua imagem de ambas as partes, e a letra de huma diz: Recaredus Rex; e da outra: Emerita Victod; pondo-se barbaramente o D. por R. a qual parece se lavrou depois da grande batalha de Carcassona, onde Claudio Governador de Merida com 300. dos seus escolhidos desbaratou milagrosamente o Exercito dos Franceses, que era de 60U000. homens, como diz o nosso Abbade Biclarense. E porque Claudio governava a Merida, e della devia de levar a principal soldadesca, parece que em agradecimento desta Cidade, e do seu Capitaõ, quiz que ficasse esta memoria, e triumfo della. Desta Moeda tenho mais quatro copias tambem de ouro; ainda que todas estas tem: Emerita Victor, com R. no fim.

Outra Moeda tenho do mesmo Rey de ouro, que de ambas as partes tem a sua figura, e de huma a letra: Recaredus Rex: e da outra Hispali Pius. Esta Moeda parece se lavrou, quando S. Leandro com favor deste Rey celebrou em Sevilha o primeiro Concilio, que naquella Cidade houve; e por isso lhe dà esta Moeda titulo de Pio em Sevilha. O Arcebispo D. Antonio Agostinho Dialogo 8. traz huma Medalha deste Rey, de huma parte diz: Recaredos Rex; e da outra: Emerita Victor. Outra Moeda traz o mesmo delRey Recaredo, que de huma parte tem seu rosto, e a letra: Recarepus Rex: ubi P. pro D. positum, e da outra parte: Elvoya Justos, que parece diz: Justo em Elvas.

Das primeiras Moedas, que aqui refiro, teve tambem copia, e noticia o Mestre Ambrosio de Morales,[191] o qual faz mençaõ de outras Moedas deste Rey; huma com o seu rosto de ambas as partes, mas as letras saõ as mesmas em todas, as do rosto dizem: Recaredus Rex, e da outra parte: Toleto Pius. Esta Moeda mandou lavrar ElRey em memoria do Concilio III. Toletano, em que abjurou a heregia Arriana, e professou a Fè Catholica, e foy o terceiro Concilio, que se ajuntou em Toledo.

Outra Moeda traz do mesmo Rey de prata, que de ambas as partes tem o seu rosto, e de huma escrito o nome do Rey, e da outra: Toleto Justus: Justo em Toledo, a qual parece se lavrou em memoria do castigo, que ElRey fez em Toledo de Argimundo, que sendo da Camara delRey, se quiz levantar contra elle, e com o Reyno: o qual sendo preso, e confessando seu delito, foy decalvado, esfolando-lhe a pelle da testa, e moleira, e lhe cortaraõ a maõ direita, e aos outros castigaraõ.

Outra Moeda de ouro traz o mesmo Author deste Rey, que tem o seu rosto de ambas as partes, e de huma escrito o seu nome, e da outra: Elbora Justus. Por onde parece, que esta Moeda se devia de bater por alguma obra insigne de justiça, ou de bom governo, que ElRey fez na nossa Cidade de Evora.

§. VII.

Liuva.

Deste Rey, que foy filho, e successor de Recaredo, tenho huma Moeda de ouro com sua imagem de ambas as partes, letra: D. N. Liuva Rex, e da outra: Emerita Pius; quer dizer: ElRey Liuva N. S. Pio em Merida. Ser esta Moeda deste Rey, e naõ do primeiro Liuva, consta; porque antes de Leovigildo, os Reys Godos naõ bateraõ Moeda, como jà dissemos.

Esta devia de ser feita em memoria de alguma obra insigne religiosa, ou Concilio por sua ordem feito naquella Cidade, de que as historias naõ daõ noticia.

O mesmo diz o Mestre Ambrosio de Morales[192] de outra Moeda deste Rey, como se vè destas palavras: En su tiempo deste Rey no sabemos se hiziesse Concilio en Sevilla; mas el sin duda, hizo en aquella ciudad alguna cosa como Rey Catholico, y buen Christiano, segun se haze memoria en una Moneda suya de oro, que yo tengo. De ambas partes està en ella su rostro com Diadema Real; y de la una dize. D. N. Liuva Rex: El Rey Liuva nuestro Señor, y de la otra: Pius Hispali; Religioso en Sevilla; yo tengo esta Moneda por deste Rey, y no del primero deste nombre; por tener ya Diadema, que no se avia usado en tiempo del otro; y principalmente por hazer memoria de la buena Christianidad del Rey, la qual no pudo aver en el otro, siendo Arriano.

§. VIII.

Uviterico.

Duas Moedas de ouro tenho deste Rey, que succedeo a Liuva, de ambas as partes tem a sua imagem com grande cabelleira, a letra de huma diz: Uvitericus Rex; e da outra parte: Emerita Pius. A outra tem tambem o mesmo nome do Rey, e da outra: Ispali Pius. A primeira Moeda, que significa Pio em Merida, parece devia de fazer bater este Rey, quando quiz tornar a introduzir a seita Arriana; dando principio a esta sua maldade em Merida; e pòde ser, que dando nome de piedade à sua heresia, mandasse esculpir esta Moeda com o titulo de Religioso, e Pio; ou tambem pòde ser o que diz Morales, que vendo, que naõ podia tornar a introduzir a seita Arriana, se mostrasse em algumas obras Catholico.

Da outra Moeda que diz: Pio em Sevilha, teve tambem outra copia della Ambrosio de Morales;[193] posto que o nome de Hispali, na Moeda, que eu tenho, he com I. e na de Morales he com H. e desta, e doutra, que teve feita em Tarragona, diz o seguinte: Yo nombro siempre a Uviterico con, E, con I. indefferentemente, por aver visto Monedas de oro suyas, donde està de ambas maneras escrito, la una con su rostro tiene estas letras de su nombre: Uvittericus Rex; y de la otra parte con el mismo rostro dize: Tarraco Pius: Religioso en Tarragona, y siendo tan malo, como està dicho, no se puede entender, porque se le puso esta letra. Puedese conjecturar, que no aviendo podido salir con bolver la heregia, se fingio muy Catholico, e dio alguna muestra desto en aquella Ciudad, y la lisonja como suele con verdad, y sin ella, celebró en ElRey lo que no avia; y a la misma cuenta se puede poner otra Moneda de oro, que yo he visto deste Rey con su rostro, y nombre de una parte, y de la otra con el rostro: Hispali Pius; y el nombre delRey en esta Moneda Uviterico es I. no con E. como en la otra, assi parece se puede nonbrar de ambas maneras.

§. IX.

Gundemàro.

A Uviterico succedeo Gundemàro. Deste Rey traz o Mestre Ambrosio de Morales[194] huma Moeda, de que diz estas palavras: He visto una Moneda de oro deste Rey con su rostro de una parte, y las letras: Gundemàrus Rex; en el reverso tambien estava el rostro, y dizian las letras: Pius Illiberri. Alguna buena cosa deviò de hazer en aquella Ciudad, que estuvo junto a Granada llamada: Iliberi; de donde se le puso el titulo Piedoso, ò Religioso en Iliberi. Esta Cidade, que esteve junto a Granada, naõ se chamava; Illiberris, senaõ Illiberis; e a causa de estar aqui o nome de Illiberri com dous r.r. he porque os Godos, como gente do Norte, pronunciavaõ todo o R. dobrado; e assim por Illiberi, diziaõ Illiberri.

§. X.

Sisebuto.

Em Evora se achou huma Mueda de Sisebuto successor de Gundemàro de ouro, que eu tenho, de ambas as partes com seu rosto; e de huma as letras: Sisebutus Rex: e da outra: Eminio Pius, a qual he a seguinte.

moeda
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Esta moeda parece mandou lavrar El Rey depois da vitoria, que teve dos soldados Imperiaes de Heraclio, na qual se houve com tanta piedade, que naõ somente libertou os seus prisioneiros, mas ainda resgatou aos que estavaõ presos em mãos de particulares. Estas vitorias deviaõ de ser na Lusitania; por quanto o que os Emperadores de Constantinopla possuhiaõ por este tempo em Espanha, era a parte, que cahia junto ao mar pela costa deste Reyno; e como cà foy a guerra, e Eminio està perto de Aveiro, no lugar donde agora chamaõ Agueda, pode-se entender, que ahi fosse esta sua piedosa magnificencia; pela qual se lhe deu o titulo de Pio em Eminio, ou Agueda, a qual pela vizinhança, que tem com Aveiro, muitos lhe daõ o mesmo titulo. Outra moeda de ouro tenho do mesmo Rey com rosto de ambas as partes, e de huma a letra: Sisebutus Rex; e da outra: Emerita Pius. Foy este Rey muy religioso, e em seu tempo se celebrou hum Concilio Provincial em Agàra na Provincia de Narbona, e outros em Tarragona. Pelo que bem se pòde cuidar, que o mesmo succederia em Merida, Metropoli da Lusitania; e que tambem se faria ahi algum Concilio Provincial dos seus Bispos, em memoria do qual se lavraria esta moeda, chamando-lhe: Pio em Merida; que he o titulo, que outros muitos tomaraõ em razaõ de fazerem celebrar Concilios, como jà temos visto.

A isto se acrescenta, que a residencia deste Rey devia de ser mais frequente nesta parte da Lusitania; assim pelas guerras, que teve com os Imperiaes, que possuhiaõ o maritimo de Portugal, como pela memoria, que ainda hoje hà delle em Evora; chamando-se Torres de Sisebuto, dous Cobelos grandes, e muito fortes, que ainda hoje se sustentaõ inteiros no muro antigo da Cidade, està na rua chamada Alcarcova.

O Mestre André de Resende teve outra moeda deste Rey de prata lavrada na mesma Cidade de Evora, que de huma parte tinha o seu rosto com estas letras: D. N. Sisebutus Rex. El Rey Sisebuto nosso Senhor, e da outra huma grande Cruz, e dentro estas letras: Civitas Ebora; e ao redor: Deus adjutor meus: Deos he minha ajuda. Por esta moeda entende Resende, e o approva Morales,[195] que houve em tempo deste Rey casa de moeda em Evora, e que as fortificaçoens, que Sisebuto fez nas torres dos seus muros, foraõ contra os Imperiaes, que como tinhaõ o districto maritimo, lhes ficava sendo Evora sua fronteira. O Arcebispo D. Antonio Agostinho[196] traz huma moeda deste Rey, que de huma parte tem sua imagem, letra: Sisebutus Rex; e da outra: Emerita Pius.

§. XI.

Svinthila.

Em Evora se achou huma moeda de ouro delRey Svinthila filho delRey Recaredo Segundo, e netto de Sisebuto com o seu rosto de ambas as partes, e de huma o letreiro, que diz: Svinthila Rex; e da outra: Justus Tucci. Refere Santo Isidoro, que este Rey teve grande prudencia, e se applicava com grande cuidado a fazer justiça a seus subditos. Pelo que com razão se podia prezar deste excellente titulo de Justo. O lugar de Tucci naõ se pòde assignar com certeza; por haver muitos deste nome em Espanha; porèm podese conjecturar, que fosse hum, que estava junto a Sevilha no caminho para Merida, como Rodrigo Caro aponta no seu Principado de Sevilha debaixo do titulo de Tucci.

Outra moeda de ouro tenho tambem deste Rey com o seu rosto de ambas as partes, e de huma o seu nome, e de outra: Ispali Pius. Santo Isidoro diz tantos bens do governo dos primeiros cinco annos deste Rey, que facilmente se pòde entender faria era Sevilha, onde elle era Prelado, alguma obra insigne de piedade, por onde mereceo este titulo de Pio em Sevilha.

O Mestre Ambrosio de Morales[197] traz tres moedas deste Rey, de que diz as palavras seguintes: El nombre deste Rey està escrito diversamente en los libros; mas el verdadero es, el que aqui le damos, como parece en dos monedas de oro suyas, que yo he visto; tienen de ambas partes su rostro, y de la una dizen las letras al derredor: Svintila Rex; las letras del reverso dizen: Pius Eliberi: y en Castellano: Religioso en Iliberia: Esta ciudad es la que segun algunas vezes se ha dicho, estava cabe Granada llamada entonces Eliberi. He visto otra moneda de oro deste Rey, que tiene de la una parte su rostro, y su nombre; y de la otra su mismo rosto con estas letras: Tarraco Pius, mas no sé particularidad alguna suya, en aquella ciudad, por donde se le atribuya tal titulo?

§. XII.

Sissenando.

Sissenando foy successor de Svinthila: os Authores Castelhanos naõ trazem moeda nenhuma deste Rey; porque parece a naõ alcançarão, porém eu tenho duas de ouro, que se acharão em Evora, ambas com as mesmas letras, e figura; posto que huma dellas he lavrada muito mais grosseiramente, que a outra: de ambas as partes tem o rosto do Rey com a letra: Sissenandus Rex; e da outra: Emerita Pius. Pela historia deste Rey naõ se pode alcançar cousa notavel, que fizesse em Merida, por onde merecesse o titulo de Pio em Merida, que lhe daõ estas moedas; sómente podemos entender, que o Concilio Nacional terceiro de Toledo tinha ordenado, que cada anno se fizessem Concilios Provinciaes nas Metropoles, poderia ser, que se celebrasse algum em Merida, governando este Rey, como se celebrou em Toledo o quarto, que foy Nacional.

§. XIII.

Tulgan.

A Sissenando succedeo Chintila, e a elle Tulgan, deste Rey não viraõ os Authores Castelhanos moeda alguma; e naõ he muito, porque elle viveo taõ pouco tempo, que naõ pòde haver muitas memorias suas; porque naõ foraõ mais de dous annos. Porèm eu tenho huma moeda de ouro, que se achou em Evora, que de ambas as partes tem o seu rosto, e de huma as letras, que dizem: Tulgan Rex; e da outra: Cordoba Pius. Santo Illefonso louvou muito a Christandade, justiça, liberalidade, e prudencia deste Rey. Pelo que bem podia fazer em Cordova alguma obra de virtude insigne, pela qual merecesse o titulo de Pio em Cordova, que a moeda lhe dà; posto que nos Authores naõ se acha mençaõ della.

§. XIV.

Chindasvindo.

De Tulgan foy successor Chindasvindo, deste Rey tenho huma moeda de ouro com o seu rosto de ambas as partes; e de huma diz a letra: Cindasint. S. R. que he: ElRey Chindasvindo; e da outra: Ispali Pius. Esta moeda parece mandou lavrar ElRey, quando fez ajuntar hum Concilio contra Theodiselo Grego, que sendo Arcebispo de Sevilha, começou a publicar muitas heresias naquella Cidade; acudindo ElRey a este mal, fez que no Concilio se examinassem suas culpas, e lhe tirassem o Arcebispado; e desterrassem de toda Espanha. Pelo que com razaõ se podia prezar ElRey de acçaõ taõ gloriosa, e mandar bater esta moeda, que se achou em Evora; naõ havendo memoria de outra alguma nos Authores Castelhanos.

§. XV.

Recesvinto.

A Chindasvindo succedeo seu filho Recesvinto. Deste Rey tenho tres moedas de ouro, que se acharaõ em Evora; huma tem de huma parte o seu rosto com Capacete na cabeça, e a letra que diz: Recevintus Rex; que quer dizer ElRey Recevinto neste nome em lugar do T. latino, uzaraõ do T. Grego da outra parte tem sobre tres degràos huma Cruz grande de feiçaõ das da Ordem de Christo, e a letra diz: Egitania Pius com o V. virado.

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Esta moeda devia mandar lavrar ElRey por algum Concilio que se fizesse em seu tempo na Idanha, Cidade de Lusitania, que era Episcopal, cuja sede se passou depois para a Guarda; onde ainda retem o nome de Egitanense.

As outras duas Moedas ambas saõ semelhantes; porque de huma parte tem o rosto do Rey armado com seu nome, e da outra a Cruz sobre o mesmo throno, e letra: Ispali Pius: O Arcebispo D. Antonio Agostinho[198] traz huma Moeda deste Rey, que de huma parte tem seu rosto, letra. Recesvintus Rex; e da outra parte huma Cruz sobre degràos, letra: Emerita Pius.

De outra semelhante a estas teve copia o Mestre Ambrosio de Morales;[199] das quaes, e de outras mais, que vio deste Rey, diz estas palavras: El verdadero nombre deste Rey es el, que yo aqui uso; como parece en una Moneda de oro, que yo tengo suya con su rostro en ambas partes, adornado de la Diadema acostumbrada, mas debaxo della tiene armadura de cabeça, qual en ninguna otra Moneda Gotica yo he visto, las letras dizen de la una parte: Resesvinctus Rex; y de la otra: Cordoba Patricia; y quieren dizir; la Ciudad de Cordoba; que fue tambien llamada Colonia de Cavalleros; adelante tambien pareceran otras buenas comprobaciones de ser este el verdadero nombre delRey: por las letras deste reverso creo yo cierto se labrò esta Moneda en Cordoba, que en tiempo de los Romanos tuvo dos nombres, el suyo antigo, que fue Cordova, y otro, que le posieron los Romanos, llamandolo: Colonia Patricia; que quiere dizir Colonia, de Cavalleros principales, como en su lugar se ha enteramente tratado. Por el Concilio, que celebrò en Merida a lo que yo tengo por cierto se batiò otra Moneda de oro deste Rey, que yo he visto, tiene de una parte el rostro delRey con su nombre puesto sobre un trono Imperial semejante al que està en la Moneda del Santo Martyr el Principe Hermenegildo, de que se ha dicho: el reverso tiene una Cruz con su piè; y al derredor dizen: Emerita Pius; y en Castellano: Religioso em Merida; y por esta Moneda se comprueva tambien el verdadero nombre delRey.

Sin las Monedas deste Rey, que se han puesto, se hallan otras muchas de oro, yo he tenido otra con el de Cordoba Patricia, como la dicha, mas de muy differente Cuño, y tan malo, que se puede creer, que para mejorar, le hizieron el otro despues, y por estas dos Monedas se entiende como en Cordova avia Casa Real de Moneda donde se labrava, y aquella Ciudad era ahora como siempre tan principal, que esto, y mas podia hazer en ella. Otra Moneda he visto con el rostro delRey, y su nombre; y en el reverso: Brachara Pius, por algun Concilio, que en aquella Ciudad de Braga se celebrò en su tiempo. Otra he visto, que tiene en el reverso: Hispali Pius; y parece huvo otro Concilio alli en su tiempo. En otra tiene el nombre un poco diverso, pues dize: Recesvinthus; en el reverso tiene: Toleto Justus: y parece se le puso en el titulo por las muchas leyes, que en el octavo Concilio de Toledo, y fuera del hizo: y hasse de notar; que en muchas destas Monedas, donde yo pongo Th, està la cita Griega.

§. XVI.

Uvamba.

A Recesvintho succedeo Uvamba. Tres Moedas tenho de ouro do nosso Rey Uvamba; huma dellas he mayor, e de melhor ouro: na qual de huma parte està o seu rosto com mais clara escultura, que todos os outros passados; està ordenado de capacete, e hombreiras; e a letra: I. D. N. N. N. & Uvamba Rex; e da outra hum throno com tres degràos, e em cima huma Cruz, e a letra: Emerita Pius. Estes N. N. intrepreta o Mestre Ambrosio de Morales: In Dei nomine, nomine, nomine Uvamba Rex: Em nome, nome, nome de Deos; pondo tres vezes o nome Divino, para denotar o Mysterio da Santissima Trindade: o reverso diz: Pio em Merida: a qual he a seguinte.

moeda
moeda

As outras duas tenho com seu rosto naõ tambem esculpido, mas com tudo tem huma Cruz na maõ, o que a outra não tinha, e com o mesmo letreiro do nome em ambas; da outra parte: Toleto Pius; Pio em Toledo, o qual titulo tomou pelas muitas obras de Religiaõ, e piedade, que fez em Toledo, que se escrevem largamente na sua historia. Porèm he de advertir, que o nome deste Rey naõ se hade ler pronunciando os dous V. V. do principio cada hum de per si, como faz o vulgo erradamente, porque he ortographia propria de todas as gentes do Norte usarem de dous V.V. quando querem, que seja V. consoante, e naõ vogal; e porque ElRey se chamava Vamba com v, consoante, elles, como Godos, poseraõ os dous V. V. para denotarem, que era consoante, e que se havia de pronunciar juntamente com o A. e M. seguintes tudo numa sylaba per si. O mesmo se hade dizer do nome de Uvitisa, e Uviterico que por esta razão estaõ escritos com V. dobrado, como se vè nas suas Moedas. E porque o Mestre Ambrosio de Morales[200] teve copias dellas Moedas, referirey suas palavras: Su verdadero nombre no es Bamba, como corrompiendo el vocablo, commummente pronunciamos, sinó: Uvamba, como parece en dos Monedas de ouro suyas, que yo he visto, y tienen aun mas muestras de Christianidad, y devocion, que suele aver en otras Monedas Goticas. Su rostro de la una parte es diferente de los ordinarios, que se veen en tales Monedas, pues con los ojos alçados està mirando con attencion una Cruz, y parece tenerla en la mano; al derredor dizen las letras: Uvamba Rex; Esso està bien claro, mas antes estan todas estas letras: I. D. N. N. N. delas quales no tengo cosa cierta que dizen bien declararlas. El Maestro Alvar Gomez, cuja es esta Moneda, quando me la mostrò, me dixo una su declaracion harto aguda; y sutil; quiere que diga alli: In Dei nomine; y que el nombrar a Dios, no se puso una N. sola, sino tres, para denotar el Mysterio dela Santissima Trinidad. De la otra parte de la moneda ay una Cruz en medio y al derredor dize lo ordinario: Toleto Pius; Religioso en Toledo, por el solenne Concilio, que mandò alli celebrar este Rey. Esto ay en la una moneda. En la otra, que tambien es de oro, està de la una parte el nombre delRey en todas las letras ya dichas en el reverso: con la Cruz ordinaria dize: Emerita Pius; yo no he visto porque se le aya podido poner tal titulo; y tambien de su nombre serà forçado tratar otra vez adelante con advertir ahora, que en aquel Concilio, ni en otra parte no allo que se le de el prenombre de Flavio, sino solo el Fuero juzgo.

§. XVII.

Ervigio.

Seguiose a Vamba Ervigio. Duas Moedas de ouro tenho deste Rey, huma achada em Evora, outra no termo de Viseu; mas ambas do mesmo modo, de huma parte tem o rosto peyor esculpido, que todos os de seus antepassados com as letras: I. D n. n. n. Ervigius Rex; que quer dizer, em nome de Deos, repetindo tres vezes o N. como o fez seu antecessor Vamba: e de outra huma Cruz sobre os tres degraòs, letra: Emerita Pius. Estas Moedas parece se lavraraõ por algum Concilio, que se fez em Merida com o favor deste Rey; pois em seu tempo se celebraraõ tres em Toledo, ou pelas grandes obras, com que illustrou Merida, pois como refere Morales, elle reparou os muros, e reformou a ponte de maneira, que parecia avella feita de novo, como tudo consta do livro velho, donde estaõ as obras de Santo Eugenio, onde se poem hum epigrama feito em louvor delRey, e de Sala Governador, e Capitaõ General, que era de Merida. O Arcebispo D. Antonio Agostinho[201] traz tambem huma Moeda deste Rey, quasi com as mesmas letras das nossas, que saõ: V. i. N. N. n. Ervigius Rex: que elle le: In Dei nomine Ervigius Rex. Em nome de Deos ElRey Ervigio. Morales tambem teve deste Rey duas Moedas diversas, como se ve destas palavras: Su verdadero nombre es Evigi, y no Ervicio, ni Eringio, como en muchos libros corruptamente se lee; porque y o he visto Monedas de oro suyas en que de ambas partes está su rostro, y de la una dize: Ervigius Rex; y de la otra: Toleto Pius, Religioso en Toledo, por los Concilios, que en aquella Ciudad hizo celebrar.

Otra Moneda de oro he visto[202] deste Rey con su rostro, y nombres de una parte, y de la otra la Cruz con las letras: Narbona Pius, y conjectura muy bien el Maestro Alvar Gomez, cuya es esta Moneda, que se pudo poner este titulo por aver relebado aquella Ciudad de algunos nuevos tributos, que ElRey Uvamba por la rebelion le avia puesto.

§. XVIII.

Egica.

Foy successor de Ervigio seu genro Egica. Em Evora se acharaõ duas Moedas de ouro deste Rey, que eu tenho; em huma està o seu rosto muito mal esculpido com Capacete na cabeça, e huma Cruz na maõ, e letras: E. N. M. N. Egica Rex: e da outra a Cruz sobre tres degràos, e letra: Elbora Pius, nesta fórma.

moeda
moeda

Naõ consta da historia deste Rey, por onde merecesse taõ excellente titulo, como o de Pio em Evora; senaõ he, que na rebeliaõ, que contra elle moveo Sisberto Arcebispo de Toledo, quando ElRey o venceo, poderia ser que fosse nesta Provincia da Lusitania; e que em Evora se fizesse justiça dos culpados. Tambem consta, que no segundo Concilio de Toledo, que se celebrou em tempo deste Rey, que foy 16. pedio que se mandasse recopilar o livro do Fuero juzgo, e se reduzio à forma, em que agora o vemos, como o sente Morales l. 12. cap. 16. e poderia ser fazer-se esta recopilaçaõ em Evora: e como por estas leys se havia de governar a justiça, lhe dariaõ o titulo de Pio em Evora, que he mais notavel; porq́ tem de huma parte huma Cruz, que divide de alto abaixo a Moeda, e aparta dous rostos muito mal esculpidos; e as letras dizem: I. D. N. N. I. Egica Rex. Em nome de Deos Egica Rey; e da outra està huma Cruz nesta forma:

M E+A R

e à roda: I. D. E. N. N. Vvitiza Rex; que quer dizer, ElRey Vvitiza; e as letras da Cruz estaõ quasi em cifra, e dizem: Emerita, começãdo pelo E do braço direito, e logo o M. que està em cima, e o R. debaixo, e o Ta do braço esquerdo. Esta Moeda mandou lavrar Egica, quando deu titulo de Rey a seu filho mayor Vvittiza, e por isto se poseraõ os rostos, e nomes de ambos na mesma Moeda; o nome de Merida se poz ahi por ser o lugar, segundo parece, em que a Moeda se bateo.

O Mestre Ambrosio de Morales[203] traz tambem huma Moeda deste Rey com as palavras seguintes. Yo he visto moneda de oro suya, que de una parte tiene su rostro con gran barba, e tiene estas letras al derredor. I. D. N. N. Egica Rex: El nombre verdadero està manifiesto; las otras letras del principio pueden dizir: In Dei nomine noster Egica Rex; continuandose en la seguientes, diran todas: En nombre de Dios nuestro Rey Egica.

Conforme a esto aquella moneda de Egica, que ya he dicho, tiene de la otra parte cierta manera de Cruz en medio y dize la letra al derredor: Vvittiza Rex. Por onde se dà a entender que la moneda se batio en tiempo, que ya padre, y fiijos reinavan ambos.

§. XIX.

Vvittiza.

De Egica foy filho, e successor Vvittiza. Outra moeda traz Morales[204] delRey Vvittiza jà depois de governar só, por morte de seu pay, de que diz estas palavras: Su verdadero nombre es el que aqui le ponemos, como en aquella moneda de su padre parece, porque tiene tambien en el reverso otro rostro, y dizen las letras: Vvittiza Rex. El Author, que escrevio la Chronica de Toledo affirma aver visto moneda de oro deste Rey con letras, que en la parte donde estava su rostro, dizian Vvitigius Rex; y en reverso: Toleto Pius; y este nombre el mismo es, que Vvitiza; sino que el primero esta conformado en la lengua latina, a la imitacion de un Rey de los Osthrogodos en Italia, que se nombrò; y estotro està mas accommodado a la pronunciacion de nuestros Vizigodos de Hespaña, conforme a su lenguage. O Arcebispo D. Antonio Agostinho traz huma moeda deste Rey no seu Dialogo 8. com esta letra: In D. N. M: Vvittiza Rex: In Dei nomine Vvittiza Rex.

§. XX.

D. Rodrigo.

DelRey D.Rodrigo successor de Vvittiza, e ultimo Rey dos Godos, diz o Mestre Ambrosio de Morales[205] as palavras seguintes: Su verdadero nombre es Roderico, como manifiestamente parece en una moneda de oro suya, que yo he visto, tiene de la una parte su rostro harto differente de los que las otras moenedas destos Reyes parece. Tiene manera de estar armado, y salen por cima la celada unas puntas como cuernos pequeños, y derechos por ambos lados, que lo hazen estraño, y espantable: las letras dizen al derredor: In Dei nomine Rodericus Rex; y el In Dei nomine està en cifra travadas las letras: el reverso tiene en medio una Cruz sobre tres grados, las letras del redondo por de fuera son estas: Egitania Pius: dizen en nuestro romance: Religioso en Egitania. Esta era, la Provincia de Igeditania en Portugal, de que algunas vezes avemos dicho; y estava ya corrompido su nombre, mas no se tiene noticia de cosa notable, que este Rey alli hiziesse, por donde, se le posiesse en la moneda el tal titulo.

Saõ estas Moedas, de que Morales, e o Arcebispo D. Antonio Agostinho fazem mençaõ 23. e as que se acharaõ em Evora, e estaõ na minha livraria, passaõ de trinta. De maneira que só em Evora se acharaõ tantas quasi como em todo o resto de Espanha; por onde parece, que Evora floreceo em tempo dos Godos mais, que nenhuma outra Cidade, segundo mostraõ estes vestigios, e sinaes de sua grandeza; ao que tambem favorece ver, que as Moedas, que trazem estes dous Authores, as mais pertencem a Lusitania, de quem era cabeça Merida; porque das 26. Moedas, que extaõ do tempo dos Godos, como se vè das memorias aqui escritas, saõ de Merida desenove; e de Evora quatro; de Elvas huma; de Braga duas; da Idanha duas; de Eminio, que era junto a Aveiro, huma. Por onde somaõ as tocantes a Portugal, 29. e para o resto de Espanha, 26. a saber oito, que pertencem a Toledo; a Sevilha nove; duas a Tarragona; tres a Cordova, huma a Tucci; tres a Granada; porque a de Narbona toca a França; a fóra as 6. que naõ tem lugares proprios; e assim consta, que Merida cabeça da Lusitania tem mais que todas. Pelo que se pòde entender, que os Godos desde Lusitania senhoreavaõ Castella, e que nesta Provincia assistia a sua grandeza, e mayor frequencia. Donde com razão se pòde dizer do tempo dos Godos o que jà disse Ausonio[206] no dos Romanos, que a Merida se sogeitava toda Espanha.

Emerita, æquoreus, quam præter labitur Annas, Submittit cui tota suos Hispania fasces.

§. XXI.

Moedas Arabigas.

Começou o Senhorio dos Arabes em Espanha no anno de 714. com a grande victoria, que Tarif, e Muça alcançaraõ de D. Rodrigo, ultimo Rey dos Godos; porèm como acharaõ Espanha toda debaixo do governo de hum Principe, vencido este, ficavaõ todas as Provincias rendidas, e os Arabes Senhores de todas ellas; o que naõ acontecera se Espanha tivera mais Reys naquelle tempo, como se vio depois nas entradas, que fizeraõ os Almoravides, Almoades, e Benemerines, que passando a Espanha com muito mayor poder, do que foy o de Tarif, e alcançando alguns delles dos Christãos grandes vitorias, nem por isso senhorearaõ a Provincia, por estar possuida por mais de hum Principe. Pelo que introduzindo os Mouros, que com Tarif vieraõ, e os que se lhe seguiraõ em Espanha, suas leys, e costumes, as Moedas, que corriaõ, eraõ todas suas; destas hà inda hoje grandissima quantidade em Portugal, e eu tenho muitas, que principalmente se acharaõ no territorio de Evora, e Beja; muitas dellas de ouro, as mayores da grandeza de hum Real de prata, e de pezo de 500. atè 600. reis; que teriaõ ametade deste valor, e outras de grandeza de pequenos vintens. Os nomes destas Moedas naõ podemos saber; em nenhuma dellas hà figura alguma, por lhe ser prohibida em sua Seita, senaõ letras de ambas as partes, de huma poem o nome de Deos com os seus attributos de Grande, Bom, Omnipotente, &c. da outra o nome do Principe, que a manda bater com o de seu pay, e Avò, e outros ascendentes, como he costume dos Arabes, que tem isto por a clareza de suas ascendencias. Das Moedas de prata tenho tambem muitas, as mayores como tostoens; mas tam delgadas, que tem só de pezo meyo tostaõ, outras menores, e algumas taõ pequenas, como meyos vintens, todas tem o mesmo modo de letreiros, porèm algumas de muy perfeita esculptura, que deviaõ de ser do tempo dos Reys de Cordova, que floreceraõ em muita grandeza, e policia. As de cobre naõ excedem o tamanho das de prata, ainda que saõ muito grossas, mas tambem as hà meudas, e muito pequenas de peso dos nossos seitiis.

Esta he a noticia, que posso dar destas Moedas, das quaes naõ se pode saber, se alguma toca a Portugal, posto que como se achaõ na mesma terra, parece que devem de ser dos Reys Arabes, que então a senhoreavaõ.

Que nome tivessem estas Moedas, naõ pude alcançar em particular, mas em commum, as que se achaõ nas nossas Chronicas, saõ tres generos de Moedas de ouro, humas chamadas Dobras Mouriscas, outras Dobras Validias, outras Maravidis de ouro.

As Dobras Mouriscas tinhaõ a valia da Dobra Cruzada,[207] que da nossa Moeda faz agora 270. reis, posto que no peso passaria de 600. se agora se achasse, como entendo que o he huma de ouro, que tenho entre outras, que se acharaõ modernamente em Beringel.

Dobras Validias eraõ Moeda de Berberia, que se batia em Tunes de 23. quilates, e terço de peso, e diz a Ordenaçaõ velha, que valia doze Reaes brancos dos primeiros, pelo que vinha a montar da nossa Moeda 216. e destas Dobras se faz particular mençaõ na historia do primeiro Capitaõ de Ceita[208] onde se falla tambem de outras Dobras Mouriscas, com estas palavras: Dobras Validias era Moeda Mourisca, e communalmente esta era a Moeda de ouro, que se mais corria com estes Reynos, e isto era quasi em todo los tempos dos Reys passados. Sempre os Mouros dalem mar trataraõ nestes Reynos de mercadoria, comprando pela mayor parte todolos annos a fruita do Algarve, e que naõ pagavaõ, senaõ em ouro; e a mayor parte daquellas Dobras saõ feitas em Tunes, e eraõ 23. quilates, e terço de pezo. E outras Dobras traziaõ aquelles Infieis, a saber Dobras de Prazida; e de Sagilmensa, e de Marrocos, de que este Reyno foy assaz fornido, especialmente os thesouros dos Reys, como no começo dos feitos deste Rey fica contado, &c.

Maravidi he Moeda, que os Mouros introduziraõ em Espanha,[209] cujos Authores dizem, que foraõ os Almoravides, que cà vieraõ, de maneira, que antes observa o Mestre Ambrosio de Morales, que senaõ acha mençaõ desta Moeda, nem da conta dos Maravidis nas memorias de Castella, e pelo contrario de entaõ para cà foy taõ ordinaria em Castella a conta dos Maravidis, que por elles se faziaõ todas as computaçoens dos preços das cousas, e das Moedas, o que ainda hoje permanece; porque para significar a valia do Real de prata, dizem que tem 36. Maravidis, e o dobraõ de ouro 960. Maravidis; computando o Maravidi pela valia do nosso Real de cobre; porèm cà em Portugal ainda que se usou desta Moeda, parece que naõ foy mais que a de ouro, 60. das quaes faziaõ hum marco. Pelo que segundo o preço, vinhaõ a montar hoje 500. reis; com tudo este nome de Maravidi se veyo estender tambem às Moedas de ouro Portuguesas; de maneira, que se diz na Chronica delRey D. Sancho I. que deixou a seu filho ElRey D. Afonso 10U000. Maravidis de ouro.

Isto que està dito dos Reys Mouros, que senhorearaõ Portugal, se entende principalmente atè o tempo delRey D. Fernando o I. de Leaõ, por quanto este Rey tomou Coimbra, e Santarem, e deixou a seu filho ElRey D. Garcia quasi toda a terra, que pertencia a Portugal atè o Tejo; e poucos annos depois seguindose-lhe ElRey D. Afonso Henriques com a tomada de Lisboa, Evora, e Vitoria do Campo de Ourique, e de outros lugares de Alentejo, ficou ElRey quasi Senhor de todo o Reyno; e assim elle, como seus descendentes, foraõ os que mandaraõ bater Moedas com seus nomes, e insignias, como se hirà vendo de cada hum em particular.

§. XXII.

Moedas dos Reys Portugueses.

A primeira casa de Moeda, que houve em Portugal, foy no Porto, onde os primeiros Reys deste Reyno fizeraõ bater Moeda, mandando vir Officiaes Estrangeiros, porque os naõ havia no Reyno, e por isto lhes concederaõ tantos privilegios, como ainda hoje tem. Havia tambem casa de bater Moeda em Valença, e em Lisboa, como tudo se ve do cap. 57. da Chronica delRey D. Fernando; e tambem a houve em Evora, como se diz na 2. p. da Chronica delRey D. Joaõ I. cap. 5.

Em razaõ de estar a Casa da Moeda no Porto, se vem hoje os Seitis, e boa parte das Moedas antigas com humas Torres por divisa, e hum Rio por baixo, que saõ as Armas daquella Cidade; depois passando a Corte dos Reys para Coimbra, faz mençaõ muitas vezes o Conde D. Pedro, e particularmente no t. 36. §. 3. dos Moedeiros de Coimbra; por onde parece, que tambem alli os havia. Ultimamente se poz esta Casa em Lisboa, onde ao presente està; consta esta Casa, e se governa por huma mesa, de que he presidente o Thesoureiro da Moeda, e assistem nella mais dous Juizes da balança, e dous Escrivaens da receita, e despeza; os outros cargos provè todos o Thesoureiro, que saõ Fundidor, Affinador, Ensayador, outo Contadores, outo Branquidores, seis Fornaceiros antigos, e trinta modernos, que acrescentou ElRey D. Joaõ III. dezaseis Cunhadores, dous Porteiros, hum da Casa do Thesouro, outro da porta. He esta Casa sogeita ao Tribunal da Fazenda, e o Veèdor da Fazenda da repartiçaõ da India he o que particularmente preside nesta Mesa quando là vay.

Isto he o que se pòde colher do principio das Moedas, que bateraõ os Reys deste Reyno; ainda que naõ consta, se ElRey D. Afonso Henriques bateo Moeda, nem os nomes particulares dellas; só consta que todas as computaçoens que se faziaõ, eraõ por livras; e que deste nome ouve Moedas de prata, e de cobre, atè a de menor valia; porque assim como agora nòs fazemos as contas por reais, assim se faziaõ naquelles tempos por livras; mas como desde ElRey D. Afonso Henriques, atè ElRey D. Afonso IV. naõ se pòde averiguar, quaes foraõ os Reys, que bateraõ estas livras, deixaremos assim as mesmas livras, como as outras Moedas, que dellas procedem, para o ultimo titulo deste Discurso, por continuarmos com as Moedas, que os Reys fizeraõ atègora conhecidamente.

§. XXIII.

Dobras delRey D. Sancho I.

A Moeda mais antiga, que se acha neste Reyno, he huma de ouro do tamanho de dous vinteis, e de peso, que 60. delles faziaõ hum marco, que vem a ser 500. reis da nossa Moeda, de huma parte tinhaõ esculpido ElRey D. Sancho a cavallo armado, e da outra as Armas de Portugal, na fórma que apontamos no Discurso da Nobreza. Destas Moedas tenho eu huma, e della se faz mençaõ na[210] 3. p. da Monarquia Lusitana, a qual he a seguinte.

moeda
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Outra semelhante anda esculpida nos discursos varios do Conego Gaspar Estaço;[25.] e àlem destas vi jà outras duas semelhantes, estas parece que eraõ as nossas Dobras antigas, atè o tempo delRey D. Pedro, porque naõ se achaõ outras Moedas daquelles Reys.

§. XXIV.

Moedas delRey D. Afonso IV.

Segundo parece do cap. 56. da Chronica delRey D. Fernando, naõ ouve mudança na Moeda deste Reyno, atè o tempo delRey D. Afonso IV. o qual com consentimento do Clero, e povo, fez os Dinheiros Alfonsis, mandando valessem doze dos outros, no que ganhou muito; porque vinha a fazer em cada marco de ganho quatro livras, e quatro soldos; e estas livras saõ as que parece temos agora com nome delRey D. Afonso humas batidas em Lisboa, porque tem hum L. ao pè do nome delRey, e outras lavradas no Porto; porque tem hum P. em lugar de L. Destas Moedas tenho muitas, e para exemplo fiz aqui esculpir huma.

moeda
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O peso, que hoje tem esta Moeda de prata pela valia presente, he 40. reis; e esta he a mais antiga Moeda de prata dos nossos Reys, que tenho visto.

§. XXV.

Moedas delRey D. Pedro.

No cap. 11. da historia delRey D. Pedro se diz, que este Rey mandou fazer Dobras de ouro fino, que 50. dellas faziaõ hum marco, e cada Dobra destas tinha quatro livras, e dous soldos. Este marco era de ouro, e valia entaõ 7380. porque tanto vem a montar as 50. Dobras, que diz o Chronista faziaõ hum marco, contando a 82. soldos cada Dobra, que tanto saõ as quatro livras, e dous soldos, que valia cada Dobra, contando a 20. soldos cada livra.[211] E assim se tomarmos estas Dobras conforme o que entaõ valia o marco de ouro, eraõ agora da nossa moeda 147. reis, e tres quintos de Real; porque valia cada dobra 82. soldos dos primeiros, os quaes a dez seitijs, e quatro quintos de seitil cada hum, vem a fazer os ditos 147. reis, e tres quintos de real, porèm se fizermos a conta conforme a valia do marco de ouro, que saõ 30U000. reis, tinha cada huma destas Dobras 600. reis de peso; pois 50. dellas pesavaõ hum marco, e tanto pesaõ as Dobras daquelle tempo, que ainda hoje se conservaõ, de que eu tenho huma.

Fez o mesmo Rey D. Pedro outra moeda, que chamou meyas Dobras, e tinha 41. soldos, que conforme à computaçaõ acima dita, valiaõ 73. e meyo, e tres decimos de real, das quaes meyas Dobras 100. faziaõ hum marco de ouro, assim teraõ hoje de peso 300. reis.

No mesmo cap. II. se diz, que lavrou este Rey huma moeda de prata, a que chamavaõ Torneses, que 65. faziaõ hum marco de liga, e peso dos reaes delRey D. Pedro de Castella.

Outros Torneses fez mais pequenos, que entravaõ num marco 130. e de huma banda tinhaõ as Quinas, e da outra o rosto delRey com Coroa; e as letras de huma parte diziaõ: Petrus Rex Portugalie, & Algarbi: e da outra: Deus adjuva me; que eraõ os mesmos cunhos, e letras, que tinha nas suas Dobras. Valia o Tornès grande sete soldos, e o pequeno tres soldos, e meyo. Este nome de Torneses parece que deu ElRey D. Pedro a estas moedas à semelhança de huma moeda Francesa, que entaõ corria por toda Europa, e se lavrava em Tours, Cidade de França, e por isso se chamavaõ soldos Turonenses.

Outra moeda mandou bater ElRey D. Pedro, que chamavaõ Dinheiros Alfonsis de liga, e eraõ do valor, que fizera ElRey D. Afonso seu Pay.

§. XXVI.

Dos Gentis, Barbudas, Graves, Pilartes, e Fortes delRey D. Fernando.

ElRey D. Fernando fez huma moeda, que chamou Gentil,[212] que mandou valesse quatro livras, e meya, e depois outra que valia tres, e meya, e depois outros Gentis, que valiaõ tres livras, e cinco soldos. Pelo que contando as livras a 36. reis; porque eraõ das antigas, valiaõ os primeiros Gentis 162. reis, e os segundos 144. reis, e os terceiros 126. reis, e os quartos 116. reis; e isto porèm a respeito do pouco que valia entaõ o marco de prata.

Quando ElRey D. Fernando fez a guerra a Castella serviraõ a ElRey D. Henrique o Nobre muitos Soldados Franceses, que vinhaõ armados de celadas, a que elles chamavaõ Barbudas; e traziaõ lanças com pendoens, que chamavaõ Graves; e traziaõ consigo Pagens para as celadas, a que chamavaõ Pilares; e querendo ElRey D. Fernando deixar memoria desta sua empreza, poz estes nomes, e insignias nas moedas, que mandou lavrar de novo[213]

A Barbuda era moeda do tamanho de quatro vintens, ainda que mais delgada; de huma parte tem huma celada com huma Coroa em cima, e o peito de malha, e à roda este letreiro: Si Dominus mihi adjutor, non timebo; e da outra parte huma Cruz das da Ordem de Christo, que toma todo o vaõ; nos quatro cantos da Cruz quatro Castellos, e no meyo da Cruz hum escudinho com as Quinas, e a letra: Fernandus Rex Portugaliæ; como se vè em algumas destas moedas, que tenho em meu poder.

moeda
moeda

Era a Barbuda moeda de prata muito ligada de ley de tres Dinheiros, e ElRey lhe poz preço de 20. soldos, que eraõ huma livra de 36. reis dos nossos.

Dos Graves 120. faziaõ hum marco, e valiaõ 15. soldos, que vem a ser 21. real dos nossos, e tinhaõ por divisa huma lança sobre os cunhos. Os Pilares eraõ tambem de prata de ley de dous Dinheiros, e valiaõ cinco soldos, que saõ da nossa moeda 13 reis, e dous seitijs.

Fez ElRey D. Fernando outra moeda, que chamou Fortes, que valiaõ 20. soldos, que saõ 29. reis, e dous seitijs, e meyos Fortes, que valiaõ 14. reis, e meyo, e hum seitil: assim mesmo mandou bater outros Torneses, a que chamaraõ Petites, palavra Francesa, que significa pequeno; donde se vè, que de França tomaraõ o nome, como tudo consta do cap. 56. da Chronica do mesmo Rey. E assim lavrou outras moedas antigas, das quaes se conservaraõ algumas, que eu tenho jà referidas com valores sobidos; e queixando-se os povos do grande preço, que estas moedas tinhaõ, e do pouco que pesavaõ, lhe abateo a valia a mais accommodados preços, como se diz no cap. 57. da mesma Chronica, convem a saber, que os Graves de 15. soldos dos Dinheiros Alfonsis, naõ valessem mais de 7. e a Barbuda de 20. soldos valesse 14. e os Pilares de 5. valessem tres, e meyo, e os Reaes de prata de 10. soldos valessem 8. E porque ainda estes preços eraõ grandes, tornou ElRey a fazer outra baixa, e mandou que a Barbuda, que jà estava em 14. soldos, valesse só dous, e 4. Dinheiros, que vem a ser quatro reis dos nossos, e o Grave 14. Dinheiros, que saõ dous, e dous seitijs; e o Pilarte 7. que he hum real, e hum seitil, e os Fortes 10. soldos, que saõ 16. reis, e 4. seitijs, e os Dinheiros, que de novo lavrara, que valessem como Mealhas.

§. XXVII

Das moedas delRey D. Joaõ o I.

ElRey D. Joaõ I. sendo Defensor do Reyno, como se vè no cap. 49. e 50, da I. p. de sua Chronica, mandou lavrar Reaes de prata de ley de 9. Dinheiros, que 72. delles faziaõ hum marco; e depois mandou lavrar outros de ley de 6. Dinheiros, e depois outros de 5. ficando sempre na mesma valia, e ganhando o mais. E com tudo isso o povo, pelo amor, que tinha a ElRey respeitou tanto esta moeda, ainda que cheya de tanta liga, que diz o Chronista, que muitos traziaõ depois estes Reaes de prata ao pescoço, como cousa santa, affirmando que lhe valia contra as enfirmidades.

Depois mandou o mesmo Rey, sendo ainda Defensor, lavrar Reaes de ley de hum Dinheiro, que valia cada hum dez soldos, e depois destes mandou fazer outros Reaes de tres livras, e meya, e de dez Dinheiros, e meyo, e o mesmo se vè do cap. 5. da 2. p. de sua Chronica.

Quando depois ElRey quiz tomar Ceita, mandou lavrar os primeiros Reaes brancos, que cada hum delles valia dez Reaes de tres livras, e meya, e eraõ de ley de dez Dinheiros, e 62. faziaõ hum marco.

Depois que veyo de tomar Ceita, dizem alguns mandou lavrar os seitijs, a quem deu este nome, em memoria do nome de Ceita, que entaõ conquistàra, ainda que outros dizem, que por valerem a sexta parte do Real, se chamaraõ seitijs, e corruptamente seitijs.

§. XXVIII.

Moedas delRey D. Duarte.

Depois que as Livras chegaraõ a grande diminuiçaõ, como adiante veremos, mandou ElRey D. Duarte lavrar outra moeda mais grossa, que chegaraõ Reaes brancos; os quaes eraõ de cobre com liga doutro metal, que os fazia mais brancos, do que os nossos Reaes de cobre, tal, e por isso se chamaraõ brancos, como se collige da Ord.[214] §. 16. Mandou ElRey D. Duarte, que cada Real branco destes valessem hum Soldo dos antigos, e assim cada hum delles valia 35. Livrinhas, e 20. Reaes brancos faziaõ huma Livra antiga das 700. a este respeito valia cada Real destes da nossa moeda dez seitijs, e quatro quintos de seitil pois 20. delles valiaõ 36. que he huma Livra das mayores.

Quando o mesmo Rey mandou bater estes Reaes brancos, parece que mandou juntamente bater outra moeda, a que chamou Pretos; dez dos quaes valiaõ hum Real branco; porque jà que se mudavaõ os soldos em Reaes brancos, pareceo conveniente, que se mudassem os Dinheiros em Preto; e este nome de Preto, parece que foy posto por diferença dos Brancos, e deviaõ tambem ser mais pretos, porque naõ teriaõ a liga do metal, ou de estanho, como tinhaõ os brancos. A valia, que estes primeiros Pretos tinhaõ, confórme à nossa Moeda, he a mesma de hum Seitil, e quatro cincoentavos de Seitil. Porque a mesma Ordenaçaõ diz, que hum Real destes brancos valia dez Seitis, e quatro quintos de Seitil; e como dez Pretos valiaõ hum Real branco, bem se infere, que hum Preto destes primeiros tinha hum Seitil; e o que lhe cabia dos quatro quintos do Seitil, que saõ quatro cincoentavos de Seitil. Tambem este Rey mandou lavrar escudos de ouro baixo.

§. XXIX.

Das Moedas delRey D.Afonso V.

Na Chronica delRey D, Afonso V. cap. 138. se diz, que em tempo delRey Duarte se lavraraõ escudos de ouro baixo, que nos Reynos estranhos se tomavaõ com muita difficuldade. E ElRey D. Afonso quando aceitou a Cruzada, para ir à Terra Santa, mandou lavrar de ouro sobido de toda a perfeiçaõ a Moeda dos Cruzados, a qual mandou sobir em peso, e naõ em preço dous graõs sobre todos os Ducados da Christandade, para assim poderem correr em todas as partes onde elle fosse. Destes cruzados ha ainda hoje muitos, e saõ buscados para dourar com elles pela sua muita fineza; e alguns, que me vieraõ à maõ, tem de huma parte huma Cruz, como a de S. Jorge com letras, que dizem: Adjutorium nostrum in nomine Domini; e da outra o escudo Real coroado, metido ainda na Cruz de Aviz com estas letras: Cruzatus Alfonsi Quinti R. O nome de Cruzado parece lhe deu por ser feito para a empreza da Cruzada, que aceitàra.

Hum Real tenho deste Rey com a figura de sua empreza, que era hum rodizio de hum moinho correndo com o impeto da agoa, a qual empreza usou em muitas partes, e principalmente no Mosteiro de S. Francisco de Varatojo junto a Torres Vedras, onde se elle retirou, por ser sitio muy aprazivel com a vista do mar, e muita caça da Coutada de Cintra, aonde esta empreza se ve pintada em muitos lugares da Igreja, e das officinas da casa; as letras da empreza dizem o que estava na mesma figura: He rodizio; porque se prezava este Principe de taõ comedido, que queria ser advertido dos erros para se emendar delles.

Fez ElRey D. Afonso V. humas Moedas do cobre chamadas Espadins do tamanho de Real, que de huma parte tem no meyo huma maõ com huma espada com a ponta para baixo, e pela roda este letreiro: Alphonsus Dei gratia, Rex P. e da outra parte o escudo Real sobre a Cruz de Aviz, e as letras dizem: Adjutorium nostrum in nomine Domini.

Esta Moeda mandou lavrar ElRey D. Afonso V. em memoria da Ordem da Espada, que instituio para a Conquista de Fez;[215] na mais alta torre da qual se dizia, que estava huma espada engastada por hum antigo Astrologo dos Mouros, com pronostico, que quem pelo valor das armas dalli a tirasse, avia de ser Senhor do Mundo. Destas Moedas tenho muitas, assim de prata, como de cobre, como se ve na presente.

moeda
moeda

Outra Moeda ha deste Rey de prata do tamanho de hum vintem, que de huma parte tem as Quinas sómente, e o letreiro à roda diz: Alphonsi Quinti Regis Por. e da outra hum A. grande Gotico, que he a primeira letra do nome delRey, e em cima huma Coroa, e à roda: Adjutorium nostrum in nomine Domini.

Outra Moeda de prata se acha sua do tamanho de quatro vinteis, mas naõ de tanto peso, a qual de huma parte tem o escudo Real sobre a Cruz de Aviz, e o letreiro à roda diz: Alphonsis Dei gratia Rex Por. Da outra banda estaõ as armas quarteadas de Castella, e Leaõ; e o letreiro à roda diz: Alphonsus Dei Gratia Rex Por. Esta Moeda se lavrou no tempo, que ElRey D. Afonso pretendia o Reyno de Castella pelo casamento da Excellente Senhora; e por isso usava das armas de Castella, e do titulo do mesmo Reyno.

Outra Moeda tenho sua de cobre da grossura de hum vintem pouco mayor, de huma parte tem hum A. Gotico grande debaixo de huma Coroa, e o letreiro: Alphonsus Rex Portuguliæ; da outra as Quinas sómente com as letras gastadas.

Outra Moeda se acha de cobre do tamanho de meyo vintem, mas de mayor grossura com outro A. Gotico, e huma Coroa por cima, e da outra banda as cinco Quinas em Cruz, e ambos os letreiros dizem: Alphonsus Rex Portugalliæ.

Outra fórma de Moeda ha, que de huma parte tem huma Cruz da maneira das Commendas de Christo, com o letreiro: Alphonsus; e da outra os cinco escudetes em Cruz atravessados, e taõ largos, que os quatro fazem entrar os braços da Cruz pelo lugar do letreiro da borda atè o fim, e o letreiro, qua vay entre os quatro escudetes, diz: Rex Portugal. Outras Moedas se bateraõ em tempo do mesmo Rey, de que adiante com as Livras se faz particular mençaõ.

§. XXX.

Moedas delRey D. Joaõ o II.

ElRey D. Joaõ II. mandou lavrar Moedas novas no anno de 1485.[216] a primeira foy huma de ouro, que chamaraõ Justo de ley de 22. quilates, e peso de 600. reis, que eu tenho, e de huma parte tem nella o escudo Real jà com as Quinas direitas sem a Cruz de Aviz; e foy esta a primeira vez, em que assim appareceo o escudo Real, depois delRey D. Joaõ I. o qual como foy Mestre de Aviz, poz o escudo Real no meyo da Cruz daquella Ordem, e as letras dizem: Joannes Secundus R. Portugal. Algar. Dominus Guinè; que he: Joaõ II. Rey de Portugal, e Algarve, Senhor de Guinè; o qual titulo tomou tambem no mesmo anno: da outra parte estava ElRey armado, assentado em cadeira Real com huma espada na maõ, e as letras à roda diziaõ: Justus ut palma florebit: o justo fllorecerà como a palma, deste letreiro parece lhe deraõ a esta Moeda o nome de Justo.

Mandou lavrar tambem Espadim douro da ley dos Justos, e da ametade da valia, que eraõ 300. reis, e tinha de huma parte as mesmas armas, e titulos, que os Justos, e da outra huma maõ com huma espada nûa com a ponta para cima; e por letra: Dominus protector vitæ meæ, à quo trepidabo?

Fez tambem meyos Reaes de prata de ley de onze Dinheiros, a que depois chamaraõ Vinteis, por valerem 20. reis, e fez meyos Vinteis, e Cinquinhos, que valiaõ cinco reis: tambem lavrou Reaes de cobre da valia dos que agora correm. Destes Reaes ha alguns, em que està esculpido o Pelicano dando a beber aos filhos o sangue de seu peito, que foy a empresa deste Rey com a letra: Pela ley, e pela grey: dando a entender, que derramaria o sangue em defensaõ da Fè, e de seus vassallos.

Os Pelicanos saõ Aves quasi nunca vistas em Europa; com tudo eu vi hum em Evora em casa do Senhor D. Duarte tio de ElRey Dom Joaõ o quarto, que lhe viera de Angola; e ainda que estava morto, tinha todas as pennas, e só lhe faltavaõ os intestinos, que para o conservarem, lhe tiraraõ, era mayor que huma Cegonha, e quasi com as mesmas pennas brancas, e negras; no peito tinha hum callo, tamanho como hum Cruzado, dos que agora correm, vermelho, e naõ muito duro; por onde parece que por alli rompe algumas veyas com o bico, que he muito grande, para naturalmente sustentar seus filhos; como dizem os Escritores, de maneira, que naõ lhe deve de causar esta acçaõ morte, porque parece cousa natural.

Outros Espadins fez bater prateados, que valiaõ quatro reis. Mandou lavrar Cruzados, que valiaõ 390. e ElRey D. Manoel os acrescentou a 400. no valor anno de 1517.

§. XXXI.

Das Moedas delRey D. Manoel.

Damiaõ de Goes aponta no cap. ult. da Chronica delRey D. Manoel as Moedas que fez, que saõ as seguintes.

No anno de 1499. mandou tambem bater os Portugueses de ouro de 24. quilates, que era a mesma ley dos Cruzados desdo tempo delRey D. Afonso V. e cada hum delles tinha dez Cruzados de valor; e de huma parte tinhaõ a Cruz da Ordem de Christo com letras, que diziaõ: In hoc signo vinces; e da outra o escudo Real coroado, e dous letreiros; o do circulo mayor dizia: Primus Emanuel Rex Portugalliæ; Algarbiorum, citra, & ultra in Africa, & Dominus Guinè. O do circulo menor: Æthyopiæ, Arabiæ, Persiæ, Indiæ.

No mesmo anno mandou lavrar huma moeda de prata de ley de 15. Dinheiros, que 70. faziaõ hum marco, e valia 33. cada huma. Esta moeda chamaraõ Indios; e tinha de huma parte a mesma Cruz, e letreiro, que os Portugueses, e da outra as armas do Reyno com o letreiro: Primus Emmanuel.

No anno de 1504. fez os Portugueses de prata de valor de 400. reis cada hum com os mesmos letreiros, e cunhos, que os Portugueses de ouro: e destes mandou fazer meyos, e quartos, que saõ os Tostoens com o mesmo escudo, e letreiro, que os Portugueses douro. Chamaraõ-se Tostoens à imitaçaõ doutra semelhante moeda de França, a qual por ter por divisa huma cabeça, que os Franceses chamaõ Teste, se lhe deu o nome de Testaõ, e corruptamente Tostaõ.

Depois no anno 1517. fez meyos Tostoens, que de huma parte tem os cinco escudos das Quinas sem Castellos, e da outra huma Cruz, e de ambas as bandas diz o letreiro: Primus Emmanuel R.P. & A. D. G. Manoel primeiro Rey de Portugal, e Algarve, Senhor de Guinè.

Continuou os Cruzados do mesmo peso, e ley delRey D. Afonso V. e delRey D. Joaõ II. e nos vintens, e seitijs.

Fez Reaes de cobre de seis seitijs cada Real, que de huma parte tinhaõ hum R. debaixo de huma Coroa, e da outra o escudo das armas do Reyno com estas letras: Emmanuel Rex Portugaliæ, & A. Dominus Guinè.

Teve ElRey D. Manoel por empresa a Esphera, que vulgarmente se chamava entaõ Espera, e lha deu ElRey D. Joaõ II. como em pronostico da Coroa. Pelo que depois de ser Rey, mandou lavrar huma moeda de ouro, que de huma parte tem esculpida huma Esphera, e da outra huma Coroa com huma letra, que diz: Mea; com que parece quiz denotar, que a Esphera que ElRey D. Joaõ lhe dera por empresa, alcançou elle por obra, descobrindo, e conquistando a India, e o Brasil, de maneira, que ficaraõ sendo sua Coroa as quatro partes do mundo, que comprehende a Esphera. Pelo que alludindo a este Senhorio, usando da palavra Mea, segundo parece, por ser de S. Paulo, que chama aos Philippenses, a quem converteo: Gaudium meum, & Corona mea: meu contentamento; e noutra parte 1. aos Philippenses 2. Quæ enim est nostra spes, aut Gaudium, aut Corona gloriæ, nonne vos, &c. Donde parece que quiz dizer, que a sua gloria, e coroa, foy o novo descobrimento, e conversaõ do mundo. Na India depois de tomada Goa, mandou o Governador Afonso de Albuquerque fazer algumas moedas com o nome delRey D. Manoel, assim de ouro, como de prata, e cobre, às quaes poz o nome Espheras; que de huma tinhaõ a Cruz da Ordem de Christo, e da outra a Esphera, que era empresa delRey, como jà dissemos; pesava a Esphera de prata dous vintens, e outra ametade, a que chamavaõ Mea Esphera, nesta conformidade.

moeda
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As moedas de cobre poz nome Leaes, e outras Dinheiros, tres dos quaes valiaõ hum Leal; e de ouro mandou lavrar Cruzados, como se vè nos Comentarios de Afonso de Albuquerque p. 2 cap. 26.

§. XXXII.

Das Moedas delRey D. Joaõ III.

Posto que na Chronica delRey D. Joaõ III. se naõ faz mençaõ mais, que das moedas de cobre, que elle mandou lavrar, com tudo consta de outras muitas, que fez bater de todos os metaes, e particularmente a moeda de ouro chamada S. Vicente, que era de peso de 1U000. reis, e de huma parte tem a figura de S. Vicente com huma nào na maõ esquerda, e huma palma na direita com letras à roda: Zelator usque ad mortem; e he Zelador da Fè atè a morte; e da outra o escudo Real coroado com as letras: Joannes Tertius Rex Portu. & Al. Desta moeda se lavrou outra de ametade da sua valia, e com as mesmas insignias, que por isso lhe chamaõ Meyos S. Vicentes, como se vè da seguinte.

moeda
moeda

O titulo de Zelador da Fè, que teve nesta moeda, usou ElRey, por lho dar o Papa Paulo III. por o grande zelo, e instancia, com que pedio o Tribunal do Santo Officio da Inquisiçaõ para este Reyno, e como titulo hereditario usou tambem delle ElRey D. Sebastiaõ nas mesmas moedas, que em seu tempo mandou lavrar.

Fez outra moeda de ouro do peso dos Cruzados, a que chamaraõ Calvarios, por terem de huma parte huma Cruz comprida posta sobre hum monte, como ordinariamente a pintaõ no Calvario com estas letras: In hoc signo vinces; e da outra parte o escudo Real com Coroa, e o letreiro: Joannes Tertius Port. & Al. R D. Guinè.

Tambem na India se bateo outra moeda no anno 1548. governando Garcia de Sà, era de ouro de 20. quilates, e hum quarto; entravaõ num marco 67. de huma parte tinhaõ as armas de Portugal com a letra: Joannes III. Portug. & Al. Rex; da outra parte a imagem de S. Thomè com a letra: India tibi cessit; della se faz mençaõ na 6. Dec. l. 7. c. 2.

Tambem anno 1555. governando D. Pedro Mascarenhas, se lavrou em Goa outra moeda de prata, chamada Patacaõ, que foy a mayor deste metal, que houve naquelle Estado, como se refere na 7. Dec. cap. 6. col 6.

Fez tambem de prata, a que vulgarmente chamamos moedas de dous vintens, que de huma parte tinhaõ huma Coroa, e debaixo o nome delRey nesta cifra: Io. III. e por baixo XXXX. e à roda estas letras: Rex Portugaliæ Al. e da outra huma Cruz de S. Jorge com as letras: In hoc signo vinces.

Fez tambem outra moeda destes Reaes de prata dobrados, a que ordinariamente chamamos quatro vintens, e tem as mesmas insignias, que os outros; só debaixo do nome delRey tem hum numero de 80. que he a valia dos 80. reis, e na cercadura diz: Rex Portugaliæ, Al. D. G.

No cap. 58. da 4. p. da Chronica delRey D. Joaõ III. se diz, que mandou continuar em Lisboa no lavramento dos Seitijs, que cada hum delles tinhaõ 18. graõs, e com os mesmos cunhos, que atè entaõ corriaõ. E assim mesmo mandou fazer Reaes, que valessem seis seitijs, e tinhaõ meya oitava de peso cada hum; e de huma parte tinhaõ no meyo letreiros, que em breve diziaõ: Joannes Tertius Portugaliæ, & Algarbiorum Rex; e da outra parte hum R. com huma Coroa em cima, que he a primeira letra do nome da mesma moeda, que he Real.

Outra moeda mandou fazer de peso de oitava, e meya, e tem huma Coroa por cima, e humas letras no circuito, que dizem: Portugaliaæ, & Algarbiorum Rex Africæ; e da outra hum escudo de Armas Reaes.

Fez Patacoens de cobre de cinco outavas, que valia dez reis: e de huma parte tinha o escudo Real coroado com letras, que em breve diziaõ: Joannes Tertius Portugaliæ, & Algarbiorum; e da outra parte hum X. e ao redor: Rex Quintus Decimus.

§. XXXIII.

Moedas delRey D. Sebastiaõ.

DelRey D. Sebastiaõ hà varias moedas de ouro, como saõ as de 500. reis, que tem de huma parte huma Cruz da Ordem de Christo com as letras: In hoc signo vinces; e da outra o escudo com Coroa, e na cercadura: Sebastianus I. Rex Portugaliæ. Fez tambem a moeda dos Portugueses de dez Cruzados.

De cobre mandou lavrar os meyos reaes, os quaes tem hum R. de huma parte com huma Coroa em cima, e da outra estas letras: Sebastianus.

Outros meyos reaes tem de huma parte hum S. grande debaixo de huma Coroa, e da outra estas letras: R. Sebastianus I. Mandou o mesmo Rey por huma Provisaõ sua de 27. de Junho de 1558. e por outra de 22. de Abril de 157O. que se lavrassem de prata sómente Tostoens, Meyos tostoens, Vintens, e Meyos vintem, e que 24. Tostoens fizessem hum marco de prata, valendo cada Tostaõ 100. reis de seis seitijs o Real, e que tivessem as ditas moedas os mesmos cunhos, e letras, que atè entaõ costumavaõ ter as semelhantes; e do lavramento de cada marco de prata em moeda se tirassem 80. reis para os custos.

Tambem mandou abater as moedas de cobre, que ElRey D. Joaõ seu Avò lavràra; de maneira, que a moeda de dez reis, que chamamos Patacaõ, valesse sómente tres, e a moeda de cinco reis, q́ tem hum V. valesse real, e meyo.

§. XXXIV.

Moedas delRey D. Joaõ IV.

ElRey D. Joaõ IV. quando tomou posse do Reyno, mandou lavrar os Cruzados de prata, que tem 400. reis; e os meyos Cruzados, Tostoens, e meyos tostoens com o mesmo preço antigo, mas de menos peso: porque como a prata tinha em todas as Provincias do Norte muito mayor valia, que neste Reyno, levavaõ os Estrangeiros toda a prata de Portugal. E assim para se remediar este danno foy necessario levantar o preço do marco de prata, e diminuir o peso das moedas.

As moedas de ouro de quatro Cruzados, que ElRey de Castella D. Filippe, que chamaraõ o Bom, mandou lavrar neste Reyno, fez recolher no anno de 1642. e batellas de novo com o seu nome: Joannes IV. D. G. Rex Portugaliæ, & Algarb. e da outra parte a Cruz de S. Jorge; e nos quatro vaõs o anno de 1642. e à roda: In hoc signo vinces; e mandou que valessem tres mil reis.

Outras se lavraraõ, que tem ametade deste peso, e valor com as mesmas letras, e outras de quarto. E porque quando levantou o preço do marco de prata, senaõ pode recolher todo o dinheiro que entaõ corria, e trocallo por Moedas novas, se mandou cunhar com o algarismo do novo valor, esculpindo no Tostaõ 120. reis, e nos quatro vinteis 100. e no Meyo. tostaõ 60. e nos Reaes singelos, que chamavaõ de dous Vinteis 50. De novo se lavraraõ Vinteis com hum I. no meyo, que he a primeira letra do nome de ElRey por cifra: e tambem se lavraraõ dous Vinteis com o mesmo nome, e huma Coroa em cima, e da outra parte a Cruz de S. Jorge. Estas Moedas se bateraõ naõ sómente em Lisboa, mas em Evora, e no Porto, nas quaes Cidades se mandou de novo levantar casa de Moeda.

Demos felice remate a esta materia com a insigne Moeda, que o mesmo Rey mandou lavrar, depois que fez tributario o Reyno de Portugal à Igreja da Conceiçaõ de N. Senhora de Villaviçosa. Mandou lavrar huma Moeda grande de prata de mayor circumferencia, que os Cruzados de prata, que de huma parte tem a imagem de N. Senhora da Conceiçaõ com os pés na meya Lua sobre o globo, e de huma, e outra parte o Sol, e outras metaphoras, porque he invocada da Igreja, como saõ o Sol, o Espelho, o Horto concluso, a Casa de ouro, a Fonte selada, a Arca do Santuario, e as letras: Tutelaris Regni; e da outra as armas Reaes com a Coroa cerrada postas no meyo da Cruz da Ordem de Christo; e as letras: Joannes Quartus D. G. Portugaliæ, & Algarbiæ Rex. Pesa esta Moeda 450. reis; outra mandou lavrar de ouro com a mesma escultura, e letra, de valor de 12U000. reis.

moeda
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§. XXXV.

Moedas delRey D. Afonso VI.

ElRey D. Afonso VI. mandou lavrar moedas de ouro de quatro mil reis, de dous mil reis, e de dez tostoens. Mandou lavrar moedas de prata de valor de dous tostoens, de tostaõ, de quatro vintens, de meyo tostaõ, de vintem, e de dez reis tambem de prata. Marcouse depois a moeda de crusado em cinco tostões, a de dous tostoens em dusentos, e cincoenta reis, o tostaõ em cento, e vinte reis, e os quatro vintens em tostaõ. Tambem mandou lavrar cobre na forma cõmua.

§. XXXVI.

Moedas delRey D. Pedro II.

ElRey D. Pedro II. mandou lavrar moedas de ouro de quatro mil reis, de dous mil reis, e de mil reis. Mandou lavrar outras moedas de ouro de quatro mil, e quatro centos, de dous mil, e duzentos, e de mil, e cem reis. Mandou lavrar moedas de prata chamadas Cruzados, que valiaõ quatro centos reis, de dusentos reis, de tostaõ, de oitenta reis, de cincoenta reis, de quarenta reis, de vintem, e de dez reis de prata. Com o levantamento da moeda sobiraõ as moedas de ouro a quatro mil, e oito centos, as de dous mil, e dusentos a dous mil, e quatro centos, e as de mil, e cem reis, a mil, e dusentos reis. Os Cruzados de prata a quatro centos, e oitenta, os duzentos reis a duzentos, e quarenta reis, o tostaõ a cento, e vinte reis, os oitenta reis a cem reis, os cincoenta reis a sessenta reis, os quarenta reis a cincoenta reis, e as moedas marcadas de duzentos, e cincoenta reis sobiraõ a trezentos reis, e as de cinco tostoens a seis centos reis.

Alèm do cobre na forma antiga, mandou lavrar outro sendo Regente do Reyno (pelo impedimento politico de seu Irmaõ ElRey D. Afonso VI.) que foraõ moedas de dez, de cinco, de tres reis, e de real, e meyo: eraõ estas moedas primorosamente cunhadas, tinhaõ de huma parte as Armas Reaes com estas letras: Petrus D. G. P. Portugaliæ, e no reverso o valor da moeda, e ao redor Anno Regens. decimo quinto 1682. No anno seguinte mandou lavrar outro cobre ainda mais primoroso, e do mesmo valor, com as letras: Petrus D. G. P. Portugaliæ, e no reverso Anno sexto decimus regim. sui 1683. Mas de humas, e outras moedas pela sua raridade naõ se devia bater grande copia.

Mandou lavrar outro cobre do mesmo valor, q́ tem de huma parte P. II. com huma Coroa em cima, e a redor D. G. Port. & Alg. Rex; e no reverso o valor da moeda com estas letras Utilitati publica.

Para a America mandou lavrar como moeda provincial moedas de ouro de quatro mil reis, de dous mil reis, e de mil reis, de huma parte tem as Armas Reaes com estas letras Petrus II. D.G. Portugaliæ Rex, e da outra a Cruz de S. Jorge, e ao redor, Et Brasiliæ Dominus Anno 1700. Mandou lavrar moeda de prata de duas patacas, que valem 640. reis, patacas de 320. reis, como se vè da estampa seguinte.

moeda
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Meyas patacas de 160. reis, quarto de pataca de 80. reis, e vintem. Tem todas de huma parte, Petrus II. D. G. Rex, & Bras. D. e da outra parte huma Esphera sobre huma Cruz de Christo com estas letras entre os braços da Cruz, Subq signo nata stab. que dizem que debaixo do sinal da Cruz naceo, e se estabeleceo a America, porque o primeiro nome, que se deo àquella terra, quando se descobrio, foy o de Santa Cruz, e depois se chamou Brasil por causa desta madeira. Mandou lavrar moedas de cobre de vinte reis, e de dez reis, que tem de huma parte estas letras Petrus II. D. G. Portug. R. D. Æthiop. e na outra dous XX. entre huma especie de quatro crecentes, em cujos vaõs hà quatro P. e ao redor, Moderato splendeat usu. 1697.

§. XXXVII.

Moedas delRey D. Joaõ V.

Sua Magestade, que Deos guarde, alèm das moedas de ouro, como as delRey D. Pedro II. mandou lavrar Cruzados novos de ouro, que tem de huma parte duas palmas, e huma Coroa, e debaixo della Joan. V. e da outra a Cruz de Christo com as letras, in hoc signo vinces, se cunharaõ nas Minas moedas de vinte, e quatro mil reis, como mostra a seguinte estampa.

moeda
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E, de doze mil reis, a qual moeda ordenou o dito Senhor, que senaõ lavrasse mais. Mandou lavrar moedas de doze mil, e oito centos reis, como se vè da estampa seguinte.

moeda
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De seis mil, e quatro centos reis, de tres mil, e duzentos reis, de mil, e seis centos reis, de oito centos reis, e de quatro centos reis; todas com a sua Imagem, e ao redor Joannes V. D. G. Port. & Alg. Rex, e no reverso as Armas Reaes com as palavras, in hoc signo vinces: agora naõ costumaõ trazer as ditas letras.

Mandou lavrar duas sortes de cobre: a primeira de dez reis, de cinco reis, de tres reis, e de real, e meyo: tem de huma parte a Coroa Real, e debaixo della estas letras J. V. e ao redor D. & Port. & Alg. Rex, e da outra o valor da moeda com as letras, Utilitati publicæ. A segunda tem o Escudo das Armas Reaes com estas letras ao redor, Joannes V. Dei gratia, e da outra o valor da moeda, e as letras Portugaliæ & Algarbiorum Rex.

Tambem mandou lavrar cobre para o Brasil de vinte reis, e de dez reis. Tem de huma parte dous XX. com a Coroa Real em cima, e as letras ao redor, que dizem, Joannes V. D. G. P. & Bras. Rex, e da outra tem huma Esphera com estas letras, Pecunia totum circuit orbem. Mandou fazer outra sorte de cobre de dous vintens, e de vintem, que tem o Escudo das Armas Reaes, sem a cercadura dos Castellos com as letras Joannes V. D.G.P. & Bras. Rex, e no reverso tem XL. com estas letras Æs usibus aptius anno. 1722.

De todas as moedas dos nossos Reys, e de muitas Medalhas, que mandaraõ abrir veraõ os Curiosos hum completo Tratado em laminas de buril no Tomo IV. da Historia Genealogica da Casa Real de Portugal, composto pelo P. D. Antonio Caetano de Souza Clerigo Regular, Qualificador do Santo Officio, e Academico Real do numero, que jà està impresso, e brevemente sahirà à luz.

§. XXXVIII.

Das Livras

Livra he a Moeda, de que se acha mais antiga relaçaõ, como se ve da Ordenaçaõ Velha liv. 4. t. 1. Esta Moeda parece, que era de prata, como ainda hoje o he em França, e Alemanha, donde os Officiaes da Moeda parece vieraõ a este Reyno; e à sua imitaçaõ a deviaõ introduzir cà os nossos Reys, como fizeraõ outras muitas cousas à semelhança de Inglaterra, e França, àlem de trazer de là principio o Conde D. Henrique, e muitos dos seus com elle: e assim nos ficaraõ muitas cousas da lingua, e costumes dos Franceses. O nome de Libra he latino, e significa peso de doze onças; desta quantidade lavraraõ os Romanos a primeira Moeda, como diz Plinio lib. 33. cap. 3. e o tem Covarruvias de Numismate, Gregor. Agricola, Budeu, e Leto. Donde parece que do livra latino se derivou o nome às Livras das outras Provincias, e a estas de Portugal.[217]

Todas as Livras, que se lavraraõ atè o anno de 1395. em que reynava ElRey D. Joaõ I. foraõ da mesma valia. Por tanto mandou ElRey D. Duarte por Ordenaçaõ, que pelas Livras atè este anno se pagassem 20. Reaes brancos dos primeiros, os quaes Reaes brancos, como diz a dita Ordenaçaõ liv. 4. t. 1. §. 17. valia cada hum dez Seitis, e quatro quintos de Seitil: e assim 20. Reaes destes brancos vem a montar 216. Seitis, que a seis Seitis o Real tornaõ agora 36. Reaes dos nossos; e tanto valia cada Livra atè este tempo.

Porèm vendo-se ElRey D. Joaõ I. apertado pelos muitos gastos das guerras, fez lavrar as Livras de menor peso; e com tudo lhes deu a mesma valia, como tambem fizeraõ antigamente os Romanos, segundo Plinio no lugar referido; porque sendo a sua primeira Livra de doze onças de peso, e valor; depois pelas necessidades da Republica, as mandaraõ lavrar de duas onças de peso, e depois de huma onça sómente, mas todas com a valia de 12. onças. E assim ficou a Republica ganhando tanto dinheiro, que se desempenhou. O mesmo se conta delRey D. Henrique de Castella o Nobre no 4. livro da sua Historia cap. 10. Pelo que deste meyo se quiz valer o nosso Rey D. Joaõ; porque valendo as Livras, como dissemos 20. Reaes brancos dos primeiros, que fazem dos nossos 36. Reaes, estas segundas Livras, que mandou bater, naõ tinhaõ de verdadeiro peso mais que 25. reis, e 3. Seitis.

A estes dous generos de Livras chamaõ nas Escrituras do tempo delRey D. Duarte para cà, antigas, à diferença das outras, que depois se lavraraõ de muito menor valia. De maneira, que vieraõ a tanta diminuiçaõ, que pelas primeiras Livras antigas se mandaraõ pagar 700. das Livrinhas pequenas atè o anno de 1395. e deste anno por diante se mandaraõ pagar por estas segundas Livras antigas 500. Livras das pequenas.

§. XXXIX.

Das Livras de dez Soldos.

Para se entenderem bem as especies das Livras, de que tratamos, avemos de presuppor, que assim como ElRey D. Duarte mandou pagar pelas duas diferenças de Livras mais notaveis, e antigas a 700. Livrinhas por huma, a 500. Livrinhas por outra; assim para entenderem bem, e evitarem embaraços, redusiraõ outras quaesquer especies de Livras a este genero de Livrinhas.

Depois das Livras antigas jà ditas se lavrou huma moeda, que chamaraõ Livra de dez Soldos, a qual era de cobre, e tinha a decima parte da Livra mayor, e mais grande de 700. E assim valiaõ dez Livras de dez Soldos 700. Livrinhas. Chamavase de dez Soldos, porque quando se bateo, se lavraraõ huns Soldos, dez dos quaes faziaõ essa Livra. Prova-se isto por muitas Escrituras antigas; e em particular pelo livro dos Anniversarios velho da Sè de Evora, que começou no anno de 1442. em que està huma verba em 15. de Agosto, que diz: Neste dia fazem Aniversarios por N. e saõ para este Anniversario 50. Soldos antigos, e outo Livras de moeda de dez Soldos; e diz o Contador em baixo, como costuma, que por este Dinheiro recebe 1810. Livrinhas. Pela qual conta se mostra o que temos dito; porque os 50. Soldos antigos valiaõ a 25. Livrinhas cada hum, como diremos em seu lugar. E assim formaraõ 1250. Livrinhas; e as outo Livras de dez Soldos, contadas a 70. Livrinhas cada huma, vem a fazer 560. Livrinhas, que com as 1250. dos Soldos antigos jà ditos, vem a somar as 1810. Livrinhas, que o Contador diz, que recebeo.

Resta averiguar quanto valia esta Livrinha de dez Soldos a respeito da nossa moeda hora corrente, que facilmente se mostra da valia, que temos provado acima na Livra grande de 700. Porque se a Livra grande valia 36. reis; esta, que he a sua decima parte, valeria a tres, e meyo, e tres quintos de Real.

§. XXXX.

Das outras Livras, que valiaõ dez Livrinhas sómente.

Consta tambem por Escrituras antigas, que havia outras Livras, cada huma das quaes valia sómente dez Livrinhas das pequenas. O que se vè claramente do livro das contas dos Anniversarios da Sè de Evora, que servia no anno de 1464. na addiçaõ de 9. de Setembro, e assim ficavaõ valendo estas Livras, confórme a nossa moeda, cada huma meyo real, e seis setimos de seitil.

Outra moeda havia de cobre chamada de tres Livras, e meya, porque valia tres Livras, e meya destes de dez Livrinhas, que agora dissemos. E assim valia esta moeda 35. Livrinhas das pequenas. Nesta moeda fallaõ muitas escrituras antigas; e em particular o livro das contas dos Anniversarios do Cabido de Evora no lugar acima referido de 9. de Setembro de 1464. e outro em 17. de Dezembro, em que diz se davaõ para aquelle Anniversario 80. Livras de tres Livras, e meya; e diz o Contador abaixo, que recebeo por estas 80. Livras 2800. Livrinhas. Pelo que consta que valia cada huma destas 35. Livrinhas, como fica dito. E assim ficavaõ valendo da nossa moeda hum Real, e meyo, e hum seitil, e quatro quintos de seitil.

As ultimas, e mais pequenas Livras, foraõ estas, a que chamamos Livrinhas. Estas foraõ taõ diminuidas, e de taõ pouco valor, que como fica dito, mandou ElRey D. Duarte, que se pagassem 700. dellas por huma das mais antigas atè o anno de 1395. e 500. por cada huma das Livras antigas do dito anno por diante. O que cada huma destas Livrinhas valia a respeito do nosso Real, se pode provar desta maneira. Setecentas destas valiaõ huma Livra antiga, que dissemos tinha 36. reis da nossa moeda, logo he necessario, que repartamos 36. reis por 700. partes, e o que vier a cada parte, isso serà o que valia cada Livrinha. Para esta repartiçaõ se fazer mais cõmoda, faremos primeiramente cada Real dos 36. em 20. partes, que montaõ 720. partes. Estas partidas por 700. Livrinhas, vem a cada huma 20. partes de Real, e dous setentavos de 20. partes de Real. Esta he a valia, que tinhaõ, nem he de espantar haver moeda taõ meuda, pois havia Mealhas, como adiante veremos, que valiaõ meyo seitil; e assim hum Real valia doze Mealhas. E alèm disso pòde bem ser, que no peso fossem tamanhas como seitil, ou Mealhas, e a valia fosse esta sómente, ou o que mais he de crer, estas moedas modernas foraõ as que cresceraõ na valia, sendo de pequeno peso. Estas Livrinhas parece que jà as não havia em tempo delRey D. Duarte; porèm para mòr commodidade reduziaõ a ellas todas as contas, como hoje fazemos dos Reaes, não havendo jà quasi nenhuns entre nòs. E assim durou contar-se por ellas muitos annos adiante.

§. XXXXI.

Dos Soldos.

Havia antigamente, antes do anno de 1395. outra moeda mais meuda, a que chamavraõ Soldos, 20. dos quaes valiaõ huma Livra antiga de 36. reis; o que se collige da dita Ordenação §. 1. em que se diz, que ElRey D. Duarte mandou pagar 20. Reaes brancos por esta Livra mais antiga, e mandou que cada Real branco valesse hum Soldo. Bem se infere logo que 20. Soldos, era huma Livra. O mesmo consta do livro primeiro das Sisas, em que ElRey diz, que lhe pagaraõ de Sisa dous Soldos por Livra. E na Addiçaõ delRey D. Afonso V. se explica logo, que esta conta vem a ser a decima parte: por quanto huma Livra tinha vinte Soldos. Valia este Soldo da nossa moeda hum Real, e quatro seitijs, e quatro quintos de seitil.

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