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Noticias de Portugal

DISCURSO III. (continued 2)

Reading edition

As ceremonias com que se esta dignidade dava em Portugal, naõ achamos nas nossas Historias. Porèm segundo Scipiaõ Amirato,[164] e se collige do Regimento dos Reys de Armas deste Reyno. Vem o novo Duque acompanhado dos principaes Senhores da Corte, seus amigos, e parentes, precedendo diante os Reys de Armas, e musica de Ministreis, e levaõ-lhe huma bandeira, e Coronel os mayores Fidalgos, que o acompanhaõ; chegando assim ao Paço, entraõ na Sala Real, onde ElRey està em seu Trono, e lhe fazem huma pratica em seu louvor; dando as razoens porque ElRey lhe concede aquella dignidade: depois pondo-se o novo Duque de juelhos diante delRey, lhe mete a bandeira na maõ, e lhe poem o Coronel na cabeça: feito isto, se torna outra vez a cavallo com as insignias postas na cabeça atè sua casa. O livro chamado Ceremonial de Principes, diz que os Duques pòdem trazer estoques diante de si com a ponta para baixo à differença dos Reys, que o trazem com a ponta para cima, e usar Coronel na cabeça, e vestir huma oppa vermelha forrada de arminhos aberta pela ilharga, e que em suas Casas tem doceis, e nas Igrejas Sitiaes, e se lhe dà a beijar o Evangelho na Missa; diante dos Reys se assentaõ em Cadeiras razas com Coxins em cima: tem Arautos, e Maceiros para os acompanharem. Em Italia, e Alemanha usaõ[165] os Duques livres, em lugar de Coronel, de hum barrete vermelho redondo forrado de arminhos, que parece significa a liberdade, por ser o barrete antigo hieroglyphico della.

Neste Reyno se teve sempre esta dignidade em muito, e senaõ deu senaõ a filhos, e netos dos Reys, ou a parentes chegados à Casa Real. E os que os Reys atégora fizeraõ sem repetir os Titulos mais, que huma só vez, ainda que depois se reformasse a mercé, saõ os seguintes: os primeiros, como vimos, foraõ o Infante D. Pedro, a quem ElRey D. Joaõ I. seo pay deu Titulo de Duque de Coimbra, e ao Infante D. Henrique de Viseu; ElRey D. Afonso V. fez Duque de Bragança a D. Afonso Conde de Barcellos, filho natural delRey D.Joaõ I. e ao Infante D. Fernando seu irmaõ, de Viseu; e de Guimaraens ao filho mais velho do Duque de Bragança, ElRey D. Joaõ II. fez Duque de Beja ao Senhor D. Manoel, que depois foy Rey; o qual deu Titulo de Duque de Coimbra ao Senhor D. Jorge filho bastardo do mesmo Rey D. João II. e ao Infante D. Luiz seu filho, o fez Duque de Beja; e ao Infante D. Fernando, da Guarda; ElRey D. João III. concedeo aos primogenitos da casa de Bragança Titulo de Duques de Barcellos, e mudou o Titulo de Duque de Coimbra em Aveiro ao successor do Senhor D. Jorge; e deu à Senhora Infanta Dona Maria o Titulo de Duquesa de Viseu; ElRey D. Felippe I. deu ao Marquez de Villa-Real D. Manoel de Meneses Titulo de Duque da mesma Villa, que depois seu filho teve com Titulo de Caminha; ElRey D. Felippe III. concedeo aos primos genitos dos Duques de Aveiro se chamassem Duques de Torres Novas, donde tinhaõ Titulos de Marqueses; ElRey D.João IV. fez a D.Nuno Alvares de Mello, que era Marquez de Ferreira, Duque do Cadaval. ElRey D. João V. fez Duqueza de Lafoens a Dona Luiza Casimira de Sousa herdeira da Casa de Arronches, e mulher do Senhor D. Miguel, e este Titulo tem seu filho D. Pedro de Sousa. A esta dignidade aconteceo o que a nenhuma outra, que foy accrescentamento de grào no mesmo nome, como fizeraõ os Duques de Austria, chamando-se Archiduques, e outros se accrescentaraõ com o nome de Grandes, como o de Lituania, e o de Toscana.

§. XXIV.

Dos Marqueses, que ha no Reyno, e das ceremonias, com que eraõ creados antigamente.

Marquez se disse de Marca, que em lingua Alemã significa termo, e limite. Naõ foy este nome dignidade conhecida dos Romanos,[166] mas entrou com os Principes do Norte, os quaes destruindo o Imperio, e dividindo-o em muitos Reynos, punhaõ nos limites, e marcas de seus Estados Fronteiros, que as defendessem; e porque a estas fronteiras chamavaõ Marcas, intitularaõ aos Capitaens Marchiones; e depois corruptamente Marqueses. Deste tempo ficaraõ em Italia os Marquesados de Mantua, e Ferrara, e as Provincias ditas Marca de Ancona, e Trivizana. Em Espanha usaraõ tambem os Godos dos mesmos nomes, como se vè das historias dos Reys Godos, e os aponta Morales,[167] e particularmente neste Reyno, onde nos deixaraõ a palavra Comarca, que ainda hoje conservamos.

Sendo esta dignidade de Marquez officio, se foy tambem depois naõ sómente fazendo Senhorio das mesmas Marcas, mas ainda Dignidade, e Titulo. O primeiro, que houve neste Reyno, foy D. Afonso filho do primeiro Duque de Bragança, a quem ElRey D. Afonso V. deu este Titulo. Foy este Senhor, sendo ainda Conde de Ourem, ao Concilio de Basilea por Embaixador de Portugal com grande acompanhamento, e dahi, antes de tornar para o Reyno, correo grande parte de Europa, e Asia; e assim em remuneraçaõ de seus serviços o fez ElRey D. Afonso V. Marquez de Valença.

As ceremonias, com que esta dignidade se dà, conta largamente Garcia de Resende[168] na Chronica delRey D. Joaõ II. quando ElRey fez ao Conde de Villa Real D. Pedro de Meneses Marquez da dita Villa, e foy nesta forma. ElRey citava em seu estrado Real vestido ricamente, em pè com a mão na cadeira, debaixo de hum docel de brocado, acompanhado do Principe, e Grandes da Corte, vestidos todos de festa. O Conde veyo de sua Casa acompanhado de muitos Fidalgos, precedendo trombetas, charamellas, sacabuxas, e os Reys de Armas, e hum dos principaes Fidalgos, que o acompanhavaõ, levava diante hum Estendarte das Armas do Conde na mão com pontas, e outro huma espada rica embainhada, e o terceiro huma carapuça de seda vermelha forrada de arminhos, posta em hum prato de prata ricamente lavrado; com esta ordem entrou na sala, e chegou ao estrado, em que ElRey estava; e o Chanceler Mór por mandado delRey fez huma pratica, em que contou os muitos serviços do Conde, e como em gratificaçaõ delles, o queria ElRey acrescentar à dignidade de Marquez. Acabada a pratica, se chegou o Conde diante delRey, o qual tirou a carapuça do prato, e lha poz na cabeça, e tomou a espada, e lha cingio por cima dos vestidos, e da cinta lha tirou nua, e com ella lhe cortou as pontas do Estendarte, e ficou em Bandeira quadrada; e tomou hum anel de diamante, e lho meteo no dedo annular da maõ direita. Feito isto, o Marquez se poz de joelhos, e lhe beijou a maõ, e o mesmo fizeraõ logo o Principe, e os mais Grandes, e Fidalgos, que ahi estavaõ presentes. Convidou ElRey o Marquez, e jantou com elle aquelle dia à mesma mesa, estando ElRey debaixo do docel no lugar do meyo, e à sua maõ direita o Principe, e logo o Marquez, e à maõ esquerda ElRey D. Manoel Duque de Viseu, que depois lhe succedeo no Reyno. Acabado de comer, se recolheo ElRey, e o Marquez com o mesmo acompanhamento tornou para casa. Neste Reyno, e no de Italia costumaõ trazer Coroneis de perolas sobre as Armas; posto que como vimos, ElRey D. Joaõ lhe deu o barrete Ducal.

Os Senhores, a que os Reys deste Reyno deraõ titulo de Marquez, sem repetir duas vezes numa Familia o mesmo Titulo, saõ os seguintes. ElRey D. Afonso V. fez Marquez de Valença a D. Afonso, como jà vimos, e a seu Irmaõ D. Fernando Marquez de Villa-Viçosa. ElRey D. Joaõ II. a D. Pedro Meneses Conde de Villa Real fez Marquez da mesma Villa. ElRey D. Manoel concedeo aos primogenitos dos Duques de Aveiro o Titulo de Marquez de Torres Novas; e D.Joaõ III. fez Marquez de Ferreira a D. Rodrigo de Mello, Conde de Tentugal; e ElRey D. Filippe III. deu o mesmo Titulo a D. Christovaõ de Moura, fazendo o de Conde de Castello Rodrigo, Marquez da mesma Villa; e a D. Diogo da Sylva o de Marquez de Alanquer; ao Conde de Portalegre D. Filippe da Sylva fez ElRey D. Filippe o IV. Marquez de Gouvea; e ao Conde de Castelbom D. Jorge Mascarenhas Marquez de Montalvaõ; e ElRey D. Joaõ IV. ao Conde de Vimioso D. Afonso fez Marquez de Aguiar; e ao Conde de Monsanto D. Alvaro Pirez de Castro fez Marquez de Cascaes, e ao Conde de Vidigueira D. Vasco da Gama fez Marquez de Niza. ElRey D. Afonso VI. fez Marquez de Fontes a D. Francisco de Sà, e Menezes Conde de Penaguiaõ: Marquez de Sande a D. Francisco de Mello, e Torres Conde da Ponte, e Marquez de Marialva a D. Antonio Luiz de Menezes Conde de Cantanhede. ElRey D. Pedro II. fez Marquez de Alegrete a Manoel Telles da Sylva: de Fronteira a D. Joaõ Mascarenhas Conde da Torre: das Minas a D. Francisco de Sousa Conde Prado: de Tavora a Luiz Alvares de Tavora Conde de S. Joaõ de Pesqueira. ElRey D.Joaõ o V. fez Marquez de Angeja a D. Pedro Antonio de Noronha Conde de Villa-Verde: de Gouvea a D. Martinho Mascarenhas Conde de Santa Cruz: de Marialva a D. Diogo de Noronha: de Valença a D. Francisco de Portugal Conde de Vimioso, e ao Marquez de Fontes D. Rodrigo de Sà, e Menezes mudou este Titulo no de Abrantes, ficando o outro em seu primogenito D. Joaquim Francisco de Sà, e Menezes Conde de Penaguiaõ.

§. XXV.

Da origem dos Condes, e sua antiguidade, e preeminencia em Portugal.

Conde se dirivou de Comes, palavra latina, que significa companheiro, e comitatus, companhia. Sendo este nome generico, se fez tambem especial,[169] quando os Emperadores Romanos começaraõ de usar dos Nobres da Republica para os officios do Paço. Introduzio-se este costume em tempo de Valeriano;[170] o qual como se tratasse jà mais como Rey, que naõ seus antecessores, transferio o Senado para o Paço; e escolheo dos principaes Senadores hum Conselho, com o qual determinava tudo. E porque elle de sua condiçaõ naõ estava nunca em hum lugar, e caminhando sempre, e trazendo fempre consigo estes Senadores, lhe chamaraõ Comites, ou Companheiros de Cesar, e aos Continuos da Corte, e à Casa Imperial, Comitatus Cæsaris; foy logo de grande estima este Titulo de Companheiro do Emperador; e concedia se aos Conselheiros; e àquelles, que no Paço tinhaõ superintendencia em algum particular ministerio; e precediaõ a outros Ministros inferiores, chamando-os Condes daquelle officio. De maneira, que ao que agora dizem o Veador da Casa, chamavaõ elles: Comes rei privatæ: ao Guarda roupa: Comes sacræ vestis: ao Veador da fazenda: Comes largitionum; e assim aos de mais, como se pòde ver largamente[171] pelo livro da Noticia de ambos os Imperios. Depois estenderaõ os Emperadores Marco Aurelio, e Lucio Comodo Uro este nome de Comites, ou Condes, aos Governadores das Provincias, aos quaes deraõ Titulo de Condes dellas. E no Imperio Occidental se governaraõ por Condes, Italia, Africa, o destrito de Argentina em Alemanha, Inglaterra, o Illyrico, e as Espanhas. Pelo que vindo os Godos, e Naçoens do Norte a apoderar-se das Provincias Romanas, usaraõ do mesmo estilo; e seus Reys querendo imitar o fausto dos Emperadores, deraõ tambem nomes de Condes aos Senhores, e Illustres, que os serviaõ nos officios do Paço: e particularmente vemos isto nos Reys Godos de Espanha, cujas Historias,[172] e Concilios de seus tempos estaõ cheyos destes nomes de Condes, como era o que chamavaõ; Comes escanciarum, que servia de Copeiro: Comes cubiculi, de Camareiro: Comes patrimonij, de Veador da fazenda: Comes spathariorum, de Capitão da Guarda: Comes stabuli, de Estribeiro Mòr: Comes Notariorum, o Secretario: Comes Thesaurorum, o Thesoureiro Mòr, e assim outros muitos.

Alèm destes Condes, que serviaõ no Paço aos Reys Godos, havia outros nas Cidades principaes das Provincias, que as governavaõ, e seus territorios, como agora os Corregedores; pelo que lhe chamavaõ Condes da segunda ordem, por naõ serem da qualidade dos primeiros, que andavaõ junto à pessoa do Principe. Porèm nenhum destes Condes era perpetuo, mas serviaõ os officios a tempos, e deste modo se conservaraõ atè a entrada dos Arabes em Espanha; os quaes concederaõ aos Christãos, que entre elles ficassem seus Condes, que como Juizes os governassem, como se pòde ver largamente na 2. e 3. p. da Monarquia Lusitana,[173] onde se nomea Theodoro Conde de Coimbra muitos annos antes que se ganhasse esta Cidade aos Mouros. Depois os Reys, que succederaõ a D. Pelayo, deraõ tambem titulo de Condes aos Governadores, que punhaõ nas Cidades, como se vè do privilegio, que ElRey D. Afonso Magno deu à Igreja de Santiago de Galiza; onde alèm de outros se nomea Alvaro Conde da Idanha, Ermigildo Conde de Tuy, e do Porto, Arias seu filho Conde de Eminio, Pelayo Conde de Bragança, Odoario Conde de Castella, e Viseu. Estes saõ os primeiros Condes de Portugal, que se achaõ em confirmações, depois de se ir recuperando do poder dos Mouros. Daqui veyo dar ElRey D. Afonso VI. esta Provincia a seu genro D. Henrique com titulo de Conde. Em seu tempo, e em quanto seu filho D. Afonso esteve sem Titulo de Rey, naõ lemos que houvesse algum Senhor no Reyno com esta dignidade; porèm tanto que foy levantado por Rey, logo devia dar o titulo de Conde a outros para grandeza de sua Corte, como parece dos que achamos nomeados na jornada de Sevilha, que acompanharaõ o Infante D. Sancho. Estes titulos de Conde eraõ entaõ sómente em vida; depois se fizeraõ hereditarios, dando-os os Reys á imitaçaõ do que jà tinha feito o Emperador Carlos Magno, o qual senhoreando-se de toda Italia, França, Alemanha, deixou estes, e outros titulos aos mais dos Senhores, que os administravaõ, por herança, para elles, e seus descendentes, como jà temos dito; usando nisto de huma grande razaõ de estado; porque dividindo nesta fórma as Provincias em muitos Senhores particulares vassallos, ficava seguro de se lhe naõ poderem rebelar; porque cada hum por si naõ tinha forças bastantes para o fazer; e unirem-se todos, era quasi impossivel, pela grande multidaõ delles. Alèm do que se seguia outro grande beneficio ao bem publico, e era, que administrando cada Senhor sua Cidade, e territorio como cousa propria, ficava sendo muito mayor o accrescentamento das cousas publicas, como se ve no campo mais pequeno, que he melhor cultivado, que a herdade grande: e assim resultaraõ depois destas divisoens maravilhosos aumentos em todas as Cidades, e Povos, que tiveraõ particular Senhorio, tanto em Italia, e França, como em Alemanha; de que saõ boas testemunhas em Italia as Cidades de Mantua, Urbino, Ferrara, Millaõ; em França Parîs, Orliens, Bezansom, Gray, Nantes, Metz; nos Paizes baixos, Cambray, Arráz, Liegi; em Alemanha Clevis, Colonia, Aspurg, Gratz, e infinitas outras, que deste tempo para cà floreceraõ admiravelmente. De modo, que a esta imitaçaõ começaraõ os Reys de Espanha, por sua liberalidade dar por herança os titulos de Condes juntamente com o Senhorio das terras, que governavaõ. Porèm isto senaõ fazia ordinariamente, senaõ a pessoas muy conjunctas em sangue com a Casa Real. Pelo que dando ElRey D. João o I. titulos de Duques a seus filhos D. Pedro, e D. Henrique, como jà deixamos dito, ficaraõ sendo de mòr dignidade, que os Condes; ainda que estes eraõ muito mais antigos no Reyno depois da restauraçaõ de Espanha.

Em Italia naõ trazem Coroneis, e saõ chamados Espectaveis, e naõ Illustres, porèm em Portugal tem Coronel de perolas. Em Castella os que saõ Grandes, precedem aos Marqueses, que o naõ saõ. Quando ElRey D. Pedro de Portugal fez Conde de Barcellos a D. Joaõ Afonso Tello, conta o Chronista a solennidade, com que velou as armas, porèm naõ diz a com que o fez Conde. Com tudo parece, que em Portugal seguiraõ o costume de Italia, como fizeraõ nos Marqueses; e o que se póde colligir nesta materia era, que hia o Conde com acompanhamento dos Fidalgos, Reys de Armas, e instrumentos musicos ao Paço, onde ElRey dizendo-lhe: Venhais embora Conde, e metendo-lhe na maõ o Estendarte, lhe dava a investidura do Estado. E sendo convidado aquelle dia delRey, se tornava depois para casa com o mesmo acompanhamento. Os Senhores, a quem os Reys de Portugal deraõ o Titulo, referirey como fiz nos passados sem repetir duas vezes o mesmo Condado; ainda que ao filho, ou neto se tornasse a fazer merce delle. O primeiro que achey, he o Conde de Bragança D. Fernaõ Mendes o Bravo, que casou com Dona Theresa filha delRey D. Afonso Henriques. O segundo o Conde D. Pedro; na historia do qual Rey se nomeaõ tambem o Conde D. Ramiro, e D. Pedro das Asturias, que se acharaõ com o Infante D. Sancho na batalha, em que venceo a ElRey de Sevilha. Na Chronica do mesmo D. Sancho o I. se nomeaõ o Conde D. Mendo o Sousaõ; e na delRey D. Afonso III. o Conde D. Garcia de Sousa, que casou com huma filha bástarda do mesmo Rey. ElRey D. Diniz deu o titulo de Conde de Barcellos a D. Pedro, e de Albuquerque a D. Afonso Sanches seus filhos bastardos. ElRey D. Pedro fez Conde de Barcellos a D. Joaõ Afonso Tello de Meneses; e depois ElRey D. Fernando o fez Conde de Ourem, o qual fez tambem Conde Barcellos a D. Joaõ Afonso Tello, irmaõ da Rainha Dona Leanor, e D. Joaõ Tello Conde de Viana; e a D. Gonçalo Telles Conde de Neiva, e Faria, a D. Henrique Manoel Conde de Cea, e Cintra; e a D. Alvaro Pires de Castro Conde de Arrayolos, e Conde de Ourem a D. Joaõ Fernandes Andeiro. ElRey D. Joaõ I. deu o mesmo Titulo a D. Nunalvares Pereira, e o de Barcellos a D. Afonso seu filho natural, e ultimamente o de Villa Real a D. Pedro de Meneses primeiro Capitaõ de Ceita, D. Afonso V. fez Conde de Monsanto a D. Alvaro de Castro, e D. Afonso de Vasconcellos Conde de Penella, a D. Duarte de Meneses Conde de Viana, e depois de Loulè, a D. Henrique seu filho Conde de Valença, a D. Lopo de Albuquerque Conde de Penamacor, a D. Fernando de Noronha Conde de Odemira, a D. Fernando Coutinho Conde de Marialva, a D. Alvaro Gonçalves de Ataide Conde de Atouguia, a D. Pedro Martins de Mello, Conde de Atalaya, a D. Afonso filho do Duque de Bragança D. Fernando I. Conde de Faraõ, a D. Lopo de Almeida Conde de Abrantes, a D. Rodrigo de Mello, Conde de Olivença, a D. Ruy Vaz Pereira Conde da Feira, a D. Pedro de Meneses Conde de Cantanhede, a D. Pedro Alvares de SottoMayor Conde de Caminha, a D. Joaõ Galvaõ Bispo de Coimbra Conde de Arganil. ElRey D. Joaõ o II. deu o Condado de Borba a D. Vasco Coutinho, que depois se trocou pelo do Redondo. ElRey D. Manoel deu titulo de Conde de Portalegre a D. Diogo da Sylva, e aos primogenitos do Marquez de Villa Real, o de Alcoutim, a D. Rodrigo de Mello fez de Tentugal, a D. Joaõ de Meneses, de Tarouca, a D. Francisco de Portugal, do Vimioso, a D. Martinho de Castello Branco, de Villanova, a D. Vasco da Gama, da Vidigueira. ElRey D. Joaõ III. deu o Condado da Castanheira a D. Antonio de Ataide, e a D. Diogo da Sylveira, o da Sortelha. ElRey D. Sebastiaõ a D. Simaõ Gonçalves da Camara fez Conde da Calheta. ElRey D. Filippe I. a D. Francisco de Sà Conde de Penaguiaõ, a D. Fernando de Castro, do Basto, a D. Duarte de Castelbranco, do Sabugal, a D. Rodrigo Gonçalves da Camara, de Villafranca, a D. Francisco Manoel, da Atalaya, a D. Francisco Mascarenhas, de Santa Cruz. ElRey D. Filippe III. deu titulo de Conde de Ficalho a D. Carlos de Aragaõ, de Lumiares a D. Luiz de Moura, e Corte Real, de Villaflor, a D. Luiz Henriques, a Luiz Alvares de Tavora, de S. Joaõ da Pesqueira, a Henrique de Sousa, de Miranda do Corvo; a D. Francisco de Fàro, do Vimieiro; a D. Estevaõ de Fàro, de Fàro de Alentejo. ElRey D. Filippe IV. deu titulo de Conde de Obidos a D. Vasco Mascarenhas, e de Conde da Torre a D. Fernando Mascarenhas, e de Conde de Castelbom a D. Jorge Mascarenhas, e de Conde de S. Miguel a Francisco Botelho; e de Conde de Castelmelhor, a Ruy Mendes de Vasconcellos, e de Conde de Sarzedas a D. Rodrigo Lobo da Sylveira; e de Conde de Aveiras, a Joaõ da Sylva Tello, e de Conde de Assumar, a D. Francisco de Mello; e de Conde de S. Lourenço a Luiz da Sylva, e de Conde da Ilha do Principe a Luiz Carneiro de Alcaçova, e de Conde de Armamar, a Ruy de Mattos de Noronha, a Leonel de Lima deu as honras de Conde no titulo de Visconde de Villanova da Cerveira. ElRey D. Joaõ IV. fez Conde de Serem a D. Fernando Mascarenhas, e de Alegrete a Mathias de Albuquerque, e Conde de Villapouca a Antonio Telles; e de Villarmayor a Fernaõ Telles; e Conde de Soure a D. Joaõ da Costa. Confirmou a D. Fernando de Menezes a merce de Conde da Ericeira, fez Conde de Oriola ao Baraõ de Alvito, a D. Francisco de Sousa confirmou a merce de Conde do Prado, restituhio o da Torre tirado por Castella a D. Fernando Mascarenhas, e fez Conde de Villaverde a D. Antonio de Noronha. ElRey D. Afonso VI. fez Conde de Avintes a D. Luiz de Almeida, de Pombeiro a D. Pedro de Castellobranco, da Ponte a Francisco de Mello, e Torres, de S. Vicente a Joaõ Nunes da Cunha, de Villaflor a D. Sancho Manoel, e de Santiago a Lourenço de Sousa seu Aposentador Mòr. ElRey D. Pedro II. fez Conde de Alvor a Francisco de Tavora, do Assumar a D. Pedro de Almeida, de Coculi a D. Francisco Mascarenhas, das Galveas a Diniz de Mello de Castro, do Lauradio a Luiz de Mendonça, do Redondo a D. Manoel Coutinho, do Rio Grande a Lopo Furtado de Mendoça, de Tarouca a Joaõ Gomes da Sylva, de Valadares a D. Miguel Luiz de Menezes, e de Viana a D. Jozé de Menezes. ElRey D. Joaõ o V. fez Conde das Galveas a Andrè de Mello de Castro, Embaixador em Roma, do Lauradio a D. Antonio de Almeida, de Monsanto, D. Fernando de Noronha, de Povolide a Tristaõ da Cunha de Attaide, do Redondo a Fernaõ de Sousa Coutinho, de Alva a D. Joaõ Diogo de Ataide Governador das Armas do Alemtejo, da Sabugosa a Vasco Fernandes Cesar de Menezes, de Sandomil a Pedro Mascarenhas, e do Vimieiro a D. Sancho de Faro.

§. XXVI.

Dos Viscondes, e Baroens.

Em toda a parte costumaraõ os Reys, e Monarcas darem a seus primogenitos algum Titulo ainda em vida, para com isso os introduzir no governo das cousas publicas, e alcançarem mayor authoridade com o povo; e como todos os Grandes procurem imitar os Reys, alcançaraõ tambem muitos Senhores de Titulo de seus Principes outros Titulos taõ bons, ou menores para os filhos Morgados. Disto vemos hoje assaz de exemplos em Espanha, onde os mais dos primogenitos dos Duques tem Titulo de Duques, ou de Marqueses, e os dos Marqueses de Condes. Pelo que querendo tambem alguns Condes de Alemanha, França, e Italia, que a seus filhos se desse esta preeminencia, e naõ havendo outro Titulo inferior, lhes concederaõ os Reys nome de Vicecomites, ou Viscondes; encomendando-lhes juntamente com o Titulo o governo de algum lugar, confórme o affirmaõ o Ceremonial de Principes feito por Mosem Diogo de Valera, Garibay, e Padre Fr. Jeronymo Roman.[174] ElRey D. Afonso V. vindo de França, querendo gratificar os muitos serviços, que Leonel de Lima lhe fizera, lhe deu o Titulo de Visconde de Villa-Nova da Cerveira; e foy o primeiro que houve em Portugal, conservando-se atègora esta dignidade nos Senhores desta Casa. ElRey D. Joaõ IV. fez Visconde de Castello Branco a D. Pedro de Castello Branco. ElRey D. Afonso VI. fez Visconde da Asseca a Martim Correa de Sà, e de Barbacena a Afonso Furtado de Mendoça, e ElRey D. Pedro II. fez Visconde de Fonte Arcada a Pedro Jaques de Magalhaens.

Baraõ se dirivou de Baro, nome latino,[175] que confórme à melhor significaçaõ, quer dizer homem prudente, e grave. Pelo que com razaõ usou o nosso Luiz de Camoens desta palavra, quando na proposta dos seus Cantos dos Lusiadas disse: As armas, e Baroens assinalados, e naõ varoens, como alguns inadvertidamente querem. Os Italianos deraõ o nome de Baraõ a todos os Senhores de lugares vassallos doutro Principe, e assim he generico naquella Provincia; o que parece tem tambem lugar em Alemanha, e França pela grande multidaõ de Baroens, que hà naquelles Reynos. Em Portugal introduzio este Titulo ElRey D.Afonso V. que o deu a Joaõ Fernandes da Sylveira, depois que veyo de Italia, onde foy acompanhando a Emperatriz Dona Leonor mulher de Federico III. E assim neste Reyno he Titulo particular, e se diz tem obrigaçaõ de sahir em lugar delRey a desafio, em caso que seja chamado a campo. ElRey D. Afonso VI. fez Baraõ da Ilha Grande a Luiz de Sousa de Macedo.

As ceremonias, com que se estes Titulos daõ, naõ constaõ de alguma Escritura; mas sómente se collige do Regimento dos Reys de Armas, que se celebra este acto, indo os novos Titulados ao Paço, acompanhados de muitos Fidalgos, parentes, e amigos com os Reys de Armas diante, e que ElRey lhe diz: Venhaes embora Visconde, ou, Baraõ de tal parte.

Estas saõ as dignidades, que hà no Reyno, as quaes modernamente os Reys naõ costumaõ a dar com as solemnidades antigas. Pelo que o uso ordinario he sómente ir o que hà de ser Titulado ao Paço bem acompanhado; e entrando onde ElRey està, dizer-lhe ElRey as mesmas palavras, que agora referimos. Venhaes embora Duque, Marquez, ou Conde; e com isto recebe investidura do Titulo, e lhe fallaõ, e escrevem dahi por diante, como a tal. Isto porèm he nos Titulos, que ElRey faz de novo, ou a quem renova a mercè; porque os que tem de herança, sem mais ceremonia se intitulaõ da dignidade, em que succedem, e saõ havidos por taes.

§. XXVII.

Do Titulo de Senhor.

Este nome Senhor, se derivou do latino: Senior, que quer dizer o mais velho; e confórme a Scipiaõ Amirato[176] se começou a usar deste termo, pelo de Dominus, depois da entrada dos Longobardos em Italia; porque era ley entre elles, que tendo o Senhor de hum lugar muitos filhos, se repartisse por todos a fazenda; porém o governador do lugar ficasse sempre com o mais velho; pelo que lhe chamavaõ vulgarmente: Senior illius loci; que he o mesmo, que o mais velho do lugar; ao que ajuda o que diz sobre esta palavra: Senior, Santo Agostinho Epist. 174. Este mesmo costume guardavaõ, segundo parece, as mais das naçoens do Norte; porque todas ellas os tiveraõ quasi semelhantes, e por elles se governaraõ muitos em lugar de leys. Pelo que assim o deviaõ fazer os Godos em Espanha, e se prova claramente da historia de Joaõ Abbade de Valclara, e Bispo de Girona nosso Portuguez; qual chama a Aspidio Senhor dos montes Agarenses, Senior loci, que quer dizer: Senhor do lugar. E nos Concilios de Espanha aos que humas vezes chamavaõ: Proceres, & Optimates; igualmente os diziaõ outras vezes: Seniores; e em todas as Escrituras dos Reys de Navarra de 500. annos atraz se dà o nome de Senior, ao Senhor de qualquer lugar; e se usava nas Escrituras igualmente pelo de Dominator; como mostra largamente Morales,[177] e Escholano,[178] e o Padre Fr. Antonio de Yepes[179] na Confirmaçaõ da entrega do Mosteiro de S. Torcato, diz que confirma entre outros; Diogo Alvares, nesta fórma: Senior Diogo Alvres. O mesmo consta de França, e Italia, segundo Gregorio Turonense, e Scipiaõ Amirato.[180] Pelo que desta ley dos Longobardos, e Godos parece teve origem o antigo costume de Espanha de chamarem sempre aos irmaõs mais velhos, assim Reys, como Titulos: Senhores; e isto com tanta particularidade, que se prohibio por ley, que ninguem podesse chamar meu Senhor ao Rey, senaõ às pessoas Reaes, atè o quarto grào, e Duques do Reyno; posto que darem os mesmos Titulos os Fidalgos, e Nobres aos pays foy ordinario em tempo de nossos Avòs, e aos Avòs tambem por isso diziaõ: Donos, os antigos, que era o mesmo que Dominios, e Senhores; com tudo o nome de Senhor de terras se veyo a usar tanto, que os que as possuiraõ com jurisdicçaõ, deixaraõ por elle o nome de Vassallos; e principalmente des do tempo delRey D. Afonso V. para cà, chamando-os ElRey em suas Provisoens, e Alvaràs: Senhores dos taes lugares, e tem assento nas Cortes depois dos Fidalgos do Conselho.

§. XXVIII.

Da dignidade da Cavalleria.

Concluamos esta materia das dignidades da Nobreza com a da Cavallaria, a qual foy antigamente taõ estimada, que até os mayores Principes de Europa procuravaõ com grande cuidado recebella, entendendo que ficavaõ com ella mais acrescentados com reputaçaõ, e authoridade, assim lemos,[181] que a Espanha vieraõ Conrado Duque de Suecia filho do Emperador Federico I. e D. Raimon de Flacada Conde de Tolosa a se armar Cavalleiros da maõ delRey D. Afonso XI. de Castella, e Eduardo Principe de Inglaterra, da delRey D. Afonso Sabio; e do mesmo modo, só para este effeito vieraõ a Portugal outros Grandes Senhores em varios tempos. Porém os que nesta parte a meu parecer alcançaraõ mòr gloria, foraõ os nossos Infantes filhos delRey D. Joaõ I. porque só com este intento emprenderaõ a expugnaçaõ de Ceita; e ElRey D. Joaõ II. sendo Principe, a de Arzilla. Dava-se tambem esta dignidade em tempo de paz, e com grandes festas, quando alguma Personagem sobia a novo Titulo, como o fez[182] ElRey D. Pedro, quando creou Conde de Barcellos D. Afonso Tello, seu grande privado, para o qual acto mandou fazer cinco mil cirios, que outros tantos homens tinhaõ na maõ toda a noite, que o Conde velou as armas em S. Domingos de Lisboa, estando postos em procissaõ, des do Convento até os Paços de Alcaçova. ElRey D. Afonso V. armou[183] a seu irmaõ o Infante D. Fernando Cavalleiro com tanta solennidade, que quasi o menor apparato desta pompa foy precederem diante deste magnifico acto mil tochas, quatrocentas levavaõ Cavalleiros, e as seiscentas Escudeiros dos mais luzidos da Corte, todos vestidos de hum trage, e librè.

Para padrinhos se buscavaõ Cavalleiros de grande nome, e linhagem, como alèm de outros, parece do Conde D. Pedro, que conta ordinariamente destes antigos Senhores, quaes Fidalgos armaraõ para Cavalleiros. Os mais dos Reys antigos de Castella costumavaõ armar-se Cavalleiros a si mesmos, antes de se coroarem: e do nosso D. Afonso Henriques diz a historia dos Godos,[184] que elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando as armas do Altar: Infans inclytus Dominus Alphonsus Comitis Henrici, & Regina D. Tarasiæ filius D. Alphonsi nepos habens ætatis años fere quatuordecim apud sedem Zamorensem ab Altari Santi Salvatoris ipse sibi manu propria sumpsit militaria arma ab Altari; & ibidem in Altari indutus est, & accintus militaribus armis, sicut moris est Regibus facere in die Santo Pentecostes.

As ceremonias, que neste Reyno se usavaõ neste acto, confórme ao Regimento da guerra delRey D. Afonso V. eraõ, que o Cavalleiro novèl vigiava em huma Igreja des do meyo dia de antes, rezando, e encõmendando-se a Deos, que aceitasse aquelle acto para seu serviço. Vinda a manhãa, e acabada a vigia, se vestia ricamente, e ouvia na mesma Igreja Missa cantada muy solenne, depois da qual posto de joelhos diante do padrinho, era perguntado, se queria receber aquella honra? E dito que sim, lhe fazia huma pratica explicando-lhe as novas obrigaçoens, em que entrava; e como em todas as acçoens de armas devia favorecer, e ajudar a justiça. Acabada a pratica, lhe calçavaõ as espòras dous Cavalleiros, e outro lhe cingia a Espada, em que se significava o antigo baltheo, insignia propria dos Soldados; da cinta lhe arrancava o Padrinho a espada, e dando-lhe com ella tres vezes por cima do Capacete dizia, o armava Cavalleiro, em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo. Feito isto, o abraçava o Padrinho, e lhe dava paz, e elle fazia o mesmo a todos os outros Cavalleiros, que alli se achavaõ. Estas ceremonias se usaõ ainda hoje com os que saõ admittidos nas Ordens Militares; porque lhes naõ lançaõ o habito sem primeiro serem armados Cavalleiros, por outros Cavalleiros da mesma Religiaõ Militar. Era costume deste acto naõ ser o Cavalleiro menor de 14. annos, e de essencia ter jà sido armado Cavalleiro o Padrinho, como se julgou no Caso delRey D. Fernando,[185] quando estando no campo de Caya para dar batalha a ElRey D. Joaõ I. de Castella, armou muitos Fidalgos Cavalleiros; porèm averiguando-se pelos que alli estavaõ, que por elle naõ ser Cavalleiro, ainda que Rey fosse, os naõ podia armar, e posto que elle se devia armar a si mesmo, parece que por dar esta honra ao Conde de Cambriz, lhe pedio que o armasse, e entaõ tornou a fazer de novo os mesmos Cavalleiros, que jà tinha armados com outros mais.

Começou esta dignidade da Cavallaria a ser neste Reyno mais ordinaria depois da tomada de Ceita, e Alcacere, como diz Gomes Eannes de Azurara,[186] porque atè entaõ como o Reyno estava sem conquistas, naõ havia occasiaõ, senaõ rara, de alcançar semelhante honra, e os que hiaõ fóra do Reyno a buscalla, eraõ poucos; porèm de entaõ para cà com as occasioens da guerra, assim de Africa, como de Asia, saõ tantos os que recebem a Cavallaria da maõ dos Governadores, e Capitaens daquellas partes, e Estados, que os nossos Reys lhes poseraõ limite no 2. l. das Ordenaçoens t. 60. mandando, que os privilegios da Nobreza concedidos a estes Cavalleiros lhes naõ valessem, sem primeiro serem confirmados pela Pessoa Real, de maneira que podemos dizer, que neste Reyno fica sendo a Cavallaria nos inferiores o primeiro gráo da Nobreza, e nos Principes, o ultimo accrescentamento della.

Estas ceremonias da Cavallaria naõ se usaraõ entre os Gregos, e Latinos, senaõ depois, que as Naçoens do Norte se senhorearaõ das Provincias do Imperio. Pelo que parece, que dellas teve principio, por ser costume seu, como se ve de Cornelio Tacito, ninguem poder trazer armas, sem primeiro ser approvado pelo Magistrado; e para isso era ceremonia juntarem se os principaes do povo, e o pay, ou parente mais chegado, ou mais nobre, e dar ao moço o Escudo, ou Espada, e armallo com ella, e que esta era a primeira honra, que os mancebos recebiaõ, tendo se até entaõ por parte da Casa de seu pay, e dalli por diante por membros da Republica. As palavras de Tacito[187] saõ estas: Arma sumere non antecuiquam moris, quam civitas sussecturum probaverit. Tum in ipso Concilio Principum aliquis, vel pater, vel propinquus, scuto, frameaque juvenem ornaret, hæc apud illos, hic primus juventæ bonos, ante hoc domûs pars videntur, mox Reipublicæ.

NOTAS DE RODAPÉ:

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