CAPITULO XI OS ROMANOS
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A Italia, como a conheciam e designavam na Antiguidade, era constituida pela peninsula alongada, existente no sul da Europa, que se prolonga com direcção sueste entre os mares Adriatico e Tyrrheno e na extensão de 800 kilometros. Tambem lhe pertencia a Sicilia (ilha d'ella separada por um pequeno estreito), bem como a vasta planicie que se extende até á base dos Alpes (que é atravessada pelo rio Pó e cuja metade superior era conhecida pelo nome de Gallia Cisalpina). Aos pés das montanhas da Sabina, iam incontrar-se as ferteis planicies do Lacio e da Etruria, sobre as margens do rio Tibre. A alguma distancia da sua confluencia com o Arno, passa este rio entre novas collinas, duas das quaes—o Janiculo e o Vaticano—dominam a sua margem direita e as outras estão sobranceiras á esquerda. Foi alli que se edificou Roma.
Durante muito tempo, e apezar da preponderancia que a população e os estabelecimentos do Lacio adquiriram, conservou-se a peninsula dividida em diversas nacionalidades, estabelecidas{58} nas seguintes regiões do territorio; Liguria, Etruria, Campania, Lucania, Apulia, Samnio, Umbria, etc. A unidade politica da Italia peninsular sómente veio a realizar-se depois de um grande numero de tentativas e de esforços continuos e pertinazes de Roma, para vencer as nacionalidades autonomas locaes, que eram muito ciosas dos seus direitos o da sua independencia.
Roma deve ter sido primitivamente uma colonia de Alba-Longa, cidade que pertencia á confederação do Lacio. Ignora-se, porêm, ao certo como se fundou, quaes os elementos a que deveu origem, e as circumstancias que se deram nos seus primeiros tempos. A historia verdadeira da sua primeira epocha é ainda hoje ignorada, porque como historia verdadeira não pode considerar-se a collecção de fabulas e de tradições maravilhosas e inverosimeis, que antigos historiadores colheram das lendas e das crendices populares.
A historia dos septe reis de Roma passa por ser uma lenda em que figuram: 1.º rei, Romulo, que com seu irmão Remo edificou no monte Palatino a cidade de Roma; 2.º rei, Numa, monarcha religioso inspirado pela nympha Egeria; 3.º rei, Tullo Hostilio, que destruiu Alba-Longa, depois da guerra entre Horacios e Curiacios; 4.º rei, Anco Marcio, que foi o fundador de Ostia; 5.º rei, Tarquinio o Antigo, vencedor das cidades latinas do Tibre superior; 6.º rei, Servio Tullio, o legislador, amigo do povo; 7.º rei, Tarquinio o Soberbo, tyranno abominavel que foi expulso pelos Romanos, sendo com essa expulsão abolida a realeza.
Contam os antigos historiadores nos seguintes termos a fabula da fundação de Roma. Romulo e Remo eram filhos do deus Marte e de Rhea Silvia (filha de um rei de Alba), que fôra feita vestal (para não poder casar nem ter descendencia) por seu tio Amulio que derrubou seu pae do throno. Sabendo Amulio do nascimento das duas creanças, mandou-as lançar ao Tibre; mas a pessoa incarregada de as deitar ao rio, por compaixão deixou-as na margem, d'onde um pastor as recolheu, sendo ellas, segundo uns, amamentadas por uma loba, e segundo outros pela mulher do pastor, que dizem se chamava Lupa (Loba).
Quando chegaram a homens, Romulo e Remo reuniram grande numero de aventureiros, vagabundos e descontentes; e com elles tiraram o throno a Amulio, restituindo-o a seu avô materno Numitor, que d'elle havia sido desapossado. Feito isto, foram fundar uma cidade no sitio em que haviam sido creados,{59} e essa cidade foi Roma. Passou-se isto no anno 753 antes de Christo.
Romulo mandou matar a Remo com o pretexto de que este, saltando por um vallado (que foi a primeira muralha de Roma), pretendêra zombar d'elle. Povoou a nova cidade com homens dos povos vizinhos que a si attrahiu; e, como não houvesse mulheres para com elles casarem, mandou fazer umas festas publicas, para as quaes convidou os Sabinos, e ás quaes concorreram estes em grande numero com suas familias. Em meio dos festejos os Romanos roubaram as mulheres aos Sabinos, fazendo-os fugir. Ao rapto das Sabinas seguiu-se uma guerra entre os dois povos, a qual não teve grande duração, porque as proprias raptadas, então já casadas, intervieram para fazer a paz entre os maridos e os paes e irmãos.
A fabula narrada como causa da expulsão de Tarquinio o Soberbo e da abolição da realeza em Roma é a seguinte. Contam que tendo Sexto Tarquinio (filho do rei) injuriado em seu pudor a Lucrecia (mulher do nobre Collatino), esta convocára todos os seus parentes e os outros nobres da cidade para lhes pedir vingança e em seguida se suicidára. D'ahi resultou uma revolução, capitaneada por Collatino e por Lucio Junio Bruto, sendo expulso Tarquinio, abolida a realeza e estabelecida a fórma republicana. Esta revolução foi toda feita pelos patricios, e por isso a republica ficou nas mãos d'elles e com feição aristocratica. O governo foi confiado a dois consules, sendo os primeiros os dois auctores da deposição de Tarquinio, Bruto e Collatino. Refere-se este acontecimento ao anno 509 antes de Christo.
Tiveram pouco depois os Romanos que sustentar uma guerra contra Parsenna, rei da Etruria, que os atacou para restabelecer no poder a Tarquinio. O exercito de Persenna chegou a tomar o Janiculo e a acampar junto dos muros de Roma, pretendendo reduzil-a pela fome; mas foi repellido pelos Romanos com grande denodo, e Persenna veio depois a tornar-se amigo e alliado de Roma.
Os Tarquinios continuaram ainda a fazer guerra á republica até á morte de Aruns (filho de Tarquinio) que succumbiu ás mãos de Bruto. Este fôra ferido mortalmente por Aruns e, concitando todas as suas forças e energia, matou-o, cahindo sem vida sobre o seu cadaver.
Annos depois Manlio (genro de Tarquinio) suscitou contra Roma a guerra, chamada dos Latinos. Estes chegaram a approximar-se da cidade com um exercito numeroso. O povo romano recusava-se a tomar as armas se os nobres ou patricios,{60} que os opprimiam, não o desobrigassem das suas dividas e não lhe tornassem melhor o viver. Representava que era elle que fazia a guerra, mas que as vantagens e as honras eram todas para os ricos e nobres. Estes promptificaram-se a adiar a exigencia das dividas, mas não a dál-as por findas. Em tal apuro, por consenso mutuo, creou-se um magistrado supremo, denominado dictador, com poder absoluto por seis mezes e incarregado de conciliar todos os interesses. Para esse cargo foi escolhido Largio que, fazendo-se acompanhar de 24 lictores armados de machados, apparecia em toda a parte, obrigando todos a intrar na ordem, sob ameaça de morte. O povo amedrontou-se perante esta energia, fez-se o alistamento, e o exercito marchou contra os Latinos. Estes pediram um armisticio, que lhes foi concedido; e Largio exonerou-se da dictadura. Reappareceram mais tarde os Latinos; mas Aulo Posthumio, nomeado dictador, foi ao seu incontro, vencendo-os n'uma batalha decisiva em que ficaram mortos Tito e Sexto, filhos de Tarquinio o Soberbo.
Tendo depois os Romanos guerras com os Volscos e os Equos, foi Cincinnato incarregado do commando do exercito. O lictor que ia dar-lhe noticia da nomeação, incontrou-o com a charrua a arar o campo. Cincinnato largou a cultura, poz-se á frente do exercito, e, em quinze dias, derrotou os inimigos. Alcançada a victoria, o heroe voltou ao trabalho da sua cultura agricola, que deixára interrompido. Coriolano, que se vira obrigado a sahir de Roma, em resultado de dissenções civis entre os tribunos da plebe e os patricios, aos quaes aquelle pertencia, lançou-se no partido dos Volscos e recomeçou com elles a guerra contra os Romanos. Vencido, porêm, pelas supplicas de sua mulher e de sua mãe, retirou-se e recolheu ao paiz dos Volscos que (segundo alguns) o assassinaram.
Seguiu-se a guerra contra os Veientes,—um dos povos etruscos, inimigo eterno dos Romanos, que todos os annos renovava as hostilidades. Os Fabios, familia nobre de Roma, offereceram á republica um concurso poderoso e extraordinario, fazendo por si sós uma guerra particular contra os Veientes; mas foram horrivelmente derrotados, ficando os trezentos patricios, que compunham este pequeno exercito, todos mortos junto a Cremera. Notaveis victorias vingaram, porêm, depois esta derrota; differentes generaes romanos ganharam grandes batalhas e se apoderaram das praças fortes do inimigo. Os Veientes eram tão poderosos que, cercados na sua cidade, defenderam-se durante dez annos dos Romanos, os quaes haviam jurado não voltar a Roma sem haverem tomado{61} a valorosa povoação dos Veientes. O juramento cumpriu-se e a cidade foi tomada.
Por esse tempo Roma tratou de aperfeiçoar as suas instituições e a sua legislação, adoptando algumas das leis vigentes na Grecia. Crearam-se os decemviros, para exercerem o poder em vez dos dois consules. As leis que adoptaram de Athenas foram pelos Romanos gravadas em doze tábuas, o que lhes originou a designação de leis das doze tábuas. Teve pouca duração a instituição dos decemviros, que foi por sua vez substituida pela de dois consules. Esta substituição fez-se por exigencia do povo, cançado da tyrannia dos decemviros e dos excessos dos nobres. O povo ainda obteve outra victoria: estabeleceu-se que os consules tanto pudessem ser eleitos entre os patricios como entre a plebe, e que se pudessem fazer casamentos entre individuos de differentes classes sociaes.
Seguiram-se outras guerras, de algumas das quaes tratámos atraz, em differentes capitulos, a proposito dos outros diversos povos, como a de Tarento, a de Pyrrho, a de Syracusa, as tres guerras punicas, a dos Corinthios, e a da Hespanha, que os Romanos submetteram tambem. Todas estas guerras tiveram como resultado dar a Roma uma vastissima dominação no mundo.
Assim, no anno 130 antes de Christo, dominava ella desde o littoral da peninsula iberica até ao centro da Asia Menor. Estava sujeito ao seu dominio quasi todo o antigo mundo.
Mas a conquista de tão vastos e tão ricos paizes tinha tido sobre os costumes dos Romanos uma influencia desastrosa. Tinham estes renunciado á sua antiga simplicidade e tinham aberto as portas ao luxo. Os nobres tinham-se tornado crapulosos e perdularios; o povo, accessivel á venalidade. D'ali proveio a decadencia que a pouco e pouco produziu a ruina da republica e da liberdade.
Catilina, um nobre romano, eivado de todos os vicios da sua classe, aproveitando-se da ausencia dos exercitos, que estavam na Asia combatendo contra Mithridates, concebeu o negro plano da perda da patria, tendo por cumplices alguns dos seus mais nobres compatriotas. Incontrou porêm a opposição patriotica dos consules Cicero e Antonio; o primeiro, nos seus eloquentes discursos, punha em evidencia as conspirações do traidor e concitava contra elle o patriotismo da plebe; o segundo marchou contra o exercito com que Catilina vinha, da Etruria sobre Roma e desbaratou-o. Catilina foi morto no combate.{62}
Novas calamidades esperavam, porêm, a republica romana. No meio do excessivo poderio e da dissolução dos costumes, quando Roma celebrava as victorias alcançadas por Pompeu no Oriente, a grande influencia e o grande prestigio d'este general despertou a inveja de outros generaes e outros nobres ambiciosos, como Metello, Crasso e Cesar.
Aspirando Cesar a ganhar poder, Crasso a augmentar o seu, e Pompeu a conservar o que possuia, facil foi aos tres ambiciosos combinarem-se para se apoderarem da republica. Distribuindo elles a sua força commum, Cesar assenhorou-se da Gallia, Crasso da Asia, e Pompeu de Hespanha; cada um tinha um grande exercito sob as suas ordens, por fórma que o imperio do mundo ficou assim dividido entre aquelles tres dominadores. Mas a concordia que apparentavam entre si era unicamente o resultado do receio que cada um d'elles tinha dos outros. Morto Crasso, bem depressa se rompeu a harmonia entre Cesar e Pompeu. Este, apoiado pelo senado, intimou Cesar para que abandonasse o seu governo e o commando do seu exercito. Cesar, em vez de obedecer, marchou sobre Roma e fez sabir d'ahi Pompeu e todos os seus partidarios. Seguia-os até á Hespanha, onde bateu todos os logar-tenentes de Pompeu, e passou depois á Grecia, onde se incontrou com este na Thessalia, perto de Pharsalia. Vieram ás mãos os exercitos de um e outro, a victoria ficou indecisa; mas, tendo-se afastado Pompeu do campo,—o seu exercito, perdendo a força moral, foi completamente destroçado.
Pompeu viu-se obrigado a refugiar-se no Egypto, onde foi assassinado no momento de desimbarcar, por ordem de Ptolomeu. Depois de em Africa bater Juba, que sustentára o partido de Pompeu, e de derrotar os filhos d'este em Hespanha,—Cesar recolheu a Roma, onde foi recebido com grande ovação, e onde sobre sua cabeça foram accumuladas as maximas honras.
Bem depressa se urdiu, porêm, uma conspiração contra a sua vida. Foram auctores d'ella Bruto, Cassio e outros patricios; e Cesar morreu sob o punhal de Bruto.
Livres os Romanos de Pompeu e de Cesar, parecia que iam recuperar a antiga liberdade; mas Sexto Pompeu, reclamando os bens de seu pae, tornou-se o flagello do mar; Octavio, procurando vingar Cesar, soprou a guerra na Thessalia, e Antonio amotinou o povo contra os assassinos de Cesar, fazendo com que elles fossem expulsos de Roma.
Antonio, Lepido e Augusto constituiram-se em triumvirato para vingar a morte de Cesar. Octavio e Antonio marcharam{63} contra Bruto e Cassio, que sustentavam o senado, e deixaram Lepido em Roma. Incontraram-se os dois exercitos inimigos na Thessalia; a victoria esteve a principio indecisa; mas depois Cassio, sendo repellido, persuadiu-se de que o mesmo tinha acontecido a Bruto e suicidou-se. Isso produziu a derrota de Bruto, que tambem se matou, para não cahir nas mãos dos inimigos.
A harmonia entre os triumviros não se manteve muito tempo. Lepido foi desterrado para uma ilha, onde morreu. Antonio e Augusto desavieram-se e romperam hostilidades, acabando a contenda pela batalha de Accio. Antonio, vencido, suicidou-se; e o Egypto foi reduzido a uma provincia romana.
Doze annos depois de se haver constituido o triumvirato, viu-se Octavio senhor absoluto do grande imperio romano. Depois de ter estabelecido a paz na terra e no mar, fechou o templo de Jano, em signal de paz geral. Senhor de tudo, tendo nas suas mãos a força militar, investido nas funcções de todas as magistraturas do estado, apezar de conservar as formulas republicanas, tomou o titulo de imperador, com o nome de Augusto. Pouco depois, declarou que ia intregar os poderes nas mãos do senado e do povo; mas, tendo disposto convenientemente as coisas, obteve que, em nome do bem publico, lhe conservassem o poder por mais dez annos.
Não tendo filhos que pudessem ser herdeiros do imperio, declarou como tal a Tiberio Nero, que adoptou por filho. Deu o commando de oito legiões, inviadas ao Rheno, a Germanico Cesar, filho de Druso, e fez com que Tiberio o adoptasse. Veio a morrer na edade de 76 annos.
Foi no seu reinado que, no anno 753 da fundação de Roma, nasceu Jesus Christo em Bethlem, cidade da Palestina.
O imperio romano tentou continuar o dominio universal. Succederam-se uns aos outros os imperadores, muitos dos quaes foram tyrannos, e muitos morreram assassinados. O imperio foi successivamente infraquecendo. Tres invasões lhe deram o ultimo golpe: a dos Wisigodos, a dos Vandalos e a dos Hunos. Por morte do imperador Theodosio, o imperio fôra dividido entre seus dois filhos: Arcadio teve em partilha o imperio do Oriente; Honorio o do Occidente. Foi este o que cahiu perante a invasão d'aquelles Barbaros, no anno 476 da era christan, fechando com esse acontecimento a Historia Antiga. O imperio do Oriente logrou acompanhar ainda o periodo historico da Edade-Média.
FIM{64}
Os Mysterios da Inquisição
POR
F. Gomes da Silva
Obra illustrada a côres
POR
MANUEL DE MACEDO E ROQUE GAMEIRO.
Sob o titulo Os Mysterios da Inquisição condensam-se variadissimos factos historicos, desentranham-se os horrores d'epochas passadas, escalpellam-se figuras d'outros seculos, investigam-se particularidades estupendas, encadeiam-se acontecimentos dispersos e tenebrosos, enaltecem-se as grandes virtudes, faz-se rebrilhar a verdade, e põem-se em relevo todas as personagens que entram n'este grande drama, em que vibram commoções da maior intensidade e affectos do mais exaltado amor.
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