CAPITULO V OS CARTHAGINEZES
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Crê-se geralmente que a cidade de Carthago foi fundada, (como acima dissémos) por Dido, pelos annos 888 antes da era christan; comtudo ha quem affirme que ella havia sido edificada antes, pelos annos 1059, por uma colonia phenicia de Tyro.
Seja como fôr, o que é certo é que os Carthaginezes apparecem-nos, pelos annos de 540 antes de Christo, constituindo já uma republica de certa importancia. N'essa epocha alliaram-se com os Etruscos e forneceram-lhes trinta navios para o ataque da Corsega.
A republica de Carthago tinha um senado e duas assembléas populares, que elegiam os magistrados incarregados da administração civil e os generaes incumbidos do commando dos exercitos. O senado era formado por todos os cidadãos notaveis por sua edade, nascimento, riqueza ou merito pessoal.
Carthago, nas suas guerras, empregava unicamente soldados extrangeiros assalariados, para não despovoar a republica que occupava apenas uma limitada área de 75 leguas quadradas, e para que os seus cidadãos não abandonassem o commercio, que era a fonte da riqueza e do poderio do estado. A Numidia e a Hespanha forneciam-lhe a sua cavallaria;{30} a Gallia, a Liguria e a Grecia, a sua infanteria; e as ilhas Baleares, os seus fundibularios, tão notaveis pela destreza.
Os Carthaginezes foram senhores da Sardenha; tiveram estabelecimentos seus na Hespanha e na costa da Sicilia. Eram habeis e ousados navegadores,—o que, junto á vantajosa posição geographica de Carthago, foi causa do seu ingrandecimento e riqueza.
Durante dois seculos viveram em paz com os Romanos, com os quaes celebraram tratados, que estabeleciam os limites reciprocos da navegação e regulavam o commercio entre aa duas republicas. Mas a crescente prosperidade de Carthago começou a inspirar inveja aos Romanos, e esse sentimento mais tarde ou mais cedo devia accender a guerra entre as duas nações. Foi o que succedeu.
Tendo-se originado guerra na Sicilia entre os Mammertinos e Hierão (rei de Syracusa), pediram os primeiros soccorro aos Romanos, emquanto Hierão recorreu ao auxilio dos Carthaginezes. Tal foi a causa das guerras entre Carthaginezes e Romanos, conhecidas pelo nome de guerras punicas (do latim P[oe]eni, que a principio queria dizer «Phenicios», mas que mais tarde se ampliou em significação, comprehendendo os Carthaginezes). Houve tres guerras punicas designadas por sua ordem chronologica: primeira, segunda e terceira.
A primeira guerra punica durou do anno 264 a 241 antes de Christo. N'ella os Romanos, comquanto muito menos prácticos do que os Carthaginezes na arte de navegar, começaram por uma brilhante victoria naval. Perto das ilhas de Lipari, batteram a frota de Carthago e metteram-n'a a pique. A frota romana era commandada por Duilio Nepote, a quem por isso Roma ergueu uma estatua. Cornelio Scipião, general romano, expulsou os Carthaginezes da Corsega e da Sardenha. E Regulo, depois de tomar Chypre, chegou triumphante deante de Carthago; mas, vencido por sua vez por Xantippo (general lacedemonio que fôra em soccorro dos Carthaginezes), foi aprisionado. Inviado, sob palavra, a Roma para que negociasse a troca dos prisioneiros, Regulo aconselhou, pelo contrario, o senado a que não intrasse em taes negociações,—pelo que, voltando a Carthago, soffreu morte cruel.
Metello, outro general romano, expulsou os Carthaginezes da Sicilia; mas, emquanto isto se passava, a frota romana, commandada por Claudio Pulcher, era completamente destruida junto de Lilybea. Por fim, depois de uma grande victoria dos Romanos, commandados pelo consul Luctacio, sobre os Carthaginezes sob o mando de Amilcar, celebrou-se{31} a paz com a condição dos segundos cederem aos primeiros todas as ilhas situadas entre a Italia e a Africa e pagarem-lhes durante dez annos um tributo annual de 2:200 talentos.
A segunda guerra punica teve a seguinte origem. Os Carthaginezes, para compensação das perdas soffridas em resultado da primeira guerra, trataram de alargar os seus dominios na peninsula hispanica. Amilcar Barcas subjugou uma grande parte d'ella e Asdrubal edificou Carthagena. Os Romanos, que não podiam ver com bons olhos o novo ingrandecimento dos seus rivaes, começaram a inquietar-se com aquellas conquistas e exigiram dos Carthaginezes que firmassem tratados, pelos quaes se obrigassem a não extender as suas conquistas alêm do Ebro e a respeitarem Sagunto, que era alliada de Roma. Mas Annibal, filho de Amilcar, depois de se haver apoderado de varias outras povoações, poz cêrco a Sagunto e deatruiu-a. Isso foi motivo para a segunda guerra punica.
Annibal, tomando a offensiva, invade a Italia e ganha differentes victorias, chegando Roma (não obstante o talento do pro-dictador Fabio) a estar seriamente ameaçada. Mas o senado de Carthago hesitou em mandar a Annibal os soccorros pedidos; este teve que procurál-os na Sardenha, na Sicilia e na Macedonia, e mandou ir da Hespanha seu irmão Asdrubal com um novo exercito de Hespanhoes e de Gaulezes. A desorganização, a heterogeniedade d'estes elementos, e a sua indisciplina, valeram aos Romanos nas apertadas circumstancias a que haviam chegado. Alêm d'isso o soccorro levado por Asdrubal não poude chegar ao seu destino, porque aquelle general, detido no caminho por um exercito romano sob o mando dos dois consules, teve que dar-lhe batalha em que morreu, sendo desbaratada toda a sua gente.
Entretanto Publio Scipião com um exercito romano passou a Africa e foi cercar a propria cidade de Carthago. Annibal teve que deixar a Italia para acudir em soccorro da capital da sua patria, e alli foi derrotado nas planicies de Zama. Passou-se isto no anno 202 antes da era christan. Esta victoria de Scipião poz termo á segunda guerra punica.
No seu regresso a Roma, Scipião foi alvo das mais esplendidas ovações, e deram-lhe o cognome de Africano.
Depois da paz de Zama, pode dizer-se que a existencia de Carthago foi uma lenta agonia. Massinissa, rei da Numidia, expoliou-a de muitas povoações e de grande extensão de territorio; os Carthaginezes appellaram para Roma, porque Massinissa era alliado dos Romanos; mas o senado de Roma, promettendo-lhes{32} justiça, deixou que aquelle rei permanecesse na posse dos territorios de que se tinha apoderado. Para apparentar uma arbitragem, inviou Catão a Carthago; mas este, vendo a cidade rica e prospera, sentiu reviver o odio contra a rival de Roma. E voltando, sempre terminava os seus discursos no senado pela phrase, que ficou celebre: delenda Carthago («deve ser destruida Carthago»). Tendo os Carthaginezes repellido um novo ataque de Massinissa, Roma pretextou que houvera violação do tratado de paz de Zama e declarou a terceira guerra punica, que, depois de varia sorte, terminou por um cêrco a Carthago, no qual os Carthaginezes foram reduzidos pela fome. Scipião Emilio, o segundo Africano, general romano, tomou a cidade e arrazou-a. Commissarios do senado de Roma tomaram posse do territorio carthaginez e fizeram d'elle uma provincia romana, com o nome de Africa. Foi isto no anno 146 antes de Christo.