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Historia Antiga

CAPITULO IX OS CHINS

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Não se conhece a duração da sociedade chineza, á qual as suas tradições maravilhosas attribuem 80:000 a 100:000 annos de existencia. O que é certo é que o povo chinez é muitissimo antigo, havendo nas suas tradições mais ou menos certas conhecimento de factos anteriores 3:500 annos a Christo,—e,{43} desde o seculo XXVI da mesma era, historia positiva que apresenta seguidos annaes.

Ignora-se completamente quaes foram a origem e o modo de formação dos Chins, habitantes do Celeste Imperio ou Imperio do Meio. Até ao seculo XXII antes de Christo os imperadores eram electivos; d'aquella epocha em deante estabeleceu-se o principio heriditario na successão, modificado n'um ponto (e era que os grandes do imperio podiam escolher entre os filhos do soberano defuncto o que julgassem digno de succeder-lhe).

O imperador Yu foi fundador da dynastia dos Hia, que durou quatro seculos e que acabou no meio de grandes desordens e de uma atroz tyrannia. A segunda dynastia, a dos Chang, foi fundada por um principe de merecimento superior cujas virtudes foram celebradas por Confucio, e veio a acabar como a anterior, sendo o seu ultimo representante um tyranno abominavel, desthronado por Wu-Wang, principe de Tehéu, que contra elle se revoltou. Este, tomando o governo, reorganizou o antigo «tribunal da historia», cujos membros gozavam de inamobilidade, que lhes assegurava a independencia. Durante esta dynastia os reinos feudatarios da China, que já desde antiga data existiam, augmentaram até ao numero de 125, e na China constituiu-se um verdadeiro feudalismo. Este, porêm, acabou em perfeita anarchia; o imperador chegou a absoluta impotencia, e um dos seus feudatarios offereceu sacrificio ao céu (prerogativa exclusiva do soberano), e prendeu no palacio o ultimo imperador d'aquella dynastia. Começou nova dynastia, a dos Thsin que, destruindo todos os pequenos principados, reconstruiu com sua unidade e poderio o grande imperio. Um imperador d'ella, Chi-Hoang-Ti, concluiu aquella transformação, abriu grande numero de estradas, perfurou montanhas e, para impedir as correrias dos Tartaros nomadas, mandou construir a grande muralha, que mede 2:500 kilometros de comprimento. Tornou-se porêm, tristemente celebre pela perseguição dos lettrados e pelo incendio dos livros. Na sua enorme vaidade, queria que tudo datasse do seu reinado e pretendeu assim apagar os vestigios do passado. Não poude, felizmente, matar todos os sabios, nem destruir todos os livros. A monarchia chineza, que n'aquella data foi perturbada por tão violento e insensato reformador, voltou depois á sua tradicional quietação; os sabios recuperaram a sua influencia; e o paiz augmentou consideravelmente em prosperidade. Mas depois, minada por vicios de dissolução interior, não teve força para resistir ás invasões{44} dos Mongoes que, transpondo a grande muralha, foram causa da divisão da China em dois reinos, separados pelo rio Azul, e nos quaes houve differentes dynastias, que todas tiveram uma existencia obscura. Li-Ang tornou a reunil-os no anno 618 da era actual; mas não conseguiu robustecer o imperio restaurado, de modo que pudesse resistir ás repetidas Invasões mongolicas. Estas invasões continuaram durante a Edade-Média, e são já estranhas ao assumpto do presente livrinho.

É a civilização da China uma das mais antigas que se conhecem; mas, apezar d'isso, é a que menos tem progredido ou, melhor diremos, a que por maior decurso de tempo tem permanecido estacionaria. Tem sido causas d'esse estacionamento o temperamento proprio da raça chineza, a sua fórma de governo, a sua religião e o isolamento em que a nação se tem conservado a respeito do resto do mundo.

A fórma de governo tem sido sempre como que patriarchal. O imperador é simultaneamente soberano e pae de todos os seus subditos, que de um extremo a outro do imperio formam uma unica familia, sem distincção de castas ou hierarchias. As doutrinas de Confucio têem contribuido principalmente para conservar ás instituições chinezas a sua estabilidade.

Confucio viveu no seculo VI antes de Christo. Os seus livros, sendo como que o evangelho do Imperio Celeste, são estudados por todos os que têem que sujeitar-se aos exames que habilitam para os titulos litterarios e para o exercicio dos cargos publicos. Confucio não foi legislador, nem teve auctoriade para promulgar leis; mas ensinou a «sabedoria». E na práctica das doutrinas por elle professadas assenta todo o edificio politico e religioso na China.

Segundo elle, a moral dos antigos sabios, que é a da verdadeira e eterna sabedoria, consiste na observancia das tres leis fundamentaes das relações entre o soberano e os subditos, entre o pae e os filhos, e entre o marido e a mulher; e tambem em practicar as cinco virtudes capitaes (que são: a humanidade, isto é, uma caridade universal para com todos os individuos da nossa especie sem distincção; a justiça, que dá a cada um o que lhe é devido, sem favorecer um em prejuizo de outro; a conformidade aos ritos prescriptos e aos usos estabelecidos, a fim de que os que formam a sociedade tenham uma maneira commum de viver, e participem todos de eguaes vantagens e de eguaes incommodos; a rectidão, ou a inteireza de espirito e de coração, que faz que cada um busque a verdade, sem se deixar offuscar pelo interesse, proprio ou{45} alheio; a sinceridade e boa fé, ou a lisura e confiança, que exclue toda a dissimulação e toda a falsidade, quer nos actos quer nas palavras).

Os seus principios religiosos fundamentaes são os seguintes. O céu é o principio universal, a origem fecunda de que todas as coisas procederam. Os nossos antepassados, d'elle oriundos, foram a origem das gerações seguintes. Dar ao céu testemunhos de agradecimento é o primeiro dever do homem; mostrar gratidão aos antepassados é o segundo. É por isso que Fou-Hi estabeleceu ceremonias em honra do céu e dos antepassados.

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