CAPITULO VIII OS INDIOS
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Dá a Geographia a denominação de India a uma extensa peninsula, situada ao sul da cordilheira do Himaiaya, que é uma das de maior altitude no mundo. Divide-se a peninsula em tres regiões differentes:—1.ª, o Hindustão propriamente dito, constituido pelo territorio das duas bacias do Indo e do Ganges;—2.ª, o Deccan, peninsula situada ao sul d'aquella região e que termina no cabo Comorim;—3.ª, a India central, constituida pela zona de planaltos, que se extende, do occidente para o oriente, desde o mar de Oman até ao golpho de Bengala.
As populações que habitam a vasta peninsula indiana podem classificar-se do seguinte modo:—a raça aryana, ou hindú (Gujarati, Bengali, etc.), que é a que predomina no Hindustão; a raça dravidica (Tamul, Telinga, Karnataka, etc.), predominante no Deccan; os restos das raças primitivas (Ghond, Bhilla, Kolaria, etc.), estabelecidos nas diversas regiões da India central.
A historia da raça aryana divide-se em quatro periodos, que podem chamar-se: vedico, epico, brahmanico e buddhico.
No periodo vedico, e em epocha que não pode determinar-se com precisão, uma parte do grupo dos Aryas orientaes destacou-se, constituiu uma nação á parte (os Hindus), que se dirigiu para o valle de Cabul (antigamente, Kubha), atravessou o rio Indo e extendeu-se pelas campinas de Pendjab (antigamente, Panchanada).
Grande numero dos hymnos que figuram no celebre Rig-Veda referem-se a factos, que se passaram n'este primeiro periodo historico, caracterizado pela immigração e pelo primitivo estabelecimento da raça aryana em terras da India. Quando esta raça alli chegou, incontrou o territorio occupado por differentes populações que, ou eram aborigenes, ou pelo menos tinham longo tempo de habitação n'aquellas paragens. Parte d'estas populações foi absorvida e assimilada pela raça invasora; outra parte foi pouco a pouco destruida em luctas porfiadas de seculos. A principio os Aryas não formavam uma nação unica, mas conservaram-se por muito tempo{39} divididos n'um certo numero de tribus, as mais notaveis das quaes foram a dos Bharatas, a dos Iksuakus e a dos Pauravas, que chegaram ainda independentes até ao periodo historico seguinte, e vieram a ser troncos das poderosas dynastias que então se estabeleceram em terras do Hindustão.
Durante todo o periodo vedico o viver dos Hindus teve a natureza pastoril, e a sua organização sociologica distinguiu-se pelo caracter patriarchal. Ainda entre elles não havia o regimen das castas, que só mais tarde veio a apparecer.
O periodo epico ou heroico decorreu desde que os primeiros hindus intrados na India passaram o rio Sarasuati até que, deslocando-se progressivamente, chegaram á foz do Ganges. Este periodo foi caracterizado pela immigração continuada e pelas luctas entre os que primeiro tinham occupado uma localidade e os que, vindo mais tarde, os obrigavam a abandonal-a e a progredir na immigração.
Deu-se durante este periodo um curioso phenomeno historico. Chegando os primeiros hindus á peninsula indiana, por muito tempo limitaram a sua occupação a uma zona de territorio que tinha por limite oriental o rio Sarasuati. Novas tribus, descendo tambem o valle de Cabul, obrigaram as primeiras, que tinham começado a estabelecer-se nas planicies de Pendjab, a abandonar as posições primitivas e a ir successivamente immigrando de localidade em localidade. Isto deu como resultado o phenomeno de uma enorme massa de população a deslocar-se, com movimento lento e secular ao longo de uma vasta região, até que esse progredir parou na imboccadura do Ganges.
Estas deslocações successivas originaram grandes guerras entre as differentes tribus; e não só essas luctas, mas tambem as que houve entre os Hindus e os povos que primitivamente occuparam aquelles territorios, assignalaram todo o periodo epico. A mais antiga das luctas conhecidas entre as tribus aryanas é designada na Historia por «guerra dos dez reis», e deu-se entre a tribu dos Bharatas (cabeça de uma confederação de dez nações, que tinha por chefe o celebre Vishuamitra) e a tribu dos Tritsus (a que presidia o egualmente celebre Vasista). Esta ultima tribu havia passado o Sarasuati antes da das dez nações; e depois, tendo occupado territorio, oppunha-se á passagem d'ella, que ia invadir-lh'o. Por occasião d'aquella guerra, conseguiu deter o movimento dos rivaes; mas mais tarde viu-se obrigada a ceder o logar perante o impeto, cada vez mais irresistivel, de novas ondas de população que invadiam a India.{40}
Ao passo que as tribus invasoras iam occupando definitivamente territorios e iam assentando posições, iam-se formando dynastias. As duas mais importantes d'este periodo foram: a chamada Solar, que reinou sobre os Tritsus ou Kosalas e teve a sua capital em Ayodhia; e a Lunar, que reinou sobre os Bharatas e teve a sua capital em Hastinapura. Entre dois ramos da dynastia Lunar houve uma tremenda guerra; foi entre os Kurus e os Pandus. Depois de varias phases que a grande lucta apresentou, os Kurus foram por fim inteiramente desbaratados pelos Pandus, que ficaram reinando em Hastinapura. Com esta guerra terminou o periodo epico ou heroico.
No periodo brahmanico os Pandus, vencidos os Kurus, ficaram constituindo uma poderosa dynastia, á qual foi facil, com o andar dos tempos, subjugar as diversas populações aryanas que occupavam aquella região. Formada assim uma grande e opulenta nacionalidade, em breve esta se sentiu naturalmente animada de tendencia expansiva, mandando successivas expedições a colonizar o Deccan, o qual tentou conquistar arrancando-o ás nações dravidicas, que até então o haviam occupado. A historia d'estas guerras deu assumpto ao grande poema indio o Ramayana que tem por thema fundamental a conquista do sul da India e da ilha de Lanká (hoje Ceylão) pelos Aryas. Nada, porêm, positivo se apura n'aquelle poema com respeito aos factos intimos da referida guerra,—porque o caracter do Ramayana é inteiramente mythico; e só um grande esforço de interpretação chega a explicar os seus episodios e a significação dos seus personagens.
Alêm d'aquellas expedições, o interesse historico d'este periodo da historia antiga da India concentrou-se todo na nova constituição social que n'esta despontou e se veio a firmar e radicar com o tempo. A classe dos guerreiros, que até então fôra a primeira em categoria e consideração, cedeu o logar á dos sacerdotes, que ficou sendo a aristocratica e preponderante. O regimen que desde aquella epocha dominou na India, e que ainda hoje alli tem profundas raizes, é o chamado regimen das castas. Por esse regimen a sociedade é dividida na India em quatro classes, religiosa e intransigentemente fechada cada uma d'ellas a elementos extranhos, e dispostas hierarchicamente na fórma seguinte:—1.ª a dos brahmanes ou sacerdotes;—2.ª a dos kshatrias ou guerreiros;—3.ª a dos vaishias ou commerciantes;—4.ª a dos sudràs (a infima) ou dos servidores. Esta ultima julga-se que provêm dos restos da população aborigene, que os Aryas não poderam anniquilar nem assimilar, e que so admittiram no seu corpo social com aquella{41} fórma e aquelle mister degradantes. No chamado «Código de Manu» está expressa e formulada esta fórma do regimen estabelecido na sociedade indiana.
Ao periodo brahmanico succedeu o periodo buddhico, que fecha a historia antiga da India. N'este periodo a theocracia brahmanica soffreu um grande abalo e teve que defender-se em lucta porfiada. No seculo VI antes da era de Christo appareceu na India um homem de talento extraordinario, que era ao mesmo tempo um propagandista audacioso e infatigavel. Chamava-se Çakya-muni, era filho de um rajah de um paiz vizinho do Nepaul, e teve o cognome (pelo qual ficou eternizado na Historia) de Buddha (ou sabio). Philosopho de temperamento, aos vinte e nove annos de edade abandonou o palacio paterno, as riquezas e o direito á realeza para viver no deserto, investigando a verdade. Nove annos depois, fortalecido o espirito com as meditações da solidão, voltou ao povoado; e começou a pregar nova doutrina ás multidões, reunidas ao acaso. Por toda a parte orava,—expondo os seus principios, (quer nas povoações, quer nos campos) á gente de todas as condições sociaes. Servia-se na sua predica, de parabolas (o mesmo systema que depois foi seguido por Christo). Apresentava a principio a sua doutrina como uma simples reforma; mas ella tendia á ruina completa do brahmanismo, substituindo ao regimen das castas o principio da egualdade de todos os homens perante a lei moral, e ás falsas virtudes prégadas pelos brahmanes a práctica do bem. Ás promessas de salvação (isto é, da união com a essencia divina) só concedida pela religião antiga aos brahmanes, substituia a capacidade, para todos os homens, de gozarem da bemaventurança, ganha por seus meritos e virtudes. Rompia com o privilegio da casta dos brahmanes, para chamar ao sacerdocio os pobres e os mendigos que quizessem dedicar-se á vida religiosa. A sua doutrina admittia seis elementos de perfeição, que eram: a sciencia, que devia ter por objecto distinguir os verdadeiros dos falsos bens; a energia, que devia consistir na resistencia contra os nossos maiores inimigos, os prazeres dos sentidos; a pureza, que era a victoria adquirida por aquella resistencia; a paciencia, que consistia em soffrer os males imaginarios e os transitorios; a caridade, laço de união entre os homens; a esmola, como consequencia necessaria da caridade.
Tão sympathica e tão santa doutrina, que tantos pontos de similhança tem com a de Christo, não podia deixar de fazer, como fez, um proselytismo enorme.
Assim prégou até aos oitenta annos, respeitando sempre a{42} ordem estabelecida, e proclamando (como o fez mais tarde Christo) que aos principes se devia dar o que lhes era devido. Por sua morte, os discipulos reuniram os principaes discursos d'elle e convocaram o primeiro concilio buddhico, em que tomaram parte 500 religiosos. Depois de septe mezes de discussão, esse concilio assentou na fórma do culto e no corpo das doutrinas, o que tudo ficou mais precisado em segundo e terceiro concilio, que se reuniram, um no seculo V e o outro 150 annos antes de Christo.
Por fim os brahmanes, conhecendo o perigo eminente que já corria a religião antiga e o edificio social, que elles haviam construido, e á sombra dos quaes viviam e desfructavam commodidades, honras e distincções, começaram uma lucta feroz contra o buddhismo, chegando a desincadear contra os seus proselytos uma atroz perseguição. Entre outros anathemas, prégavam os brahmanes: «Que desde Ceylão até ao Himalaya, coberto de neve, os buddhistas sejam exterminados. Quem poupar a creança ou o velho, soffra a pena de morte». Esta perseguição deu resultado na India, que voltou toda ao brahmanismo; mas o buddhismo espalhou-se no Thibet (que é hoje o seu centro), na Mongolia, na China, na Indo-China e em Ceylão. N'estes paizes conta ainda muitos milhões de seguidores, sendo comtudo poucos os que practicam as doutrinas e os preceitos de Buddha na sua pureza.
A civilização indiana, toda com caracter religioso, não primou nem pelo progresso das sciencias nem pelo das artes. Em sciencia, só a da grammatica e da linguagem se desinvolveu consideravelmente; da arte só ficaram monumentos grandiosos nas proporções, mas de pouca belleza artistica. Prosperaram, porêm, algumas industrias entre os Indios.