CAPITULO VII OS PERSAS
Reading edition
É extremamente obscura e confusa a historia dos Persas anterior a Cyro, que viveu no seculo VI antes da era christan. Está intimamente ligada á dos Médos.
Cyro era filho de Cambyses, rei da Persia, tributario dos Médos, de cujo rei Cyaxaro II era sobrinho.
Pela morte de Cambyses e Cyaxaro, Cyro succedeu-lhes nos governos e reuniu o obscuro reino da Persia ao da Média. Sob o seu governo, foi a Persia um grande imperio, ao qual estiveram sujeitos a Grande Asia, a Asia Menor, a Syria e a Arabia.
A Cyro succedeu seu filho, tambem chamado Cambyses. Sob o mando d'este soberano ainda mais cresceu o poderio da Persia, que se accrescentou com a conquista do Egypto. A causa da guerra entre as duas nações foi Cambyses ter pedido a Amasis (rei do Egypto) sua filha em casamento, e este, inganando-o, ter-lhe inviado, em vez d'ella, a filha de Apriés. Para tirar vingança de tal affronta, Cambyses introu no Egypto, incontrou-se perto de Pelma com o exercito egypcio, commandado por Psammenito (filho e successor de Amasis), batteu-o e desbaratou-o. Depois apoderou-se de Memphis e de Sais; e em seguida imprehendeu a conquista da Ethiopia. Para isso seguiu o curso do Nilo até Thebas, e d'alli destacou 50:000 homens do seu exercito para irem combater os Ammonitas e queimar o templo de Jupiter; mas aquella gente, tres dias depois da sahida de Thebas, ficou toda sepultada nas areias do deserto, levantadas e revoltas por um tremendo furacão. Tambem Cambyses se viu impedido de continuar a sua marcha sobre a Ethiopia, por haver perdido, em resultado do calor e de privações de todo o genero, as tres quartas partes do seu exercito e por ter depois soffrido uma horrivel fome, durante a qual os soldados se devoravam uns aos outros.
Cambyses no principio mostrára-se no Egypto com disposições para usar de uma politica de conciliação para com os{35} vencidos, chegando a adoptar os titulos e os trajos dos antigos Pharaós, e fazendo-se iniciar nos mysterios de Osiris. Porém, depois do mallogro das suas tentativas contra a Ethiopia e contra os Ammonitas, mudou completamente de systema e mostrou-se animado de grande intolerancia e ferocidade. Saqueou e incendiou as cidades e os templos; mandou assassinar os sacerdotes do boi Apis, o qual por sua propria mão apunhalou; destruiu por toda a parte as imagens dos deuses; e por fim sahiu do Egypto para se recolher á Persia. Quando chegou á Syria, rebentou a revolta do falso Smerdis, um impostor que se inculcava como o irmão de Cambyses (que este assassinára logo nos primeiros tempos do seu reinado). Apressou-se em ir desmascarar o rebelde que usurpava o nome de seu irmão, que elle sabia estar morto; mas, ferindo-se n'uma perna ao montar a cavallo, d'esse ferimento lhe resultou a morte, succedida logo depois da intrada na Persia.
Herodoto e outros historiadores pintam este Cambyses como um monstro de ferocidade, e contam d'elle varios feitos atrozes, como o de ter assassinado com um ponta-pé dado no ventre a sua irman Meroé (com quem tinha casado, conforme ao uso da Persia, e que d'elle estava gravida).
Morto Cambyses, succedeu-lhe no throno o falso Smerdis, que continuou a fazer-se passar por seu irmão, e que era simplesmente o irmão de um mago, a quem estava incumbida a administração do palacio real. Conseguiu reinar oito mezes; mas, passados elles, septe dos mais poderosos chefes persas urdiram uma conspiração, desmascararam-n'o, deram-lhe a morte, e acclamaram rei o mais illustre entre elles (Dario, filho de Hystapes).
No reinado de Dario os Babylonios revoltaram-se, e foram reduzidos á obediencia pelo estratagema de um official persa chamado Zopiro que, havendo mutilado voluntariamente o rosto, foi persuadir os Babylonios de que tinha sido victima da crueldade de Dario. Admittido na cidade, abriu as portas ao exercito persa. Dario intentou depois subjugar os Gregos; inviando contra elles um numeroso exercito, commandado por seu genro Mardonio, exercito que foi desbaratado por Milciades na planicie de Marathona. Quando Dario tinha apparelhado novo exercito e se dispunha para segunda expedição, foi surprehendido pela morte.
Seu filho Xerxes, que lhe succedeu, poz-se á frente d'aquelle numeroso exercito, cuja força alguns historiadores elevam a 1.700:000 homens, e de uma esquadra de 1:200 navios,{36} dirigiu-se a atacar a Grecia para vingar a derrota de seu pae em Marathona; mas foi completamente derrotado na batalha de Salamina, e teve que tornar a passar o Hellesponto. No anno seguinte, novo exercito, commandado por Mardonio e inviado com egual intento contra a Grecia, foi desfeito junto de Platéa por Pausanias (general da Lacedemonia), e por Aristides. Xerxes veio a morrer assassinado, no vigessimo anno de governo, por Artabano (capitão da sua guarda). Succedeu-lhe seu filho Artaxerxes que, constrangido por Cimon (filho de Milciades), que o venceu perto de Chypre, teve que dar a liberdade aos Gregos da Asia.
Depois d'elle reinou Dario II, que se alliou com Sparta contra Athenas; e a este succedeu Artaxerxes Mnemon, cujo irmão, Cyro o Moço, se revoltou contra elle, com o concurso de tropas gregas, terminando a revolta pela batalha de Cunaxa, em que aquelle principe foi morto, facto a que se seguiu a celebre «retirada dos dez mil» picturescamente descripta pelo historiador Xenophonte.
Pela paz de Antalcidas os Gregos da Asia tornaram a cahir sob o jugo dos Persas—cujo imperio se ia, comtudo, progressivamente infraquecendo. O ultimo rei foi Dario Codomano, no principio de cujo governo foi a Persia invadida pelas tropas de Alexandre Magno, o qual, nas tres batalhas de Granico, do Isso, e de Arbella, destruiu todo o poder d'aquella nação, que na ultima d'ellas se rendeu á discreção do vencedor.
Durante seis seculos permaneceu a Persia confundida no immenso imperio dos Parthos; mas, no anno 228 da era actual, Artaxerxes, filho de um simples soldado, tendo-se elevado pelos seus meritos ás mais altas dignidades, levantou os Persas contra Artabano, ganhou diversas victorias e, sendo acclamado rei, fundou o segundo imperio persa. Depois de haver reinado treze annos, com muito discernimento e prestigio, morreu, legando a corôa a seu filho Sapor. Este devastou a Mesopotamia, a Syria e a Cilicia; e ter-se-ia tornado senhor de toda a Asia, se Odenato, rei de Palmyra e alliado dos Romanos, não tivesse obstado á continuação das suas victorias e conquistas. Aprisionou o imperador romano Valeriano ao qual, depois de o conservar por algum tempo captivo, mandou esfollar em vida. Sapor foi, por sua vez, vencido por Odenato; e, tendo regressado aos seus estados, foi pouco depois assassinado. Depois d'estes acontecimentos foi successivamente infraquecendo o segundo imperio persa. No seculo IV da era christan Sapor II tornou a fortalecêl-o com suas conquistas,{37} mas por pouco durou essa epocha de renascimento. O imperio recahiu bem depressa, e a decadencia foi progredindo até ao momento em que no seculo VII a Persia foi subjugada pelos Arabes.
Os Persas foram celebres no tempo de Cyro pela sua austeridade e pela sua coragem. As creanças (segundo conta Platão) recebiam uma educação propria para d'ellas formar bons cidadãos, uteis á patria. Até á edade de dezesete annos permaneciam fóra da casa paterna, intregues a educadores, especialmente incumbidos de lhes inocularem no espirito os dictames da coragem e da virtude.
O imperio era dividido em provincias, governada cada uma por um satrapa, que recebia directamente ordens do rei. Era tida em especial consideração a agricultura, e muito honrados os que a exerciam; os cultivadores mais activos e laboriosos eram recompensados e admittidos uma vez em cada anno á mesa do soberano. A administração da justiça estava confiada a varões sabios e prudentes, e os juizes que prevaricavam eram punidos com a pena de morte. A legislação não se limitava a comminar penas contra os crimes e delictos; tratava tambem de os evitar, inspirando o horror ao vicio e o amor á virtude.
Os Persas eram monotheistas; adoravam uma só divindade, que era Mithra (o Sol); os emblemas da omnipotencia do Creador eram entre elles os fogos sagrados, mantidos com o maior respeito e solicitude. Os magos, ou sacerdotes, eram homens notaveis pelo seu saber, pela sua gravidade e pela austeridade da sua vida; eram os sabios e os jurisconsultos da nação.
Depois da epocha de Cyro, intregaram-se os Persas a todos os excessos de devassidão; dissolveu-se a disciplina do exercito; os grandes da nação abandonaram a existencia viril, que os distinguia, e cahiram na inacção e na ociosidade, o que foi uma das principaes causas da decadencia e da quéda, do imperio.{38}