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Historia Antiga

CAPITULO X OS GREGOS

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Na Antiguidade, a Grecia propriamente dita era apenas uma região constituida por uma pequena porção de territorio do continente europeu, e pela peninsula que na bacia Oriental do Mediterraneo termina o mesmo continente, entre o mar Jonio ao occidente e o mar Egeu (hoje denominado Archipelago) ao oriente. Tambem pertenciam á Grecia as numerosas ilhas que ha nas proximidades d'aquella região. As diversas populações que na Grecia vieram a ter importancia historica derivaram-se todas da raça aryana, da qual constituiam um grupo especial (o hellenico). Este grupo, pela brilhante civilização que no seu seio se elaborou, constitue um dos mais nobres da historia, e formou uma individualidade distinctissima atravez dos seculos.

Na obscuridade dos primitivos tempos, parece que os primeiros habitadores da Grecia foram os Pelasgos e os Jonios. Os primeiros povoaram com suas tribus a Asia Menor, a Grecia e a Italia, lançaram n'estes paizes os primeiros fundamentos da civilização, e por toda a parte deixaram nos seus monumentos provas eternas da sua actividade e das suas poderosas aptidões. Desappareceram, porêm, sem que sobre o seu destino ulterior haja tradição segura.

Quando a Grecia apenas sahia do estado selvagem, vieram (segundo antigas tradições) colonias dos paizes mais civilizados da Asia e da Africa trazer-lhe os conhecimentos das artes uteis e uma religião mais pura. Foi assim que Cecrops,{46} oriundo do Egypto, desimbarcou na Attica, reunindo os habitantes d'ella em diversas povoações, das quaes Athenas veio a ser a capital; ensinou-lhes algumas culturas, promulgou as leis do casamento e instituiu o tribunal do Areopago, destinado a julgar os pleitos. Do mesmo modo na Beocia, Cadmo introduziu o alphabeto phenicio e edificou Cadméa, emtorno da qual se elevou mais tarde a cidade de Thebas. Dano introduziu em Argos algumas das artes do Egypto; e Pelops, phrygio, estabeleceu-se na Elida, d'onde a sua raça se espalhou por toda a peninsula que d'elle tirou o nome. O acontecimento dominante d'aquella epocha foi a invasão dos Hellenos que do norte da Grecia, sua primeira habitação, se derramaram por todas as outras partes da peninsula, á custa dos Pelasgos que foram absorvidos pela população invasora.

Apoz esta epocha primitiva seguiram-se os tempos heroicos, em que homens de grande valor physico percorriam a Grecia, para a libertar dos salteadores, dos oppressores e dos animaes selvagens. Passando a sua vida a combater todos os flagellos, aquelles heroes recebiam dos povos agradecidos as honras de semi-deuses; mas muitas vezes abusavam da sua força e das suas vantagens pessoaes. Entre outros foram notaveis Hercules e Theseu. Tambem ficaram nas tradições poeticas: os Argonautas e a sua viagem aventurosa até á Colchida, em busca do vellocino de oiro; os septe chefes que foram cercar Thebas, infamada pelos crimes de [OE]dipo e pelas dissenções entre seus filhos; o sabio Minos; etc.

Foi n'este periodo que se deu a guerra de Troya. Esta cidade era a capital de um poderoso reino estabelecido no noroeste da Asia Menor e o ultimo resto do dominio dos Pelasgos. O celebre Páris, filho de Priamo (rei de Troya), fez uma viagem ao Peloponeso e d'alli furtou e levou para a sua patria Helena, mulher de Meneláu (rei de Esparta ou Lacedemonia). Pedindo-a depois o marido e os mais Gregos aos Troyanos, estes negaram-se a intregál-a, pelo que lhes foi por aquelles declarada a guerra. Quasi toda a Grecia com seus principes foi a esta expedição, levando por general supremo o rei Agamemnon. Ás ordens d'este principe iam Achilles (capitão de grande valor), Ajax Tellamonio, Ajax Oileu, Diomedes, Menesteu, Ulysses (rei de Itaca), e Nestor (varão de edade já muito avançada). Foi posto cêrco a Troya; mas durante quasi dez annos não houve batalha decisiva. Troya, defendia-se e parecia disposta e habilitada a continuar a defender-se com vantagem, não obstante a falta de Heitor, que a commandava e que morreu ás mãos de Achilles.{47} Os Gregos usaram por fim de um estratagema; fingiram retirar-se, deixando no campo, como presente, um gigantesco cavallo de madeira, que os Troyanos recolheram dentro de suas muralhas. Mas no corpo do animal occultavam-se os mais bravos d'entre os Gregos, que assim se introduziram na cidade, cujas portas abriram ao resto do exercito. Desse modo cahiu Troya, sendo Priamo assassinado ao pé dos altares. Os principes gregos que não haviam morrido na lucta, voltaram a caminho da sua patria; mas grandes infelicidades os esperavam. Uns morreram na viagem; outros, como Ulysses, andaram muito tempo desviados do caminho por ventos adversos; outros (como Agamemnon) ao chegarem aos seus paizes, incontraram os thronos occupados por usurpadores, de que foram victimas; outros, emfim, viram-se obrigados a ir estabelecer habitação em regiões longiquas, como Diomedes e Idomeneu.

Toda a historia d'esta epocha está tão eivada de fabula, que é quasi impossivel apurar-se a verdade.

Os oitenta annos que se seguiram á guerra de Troya foram todos occupados por dissenções intestinas, que derrubaram as antigas dynastias, e transferiram a preponderancia para as mãos de novos povos. Estas revoluções, e outras que mais tarde houve, deram logar a varias correntes de emigração; e ao longo das costas da Asia Menor, da Africa, da Sicilia, e da Italia, formou-se uma nova Grecia, que cresceu e prosperou, e por muito tempo foi mais rica do que a metropole. Foi assim que os Gregos se estabeleceram em Smyrna, Phocéa, Epheso e Mileto (na Asia Menor); em Cyrena (na Africa); em Messina e Syracusa (na Sicilia); e em Taranto, Napoles e Sybaris (na Italia). Nas colonias da Asia, em contacto com as velhas sociedades do Oriente, começou a evolução civilizadora, de que Athenas veio a ser mais tarde o brilhantissimo fóco.

Mas, apezar de tão grande dispersão da população grega, apezar da divisão da Grecia em tantos estados, a grande familia hellenica conservou a sua unidade nacional, pela communidade da lingua e da religião, pela celebridade de alguns oraculos (o de Delphos principalmente, ao qual concorria gente de todos os pontos do mundo grego), e por algumas instituições geraes que conservavam estreitos os laços moraes das populações entre si.

Entre 800 e 700 annos antes de Christo, houve de notavel na Grecia o apparecimento das leis de Lycurgo. Este personagem nasceu em Esparta. A viuva do rei Polydecto, seu irmão,{48} offereceu-lhe com a sua mão de esposa o throno de Esparta, com a condição d'elle matar seu sobrinho Charilaus. Recusou-se a isso Lycurgo; e, como os grandes do reino se mostrassem contra elle irritados pela sabia administração que usára como regente, durante a menoridade do sobrinho, resolveu exilar-se e viajou por muito tempo, estudando a legislação dos outros povos e voltando a Lacedemonia, depois de uma ausencia de dezoito annos, com o intento de fazer adoptar reformas importantes nas leis do reino. A pythonisa de Delphos apoiou com a sua auctoridade religiosa as reformas propostas; e os Espartanos, fatigados das suas dissenções intestinas, que laceravam o estado, acolheram-n'as favoravelmente.

As leis politicas de Lycurgo mantiveram as relações estabelecidas entre os Espartanos, como povo dominador, e os Laconianos, como povo subjugado. Regularam os direitos da realeza distribuidos por duas casas soberanas; os do senado, composto de varões de edade superior a sessenta annos; os da assembléa geral, que podia acceitar ou regeitar as propostas feitas pelo senado ou pelos reis; enfim, os dos ephoros, magistrados annuaes, que administravam a justiça. As suas leis civis são muito mais notaveis e de muito maior alcance; e tiveram por fim estabelecer a egualdade entre todos os cidadãos. Para chegar a tal fim, dividiu elle as terras em 39:000 porções (30:000 para os Laconianos e 9:000 para os Espartanos). Para manter a egualdade entre os cidadãos, Lycurgo prohibiu o luxo e a moeda de oiro e de prata; e instituiu as refeições publicas, em que reinava a maior frugalidade. Vedou aos Espartanos o commercio e a cultura das artes e das lettras, sujeitando-os todos a eguaes exercicios physicos, com a mira de formar cidadãos robustos para a defesa da patria. Ao mesmo fim era dirigida a educação das creanças, que mais pertenciam ao estado do que á familia; a creança que nascia disforme, matavam-n'a.

Acabadas por esta legislação rigorosa as discordias interiores, e robustecida assim Esparta, concluiu esta a conquista da Laconia e imprehendeu a do Peloponeso. Combateu a tribu dorica dos Messenios, com a qual teve duas guerras, (uma que durou vinte annos e a outra dezesepte). As victorias n'estas luctas alcançadas deram grande nomeada aos Espartanos, que no seculo VI antes da era christan eram considerados como o primeiro povo da Grecia.

Pelo mesmo tempo florescia tambem Athenas, comquanto os defeitos da sua organização social déssem origem a grande mal-estar interior e a repetidas perturbações. A grande{49} desegualdade dos haveres tinha dado origem á formação de duas classes: a dos eupatridas, ou senhores das terras, e a dos thetas, ou servos que as cultivavam. Além d'estas duas havia ainda a dos escravos propriamente ditos.

A morte de Codro, ultimo rei dos Athenienses, deu logar a estabelecer-se uma nova fórma de governo. Os dois filhos d'elle, Medon e Nileu, disputaram entre si a corôa. Os Athenienses, que tinham sido sempre muito ciosos da sua liberdade, aproveitaram este ensejo para a reivindicarem completamente; declararam que depois de Codro não havia ninguem digno do titulo de rei e puzeram á testa da republica um primeiro magistrado a que deram o nome de archonte, e cuja auctoridade era muito limitada. Durante mais de tres seculos foi esta magistratura vitalicia e hereditaria; no fim d'esse tempo tornou-se electiva, e as funcções de archonte foram limitadas a dez annos. Mais tarde ainda, o poder foi distribuido por nove archontes, cujo mandato durava um anno. D'ahi provieram grandes dissenções, divisões de partidos, rivalidades e desordens.

Para obviar a tantos males viu-se que era necessario fazer leis, que fossem superiores a todas as magistraturas. Foi escolhido para as formular Dracon, homem de virtudes austeras e que gosava da estima geral. Dracon apresentou um codigo de leis de tal severidade, que revoltaram os espiritos mais exigentes e que não puderam ser executadas. Como novas dissenções puzeram em novo perigo o estado, recorreu-se a Solon, varão illustrado e de grande patriotismo, a quem foi dada a missão de fazer as necessarias leis e organizar uma constituição fundada em principios racionaes e estaveis.

Dividiu Solon o povo em quatro classes, segundo o rendimento de cada um. Os cidadãos das tres primeiras classes eram os unicos que podiam exercer cargos publicos; os da quarta, composta da infima plebe, eram admittidos a votar nas assembléas publicas, das quaes se excluiam os estrangeiros. Decretou a pena de morte contra todo o archonte que se embriagasse, e declarou excluido da tribuna e indigno de falar ao povo todo o homem de vida depravada. Estabeleceu que os archontes se informassem da occupação de todos os cidadãos e que declarassem infames os que persistissem na ociosidade, depois de por ella terem soffrido tres condemnações. Decretou que o estado sustentasse até á edade de vinte annos todos os filhos dos cidadãos que morressem no serviço da patria. Das leis draconianas apenas conservou as que eram{50} dirigidas contra os assassinos. Não fez lei penal contra o parricidio, porque não julgou possivel que tal crime se commettesse em Athenas. Para tornar duravel a sua legislação, fêl-a gravar toda em pranchas de madeira, e depois sahiu de Athenas por algum tempo para ir estudar a sabedoria das antigas nações do Oriente.

Quando regressou, notaveis acontecimentos o esperavam. Os partidos tinham re-apparecido e das luctas entre elles tinha surgido a tyrannia de Pisistrato, o qual, sem abolir a constituição, exercia tal influencia, que dominava todos os magistrados. Pisistrato duas vezes foi expulso do poder e de Athenas; mas duas vezes conseguiu recuperar o governo, que por fim conservou até á morte. Depois d'esta succederam-lhe seus dois filhos Hipparco e Hippias, que governaram conjunctamente; mas em seguida houve novas e continuadas dissensões, até ao tempo de Themistocles, no qual a Grecia, ingrandecida com as conquistas de Milciades e arvorada já em verdadeira potencia maritima, viu ainda o seu poder naval accrescentado com 200 navios, mandados construir com o producto das minas de prata de Laurion.

Foram esta armada poderosissima, e o valor e pericia dos seus generaes, que salvaram a Grecia das expedições contra ella organizadas por Dario e Xerxes, de que já falámos no capitulo VII d'este livrinho.

Foi sobre todos notavel na Grecia o periodo d'estas guerras e o tempo que se lhes seguiu. Appareceram então distinctissimos generaes, e excellentes estadistas; e o povo grego, não obstante o seu animo irrequieto e o seu espirito sedicioso, parece que reprimiu todos os ardores que podiam ser prejudiciaes á causa publica, para só dar livre curso a todas as tendencias conducentes ao ingrandecimento da patria e á sua victoria contra os ataques dos inimigos.

Por esta epocha appareceu Pericles—homem de tal merito, que deu o seu nome ao seculo em que viveu e em que a Grecia foi o grande fóco da civilização do mundo.

Era filho de Xanthippo, o vencedor de Mycale. Educado pelos sabios mais notaveis do seu tempo, mostrou-se desde a adolescencia muito instruido em todos os ramos do saber humano. Apesar de estar pelo seu alto nascimento destinado a ser chefe do partido aristocratico, que no começo da vida d'elle tinha a maior influencia em Athenas, esposou a causa do povo, fazendo-se chefe do partido democratico. Fez reformas profundas, em que cerceou as attribuições dos altos poderes do estado em beneficio do povo. Em virtude d'essas reformas,{51} todas as funcções publicas, ainda as mais elevadas, ficaram sendo accessiveis aos cidadãos mais humildes, contanto que a sorte ou a eleição a ellas os chamassem.

Como o imperio sujeito á pequena cidade de Athenas fosse demasiado vasto, para que ella pudésse mantêl-o sujeito, Pericles expediu numerosas colonias que não formaram, como as anteriores, cidades independentes da metropole, mas sim fortalezas e estabelecimentos militares que mantinham na sujeição a Athenas os paizes onde existiam.

Não teve Pericles sómente em vista a grandeza e o poderio de Athenas; cuidou tambem da gloria d'ella. Chamou para alli todos os homens eminentes que então havia na raça hellenica, os quaes todos para lá concorreram, como para a capital da intelligencia. Celebravam-se alli festas esplendidas, que attrahiam enorme concurso de todas as povoações gregas.

Athenas chegou assim a ser um dos mais intensos fócos de civilização que o mundo tem visto. Ao lado do eminente vulto de Pericles, viram-se então alli brilhar: Sophocles e Euripedes, dois dos maiores poetas tragicos conhecidos; Lysias, orador eloquentissimo; Herodoto, narrador admiravel; Aristophanes, o maior poeta comico da Antiguidade; Phidias, o mais illustre dos seus artistas; Apollodoro, Zeuxis, Polygnoto e Parrhasios, pintores bastante celebres; Anaxagoras e Socrates, philosophos notabilissimos. Ainda depois d'estes vultos de primeira ordem vieram Eschylo, Thucydides, Xenophonte, Platão e Aristoteles. Athenas teve por aquella epocha, a honra de ser não só a «mestra da Grecia», como lhe chamaram, mas tambem a mestra do mundo.

Depois de vencida a batalha de Salamina, tinha-se Athenas collocado á frente de uma confederação dos gregos insulares e asiaticos, afim de proseguir na guerra contra os Persas; mas tendo-se os sitiados cançado de combater, havia ella acceitado os seus tributos em vez de contingentes militares e continuára por si só a sustentar a lucta, no interesse commum. Depois da guerra, continuou a cobrar os mesmos tributos, pretextando que precisava estar prompta para impedir uma nova invasão. Os alliados, com o tempo, intenderam que era duro estar a pagar para as festas e para os monumentos de Athenas; e queixaram-se. As suas queixas, porêm, foram duramente repellidas, pelo que elles dirigiram as suas supplicas a Esparta. Esta, ciosa sempre da grandeza e das glorias de Athenas, procurou formar uma liga continental, cujas forças oppuzesse ás das cidades maritimas e insulanas sujeitas aos Athenienses. A principio houve só hostilidades{52} parciaes; mas mais tarde tornou-se geral a guerra, depois do ataque de Platéa (alliada dos Athenienses) pelos Thebanos (alliados de Esparta). Essa lucta é conhecida pela designação de «guerra do Peloponeso».

Durante dez annos correu esta guerra, com vantagem ora para uma ora para outra das contendoras, até que Nicias assignou um tratado de paz, que tem o seu nome. A paz, porêm, contrariava os calculos de Alcibiades, que contava com a guerra para se elevar; por isso propoz este a expedição á Sicilia, que teria sido bem succedida, se elle, accusado de sacrilegio, não fosse privado do commando do exercito. Alcibiades retirou-se então para Esparta, d'onde dirigiu duros golpes contra a sua patria. Os Athenienses puzeram cêrco a Syracusa; mas, em resultado da pouca energia de Nicias, tal cêrco terminou pela destruição da esquadra e do exercito atheniense, cujos chefes foram mortos pelos Syracusanos e os soldados reduzidos á escravidão. Este desastre foi um enorme golpe para Athenas.

Comtudo a guerra continuou; e os Athenienses ainda por vezes obtiveram vantagens, que obrigaram Alcibiades a fugir de Esparta. Entretanto em Athenas rebentou uma revolução, na qual a democracia foi sacrificada a um conselho superior composto de 400 membros, que substituiu o senado, e a uma reunião de 5:000 cidadãos escolhidos, que substituiu a assembléa do povo; mas pouco depois um exercito que operava em Samos fez uma contra-revolução, restabelecendo o governo democratico e acclamando Alcibiades. Este foi chamado a Athenas, e com a sua vinda restabeleceu-se a auctoridade do povo. Os Athenienses ganharam duas batalhas navaes no Hellesponto, uma grande victoria, tanto em terra como no mar, em Cyzica, e por fim tomaram Byzancio. Estas victorias foram, porêm, o resultado de um grande esforço, que exhauriu o resto da vitalidade de Athenas.

Cyro o Moço, que buscava a alliança de Esparta, para arrancar a seu irmão Artaxerxes II a corôa da Persia, forneceu a Lysandro, que governava em Esparta, grandes recursos para levar a cabo a guerra. Com este auxilio, os Espartanos derrotaram os Athenienses em Egos-Potamos; e pouco depois Athenas foi tomada, as suas fortificações arrazadas, a sua marinha reduzida, desorganizado o seu exercito e abolida a constituição democratica, que principalmente concorreu para a sua grandeza e para a sua gloria.

A hegemonia grega passou para Esparta, que não soube usar d'ella com a mesma habilidade e esplendor com que o{53} fizera Athenas. Cyro o Moço levou por deante o seu plano com o auxilio dos Espartanos, avançou até ao pé de Babylonia, onde ganhou a batalha de Cunaxa; mas foi morto, e á sua morte seguiu-se a retirada chamada «dos dez mil» a que já nos referimos, operada atravez de 400 leguas de terreno, pelas montanhas impervias da Mesopotamia e da Armenia até ao Mar-Negro. O exito d'esta retirada revelou o infraquecimento do grande imperio persa; por isso, poucos annos depois o espartano Agesilau, resolveu conquistál-o. Chegou a reunir grandes forças e muitas allianças, mas o seu plano ficou frustrado, porque os Persas tiveram artes de suscitar guerra interior no seio da propria Grecia. Por sua instigação, Corintho, Thebas e Argos formaram uma liga, em que intraram tambem Athenas e a Thessalia. Agesilau, regressando da Asia, conseguiu vantagens em terra, restabelecendo o dominio de Esparta; mas o atheniense Conon, commandante de uma frota phenicia, arrancou-lhe das mãos o dominio maritimo e com o oiro dos Persas, restaurou as fortificações de Athenas.

Esparta, inquieta pelo renascimento da sua rival, inviou mandatarios á Persia, a tratar com ella dos meios de lhe intregar os gregos da Asia, acceitando todas as condições. Era o resultado do abatimento moral e da depravação que tinha ganhado a raça hellenica. Destruiu algumas cidades e perseguiu diversas populações sujeitas a Athenas, até que os seus excessos tiveram um castigo. Um dos seus generaes surprehendeu e tomou á falsa fé Cadmea, cidadella de Thebas, que era então alliada de Esparta. O thebano Pelopidas, á frente de alguns proscriptos, libertou, porêm, a sua patria, e reuniu n'uma alliança commum todas as cidades da Beocia. Tendo os Espartanos mandado contra estes povos colligados um exercito, Epaminondas desbaratou-o na batalha de Leuctras, levando a guerra até ao seio do Peloponeso. Abriu caminho até aos muros de Esparta, na qual, comtudo, não poude intrar; mas, para a conter em respeito, edificou aos seus lados Megalopolis e Messena, dois optimos pontos fortificados. Esparta procurou por toda a parte alliados contra estes novos dominadores da Grecia; mas Epaminondas em activa guerra sustentou firme a dominação de Thebas, dominação que veiu a cahir com elle, morto no meio da sua victoria de Mantinéa.

Poucos annos depois, Filippe da Macedonia, tendo libertado o seu paiz do jugo e da influencia dos extrangeiros, quiz ingrandecêl-o, accrescentando-lhe a Grecia. Tomou e submetteu differentes povoações, com que foi augmentado o seu imperio, observando-se por toda a extensão da Grecia uma{54} grande falta de energia e um fraco espirito de resistencia. Só os Athenienses velavam pela patria commum, guiados pelo grande cidadão e grande orador Demosthenes, que nas suas eloquentes orações mostrava os planos ambiciosos de Filippe. Mas Athenas não poude sustentar por si só, durante longo tempo, uma lucta tão desegual, e por fim teve que firmar, por conselho do proprio Demosthenes, um tratado de paz com o rei da Macedonia.

Emquanto Athenas, descançando na fé d'este tratado, se abandonava ás festas e ás suas occupações ordinarias, Filippe transpoz as Thermophylas, penetrou na Phocida, e conseguiu ser adimittido no conselho amphictionico. Os Athenienses salvaram ainda Perintho e Byzancio, ás quaes Filippe seria obrigado a levantar os cêrcos. Á voz de Demosthenes, que não cessava de lhes mostrar os perigos, nas suas immortaes Filippinas, os Athenienses e os Thebanos, esquecendo a sua mutua rivalidade, reunem os seus exforços para opporem ao inimigo commum; mas o seu exercito, commandado por generaes inhabeis e talvez vendidos ao oiro de Filippe, foi desbaratado n'uma grande batalha na planicie de Cheronéa. Depois d'esta batalha, Filippe propoz-se captar a sympathia dos Gregos, que tratou com as maiores blandicias, e conseguiu ser por elles nomeado generalissimo das tropas destinadas a marchar contra a Persia. Para preparar esta grande expedição voltou a Macedonia, onde foi assassinado por Pausanias durante a celebração dos jogos olympicos.

Succedeu-lhe seu filho Alexandre com vinte e um annos de edade. Tendo os barbaros, que seu pai subjugára, tomado as armas, elle, para lhes estorvar os movimentos, levou o seu exercito até ao Danubio, passou este rio n'uma noite e derrotou os rebeldes. Julgando os Thebanos aquelle ensejo propicio para se libertarem dos Macedonios, apoderaram-se da cidadella, cuja guarnição degollaram. Alexandre reuniu logo um exercito, com que introu na Beocia, exigindo d'elles que lhe intregassem os auctores da revolta. Como lh'os recusassem, deu-lhes batalha, destroçando-os e tomando Thebas; que saqueou e destruiu.

Os Athenienses, receando então haver incorrido na colera de Alexandre, mandaram-lhe emissarios a implorar clemencia. Este usou para com elles de generosidade, da qual comtudo esperava tirar partido para os seus planos de conquista; pacificou a Grecia e reuniu em Corintho deputados de todas as republicas hellenicas, que o nomearam general em chefe de uma expedição contra os Persas. Para levar d'esse modo a effeito{55} o plano de seu pae, confiou o governo da Macedonia e da Grecia a Antipater e partiu com um exercito de 30:000 homens de infanteria e 5:000 de cavallaria, á conquista da Persia, onde então reinava Dario Codomano.

Então começou para Alexandre uma serie de victorias e de conquistas, que constituem uma verdadeira epopéa. Introu na Phrygia depois de atravessar o Hellesponto sem difficuldade; na passagem do Granico, defendida por um exercito persa de 100:000 homens de infanteria e mais de 10:000 de cavallaria, derrotou este, apoderando-se depois de Sardes, que era a chave da Alta-Asia. Epheso, Mileto, Halycarnasso e todas as cidades da costa da Asia intregaram-se-lhe.

No anno seguinte, para se oppor á continuação das suas conquistas, levantou Dario um grande exercito e resolveu levar a guerra ao coração da Macedonia. Memnon, seu general em chefe, á testa da expedição, tomou as ilhas de Chio e de Lesbos. Alexandre não quiz intregar ao acaso de um combate naval a gloria até alli alcançada; abandonou aos Persas o dominio do mar e fez convergir todos os seus exforços para se apoderar dos portos e cortar toda a communicação entre o exercito inimigo e a Grecia. Tendo subjugado a Lydia, dirigiu-se para a Pamphylia sem incontrar obstaculos; atravessou a Cappadocia, foi á Cilicia e a Tarso, d'onde partiu ao incontro do exercito de Dario, que derrotou nos desfiladeiros do Isso. A mãe, mulher e filhos de Dario cahiram em seu poder e Alexandre tratou-os com a maior generosidade. Apoderou-se depois da Phenicia, e tomou Tyro depois de septe mezes de cêrco. Subjugou em seguida a Judéa, e tomou Damasco, onde estavam os thesouros de Dario. Intentou destruir Jerusalem, por lhe haver recusado viveres; mas desistiu do seu proposito, em presença das supplicas que lhe dirigiu o summo sacerdote Jaddo.

Da Judéa dirigiu-se para o Egypto, onde bastou a sua presença, para que todas as povoações se lhe intregasem. Foi até á imboccadura do Nilo, onde lançou os fundamentos da cidade de Alexandria. Incaminhou-se para o Alto-Egypto, penetrou no deserto e chegou até ao oasis em que estava estabelecido o templo de Jupiter Ammon, e onde os sacerdotes lhe concederam o titulo de «filho de Jupiter».

Do Egypto voltou á Asia e penetrou na Armenia, indo ao incontro de um terceiro exercito de Dario, que derrotou, apezar da grande superioridade numerica d'este, intrando triumphante em Babylonia. Esta victoria tornou-o senhor do grande imperio persa; e elle, para segurar as suas conquistas, marchou{56} em persiguição de Dario que foi morto por um traidor do seu proprio exercito, Besso, em Ecbatana.

Alexandre tomou sob a sua protecção a familia de Dario; marchou contra Besso, que se fizera proclamar rei em Bactriana, apoderou-se d'elle e mandou-o matar. A posse do mar Caspio e as estradas militares que abriu para Herat e para Nichapur patentearam-lhe as communicações com todos os differentes pontos da Persia.

Depois de ter assentado tão vasto dominio, resolveu passar á India. Atravessou o Indo, alliou-se com o rei Daxilo e subjugou differentes estados vizinhos d'este. Adeantou-se até ao interior da India, onde edificou diversas cidades, e preparava-se para atravessar o Hyphaso, quando as suas tropas, fartas de tão longo exilio e de tanta peregrinação, se recusaram a seguil-o e lhe pediram para voltar á patria. Alexandre annuiu a este desejo. Depois do seu regresso, ainda subjugou os Oxidracos e outros povos, percorreu a Média, e introu em Ecbatana, onde falleceu o seu favorito Ephestion.

Voltando a Babylonia, foi alli alvo do maior triumpho. Recebeu embaixadores de todas as partes do mundo, acolhendo com especial agrado os da Grecia. Quiz fundir os Gregos e os Persas n'um só povo, por meio de allianças e de colonias, e espalhou por todo o Oriente as idéas, a litteratura e a civilização da Grecia. Durante um anno elaborou esses planos, mas não poude pôl-os em execução, porque veiu a morrer aos 39 annos de edade, no anno 324 antes de Christo.

Fallecido Alexandre, os Macedonios, depois de alguns dias de contestações e de jogo de intrigas e de ambições, escolheram para rei a Arideu; mas bem depressa se desfizeram d'elle, bem como da familia de Alexandre. Os generaes, que haviam sido d'este, trataram de apoderar-se das conquistas que elle fizera, e a partilha foi origem de uma guerra que veio a terminar com a batalha de Ipso.

Emquanto os successores de Alexandre disputavam entre si as conquistas da Asia, a Grecia intentou recuperar a sua liberdade. Demosthenes, que ficára sendo o inspirador do patriotismo e do partido nacional, promoveu a guerra da independencia, que acabou por um desastre. O grande orador sendo proscripto, invenenou-se no exilio. Com esta morte toda a esperança se perdeu. Ainda Arato conseguiu restaurar a antiga confederação das cidades de Achaia; e essa confederação ia talvez extender-se, para formar uma barreira perante as ambições da Macedonia. Mas Esparta, que se tinha novamente elevado sob o governo de Cleomenes, correu a imbargar-lhe{57} o passo. Cleomenes foi vencido; porêm os Macedonios, que tinham auxiliado os Acheus contra elle, ficaram outra vez preponderantes. Os Romanos começam a inquietar-se com essa preponderancia, resolvem intervir, ganham a batalha de Cynocephalo, dissolvem a confederação achaica, e declaram livres todas as cidades da Grecia. Estas regosijam-se com o facto, sem comprehenderem que os Romanos dividiam para dominar e absorver. Conheceram tarde o seu erro; e, quando quizeram reconstruir a confederação e se armaram para resistir aos Romanos, estes venceram a batalha de Leucopetra, junto de Corintho; esta cidade foi queimada pelo consul Mummio, que commandava o exercito de Roma; a Grecia foi declarada provincia romana, e o povo que a habitava, e que tão brilhante papel representára na civilização do mundo, foi absorvido na grande massa das populações sujeitas ao dominio de Roma. Ficou a Grecia sendo governada por um pretor, nomeado annualmente pelo senado romano. Só Athenas conservou até ao tempo do imperador Vespasiano uma constituição republicana.

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