Pedologia Somática
Reading edition
(O Corpo da Criança)
CAPITULO I Fases da vida dos organismos. «Crescimento»; suas espécies; e modos de o estudar. Leis do «crescimento»; e factores que o modificam.
1.—Existem na
vida dos sêres organizados
(cada vez mais acentuadamente, à medida que da
planta
se passa ao
animal
e dêste ao
homem
) tres
fases
ou
períodos
(de desigual extensão) que, por suas
características essenciais
, se tornam
dissemelhantes
e
irredutíveis
uns aos outros:
1)
um tempo de crescimento
(anabolia), que se efectua, por virtude dum
predomínio da assimilação funcional
sobre a
desassimilação orgânica
;
2)
uma fase de decadência
ou
decrescimento
(catabolia) determinada, de modo inverso, pela
preponderância da desassimilação sobre a assimilação
;
3)
um período de relativa estabilidade
ou
equilíbrio biológico
(probolia), durante o qual o
organismo se reproduz
.
Temos, pois, uma
época construtiva
, de
integração orgânica
que, depois da
fase êmbrio-fetal
, se realiza durante um têrço aproximadamente da
vida humana
(desde a
nascença
até à
nubilidade
); um
período destrutivo
, de
desintegração biológica
, que prepara e acompanha a
velhice
e conduz à
morte
; e, finalmente, uma
época intermediária
, que subsiste, durante a
juventude
e a
maturidade
.
2.—A
Pedologia
, considerando apenas a primeira fase do
metabolismo humano
, distingue entre o
«crescimento» normal
e o
«crescimento» anormal
; e, em ambos, atende tanto à
morfologia
(desenvolvimento estrutural), como à
fisiologia
(desenvolvimento funcional).
Abandonando o estudo do
«crescimento» anormal
à
pediatria
e à
psiquiatria
; e, reenviando o leitor, em matéria de
«crescimento» normal
, na parte relativa à
vida intra-uterina
, para os tratadistas da
embriologia
, restringiremos o nosso trabalho à análise da
ontogénese do organismo humano
, desde o
nascimento
até à
idade adulta
.
Sob o
aspecto estrutural
, o
corpo da criança
, através das
idades de evolução
, varia,
em função do tempo
:
1) nas
dimensões
2) na
forma
3) nas
proporções
4) nos
elementos
, de que se compõe.
E, quanto ao
desenvolvimento fisiológico
, todos sabem que as
funções orgânicas
divergem com a idade, e que há certos
fenómenos
, cuja manifestação se verifica apenas em
fases
já avançadas do «crescimento».
A
criança transforma-se
, pois; isto é, adquire as
características
da
idade adulta
, por uma série de
transformações contínuas
, cuja
sucessão
é determinada, e cujo
aparecimento
e
limites
são
função do tempo
[37]
.
A
isto
se chama «
crescimento
» que, como veremos, pode ser
absoluto
ou
relativo
, consoante se referir ao
ritmo da evolução
, ou às
proporções do corpo
, nas diferentes
idades
desta.
3.—Para estudar a
dinâmica do «crescimento»
, servem-se as
sciências pedológicas
da
pedolexia
(observação da criança) e da
pedometria
(mensuração da criança).
A
análise
incide, tanto sobre os
órgãos
e os
sistemas
, como sobre as
funções
; e as
medidas somáticas
devem ser
individuais
,
periódicas
e
polimétricas
, isto é, devem abranger todos os
segmentos do organismo
.
É o que se designa pela expressão de
método auxanológico
.
Reduzindo a
esquêma
esta
processologia
, temos:
Estrutural (exame dos órgãos)
Pedolexia (Observação da criança)
Funcional (exame das funções)
Investigação do «crescimento»
craniométrica
toracométrica
Pedometria (Mensuração da criança) braquiométrica
cruriométrica
pelvimétrica
4—Em o nosso país, as
observações
e
mensurações
, realizadas no intuito de conhecer as
leis do «crescimento»
, são pouco numerosas; todavia, algumas existem; e, na verdade, em quantidade bastante, pelo que respeita ao
«crescimento» absoluto
, cujo
ritmo
, como adiante se verá, reputamos, em relação ao sexo masculino, suficientemente
estabelecido
e
determinado
.
Mas, em matéria de
leis do «crescimento»
, importa separar aquelas que, por sua natureza mesma, se tornam extensivas a
tôdas as crianças
, seja qual fôr o
meio
em que vivam, e as
raízes antropológicas
, donde procedam; e aquelas que pertencem exclusivamente às
crianças de cada agregado social
, e não abrangem senão os indivíduos que participam dum
género de vida
análogo, e promanam de uma mesma
origem étnica
.
Enumeraremos, entre as primeiras, como mais importantes:
1) a
lei de Buffon
(a que chamaremos
de contraste
), em virtude da qual o
feto
cresce,
cada vez mais
, à medida que se aproxima do
nascimento
, ao passo que a
criança
cresce,
cada vez
menos, à medida que se avizinha da
puberdade
;
2) a
lei da periodicidade
, que regula a
sucessão de esfôrço e repouso
(relativo), na
dinâmica do crescimento
;
3) a
lei da alternância
, por cuja virtude os
membros
do corpo
(sobretudo, as
pernas
) crescem principalmente antes e durante a
puberdade
, e o
busto
, depois;
4) a
lei das compensações
, que se revela na
aceleração do crescimento
de certos
órgãos
, em relação a outros
mais desenvolvidos
[38]
.
À segunda categoria pertence, alêm da
lei do ritmo
(modalidade ou manifestação da
lei da periodicidade
), a
lei das proporções
, que preside a tôda a
dinâmica
do
crescimento relativo
.
5.—Estas
leis
, como
resumo
e
expressão
, que são, das
relações
entre os
fenómenos
considerados, incluem, tambêm no caso presente, o
conceito
das
causas
ou dos
factores
que agem sôbre o «
crescimento
».
Indicaremos:
1) entre os
determinantes fisiológicos
: a
raça
, a
gestação
, o
sexo
, a
consanguinidade
e a
alimentação
;
2) dos
factores mesológicos
: o
meio cosmo-telúrico
(
clima
,
estações
,
ar livre
,
claustração
, etc.) e
social
(
vida citadina
, e
de campo
,
profissões
e
ocupações sociais
, etc.);
3) dentre os
agentes patológicos
: as
doenças
(crónicas, ou agudas), o
raquitismo
, a
insuficiência tiroidiana
, os
estados neuropáticos
, etc.;
4) finalmente, das
causas pedagógicas
: os
exercicios físicos
, a
gimnástica
, os
jogos
, etc.
Cada um dêstes
factores
age, a seu modo, sobre o
mecanismo do «crescimento»
, robustecendo ou embaraçando, consoante as circunstâncias, a
energia intra-orgânica
, que é a
causa primordial
de tudo, naquele
mecanismo
[39]
.
CAPITULO II «Crescimento» absoluto; sua determinação, em relação à criança portuguesa; tabelas de médias, e respectivas curvas. O ritmo do crescimento em Portugal
1.—Como noutro lugar dissemos
[40]
, o
«crescimento» absoluto
(determinável pelas
medidas sintéticas
: altura, pêso, perímetro torácico) denuncia o
ritmo da evolução
, que é diferente, segundo a
procedência étnica
, e varia com o
meio
, tanto
físico
, como
social
.
Para o estudo dêste «
crescimento
», entre nós, e organização das respectivas
tabelas de médias
, dispomos de
elementos antropométricos
, mais do que suficientes,
em quantidade
, e óptimos,
em qualidade
.
Êsses
elementos
, já por nós seriados
[41]
, são os seguintes:
1)
mensurações
e
pesagens
efectuadas, durante um período de seis anos, duas vezes em cada ano (novembro e julho), sobre um total de 1.385 indivíduos, do sexo masculino, de idades compreendidas entre os dez e os dezoito anos, no antigo
Colégio Militar
, pelo médico João Carlos Mascarenhas de Melo
[42]
;
2)
mensurações
e
pesagens
, de Pedro Ferreira, no extinto
Colégio de Campolide
, durante quatro anos seguidos (1905-1909) sobre 1227 crianças, do sexo masculino, de idades que variam, desde os seis até aos vinte anos
[43]
;
3)
mensurações
e
pesagens
do dr. Morais Manchego, realizadas em
escolas primárias
, do sul do País, sobre 1.829 crianças, do sexo masculino, desde os seis até aos dezanove anos de idade
[44]
;
4)
mensurações
e
pesagens
efectuadas, na
Maternidade de Lisboa
, sob a direcção do falecido professor Alfredo da Costa, desde 1899 a 1904, sobre mais de 2.800 crianças, de ambos os sexos, logo em seguida ao
nascimento
[45]
;
5)
pesagens
de crianças tuteladas pela
Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
, em número de mais de 100.000, de idades compreendidas entre o
nascimento
e os doze mêses, desde 1907 até 1913
[46]
.
6)
mensurações
e
pesagens
do dr. Samuel Maia, realizadas em Lisboa, no ano de 1908, sobre 5.912 crianças, de ambos os sexos, de 0 aos 10 anos de idade;
7)
mensurações
e
pesagens
efectuadas, no
liceu de Coímbra
, durante doze anos (1905-1916), sobre um total de 1.180 alunos, do sexo masculino, de idades variáveis entre os dez e os vinte anos;
8)
mensurações
e
pesagens
, realizadas, no
Instituto Feminino de Educação e Trabalho
, de Odivelas, sob a direcção da médica D. Adelaide Cabete, durante dois anos consecutivos (1914-1916), sobre 157 alunas;
9)
mensurações
e
pesagens
, empreendidas, na
Escola
de Alunos Marinheiros do norte
(Leça de Palmeira) desde 1913 a 1916, sobre 241 alunos, do sexo masculino;
10) finalmente,
mensurações
e
pesagens
, realizadas, desde 1912, no
laboratório psicológico
da Faculdade de Letras, de Coímbra, sobre crianças de diferentes idades e procedências, como meio de iniciação dos alunos da
Escola Normal Superior
na prática da
mensuração antropométrica
, pelo emprêgo do
método auxanológico
[47]
.
2.—De tôdas estas
medidas
, aproveitando aquelas que, por suas
características
, se tornam
comparáveis
, organizamos os seguintes
quadros de médias
do
crescimento absoluto, normal, da criança portuguesa, desde o nascimento até à idade adulta
:
3.—O
quadro n.º 1
(Alturas) baseia-se num total de
vinte e uma mil e seiscentas mensurações
, assim distribuídas:
1)
Maternidade de Lisboa
(ambos os sexos), 2.877;
2)
Samuel Maia
(ambos os sexos), 8.685;
3)
Colégio de Campolide
(sexo masculino), 1.221;
4)
Colégio Militar
(sexo masculino), 1.385;
5)
Morais Manchego
(sexo masculino), 1.829;
6)
Liceu de Coimbra
(sexo masculino), 4.731;
7)
Instituto, de Odivelas
(sexo feminino), 631;
8)
Escola de alunos marinheiros, do norte
(sexo masculino), 241.
QUADRO N.º 1
Idades Maternidade de Lisboa Samuel Maia Pedro Ferreira Colégio Militar Morais Manchego Liceu de Coímbra Instituto feminino de Odivelas Alunos Marinheiros Médias gerais
S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F.
Recêm-nascido Nascimento 50,24 49,55 — — — — — — — — — — — — — — 50,24 49,55
0-1 — — 66 63 — — — — — — — — — — — — 66 63
Infância 1-2 — — 74 72 — — — — — — — — — — — — 74 72
2-3 — — 83 81 — — — — — — — — — — — — 83 81
Puerícia 3-4 — — 89 88 — — — — — — — — — — — — 89 88
4-5 — — 96 94 — — — — — — — — — — — — 96 94
5-6 — — 109 104 113,5 — — — 108 — — — — — — — 110 104
6-7 — — 110 106 119,5 — — — 114 — — — — — — — 114,5 106
7-8 — — 111 110 124 — — — 119 — — — — 117 — — 118 113,5
Adolescência 8-9 — — 116 115 129 — — — 124 — — — — 120,5 — — 123 117,7
9-10 — — 123 122 133 — 132 — 127 — — — — 125 — — 128,7 123,5
10-11 — — — — 138 — 135 — 131 — 132 — — 129 — — 134 129
11-12 — — — — 144 — 139 — 135 — 136 — — 134,5 — — 138,5 134,5
12-13 — — — — 148 — 143 — 139 — 139 — — 141,5 — — 142 141,5
Puberdade 13-14 — — — — 154,5 — 150 — 147 — 143 — — 148 — — 148,6 148
14-15 — — — — 160,5 — 157 — 149 — 153 — — 152 — — 154,8 152
15-16 — — — — 165 — 162 — 156 — 159 — — 152,8 — — 160,5 152,8
16-17 — — — — 165,5 — 163 — 161 — 164 — —- 154 161 — 162,9 154
Nubilidade 17-18 — — — — 166 — 165 — 163 — 165 — — 153,7 161,2 — 164 153,7
18-19 — — — — 169 — 169 — 165 — 166 — — 151 161,3 — 166 151
19-20 — — — — 171 — — — — — 168 — — 154 161,5 — 166,8 154
O
quadro n.º 2
(Pêso) foi elaborado, em presença dos
documentos
que acusam o elevado número de
cento e dezassete mil e dez pesagens
, efectuadas nos seguintes
Institutos
:
1)
Maternidade de Lisboa
(ambos os sexos), 2.549 pesagens;
2)
Misericórdia de Lisboa
(ambos os sexos), 100.824;
3)
Colégio Militar
(sexo masculino), 3.034;
4)
Colégio de Campolide
(sexo masculino), 1.214;
5)
Morais Manchego
(sexo masculino), 1.271;
6)
Liceu de Coimbra
(sexo masculino), 2.370;
7)
Samuel Maia
(ambos os sexos), 4.878;
8)
Instituto Feminino, de Odivelas
(sexo feminino), 633;
9)
Escola de alunos marinheiros
(sexo masculino), 237.
QUADRO N.º 2
Idades Maternidade de Lisboa Misericórdia de Lisboa Colégio Militar Colégio de Campolide Morais Manchego
S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F.
Nascimento 3.236 3.103 — — — — — — — —
0-1 — — 7.500? — — — — — — —
1-2 — — — — — — — — — —
2-3 — — — — — — — — — —
3-4 — — — — — — — — — —
4-5 — — — — — — — — — —
5-6 — — — — — — — — — —
6-7 — — — — — — 20.400 — — —
7-8 — — — — — — 23.400 — — —
8-9 — — — — — — 25.200 — — —
9-10 — — — — — — 27.500 — — —
10-11 — — — — 29.000 — 29.600 — 26.260 —
11-12 — — — — 30.500 — 31.600 — 28.390 —
12-13 — — — — 33.000 — 35.200 — 30.880 —
13-14 — — — — 36.500 — 39.000 — 32.350 —
14-15 — — — — 42.000 — 44.600 — 35.630 —
15-16 — — — — 47.000 — 50.300 — 39.580 —
16-17 — — — — 51.500 — 55.200 — 46.430 —
17-18 — — — — 53.000 — 56.300 — 50.000 —
18-19 — — — — 55.500 — 59.100 — 52.910 —
19-20 — — — — 58.500 — 60.500 — 54.500 —
20-21 — — — — — — 60.500 — — —
QUADRO N.º 2 (Continuação)
Idades Samuel Maia Liceu de Coímbra Instituto feminino de Odivelas Alunos Marinheiros Médias gerais
S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F.
Nascimento — — — — — — — — 3.236 3.103
0-1 7.500 7.000 — — — — — — 7.500 7.000
1-2 7.000 8.700 — — — — — — 7.900 8.700
2-3 11.700 11.250 — — — — — — 11.700 11.250
3-4 13.600 14.550 — — — — — — 13.600 14.550
4-5 12.900 14.290 — — — — — — 12.900 14.260
5-6 13.800 15.700 — — — — — — 13.800 15.700
6-7 17.450 16.450 — — — — — — 18.900 16.450
7-8 19.500 18.140 — — — 21.687 — — 21.450 16.913
8-9 20.700 20.950 — — — 23.225 — — 22.950 22.087
9-10 22.900 23.250 — — — 24.480 — — 25.200 23.865
10-11 — — 28.000 — — 26.573 — — 28.200 26.573
11-12 — — 30.000 — — 30.170 — — 30.100 30.170
12-13 — — 33.000 — — 36.302 — — 33.000 36.302
13-14 — — 37.000 — — 42.239 — — 36.200 42.239
14-15 — — 42.000 — — 46.510 — — 41.050 46.510
15-16 — — 48.500 — — 49.435 — — 46.300 49.435
16-17 — — 53.000 — — 50.402 52.500 — 52.000 50.402
17-18 — — 55.000 — — 51.100 53.500 — 53.500 51.100
18-19 — — 57.500 — — 51.372 54.000 — 55.125 51.372
19-20 — — 60.000 — — 50.000 55.000 — 56.675 50.000
20-21 — — 60.500 — — — — — 60.500 —
Finalmente, para a elaboração do
quadro n.º 3
(Perímetro torácico), cujas médias são a
expressão sintética
de
sete mil mensurações
, contribuíram os seguintes
estabelecimentos
:
1)
Colégio Militar
(sexo masculino), com 1.385;
2)
Colégio de Campolide
(sexo masculino), com 1.223;
3)
Liceu de Coímbra
(sexo masculino), com 2.225;
4)
Escola de alunos marinheiros
(sexo masculino), com 2.167.
QUADRO N.º 3 (Sexo masculino)
Idades Colégio Militar Colégio de Campolide Liceu de Coimbra Escola de Alunos Marinheiros Médias gerais
6-7 — 57,3 — — 57,3
7-8 — 59,3 — — 59,3
8-9 — 59,3 — — 59,3
9-10 — 60,7 — — 60,7
10-11 62,5 61,9 61,4 — 61,9
11-12 64 63,6 63 — 63,5
12-13 66 65,5 65,1 — 65,5
13-14 69 67,8 66,9 — 67,9
14-15 72 71,2 67,1 — 70,1
15-16 75,5 74,7 67,8 — 72,6
16-17 78,5 77,8 79,1 83 79,6
17-18 80 79,3 80,3 85 81,1
18-19 81,5 80,8 81,2 85 82,1
19-20 82,5 81,8 82,7 85 83
20-21 — 82 82,6 — 82,3
4.—As condições em que foram
mensuradas
tôdas as crianças, a que estes
quadros
se referem, assim como a
técnica
adoptada nas
mensurações
, e ainda os
gráficos
que exprimem as respectivas
médias
; tudo isso se pode ver, pormenorizadamente exposto, descrito e apreciado, em a nossa
monografia
, já citada, sobre o
«crescimento» da criança portuguesa
.
5.—Mas, alêm dos
elementos
enumerados, podemos acrescentar
outros
, que daqueles não divergem sensivelmente, e são provenientes do
liceu Pedro Nunes
, e do
Colégio Moderno
, de Coímbra, onde presentemente, com o auxílio dos alunos da
Escola Normal Superior
, nos entregamos a
estudos de pedometria
, no intuito de conhecer e determinar, com precisão, as
leis do crescimento
, em
Portugal
.
A seguinte
tabela
inscreve as médias das
mensurações
realizadas, no referido
liceu
, no ano lectivo de 1914-1915:
Idades N.º de alunos Altura Pêso Ampl. torácica
9 12 1m,327 30k,5 51mm
10 50 1m,342 29,k57 63mm
11 89 1m,390 32k,21 73mm
12 99 1m,431 34k,97 70mm
13 97 1m,467 37k,96 71mm
14 133 1m,526 41k46 74mm
15 102 1m,576 43k39 82mm
16 82 1m,629 50k34 77mm
17 46 1m,698 58k19 87mm
18 23 1m,689 55k,17 76mm,5
19 10 1m,671 59k,11 84mm
20 1 1m,599 56k 110mm
21 1 1m,683 47k,6 80mm
No capítulo imediato, a propósito do
crescimento relativo
, interpretaremos as
notações
, referentes ao
Colégio Moderno
, que incidem sobre
cento e vinte crianças
, de diferentes idades, tôdas do sexo masculino,
observadas e mensuradas
, segundo as prescrições do
método auxanológico
.
6.—A
seriação
de todos os
elementos
considerados, assim como o
apuramento das respectivas médias
, realizado de modo a fazer corresponder, tanto quanto possível, à
realidade
os resultados do cálculo, tornaram possível o traçado dos seguintes
gráficos
, que revelam, com suficiente clareza, o
ritmo do «crescimento»
, entre nós.
O primeiro dêstes
gráficos
(
figura n.º 1
) inscreve as
curvas do crescimento normal, médio, em altura, da criança portuguesa
(uma para cada sexo), baseadas, como dissemos, sôbre um total de
vinte e uma mil e seiscentas mensurações
.
São
curvas
, estas, denominadas
de grandeza
, que acusam as
variações da altura
, em
função do tempo
[48]
.
A linha horizontal do
diagrama
(eixo das abcissas) marca o
tempo
(série das
idades
); a vertical (eixo das ordenadas) inscreve o
espaço
(variações métricas da
estatura
).
A simples inspecção do
gráfico
convence imediatamente de que, como nas
observações
de Quetelet, em relação à Bélgica
[49]
, as crianças portuguesas do sexo masculino excedem, em
altura
, durante todo o percurso da sua evolução, as do sexo feminino.
É certo que o número de
dados antropométricos
, em que se baseia a
curva
do «crescimento» das
raparigas
, orçando apenas por um sexto daquele que fundamenta a
curva
dos
rapazes
, não pode reputar-se suficiente, em ordem a
conclusões definitivas
; mas as
mensurações
(aos milhares) do dr. Ferraz de Macedo, para o apuramento da
estatura média
em Portugal, acusam, em média, na
idade adulta
, em favor do sexo masculino, um excedente que chega a atingir a quantidade apreciável de dez centímetros
[50]
.

As
diferenças sexuais
, de resto, assim reveladas na
fisionomia
geral das
curvas
, pelo
paralelismo
que nelas se mantêm, até aos catorze anos, essas diferenças, dizemos, acentuam-se, de modo análogo, em cada
estádio
particular e concreto da
evolução
.
Assim, logo
à nascença
, por exemplo, a
estatura
dos
rapazes
ultrapassa, em média, em um centímetro, aproximadamente, a das
raparigas
; e, a partir dos catorze anos, a disparidade das
alturas
adquire tais proporções, que nós aconselhamos os estudiosos a que usem de uma prudente reserva, relativamente a estas
medidas
.
Como
elemento de confronto
, para elucidação completa do assunto, aqui deixamos consignadas, no presente quadrículo, as
notações
que se devem aos pedologistas Variot e Chaumet, em relação à
criança francesa
:
Idades Alturas em centímetros
Rapazes Raparigas
1-2 74,2 Difer. 73,6 Difer.
2-3 82,7 8,5 81,8 8,2
3-4 89,1 6,4 88,4 6,6
4-5 96,8 7,6 95,8 7,4
5-6 103,3 6,5 101,9 6,1
6-7 109,9 6,6 108,9 7,0
7-8 114,4 4,5 113,8 4,9
8-9 119,7 5,3 119,5 5,7
9-10 125,0 5,3 124,7 4,8
10-11 130,3 5,3 129,5 5,2
11-12 133,6 3,3 134,4 4,9
12-13 137,6 4,0 141,5 7,1
13-14 148,1 7,5 148,6 7,1
14-15 153,8 8,7 152,9 4,3
15-16 159,6 5,8 154,2 1,3
São nada menos de quatro os
máximos
que, nas
curvas
apresentadas, se observam, através das
idades de evolução
: um,
absoluto
ou
primário
, aos dezasseis anos (para o sexo masculino) e aos catorze (para o sexo feminino); e três,
relativos
ou
secundários
: o primeiro (para ambos os sexos) ao cabo dos doze meses, depois do
nascimento
; o segundo (tambêm para ambos os sexos), aos seis anos; e o terceiro, aos dez anos (para o sexo masculino) e aos oito (para o sexo feminino).
Estes
máximos
denotam ou marcam, como é óbvio, no
ritmo
do «crescimento», os períodos mais agudos dêste, ou as
fases
mais intensivas da
energia intra-orgânica
, que o determina.
Ponderando tudo, vê-se:
1) que a criança portuguesa (d'ambos os sexos) se
desenvolve
enormemente, durante o primeiro ano de
vida extra-uterina
;
2) que a
marcha
, em seguida, do seu «crescimento» (ainda que
progressiva
)
se atenua
, desde aí, até aos cinco anos, para, de novo (embora por pouco tempo),
se intensificar
, a partir desta
idade
;
3) que se produz, depois, nessa mesma
marcha
, um relativo
afrouxamento
(mais pronunciado, no sexo feminino), cujo
mínimo
se verifica, aos oito anos (para os
rapazes
) e aos sete (para as
raparigas
);
4) que o «crescimento»
aumenta
, em seguida, com moderação, desde esta época, até aos doze anos (nos
rapazes
) e até aos treze (nas
raparigas
), para, logo imediatamente depois, cair (sobretudo em relação ao sexo masculino) num
abatimento
brusco e momentâneo que, em breve, cessará;
5) finalmente, que, em seguida a esta relativa
quietude fisiológica
, o «crescimento»
se acelera
, ainda uma vez mais, com
forte intensidade
, até aos dezasseis anos (para os
rapazes
) e até aos catorze (para as
raparigas
), sucedendo-se, depois, uma definitiva
acalmia
, durante a qual a
criança
continuará, sem dúvida, a
crescer
, até ao termo da sua
evolução
(dos vinte aos vinte e cinco anos), mas
insensivelmente
, de modo muito lento e gradual.
CURVAS DO CRESCIMENTO NORMAL,
MÉDIO, EM DENSIDADE (PÊSO),
DA CRIANÇA PORTUGUESA
(117.010 PESAGENS)

Para concluirmos a
análise
de todos os
elementos
, de que podemos dispor, e cuja
síntese
se encontra nas
curvas
, que temos considerado, relativamente à
estatura da criança portuguesa
, nos diferentes
estádios
do seu «crescimento», resta ainda (para clara inteligência dos
problemas antropométricos
, cuja solução nos interessa) referir os
factos adquiridos
aos seus
antecedentes naturais
, e procurar
interpretá-los
, de conformidade com as
leis da lógica
e os
princípios da sciência
.
A
criança
, quando
nasce
, sofre, pela mudança de
meio
, a rutura dum
equilíbrío orgânico
, que lhe põe a vida em risco, pelas
perturbações
, a que dá origem, no funcionamento de todos os
órgãos
.
«Il faut, diz Ruyssen, sous peine de mort, que l'enfant s'accommode au milieu»
[51]
.
Esta
adaptação
a novas
condições de existência
, agravada, quási sempre, pela
crise genital do recêm-nascido
(puberdade transitória), gera uma
luta
, que determina, pela dinâmica da acção, o
desenvolvimento bio-psíquico
da criança, tanto mais
intenso
e
forte
, quanto maior é a
impulsão natural
para um
novo equilíbrio
que, em ordem à consolidação das
aquisições realizadas
, substitua
aquele
que foi comprometido, pela transição brusca e violenta da
vida parasitária
para a
existência independente
.
Não é, por isso, de admirar que, durante a
infância
(princípio do segundo ano), as
energias do crescimento
sofram uma
depressão
, que lhes atenue o
poder ascensional
, de que são dotadas; e que se estabeleça êsse
novo equilíbrio provisório
que, por sua vez, ao cabo de quatro anos (então já em plena
puerícia
), do mesmo modo, será sacrificado, em holocausto àquelas mesmas energias, que exigem, no
ser
que lhes está subordinado, novas
combinações somáticas
, e diferentes
proporções dos segmentos do seu organismo
.
Realizadas, porêm, que sejam essas
combinações
, e atenuada a
crise de expansão
, que as provoca, não há dúvida que, consoante se depreende dos
factos
examinados, mais um
equilíbrio
(o terceiro, segundo a
ordem cronológica
) se produzirá, agora com
estabilidade
menos precária, do que os anteriores, visto que deverá subsistir, até ao fim da
adolescência
(aos treze anos, para os
rapazes
; e aos doze, para as
raparigas
), e só desaparecerá, com a
crise pubertária
(de tôdas a mais
enérgica
e
fecunda
em
transformações físicas e mentais
), que sobrevirá, por essa ocasião, na
vida instável e agitada
da criança.
Esta
crise
durará três anos, e será a última do «crescimento», seguindo-se-lhe o
equilíbrio orgânico definitivo
, que só a
doença
poderá comprometer, e a
morte
logrará destruir.
7.—O segundo dos
gráficos
indicados [(agora aqui presente) (
figura n.º 2
)] representa, nas respectivas
curvas
(uma para cada sexo), a
marcha
do «crescimento» normal, médio, em
densidade
(pêso) na
criança portuguesa
.
Observando estas
curvas
, reconhece-se, desde logo, que a
fisionomia
delas é sensivelmente diferente da que oferecem as das
estaturas
, que temos examinado.
As
raparigas
(contràriamente ao que sucede, em relação à
altura
) apenas são inferiores (em pêso) aos
rapazes
, no primeiro ano; desde os seis aos doze anos; e depois dos dezassete anos. Em tôdas as outras
idades
, manteem sobre êles uma superioridade, que chega a ser surpreendente, pelos catorze anos.
Mas as
inflexões
recíprocas das duas
curvas
, que se cruzam e mutuamente se penetram, não são sem
simile
, em países estrangeiros.
Veja-se, por exemplo, a seguinte tabela de Variot e Chaumet, relativa à França:
Idades Pêso em quilogramas
Rapazes Raparigas
1-2 9,500 Difer. 9,300 Difer.
2-3 11,700 2,2 11,400 2,1
3-4 13,000 1,3 12,500 1,1
4-5 14,300 1,3 13,900 1,4
5-6 15,900 1,6 15,200 1,3
6-7 17,500 1,6 17,400 2,1
7-8 19,100 1,5 19,000 1,6
8-9 21,100 2,1 21,200 2,2
9-10 23,800 2,7 23,900 2,7
10-11 25,500 1,8 26,600 2,7
11-12 27,700 2,1 29,000 2,4
12-13 30,100 2,4 33,800 3,8
13-14 35,700 5,6 38,300 4,5
14-15 41,900 6,2 43,200 4,0
15-16 47,500 5,6 46,00 2,8
Todavia, as assinaladas
diferenças sexuais
, e outras, que omitimos, não impedem que, dum modo geral, tanto
rapazes
, como
raparigas
, obedeçam às mesmas
leis
, e sofram influências análogas. Há só uma reserva a fazer, e é que, em regra, o «crescimento» das
raparigas
é
menos irregular nos acidentes
(comparem-se as duas
curvas
) e quási sempre
mais precoce
, do que o dos
rapazes
.
Foi êste facto, que sugeriu ao Dr. Claparède a idea de comparar a um
match de corrida
o «crescimento» dos
dois sexos
: «la croissance comparée des filles et des garçons, diz êle, ressemble à un match de course; garçons et filles partent ensemble, mais celles-ci, un instant devancées, prennent bientôt les devans, puis leurs concurrents les ratrapent et les dépassent, mais elles les dépassent de nouveau jusqu'à ce que, enfin, les garçons l'emportent définitivement»
[52]
.
Examinem-se as nossas
curvas
, e ver-se há que, com leves e acidentais modificações, é precisamente o que se verifica na
dinâmica
do «crescimento» português.
Nota-se assim que, nesta
dinâmica
, são três as principais
fases
do
«crescimento» enérgico
,
máximo
, em
densidade
:
1) durante o primeiro ano (em ambos os sexos);
2) pelos seis anos (para os
rapazes
) e pelos oito (para as
raparigas
);
3) pelos quinze, aproximadamente (nos
rapazes
), e pelos doze (nas
raparigas
).
A primeira
crise
(e talvez a segunda) constituem, na opinião de Camerer, uma «continuação da excessiva
energia fetal
do «crescimento»; quanto à última, a sua
explicação adequada
encontra-se no
advento
e na
instalação
da
Puberdade
[53]
.
8.—Para conclusão desta primeira parte do nosso estudo («crescimento»
absoluto
da criança portuguesa), resta apresentar o
gráfico
da
curva
, relativa ao
perímetro torácico
, que é o que, a seguir, na página imediata (
fig. n.º 3
), publicamos.
Esta
curva
pertence ao
sexo masculino
; não abrange a série tôda das
idades infantis
; e apenas se baseia num total de sete mil
mensurações
; contudo, não deixamos de reputar
suficiente
êsse número para, sobre êle, estabelecer alguns
princípios
, e formular determinadas
conclusões
.
CURVA DO PERÍMETRO TORÁCICO (7.000 MENSURAÇÕES).

Como geralmente se sabe, o
perímetro torácico
(
medida sintética
da
espessura
e da
largura
do tórax) é maior ou menor, consoante a
criança
já entrou na
puberdade
, ou ainda permanece nas
fases inferiores da evolução
[54]
.
Ora, as
notações
, que constituem a presente
curva
, não fazem excepção àquela
regra
; alêm disso, como veremos, em lugar próprio, as outras
dimensões somáticas
, que lhes correspondem, acham-se na
razão inversa
das
projecções verticais
, com que coincidem.
Êste
facto
e outros análogos, que estabeleceremos, servirão para demonstrar a absoluta veracidade destas palavras de Pierre Mendousse: «Chacun sait qu'entre le corps d'un petit enfant et celui d'un adulte il y a des différences non seulement dans la grandeur totale, mais aussi dans les proportions des diverses parties. Depuis le moment de la naissance, chacune de celles-ci semble croître sinon pour son propre compte, du moins suivant un rythme plus ou moins accéléré, d'où résulte pour chaque âge un canon spécial de la forme humaine, variable d'ailleurs dans une certaine mesure suivant la race, l'état de santé, la nourriture, etc. Dans ce progrès continu, l'avènement de la puberté détermine non seulement un accroissement de vitesse, mais sourtout des variations plus rapides qu'auparavant dans les proportions extérieures et plus encore dans le volume et le poids des organes, dont les uns semblent s'hypertrophier, pendant que les autres se développent moins vite ou s'atrophient, de sorte que l'état cénesthésique de l'adolescent subit de profondes modifications, parfois douloureuses j'usqu'à la défaillance, en particulier lorsque, vers les dix-huit ans, la croissance s'étant ralentie, un nouvel état d'équilibre s'établit entre les systèmes organiques devenus adultes».
Para
confronto
elucidativo, aqui reproduzimos a
tabela
de Pagliani
[55]
, com as suas duas séries de medidas, relativas à
capacidade vital
e à
circunferência torácica
:
Idades Capacidade vital Circunferência torácica
10 1660 61
11 1700 61,2
12 1860 62,8
13 2045 65,2
14 2100 66,4
15 2445 69,5
16 2485 70,3
17 2660 71,6
18 3115 72,6
Observando, agora, a
fisionomia
geral da
evolução torácica
, tal como se esboça, em o nosso
gráfico
, a partir do
plano horizontal
, existente entre os oito e os nove anos, nota-se, desde logo, uma pronunciada
ascensão
da
curva
, que adquire gradual e progressiva intensidade, à medida que a
criança
se vai aproximando do
fim natural
, para que tende.
Logo, porêm, que êste
movimento ascensional
atinge os quinze anos (
fase pubertária
), a sua
aceleração
torna-se tam
brusca
e
rápida
, que quási se confunde com a
vertical
o fragmento de
curva
, que a exprime.
Chega, depois, o
máximo
(aos dezassete anos); e, conquanto (até à
idade adulta
) o tórax continue sempre a
crescer
mais, do que a
estatura
[56]
, todavia, daí por diante, nenhuma
variação
dêsse
crescimento
igualará jamais aquelas que, até lá, se produziram.
CAPITULO III Insuficiência do estudo do «crescimento» absoluto para a solução de todos os problemas antropométricos. «Crescimento» relativo ou segmentar; sua determinação, tanto sintética, como analítica, pelo confronto dos respectivos elementos.
1.—A determinação do
ritmo do crescimento
não basta em
Pedologia
, porque, como vimos, há
outras leis
que as
medidas sintéticas
não revelam.
A
estatura
, como síntese que é das
alturas
segmentares
do corpo
acima do solo,
valerá o que valêrem estas
; por si só, essa
medida
apenas significa que tal pessoa é
grande
ou
pequena
, o que é de importância mínima, em
pedometria
; e, às vezes, até de
valor negativo
, como sucederá, por exemplo, nos casos de
gigantismo com infantilismo
, em que a
estatura cresce, à custa doutras dimensões essenciais
(largura, grossura, espessura)
do sólido humano
[57]
.
Pelo seu lado, o
pêso
nem sempre deve ser considerado, como exprimindo um
valor activo
nos fenómenos do «crescimento», pois pode suceder que, em vez de uma
densidade muscular
, acuse uma
densidade adiposa
, a qual, como é óbvio, não passa de uma
reserva
e, às vezes, até dum
obstáculo
à seqùência normal daqueles fenómenos.
Não há dúvida que a
medida do pêso
, em circunstâncias normais e, sobretudo,
a da sua evolução
, constituem um meio excelente de avaliar da
saúde
e do
estado de nutrição
da criança; a verdade, porêm, é que não é êsse o único
problema métrico
a esclarecer: outros há que o
pêso
, só por si, não resolve.

Fig. 4
Finalmente, o
perímetro torácico
(medida de valor apreciável, quando relacionada com outras medidas) presta-se tambêm a
interpretações erróneas
, por isso mesmo que pode representar, sob a
máscara da gordura
, um
falso volume
do organismo.
A conclusão impõe-se, em relação a
cada uma
das mensurações indicadas, considerada
de per si
; mas há casos, em que nem
tôdas juntas
inspirarão maior confiança.
Examine-se, por exemplo, êste
retardatário
(
figura n.º 4
), de quinze anos e meio de idade, o qual, a julgar pela
altura
(quási de adulto), pelo
pêso
(relativamente enorme), e pelo
perímetro torácico
(considerável), se deveria reputar em
óptimas condições de crescimento
; ¡e, todavia, não se trata senão de uma
pobre criança
que, à hora das suas mensurações, não havia ainda feito a
puberdade
, nem talvez jamais a chegasse a fazer!...
[58]
.
É um caso típico de
infantilismo total
, tanto somático, como psíquico.
A investigação scientífica do «crescimento» descobriu que uma das
leis
mais importantes
dêste
é a das
proporções
.
O vigor do
organismo humano
e o seu desenvolvimento normal, através das
idades de evolução
(infância, puerícia, adolescência, puberdade, nubilidade) não dependem sòmente do aumento, em
altura
,
grossura
, e
densidade
; mas tambêm e principalmente das
dimensões relativas
de todos os
segmentos
, que constituem êsse organismo.
Não é possível elaborar, acertadamente, um
quadro de médias
, considerando apenas as
medidas
enumeradas; o que importa é
pesquizar
a fórmula específica do
nosso crescimento
, construir o
cânon antropométrico
da criança portuguesa,
em tôdas as idades, e de ambos os sexos
.
Achado êsse
padrão
, por êle será aferido o «crescimento», sendo então fácil
definí-lo
e
julgá-lo
, com absoluta segurança.
2.—Os
antigos
falaram, por vezes, das
proporções do corpo humano
, nas diferentes
fases
da sua evolução; a verdade, porêm, é que só a
sciência contemporânea
logrou resolver o problema
[59]
.
Sem querermos aprofundar agora êste assunto, basta ponderar que, depois dos
trabalhos definitivos
de Manouvrier
[60]
, não é possível continuar a crêr nas
curiosas ficções
de Stratz que, havendo adoptado o
critério
de Vitrúvio, afirmava incluir-se, oito vezes, a
cabeça
, na estatura do
adulto
; sete, na do
púbere
; seis, na do
adolescente
; cinco, na do
infante
; e quatro, na do
recêm-nascido
[61]
.
Não há de ser um
segmento do corpo humano
a
medida
comum
das
dimensões reaes
dêste; mas uma
unidade métrica exterior
: o
milímetro
, como se acha estabelecido, em
pedometria
.
Seguindo na
esteira desta orientação
, e estabelecendo, desde já, o confronto das
medidas sintéticas
, de que dispomos, não padece dúvida, que o
crescimento relativo da criança portuguesa
denuncia, na sua
marcha progressiva
, uma clara influência da
lei da alternância
, e não se afasta sensivelmente das
normas
, a que se atende, em
pedologia
.
Comparando, por exemplo, a
curva
da
altura
com as
curvas
do
pêso
(
figura n.º 5
) e do
perímetro torácico
(
figura n.º 6
), reconhece-se, desde logo, que, em relação ao sexo masculino, tanto a
densidade
, como a
grossura
do organismo, só ultrapassam a
altura
, depois dos quinze anos, que é a época, em que as
dimensões horizontais
entram de contribuir mais, do que as
verticais
para o
crescimento
do
sólido humano
.
Pelo que temos observado, ininterruptamente, a partir de 1903, a
puberdade masculina
faz-se, em regra, entre nós, desde os catorze até aos dezasseis anos, e a
feminina
, desde os doze até aos catorze
[62]
.
Normalmente, os
primeiros sinais da puberdade
(P.
1
) aparecem, no
sexo masculino
, pelos treze ou treze anos e meio; no
sexo feminino
, pelos onze ou onze e meio; e a sua
instalação definitiva
(P.
3
A.
1
), respectivamente, pelos catorze e doze anos. Alêm disso, importa notar que o
encerramento da fase pubertária
(P.
5
A.
3, 4 ou 5
) se realiza sempre, ao cabo de dois anos, volvidos sôbre aquela
instalação
[63]
.

Examinando o
gráfico
da figura 5, vê-se que efectivamente o
aumento progressivo do pêso
se intensifica, a partir dos catorze anos; e que é precisamente aos dezasseis (P.
5
A.
5
) que a respectiva
curva
adquire sôbre a da
estatura
uma
ascendência
, que jamais cessará
[64]
.
Mas é natural; porque, como se depreende do
gráfico n.º 6
, a
criança
, principiando a
engrossar
, em
progressão intensiva
, dos quinze para os dezasseis anos (
instalação definitiva
, ou já
encerramento da puberdade
), claro está que aumentará de
densidade
; donde resulta o
paralelismo
, ou a
semelhança fisionómica
das duas
curvas
(
pêso
e
perímetro torácico
).
Em contraprova, examine-se ainda o
gráfico
da
figura n.º 7
, que inscreve (para confronto) as
curvas
do
pêso
e do
perímetro torácico
.
Depois dos nove ou dez anos, essas
curvas
caminham quási paralelamente (como não podia deixar de ser); e, só depois dos dezassete anos, em que é atingido o
máximo absoluto comum
, é que surgem
inflexões
, cuja
natureza
importa à
pediatria
explicar.
Em os nossos
exemplares de observação e estudo
, há um (do sexo feminino), em que se realizam, com notável precisão, as
leis
, a que nos temos referido. O
crescimento
, em
altura
, como se pode verificar, em face do
gráfico
da
figura n.º 8
, acusa, pelos treze anos, um
aumento considerável
, que teve o seu
início
, por ocasião do
aparecimento
e
instalação da puberdade
; e podemos acrescentar que essa
progressão não afrouxou ainda
, até a êste momento
[65]
.
Mas não constituem os
factos
aduzidos todo o
material
, de que seja possível dispor, para a organização scientífica dos
cânones antropométricos
das
idades evolutivas da criança portuguesa
.



Temos
medidas segmentares
, que podem aproveitar a êsse fim; e vamos apreciá-las, no capítulo imediato.
CAPÍTULO IV Medidas segmentares para avaliação do crescimento relativo, ou das proporções do corpo, nas idades de evolução. Cânones antropométricos da criança portuguesa.
1.—O estudo das
proporções métricas do corpo humano, desde o nascimento, até à idade adulta
, exige que se considerem
três ordens de segmentos
:
1)
projecções verticais
;
2)
diâmetros
;
3)
perímetros ou circunferências
.
Dos
elementos
da primeira categoria, interessam-nos, de modo especial, em relação ao
eixo do corpo
, as
alturas da cabeça e do tronco
; e, em relação aos
apêndices
, as
dimensões
(no seu conjunto) do
membro torácico
e do
membro abdominal
.
Como, em o nosso país, não existem (que nós saibamos)
mensurações
das referidas
alturas
, procuramos, ao presente, obtê-las, em
quantidade
e
qualidade
suficiente, sobre alunos do
Colégio Moderno
[66]
.
Á segunda categoria pertencem os
diâmetros
, tanto
cranianos
, como
torácicos
, e
pélvicos
; mas de tôdas estas
dimensões horizontais
algumas
medidas
possuímos, em condições de serem utilizadas; podendo dizer-se o mesmo, em relação aos
elementos
da última classe:
perímetros
, quer
cranianos
, quer
torácicos
, e ainda
pélvicos
.
As
tabelas
que, a seguir, publicamos consubstanciam todos êsses
elementos
:
TABELA N.º 1 (Maternidade de Lisboa)[67]
Número de mensurações Diâmetros cranianos Perímetros cranianos
S. M. S. F. O F[68] B P[68] S O F[68]
1491 1386 11,58 9,35 32,78
Estas
mensurações
(
tabela n.º 1
) foram feitas
imediatamente depois do nascimento
, sobre crianças que satisfaziam às
condições
seguintes:
1) «d'être nés vivants»;
2) «d'être nés par le sommet»;
3) «d'avoir été dégagés en O P.»;
4) «d'être des enfants à terme».
Quanto ao seu
valor antropológico
, não são essas
medidas cefálicas
de natureza a inspirar-nos uma
grande confiança
, porquanto, como o próprio autor diz: "la prise des mesures céphaliques est encore plus difficile que celle des longueurs. D'abord, il est impossible qu'elles soient, toutes, prises par la même personne, quand on opère sur un grand nombre d'enfants, comme nous le faisons; puis, il faut compter avec la difficulté inhérente à l'opération, quand il s'agit d'un enfant vivant, comme c'est notre cas, la difficulté d'employer un instrument de précision, et encore la difficulté de bien établir, pour tous les cas, les mêmes points de repère, en les marquant toujours d'une manière identique et irréprochable.
Aussi, nos mesures ne prétendent guère à la rigueur d'une étude anthropométrique. Nous avons tout simplement cherché à établir quelle serait, à peu près, la grandeur de la tête foetale, tout de suite après la naissance
, pour obtenir, autant que possible, une idée de la grandeur des diamètres de l'ovoide céphalique du foetus, à l'occasion de sa descente par la filière génitale»
[69]
.
Nem é para admirar que assim seja, por isso mesmo que a iniciativa das duas mil oitocentas e setenta e sete
mensurações
, cujas
médias
a mencionada
tabela
exprime, não tinha um
fim antropológico, mas tam sòmente obstétrico
.
Todavia, não são para rejeitar,
in limine
, tam numerosas
observações
; antes supomos muito conveniente a sua
seriação, como subsídio para a avaliação indirecta da capacidade craniana do recêm-nascido; e, portanto, do volume e pêso do seu cérebro
[70]
.
TABELA N.º 2 (Observações de Costa Sacadura)[71]
Número de mensurações Diàmetros cranianos Perímetros cranianos
S. M. S. F. O F B P S O F
256 273 S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F.
11,22 10,96 8,92 8,87 32,51 32,33
Médias sem distinção de sexo 11,09 8,89 32,42
As
médias
da
tabela n.º 2
resultam de cálculos efectuados sobre quinhentas e vinte e nove
mensurações
de
diâmetros
e
perímetros cranianos
de
recêm-nascidos
, vivos, d'ambos os sexos, na
Maternidade de Lisboa
, em 1904, pelo chefe de clínica dêsse estabelecimento, dr. Costa Sacadura.
Essas
mensurações
, de rigor absoluto, quanto ao
processo técnico
, tambêm foram feitas logo à nascença, como as da
tabela n.º 1
; e, conquanto se destinassem a servir
intuitos exclusivamente clínicos
, todavia, nada obsta a que as aproveitemos (pelo menos
O F
,
B P
e
S O F
, para o nosso
fim antropológico
:
determinação do índice cefálico do recêm-nascido português
.
É certo que, pela
ocasião
em que foram tomadas, essas medidas exprimem
dimensões de uma cabeça, que pode ter sido deformada pelo trabalho do parto
; mas tambêm não padece dúvida, que êsse facto carece de eficácia para invalidar aquela
determinação
, porquanto, em
matéria de cèfalometria do recêm-nascido
, não se pode contar com
certezas
; mas tam sòmente com
aproximações
[72]
.
Como se depreende da presente tabela (
n.º 3
), as
médias
das respectivas
dimensões cefálicas
, derivam de 49
observações
, realizadas no
hospital geral de Santo António
, do Pôrto, pelo dr. Manuel Álvares Pereira Carneiro Leal.
TABELA N.º 3 (Observações de Manuel Carneiro Leal)[73]
Número de mensurações Diàmetros cranianos Perímetros cranianos
S. M. S. F. O F B P S O F
23 25 S. M. S. F. S. M. S. F. S. M. S. F.
11,6 11,2 9,2 9,1 32,9 32,2
Médias sem distinção de sexo 11,4 9,1 32,5
Dessas
mensurações
, excluem-se as que se referem a
nados-mortos
; mas consideram-se as que pertencem a
recêm-nascidos de fraca viabilidade
[74]
.
Aproximando agora as
médias
de tôdas as
dimensões
, que os três
mapas
apresentados consubstanciam, podemos organizar o
quadro geral
(
n.º 4
) das
medidas cefálicas
do
recêm-nascido português, baseado em três mil quatrocentas e cinqùenta mensurações, absolutamente comparáveis
, porquanto, a-pesar-de realizadas por
várias pessoas
, todavia, nem deixou de ser a mesma a
técnica
empregada, nem foram diferentes as
circunstâncias
, em que se operou.
QUADRO N.º 4 (Diâmetro e Perímetro craniano do recêm-nascido português)
Número de observações Nomes dos observadores Diàmetros cranianos Perímetros cranianos
O F B P S O F
2877 Alfredo da Costa 11.58 9,35 32,78
529 Costa Sacadura 11,09 8,89 32,42
48 Carneiro Leal 11,40 9,10 32,50
Médias gerais (centímetros) 11,35 9,11 32,56
O
índice cefálico médio dos portugueses
, segundo as
observações
de Ferraz de Macedo
[75]
, Costa Ferreira
[76]
, Álvaro Basto
[77]
, Sant'Ana Marques
[78]
e Fonseca Cardoso
[79]
, é de 76,4, no
vivo
, e de 74,5, no
crânio
.
Mas êste
índice
(apenas variável entre 78,7 e 75,2, nos 17
distritos
) é o do
adulto
[80]
.
Que saibamos, não existem, em o nosso país, quaisquer
trabalhos
sobre o
índice cefálico da criança portuguesa, nas diferentes idades da sua evolução
, a começar no
recêm-nascido
; crêmos, todavia, que os
elementos
, constantes do
quadro
n.º 4
, não poderão deixar de reputar-se
suficientes
para legitimarem a adopção (ao menos,
a título provisório
) da
expressão
80,2, como
valor médio
do referido
índice
, em relação ao
recêm-nascido
[81]
.
2.—Prosseguindo, apresentamos agora a seguinte
tabela
(
n.º 4
), que condensa os
resultados
(absolutamente inéditos) das
observações
feitas no
Liceu de Coímbra
, nas
circunstâncias
que já indicámos, a propósito da
estatura
.
A
média
do
índice cefálico
, correspondente a cada uma das
idades
consideradas, figura numa coluna desta
tabela
.
TABELA N.º 4 (Diâmetros cranianos, de alunos do Liceu de Coimbra)
Idades Antero-posterior máximo Média Transverso máximo Média Índice cefálico
12-15 16-19 20-23 24-27 28-31 12-14 15-17 18-20 21-23 24-26
10-11 — 60 3 — — 17,6 50 17 — — — 13,7 77,8
11-12 — 120 13 — — 17,8 102 31 — — — 13,6 76,2
12-13 — 163 10 — — 17,7 123 50 — — — 13,8 77,9
13-14 — 144 13 — — 17,8 102 55 — — — 14 78,7
14-15 — 128 20 — — 18 86 58 4 — — 14,3 79,4
15-16 — 101 39 — — 18,6 52 88 — — — 14,8 79
16-17 — 96 60 — — 19 60 96 — — — 14,8 77,8
17-18 — 80 62 1 — 19,2 50 93 — — — 14,9 77,6
18-19 — 59 61 — — 19,5 36 84 — — — 15 76,9
19-20 — 31 38 — — 19,5 20 49 — — — 15,1 77,5
20-21 — 20 23 — — 19,6 14 29 — — — 15 76,5
POLÍGONO DE VARIAÇÃO DO INDICE CEFÁLICO, EM RELAÇÃO À IDADE

Consoante se depreende dos
valores
expressos na
tabela
n.º 4
, a
forma craniana
que subsiste nos alunos do liceu de Coímbra,
em tôdas as idades da sua evolução, a partir dos dez anos
, é a
mesaticéfala
, segundo a nomenclatura de Topinard
[82]
.
De facto, basta reparar no
gráfico
da
figura n.º 9
para, desde logo, reconhecer que os
valores extremos
, registados (76,2—79,4), não deixam de pertencer à mesma
classe de índices
, que ocupa a
posição média
entre a
dolicocefalia
e a
braquicefalia
.
Êste
facto
, que é fecundo em conseqùências, para o
estudo ântropo-sociológico
do nosso
grupo étnico
[83]
, acha-se plenamente confirmado pelas
observações
realizadas na
Escola de alunos marinheiros do Norte
.
Essas
observações
constam do
mapa
ou
tabela
n.º 5
que, a seguir, publicamos:
TABELA N.º 5 (Alunos marinheiros)
Idades Diâmetros cranianos Índice cefálico
Anos 1913-1914 Anos 1914-1915
Antero-posterior Transverso Antero-posterior Transverso
16-17 18,3 14,5 19,1 14,7 78
17-18 19,2 14,7 19,2 14,6 76
18-19 19 14,5 19,3 14,5 75,5
19-20 — — 20 15 75
Confrontando os
índices cefálicos
desta
tabela
(
n.º 5
) com aqueles que lhes correspondem, na
tabela
n.º 4
(liceu de Coímbra), notam-se, sem dúvida,
diferenças consideráveis
; mas importa ponderar, que
essas diferenças não são tamanhas, como à primeira vista poderia parecer, visto que elas não importam nos
adolescentes
a que se referem, uma mudança de classe, quanto à forma craniana, que se mantêm mesaticéfala
.
Com relação a
medidas cefálicas
, devemos registar ainda o
perimetro craniano
, medido, na
Escola de alunos marinheiros
, durante dois anos consecutivos, em mais de cento e cinqùenta rapazes.
A seguinte
tabela
(
n.º 6
) condensa as respectivas
mensurações
.
E, da mesma
procedência
, podemos ainda mencionar (em matéria de
dimensões horizontais
) as
notações
, que se referem ao
perímetro
e aos
diâmetros da bacia
dos alunos considerados, as quais se acham sintetizadas nas
médias
das
tabelas
(n.
os
7
e
8
) que, a seguir, publicamos:
TABELA N.º 6 (Alunos marinheiros)
Idades Perímetro cranino Médias
Ano 1913-1914 Ano 1914-1915
16-17 55 55,5 55,2
17-18 54,9 55,3 55,1
18-19 54,6 55,7 55,1
19-20 56 — 56
TABELA N.º 7 (Alunos marinheiros)
Idades Perímetro pélvico
Ano 1914-1915
16-17 78,5
17-18 79,3
18-19 80,2
19-20 83
TABELA N.º 8 (Alunos marinheiros)
Idades Diâmetros pélvicos Índice pélvico
Anos 1913-1914 Anos 1914-1915
Antero-posterior[84] Transverso Antero-posterior Transverso
16-17 17,7 25,2 18,8 26,4 70,7
17-18 18,5 25,9 19,3 26,5 72,1
18-19 20,5 26,3 20 26,8 76,2
19-20 20,6 26,6 20,3 27 76,2
3.—Um dos
elementos
mais importantes para a avaliação das
proporções do corpo humano
é aquele que deriva das
mensurações diametrais do tronco
, isto é, dos
diâmetros pélvicos
(já considerados), e dos
diâmetros torácicos
[85]
.
As
tabelas
n.
os
9
,
10
e
11
que, a seguir, publicamos, resumem as
mensurações comparáveis
dos
diâmetros torácicos
de
crianças
, pertencentes ao
liceu de Coímbra
, ao extinto
colégio de Campolide
, e à
escola de alunos marinheiros do norte
[86]
.
TABELA N.º 9 (Liceu de Coimbra) (Diâmetros torácicos)
Idades Diâmetro ântero-posterior Médias Diâmetro transverso Médias Índice torácico (sem fracções)
13-15 16-19 20-23 24-27 28-31 12-14 15-17 18-20 21-23 24-26 27-29 30-32 33-35
10-11 133 8 1 — — 13,7 — — 120 22 — — — — 19,4 141
11-12 141 34 — — — 13,9 — — 126 43 6 — — — 19,9 143
12-13 100 46 — — — 14,7 — — 100 20 26 — — — 20,4 138
13-14 65 80 3 — — 15,8 — 3 3 132 10 — — — 22 139
14-15 20 85 — — — 16,7 — — 7 72 26 — — — 22,5 134
15-16 10 100 90 — — 19,1 — — — 15 113 60 12 — 26 136
16-17 8 80 100 47 — 20,6 — — 2 9 60 103 61 — 27,2 136
17-18 5 40 100 30 — 21 — — — — 44 124 7 - 27,3 134
18-19 — 37 98 35 — 21,4 — — — 2 12 130 26 — 28 130
19-20 — 5 70 20 — 22,1 — — — — 11 70 14 — 29 131
20-21 — — 60 17 15 22,5 — — —- — 8 50 34 — 29,8 132
TABELA N.º 10 (Colégio de Campolide) (Diâmetros torácicos)
Idades Diâmetro ântero-posterior (médias) Diâmetro transverso (médias) Índice torácico (sem fracções)
6-7 14,4 20 138
7-8 15,4 19,5 126
8-9 15,2 19,5 128
9-10 15,7 19,7 125
10-11 15,7 20,5 130
11-12 16 21,1 132
12-13 16,6 21,6 130
13-14 17 22,4 132
14-15 17,6 23,4 132
15-16 18,4 24,7 134
16-17 18,9 25,6 146
17-18 19,4 26 134
18-19 19,4 26,4 136
19-20 20 26,5 132
20-21 18,4 27 146
TABELA N.º 11 (Alunos marinheiros) (Diâmetros torácicos)
Idades Diâmetro ântero-posterior Diâmetro transverso Ant. post. Transv. Índices torácicos (sem fracções)
Anos 1913-1914 Anos 1914-1915 Anos 1913-1914 Anos 1914-1915 Médias
16-17 19,5 19,7 25 25,8 19,6 25,4 129
17-18 20,2 19,7 26,1 26,3 19,9 26,2 131
18-19 19,3 20 26,4 26,6 19,6 26,5 135
19-20 19 20 27 26,5 19,5 26,7 136
De cada uma destas três
tabelas
(n.
os
9
,
10
e
11
) extraímos as
notações
, com que organizámos o
quadro n.º 5
, no intuito de aproximar todos os
elementos
considerados, e obter
médias gerais
, não sòmente das respectivas
mensurações
, como dos
índices
, a que elas dão origem
[87]
.
A
técnica
, adoptada nas
observações
, foi análoga para todos os
observadores
:
compasso de espessura de Broca
, com as
pontas
apoiadas, respectivamente, à
altura da extremidade inferior do esterno
, e sobre a
saliência óssea posterior
, do mesmo plano horizontal (
diâmetro ântero-posterior
); e, no mesmo
plano xifo-esternal
, sobre as
convexidades costais
(
diâmetro transverso
)
[88]
.
QUADRO N.º 5 (Diâmetros e índices torácicos) (médias gerais)
Idades Diâmetro ântero-posterior Diâmetro transverso Índice torácico
Liceu de Coimbra Colégio de Campolide Alunos marinheiros Liceu de Coimbra Colégio de Campolide Alunos marinheiros
6-7 — 14,4 — — 20 — 138
7-8 — 15,4 — — 19,5 — 126
8-9 — 15,2 — — 19,5 — 128
9-10 — 15,7 — — 19,7 — 125
10-11 13,7 15,7 — 19,4 20,5 — 135
11-12 13,9 16 — 19,9 21,1 — 137
12-13 14,7 16,6 — 20,4 21,6 — 134
13-14 15,8 17 — 22 22,4 — 135
14-15 16,7 17,6 — 22,5 23,4 — 133
15-16 19,1 18,4 — 26 24,7 — 135
16-17 20,6 18,9 19,6 27,2 25,6 25,4 137
17-18 21 19,4 19,9 27,3 26 26,2 133
18-19 21,4 19,4 19,6 28 26,4 26,5 133
19-20 22,1 20 19,5 29 26,5 26,7 133
20-21 22,5 18,4 — 29,8 27 — 139
Para boa inteligência dos
valores métricos
, constantes do
quadro
n.º 5
, e sua legítima interpretação, construímos o presente
gráfico
(
figura n.º 10
), pelo qual se vê (se o confrontarmos com os
gráficos
das figuras n.
os
1
e
2
), que os 15-16 anos constituem, como que o
eixo da evolução
somática
, por isso mesmo que assinalam uma
profunda modificação
no
sistema
ou no
ritmo
dessa
evolução
.

De facto, antes dessa
idade
(coincidente com a
instalação da puberdade
), o que mais
aumenta
no organismo são as
dimensões verticais
(
alturas
), ao passo que, depois, o que sobretudo concorre para o
crescimento
são as
dimensões horizontais
(
larguras
,
espessuras
,
grossuras
).
Fica, assim, mais uma vez demonstrado, pelos
factos
, que a
lei da alternância
(como expressão da
lei das proporções
) é efectivamente o
grande princípio regulador
de tôda a
energética do crescimento
[89]
.
4.—Com os
elementos
enumerados e sumàriamente descritos, nas páginas precedentes, podemos agora organizar os
cânones antropométricos da criança portuguesa
,
em tôdas as idades da sua evolução somática
: 1)
nascença
; 2)
infância
; 3)
puerícia
; 4)
adolescência
; 5)
puberdade
; e 6)
nubilidade
ou
idade adulta
.
As
percentagens
dêstes
cânones
, assim como os seus
valores numéricos absolutos
(expressos em centímetros) são sempre calculados sobre as
médias
das respectivas
mensurações
.
Na falta destas (infelizmente, freqùente), recorre-se a
valores
de
tabelas estrangeiras
, organizadas com
elementos
colhidos em
meios
, tanto quanto possível, assimiláveis ao nosso.
1) Cânon antropométrico da Idade adulta
A Projecções verticais (altura dos segmentos)[90]
Partes do corpo Sexo masculino Sexo feminino
Percentagem Valor métrico absoluto[91] Percentagem Valor métrico absoluto
I. Busto 1) Cabeça[92] 13,3% 22cm,18 53,5% 82cm,39
2) Pescoço[93] 4,2% 7cm,10
3) Tórax[94] 35% 58cm,38
4) Ventre[95]
5) Bacia[96]
II. Membros Superior (torácico)[97] 1) Espádua 19,5% 32cm,53 —- 69cm
2) Braço
3) Cotovêlo
4) Antebraço 14% 23cm,45
5) Punho
6) Mão 11,5% 19cm,19
Inferior (abdominal)[98] 1) Anca 20% 33cm,36 46,5% 71cm,61
2) Côxa
3) Joelho
4) Perna 23% 38cm,36
5) Tornozêlo
6) Pé 4,5% 7cm,61
B Perímetros (grossura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
I. Cabeça[99] 56cm 53cm
II. Tronco[100] 83cm 85cm
III. Braço[101] 31cm —
IV. Antebraço[102] 27cm —
V. Côxa[103] 53cm,5 —
VI. Perna[104] 39cm —
C Diâmetros (espessura e largura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
I. Cabeça ântero-posterior[105] 19cm,7 18cm,6
transverso[106] 15cm 14cm,7
II. Tronco ântero-posterior[107] 20cm,4 18cm,5
transverso[108] 28cm,4 24cm,8
III. Bacia ântero-posterior[109] 20cm,5 20cm
transverso[110] 26cm 27cm
D Outras medidas
Sexo masculino Sexo feminino
Densidade (pêso) de todo o corpo 66 quil. 52 quil.
do cérebro 1 quil., 360 1 quil., 200
do cérebro, em relação ao corpo 2%
Índice cefálico 76,4 75,7
Índices torácicos 1.º 139 133
2.º 50 55
Índice pélvico[111] 78 74
A presente
síntese gráfica
(
figura
n.º 11
) representa o
corpo humano
, na
idade adulta
, segundo as
proporções
do antropologista Topinard
[112]
; e as
figuras
seguintes (n.
os
12
,
13
,
14
e
15
) resumem (de conformidade com os
elementos
considerados) as
proporções do corpo da criança portuguesa, nas diferentes idades da sua evolução
.
São
expressões gráficas
dos
cânones antropométricos
(em parte, conjecturais) que elaboramos, sob
forma numérica
[113]
.
Resta agora, para complemento do nosso
estudo
, determinar as
características mentais e morais
de cada uma daquelas
idades
, em ordem a fazer corresponder aos
cânones somáticos
que as exprimem, os
cânones psíquicos
, por que se revelam.
A
psicologia do homem português
tem sido estudada, com fortuna vária, por nacionais e estrangeiros
[114]
.
Nós, remetendo o leitor para as
obras
especiais, apenas observaremos que o
adulto lusitano
é (e sempre foi) o que se pode chamar um
tipo equilibrado
: inteligente, afável, laborioso, sóbrio; mas, ao mesmo tempo, pouco tenaz nas suas
iniciativas
, e um tanto supersticioso e fatalista.
CÂNON ANTROPOMÉTRICO DA IDADE ADULTA

Para explicar a época de
Quatrocentos
, falou-se do
afêrro ao solo
do
homem do Norte
, do mesmo modo que, para interpretar
Quinhentos
, se invocou o
urbanismo
, a versatilidade e o
espírito de aventura
do
homem do Sul
[115]
; a verdade, porêm, é que, nem mesmo em relação ao
Passado
, essa distinção pode subsistir, porquanto, não só o
Brasil
é um produto do
Norte
, como até, na própria
emprêsa da Índia
, a participação dêste é insofismável.
Sem a
superstição das origens
, embora com respeito absoluto pela
hereditariedade
, entendemos que é do
Presente
que importa curar; e, desde então, ninguêm contestará que a qualidade primacial da
gens lusa
é a
maleabilidade
, ou seja êsse admirável
poder ou capacidade de adaptação
, que torna os portugueses
cosmopolitas
, e os habilita a assimilar, com proveito e facilidade, os produtos da
civilização
.
2) Cânon antropométrico do Recêm-nascido
(Durante o primeiro mês) A Projecções verticais (altura dos segmentos)[116]
Partes do corpo Sexo masculino Sexo feminino
Percentagem Valor métrico absoluto Percentagem Valor métrico absoluto
I. Busto 1) Cabeça 23%[117] 11cm,5 — —
2) Pescôço 43%[118] 21cm,5 — —
3) Tronco — —
II. Membros Superior (torácico)[119] 34% 17cm — —
Inferior (abdominal)[120] 34% 17cm — —
B Perímetros (grossura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
I. Cabeça (Perímtro craniano) 32cm,56 —
II. Tronco (Perímetro torácico) 33cm —
C Diâmetros (espessura e largura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
Cabeça ântero-posterior máximo 11cm,35 —
transverso 9cm,11 —
D Outras medidas:
Sexo masculino Sexo feminino
Densidade (pêso) de todo o corpo 3quil., 234 3quil., 103
do cérebro 350gr. 290gr.
do cérebro em relação ao corpo 11% —
Índice cefálico 80,2 —
Índices torácicos 1.º[121] 100 —
2.º[122] 66 —
Conformação geral do recêm-nascido
[123]
:
1)
Cabeça volumosa.
(Na
cabeça
, o que mais avulta é o
crânio
; a
face
é pouco desenvolvida);
2)
Tronco cilindrico.
(Os diâmetros do
tórax
são iguais);
3)
Pernas curtas.
À
criança que vem de nascer
, chamou Virchow
um ser espinhal
; e com razão, porque, embora ela possua um
cérebro
, já bastante desenvolvido
[124]
, todavia, em tôda a
dinâmica da sua vida
, não existe
acto
, que possa furtar-se ao mais completo e perfeito
automatismo
[125]
.
CÂNON ANTROPOMÉTRICO DO RECÊM-NASCIDO

Se fôsse lícito falar de uma
psicologia
do
recêm-nascido
, seria para lhe reduzir a
consciência embrionária
à
cenestesia
(sensações viscerais) e ao
instinto de nutrição
[126]
.
De facto, à
hora da nascença
, a
criança
(como os
anencéfalos
) não passa dum
reactivo
(sem
espontaneidade
) às excitações do
mundo externo
; e, por muito tempo ainda, ficará uma perfeita
máquina de absorpção
, destinada a servir, quási exclusivamente, as necessidades da
vida vegetativa
[127]
.
Não se torna, portanto, muito difícil descobrir a
fórmula psíquica do recêm-nascido
: «
une bouche qui vagit et qui absorbe
», como escreveu o director do
Instituto de psicologia zoológica
, de Paris
[128]
.
3) Cânon antropométrico da Infância
(Pelos três anos) A Projecções verticais (altura dos segmentos)[129]
Partes do corpo Sexo masculino Sexo feminino
Percentagem Valor métrico absoluto Percentagem Valor métrico absoluto
I. Busto 1) Cabeça 20% 16cm,6 — 16cm,6
2) Pescôço 42% 34cm,8 — 34cm
3) Tronco
II. Membros Superior (torácico) 37% 30cm,7 — 29cm,9
Inferior (abdominal) 38% 31cm,6 — 30cm,8
B Perímetros (grossura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
I. Cabeça (Perímtro craniano) 48cm —
II. Tronco (Perímetro torácico) 50cm —
C Diâmetros (espessura e largura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
Cabeça ântero-posterior máximo 16cm,7 —
transverso 13cm,4 —
D Outras medidas:
Sexo masculino Sexo feminino
Densidade (pêso) de todo o corpo 11quil., 700 11quil., 250
do cérebro 800gr. 780gr.
do cérebro em relação ao corpo 7% —
Índice cefálico 80 —
Índices torácicos 1.º — —
2.º 60 —
J. J. Rousseau expôs, no seu
Emílio
, tôdas as
ideas essenciais
à boa organização dum
cânon psíquico da infância
. Diz êle: «Les premières sensations des enfants sont purement affectives; ils n'aperçoivent que le plaisir et la douleur. Ne pouvant ni marcher ni saisir, ils ont besoin de beaucoup de temps pour se former, peu à peu, les sensations représentatives qui leur montrent les objets hors d'eux-mêmes; mais en attendant que ces objets s'étendent, s'éloignent pour ainsi dire de leurs yeux, et prennent pour eux des dimensions et des figures, le retour des sensations affectives commence à les soumettre à l'empire de l'habitude; on voit leurs yeux se tourner sans cesse vers la lumière...»
[130]
.
CÂNON ANTROPOMÉTRICO DA INFÂNCIA

A
idade infantil
(até aos três anos) será tôda preenchida pela
aquisição
de hábitos
, que tornem possível e rápida a
faculdade de adaptação
.
O
infante
não é já sòmente
uma bôca que absorve
; mas tambêm uma
actividade que se exerce
, no sentido de promover e assegurar o seu
equilíbrio com o meio
.
São
molas reais
da
dinâmica infantil
o
prazer
e a
dôr
; e a êstes
estimulantes
da
evolução orgânica
, se deve quási tôda a
fórmula psíquica da infância
, que é análoga à do
animal superior
[131]
.
Não será, pois, de admirar que as
aquisições mentais
das crianças desta
idade
se subordinem
à lei da recorrência
, que é o grande
princípio regulador
de tôda a
vida representativa
[132]
.
Em resumo, a
psicologia da infância
, longe de confinar-se no
mecanismo dos instintos
, ultrapassa a própria
esfera da afectividade
, e compreende já as manifestações complexas da
percepção
e da
associação
[133]
.
4) Cânon antropométrico da Puerícia
(Pelos sete anos) A Projecções verticais (altura dos segmentos)[134]
Partes do corpo Sexo masculino Sexo feminino
Percentagem Valor métrico absoluto Percentagem Valor métrico absoluto
I. Busto 1) Cabeça 16% 18cm,3 — 16cm,9
2) Pescôço 40% 45cm,8 — 42cm,4
3) Tronco
II. Membros Superior (torácico) 42% 48cm — 44cm,5
Inferior (abdominal) 44% 50cm,4 — 46cm,7
B Perímetros (grossura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
I. Cabeça (Perímtro craniano) 50cm,8 —
II. Tronco (Perímetro torácico) 50cm,3 —
C Diâmetros (espessura e largura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
Cabeça ântero-posterior máximo 17cm,6 —
transverso 14cm —
Tronco ântero-posterior 14cm,4 —
transverso 20cm —
D Outras medidas:
Sexo masculino Sexo feminino
Densidade (pêso) de todo o corpo 18quil., 900 16quil., 450
do cérebro 1quil., 100 950gr.
do cérebro em relação ao corpo 5% —
Índice cefálico 79 —
Índices torácicos 1.º 138 —
2.º 51 —
Na
progressiva diferenciação funcional da criança
, a
puerícia
ocupa um lugar proeminente, porque é nesta
idade
que a
espontaneidade mental
, servida pela
experiência
, abre novos horizontes à
vida representativa
; e gera a
idea do eu
, que vai ser a
base da personalidade
[135]
.
O psicólogo Baldwin caracterizou a
puerícia
, chamando-lhe: «
período de percepção dos objectos
, e de correspondentes
reacções
, por
sugestão
e
imitação
»
[136]
.
CÂNON ANTROPOMÉTRICO DA PUERÍCIA

Efectivamente, o que mais domina, nesta época, são os
interêsses perceptivos e glóssicos
[137]
; alêm de que, o desenvolvimento da
atenção espontânea
e o início da
atenção voluntária
(condições essenciais do
raciocínio
) tambêm são suas características.
Sintéticamente, a
puerícia
representa, na
vida evolutiva
da criança, a
idade média
, ou o
período de transição
(ainda não influenciado pela
lei dos sexos
) entre a
impulsividade dos instintos
, temperada já por uma certa
autonomia da consciência
, e a
idade crítica do crescimento
, que será aquela, em que se operar a transformação definitiva do
corpo da criança
no
organismo do adulto
.
5) Cânon antropométrico da Puberdade
(Pelos quinze anos) A Projecções verticais (altura dos segmentos)[138]
Partes do corpo Sexo masculino Sexo feminino
Percentagem Valor métrico absoluto Percentagem Valor métrico absoluto
I. Busto 1) Cabeça 14% 21cm,6 — 21cm,2
2) Pescôço 39% 60cm,4 — 59cm,3
3) Tronco
II. Membros Superior (torácico) 44% 69cm,7 — 68cm,4
Inferior (abdominal) 47% 72cm,8 — 71cm,5
B Perímetros (grossura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
I. Cabeça 54cm 51cm
II. Tronco 72cm,6 71cm,5
III. Braço 24cm,3 —
IV. Antebraço 20cm —
V. Côxa 44cm —
VI. Perna 29cm —
C Diâmetros (espessura e largura dos segmentos)
Partes do corpo Valores métricos absolutos
Sexo masculino Sexo feminino
I. Cabeça ântero-posterior 18cm,6 —
transverso 14cm,8 —
II. Tronco ântero-posterior 19cm,1 —
transverso 26cm —
III. Bacia ântero-posterior 16cm,5 —
transverso 22cm —
D Outras medidas:
Sexo masculino Sexo feminino
Densidade (pêso) de todo o corpo 46quil., 300 49quil., 435
do cérebro 1quil., 300 1000gr.
do cérebro, em relação ao corpo 3% —
Índice cefálico 79 —
Índices torácicos 1.º 136 —
2.º 46 —
Índice pélvico 75 —
A
adolescência
constitue uma época de
instabilidade orgânica
, que prepara a
criança
para os
desequilíbrios da puberdade
.
«Nenhum período da vida, escreve Mendousse, é mais fecundo em surprêsas de todo o género, porque, ao lado das
faculdades novas
que começam a desenhar-se, persistem os
hábitos antigos
, que não querem desaparecer»
[139]
.
Daqui, um
conflito de energias
, que lança o
adolescente
em
perplexidades
, cuja eficiência, por vezes, lhe pode ser funesta.
CÂNON ANTROPOMÉTRICO DA PUBERDADE

Stanley Hall redigiu o
catálogo
dos
contrastes
e das
flutuações mentais e morais da adolescência
, pelo qual se vê que, de facto, a
criança
desta
idade
possue uma
vida inadaptada
, que é a fonte dos seus
êrros
e da maior parte dos seus
sofrimentos
[140]
.
Quando a
puberdade
se aproxima, então, a
anarquia
e o
choque
das
tendências
, ainda é maior.
A
criança
, solicitada por
fôrças estranhas
, cujos efeitos desconhece, sofre dum
desequilíbrio
, que lhe não permite adaptar-se, desde logo, às
condições do meio
; e passarão alguns anos, antes que se organizem, em direcções definidas, os
novos hábitos mentais
, que as
novas circunstâncias
exigem.
A
puberdade
é o
centro do crescimento
; a
idade crítica
, por excelência; aquela, em que se decide a
sorte
, todo o
futuro
da
criança
[141]
.
Época das
grandes transformações do organismo
; e, sob a influência da
diferenciação, estádio decisivo da constituição específica de cada sexo
, a
puberdade
marca, na marcha da
evolução
, o momento preciso, em que a
Natureza
entra de preparar o
ser humano
para o
exercício da função
, de que depende a
perpetuidade da espécie
.
Esta é a sua
característica fundamental e diferencial
, o
eixo
sôbre que gira toda a
complexa e contraditória psicologia do adolescente
.
CAPÍTULO V Processo bio-químico do «crescimento»: osteogénese
1.—Como fenómeno do
metabolismo funcional
, o «crescimento» é uma resultante da
síntese assimiladora do organismo
, operada sob a influência das
leis físico-químicas
, que a regulam
[142]
.
Essa
síntese
, porêm, não se realiza, da mesma maneira e nas mesmas condições, em relação a todos os
tecidos do organismo
; antes cada
elemento somático
cresce, a seu modo, consoante a
estrutura
que possue e a
função
a que se destina.
Ora, sendo provável que à
acção osteogénica
se subordine o
crescimento
de todos os
tecidos
do organismo, tanto em
macroplastia
(crescimento vertical), como em
euriplastia
(crescimento horizontal), é do
crescimento ósseo
que nos devemos ocupar.
2.—Principiando pelo
crânio
, todos sabem que a sua
morfologia
se modifica constantemente, desde a
vida embrionária
, até à
velhice
.
No início da
gestação
, o
crânio
é
cartilaginoso
e
membranoso
; depois, no
estado fetal
, adquire grande número de
pontos de ossificação
, de textura diversa, que se vão mutuamente soldando, de modo que, à
nascença
, o seu número é já muito limitado.
Não é, pois, de admirar que a
abóbada craniana
do
recêm-nascido
e a do
infante
se componham, desde logo, de
ossos
, ligados uns aos outros, por
suturas
e
fontanelas
[143]
, cujas principais, em
norma superior
, são a
obélica
e a
brègmática
(vulgo, a
moleirinha
, que fecha completamente, pelos quinze meses); e, em
norma lateral
, a
astésica
[144]
.
A ossificação, porêm, dêsses
espaços membranosos
, faz-se com tamanha rapidez que, pelos meados da
infância
, não existem já senão
suturas
, as quais, por sua vez, tambêm vão desaparecendo, pela vida adiante, e de tal sorte que, na
extrema velhice
, o crânio reduz-se a uma
massa óssea
, quási tam contínua e homogénea, como o era o
crânio membranoso do embrião
[145]
.
3.—Onde, todavia, se revela melhor o
mecanismo
do «crescimento», é na evolução da
coluna vertebral
(a princípio, tôda ela cartilaginosa) e, sobretudo, no crescimento dos
ossos longos do organismo
.
Na extremidade de cada
diáfise óssea
existe uma espécie de apêndice, chamado
epífise
, que se liga àquela, por uma cartilagem, de natureza particular, que os antropólogos designam pelo nome de
cartilagem de conjugação
.
Emquanto dura o
período de «crescimento»
(entre os vinte e os vinte e cinco anos), as
epífises
, normalmente, permanecem separadas da
massa óssea
que lhes corresponde (diáfises), pela respectiva
faixa cartilaginosa
, cuja estrutura é sede de uma
transformação histo-quimica
[146]
; mas, quando aquele período se encerra, em obediência à
lei da hereditariedade
, é porque as
epífises
se soldaram às
diáfises
, ou a
ossificação
invadiu, em tôda a sua espessura, as
cartilagens de conjugação
.
Fig. 16

As duas
figuras
que, a seguir, publicamos, extraídas da Obra de Launois, já citada, são
radiografias
da mão e do joelho dum indivíduo de
estatura gigantesca
, que, pelos trinta anos, continuava a
crescer
. Nessas
radiografias
, se observa nìtidamente a
persistência
daquelas
cartilagens
, a separar, por exemplo, as
diáfises do cúbito e do rádio
(
figura, n.º 16
) e as
diáfises do fémur, da tíbia e do peróneo
(
figura, n.º 17
) das
epífises
, que lhes pertencem.
Fig. 17

Segundo Topinard, são reùnidas ao
corpo do respectivo ôsso
, pelos quinze anos, as
extremidades superiores
do
rádio
e do
cúbito
(epífeses); pelos dezassete,
as
dos
dedos
; pelos dezoito,
as
do
fémur
, e as
inferiores
da
tíbia
e do
peróneo
; pelos dezanove,
as
dos
metatársios
, e
a superior
do
humerus
; finalmente, pelos vinte,
as
dos
mètacárpios
, e as das
extremidades inferiores
do
fémur
, do
rádio
, do
peróneo
e do
cúbito
[147]
.
CAPÍTULO VI Fórmulas antropométricas do «crescimento» normal, nas idades de evolução. Anomalias do «crescimento»; sua determinação, pelo processo antropométrico.
1.—Como se depreende dos
quadros
expostos no capítulo IV, cada
idade de evolução
possue suas
características antropométricas essenciais
.
Estas
características
derivam, não sòmente das assinaladas
dimensões verticais e horizontais
e doutros
elementos
do
sólido humano
, em cada uma daquelas
idades
, como tambêm e principalmente das
formas
e
cubagens
dos respectivos
órgãos
.
Ora, tanto as
formas
(que resultam do
desenvolvimento relativo
das diversas partes dum
órgão
), como as
cubagens
(que atestam o seu
volume específico
), podem exprimir-se, por meio de
fórmulas
(a que chamam
índices
), que denunciam sintéticamente as
relações ariméticas
de determinadas
dimensões
com outras, que se tomam por
unidades
[148]
.
Os
índices
que, em ordem ao fim que nos propômos, mais importa considerar, são:
( D. T. C. × 100 )
1) o índice cefálico
D. A. P. C.
( D. T. T. × 100 P. T. × 100 )
2) os índices torácicos e
D. A. P. T. A.
( B. × 100 )
3) o índice do tronco
A.
( Ab. M. )
4) o índice muscular ; e, finalmente,
P.
( C. )
5) o índice cérebro-visceral
V.
O
índice cefálico
(expressão da relação centesimal do
diâmetro ântero-posterior máximo do crânio
com o seu
diâmetro transverso máximo
) é, em Portugal, segundo as
notações
registadas, de 80, desde a
recêm-nascença
até à
infância
; e de 76-79, desde a
puerícia
, até à
puberdade
. No
adulto
, êste
índice
, desprezando fracções, fixa-se em 76
[149]
.
O
primeiro índice torácico
(expressão da relação centesimal do
diâmetro ântero-posterior máximo do tórax
(espessura do peito) com o seu
diâmetro transverso máximo
(largura do peito), é de 100, na
recém-nascença
; de 138, na
puerícia
; de 136, na
puberdade
; e de 139, na
idade adulta
[150]
.
O
segundo índice torácico
(expressão da relação do
perímetro torácico
multiplicado por cem, com a
altura do corpo
) decresce gradualmente, com a idade (66, na
recêm-nascença
; 60, na
infância
; 51, na
puerícia
), até à
puberdade
, em que baixa a 46. O
índice do adulto
(s. m.) 50, (s. fem.) 55.
O
índice do tronco
(fórmula da relação centesimal que existe entre as dimensões verticais do
busto
e as da
estatura
) tem servido de
critério
para agrupar as
crianças
em três categorias, consoante são
braquísquelas
(pernas curtas),
macrósquelas
(pernas longas) ou
mesatísquelas
(pernas médias).
A
braquisquelia normal
é a
forma antropométrica
, peculiar da
recêm-nascença
, da
infância
e ainda da
puerícia
. O número médio, que exprime o respectivo
quociente
, oscila, segundo os nossos cálculos, entre 55 e 80.
A
macrosquelia
manifesta-se, na
adolescência
e, sobretudo, no
período peri-pubertário
. O
índice
que lhe corresponde varia de 50 a 55.
Finalmente, a
mesatisquelia
(característica da
idade adulta
), em circunstâncias normais, por isso mesmo que exprime a
forma definitiva
do
sólido humano
, só se esboça, a partir da
puberdade
.
O
quociente
respectivo é 52
[151]
.
Resta o
índice muscular
(relação do
perímetro máximo do antebraço
com o
pulso
) para cuja avaliação carecemos de elementos suficientes; e o
índice cúbico crânio-visceral
(
C
⁄
V
), do qual
C
representa o
volume aproximado do cérebro
, determinado pelo cálculo da
capacidade craniana
(dupla multiplicação dos
diâmetros ântero-posterior máximo
,
transverso máximo
,
e vertical
); e
V
, a
capacidade do tronco
, onde se acham encerradas as
vísceras
(tambêm dupla multiplicação dos
diâmetros ântero-posterior máximo
, e
transverso máximo do tórax
, e
vertical do tronco
).
Êste
índice
(
C
⁄
V
) que exprime, portanto, a
relação proporcional
que existe entre o
encéfalo
(centro da
vida mental
) e as
vísceras
(centro da
vida vegetativa
), varia enormemente, desde o
nascimento
até à
idade adulta
, numa
ordem decrescente
, que desce de 74 a 20.
2.—Como, noutro lugar dissemos, o «crescimento», cujas
fórmulas antropométricas
acabamos de sumariar, pode ser
retardado
ou
acelerado
, por virtude de múltiplices
influências
, sem que, por êsse facto, deixe de considerar-se como
normal
.
Se, porêm, o
limite das oscilações do «crescimento»
fôr ultrapassado, então, sem dúvida que se tratará de
«crescimento anormal
»,
ou de
anomalias do «crescimento»
.
Estas
anomalias
, consoante as circunstâncias, poderão revestir diferentes
formas
; mas as principais são redutíveis a três:
1)
suspensões
; 2)
desvios
; 3)
desequilíbrios do «crescimento»
.
As
suspensões do «crescimento»
dão origem ao
nanismo
, ao
raquitismo
, ao
infantilismo
, etc.
[152]
.
Os
desvios
e os
desequilíbrios
podem gerar o
virilismo
, o
feminismo
, o
gigantismo
, a
acromegalia
, o
senilismo
; e, alêm doutras anomalias, o simples
retardamento
ou
atraso físico
[153]
.
Tôdas estas
doenças
, por via de regra, derivam de
estados orgânicos
, a que os médicos chamam
distrofias
(do grego Δυστροφοϛ); havendo-as do
pâncreas
, das
cápsulas supra-renais
, do
fígado
, das
glândulas genitais
, do
timus
, e, sobretudo, do
corpo tiroide
, glândula de secreção interna, situada na parte externa do
canal laringo-traqueal
[154]
.
A
insuficiência tiroidiana
(hipotiroidia), é a principal causa do maior número das
anomalias do «crescimento»
. Porquê? Laumonier responde: porque essas
anomalias
andam sempre ligadas (como o
efeito
à sua
causa
) à carência das
substâncias
(que o
corpo tiroide
, normalmente, segrega) capazes de neutralizar a acção dos
venenos
produzidos pelo próprio
organismo
, e de tornar os
elementos nervosos
refractários a êsses venenos
[155]
.
O
mixòedêma
, por exemplo, em tôdas as suas formas, deriva de perturbações orgânicas, que teem a sua origem na
atrofia
ou no desaparecimento do
corpo tiroide
; mas o
gigantismo
, a que já nos referimos, resulta precisamente dum vício oposto, a que se poderá chamar
hipertiroidia
, e que consiste em conservar, aos
ossos
, por uma superabundância de
secreção específica
, alêm de todo o limite, o
poder osteogénio
, ou a
capacidade de crescer
[156]
.
Como nota final dêste capítulo, cumpre estabelecer que se torna necessário não confundir as
anomalias do crescimento físico
com as
perturbações do desenvolvimento
mental
(idiotia, imbecilidade, psicastenias, etc.), cujas
causas
se devem procurar, antes, em
lesões do sistema nervoso
, determinadamente do
cérebro
, do que em
afecções somáticas
; e que é no confronto das
proporções normais do corpo
, nas
idades de evolução
, com as do
organismo que se pretende avaliar
, que consiste o
processo antropométrico
da determinação das
anomalias físicas
.
CAPÍTULO VII Doenças das crianças, nas idades de evolução. A mortalidade infantil, em Portugal. Crescimento desequilibrado; suas conseqùências.
1.—Há certas
doenças
que parecem
específicas
das crianças, como a
coqueluche
, por exemplo, as
infecções obstétricas
, etc.; e outras que, conquanto extensíveis ao
adulto
, todavia, atacam, de preferência, as crianças, como a
difteria
(determinadamente, o
garrotilho
), por exemplo, a
escarlatina
, o
trasorelho
, o
sarampo
, etc.
[157]
.
São conhecidos vários ensaios de classificação, por
idades
,
das doenças infecciosas das crianças
; tendo-se procurado tambêm, entre nós, organizar, em bases sérias, a
estatística nosológica infantil
[158]
.
Em face das últimas
publicações do Instituto central de higiene
[159]
, verifica-se que, em Portugal, as
doenças
mais freqùentes da
recêm-nascença
e da
infância
são aquelas que derivam da
debilidade congénita
, dos
vícios de conformação
, e das
infecções do tubo digestivo
(gastro-enterite); as da
puerícia
afectam, com singular pertinácia, o
aparelho respiratório
; e as da
adolescência
e
puberdade
, incidem, determinadamente, sobre os
pulmões
e sobre o
sistema nervoso
[160]
.
2.—Em relação à
mortalidade infantil portuguesa
, reputamos suficientemente averiguado o cálculo que a eleva à enorme cifra de
duzentos, por mil, com menos de dois anos de idade
, isto é, a um quinto dos
nados-vivos
e
sobreviventes
, até àquele limite
[161]
. O seguinte
gráfico
(
figura n.º 18
) exprime resultado análogo, pelo que respeita à cidade de Coímbra
[162]
.
Só, em Lisboa, Pôrto e Coímbra, morrem, em média, por ano, mais de
oito mil crianças
, dambos os sexos; e, em todo o país, de tôdas as idades, até aos vinte anos, nada menos do que, em média, um total, verdadeiramente apavorante, de
cinqùenta e cinco mil
, ou seja a
metade da mortalidade geral da população
!
3.—Nenhuma, porêm, destas
afecções
pode ser considerada como
doença propriamente do «crescimento»
, isto é, como
processo mórbido
, que tenha origem exclusiva nos fenómenos da
evolução somática
.
Êsses procedem sempre dum
crescimento desigual ou desencontrado dos tecidos do organismo
.
Sem dúvida que se não trata da
desigualdade
, que resulta da
lei fisiológica da alternância
; mas de
perturbações
ou
acidentes do crescimento
, que possam afectar o equilíbrio funcional do
sólido humano
, ou alterar-lhe a
constituição anatómica
.
Estes
acidentes
(cuja natureza é irredutível às
anomalias
, de que falámos no capítulo anterior, por isso mesmo que, como ficou estabelecido, teem a sua etiologia na
falta de paralelismo do crescimento
) manifestam-se, de preferência, durante a
fase peri-pubertária
.
Percentagens da mortalidade das crianças da primeira infância, na cidade de Coimbra

Por essa ocasião, as crianças sofrem, muitas vezes, de dôres nos
ossos
, nas
articulações
, nos
músculos
; teem
cefalalgias
, freqùentes; padecem de
cloro-anemia
, de
neurastenia
, de
perturbações cardiacas
; experimentam
mutações bruscas de temperamento e de carácter
; sentem
impulsividades mórbidas
; etc., etc.
[163]
.
Ora, tôda esta
sintomatologia
constitui aquilo a que chamaremos o
sindroma do crescimento desigual
, cujas
causas profundas
se devem procurar, concretamente, em
factos
, de natureza análoga à dos dois que vamos indicar: 1) a coincidência da
suspensão ou abrandamento
(aliás, normal)
do crescimento cutâneo
, por ocasião da
puberdade
, com o
aumento, alêm de tôda a medida, dos ossos longos
, por virtude dalguma
infecção do organismo
[164]
, ou de qualquer outra
causa
,
de ordem bio-química
; 2) o
crescimento desencontrado do eixo cinzento
(medula) e do
canal ósseo que lhe serve de baínha
(coluna vertebral)
[165]
.
CAPÍTULO VIII Higiene do «crescimento»; exercícios físicos: jogos e gimnástica
1.—É evidente que para
crescer bem
, não basta
deixar agir a natureza
(embora
isso
seja essencial); mas tambêm é necessário
auxiliar o crescimento
, isto é,
colocar o organismo em condições que sejam favoráveis à sua evolução normal, e impedir ou contrariar a acção dos factores, que possam ser prejudiciais a essa evolução
.
Entre as
práticas
que a
higiene
aconselha, em ordem ao
objectivo
designado, ocupam primacial lugar os
jogos infantis
, e a
gimnástica
.
Os
jogos são agentes naturais e instintivos do crescimento físíco e do desenvolvimento mental
, sendo por virtude da sua eficiência que a
hipertrofia do organismo
se realiza com maior persistência e eficácia
[166]
.
Sem querermos arriscar um
conceito definitivo
acêrca da
natureza intrínseca da actividade lúdica
, diremos, entretanto, que nos parece ser o
jôgo
um
efeito natural das leis biológicas
, a que todos os organismos se submetem, nas suas relações com o
meio
, em que carecem de subsistir.
O
jôgo
é uma
forma de adaptação
, um
prè-exercício
(como lhe chamou Karl Groos), um
ensaio
ou uma
preparação para a vida
[167]
.
Os
instintos herdados, com a organização e a ela inerentes
(instintos fundamentais) e, principalmente, os
instintos derivados dêstes
(instintos adquiridos) não aproveitariam tam perfeitamente à
vida dos organismos
, como lhes aproveitam, pela eficiência dos
jogos
, que não se destinam, senão a
desenvolver
,
radicar
e
robustecer
essas
energias latentes
, de cuja
acção
depende aquela
vida
[168]
.
Mas, alêm desta
função primordial
(tornar apto o
ser
para o
fim
, a que o destinam as
leis da vida
), servem ainda os
jogos
:
1) para
desenvolver actividades novamente adquiridas
;
2) para
estimular o «crescimento»
;
3) para
reduzir e canalizar tendências nocivas
;
4) para
criar e manter hábitos sociais
;
5), finalmente, para
corrigir a fadiga e regenerar as energias
,
gastas pelo trabalho orgânico
.
Os
jogos
são muitos, e variam, de país para país e, dentro de cada nação, de província para província e até de localidade para localidade, consoante o
género de vida
, as
tendências
, as
aptidões
, os
usos e costumes
, e as
necessidades físicas
,
morais e sociais
das respectivas populações.
Tem-se procurado
classificar
os
jogos
; mas, em virtude da multiplicidade dos
critérios
adoptados, falta
unidade de vistas
, e não há acôrdo nas
classificações
[169]
.
Entre nós, tambêm o problema não tem sido descurado, embora os
trabalhos
empreendidos sejam raros e incompletos
[170]
.
Nós, reconhecendo que,
sob o aspecto pedagógico
, os
jogos
constituem outros tantos meios, admiravelmente eficazes, de
auxiliar o «crescimento»
;
desenvolver a inteligência
;
aguçar a sensibilidade
;
robustecer e disciplinar a vontade
; e
formar o carácter
, agrupamos os
jogos
, nas seguintes categorias:
1)
jogos motores
(ou
somáticos
, porque desenvolvem o
organismo
);
2)
jogos sensoriais
(porque
educam os sentidos
e
promovem a destreza e precisão dos movimentos
);
3)
jogos experimentais
(porque
aperfeiçoam a inteligência
, e
satisfazem o instinto de curiosidade das crianças
);
4)
jogos afectivos
(ou
emocionais
, porque
fomentam a cultura da sensibilidade
);
5)
jogos inibitórios
(porque
despertam a atenção
e
educam a vontade
); e, finalmente,
6)
jogos estéticos
(ou
artísticos
, porque
estimulam os sentimentos desinteressados da criança
).
O seguinte
esquema
resumirá o nosso
ensaio de classificação
(segundo o
critério
adoptado) dos
jogos portugueses
, mais conhecidos e praticados, em todo o país.
2.—Do mesmo modo que os
jogos
, também a
gimnástica
interessa ao
«crescimento»
; não, porêm, a
gimnástica pedagógica
(útil apenas à
formação do carácter
), e muito menos a
gimnástica atlética
, que
perturba
e
pode comprometer
até a
marcha
e o
equilíbrio do «crescimento»
[171]
; mas a
gimnástica higiénica
, e desta, a
gimnástica respiratória
, cuja prática é de manifesta vantagem à
saúde do corpo
e à
dinâmica da sua evolução
[172]
.
marcha; carreira; salto; dança; luta; natação; patinagem; escorregamento; etc.
gerais
motores
escondidas; cantinhos; barra; eixo; péla; arco; baloiço; papagaio; rodas e rondas infantis; guerras; jôgo dos patos; etc.
especiais
tiro ao alvo; malha ou fito; jogos de equilíbrio; etc.
gerais
sensoriais
homem; semana; botão; ferrinho; pião; cabra-cega; forquilha; funda; inco, bilharda; das cinco pedrinhas; o recorte; etc.
especiais
damas; gamão; dominó; xadrez; todos os actos de curiosidade; etc.
gerais
exprimentais
paciências; adivinhas; anel; disparates; colecções; etc.
especiais
Jogos
jogos de imitação, e de imaginação; jogos de fantasia; etc.
gerais
afectivos
a boneca; todos os actos de auto-ilusão consciente; etc.
especiais
todos os actos de domínio sôbre si próprio; auto-imposições e auto-repressões; etc.
gerais
inibitórios
fazer de estátua; atitudes de imobilidade, diante do espelho; etc.
especiais
construções em terra, areia, neve, etc.; modelagem; pintura, e desenho de objectos; jogos dramáticos; etc.
gerais
estéticos
combinações de côres; repassagem de desenhos coloridos; etc.
especiais
São os seguintes os efeitos da
respiração profunda
, que a
gimnástica respiratória
promove e assegura:
1) activa as
trocas gasosas
, combinando uma maior quantidade de
oxigénio
com a
hemoglobina do sangue
;
2) descongestiona os
órgãos internos
, sobretudo, o
cérebro
;
3) regulariza as
funções digestivas
;
4) desenvolve a
musculatura do tórax e do abdómen
;
5) permite o arejamento das
partes do pulmão, em que o ar não penetra, senão com dificuldade
; finalmente,
6) auxiliando a
assimilação
e a
desassimilação
, facilita a
atenção
, roboriza a
vontade
, assegura a
disciplina
[173]
.
CAPÍTULO IX Evolução geral da mentalidade; fases desta evolução; e leis que a regulam. Os factores bio-psíquicos do «crescimento»
1.—A
vida mental da criança
(psiquismo infantil) não pode isolar-se, em nenhuma das
fases
do seu progressivo desenvolvimento, da
evolução do sistema nervoso
, cuja trajectória segue, desde o
útero
.
É absolutamente incontestável que,
sem cérebro, não há consciência
[174]
, e que a
consciência
se afirma sempre, na razão directa da
complexidade e da plasticidade do cérebro
[175]
.
Certamente que não ousamos atribuir a
causalidade
da consciência à pura
organização
, como fazem os
materialistas
; mas apenas reconhecemos o
facto averiguado
da
perfeita correlação
e da
coexistência necessária
da
actividade psíquica
com a
energia cerebral
[176]
.
Nos
animais vizinhos dos vegetais
(infusórios, pólipos, espongiários, etc.), do mesmo modo que (segundo parece) tambêm nos
vermes
, não existe ainda a
consciência
, mas tam sòmente
irritabilidade
e, quando muito,
sensibilidade
diferencial
[177]
; à medida, porêm, que se organiza o
sistema nervoso
, as
excitações
(causas físico-químicas das
reacções
) vão-se convertendo em
impressões
, e estas em
sensações
que, pela sua
diferenciação
, acabam por gerar a
consciência
, e, depois, a
auto-consciência
, ou a
capacidade de conhecer os próprios estados e respectivas modificações
[178]
.
Só a partir dos
vertebrados
, é que, por intermédio do
cérebro
, se torna possível a
vida consciente
e, com ela, a
atenção
, a
memória
, a
imitação
, a
associação
; numa palavra, as chamadas
operações intelectuais
[179]
.
2.—Conquanto, porêm, na
criança que vem de nascer
, exista já um
cérebro completo
, dum modo geral,
em tôdas as suas partes essenciais
, contudo, tanto a
estrutura
, dessas
partes
, como a
aptidão
para o
seu funcionamento
é que distam ainda muito daquele
grau de perfeição
, que se torna indispensável para a
integralidade da vida mental
[180]
.
Estudos recentes, empreendidos por investigadores eméritos
[181]
, permitem estabelecer que, no
encéfalo do recêm-nascido
, a
substância cinzenta do cérebro
é constituída por
células
ainda imperfeitas; e que carecem de consistência e de fixidez as
fibras nervosas
que ligam os
hemisférios
aos
gânglios da base do cérebro
, às
camadas ópticas
, e aos
corpos estriados
, dum modo geral, aos
centros sub-corticais
[182]
.
Alêm disso, sabe-se hoje que, sòmente a partir do primeiro mês de
vida extra-uterina
, é que se acentuam e desenvolvem as
circunvoluções
, cuja
estrutura
se vai complicando, à medida que a
superfície do cérebro
aumenta de
extensão
e de
volume
[183]
; e, finalmente, tambêm é positivo que a
mielinização do encéfalo
, conquanto seja iniciada no
útero
, todavia, só se acaba, pela vida adiante, em
fases
já relativamente avançadas da
evolução
[184]
.
Quer tudo isto dizer que, mesmo sob a relação do
pêso
e do
volume
, o
cérebro
não nasce
perfeito
e
completo
; embora, comparado com o resto do
corpo
, traga, à
nascença
, um desenvolvimento que, numèricamente, se poderá computar na
quarta parte
(25%)
do seu volume total
.
O
diagrama
que, a seguir, publicamos (
fig. n.º 19
), representa o
crescimento do cérebro
, desde o início da
vida intra-uterina
, até à
puberdade
, em que atinge o seu
máximo desenvolvimento, sob a relação do pêso e volume—absolutos
.
Mostra êste
gráfico
que o
pêso absoluto do cérebro
aumenta, com a idade, ao passo que o seu
pêso relativo
diminue.
À medida que o
organismo cresce
, o
cérebro
, sem deixar de acompanhar êsse
crescimento
, até à
puberdade
, contudo, cada vez,
cresce, com menor intensidade
(como se verifica pelos
aumentos, relativos a cada idade de evolução
); e, ao mesmo tempo, acusa uma
progressiva diminuição, nas proporções que mantêm com o corpo
[185]
.

Donde resulta que, sob a relação da
quantidade
, a
evolução cerebral
realiza-se e consuma-se antes da
evolução somática
, embora, sob o ponto de vista
qualitativo
, o
cérebro
continue a desenvolver-se.
O seguinte
gráfico
(
figura n.º 20
), completa o anterior, por isso mesmo que continua a
curva da evolução
para alêm da
puberdade
, no intuito de figurar,
quantitativamente
, tôda a
vida do cérebro
, desde que o
homem
nasce, até que morre.
Para compreensão, todavia, de todos os fenómenos da
bio-dinâmica mental
, torna-se necessário considerar o
elemento
qualitativo do crescimento cerebral
, isto é, a sua
capacidade fisiológica
.

Esta
capacidade
(que tambêm não exclue o
elemento quantitativo
) compreende ou abrange a
eficiência de tôdas
as causas que possam concorrer para a organização da vida cerebral
. Dentre essas
causas
(algumas pouco conhecidas, ainda), indicaremos, como mais importantes, as seguintes: 1) a
composição química
; 2) a
quantidade de substância cinzenta
; 3) o
número e a complexidade das circunvoluções
; 4) a
morfologia do encéfalo
; 5) a
relação do cérebro com as outras partes do encéfalo
; 6) as
relações do mesmo órgão com a altura e, em geral, com a massa activa do corpo
; 7) o
exercício cerebral
; 8) a
experiência do indivíduo
; 9) o
arranjo molecular das células cerebrais
; 10) as
associações dinâmicas dos elementos nervosos
, etc., etc.
[186]
.
Ora, se considerarmos todos êstes
factores
, desde logo, teremos de reconhecer a existência de uma outra
curva
: a da
aptidão funcional do cérebro
, cuja trajectória não coincide com aquela que exprime a sua
evolução quantitativa
, porque, como se verifica neste
diagrama
(
figura n.º 21
) o
cérebro continua a crescer, depois da puberdade
(15 anos); e até
com muito maior intensidade
, a partir dos vinte anos; para só
se deter
, aos cinqùenta, em que
estaciona
(por tempo de dez anos, em circunstâncias normais), antes de
decrescer
, como sucede, depois dos sessenta
[187]
.

Se compararmos, porêm, agora, esta
curva da bio-dinâmica cerebral
com a
curva da consciência
(
figura n.º 22
), notaremos que, desta vez, entre as duas
curvas
, há um
paralelismo perfeito
, o que explica e ilustra estas palavras concludentes e profundamente autorizadas de A. Marie: «A sciência demonstra,
de uma maneira absolutamente certa
, o facto da
simultaneidade e da correlação constantes e necessárias da actividade nervosa com a actividade mental
, fazendo dessas actividades
dois fenómenos
inseparáveis
, os quais nunca deixam de se manifestar conjuntamente,
e nem se pode conceber que um se produza, sem o outro
[188]
.
3.—O estudo (embora rápido) que vamos fazer das
fases da mentalidade
, confirmará plenamente o nosso
conceito da evolução da consciência
, pois mostrará que, entre a
inconsciência, em que a criança se gera
, e a
inconsciência, em que o individuo acaba
, se escalonam vários
graus de consciência
, cada qual representativo de seu
progresso
, e todos ligados a
estados orgânicos
, até a um
limite
, cuja
transposição
importa, sempre e em tôdas as circunstâncias, a
decadência
e, com ela, a
desorganização
e a
morte
.
A
consciência crepuscular
, que o
gráfico