O PRIMEIRO SORRISO
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Mal se tinham accendido as luzes no Colyseu, quando elle entrou devagarinho, triste, um pouco asmatico, meneando a cabeça pallida.
Parece que mais lhe pesava a corcunda n'aquella noite.
Andando pelo corredor estreito, que divide os camarotes dos logares mais baratos, foi encostar o queixo á teia de pinho, pintada{114} de branco, junto do caminho atapetado, que a cantora devia seguir do camarim para o palco.
Era uma artista celebre a que se estreava. Com oito dias de antecedencia tinha-se espalhado com profusão pela cidade, collado aos vidros das portas dos armazens de musica, pendurado em quadros ás esquinas das ruas, o retrato lithographado de mademoiselle Eva d'Avenay.
Um dia, o corcunda, passeando depois do jantar, como costumava, pela rua do Oiro, erguendo a cabeça, deu, de subito, com um d'aquelles retratos na loja d'um livreiro.
Parecido ou não, representava uma mulher lindissima.
Ficou extatico um momento; sentia tremer-lhe o coração um pouco, e como que dois dedos apertarem-lhe amorosamente a garganta.
Entrou envergonhado, e com voz sumida perguntou ao caixeiro se aquillo se vendia.{115}
—Um tostão.
Elle que nunca olhára para mulher senão cá de muito baixo, coitado, assentando no meio da espinha as abas do chapéu, que (facto pouco vulgar) por detraz é que amolleciam, podia finalmente, por um tostão (barato!) contemplar uma mulher bonita á vontade, sentado commodamente, sem ser visto e sem ter de córar.
Quando sahiu da loja, levando na mão o rolinho de papel pardo, que embrulhava a lithographia, caminhou mais depressa, quasi alegre, menos asmatico.
Chegou a casa, desdobrou o retrato sobre a mesa, encostou n'ella os cotovellos, e, com as fontes apertadas nos punhos cerrados, passou parte da noite em contemplação da extranha formosura.
Parecia-lhe que afinal aquella mulher tinha que reflectir para elle uma parte de tanto amor, que todo lhe estava dando e que era o primeiro que sentia.
Desejos haveria tido, mas amar... Quem?{116} Se, quando passava, todos se riam e ninguem, ninguem, jámais sorrira para elle!
Quando recordava tempos longinquos, via, como atravez d'um nevoeiro, uma mulher a quem elle estendia os bracinhos magros, que se lhe debruçava sobre o pequenino berço—tão pequenino!—e que o envolvia n'uma atmosphera de amor, beijando-o muito. Mas essa mulher tambem não sorria... chorava.
Chorava naturalmente de vel-o tão fraquinho, tão feio, tão infesado. Se o visse agora, cheio de rugas precoces, com os cabellos alvejando-lhe nas fontes, e triste sempre, sempre tão triste!
Por isso contemplava aquelle retrato, como se fôra possivel aquella mulher loira, voltar a cabeça no papel e enviar-lhe, só para elle, aquelle sorriso que, por todas as esquinas, por toda a parte, ella enviava... para quem?—para coisa nenhuma; que o retrato era a tres quartos e ninguem sabia para onde olhava.{117}
* * *
Os porteiros, cada um á sua porta a receberem os bilhetes, cantarolavam os bocejos e assoavam-se com estrondo para espertar. O theatro continuava ás escuras.
Um homem gordo entrou devagar, com as mãos nas algibeiras do collete, assobiando por entre dentes. Sentou-se, deitou as pernas para cima da cadeira que lhe ficava defronte, poz o lenço entre o pescoço e o collarinho, e, tirando um palito da algibeira, poz-se a espalitar os dentes, com um ar massado.
Duas ou tres filas mais adiante, um outro abanava-se pachorrentamente com o chapeu, virando um bocadinho a cara para lhe ir o fresco ás orelhas.
Conheciam-se e começaram conversando em voz alta:
—Olá, Conselheiro! Então tambem deitou até cá?
O homem gordo encolheu os hombros.{118}
—Não ha mais nada que fazer!
E depois de espalitar um bocado:
—Que isto cheira-me a fiasco.
—Ora! disse o outro com ar convencido e para estar de acordo. A tal mulher...
—A gente cai em cada uma...! terminou o Conselheiro.
E, encostando a cabeça para traz, deu largas a um bocejo formidavel.
Um arrumador, que passava n'aquelle instante, sorriu-se aduladoramente, curvando-se muito.
—Senhor Conselheiro...
—Adeus, seu José.
E fechou os olhos, como se estivesse dormindo.
Ah! se o corcunda não andasse tão rasteiro, se não fosse tão fraquinho, como perguntaria áquelle homem, frente a frente, com que direito bocejava, quando elle estava ali sentindo o coração a estalar-lhe no peito!
Os musicos com os instrumentos dentro{119} de saquinhos de chita, começaram a entrar, limpando o suor, resmungando arias, espreguiçando-se.
Deram oito horas. Chegaram umas carruagens a trote largo. O theatro encheu-se rapidamente.
Ouvia-se o sussurro das conversações e o ranger das varetas dos leques.
Os logares junto da teia, a que se encostara o corcunda, eram da predilecção de muitos; pouco a pouco foram-o empurrando, e elle apertado, afflicto com a asma, que logo o atacou violentamente, ouvia por detraz umas risadinhas zombeteiras. Sentiu n'uma orelha bater-lhe uma bolinha de papel. Um velho mal encarado, ao lado d'elle, estava de figa feita.
E resignado, agarrando-se aos balaustres da teia, esperava que fosse aquella noite a primeira feliz da sua vida.
Abriram as torneiras do gaz e a luz jorrou de repente.
Houve um sussurro maior. Muitos, que{120} ainda se não tinham visto, cumprimentaram-se. Os elegantes das cadeiras apontaram os oculos para os camarotes e começaram tirando os chapéus.
O theatro transbordava.
Os musicos afinavam os instrumentos. Ouviam-se por entre as variações alegres da flauta as notas harmonicas das rabecas. O homem dos timbales batia notas surdas com a mão esquerda e apertava com a direita as escaravelhas.
Afinal entrou o regente, de casaca e gravata branca, cumprimentando os collegas, emquanto descalçava a luva.
Bateu na estante e ergueu alto o braço.
Houve uns schius! assobiados por alguns amadores, que a toda a salla impuzeram silencio.
O regente olhou para todos os musicos, demorou-se um instante e depois, descrevendo com a batuta um quarto de circumferencia, fez signal ás rabecas, que logo começaram tocando muito piano, em unisono.{121}
Era com certeza mademoiselle Eva d'Avenay quem ali attrahia a maior parte dos espectadores. Os conversadores pouco a pouco foram elevando o tom e, como as rabecas sósinhas continuavam tocando pianissimo, havia o que quer que fosse fantastico n'aquelle maestro de grande cabelleira cahindo-lhe até á golla da sobrecasaca, elevando alto, muito alto, a batuta, e deixando depois cahir o braço a tremer, a tremer, commandando uns arcos que se mexiam como puchados por um só homem, mordendo cordas que não tinham som.
Decididamente o corcunda suffocava.
De repente, a um signal energico do regente, os metaes vibraram enchendo a sala de notas alegres, vivas, que n'um instante, como por encanto, cortaram as palestras. Foi um relampago de alegria. O regente sorriu-se delicadamente e as rabecas continuaram sósinhas no meio da distracção geral.
Um gaiato gritou lá de cima:{122}
—Muito bem!
Tinham acabado felizmente.
A respiração do corcunda era um apitosinho.
* * *
Instantes depois, corria-se uma cortina e encaminhava-se para o palco mademoiselle d'Avenay.
Houve um sussurro admirativo. Muita gente ergueu-se. Ouviram-se vozes:
—Abaixo!
Ella, já no palco, sorria impassivel, cumprimentando o publico, olhando em volta, muito serena.
Alguns enthusiastas davam palmas.
O Conselheiro olhou para o amigo e fez-lhe uma cara como quem diz:—de truz!
O regente muito amavel curvou-se para a cantora e fez-lhe baixinho uma pergunta.
Respondeu que sim, muito risonha, muito amavel.
As rabecas preludiaram.{123}
Ella concertava o decote e alisava o cabello na testa.
Era uma mulher em todo o esplendor da belleza dos trinta annos, de elegancia distincta e intelligente, alta, com o busto quebrado um pouco na cintura, o peito forte, braços admiraveis, hombros muito redondos, e nas costas, bem ao meio, uns dois ou trez signaes, que pareciam ter-lhe sido dados, de caso pensado, pela natureza, para que ninguem julgasse que aquelle busto era de marmore. Os olhos azues tinham um olhar profundo e os cabellos loiros e finos emmolduravam uma testa muito lisa, como de virgem de quinze annos.
Quando cantava, a bocca sympathica, fresca, sorria sempre, alegrando-se aos cantos com duas pregas infantis.
Do logar onde estava, o corcunda via-lhe o perfil sereno, a longa trança doirada e todo o vulto branco salientando-se na massa escura dos espectadores agglomerados nos degraus em amphitheatro do outro lado da sala.{124}
Quando ella acabou de cantar, toda a platéa applaudia, delirante.
O corcunda bem queria dizer—bravo! mas sumira-se-lhe a voz.
Mademoiselle d'Avenay cantou tres vezes n'aquella noite e o delirio crescendo sempre!
Agradecia muito reconhecida, pondo a mão no peito, fazendo ranger a seda do vestido.
Já os musicos se tinham retirado, já o illuminador começava fechando as torneiras do gaz e ainda novas ovações eccoavam na sala.
Ella tornava a subir ao palco, agradecendo, muito amavel, sorrindo como no retrato, para o ar, para coisa nenhuma.
E por onde passava deixava no rasto um cheiro forte, bom, que embriagava o corcunda.
* * *
Achou-se afinal sósinho.
Umas familias, que se tinham encontrado{125} á sahida, conversavam, emquanto as senhoras vestiam os chailes e os homens accendiam os cigarros.
Que fazia ali o corcunda? Viera na esperança de que essa mulher ideal, como elle não sonhara poder haver no mundo, reparasse no pobre verme e do seu pedestal lhe fizesse a mercê d'um olhar.
Mas nem ella o vira, nem elle pudera ajudar á ovação. Bem tinha deitado os bracinhos por entre os balaustres para applaudir; se não fosse a asma, teria gritado: bravo! mil vezes. Mas se era tão fraquinho...!
Estava extenuado, meio morto; a cabeça estalava-lhe.
Sentou-se n'um dos degraus da geral e escondeu o rosto entre as mãos.
Pouco a pouco, ia perdendo a memoria do que se passára, conservando apenas a consciencia de que era um desgraçado.
Accordaram-o uns passos de mulher.
Ergueu a cabeça.
Mademoiselle d'Avenay, toda embrulhada{126} em rendas brancas, sahia do camarim muito risonha, conversando com uma velha, que a acompanhava.
Levantou-se. Ella tinha de passar por ali e elle tremia.
Quasi sem forças, desvairado, mal poude pronunciar:
—Bravo! Bravo!
Ella parou um pouco assustada. Vendo-o tão pequenino, na meia escuridão, julgando-o provavelmente uma creança, tocou-lhe com dois dedos na cara. Mas, picando-se nas barbas, retirou a mão e disse:
—Pardon, monsieur.
E quando passou... sorriu-se para elle.{127}