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Contos

A BURRINHA BRANCA

Reading edition

Meu avô tinha uma burrinha branca, que parecia um macho.

Era branca e lustrosa como um cotãosinho de serralha, esbelta, com as mãosinhas muito finas, viva, com as orelhitas muito curtas. Uma estampa.

Quando o avô sahia n'ella, não havia general em campo de batalha que mais garboso se apresentasse. Tic-tic!—lá iam os dois pelos caminhos. Vinham as mulheres ás portas e era um côro:{204}

—Benza-te Deus, burrinha!

É que tinha uns modos que prendiam o olhar de todos.

Homens havia que embirravam com o avô, por causa d'aquella fortuna, e diziam ao vel-os:

—Raios os partam!

Mas o velhote não cuidava de mulheres, despresava invejosos e só pensava na burra.

Chamava-se Pomba, pomba por dentro e por fóra, tão branquinha d'alma como de pêllo.

Muito meiga, quando o avô lhe levava a ração, esfregava n'elle a cabeça, mexia as orelhas e dava ao rabo, que é o modo por que os burros fazem festas á gente. O avô dava-lhe beijos.

Por todas essas aldeias, nunca vi gato nem cão, animalzinho mais querençudo.

Assim passaram muitos mezes de muita paz e socego.

Lá o nosso visinho sapateiro é que se mordia de inveja. De amarello que era fez-se verde, de magro um trinca-espinhas. Era{205} dono d'um cavallinho lazão, coxo, pelludo, calçado de tres pés e bebendo em branco.

Pois ainda queria comparar o diabo do homem!...

Ora isto da malha branca da testa correndo pelo focinho até ao beiço é de mau agoiro. Diziam os moiros que os cavallos assim marcados tinham na cabeça a mortalha do cavalleiro. Até onde seja verdade não sei; mas vi mais d'uma vez o lazão aos coices nas estrellas e o sapateiro no chão com as costellas amolgadas.

Pois, apezar d'isso, só para fazer rabiar o avô, dizia que não trocava!...

A Pomba era um apetite. Invejavam-lhe ovelhas a mansidão.

O avô calava-se, porque bem conhecia o sapateiro. Ria-se, sem que ninguem desse por isso, que eram tantas as rugas na cara, que mais uma menos uma não fazia differença. Onde se lhe conhecia a alegria era nos olhos, uns olhitos pequeninos, já sem côr.{206}

A burrinha a trote,—tic-tic!—e elle:

—Bons dias, visinho!

Então o cavallicoque escanzelado, muito malcreado, tinha o máu sestro de rinchar.

O avô não gostava do atrevimento; mas que havia de fazer senão conformar-se com o namoro desaforado de quantos quadrupedes na terra havia? Era a linda cabecinha branca apontar entre os humbraes da cocheira e logo cada zurro de repicaponto, que, fosse a Pomba como certas mulheres, seria a aldeia um céo aberto.

Ella, muito dengosa,—tic-tic!—olhava para todos de soslaio, mas nenhum encarava de fito.

Eu levava-a muita vez a pastar. E, como o avô não queria que ella perdesse um só ponto da reputação, dizia-me sempre:

—Não percas o animalzinho de vista. Não deixes de pear a burra.

Nem o mais pintado se lhe havia de chegar, que eu tinha sempre o olho n'ella e nunca as peias me haviam esquecido.{207}

Entretanto chegou o mez de abril e toda a charneca se encheu de flores, desde as copas mais altas dos sobreiros até ás ervinhas, que se escondem envergonhadas debaixo das moitas.

A burrinha abria muito as ventas, respirando o ar fresco da madrugada, que cheirava a alecrim e a rosmano, que nem eu sei encarecel-o! Os estevaes eram todos em flor e a charneca parecia um mar todo elle verde e branco, quando o vento cursava por essas mesas fóra.

Ella gostava de ouvir os passarinhos, que até parece que os entendia. Não ha como máus exemplos. Andava azougada e o avô inquieto.

—Peia-me a burra, dizia sempre.

Iam tamanhos desaforos pela aldeia...! Mas quem havia de pensar...?

* * *

Ora, por esse tempo, a Pomba fez quatro{208} annos, o que é tambem a primavera na vida dos burros.

Uma certa manhã, o sol, depois de trez ou quatro dias de choviscos, appareceu de repente limpo de nuvens e com tanta luz, que as abelhas embebedaram-se todas. Era um zunir lá pelos ares, que até dava alegria á gente. E lá em baixo no montado, ao pé do rio, ainda os rouxinoes se não tinham calado, já os trigueirões andavam cantando. Era dia de festa tanto na terra como no céo!

Ora um homem póde ser marréca, aleijado e feio como eu sou, ha coisas que lhe vão direitinhas á alma.

Larguei a burra no ferregial e fui-me deitar debaixo da figueira.

Dizem que o sol, quando nasce, é para todos; porque não havia de haver uns raios para mim? Tanta moça boa na aldeia e eu estropiado, sem me atrever...

Puz-me a olhar para aquelles montes, d'onde o sol vinha a subir. Um moinho ao longe bracejava, com as velas muito brancas,{209} que mal se viam no céo todo em volta cintado de côr de sangue. Zuniam as abelhas, cantavam os passaros, e o cheiro das flores, em que me tinha deitado, trepava-me á cabeça. Fechava os olhos encadeados com a luz do céo e punha-me a sonhar. O sol appareceu por detraz do monte, correu uma aragem, as florinhas do rosmano curvaram-se, escondendo-se na troca dos beijos. Passaram no ar duas borboletas brancas, uma atraz da outra, e pelas ervas andavam gafanhotos aos saltos. Eu pensava em muita coisa junta e cantarolava baixinho uma cantiga, que tinha ouvido de longe, n'um baile da véspera:

Qual a distancia e a lonjura Onde o sentido caminha, Onde é que elle vai parar, Isso ninguem adivinha.

Ora os versos que eu cantava, a burra tambem os sabia. Tinha-me esquecido peal-a{210} e, quando voltei a mim, não vi da burra nem rastos!

E ali fiquei eu, não sei que tempos, como um simplacheirão, de queixos cahidos e mãos a abanar, sem achar uma idéa que me allumiasse, sem ver remedio de vida, a tremer das furias do avô.

Depois, muito cosido com as paredes, fui até á cocheira. Talvez a Pomba tivesse tomado o caminho de casa.

O avô, satisfeito como um gato ao borralho e descançando em meu cuidado, assentára a barba sobre o peitilho, e no pateo, sentado no banco de pedra, dormia ao sol.

A burra não estava.

Fui para a charneca. Onde via esteva pisada, procurava achar um rasto. Levava n'uma palhinha a medida certa da ferradura; mas as poucas horas de sol n'aquella manhã tinham endurecido a terra.

O sol foi subindo e até ao meio dia andei leguas. O coração batia-me tanto, que me fazia doer. Não parei. Ia á doida, sem destino.{211} Bateram na villa ave-marias. Dei por mim a quatro leguas da aldeia. Calaram-se os passaros; as papoilas das estevas enrolaram-se para dormir; anoiteceu, e eu deixei-me ficar toda a noite na charneca, a tremer de susto e de frio. Toda a santa noite um mocho piou e eu pensei na coça que me esperava. Se não fosse a marréca, tinha fugido para assentar praça. Uma d'aquellas só pela fortuna! E toda a noite tive nos ouvidos a mesma cantiga... Mas quem podia adivinhar...?

Era quasi madrugada, quando cheguei a casa.

Mal o avô me avistou, bateu-lhe o queixo como em terçãs, e até os beiços se lhe fizeram brancos.

—E a burra? perguntou.

Por felicidade, n'essa altura, a Pomba entrou no pateo, a passo, de orelha muito murcha, como quem traz peso na consciencia.

Foi o que me valeu. Eu, que tanta praga durante a noite lhe rogára, tive até vontade—palavra!—de{212} desatar aos beijos á minha salvadora.

Mas já o avô a tinha agarrado. O desgosto não lhe havia feito esquecer o costume, pelo contrario, e uma melhor matadella de bicho tornava-o ainda mais terno.

O que elle disse á burra! O que elle lhe disse!

* * *

Mas embora o velho perdoasse, o mal estava feito. Breve d'isso se convenceu. Primeiro foram apenas suspeitas, passados dias uma certeza.

O avô andava envergonhado. Já, quando passava em frente da porta do sapateiro, não largava chalaças para a loja. O caso tinha sido falado. Isto de más linguas na aldeia!... O avô parecia-lhe que a honra da burra tinha o que quer que fosse com a honra d'elle. D'antes sempre cantando—tiro-liro-liro!—andava matuto agora. «Quem seria?...{213} Vão lá saber!» Nasceu-lhe um odio enorme a todas as cavalgaduras a quem pudesse attribuir a desgraça. Desafogava comigo e dava-me bofetadas, cada vez que dizia «não a peaste!» O asno do moleiro era amarello com uma cruz nas costas e tinha fama de requestado. Nunca mais o poude ver. Contra todos tinha uma pedra no sapato e, quando o lazão rinchava, dizia:—«Desavergonhado!» Mas não desconfiava d'elle. Tão feio!...

Quiz ver se a Pomba se trahia. Quando passeava pela aldeia na burrinha, ia-lhe sempre observando qualquer gestosinho das orelhas. E ella muito seria... tic-tic!...

* * *

Uma madrugada vim dar parte ao avô de que havia mais um machinho na cavallariça.

Nem sequer acabou de engolir o copinho de aguardente e atravessou como doido o pateo.{214}

Um macho! Um macho!... Mas então quem?... quem?

A luz da alvorada mal coava pelos intervallos da telha vã, cobertos de teias de aranha, onde se baloiçavam palhas. Foi preciso que eu accendesse a candeia.

Como a Pomba enternecida lambia o filhinho!

Era um machinho lazão, muito feio, calçado de tres pés, bebendo em branco.

Quando o avô lhe não deu ali um estupor, é porque já não morre.

O caso, é claro, fez bulha, ainda mais do que o primeiro.

Eram quasi dez horas da manhã, quando o avô, que se fôra encostar na cama, ralado pelo desgosto, ouviu uma voz alegre, que lhe gritava:

—Parabéns!

Veio á porta furioso e mostrou o punho ao sapateiro, que se afastava, rindo, a chouto, no lazãosinho coxo, pelludo, calçado, dos trez pés e com a tal malha de máu agoiro...{215}

Ora o que desconsolou o avô foi o que me deu alegria para a vida. Aquillo do cavallicoque animou-me, porque a burra estava despeada e foi até onde muito bem lhe pareceu. São gostos. Pobrinho d'uma figa n'alma, no corpo e na algibeira, vivi desde então com uma esperança.

* * *

Quando o marrequita acabou de contar a historia, a Caetana que andára servindo os freguezes, poz-se vermelha... vermelha...

—Até mais logo, disse elle, sahindo.

O diabo do marreca tinha sorte!

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