O MEU REWOLVER
Reading edition
Em dezembro. O sol morria depois de curta vida. A tarde era fria e o vento cortava.
Triste, cansado, depois de um dia inutil, voltava para casa silenciosamente, mastigando um charuto insupportavel.
Pesava-me como cruz de ferro a ociosidade que não pudéra combater.
A melancolia apoderára-se de mim. Envolvia-me{128} a alma como que n'um lençol humido e frio.
Bandos de operarios voltavam do trabalho alegres, socegados, interrompendo com cantigas de fado as conversações politicas.
Irritou-me a alegria d'elles.
Eu caminhava de cabeça baixa; mas só mal definidos pensamentos se atropellavam no meu espirito, sem razão, como succede nos sonhos inquietos.
Vagas saudades do passado, desejos mal definidos de outro tempo... Tudo triste, triste.
* * *
Subi a escada ingreme, que levava ao meu quarto andar, e achei-me em casa, sem quasi me lembrar do caminho que seguira.
Os ultimos raios do sol entrando pela janella entreaberta morriam, faltos de forças, allumiando fracamente uns velhos retratos de familia, immoveis, havia muito, nas molduras carunchosas.{129}
Estava só.
Ainda bem.
Puxei de uma cadeira e sentei-me á janella, resolvido a esperar com paciencia a noite, que ao mesmo tempo desejava e temia.
A atmosphera era humida e pesada.
Na rua havia profundo silencio.
O occidente, carregado de nuvens negras, orladas por uma franja dourada, parecia o panno enorme d'um caixão de gigante.
As nuvens cresciam impellidas pelo vento da barra, ameaçando breve toldar o céu.
Luziu a primeira estrella.
Contemplei-a com amor, lembrando-me de que ainda ninguem áquella hora tivesse dado por ella. Estaria talvez no ceu brilhando tão só para mim.
E senti não sei que satisfação intima com aquella idéa: para mim só!
Puz-me a contemplal-a com amor, a falar-lhe como um poeta; e ella consolou-me, e, durante toda aquella tarde, foi este o unico momento em que tive amor á vida.{130}
Um empregado do gaz passou pela rua accendendo os candieiros e assobiando uma polca.
Ouvi uma voz por cima da minha cabeça.
—Menina Maria! Menina Maria!
Era o meu vizinho da trapeira, um empregado de uma casa de penhores, feio, bexigoso e rachitico.
—Está o gaz acceso. São horas de começarmos a conversar.
N'uma janella do outro lado da rua appareceu a cabeça pallida de uma rapariga, que de dia namorava o boticario e de noite conversava com o bexigoso.
—Muito boas noites.
A menina Maria começou a fazer-lhe signaes querendo dizer, creio eu, que addiasse para mais tarde as declarações de amor, não fosse eu ouvil-as.
—O que? perguntava o bexigoso. Não percebo. É pena estar o tempo de chuva.
—É pena, é! Pouco poderemos conversar. D'aqui a pouco... Olhe, não vê? Estão{131} as nuvens quasi tapando aquella estrella.
E apontou para a estrella, que fôra até ali o meu enlevo.
Dei um murro no parapeito da janella e fechei-a desesperado.
* * *
A nuvem negra, para provar que o bexigoso não era tolo de todo, deixou cahir como prologo de maior chuveiro, uns poucos de grossos pingos de agua, que vieram bater tristemente nos vidros da janella.
Accendi o velho candieiro de azeite e recostei-me n'uma poltrona de oleado, onde dei largas aos merencorios pensamentos.
Decididamente odiava a vida.
E que me prendia a ella? Fôra uma cadeia de oiro a d'outros tempos, mas viera a desgraça quebrar-lhe, um a um, os elos todos.
—A morte!{132}
E machinalmente puxei do rewolver.
Era uma joasinha americana, bonita, de systema engenhoso, com fechos de prata, que me saira n'um bazar de caridade.
—Eis o remedio para quantos males se soffrem no mundo, pensei. Uma pouca de coragem, um pequenissimo movimento... e nada mais é preciso.
Comecei a brincar com o gatilho.
—De que serve uma vida a que póde dar fim coisa tão pouca?
E, como para convencer-me de que não havia nada mais facil, approximei da bocca o cano do rewolver.
E vi que tinha medo e que me repugnava a morte.
Lembrei-me do frio da terra e do contacto da carne com os corpos frios e molles dos bichos nos cemiterios. E requintei na fantasia as sensações da longa fileira dos rigidos cadaveres, que via dormindo na valla commum o somno doloroso da morte.
Passou-me um calafrio pelo corpo, ergui-me,{133} levantei a golla do casaco e comecei a passear pelo quarto.
Os velhos retratos mettidos na sombra da bandeirola pareceram-me espectros.
Um sobre todos, lembra-me, causou-me horror extranho, n'aquella noite.
Era um conego velho, gordo, sem barba, com uma corôa de cabellos grisalhos em torno d'uma calva lisa e amarella. Tinha uns olhos azues, pequeninos, que se fitavam na gente para onde quer que se fugisse.
Quando eu era pequeno, tinha um dia virado o conego de cabeça para baixo, para ver se assim parava a perseguição do seu olhar. Meu avô, que n'aquelle momento entrara no quarto, ralhou muito commigo, que fôra uma falta de respeito, que o conego era meu tio, que fôra homem de muito saber e que até compuzéra uma grammatica latina com a prosodia em verso.
E eu, que detestava a prosodia e o latim, comecei desde logo a detestar o tio.{134}
N'aquella noite pareceu-me que os olhos azues e pequeninos scintillavam, phosphorescentes.
Recuei com um calafrio, procurando fugir ao pesadêlo.
E os seus olhos pequeninos, azues, phosphorescentes continuaram a seguir-me com pertinacia.
Passei a mão pela testa e trouxe-a humida de suor frio.
Dei volta á bandeirola do candeeiro e, cheio de falsa coragem, approximei-me do retrato.
Estava louco!
—Sou um cobarde! Tenho a cobardia d'uma criança, pensei.
Fui ao armario de páo preto, envidraçado, onde tinha uma garrafa com um resto d'absintho.
Um caruncho, com aquelle ruido monotono e compassado, que tanto se ouve nas casas velhas, incumbira-se da agradavel tarefa de esfarelar uma prateleira.{135}
E eu sentia dentro em mim uma tempestade! E se me tivesse suicidado, se junto d'aquelle armario se houvesse passado um drama horrivel, elle teria placidamente, com a maior indifferença, continuado a morder voluptuosamente a madeira resequida, em sua obra de destruição.
Abri a garrafa. Bebi sofregamente.
Pela segunda vez approximei da bocca, voltando as costas ao conego, o cano do rewolver.
Senti abrir-se a janella do bexigoso e ouvi-lhe a voz esganiçada:
—Menina Maria! Parou a chuva.
Salvou-me a vida. Escutando-o, quiz despedir-me da voz humana. No curto momento, em que o meu antipathico visinho levou a dizer aquella phrase, entrou-me n'alma o receio.
—Decididamente sou um cobarde, um grande cobarde! Preciso beber.
E sahi, mettendo o rewolver na algibeira.{136}
* * *
Pela segunda vez na vida o bexigoso falára sem dizer tolice. Effectivamente cessára a chuva, e apenas umas nuvens brancas, com grandes manchas d'uma côr mais carregada, formavam castellos fantasticos, entre os quaes corria a lua a toda a brida.
Ao dobrar d'uma esquina encontrei um amigo.
—Aonde vais? disse-me. Até S. Carlos?
Pareceu-me offensa a pergunta e estive para responder-lhe:
—Não, vou matar-me.
Mas não quiz. Dizer-lh'o, para que? Se não podia perceber-me?
—Vou sem destino, disse.
—Já jantaste?
—Ainda não.
—Jantemos juntos n'esse caso.
E deu-me o braço e começámos a descer a rua.
E eu ia pensando com uma certa alegria{137} no jantar e comecei a ver a morte sob outro aspecto: o suicidio depois de bem comido, numa salla bonita, quente, alumiada fortemente por dois lustres de gaz.
Que differença! Que admirava que me tivesse faltado a coragem n'aquelle quarto frio e humido quando eu estava possuido da tristeza da fome? Frio e fome por toda a eternidade!...
Entrei no hotel cantarolando um bocado da minha opera favorita.
Defronte de nós uns americanos bebiam champagne, veuve Cliquot.
—Grande vinho, o champagne! não achas? disse o meu amigo.
—Magnifico!
—Havemos de vir bebel-o aqui um dia d'estes. É pena não poder ser hoje.
—Porquê?
Não respondeu e córou até ás pontas das orelhas.
E eu achei que para dar coragem nada havia como o champagne.{138}
E puz-me a passar revista a todas as suas boas qualidades, e por fim achei que eram tantas e tantas, que, esquecido da morte... fui pôr o rewolver no prego.{139}