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Contos

AD ASTRA

Reading edition

Quando o tio Bernardo, deitando o barrete de pelles para o lado, começava a apontar para o tecto as nuvens de fumo do negro cachimbo de gesso, escusado era falar-lhe; só rosnava em resposta um dito de mau humor ou, quando muito, um disparate. Estava pensando no Brazil, no seu Brazil, como lhe elle chamava.

E era tratar de não fazer bulha, emquanto{78} elle, sorrindo para os florões do tecto, recordava scenas da mocidade, temporaes vencidos pelo arrojo, amores de mulatas, muito ouro ganho n'um só bafejo da sorte.

—O tio Bernardo está no Brazil, diziamos nós baixinho.

E, quando o cachimbo se lhe apagava, olhava para nós a rir, sacudindo a cinza na unha rugada e negra:

—Cá me embarquei eu outra vez! Demonio de tabaco! Este diabo vem de lá... Não sou capaz de fumal-o sem que logo me ponha a sonhar... Estava pensando agora...

E começava uma historia por nós ouvida mil vezes. Eu e minha irmã sahiamos nos bicos dos pés, e elle concluia-a, dirigindo-se a minha mãe, que sentada na poltrona de tabúa, já sem feitio, pouco a pouco adormecia serenamente.

É com lagrimas nos olhos que, depois de tantos annos, me recordo d'esses tempos.{79}

A nossa casa era a mais risonha de toda a villa.

Ainda me alegra relembral-a, no alto dos rochedos, sobranceira ao mar. Muito pequena, mas sempre muito caiada, davam-lhe certo ar as gelosias verdes das janellas. Tinha em volta uma cercadura de ninhos, e todas as manhãs, no verão, acordava ouvindo cantar as andorinhas.

No inverno era mais triste. Quando havia temporal, as ondas salpicavam os vidros e minha irmã pequenina, assustada como um pardal, escondia a cabecinha loira debaixo do chaile de minha mãe, que, sentada á lareira, lembrando-se do marido e do filho mais velho, que andavam sobre as aguas do mar, resava o credo em cruz.

Não eramos dos mais infelizes; nunca soube o que era miseria. Depois que o tio Bernardo chegou, houve até sempre, lá em casa, um certo luxo, uma certa despreoccupação pelo dia seguinte.

É que o tio, além de vir dono d'um cahique,{80} trazia comsigo uma caixinha de ferro cheia até cima de muito boas libras.

Meu pae, que viera com elle como piloto, pouco tempo se demorou comnosco.

O tio Bernardo disse-lhe, uma noite, depois da ceia:

—Olha, irmão; o que ali está... (e apontava para a tal caixinha) o que ali está chega-me para aqui poder acabar socegadamente os meus dias. Sabes que mais? Dou-te de presente o cahique. Não tenhas cuidado na mulher e nos filhos. O teu mais velho tem quinze annos; que vá comtigo. Vai, e sê tão feliz, como eu fui.

Era sina de todos—o mar. Os mais desgraçados eram pescadores; os outros quasi todos partiam para o Brazil; alguns voltavam pilotos, alguns commandando por sua conta; eram os mais felizes. Alguns tambem... nunca voltavam.

E era a lembrança d'estes que tornava tão triste a lareira nas longas noites de inverno, quando uivava o temporal.{81}

* * *

Um dia parti para a escola um bocado mais cedo que o costume, porque no quintal do padre prior, tinha visto uma figueira deitar por cima do muro, para o lado do caminho, um dos ramos todo cheio de figos brancos, tentadores.

O mestre, ou porque desejasse lisongear o tio Bernardo ou porque na verdade eu me atirasse ao estudo um pouco mais que os outros, quando ao domingo, depois da missa, nos encontrava a passear na Praça, nunca deixava de me dizer, tocando-me com dois dedos na cara:

—Ah! que se o tio quizesse... havias de ir longe.

Eu não sabia bem o que elle queria dizer com aquelle ir longe. Lembrava-me logo do Brazil. Mas porque motivo eu e não os outros?

N'aquelle dia, quando já de vara na mão{82} me dispunha a roubar quatro figos ao prior, ouvi de repente a voz de meu tio. Senti um calafrio pela espinha.

—Olá, rapaz! que andas por ahi a mariolar, em vez de ires direito para a escola?

Voltei-me todo assustado e vi-o á janella do prior, que, felizmente para mim, desatou ás gargalhadas.

—Espera ahi que te quero falar.

Esperei, mas quando chegou ao pé de mim, apesar de elle nunca me ter batido, com as duas mãos tapei as orelhas e a nuca.

O tio Bernardo poz-se a rir.

—Não tens vergonha...!

Começou andando ao meu lado muito depressa. Ás vezes parava limpando o suor.

—Sabes o que vou fazer? perguntou-me. Vou ver se o teu mestre diz verdade. Quero um dia assistir á escola.

Tremeram-me as pernas. Se ainda depois de me ter apanhado a roubar os figos, me fosse ver a atrapalhar-me á pedra! Fiz a promessa d'uma véla de cera á Senhora dos{83} Milagres e, com mais alguma confiança, entrei na escola e fui pedir a bençam do mestre.

Chegámos um nadinha tarde. Estava o Patricio á pedra.

O tio Bernardo fez um signal para que ninguem se incommodasse e sentou-se ao pé do professor. Eu caminhei gravemente para o meu logar.

O Patricio, coitado, que estenderete!

Parece-me ainda estar a vel-o com as calças de quadradinhos, remendadas, muito curtas, a barriguinha muito redonda, o que lhe dava um aspectosinho grave, a camisa de panno cru aberta sobre o peito, e dois bocados de ourelo a servirem de suspensorios. Com as mãos nas algibeiras, os olhos muito injectados, e as azas do nariz a tremerem, ouvia contendo o mau genio, a rabecada do mestre.

Não foi nunca dos mais felizes, coitado! Por ali ficou sempre. Tem quatro ou cinco medalhas ao peito e todos os dias a fome em casa.{84}

—O senhor... disse o mestre apontando para mim.

Ergui-me e, pegando no giz, acabei com desembaraço a conta, que tanto atrapalhava o Patricio.

—Muito bem. Tire a prova dos nove. É o que eu digo, murmurou, quando acabei. Has de ir muito longe.

O tio Bernardo pediu ao mestre que me fizesse mais algumas perguntas. A todas respondi com muito animo e desembaraço.

—D. Affonso Henriques, o Conquistador, D. Sancho I, o Povoador, D. Affonso II, o Gordo...

A historia toda.

—Muito bem. Pode sentar-se.

O tio levantou-se, dizendo-me:

—Estou contente comtigo, rapaz.

E sahiu.

Ao jantar reparei que o tio Bernardo e minha mãe deviam de ter falado a meu respeito. Apenas eu abria a bocca, olhavam um para o outro e tossiam com certo ar{85} misterioso. Minha mãe teve alternativas de alegria e de tristeza.

Quando a via rir, pensava:

—O tio falou-lhe na lição.

E, quando a ouvia suspirar, lembrava-me dos figos. Se ella soubesse...!

Quando o jantar acabou, o tio Bernardo chamou-me e disse-me:

—Ouve cá. Tu tens uma cara seria e o teu mestre, que deve ser n'isso entendido, diz que aqui dentro tens mais alguma coisa do que os outros.

E batia-me com os nós dos dedos na cabeça.

Eu estava radiante de alegria.

—Além d'isso tens os pulsos muito fraquitos, e isso é o diabo para um homem do mar.

A conversação tomava de repente para mim um caminho inesperado. Se os pulsos eram fracos, e isso era o diabo para um homem do mar, que me importava o que o mestre dizia que eu tinha dentro da cabeça?{86}

Olhei para minha mãe. Minha mãe sorria.

—Ainda agora, continuou meu tio, estive a conversar com o padre prior a teu respeito. Aquillo é que é vida, meu filho: padre!

—Não quero! respondi, dando um murro em cima da mesa. Não quero ser padre.

—Ninguem te obriga, rapaz. Ha outras vidas tão boas ou melhores até. Medico, por exemplo.

—Não quero!

E, desviando os olhos para o lado da janella, vi lá onde o céo vai dar um beijo no mar, uma velasinha alvejando, que me pareceu do meu partido e a gritar-me lá de longe:

—Fazes muito bem. Não queiras ser medico, não queiras ser padre. Olha para mim. Cá dentro vai a ventura!

—Pois não queiras! gritou meu tio.

E começou a passear pelo quarto, puxando grandes fumaças.

Eu, espantado do meu atrevimento, tinha{87} baixado tristemente os olhos e, muito amuado, coçava a cabeça.

—Lá no collegio, tens tempo de sobra, para te resolveres, disse meu tio porfim, parando deante de mim. Ámanhã vais comigo para Lisboa.

Lisboa!

Soou-me o nome aos ouvidos como palavra magica.

Lisboa! Ia partir para Lisboa, que nunca tinha visto, mas cujo só nome me despertava na imaginativa sonhos encantadores, prodigios de riqueza, mansões de fadas!

Ergui a cabeça, tão cheio de alegria, que até me puz a rir de rijo!

Olhei para minha mãe. Coitadinha, chorava.

—Vamos, disse o tio, batendo-me com a mão no hombro. Vai vestir o teu fatinho preto, que tens que despedir-te desta gente!

Lisboa! Lisboa!

Eu bem via as lagrimas da minha mãe,{88} mas este grito da minh'alma calava-me o coração.

Fui despedir-me do mestre-escola que, adeante de todos, me deu um valente abraço, dizendo-me:

—Continua assim, meu rapaz. Sic itur ad astra!

Eu, muito envergonhado, para fazer alguma coisa, bafejava a palla do bonnet e limpava-a depois á manga da jaleca.

Ficou-me o latinorio no ouvido. Annos depois encontrei-o... Boa vontade não te faltava, querido mestre!

Á noite, depois da ceia, o tio Bernardo julgou dever discursar.

—Quando ás vezes me esqueço para ahi horas inteiras a fumar cachimbo, vocês põem-se a rir e dizem: «Lá está o tio Bernardo no Brazil!...» Pois bom é que saibas, antes que o aprendas á tua custa: nem tudo são rosas na vida. E no mar os espinhos são muitos. A gente volta, chega a casa, esquece tudo. Quantas vezes o diabo não{89} levou a cardada! O que passou, passou; olha a gente para traz e só vê aquillo de que tem saudades: por isso nunca falo de fomes, de privações, de perigos... Não te dê desgosto não ser homem do mar. Andar sobre as ondas é tentar a Deus.

Não sei que mais me disse ainda o tio Bernardo para me provar que, desde que eu voltava costas ao Oceano e marchava para Lisboa, era o ente mais feliz do mundo. Bem lhe dispensava o sermão. Já me via homem, voltando para a terra, de relogio e breloques, apertando na praia, depois do banho, as mãosinhas das senhoras, fumando o meu charuto, tratando o administrador por tu e o prior por você.

—Agora, rapaz, vai deitar-te e pede a bençam á tua mãe.

Então, não sei porquê, senti de repente um nó na garganta e eu, que tão pouco me lembrára d'ella, foi a soluçar que lhe cahi nos braços. Ella apertou-me contra o peito, muito, muito, até me fazer doer, e dando-me{90} um beijo muito longo, disse-me um adeus tão sumido, tão sumido que quasi o não ouvi.

No dia seguinte, ao romper da manhã, eu e o tio Bernardo, ambos na almofada da diligencia, partiamos caminho de Lisboa.

* * *

Quando, depois de bacharel e de muito tempo gasto a escrever cartas e procurar empenhos, consegui finalmente ser admittido como amanuense nos proprios nacionaes, telegraphei a minha mãe, ou que na resposta me participou a chegada de meu pae.

Não se calcula a alegria com que parti.

Havia trez annos que não via o querido velho, que só de longe em longe vinha a Portugal matar saudades.

Estavamos então no principio do inverno e um denso nevoeiro espalhava-se sobre o mar. Ainda longe da villa, já ouvia o sino{91} da Senhora dos Milagres tocando afflictivamente para indicar o porto aos que andavam fóra.

—O José Sacrista, coitado, disse-me o cocheiro, tem o filho lá no mar e desde hontem de manhã que está agarrado á corda do sino.

Foi talvez o nevoeiro, ou foi aquelle sino tão afflicto, ou talvez dó do sacrista, que fez com que me apeasse da diligencia, levando oppresso o coração.

No caminho de casa encontrei o mestre-escola que me veio abraçar todo tremulo, cheio de brancas, abordoado a uma bengala.

—Parabens, muitos parabens. Eu bem te dizia.

Não pude deixar de sorrir-me.

—Que pena, continuou, vires em occasião tão triste!

—O que?

—Não sabes?... Valha me Deus! O tio Bernardo...

—Morreu? perguntei ancioso.{92}

—Não, felizmente ainda não. Venho de lá agora. Mas está tão mal...

Não ouvi mais e desatei a correr. Estavam todos reunidos no quarto do tio. Quando entrei, abriu os olhos e disse:

—És tu! ainda bem que vieste. Deu-me o caruncho. Tinha pena de morrer sem tornar a vêr-te. Já sei que estás amanuense. Sou um homem rude, não sei o que isso é; mas deve ser... muito! Foste longe.

Esteve um momento calado, respirando a custo, e depois continuou:

—O teu irmão foi menos feliz. Nasceu forte, foi para o mar. O teu pae já está farto de andar por esses oceanos e deu-lhe o cahique.

Olhei para meu irmão. Estava herculeo. Uma barba negra, muito espessa, descia-lhe até meio do peito. Um pesado grilhão de oiro cahia-lhe do pescoço até ao ventre redondo. Meu tio fitou por um instante em mim os olhos já embaciados, e sorrindo:

—Olhem que mãosinhas! Não vivias no{93} mar dois dias. Tive rasão. Emfim, graças a Deus, fiz todos felizes.

Fechou os olhos e esteve assim por muito tempo, arquejando. Quando tornou a abril-os, procurou-me com a vista:

—Tenho pensado muito em ti... Como é o latinorio do mestre?

Não sabia o que elle queria dizer... Depois lembrou-me de repente.

—Sic itur ad astra.

—Ad astra, ad astra! repetiu machinalmente.

E, com os olhos vidrados fitando os florões do tecto, ficou-se a sorrir, como se Deus o houvera levado para um Brazil ideal.{94}

{95}

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