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Contos

O MIMOSO

Reading edition

—Está frio, dizia elle subindo o Chiado.

Era um homem de quarenta annos, magro, quasi cadaverico, de melenas tão compridas e tão esquecidas de pente que se lhe emmaranhavam nas barbas, de olhos negros, encovados, de olhar obliquo e desconfiado, a luzirem com fome por cima das olheiras papudas.

Era no inverno e elle com a mão ossuda,{140} engrifada apertava contra o peito a sobrecasaca rota, sem botões. Não trazia collete e a camisa era um frangalho. Como se precisa ter gravata para entrar nos passeios, onde não desgostava de ir á tarde apanhar um bocado de sol, trazia um pedacinho de panno azul pregado ao collarinho sem gomma com um alfinete de ferro. As botas rotas, sem tacões, tinham, a tapar-lhes os buracos, camadas sobrepostas de lama secca.

Parou á porta do Baltresqui.

Um janota sentado a uma das mesinhas do café, deante de uma garrafa de Père Kermann, aspirava o fumo aromatico de um charuto pequenino. Passados momentos, tirou o relogio da algibeira, viu as horas, engoliu de um trago as ultimas gottas do calix e, chamando o criado pelo nome, atirou-lhe uma nota de dez mil réis. Quando o criado voltou com o trôco, levantou-se deixando o cobre em cima da mesa.

—Muito obrigado, sr. Visconde, disse o{141} criado, dando-lhe piparotes na manga do sobretudo suja pela cinza do charuto, que o Visconde quebrára na borda da mesa.

—É um visconde, observou distrahidamente o homem das botas rotas.

E como o Visconde voltasse para cima, seguiu-o á espera que deitasse fóra a ponta do charuto. Ia apertando a sobrecasaca contra o peito e invejando o casaco do Visconde, comprido, felpudo, de grande golla, que se podia levantar e abrigava as orelhas do frio.

O Visconde subia o Chiado devagarinho, com as mãos nas vastas algibeiras, tirando do charuto abundantes fumaças, com aquelle sorriso de satisfação, que dá a certos parvos de bom estomago a digestão de um bom jantar.

O pobre diabo tinha fome. Almoçára na véspera; depois não tinha comido.

Mas o que mais o apouquentava era o apetite de fumar.

O fumo adormece a fome e expulsa a melancolia. Póde-se dormir, quando se tem{142} um cigarro na algibeira e o fumo de um outro enchendo o quarto. O tabaco é o veneno rei dos venenos, um elixir que mata lentamente, que embriaga, que socega os nervos, que enfraquece a memoria e dá ás pernas uma preguiça deliciosa, que faz achar boa a cama pela manhã, quando o ar está cheio de neblina e na rua afogada em lama se ouvem os pregões e o sussurro dos que teem que fazer, dos que trabalham.

—Por isso Deus que afinal é bom, ia o homem pensando, encheu as ruas de pontas de charuto para os homens e de tallos de couve para os cães, que não fumam, que não teem que esquecer, que são tolos.

Mas a noite estava chuvosa e as pontas de charuto, não se viam, enterradas na lama pelas rodas das carruagens. Por isso seguia o ricaço, ancioso pelo momento em que o charuto havia de cahir espalhando em torno uma chuva de faisquinhas.

O Visconde parava de vez em quando, apertando a mão aos amigos que desciam.{143}

—Então que se faz? perguntavam-lhe.

E elle só encolhia os hombros como resposta áquella pergunta ociosa e tola. O homem notou:

—Pois elle não terá nada, mesmo nada, que fazer?

Comparou-se com o Visconde e sentiu uma certa vaidade. Porque elle trabalhava, fazia alguma coisa. Se lhe perguntassem o quê, talvez não respondesse logo, assim sem pensar, sem examinar um instante com olhar desconfiado o fim com que lhe faziam a pergunta. Ás vezes, quando se levantava, não tinha de comer; era preciso arranjal-o e arranjava-o. Era talvez pouco escrupuloso; isso sim.

—Mas, pensava, para se terem delicadezas é preciso alguma coisa na algibeira.

E isso era raro, muito raro.

Decididamente, se alguém lhe perguntasse:

—Então que se faz? havia de responder como o Visconde, encolhendo os hombros.

Depois, como se toda esta cadeia de pensamentos{144} o tivesse conduzido a uma conclusão certissima, olhou para o janota, a rir-se, com certo ar maganão, e exclamou baixinho, como quem faz uma descoberta:

—Olá!

E, apontando com o dedo pollegar para o Visconde, disse piscando o olho a si mesmo:

—É cá do meus.

Chegado á rua Nova dos Martyres, o Visconde parou um instante, tirou o relogio da algibeira e, approximando-se de um candeeiro, tornou a ver as horas. Esteve um momento como que indeciso sobre o que havia de fazer; por fim dobrou a esquina e dirigiu-se para S. Carlos.

Tirou as luvas da algibeira e começou a calçal-as.

—Quando deitará elle fóra o charuto? pensava o homem.

Mas de repente affirmou a vista e os olhos faiscaram-lhe: o Visconde ao tirar as luvas da algibeira deixára ficar o lenço com a pontinha de fóra.{145}

Contrahiu um pouco as sobrancelhas meditando.

Valeria a pena um lenço? Tinha fome. Aquelle lenço representava talvez a ceia. Seria triste na verdade; o que poderia valer um lenço?

Estendeu o labio inferior.

Era preciso tomar uma resolução.

Ora, adeus! Mais valia do que morrer de fome.

Approximou-se nos bicos dos pés.

Olhou para todos os lados. A rua era deserta.

O coração bateu-lhe um pouco. O Visconde podia sentil-o, defender-se, gritar, e elle iria preso, com fome, e passaria a noite a tiritar de frio, fechado n'um calaboiço.

Animo!

Metteu a mão esquerda por debaixo da aba do sobretudo.

O Visconde cantarolava:

C'est q'çá gli...iiis...se.{146}

Victoria! O lenço era d'elle!

O homem não tinha sentido nada e acabava a copla:

Encore un qui n'l'aura pas La timbale La timbale.

* * *

Um lenço! Ia finalmente comer. Tinha ganho o dia.

E o lenço era um bom lenço, muito branco, muito novo.

Mirou-o e remirou-o.

Não tinha uma só passagem e era de seda.

Era de seda! Queria dizer que representava talvez mais do que a ceia.

Quanto poderia valer aquillo?

O homem chegou-se a um bico de gaz e poz-se a olhar. De vez em quando, coçava com a unha a aza do nariz, signal certo de duvida.{147}

O Gomes é que lh'o poderia dizer. O Gomes era muito entendido; um pouco ladrão, mas muito entendido.

E já esquecido do Visconde e do charuto, voltou e dirigiu-se para a Calçada do Duque.

A casa de penhores era á esquerda, uma casa pequena, asphixiante, cheia de fato até á porta.

O Gomes estava por detraz do balcão, encostado aos livros, com a sua suissa á ingleza, a caneta atraz da orelha, e o seu sorriso protector.

Um candeeiro de petroleo, com vidro sujo e luz economica, alumiava fracamente as roupas inuteis, que nas prateleiras até ao tecto esperavam tristemente pela traça ou pelo proximo leilão.

Uma guitarra sem cordas pendia de um prego ao lado de uma serra. Do outro lado, o retrato de um bom velho burguez e calvo, com a barba cerrada, ar de pessoa de bem, e um botão d'oiro, quadrado, no peitilho da camisa, sorria com bondosa satisfação{148} para um cacho de botas velhas, que, suspensas do tecto, se lhe baloiçavam a dois palmos do nariz. Tinha valido um dinheirão, valia agora cinco tostões.

O homem parou á porta e poz-se á espreita.

—Muito boas noites, sr. Gomes.

—Olá!

—Dá licença?

Atirou o lenço para cima do balcão.

—Faça favor de ver isso.

E, á espera que o exame do lenço acabasse, entreteve-se a olhar para uma borboleta, que esvoaçava em torno do candeeiro.

O Gomes desdobrou o lenço, sacudiu-o, levantou um pouco a torcida e começou um exame minucioso, palpando, virando e revirando a seda.

—Isto de bordados... Um A e uma corôa.

E o Gomes sorriu-se, esforçando-se por ter um ar intelligente.

—Foi o sr. Visconde que m'o deu para o{149} empenhar, disse o outro, encolhendo os hombros com impaciencia.

—Pois, amigo, diga ao sr. Visconde que isto pouco valor tem. O bordado é bom, o bordado tem valor; mas a quem póde isto servir? Quer trez tostões?

—Traste...! resmungou o homem. Então só vale...? Ó sr. Gomes, olhe que roubar é feio. Faça favor de reparar que é de seda.

O Gomes, desdenhoso atirou com o lenço.

—Dê-me um cruzado e vou-me embora.

—Homem, você parece que não sabe quem eu sou!

E poz doze vintens em cima do balcão.

—Traste! tornou a resmungar o homem, pegando nos doze vintens e encaminhando-se para a porta.

—Quer cautella? perguntou o Gomes com ar de brincadeira, já desmanchando o bordado com o bico d'uma tesoira.{150}

—Nada. Obrigado. O sr. Visconde não me falou em cautella.

E sahiu sempre a resmungar.

* * *

Poucas horas depois, estava estirado ao pé d'uma sargeta.

Cahia uma chuva miuda e fria e elle sonhava.

Sonhava que tinha roubado um lenço de seda, d'uma seda muito fina, tão fina que nem o Gomes sabia ao principio o que lhe havia de dar pelo lenço. E tinha-lhe dado a loja toda, as botas, a guitarra, o oiro que estava na gaveta do balcão, o dinheiro que estava na commoda, tudo. E elle era rico. Andava de trem e bebia no Baltresqui uma coisa com bolhasinhas a subirem e que fazia saltar as rolhas das garrafas. Os janotas do Chiado tratavam-o por tu e os gaiatos davam-lhe dom. O Visconde era muito amigo d'elle e offerecia-lhe charutos magnificos,{151} que roubava a um estanqueiro muito velho da rua dos Canos. Tinha um sobretudo côr de canella, muito quente e andava de luvas. Morava n'um palacio e tinha na salla o retrato do velho que estava na loja do Gomes, e que era pae d'elle, e do outro lado estava o retrato do outro pae, do que tinha conhecido, do que lhe dava pancadas quando elle era pequeno. E o Gomes vinha pedir-lhe esmola. Estava muito magro. O lenço não era de seda, era de papel. E elle tinha um cão muito grande, com olhos de lume, que mordia no Gomes, e o Gomes chorava.

—Leva arriba!

Um policia de voz aspera accordou-o com um pontapé.

E, como o homem resmungava, metteu-lhe a mão por debaixo dos braços e obrigou-o a levantar-se.

—Marche adeante e nada de cerimonias.

Fôra dia de grande gala e as luminarias morriam nos preguinhos do governo civil.{152}

O homem percebia tudo um pouco vagamente. Sentia-se empurrado e via as luminarias.

Aquillo entristecia-o.

Perguntaram-lhe o nome e ainda teve forças para murmurar com voz avinhada:

—Francisco Antonio, o Mimoso.

* * *

Quando, pela madrugada, acordou, cheio de frio e de fome, metteu a mão tremula na algibeira das calças e murmurou com voz triste e arrependida:

—Fiz mal.

E depois d'um instante de reflexão:

—Devia ter comprado um massinho de cigarros.{153}

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