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Contos

O PAQUETE

Reading edition

Era no fim da azinhaga—uma azinhaga estragada pelas chuvas do inverno e tendo ainda marcada na lama secca a passagem do ultimo carro de bois. D'um lado e d'outro velhas piteiras misturavam a côr verde claro das largas folhas carnosas com o verde escuro, quasi negro, das silvas e pilriteiros; de espaço a espaço erguiam-se algum sobreiro decrepito, faias brancas e prateadas,{48} loureiros embalsamando o ar com o cheiro forte e bom das longas folhas agudas.

No fim erguia-se a casa com o seu aspecto senhoril.

A hera apoderára-se do exterior e, aproveitando as fendas que o tempo abrira, espreguiçando-se sobre o leito do velho musgo amarello que revestia cada pedra da parede, ia unir as suas folhas delicadas aos cachos de arroz que desciam em elegantes pyramides das beiras do telhado.

Uma pequena escada, seis ou sete degraus gastos, abalados, partidos, conduzia do pateo ao vestibulo do palacio.

Sobre o portão, cuja tinta gretada pelo sol caíra pouco a pouco, ostentava-se, comido pelo tempo, o brasão da familia, sobre o qual ameaçava ruina uma grande coroa de conde transformada em coito de lagartixas.

Os vidros ennegrecidos e apenas translucidos tremiam de velhice nos caixilhos de chumbo.

Pelo pateo, nos intersticios das pedras,{49} crescia livremente a erva, e a um canto um rallo juntava as estridulas melodias ao monotono coaxar das rãs do pantano visinho.

O Conde estava na livraria sentado n'uma velha poltrona de coiro com pregos de metal. Tinha na mão um livro latino, que lia attentamente.

A livraria era uma vasta sala alumiada por trez janellas de grande vão.

Avistava-se ao longe a aldeia com seu campanario branco, suas casinhas bem caiadas, e os cimos dos choupos erguendo-se acima dos telhados e indicando a estrada que a atravessava conduzindo d'uma villa a outra.

Entre as janellas e as portas estavam as estantes com os grandes in-folios amarellos, os grossos diccionarios e as obras classicas latinas, portuguezas e francezas.

A parede fronteira ás janellas, por cima da chaminé de marmore branco, era occupada pelo retrato do avô do Conde. Era um homem alto, bem feito, sympathico. Estava{50} vestido á epocha de D. João V. Tinha uma das mãos nos copos da espada, as suas commendas ao peito e uma sombra exquisita, forte, brutal, na metade do nariz do lado esquerdo. A moldura deixára caír o doirado e estava rendilhada pelo caruncho. A um canto uma aranha tecêra a teia e esperava pela presa, escondida n'um rasgão da tela.

O sol descia e o Conde, para lhe aproveitar os últimos raios, puchára a cadeira para o vão da janella e, com o livro sobre o joelho, o cotovello sobre a perna traçada e a testa encostada á mão, lia attentamente uma passagem de Suetonio.

O crepusculo foi invadindo a sala. O sol, depois de ter com o ultimo raio brincado um instante na testa veneranda do avô commendador, desceu para detraz do cabeço, e as grandes sombras dos montes fundiram-se pouco a pouco n'uma tinta geral.

O Conde fechou o livro sobre o index e poz-se a contemplar a aldeia.

O vento do norte entrando pelas fendas{51} das paredes sibillava tristemente no corredor, os vidros zuniam nos caixilhos de chumbo, as aves nocturnas, que habitavam as vastas chaminés do palacio, começavam a piar e aos ouvidos do Conde chegava a alegria da aldeia como nota extranha d'uma lingua esquecida.

Meiados de novembro, as noites eram frias.

O Conde olhou tristemente para as janellas das casas dos lavradores alegremente illuminadas pelo fogo vivo das lareiras, e, estremecendo de frio dentro da velha sobrecasaca parda, levantou-se, tocou uma campainha e, mettendo as mãos nas algibeiras, começou passeando pela sala.

Era um velho alquebrado e quasi completamente calvo; apenas duas ou trez madeixas de cabello branco e comprido desciam-lhe da nuca até á golla do casaco. Usava a barba toda; era curta e branca. Os olhos, cuja luz a edade ia apagando, eram da côr mal definida que teem os olhos dos velhos{52} e os das creanças de mama: tinham comtudo uma expressão doce e melancholica. Ao canto da bocca uma prega vertical, desdenhosa e altiva quando o Conde estava serio, dava-lhe uma expressão de sympathica tristeza quando sorria.

Ao toque da campainha accudiu um criado.

Era um velho tambem, mais velho do que o Conde talvez. Trazia vestida uma casaca por certo verde, de tão velha que era, se não lhe occultassem o estofo accumuladas passagens de linha preta.

Entrou curvado um pouco pelo respeito, outro tanto pelos annos.

—José, disse o Conde, vae arrancar mais uma taboa á sala do docel a arranja o lume.

—Sr. Conde, eu sósinho não tenho forças.

—Chama o caseiro, como tens feito nos outros dias.

—O Manuel foi-se hoje embora, sr. Conde.{53}

—Foi-se hoje embora! Porque?

—Foi trabalhar para a quinta do João Pereira. V. Ex.ª bem sabe que o homem, coitado, tem familia que sustentar e como os ordenados andam atrazaditos...

—Effectivamente, recordo-me de que ha já bastante tempo... Ora, coitado! Mas, porque não me disse elle?... Eu esqueço-me de tudo. Has de dar-lhe dois pintos da minha parte. Eu te ajudo hoje a arrancar a taboa.

E saíndo ambos, foram a um quarto proximo e arrancaram uma taboa do soalho. O José serrou-a n'umas poucas de partes, feriu lume n'uma pederneira, porque o Conde reprovava os fosforos como perigosos, e, pouco depois, uma chamma viva e alegre trepava pela chaminé.

O Conde tornou a abrir o livro e continuou a ler Suetonio á luz de um bocado do seu palacio.

Tinham-se ido as taboas pouco a pouco e já quasi não restavam senão trez quartos{54} completos, o do Conde, o do José e a livraria. Taboas, vigas, portas e janellas tinham-se desfeito em cinzas.

E os velhos lavradores da aldeia, ao verem o fumo erguer-se acima da chaminé do palacio, sorriam tristemente e diziam:

—Coitado!

Mas o Conde continuava alegre e indifferente. Como até ali nada lhe faltára, Deus sabe á custa de quantos sacrificios do pobre criado, não pensava no estado de miseria a que se achava reduzido ou, para melhor dizer, não queria pensar.

Quando ao domingo voltava da missa, vinha conversando alegremente, com um certo ar entre familiar e protector, com os lavradores que o estimavam e gostavam de ouvil-o. Entrava nas choupanas mais pobres, e afflicto com a miseria que n'ellas encontrava, dizia baixinho para o velho José, que o acompanhava sempre, com o grande missal romano debaixo do braço:

—José, deixa um pinto em cima da{55} mesa para esta pobre gente festejar o domingo.

E saía tocando ao de leve com os dedos nas faces rosadas das criancinhas, que olhavam para elle com os seus meigos olhos grandes, cheios de espanto e de curiosidade.

O José demorava-se como que para obedecer ao fidalgo e saia momentos depois, levando nas vastas algibeiras da casaca os bocados de pão negro e de carne, com os quaes e com a ajuda de mais uma taboa o Conde havia de jantar n'aquelle dia.

E o Conde continuava alegre e passava os dias conversando, como elle dizia, com os seus auctores favoritos e entretendo a imaginação com os sonhos doirados d'um futuro melhor.

Tinha um filho.

Havia trez annos que o seu genio desleixado o obrigára a partir para o Brazil, na esperança de, á força de trabalho, reparar os desastres da fortuna.

E não fôra a ambição que o levára tão{56} longe. Não ignorava elle a maneira como se sustentava o Conde e o seu genio altivo custava-lhe sujeitar-se á compassiva esmola dos aldeãos.

Um dia, deu parte de suas tenções ao pae, mostrando-lhe a conveniencia d'aquella partida, occultando-lhe porém uma grande parte da verdade com receio que a revelação d'ella fosse um golpe fatal na vida do velho. Repellida primeiramente a ideia como absurda e pouco digna, o pobre pae, com o coração esmigalhado pela dôr e pela vergonha, teve por fim que render-se e sacrificar o seu orgulho ao orgulho mais nobre do filho.

Obtida a licença, partiu levando como capital a benção paterna e os poucos pintos que rendeu mais uma hypotheca.

* * *

Os primeiros dias foram horriveis para o Conde. Sentia um vacuo enorme n'aquella casa, havia pouco tão cheia ainda. Depois a{57} dôr foi abrandando pouco a pouco, e o Conde voltou aos habitos antigos. Tinha mais um sentimento no coração: a esperança.

* * *

Uma tarde chegou uma carta que dizia:

«Meu caro pae, vou bem, vou muito bem. Pelo proximo paquete espero poder enviar-lhe cem mil réis, quantia que continuarei a mandar todos os mezes.»

O Conde procurou paquete no diccionario de Moraes, mas achou a palavra comida pela traça.

O José chorava de alegria e n'aquella noite deitou duas taboas no lume, acceitou um copo de vinho ao João Pereira, e, quando acabou o terço, disse para o Conde, com quem o resára em voz alta:

—Para que se realise o que sr. D. Carlos nos promette: Salve, Rainha.{58}

* * *

E passou-se mez e meio e o Conde dizia:

—O que será paquete?

De Agostinho de Macedo para cá não sabia nada, não lia jornaes, nem vêl-os queria. Detestava-os com um odio de velho, quasi instinctivo. Quando via algum jornal murmurava logo!

—Maçonaria!

E continuava a esperar o paquete, como um sebastianista espera D. Sebastião, com uma confiança cheia de misterios e de pequenas impaciencias.

O palacio já pouco mais tinha do que as paredes. Pouco a pouco, taboa, por taboa, viga por viga, o quarto do criado passára pela chaminé e este dormia agora na camara do Conde.

E o velho fidalgo dizia ao ver crepitar na vasta lareira as taboas carcomidas:

—Paciencia! Isto concerta-se depois, quando chegar o paquete.{59}

E o José apenas respondia:

—Salve, Rainha.

Estava-se no principio de janeiro.

O Conde começou a separar os livros em duas classes: a dos livros uteis e a dos livros inuteis.

Os livros inuteis transformaram-se em calor, e, quando o Conde via as paginas amarelladas torcerem-se sob a acção do lume, olhava para ellas tristemente e depois, erguendo os olhos para o retrato do avô, dizia mentalmente, como que pedindo desculpa:

—São os peores.

Acabaram os livros inuteis e o Conde poz de lado os optimos e queimou os restantes.

Duraram dois dias.

E como o paquete não chegava, o Conde coçava a cabeça e olhava com um modo menos respeitoso para o missal romano.

O José triplicava o numero das salve-rainhas.

E o paquete não chegava, e os manuscriptos{60} arderam, e o Conde queimou as gravuras e conservou apenas o Suetonio.

* * *

Passados dias chegou uma carta.

Trazia um sobrescripto azul, um pouco transparente, muito boa lettra, uma lettra com muitos finos e grossos, como a d'um professor de caligraphia. Trazia a marca do Brazil e cheirava a carvão de pedra.

Foi o José quem a recebeu, e correndo para a livraria, onde o Conde estendia instinctivamente as mãos tremulas sobre as cinzas frias da chaminé, entrou gritando:

—O paquete! o paquete!

O Conde estremeceu, ergueu-se e pegou na carta.

Era talvez a riqueza!

Passou-lhe uma nuvem pelos olhos.

Encostou-se a uma poltrona e, tremendo, abrio o sobrescripto.

E leu:{61}

«Temos o doloroso dever de dar parte a V. Ex.ª do fallecimento do seu filho...»

O Conde não poude ler mais e deixou cair a carta.

José exclamava:

—Perdidos! Perdidos!

E dava com a cabeça nas paredes.

O Conde conservava-se silencioso e fitava os olhos turvos na folha de papel azul, que tremulava no chão assoprada pelo vento.

—Resta-nos a caridade, José, disse porfim. Vae, vae ter com essa gente a quem hontem ainda eu dei esmolla, e dize-lhe que o Conde lhe pede, por amor de Deus, um bocado de pão.

E depois soluçando:

—Manuel! Filho!... Meu querido filho! E como fazia muito frio, o Conde queimou o Suetonio.{62}

{63}

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