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Contos

GRI-GRI[1]

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GRI-GRI[1]

Ao longe, para as bandas de Santos, começavam a apagar os candeeiros. Uma neblina baixa espalhava-se sobre o Tejo, mas no céu, atravez do nevoeiro, brilhava, muito fria, a estrella da manhã, e a lua, como um saveiro de prata, de proa e poppa{154} recurvadas, empallidecia pouco a pouco. Os montes da Outra Banda estampavam confusos no céo embaciado os contornos gigantescos, e no fundo escuro mal se distinguiam as grandes massas negras dos navios. Occulto n'um monte de pedras, um grillo cantava distrahido:—gri, gri, gri, gri...

O homem vinha d'aquelles lados do Caes do Sodré. Parecia bastante fóra de si; cambaleava por excesso de cançaço; muito pallido, com o fato em desalinho, o chapéo de palha, amolgado, deitado para a nuca. Parava repentinamente, de quando em quando, como em frente de um obstaculo invencivel, e limpava com as costas da mão as bagas de suor escorrendo-lhe sobre a testa das melenas desgrenhadas, que então sacudia para traz com um gesto violento da cabeça. Seguia aos SS, machinalmente, ao acaso, para onde as pernas o levavam. As abas do casaco desabotoado, onde batia com os braços a dar, a dar, faziam-o parecer na sombra, quando passava junto dos candeeiros, um grande{155} morcego ferido a querer esvoaçar. Vinha de dentes ferrados, olhar fixo, olheiras pisadas.

Já se ouviam os barulhos antipathicos do amanhecer na cidade. Recolhiam as carroças dos varredores, e na Praça D. Luiz dois empregados, mudos e somnolentos, limpavam as sargetas do passeio. O homem dos candeeiros vinha-se approximando, fazendo tinir os vidros, ao cahirem depois da luz apagada. Para aquelles lados apenas ficou luzindo uma lanterna moribunda n'uma barca de banhos. Um homem em mangas de camisa, que dormira toda a noite em cima d'um banco, espreguiçou-se muito, dobrou os joelhos, tornou a esticar as pernas e depois, rodando sobre o centro, sentou-se de repente, tirou o barrete, coçou desesperadamente a cabeça. Uns operarios, com o fardel em lenço de chita na ponteira do guarda-chuva, passaram apressados. Por todos os lados, na cidade alta, em roda da Praça e nas capoeiras dos terceiros andares, estrugiam cantos de{156} gallos, roucos e solemnes, conquistadores e desafinados.

O homem, que até então seguira pelo meio da rua, approximou-se do passeio. O outro acabara de coçar-se e, como a manhã estava humida, enterrara o barrete até ás orelhas e, de braços cruzados, muito chegados ao peito, fazia, para aquecer, o gesto de quem emballa uma criança. Levantou-se depois e foi para o caes gritar muito prolongadamente—«Ó compadre...! Ó compadre...! Ó compadre...!» Lá de longe, d'uma fragata, responderam-lhe:—«Eh! ti'Zé...!» O homem dos candeeiros passou, e, como o ti'Zé se levantára, o outro sentou-se sem dar por isso, no mesmo banco, perto d'onde o grillo continuava distrahido:—gri, gri, gri, gri...

Parecia muito afflicto, em grande desespero, relanceando em redor os olhos, sem fixar a vista em nenhum objecto, como se apenas pudesse olhar para a sua desgraça. Tirou o chapeu, fincou os cotovellos nos{157} joelhos, e com as maçãs das faces sobre os punhos cerrados, arrepelou as barbas para cima dos olhos. Olhando tristemente para o chão, todo curvado, vinham-lhe estremecimentos nervosos, que lhe percorriam rapidos o corpo, fazendo-o levantar as pernas, que recahiam com força; tinha no rosto a mascara pallida e feia da tristeza sem consolo; nas olheiras carregadas e nos cantos dos labios uma amargura dolorosa cavára as rugas muito fundas. Respirava alto, murmurando exclamações irritadas d'uma angustia sem remedio, frases sem nexo, cortadas por soluços.

Os fios do telegrapho cantavam sem pausa uma doida melopéa triste, emquanto ao longe, já se ouvia um murmurio indefinido de vida a começar. Algumas chaminés principiaram a deitar baforadas negras de fumo, que, não podendo elevar-se na atmosphera humida, alastrava-se sobre o Tejo. E os signaes das embarcações e o reflexo d'elles n'uma grande faxa tremeluzente faziam como{158} que um bordado a oiro no grande véu esfarrapado de gaze luctuoso.

O horisonte branquejava.

Ouviram-se nos navios os tiros frouxos da alvorada e de longe chegaram moribundos uns toques de corneta. Junto ao caes passeava, com modos de avejão na densa neblina, um guarda da alfandega friorento. E o grillo sob as pedras continuava distrahido:—gri, gri, gri, gri...

O homem ergueu-se n'um impeto, como quem toma uma decisão inabalavel contra argumentos. Cambaleando, arrastando-se, approximou-se do caes. Pequeninas vagas marulhavam docemente e lá do fundo subia um frio humido, desagradavel, frio de morte. Então poz-se a fitar os olhos nas aguas e, como se ellas lhe cantassem uma canção muito meiga, como se ouvisse a voz da melhor amiga, sorriu-lhes desvanecido, mais tranquillo, já quasi convalescente da longa noite de exaspero. Duas grossas lagrimas correram-lhe pelas faces macilentas, o peito{159} oppresso ergueu-se alto, e elle respirou fundamente, passou as mãos pela cara. Pouco depois, preso de pavor medonho, abalou, sem querer olhar para traz, com gestos doidos, d'olhos esbogalhados, chapéu na mão, melenas erriçadas.

E, passados instantes, estava outra vez junto do caes, parado, meditando, com os olhos fitos na agua.

O Tejo accordára. Do lado do Barreiro surgiam umas velasitas brancas e rio abaixo singrava, orgulhosa, uma grande fragata de vela avermelhada, com uma ancora pintada de negro no panno, projectando na agua immovel como grande placa oleosa, uma imagem tremida, enorme, cortada por uma linha de espuma. Em terra começavam a definir-se certos sussurros. Rangiam portas de tabernas, passavam peixeiras correndo, um guarda nocturno batia fortemente á porta d'um armazem, ouviu-se um despertador no interior d'uma casa. O ceu, muito branco havia pouco, tornara-se côr de laranja. A neblina{160} erguera-se e o fumo das chaminés subia a prumo, alargando-se no alto, como um penacho de porta machado.

Então o homem decidiu-se e de braços para a frente, atirou-se ao rio—Chap!—O benemerito guarda d'alfandega, o 72 por signal, atirou-se atraz do homem.

E, quando seguia para a esquadra, acompanhado pelo guarda que gesticulava muito, entre dois soldados da guarda municipal, encharcado, sujo, envergonhado, arrependido, tranzido de frio, o grillo continuava distrahido sob as pedras:—gri, gri, gri, gri...

* * *

Ora isto não quer dizer nada; mas então porque foi que só n'essa occasião é que elle embirrou com o grillo que fazia gri, gri?{161}

[1] Variante em verso, publicada pela livraria Popular

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