IV PARTE OS PRINCIPIOS DA REFORMA
J. S. Canuto translation
Capitulos:
I —Os Principios da Reforma.
II —Como a Reforma se poz em contacto com a politica.
III —A catholicidade dos reformadores.
IV —Os principios doutrinarios.
CAPITULO I OS PRINCIPIOS DA REFORMA
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag. 208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual, pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis, pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares condições sociaes.—O movimento da Reforma surgiu n’um dos mais notaveis periodos da historia europea. A tomada de Constantinopla pelos turcos ottomanos no meiado do seculo quinze dispersou por toda a Europa os thesouros litterarios e os sabios de aquella rica e illustrada cidade. Muitas pessoas começaram a estudar diligentemente os antigos auctores latinos; aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes a sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos poetas e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua em que foi escripto; e os rabbis judeus encontraram, com grande surpreza sua, no mundo occidental, homens com immensa vontade de aprenderem a sua antiga lingua, o hebraico, e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles. Um mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, quer na litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens do periodo em que a Reforma appareceu.
A descoberta da America por Colombo não só revolucionou o commercio e tudo quanto se relaciona com elle, como tambem excitou a imaginação da Europa. O que não poderiam os homens fazer, visto que tanto tinham feito já, tanto tinham descoberto? Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella epoca foi dito e escripto por homens que se julgavam em vesperas de grandes acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.
As condições politicas da Europa occidental tinham tambem mudado. Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento das modernas nações europeas. Haviam-se desprendido, umas apoz outras, do systema politico medieval, e tornado independentes, com sentimentos, sympathias e aspirações nacionaes, o que fez com que cada nação comprehendesse que tinha um caminho especial a percorrer.
O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle mundo de costumes sociaes e de restricção politica e religiosa em que tinham anteriormente vivido era pequeno de mais para elles; sentiram a necessidade de mais espaço para respirarem. O mundo era maior; a vida tinha muito mais aspectos do que aquelles que os paes d’elles tinham jámais posto na sua idéa. Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era agora novo.
Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a philosophia escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos e as mentes dos homens, e traçado limites que elles não podiam ultrapassar. Estas barreiras haviam-se desmoronado sob a influencia da nova vida que por todos os lados penetrava n’elles, e os homens descobriram que a religião era uma coisa maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida social, com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do Sacro Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos que escapavam á perspicacia dos mais eminentes sabios.
Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, com toda a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, lucrando apenas com isso o encontrarem-se na grave situação de isolamento social, como acontece a todos aquelles cujos pensamentos não são comprehendidos pelos homens do seu tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses pensamentos propriedade commum, e as multidões principiaram a ser agitadas por elles.
Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma appareceu; mas o movimento, em si, não pode ser explicado simplesmente por meio de uma descripção d’essas condições sociaes. Teve logar uma verdadeira renascença da religião, um cumprimento da promessa do derramamento do Espirito Santo sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso que surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, e tirou d’ellas mesmas a sua força.
Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.—O que mais agita os corações dos homens que se encontram no meio de um grande movimento religioso dentro da Egreja christã é o desejo de se approximarem de Deus, de se sentirem em communhão pessoal com aquelle Deus que se mostrou cheio de graça e perdão mediante a vida e obra do Senhor Jesus Christo. Os homens que estão realmente sob a influencia de um grande despertamento religioso, e que são arrastados por um movimento de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho atravancado de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam ter accesso á presença divina.
Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, e mesmo durante algum tempo depois, os homens que estavam sob a influencia d’essa revivificação encontraram no seu caminho as taes barreiras de que já falámos. A Egreja, que se intitulava a porta que dava accesso á presença de Deus, tinha atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a sua maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha lista de penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter mostrado a vereda que conduzia á presença de Deus, parecia ter rodeiado o Seu santuario de um triplice muro que tornava difficilima a entrada. Quando um homem ou uma mulher sentia o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja dizia-lhe que fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes de vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado. Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de perdão, era-lhes este assegurado, não por Deus, mas por um padre. A graça de Deus, de que o homem tanto precisa durante a vida, e de que tanto precisa tambem á hora da morte, era-lhes concedida por meio de uma serie de sacramentos a que tinham de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante a Egreja mediante a confirmação; o seu casamento ficava isento do peccado da concupiscencia mediante o sacramento do matrimonio; a penitencia restituia-os á vida, depois de terem commettido qualquer peccado mortal; o sacramento da Ceia do Senhor, administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o descanço eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas coisas não constituiam de maneira alguma os signaes da livre graça de Deus, sob cujo vasto docel o homem passa a sua vida espiritual. Eram, antes, umas portas guardadas com toda a vigilancia, e que os padres abriam de mau humor, e quasi sempre só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que Deus dá gratuitamente.
Ninguem podia, tão pouco, viver livremente uma vida christã, dedicando ao serviço de Deus todos os talentos que possuia. Para se viver santamente era necessario observar umas tantas coisas que a Egreja prescrevia, como, por exemplo, os frequentes jejuns, as interminaveis rezas, as flagellações, e um conjuncto de tediosas ceremonias, que, se eram manifestações de amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a maxima de S. João, beneficiando o proximo.
A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, de Deus, proclamando a todos que, se almejassem por se approximar do compassivo Redemptor só o poderiam fazer passando pelas estreitas portas que ella guardava, e exigindo por essa passagem, isto é, pelo baptismo, pela confirmação, pelo casamento, e pelos restantes sacramentos, umas vis moedas, e inpondo de quando em quando uma compra de indulgencias, para acabar de encher os seus cofres.
A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado pelo irresistivel desejo de uma approximação de Deus, e satisfez cabalmente esse desejo levando deante de si, e fazendo desapparecer, todas as barreiras e obstaculos.
Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.—É natural que occorra esta pergunta: Como é possivel que a Egreja se esquecesse a tal ponto da sua missão e do verdadeiro fim da sua existencia que, como os reformadores constataram, estivesse fazendo exactamente o contrario de aquillo que devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus irmãos na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre elles e Deus, e que os conservava longe d’Elle. Como poude a Egreja tornar-se uma coisa inteiramente opposta ao que era licito esperar que ella fosse? Como poude a Egreja de Deus converter-se, segundo a graphica expressão de Knox, «n’uma synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, porém, dar uma idéa geral do que se passou.
«A separação do mundo» é uma das maximas da vida christã, symbolisada nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada nas normas da vida do Novo testamento. A Egreja devia viver separada do mundo, e, em todos os seculos, aquelles a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se esforçado por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica. Gregorio VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, e que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador da Egreja medieval, declarou que essa separação devia ser perfeitamente visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse no reino de Christo; e aquella sua opinião influiu muito no modo de ser da Egreja medieval. Nos seus dias todo o governo politico estava nas mãos do chefe do Imperio Romano, e Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival sobre a terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado fôra o grande Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. Nas suas mãos a Egreja tornou-se um reino em contraposição ao Imperio Romano da Edade Media, seu adversario visivel. Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja n’uma monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre duas coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas. O grande, o fatal, defeito n’aquela idéa de separação do mundo, em que Gregorio andava absorvido, proveiu do facto d’elle tomar uma parte do mundo, isto é, o Imperio politico, pelo mundo todo de que era necessario haver separação, de modo que a Egreja ficou separada do imperio, mas não ficou separada do mundo.
A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; todas estas phrases, empregadas na Escriptura para descrever o parentesco espiritual entre Deus e o seu povo foram malignamente applicadas a esta organização politica visivelmente separada do Imperio politico da Edade Media. Um homem era chamado santo se pertencia a um dos reinos, e secular se pertencia ao outro; um frade era um homem santo, um guarda do imperador era um homem secular. Um campo era santo se um papa ou um clerigo qualquer recebia a respectiva renda; era secular se o proprietario não tinha ordens ecclesiasticas. Todas as palavras e phrases que se deviam reservar para quando se tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas na descripção de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que pertencia áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.
A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia culto a Deus; era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, ou em virtude do modo habitual de fallar, se ensinou aos homens que a Egreja era simplesmente uma sociedade visivel, a religião espiritual decaiu, sendo substituida por uma outra que consistia apenas na observancia de um certo numero de ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a Reforma appareceu era já impossivel supportal-a por mais tempo, e os homens insistiram em que os nomes espirituaes fossem applicados ás coisas espirituaes, ou, por outra, em que não se fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas piedosas.
Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de Christo.—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para se tornar cada vez mais um reino politico, e cada vez menos uma egreja, não se deve suppôr que durante a Edade Media não houvesse religião espiritual. O Livro de Oração Commum da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado de antigos livros cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja andava geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que esse livro está impregnado de um profundo sentimento religioso. Muitos dos hymnos que eram cantados no culto publico por todas as egrejas protestantes foram originalmente compostos por devotos poetas medievaes, que dedicavam os seus talentos á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a sua existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr em contacto com as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes e friamente politicas. Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira separação do mundo, sem procurar definir as suas idéas, ou descutir o facto de terem os guias politicos da Egreja restringido o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém, tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir os seus pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre estava em harmonia com as definições dos estadistas ecclesiasticos. Para exemplificação d’isto, vamos passar em revista dois periodos de reviviscencia.
Francisco de Assis.—Francisco de Assis, commovido pelas dolorosas scenas que observava nas cidades, onde a população indigente, pela maior parte composta de camponezes que haviam deixado as suas terras para se livrarem do pagamento das contribuições e dos pesados serviços a que os senhores feudaes, cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em miseraveis e repellentes bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino espiritual d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente mãos á obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, mas como sob a influencia de uma grande idéa. Essa grande idéa era a tal maxima da «separação do mundo», a mesma que, erradamente interpretada, havia tornado politica a Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do mundo não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de dois espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela sociedade politica; tinha de baseiar-se na conducta individual. Gregorio VII tinha definido a separação de uma maneira negativa; havia dito «A Egreja é uma coisa que o mundo não é, e está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um modo mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste em estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.
Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de Chanterbury expozera n’uma arida fórma escolastica, a da imitação de Christo; e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever a verdadeira e individual separação do mundo, muito differente da separação politica de Gregorio VII. Anselmo e Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma maneira fria e dogmatica, e outro n’um estylo de fervoroso prégador da renascença, feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella o unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que Christo lhes alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra de Christo imitando-O. Francisco pegou, por assim dizer, n’esta idéa e, ligando-a com a maxima da separação do mundo, disse: «Eis aqui a verdadeira separação. Christo não era d’este mundo. O Seu reino não era d’este mundo. A separação do mundo é posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos aos de Christo.»
Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não tinham grande largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, assim como a Sua separação do mundo, apresentavam-se-lhe claramente, mas de uma maneira limitada. Nosso Senhor não era casado; estava separado da vida social que provém do casamento. Era pobre; estava separado do mundo da riqueza, do mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto de Se deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, da independencia de vida e de acção. Prendeu-se a estes aspectos exteriores da vida de Christo; fez consistir a imitação de Christo e a consequente separação do mundo n’estes modos visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo ficou significando, entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de pobreza, castidade e obediencia.
O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes resultados e teve um rapido successo; mas, como todos os outros movimentos que se baseiam em imitaçõees exteriores da vida divina, depressa deixou de impulsionar os espiritos, e os homens piedosos pozeram-se á procura de uma melhor separação do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais genuina imitação de Christo.
Os Mysticos medievaes.—Os mysticos julgaram ter encontrado uma solução para o problema. A imitação de Christo e a separação do mundo á maneira de Christo deviam, disseram elles, ser mais profunda e mais intima. Deviam ser postas em connexão com uma religião espiritual, pois que é a alma, e não aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo, afim de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem tem, disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, que é propriamente a vida da alma, e uma vida exterior, uma vida visivel, passada no meio da sociedade. Põe-se em communhão com Deus, não mediante aquella vida exterior, que todos os homens vivem, mas mediante a que possue espiritualmente, mediante a vida da alma. A separação do mundo não consiste n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que separação do mundo significa communhão com Deus, e essa communhão não tem logar de uma fórma visivel, mas muita reconditamente, quando a alma se encontra a sós com Elle. Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos os desejos, a todos os actos que podessem impedir a communhão da alma com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle Christo que está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, como se vê, ácerca da separação do mundo, a mesma idéa de Gregorio. Ligavam-n’a com aquella idéa de imitação de Christo, em que Francisco de Assis tanto insistia. Vivendo, porém, n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, foram levados a reconhecer, como a ninguem, antes ou depois d’elles, tem succedido, que o reino de Deus está no interior dos corações. A renuncia ficou sendo a sua senha, e essa sua renuncia era toda espiritual, e com ella se armaram para soffrer pacientemente tudo quanto a Deus, na Sua Providencia, aprouvesse enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser religião espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter esse nome, ser espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, mais de Christo do que Gregorio com a sua Egreja politica ou do que Francisco de Assis com a sua pictorica imitação dos aspectos da vida de Christo no mundo.
A significação do perdão, segundo a Reforma.—Todos estes movimentos eram revivificações da religião. Eram todos elles tentativas para se chegar a uma verdadeira separação do mundo, que é o mesmo que approximação de Deus. A Egreja sustentou esta prolongada lucta como preparação para a Reforma, fazendo dos seus proprios desenganos outras tantas alpondras para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou por todas ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição da familia, deixou de estudar direito para estudar theologia.
Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica e a imitação de Christo segundo as regras monacaes lhe proporcionariam aquella paz da alma que é o fructo de uma convivencia com Christo. Foi João Tauler ou Nicolau de Basiléa quando se inteirou de que a religião, para ser verdadeira, deve ser espiritual. Mas ainda assim elle não ficou satisfeito. Não se sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia que lhe era indispensavel estar senão depois de experimentar aquella bem-aventurada sensação de perdão pela qual anhelava. E porque havia feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza do perdão? Como hei de eu transpôr essa insuperavel barreira do peccado que se ergue entre mim e o Deus de toda a santidade?» e considerara este ponto como de summa importancia durante todo o periodo em que o seu espirito passou por varias vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião que a Reforma effectuou.
Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos principaes caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto de Deus, mas esse desejo era manifestado mediante differentes perguntas, e cada tentativa de revivificação tornava mais evidente a possibilidade de que elle fosse satisfeito, Gregorio perguntava: «Como posso eu separar-me do mundo?» Francisco de Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante a Christo?» Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos luctam com a mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; está-se cada vez mais perto da solução do problema, á medida que as gerações se succedem, até que por fim vieram os reformadores, que com tanto zelo procuraram revivificar a religião, e pozeram em primeiro logar a questão do perdão, e, conseguintemente, a do peccado, tocando assim no ponto principal. Desembaracemo-nos do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, e haverá então separação do mundo, imitação de Christo e communhão com Deus.
A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do mesmo modo. Os homens alcançam o perdão de Deus indo pedil-o directamente a Deus, e confiando na Sua promessa de que perdoaria. A livre e clemente graça de Deus, revelada na pessoa e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa promettida graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida religiosa da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar o peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. Tal é o simples aspecto religioso do movimento da Reforma. Todos aquelles que, sentindo a necessidade do perdão, e tendo perfeita confiança na promessa do perdão que Deus fez mediante Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de pensar em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa promessa e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a consciencia d’isso.
Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.—Sendo este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, é manifesto que elle não constituiu um caso singular, isolado, na historia da Egreja. Todos os christãos piedosos teem sentido pouco mais ou menos a mesma coisa, o seu espirito tem passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com Deus para serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as gerações christãs dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem á vida do christão dizem a mesma coisa, e o que a Reforma fez foi definir claramente que todos os christãos tinham, com mais ou menos consciencia do facto, sentido.
Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que espiritualmente experimentavam, e que era a linha central da sua vida religiosa, estava, n’uma multiplicidade de modos, em contradicção com o credo, o culto e a organização theoretica da sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente do que o contraste entre as exposições doutrinaes e as posições ecclesiasticas de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as phrases que empregavam nas suas orações. A sua theologia tinha muitos pontos de contacto com a philosophia pagã de Aristoteles, no seu culto estavam consubstanciados muitos ritos do paganismo, a fórma como a Sua Egreja era dirigida era mais modelada na constituição do imperio romano do que na constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos piedosos viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao momento em que os elementos pagãos que haviam sido introduzidos na sua Egreja se tornaram tão preponderantes que elles se viram forçados a protestar contra elles. Luthero achou o perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que nunca fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na Egreja não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus por dinheiro. Isso levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção a certos assumptos, e compenetrou-se de que a venda do perdão dos peccados não era uma horrivel profanação enxertada na Egreja que elles veneravam, mas sim uma verdadeira e logica deducção de principios com que elles não se tinham até ali preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que sempre existiu na Egreja medieval, manifestando-se na santidade da vida, na nobreza dos hymnos, nas confissões do peccado, e na confiança nas promessas do Deus do pacto. Os protestantes não precisam de reivindicar a sua affinidade com homens cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem reconhecido a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o viver religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do mahometanismo ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre ascendencia em todos esses homens e mulheres piedosas que, mesmo nos seculos mais obscuros da Egreja, foram ter directamente com Deus, confiados, tanto no tocante á vida presente como no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça renovadora que Elle revelou em Christo.
CAPITULO II COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a nação medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O De Monarchia de Dante e o Defensor Pacis de Marcello de Padua, pag. 218.
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida social da epoca.—A Reforma começou simplesmente como uma tentativa de dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, segundo os dictames da consciencia e os impulsos da vida interior, da vida espiritual; mas não podia ficar por ahi; significou por fim uma revolução nas condições da sociedade e uma grande mudança na situação politica da Europa.
A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens de raiz, e quando uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz se tornava protestante, levantavam-se discussões sobre o destino a dar a estas propriedades. Deviam ficar em poder dos padres, deviam passar para o do pastor protestante, ou deviam as auctoridades civis tomar conta d’ellas e administral-as como bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar dizimos—o dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos vitellos, dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam remuneração pelos baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações e pelos enterros. Quando as familias se tornavam protestantes, e dispensavam os serviços dos clerigos da Egreja medieval, por não se quererem sujeitar a ritos supersticiosos, aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos? A permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram muitas vezes levadas aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a uma modificação das leis concernentes á propriedade.
A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigos não podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia frades e freiras celibatarias e que haviam feito votos de castidade, sanccionados pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens ou mulheres se tornasse protestante, ser-lhe-hia permittido desligar-se dos votos e abandonar o convento? e, no caso de ter levado dinheiro comsigo para o convento, ser-lhe-hia restituido? Se todos os moradores de uma casa religiosa abraçassem a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e continuar disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões juridicas deu logar a Reforma.
Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja medieval, segundo o costume da epoca, tinha jurisdicção sobre muitos pleitos, que na Europa moderna são julgados pelos tribunaes civis. As questões entre marido e mulher, entre paes e filhos, e as que diziam respeito a heranças e testamentos, estavam na alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram submettidos ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se um casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido, se este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões levantavam sempre comsigo uma outra, a da propriedade, pois que só os filhos ligitimos podiam herdar os bens de seus paes. Só era licito o casamento que fosse feito dentro dos graus auctorizados, e effectuado á face da Egreja por um sacerdote ordenado. E isto porque, em conformidade com as idéas da Egreja medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade de um matrimonio só podia provir de um sacramento que não podia ser administrado a rebeldes, por constituir um acto de desobediencia á auctoridade da Egreja. E a lei da Egreja era a lei da nação; pois que antes da Reforma a Egreja tinha o direito de resolver todos estes casos. A não ser que as leis fossem alteradas, filho algum de protestantes, casados por pastores protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento legal. E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto as questões que diziam respeito á propriedade; affectava-se tambem a honra pessoal, e a dignidade das esposas e dos filhos.
Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os que citámos são sufficientes para mostrar como o simples desejo de dar culto a Deus segundo a consciencia alterou todas as condições da vida social. O velho systema ecclesiastico descia até aos proprios alicerces da vida quotidiana, e tudo apertava nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o, atacou por esse facto todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e a da hereditariedade.
A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.—Segundo as noções medievaes, a sociedade estava dividida em Egreja e em Estado politico. O poder ecclesiastico estava todo centralizado na pessoa do papa, que era o sacerdote universal; e o poder civil estava todo centralizado na pessoa do imperador, que era o soberano universal. Um era sacerdote dos sacerdotes, e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos reis. Um homem pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa; era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador.
Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no fim do seculo oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se, sem ser incommodado, n’uma parte da Europa occidental. Com os seus fortes exercitos obstaram ao avanço das hordas dos barbaros frisios e saxonios que pretendiam opprimir a Europa com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os serracenos a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão, o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo de Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o prestigio do nome romano e tudo quanto restava das leis, artes e sciencias romanas. O imperio assim estabelecido apresentava um estranho dualismo. Tinha um chefe civil e outro espiritual, Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia europea se fundava na dupla theoria da representação; o imperador era reputado o vigario de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo que o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes.
Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava obedecer ao papa no que dizia respeito ás materias espirituaes rebellava-se contra a sociedade, pois que esta se baseava na idéa de que o papa e o imperador eram os senhores supremos. O protestantismo quebrou esta união dos dois elementos da christandade, que se affigurava necessaria para dar á sociedade uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral.
Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.—As idéas medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer a Reforma. O nascimento das nações modernas, com os seus interesses em separado, o que dava origem a constantes conflictos, e com as suas aspirações de completa independencia, vibrou um golpe á noção medieval de christandade indivizivel. Este sentimento de independencia nacional significava revolta contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza de Proemunire, que prohibe appellações para Roma, significava que existia no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não se podia appellar; e isso era uma revolta contra a noção medieval da christandade unida, segundo a qual todas as appellações deviam ser depostas junto do throno do imperador ou da cadeira do papa.
Noções independentes queria dizer egrejas independentes, e a revolta de Henrique VIII não teve maior significação do que a de Eduardo III ou a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza foi, n’uma epoca posterior, uma revolta contra a mesma idéa medieval de centralizar em Roma o poder ecclesiastico.
A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido mais amplo; tornou-a permanente; animou a tendencia para a descentralização. Depois de ter surgido a Reforma as nações tiveram mais um motivo para dissenções, pois que a differença de credo indispôl-as umas com as outras.
Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião espiritual, tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade politica e ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas não as atacaram. A convicção em que estavam de que a religião consiste n’uma communhão espiritual com Deus tornava-os extremamente indifferentes a todas as combinações e associações extrinsecas. De todos os reformadores só Luthero mostrou partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença, perante a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de os homens se ligarem uns com os outros, com a differença, comtudo, de que o centro d’esse movimento associativo, d’essa força colligadora, não era aquelle que as nações medievaes indicavam. Nutria a vida nacional; os homens, pela razão de terem combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo paiz, de terem herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos infortunios, mantinham entre si uma especie de unidade espiritual. As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta nova lei de desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, que operou uma tão completa separação de Roma, e que, apezar d’isso, não destruiu a sociedade, mostrou a todos os homens que podia haver vida social e communhão religiosa sem aquella pressão exterior, sem que as idéas de ordem e associação andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja universaes. A noção medieval de uma Europa unificada constrangia todas as nações a obedecerem a um poder central, que residia no imperador; a noção reformista era a de uma fraternidade de povos.
A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), de Marcello de Padua.—Appareceram dois notaveis livros antes da Reforma, um que pertencia ao passado que ia desapparecendo, e outro que pertencia ao futuro que se avisinhava.
Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados italianos e das nações europeas, escreveu a sua De Monarchia para mostrar aos seus contemporaneos como podiam viver em paz. O que elle propunha era o restabelecimento, em toda a sua força, do velho imperio medieval, o qual, mesmo visto do seu lado melhor, pouco mais era do que um sonho, conservando o seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a imaginação, O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, quando se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de Carlos Magno, isto é, quando um energico imperador, com a sua côrte no centro do mundo civilisado, ouvisse e julgasse os casos que de todos os pontos da terra fossem submettidos á sua decisão final, e fizesse sentir o peso da sua ferrea mão a todos aquelles que armassem contendas com os seus irmãos. Este livro é o epitaphio do medievalismo.
Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, escreveu o seu livro, o Defensor Pacis, que explicava como a verdadeira paz e segurança nacional começam de dentro. Para Marcello o Estado é o povo, e do povo—dos seu desejos, das suas aspirações, dos seus temores, dos seus intentos—é que provém a vida nacional. O governo é do povo e para o povo. E o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto Dante procurava um poder compellidor que operasse de fóra, Marcello predizia que a força que havia de dominar as nações não podia deixar de ser uma força auto-coerciva que tivesse a sua origem no proprio povo. A Reforma contribuiu para que essa predicção se cumprisse, e para que as suas theorias viessem a constituir uma descripção da vida politica e social da actualidade.
Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou o centro da vida nacional de uma força repressora exterior para uma invisivel fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa o que Kepler fez para a astronomia e Kant para a metaphysica: mudou o centro de fóra para dentro.
CAPITULO III A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES
Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja, pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.
Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.—Nenhum dos reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem Calvino—pensou que procurando dar culto a Deus da maneira mais simples que a Escriptura aconselhava, e que a sua experiencia espiritual approvava, se estava afastando da Egreja. Estavam abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer á Egreja em que tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, e em cuja communhão tinham prestado culto a Deus desde a infancia.
Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a Egreja de seus antepassados. Não tinham desejo algum de fazer uma nova Egreja, e ainda menos de crear uma nova religião. A religião que elles professavam era a religião do Velho e do Novo Testamento, a religião dos santos de Deus desde os dias de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua separação de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e dos Padres. Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em que Christo havia sido acreditado, e em que se havia sentido a presença do Espirito Santo, desde o tempo dos apostolos até aos seus dias.
A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, pensavam elles; não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar a toda a gente a evidencia d’esse facto, a que davam tão grande importancia?
Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição do Imperio medieval.—Os reformadores tinham-se desligado do papa, e não viviam mais em communhão com elle ou com a curia romana. No seu tempo, porém, estar na Egreja era ter communhão com o papa e com Roma. Estar fóra do districto dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles tempos de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos privilegios da Egreja.
Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, ou cidade, ou provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, eram, por esse facto, interrompidos todos os serviços religiosos. Emquanto sobre aquella area pesasse a excommunhão, não podia haver baptismos, nem casamentos, nem confortos espirituaes á hora da morte. As egrejas permaneciam fechadas, e todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não ter communhão com o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil demonstrar o contrario, de um modo claro, sem auxilio de uma argumentação theologica.
O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio de mostrar ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado por aquelles que estavam em communhão com o papa. O Santo Imperio Romano da Edade Media era mais do que um estado politico; era tambem, sob um certo ponto de vista, uma Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono. Chamava-se-lhe a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos deviam a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores ao facto de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma latina approvada pelo papa Damaso. A Edade Media apresentava, portanto, a Egreja de Christo sob dois aspectos: um era o da communhão com o papa, e o outro o da posição que occupava no Imperio Romano.
Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão do imperio. Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo Niceno sob a fórma prescripta. Era, segundo a distincção feita pelo imperador, um christão orthodoxo. Estava dentro da christandade, era membro da grande communidade christã, posto que não estivesse em communhão com o papa. Luthero aproveitou-se do caracter ecclesiastico do imperio da Edade Media; teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel, que era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã, ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com que aos seus contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja era mais ampla, mesmo segundo as noções medievaes, do que a communhão com Roma. Elle proprio estava fóra da communhão com Roma, e, comtudo, era membro da christandade, e estava, por conseguinte, dentro da Egreja.
A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.—O imperio medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos, e a sua dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. Luthero, para mostrar que, não obstante haver-se desligado de Roma, não tinha abandonado a Egreja Catholica de Christo, pegou no Credo dos Apostolos, no Credo Niceno, e no Credo de Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão de fé. Diz elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas por toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de uma vez para sempre, que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, que até agora tem mantido estas Confissões, mas não aquella falsa e pretenciosa Egreja, que é a peor inimiga da verdadeira Egreja, e que tem collocado subrepticiamente muita idolatria a par d’estas bellas Confissões.»
Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros da Egreja Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos de citar. Intitulou-o Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus. Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva pelo papa e pela curia, exactamente como acontecera aos israelitas quando foram transportados para Babylonia. A Egreja, libertada do jugo romano, ficava com todos os privilegios que a Egreja de Deus sempre tivera, e ficava, além d’isso, livre da escravidão.
A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um captiveiro peior do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma eram homens comparaveis a Zorobabel, Esdras e Nehemias. Não estavam fundando uma nova Egreja, estavam reconduzindo a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a liberdade.
Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto que não a expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio aos seus Institutos diz-nos que escreveu o livro para responder áquelles que diziam que as doutrinas dos reformadores eram novas, duvidosas, e contrarias ás dos Paes da Egreja. E refuta essas accusações, mostrando a catholicidade da theologia da Reforma. Prova que todos os reformadores sustentaram as grandes doutrinas catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos, e que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de outra qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as idéas pagãs e as praticas supersticiosas foram, de uma maneira bastante censuravel, introduzidas.
A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.—Os cabeças da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande revivificação religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo um movimento novo, e muito menos que estavam fundando uma nova religião. Tinham, no seu entender, uma ascendencia espiritual, e reputavam-se os verdadeiros herdeiros e successores da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes, e, tambem, da Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles. Pertenciam á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros herdeiros dos seculos de vida santa que os tinham precedido.
Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem scismaticos e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica de Christo, e de procurarem crear uma nova Egreja e fundar uma nova religião. Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a unica communidade christã, e a unica Egreja Catholica e Apostolica.
Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes preparada pela propria Egreja Catholica Romana. A Egreja de Roma acceita o Credo dos Apostolos, e esse Credo faz uma descripção da Egreja que está em completo desaccordo com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos Apostolos diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos santos», e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão de Roma». Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra que dê a entender que catholicidade significa communhão com Roma; catholicidade quer dizer, pelo contrario, communhão com os santos. Este ponto é bem frisado pelos principaes reformadores. O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se baseia n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia no perdão dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de uma santa communhão, e esta existe em virtude do perdão que se alcança para todos os peccados mediante a obra redemptora de nosso Senhor Jesus Christo.
CAPITULO IV OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA
Os principios formaes e materiaes da Reforma, pag. 225.—O sacerdocio de todo os crentes: o grande principio da Reforma, pag. 226.—Explica a Doutrina da Escriptura, pag. 227, e da Justificação pela Fé, pag. 228.—A Doutrina da Escriptura da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de fé salvadora. Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia, pag. 231.—A doutrina da justificação pela fé da Reforma em contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.
Os principios formaes e materiaes da Reforma.—Os principios theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo á revivificação da religião promovida pela Reforma costumam ser divididos em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida pelos formaes e a outra pelos materiaes.
O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de encarar o movimento reformista com muita clareza e energia na sua Historia da Theologia Protestante. Segundo o dr. Dorner, a doutrina da Palavra de Deus é o principio formal da theologia da Reforma, e a doutrina da Justificação pela Fé é o principio material da mesma.
O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer, tanto na vida religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido do movimento que com elle se quer explicar. O principio da Reforma, o impulso predominante no movimento, era simplesmente aquelle que deve inspirar todas as revivificações da religião, isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma approximação de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se revelou, para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus Christo. Aquillo a que se tem chamado os principios, formaes e materiaes, da Reforma está unido a este mais simples, mas mais energico, impulso, e é proveniente d’elle. O direito de chegar á presença de Deus foi, segundo a crença dos reformadores, conferido por Elle a todos os que fazem parte do Seu povo; mas o direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o sacerdocio, e o grande principio da Reforma baseia-se no sacerdocio de todos os crentes—o direito que teem todos os homens e mulheres crentes, todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a Deus, e de procurarem alcançar d’Elle o perdão mediante a confissão dos seus peccados, a luz que lhes illumine os entendimentos, a communhão que os faça sair do seu solitario isolamento, e o vigor necessario para viverem diariamente em santidade.
O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.—Quando Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos com que o romanismo havia desfigurado a Egreja medieval, os dois grandes abusos eram a venda das indulgencias e a excommunhão. Quanto ao primeiro d’esses abusos, a venda das indulgencias, a Egreja medieval dizia praticamente que não era necessario ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a Egreja podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus dava, mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem contrictos e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de uns tantos ducados. Punha-se deliberadamente entre os pecadores e Deus, e afastava-os d’Elle, insinuando-lhes, de uma maneira blasphema, que podia vender-lhes o perdão mais barato. O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio de tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle que possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava absolutamente o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um paiz offendia, mediante os seus governantes, o papa ou a sua côrte de Roma, era-lhe imposta a interdicção, e emquanto esta não fosse levantada não havia perdão para peccado algum. A Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o baptismo, entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida á hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano. Ninguem se podia approximar do Deus de toda a misericordia pelo motivo dos magistrados, dos bispos ou do rei e seus conselheiros terem offendido o papa. A Egreja tinha a faculdade de impedir o caminho, pois que havia declarado que só por intervenção dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções eclesiasticas, o ministrarem os sacramentos, ficava cortada toda a comunicação com Deus. O papa podia, com uma pennada, impedir que uma nação inteira se approximasse de Deus, pois que tinha o direito de ordenar aos padres que suspendessem os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso a Deus.
Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve approximar-se de Deus por meio da oração, por meio do perdão, por meio da communhão, por meio do esclarecimento espiritual, sempre que fielmente o procurar fazer; é impossivel que o caminho para Deus se feche de aquella maneira.» Luthero disse que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas fossem consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro qualquer rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas para declarar que os homens podiam alcançar o perdão sem se approximarem de Deus com um espirito contricto, ou que podiam ser inteiramente excluidos da presença de Deus por determinação de quaesquer outros homens.
Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem fielmente a procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de qualquer penitente, e que Elle faz com que as Suas promessas fallem directamente aos corações de todos aquelles que compõem o Seu povo—que se enleiava em volta de base da theologia da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular, as doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé.
O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada da Escriptura.—Todos os reformadores criam que na Biblia Deus lhes fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos, havia fallado á Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam elles que o povo, tendo nas mãos a Biblia traduzida do grego e do hebraico para uma lingua que elle comprehendesse podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle para receber instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo Testamento Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras por meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores instruidos por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos do Novo Testamento Deus fallou no meio do povo mediante Seu Filho, e o Seu Espirito fallou tambem por intermedio dos apostolos de Christo. Todas estas revelações, inseridas na Escriptura do Velho e Novo Testamento, são apresentadas de tal fórma que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como lhe fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir Deus, que lhes falla directamente, e que a Sua voz pode ser ouvida por todos aquelles em cujas mãos estiver a Biblia. A doutrina reformada da Palavra de Deus exprime simplesmente um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo accesso á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa.
O principio do sacerdocio espiritual de todos os crentes explica a doutrina reformada da justificação pela fé.—A doutrina da justificação pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo accesso a Deus não é um desejo vão, mas uma coisa que pode ter um positivo cumprimento. Segundo a theologia medieval, o peccador não podia implorar directamente a Deus o perdão. Tinha que ir ter com o padre, e esse padre ficava auctorizado a metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão de Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por muito forte que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre elle e o seu clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus os seus peccados nem ouvir de Deus a sentença do perdão senão pela bocca do padre. A doutrina da justificação pela fé significa, na sua fórma mais simples, que é Deus em pessoa quem profere o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto Christo fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas promessas de Deus.
A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.—A doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada sob uma fórma que não a põe em immediata connexão com o impulso preponderante no movimento da Reforma. Os reformadores deram mais credito á Biblia, o livro infallivel, do que á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media os homens appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima palavra em todas as controversias sobre a doutrina e a moral; os reformadores substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos concilios e dos papas, pela Biblia, e ensinaram que era para ella que se devia appellar em ultima instancia. Este modo de expôr a differença entre os reformadores e os seus antagonistas teve uma expressão mais concisa no dito de Chillingworth, famoso theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é a religião dos protestantes.
Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo, portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos romanos e os protestantes não dão o mesmo sentido á palavra Biblia, e essa differença de sentido traz á luz uma verdade que é algumas vezes esquecida. Quando os catholicos romanos fallam da Biblia querem dizer uma coisa, e quando os protestantes fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença no emprego da palavra está uma parte importantissima da doutrina reformada da Escriptura.
A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo lesse a Biblia para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima na theologia da Edade Media que todo o systema doutrinal da Egreja se fundava na Palavra de Deus. Thomaz de Aquino, a maior auctoridade entre os theologos medievaes, diz expressamente, no principio da sua importante obra, A summula da theologia, que todo o circulo da doutrina christã se apoia na Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media fizeram-se continuamente traducções das Escripturas nas linguas dos povos da Europa; é um perfeito erro suppôr-se que as primeiras traducções da Biblia se fizeram durante o tempo da Reforma; em regra geral, animava-se o povo a ler e estudar as Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia reformada, os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para a Egreja Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a leitura da Palavra de Deus.
A doutrina medieval da Escriptura.—Os theologos medievaes faziam, comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle que os protestantes faziam, e na controversia protestante a differença de sentido não tardou em fazer-se notar. Os theologos da Edade Media jámais consideraram a Biblia um meio de graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de informações, divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes, e mais nada.
Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades infalliveis, mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça. Crêem que os homens alcançam com a simples leitura da Biblia não só instrucção como tambem communhão com Deus, não só o conhecimento de Deus como tambem intimidade com Elle. Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante tudo o que era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma coisa. É um tão efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos, ou a oração ou o culto. Mediante um diligente uso da Biblia, os homens, na opinião dos theologos protestantes, não sómente adquirem o conhecimento de Deus; podem tornar-se participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o Seu povo de que a Biblia faz menção.
O quadruplo sentido da Escriptura.—Esta noção medieval ácerca da Biblia—que ella é um repositorio de informações ácerca das doutrinas e da moral, e nada mais—encontra uma seria difficuldade: é que similhante descripção não parece ser applicavel a uma grande parte de Biblia. As Escripturas conteem longas listas de genealogias, capitulos que tratam quasi exclusivamente dos utensilios do templo, ou são descripções da vida humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia, que constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver muita informação doutrinal ou muitas regras para uma vida santa, e, não obstante, são estas coisas que, segundo a definição medieval, compõem a Biblia toda. O theologo medieval tinha, portanto, ou de cortar o que lhe parecesse materia inapplicavel, ou inventar alguma maneira de transformar as taboas genealogicas em doutrinas ou preceitos moraes. Optou pela ultima d’estas coisas, e declarou que em todas as passagens da Biblia havia mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um quadruplo sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido historico da passagem lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres sentidos: O allegorico, o moral e o anagogico. Estes varios sentidos differiam do historico, e os expositores medievaes extrahiam complicadas doutrinas das genealogias de Abrahão e de David, e regras de conducta da descripção das vestes do summo sacerdote ou da narrativa da viagem que nosso Senhor fez de Capernaum a Naim.
É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido de certas passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa simplesmente da significação historica; e a difficuldade quadruplicará, se é verdade que cada passagem tem quatro sentidos. Qualquer trecho da Biblia pode significar aquillo que o leitor quizer, bastando para isso que o tome n’um sentido mystico, ou allegorico.
Definição medieval da fé salvadora. A interpretação infallivel.—Emquanto os theologos medievaes faziam quasi perder a esperança de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a sua doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles tornava de summa importancia que o crente tivesse precisas informações ácerca do contheudo da Biblia. Diziam que fé não era confiança n’uma pessoa, mas assentimento ás informações correctas; a fé que salva era, sustentavam elles, assentimentos ás proposições acerca de Deus, do universo, e da alma humana, contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o certificar-se do que a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição de fé salvadora tornava importantissimo, tanto no que diz respeito a esta vida, como no que diz respeito á futura, que cada um tivesse noções claras e exactas do texto biblico. E assim a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia, não indicada por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia, e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações dos concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia.
É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente possua uma verdadeira e correcta interpretação a que possa dar o seu assentimento, o que fornecer uma interpretação infallivel tem mais valor do que aquillo que é interpretado. E foi isso o que effectivamente succedeu. As decisões dos concilios e dos papas, e a tradicional e auctorizada interpretação da Biblia pela Egreja, adquiriram mais valor pratico do que a propria Biblia. Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam cair no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro.
Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um meio de communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o crente collocavam os theologos medievaes as opiniões dos concilios e dos papas, ou, n’uma palavra, a Egreja. A Egreja interceptava o caminho para Deus mediante a Sua Palavra interpondo-se ella propria e a sua auctorizada interpretação entre o crente e a Biblia.
Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e sabendo por aquillo que o seu espirito havia experimentado que era possivel têl-a mediante a simples leitura da Biblia, compenetraram-se do dever de deitar abaixo essa barreira, e assim o fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser derrubada simplesmente com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições da Egreja, é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos romanos a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era simplesmente um livro embaraçoso. Os reformadores tinham de mostrar a Biblia atravez de outro prisma para que podessem dizer que era infallivel e que era o arbitro supremo em todas as controversias.
Os reformadores e a Biblia.—Deram á Biblia a significação que ella realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella. O Deus pessoal, que os creara e que os remira, havia-lhes fallado nas paginas da Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder e da Sua vontade de salvar. A linguagem era algumas vezes obscura, mas encontraram outras passagens mais claras, e os pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser que os homens simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar todas as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema de theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa, podia ouvir a voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu Redemptor e ter fé nas promessas do seu Senhor. Seria uma boa idéa fazer uma selecção de textos e formar o systema de theologia protestante que tornasse as coisas mais comprehensiveis; mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe; era Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo, promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a narrativa do Seu procedimento com o povo escolhido ou com homens excepcionalmente favorecidos. Detalhe algum de vida, nacional ou individual, era inutil; pois que ajudava a completar o quadro da communhão entre Deus e o Seu povo de outr’ora, esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar assim o grato sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo Testamentos.
Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia ser para elles o que era para os theologos medievaes. Deixava de existir o quadruplo sentido. A Biblia era Deus fallando com elles, um Pae fallando com Seus filhos, do mesmo modo que um homem falla com os seus similhantes; e ficava subsistindo apenas o sentido manifesto, o sentido historico. Era mais do que um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão que os santos haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira revelação da promessa. A fé era mais do que um frio assentimento ás verdades concernentes á doutrina e á moral; era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se lhes dirigia por meio da Biblia.
Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em todas as linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam que um homem que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse a voz de Deus, estava mais ao facto do caminho da salvação do que os concilios e os papas sem ella.
A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles haviam espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo pela communhão com Deus era satisfeito mediante a leitura e prégação da Palavra de Deus. A Biblia porporcionava aos homens o encontrarem-se na presença de Deus e ouvirem as Suas palavras de conforto.
A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.—O segundo grande principio da theologia da Reforma é, por consenso universal, a doutrina da justificação pela fé sómente. Pode-se tambem pôl-a em directa connexão com o principio fundamental da Reforma, o sacerdocio de todos os crentes, ou o direito de accesso, promettido na Palavra de Deus, á Sua presença.
Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no tocante á justificação, occorre a mesma difficuldade com que já deparámos no contraste entre as duas doutrinas ácerca da Escriptura. Diz-se vulgarmente que os reformadores apregoaram uma justificação pela fé sómente, ao passo que os seus antagonistas apregoaram uma justificação pelas obras; mas, posto que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos lembrar-nos de que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos distinctos pelos dois disputantes.
Para os theologos medievaes, justificar significa tornar justo; para os reformadores significa declarar justo. Para aquelles é uma operação que se faz durante um certo tempo; para estes é um acto momentaneo, é um acto da livre graça de Deus, pelo qual Elle perdoa todos os nossos peccados e nos acceita como justos a Seus olhos. Para aquelles é uma obra de purificação do peccado, uma obra de santidade; para estes é a formação de um juizo, ou, como os theologicos dizem, um acto forense. Os reformadores viram que os theologos medievaes empregavam a palavra justificação no sentido mencionado, e trataram de apresentar a sua outra significação. E justificaram esse seu procedimento dizendo que o sentido que deram ao termo é o que o Novo Testamento lhe dá, pois que o emprega na accepção de acto, de sentença, de juizo, e nunca na de obra.
O primeiro contraste não é, portanto, entre a justificação medieval e a doutrina da Reforma, mas entre a doutrina reformada da justificação pela fé e a que lhe corresponde na Egreja medieval. Justificação, na theologia reformada, quer dizer o acto de perdoar e de acceitar como justo; corresponde a essa doutrina, na egreja medieval, a da absolvição dada pelos padres, pois que era o unico modo como poderia ser concedido o perdão dos peccados.
A absolvição clerical e a justificação pela fé.—Segundo a theologia da Edade Media, o perdão divino do peccado tinha sempre de ser proferido por um sacerdote. Quando o penitente se confessasse e se mostrasse arrependido, tanto por palavras como por actos, o padre tinha auctorização para pronunciar a sentença absolutoria, e essa sentença era acceite como sendo proferida pelo proprio Deus, pois que o clero era o orgão mediante o qual, e sómente mediante o qual, Deus perdoava.
Luthero e os outros reformadores viram que o padre que se suppunha occupar o logar de Deus e fallar em nome de Deus commettia acções impias, e a consciencia disse-lhes que, em vista de similhante facto, o perdão do padre não podia ser o perdão de Deus. Luthero viu que um homem, munido de um certificado de indulgencias, ia ter com um padre e recebia perdão sem mostrar arrependimento quer por palavras quer por obras, sem que, apparentemente, sentisse tristeza alguma no seu coração. Viu que os padres pretendiam ser a trombeta de Deus, e que concediam perdão em certos casos em que elle seria negado por um Deus justo e santo.
Luthero e os seus amigos tinham presenciado ou ouvido fallar de casos em que o perdão de Deus havia sido recusado quando um Deus misericordioso o teria concedido. Uma successão de papas havia castigado a cidade de Strasburgo com uma interdicção pelo facto de ella ter tomado uma attitude na politica allemã que não era do agrado da côrte pontificia, e durante todo esse tempo não podia ser proferida uma palavra de perdão a qualquer peccador contricto e arrependido. Os padres perdoavam quando Deus não perdoava, e recusavam perdoar quando Deus estava prompto a conceder o Seu perdão.
Luthero, vendo isto, e sabendo como havia sido perdoado por confiar simplesmente nas promessas de Deus, declarou que o peccador pode ir ter directamente com Deus, pezaroso por haver peccado e cheio de confiança nas promessas de Deus, e obter d’Este o perdão. Asseverou que a não ser que se alcance primeiramente o perdão de Deus, o do padre não tem valor algum, e que, depois de se alcançar o perdão de Deus, o do padre é inutil. O perdão alcançava-se indo ter com Deus, e não indo ter com o padre e ouvindo d’elle a absolvição. A doutrina protestante da justificação mostra o direito de accesso a Deus para Lhe rogar perdão, e declara que padre algum está auctorizado a interpôr-se entre Deus e o peccador arrependido. Deitou por terra a doutrina medieval de que o perdão divino só pode ser alcançado mediante a absolvição clerical, e de que o peccador arrependido não se deve prostrar aos pés de Deus mas deante do confissionario.
Justificação pela fé e justificação pelas obras.—Segundo a theoria medieval, antes de o perdão ser obtido pela fórma ordinaria, mediante a absolvição sacerdotal, era indispensavel confessar os peccados, mostrar contricção e fazer penitencia. Na confissão o peccador deve mencionar ao padre todos os peccados que commetteu desde a ultima vez que se confessou, e n’este catalogo de peccados não se deve faltar a um só pormenor. Peccado algum pode ser perdoado sem que se tenha feito menção d’elle. A confissão deve ser mecanicamente completa. Em seguida á confissão vem a contricção, ou a dôr por haver offendido a Deus, e esta, segundo a doutrina medieval, deve manifestar-se de certos modos esteriotypados que a Egreja tem sanccionado. Depois, e só depois, é que é possivel a absolvição, quer dizer, o perdão.
A Egreja da Edade Media collocava duas coisas entre o peccador e o perdão divino proferido pelo sacerdote: uma completa confissão, mecanicamente feita, em se que fizesse menção de todos os peccados cujo perdão se desejava, e uma contricção manifestada de certos modos estabelecidos, taes como a recitação de um grande numero de orações, a abstenção da comida, etc., e a absolvição dependia da automatica integridade da confissão e da contricção.
Os reformadores tinham a convicção de que o peccado era uma coisa séria de mais para que o seu perdão dependesse de uma completa confissão, e de uma contricção exteriormente manifestada. Deus perdoava por amor de Christo, não em virtude de uma completa confissão ou de uma perfeita contricção. Declararam, por consequencia, que, posto que o peccador deva confessar os seus peccados, e esforçar-se seriamente por se conservar no caminho da obediencia, o perdão depende da soberana graça de Deus, revelada em Christo.
Tornou-se-lhes evidente a necessidade de derrubar os obstaculos que a Egreja medieval havia erguido entre Deus e o homem, e que eram constituidos pela confissão mecanica, e pela contricção, ou penitencia. O arrependimento sincero, o arrependimento do coração, é que era de grande importancia, porque abrangia confissão, contricção e confiança; e Deus, á vista d’estas coisas, perdoava por amor de Christo.
Justificação pela fé, portanto, significa que o peccador contricto pode dirigir-se immediatamente a Deus, confiando na consummada obra de Christo, e alcançar o perdão sem a intervenção de padres ou de uma serie de rotineiras ceremonias. Deus perdoa em attenção áquillo que Christo fez, não em attenção áquillo que nós possamos fazer; e, desde que o perdão se alcança mediante a obra de Christo, e não pelo nossos esforços, pode ser, e é, dado no principio da carreira christã, não sendo necessario esperar penosamente por elle até ao fim, como uma doutrina de justificação pelas obras implicaria.
A doutrina da justificação pela fé, segunda columna da theologia reformada, provém de aquelle anhelo pela approximação de Deus, ponto de apoio da Reforma. Significa que o peccador que se sente arrependido, e tem confiança nas promessas de Deus, pode ir immediatamente implorar-Lhe o perdão e obtel-o sem interferencias clericaes e sem o cumprimento de praticas mecanicas.
Conclusão.—A Reforma, que foi uma grande revivificação da religião, tendo por base principal o anhelo pela presença de Deus, a Quem só era possivel chegar-se mediante o arrependimento e a confissão, acompanhados de plena confiança nas Suas promessas, aconselhava, pois, os crentes a terem communhão com Elle por intermedio da Biblia, e a rogarem o perdão prostrados junto do escabello de Seus pés, e derrubou as barreiras que foram erguidas pela Egreja politica da Edade Media em frente da livre e soberana graça de Deus. A nova espiritualidade que animava os reformadores e os seus adherentes tinha, alimentada pela Palavra de Deus, e ensinada pelo Seu Espirito, desabrochado por todos os lados, dando logar a uma theologia reformada, onde a doutrina da predestinação substituiu a theoria da communhão com Deus por intervenção do papa e dos seus bispos onde a theoria dos sacramentos foi purificada pela doutrina do Espirito Santo, onde as Escripturas arbitravam em todas as controversias, e onde o perdão era proferido por Deus, e não pelo homem; e em todas as suas ramificações se encontra como idéa predominante o sacerdocio espiritual conferido por Deus a todos os crentes.