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A Reforma

III PARTE A REFORMA ANGLICANA (continued 2)

J. S. Canuto translation

Luctas intestinas com o catholicismo romano.—A politica da côrte romana e especialmente as declarada sintenções e designios dos jesuitas forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi doze annos, a mostrar-se mais decidida a defender a fé protestante, tanto em Inglaterra como fóra d’ella. Os jesuitas tinham insistido repetidas vezes em que não se devia guardar fidelidade aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus emissarios tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam exemplos que advertissem Isabel da sorte que a esperava.

A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a Inglaterra uma prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia tornal-a, a ella que era a esperança do partido catholico romano, a herdeira mais proxima do throno inglez.

Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma na Escocia, foi escandalosamente assassinado. Em 1572 foi planeado, e barbaramente posto em pratica, o massacre de S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque de Alba, Filippe II e o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino que residira durante muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade de uma insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado. Todos estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação estava em entrar verdadeiramente no caminho da Reforma, e mostraram tambem ao povo o quanto Isabel era essencial para o triumpho do protestantismo.

É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos protestantes se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo Grindal, clerigo de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido collocado na sé de Canterbury, vaga em virtude da morte de Matheus Parker.

Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante no reino, reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro aos protestantes de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio pecuniario. Os aventureiros inglezes, e entre elles Francisco Drake, tiveram permissão para fazerem todo o mal que podessem ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo, um corpo de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a Hespanha.

Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas trabalhassem com mais ardor para a ruina da Inglaterra. Estabeleceu-se um seminario em Douay, e um collegio em Roma, onde se preparassem padres inglezes que iriam depois para o seu paiz promover agitação entre os romanistas. E eram continuos os rumores de novas conspirações para collocar Maria Stuart no throno de Inglaterra.

Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim, do perigo que ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios romanistas ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam a crimes de alta traição, e quando se descobriu a conspiração de Babington, para assassinar Isabel e pôr Maria em liberdade, e se provou que Maria estava ao facto de toda a trama, ficou decidida a execução da rainha dos escocezes. Isabel não representou um papel muito heroico n’esta tragedia, mas adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as relações com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha findado, e que, ou a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia de admittir a Reforma como um facto consumado.

A Armada hespanhola.—Roma e Hespanha descobriram por fim o que o astuto Guilherme Cecil tinha descoberto desde o principio. «O imperador aspira á soberania da Europa, coisa que elle jámais poderá conseguir sem que seja suprimida a religião reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem que primeiro esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não muito claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com a Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o quando se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente, a vez ao papa, o qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir todos os seus esforços no sentido de subjugar a Inglaterra.

A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França tinham, apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se isolada.

O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou Filippe II de executar a sentença. Sua Santidade contribuiu tambem com uma grande quantia para ajuda da empreza. Os hespanhoes reuniram uma grande esquadra, com a qual se propunham atacaria Inglaterra, e, para ter mais seguro o bom exito, Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa, recebeu ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando comsigo a flôridas tropas hespanholas.

Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se fez surda ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de Maria, não quiz levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu inactiva, pois que a liga não havia triumphado tanto como se suppozera e não tinha sido possivel extinguir os huguenotes. Toda a Inglaterra pegou em armas. Equiparam-se duzentos navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava preparada para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de guerra de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos produziram-lhe enormes avarias antes de chegar ao seu destino. Os navios inglezes cercaram-n’a, e travaram com ella uma serie de combates navaes, que a pozeram em deploraveis condições. Um temporal medonho completou a obra; e a soberba frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil sacrificios, deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos que conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido.

Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a maior potencia europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma porque não foi possivel vencer a Inglaterra.

É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu para a consecução d’este resultado final; o que é certo é que ella administrou habilmente os recursos da nação, teve o maior cuidado em reprimir o enthusiasmo d’esta, até que a ella se podesse entregar sem perigo algum, e determinou, mediante o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava sujeita a severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios, mas attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista.

As prophecias.—A nomeação de um arcebispo puritano não produziu os beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume de demonstrar aos seus bispos que a supremacia real era uma coisa que existia de facto. A rigorosa suppressão da não-conformidade havia occasionado uma grande falta de ministros. Não era raro prover-se individuos sem aptidões para prégar. Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de curso de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças com os «Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, uma imitação d’elles, chamavam-se as «Prophecias». A rainha não gostava d’ellas. Ella não via, mesmo, a necessidade de se prégar sermões, e entendia que os ministros se deviam limitar a ler as Homilias ás congregações. O arcebispo Grindal era favoravel a estas Prophecias, e quando a rainha lhe ordenou para as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da vida do arcebispo.

Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.—Quando Grindal morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright e do puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury. A desastrosa politica da rainha, rigorosamente executada por elle, teve as suas naturaes consequencias. O povo, privado dos serviços dos clerigos a quem respeitava, e obrigado a ouvir outros que não tinham direitos nenhuns sobre elle, recusou-se a frequentar as egrejas. Reunia-se em casas particulares e n’outros logares apropriados, e ahi fazia oração e observava outros pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram declarados illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos. Surgiram as seitas não-conformistas.

Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o estado da Egreja na Inglaterra. Elles estavam ao facto das ameaças do poder catholico romano, e sabiam bem que o protestantismo inglez precisava de estar muito unido. Não sympathisavam de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo, eram de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos religiosos era algum tanto affectado e exaggerado. Escreveram aos dirigentes do partido, rogando-lhes que se conformassem, mas a espada da perseguição tinha penetrado demasiadamente nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos pamphletos por elles publicados. O que se tornou mais notavel de tudo foi uma serie de opusculos chamados Anti-prelaticios. Esses opusculos atacavam o systema episcopal da Egreja de Inglaterra, e expunham com uma implacavel severidade as varias ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um dos auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em 1593.

A Reforma ingleza ficou firmemente estabelecida depois da derrota da Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente que lhe competia dirigir os Estados protestantes da Europa; e, não obstante o caracter anomalo da Egreja reformada ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua posição.

A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não pode ser facilmente comparado com o do movimento do mesmo genero que teve logar n’outros paizes. No primeiro periodo, um monarca caprichoso e absolutista obrigou o reino a desligar-se do papado, ao mesmo tempo que reprimia selvaticamente todas as tentativas de uma reforma religiosa, quer na doutrina quer no culto.

Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, os homens de maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, tratou de promover uma reforma de doutrina e de culto. O movimento, empurrado, por assim dizer, de fóra, não foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que, com a mudança de governo, voltou para o romanismo.

No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se pela Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, mas a supremacia real encerrou o movimento dentro de uns certos limites que fizeram com que elle não representasse verdadeiramente as aspirações da Egreja.

Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos e ritualistas representarem a historia como se a Egreja tivesse sido levada pelo seu proprio discernimento a assumir a attitude que assumiu para com o romanismo, de um lado, e para com o decidido protestantismo, do outro; mas estas representações não são defendidas pela evidencia contemporanea. Os anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a Egreja tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização episcopal regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, em provar que a posição que elles chamam catholica, e que outros chamam anomala, foi assumida pela propria Egreja, actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção episcopal; mas os factos que se relacionam com este caso são contra elles. A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a supremacia real.

Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez com que fosse possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que podesse dar ás suas theorias uma apparencia de base historica.

Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum de Eduardo VI, transformando-o n’um outro dentro de cujas formulas havia logar para pessoas que teriam preferido conservar-se catholicas romanas se considerações politicas não as obrigassem a passar para o lado protestante.

Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos e os ritos contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que diligenciou reter as imagens, os crucifixos e a agua benta.

Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho que nada tinha que ver com o governo episcopal da Egreja, e que era de um caracter inteiramente erastiano—que estabeleceu a Acta da Uniformidade, e que impoz a conformidade sob pena de severos castigos, que podiam ser exoneração, multa, prisão e até perda da vida.

Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra muito mais em harmonia, respectivamente á doutrina e ao culto, com as egrejas reformadas do Continente, que haviam tomado Genebra para modelo.

Os bispos prepararam os Os trinta e nove Artigos, que o bispo Jewel, a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou que haviam sido redigidos com o proposito de mostrar que havia perfeita uniformidade de doutrina, e especialmente da que se refere ao sacramento da Ceia do Senhor, entre Genebra e Canterbury.

Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam sensatamente tolerado as objecções dos puritanos quanto ás capas de asperges e ás sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI, em uso havia muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle que foi indicado por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos romanos.

Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens, os crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é, contra todas as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a a acceitar o Artigo vigesimo nono, que defende a theoria calvinista da Ceia do Senhor.

Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar na Egreja de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade, pois que a sua queixa, começando por ahi, não era contra o governo episcopal, mas contra os symbolos e ritos supersticiosos que lhes foram impostos pela rainha e pela sua Commissão: difficilmente, porém, haveria logar para os modernos ritualistas anglicanos.

Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser concedida, a duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a força sufficiente para reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional desejo de uma Reforma completa; e (2) ao facto de a uma numerosa parte do clero de Inglaterra serem tão indifferentes as mudanças que poderam conservar-se no exercicio das suas funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é, sob o systema puritano, romanista e anglicano.

A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter claudicante da sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem actualmente a fallar dos principios catholicos, isto é, medievaes, da Egreja ingleza.

Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente de proceder da maneira cautelosa como procedeu, e, com aquella prepotencia que a caracterizava, obstar a que a Egreja do seu paiz se reformasse por completo. Ha alguma verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica myope, que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a supremacia real de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta Commissão, que preparou o caminho para a revolta puritana no reinado de Carlos I e para o dia do Negro Bartholomeu no reinado de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra tivesse sido entregue aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção não tivesse sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado estas duas calamidades.

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