← Table of contents
A Reforma

III PARTE A REFORMA ANGLICANA

J. S. Canuto translation

Capitulos:

I —A Egreja de Inglaterra durante o reinado de Henrique VIII.

II —A Reforma sob Eduardo VI, e a reacção sob Maria.

III —A Reforma sob Isabel.

CAPITULO I A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII

O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag. 157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma, pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag. 160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado, pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles, pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes, pag. 168.—Execução da sir Thomaz More, pag. 169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades da Egreja, pag. 170.—Os Dez Artigos, pag. 171.—O Estatuto Sanguinario, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag. 173.

O caracter excepcional do Principio da Reforma inglesa.—A Egreja e o povo inglez romperam com o systema ecclesiastico medieval em circumstancias tão excepcionaes que é impossivel considerar esse rompimento como fazendo parte da Reforma, ou como tendo muita coisa em commum com os movimentos contemporaneos na Allemanha e na França. Emquanto durou o reinado de Henrique VIII, a Egreja de Inglaterra, que se havia separado do papa, pouco ou nada tinha de commum com a Reforma. O que durante aquelle reinado se fez foi simplesmente demolir a Egreja da edade media. A verdadeira Reforma começou no reinado de Eduardo VI, e a sua adopção formal teve logar no de Isabel. Henrique VIII destruiu a supremacia do papa, tanto espiritual como temporal; derrubou a grade ecclesiastica que unia a Egreja de Inglaterra á grande Egreja Occidental governada pelo bispo de Roma, mas não poz coisa alguma duradoura em seu logar. O seu fim era estabelecer um papado real, tão despotico e ainda mas secular do que aquelle que elle estava destruindo, sobre as minas da jurisdicção do bispo de Roma. A Egreja que elle construiu segundo o seu modelo não durou mais do que a vida d’elle; mas a sua obra durou o bastante para dar á Reforma da Egreja de Inglaterra, quando ella mais tarde se tornou um facto, aquelle caracter particular que a distinguiu dos movimentos do mesmo genero occorridos n’outros paizes. O objecto de Henrique era modificar de tal modo as condições ecclesiasticas da Inglaterra que o rei occupasse o logar do papa, e ficasse governando, não só temporal como espiritualmente, de modo que, mediante a Egreja, tivesse sobre os seus subditos um dominio absoluto. Todas as reformas de doutrina, de culto e de costumes eram tão abominaveis para Henrique como para o bispo de Roma.

Antecipações da Reforma em Inglaterra.—Os historiadores ecclesiasticos fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do tempo de João Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim dizer, a bocca da Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia espiritual e temporal que o papa tinha no reino; mas é muito para duvidar que a sua influencia continuasse a ser exercida sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis, e por tal fórma que a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que enchiam os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos.

Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores da Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente a idéa de que os beneficios da salvação só podem ser aproveitados por aquelles que imitam Christo, e que para imitar Jesus Christo torna-se indispensavel viver na pobreza como Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja, para ser realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o Estado não faria mais do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a riqueza, pois que era esta um obstaculo a que ella se parecesse com o seu Mestre. Em conformidade com estas idéas, organisou um corpo de prégadores ambulantes, denominados prégadores pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com os evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a Inglaterra, proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso admirador dos grandes juristas medievaes, taes como Guilherme de Ockham, o querido mestre de Luthero, Marsillio de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles haviam proclamado, n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era outra coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo, insistia em que a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora isto atacava o systema da Egreja medieval, que se apoiava na noção de que a verdadeira Egreja era o clero, e de que o povo só fazia parte d’ella quando se punha em contacto com os clerigos, que eram depositarios dos sacramentos. Foi por esse motivo que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e, portanto, do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da Wycliffe foram avidamente adoptadas por uma grande parte da população ingleza, e os seus discipulos, os lollardos, constituiram, por algum tempo, uma fortissima aggremiação.

O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a Reforma, e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam exercido uma grande influencia sobre o povo, no sentido de o predisporem para uma revivificação da religião espiritual se tivessem existido na epoca em que se operou o movimento reformador. Não se pode, porém, provar que elles communicassem com essa geração, e não ha indicio algum de que nos reinados de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido o gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia pelos prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua totalidade, parece não se ter inclinado para a Reforma antes do tempo de Isabel.

O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.—Quando começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve, sem duvida, muitos inglezes que se sentiram attraidos para o reformador saxonio, e que desejaram ver introduzido na Egreja um credo mais simples e mais em harmonia com a Palavra de Deus, e uma fórma de culto como a que era usada nos tempos apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas. Havia, certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados os costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral dos frades, e que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja fossem sujeitas a impostos e os grandes rendimentos dos bispados e das abbadias soffressem alguma diminuição. E eram em numero sempre crescente as que se sentiam desgostosas com a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou sociaes, desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não lhes agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os a saida de grossas quantias para fóra do reino.

Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse peior em Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é verdade é que os padres, com a sua conducta, desacreditavam a Egreja. O clero era de uma ignorancia crassa, e havia, talvez, em Inglaterra menos conhecimento das Escripturas do que na França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca do lollardismo, a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso. A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo conta que viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral de Canterbury um Evangelho de Nicodemos que era lido como fazendo parte da Escriptura canonica.

O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se em dirigir os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias nos tribunaes de justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord Chanceller, o bispo de Winchester director geral da Thesouraria, o bispo de Durham secretario de Estado, e o bispo de Londres guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath, Hereford, Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino.

Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles que amavam sinceramente a instrucção se sentissem indignados perante a ignorancia do clero, e procurassem abrir os olhos, não só a estes como ao povo em geral; e que os patriotas inglezes, lembrando-se das antigas tradições de um paiz que durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa vontade de annular o poder do papa em Inglaterra. Como que exteriorisando o desejo preponderante, surgiu um grupo de mancebos instruidos, capitaneados por Colet, deão de S. Paulo, e Thomaz More, cujo intuito era purificar a Egreja, o povo e o clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a resistir ás usurpações do bispo de Roma.

As relações de Inglaterra com o pontificado.—Os bispos de Roma, na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual como temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais de uma vez, ás suas reivindicações. Os papas, desde o tempo de Innocencio III, sustentavam que todos os reis e principes eram seus vassallos, tanto pelo que dizia respeito ás coisas sagradas como aos negocios civis. Este direito havia sido imposto no reinado de João, que pagara tributo a Roma em reconhecimento da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse tributo aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o. E a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval, havia repudiado o direito do papa a intervir nas questões nacionaes. Rei algum inglez, excepto João, se considerou vassallo do papa. Não era uma coisa nova em Inglaterra, o não reconhecer a supremacia do papa nos negocios temporaes.

Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido que os reputassem arbitros supremos em todos os negocios espirituaes, e, por consequencia, a Egreja ingleza devia estar sujeita ao seu dominio absoluto. Estas reivindicações apresentavam-se, na pratica, debaixo das seguintes fórmas: Os papas queriam que lhes fosse reconhecida a decisão final em todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum bispo, ou abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser collocado n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em ultima instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse reconhecida de uma fórma prática mediante o pagamento do primeiro anno do estipendio que correspondia a cada oficio ecclesiastico. Queriam ter a decisão final em todas as questões que se levantassem no seio da Egreja ingleza. E isto significava, praticamente, que todos os clerigos, bispos, abbades, simples padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o direito de appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio. Reivindicavam tambem que as leis canonicas, isto é, as leis da Egreja promulgadas pelos concilios e pelos papas, fossem reconhecidas em Inglaterra e tivessem a mesma força que as leis ordinarias.

A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes repellida pelo povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado e tornado a declarar que em caso algum se poderia appellar dos tribunaes inglezes para a Curia Romana. Estas declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de Proemunire. Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam, qualquer appellação para um tribunal de justiça estrangeiro, romano ou de outra qualquer nacionalidade, era um crime a que correspondia um castigo severo. Sustentava, de uma maneira peremptoria, que o rei era o arbitro supremo em todas as questões civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer appellação de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia.

Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este estatuto, o povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente a supremacia do papa, e asseverou a independencia da Egreja ingleza. A Magna Charta foi feita com o intuito de restringir o poder pontificio, assim como de reprimir o do rei; e a sua primeira clausula reivindicou a independencia da Egreja de Inglaterra—Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat omnia jura sua integra et libertates suas illaesas.

E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar contra a interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente em vista promover a instrucção do clero, e reprimir a auctoridade que o papa exercia na Inglaterra, podiam dizer, com exactidão historica, que não punham em pratica uma coisa nova.

As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas no romance politico escripto por um dos mais intelligentes d’entre elles,—a Utopia, de Thomaz More. Para esses homens a Reforma era apenas um movimento intellectual e politico. Não era uma revivificação religiosa. Podiam sympathizar com os concilios reformistas do secolo quinze, mas entre elles e Wittenberg ou Genebra havia poucos pontos de contacto.

As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor da Supremacia papal.—Estes reformadores do estudo e da camara do conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII ao throno de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu com o seu contemporaneo, Francisco I de França, que o joven rei fosse um amigo da nova litteratura, e um soberano predisposto a extirpar abusos. A desillusão não se fez esperar. Logo de principio mostrou ser um dedicado defensor da supremacia papal. A sua posição era estranha, e necessita de uma explicação.

Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado o throno de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o mediante uma precaria subemphyteuse. Anhelava por tornar mais firme o seu poder mediante uma alliança com um paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista, certificou-se de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar melhor. Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento de seu filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma das filhas de Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo; e Henrique, desejando manter a todo o transe a alliança hespanhola, tratou com todo o afan de casar Catharina com o seu segundo filho, Henrique, que foi depois Henrique VIII. O papa concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão.

Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram realmente casados. Se o casamento não passou de um contracto legal, não havia motivo para que a dispensa do papa não fosse bem acceite mesmo por aquelles que não viam com muito bons olhos a supremacia papal; se foi, porém, um casamento em toda a accepcão da palavra, ficou então demonstrado que o papa tinha auctoridade para conceder uma dispensa que ia de encontro as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião geral, Arthur e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa do papa só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles supremos poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade do casamento de Henrique e a legitimidade de sua filha Maria baseiava-se, portanto, na supremacia do papa. E não é para admirar que Henrique VIII, no principio do seu reinado, se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em conformidade com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições da corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento, a legitimidade de seus filhos, e o direito que a estes assistia de lhe succederem no throno, dependiam, como já dissemos, da supremacia do papa.

Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente a defeza do Bispo de Roma, e rei algum, depois de João, apoiou mais em absoluto as reivindicações do papa do que elle. Os seus interesses pessoaes, assim como os interesses de sua mulher e de seus filhos, estavam dependentes d’esse seu apoio. A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique, estava positivamente avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas de Colet, More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação particular em que se encontrava, a manter-se n’uma attitude de irreconciliavel hostilidade, e o facto de ter reprovado os actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de Defensor da Fé.

Henrique muda de opinião.—Henrique nunca deixou de reconhecer a supremacia do papa em todos os assumptos, durante os primeiros dezoito annos do seu reinado. De um momento para o outro, porém, começou a pensar de differente modo, e podem-se apresentar bastantes razões para essa subita mudança de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas ácerca da legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas duvidas se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de ter um filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se de que esse facto representava um castigo divino por haver desposado a viuva de seu irmão. Durante todo esse tempo, comtudo, a alliança hespanhola, que fôra tratada primeiramente com Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o imperador Carlos V, havia sido de grande utilidade para Henrique e para a Inglaterra; e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo papa, encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo.

Carlos V, porém, estava absorvido nos seus planos de anniquilar a Reforma, e estabelecer o imperio medieval, e o papa só pensava em conquistar para si uma posição independente, em se tornar o primeiro dos principes italianos, revestido de todo o poder secular, de modo que nenhum d’elles correspondia á expectativa de Henrique. Este deixou de ter confiança na fidelidade d’elles á sua casa, quanto á sucessão do throno. Encontrava-se n’uma situação embaraçosa, e, como meio mais rapido de sair das suas difficuldades, resolveu pedir ao papa que o divorciasse de Catharina de Aragão. Cessariam d’esse modo os seus escrupulos de consciencia por haver casado com a cunhada; poderia contrair novo casamento, a alimentar a esperança de ter um filho macho, seu legitimo herdeiro. Entendeu-se, pois, com o cardeal Wolsey, seu ministro, e dirigiu ao papa um pedido de divorcio.

N’aquela ocasião, porém, o papa queria evitar qualquer desintelligencia com Carlos V, sobrinho de Catharina, e recusou dar o seu consentimento para o divorcio, sendo então que Henrique, homem muito exaltado, e a quem os obstaculos não faziam recuar, decidiu divorciar-se não obtante a recusa do papa. Todos os interesses pessoaes que até certo tempo levaram o rei a apoiar a supremacia papal se ligavam agora para que elle fizesse exactamente o contrario. Se o papa tivesse sanccionado o divorcio, não teria havido, provavelmente, ruptura com Roma, porque o rei continuaria a ter interesse em que se mantivesse a supremacia papal; as circumstancias, porém, aconselhavam-n’o a enveredar por outro caminho, e foi o que elle fez.

Thomaz Cromwell alvitrou que se consultassem as universidades da Europa sobre a legalidade do casamento de Henrique e este acceitou o alvitre com grande alvoroço. Tratou-se, por conseguinte, de pôr esta idéa em execução, entregando-se a eminentes vultos, a verdadeiras summidades, o decidirem a questão segundo as leis canonicas, tendo ao mesmo tempo na devida consideração a sensivel consciencia do rei. Apoz algum tempo, e tendo-se dispendido com isso uma fabulosa quantia, as universidades declararam, por uma muito pequena maioria, que o casamento de Henrique com Catharina não era valido, concluindo-se d’esta decisão que Henrique não tinha herdeiro algum legitimo.

Animado com este veridictum, resolveu pôr em pratica qualquer das duas coisas seguintes: alarmar o papa, obrigando-o assim o conceder o divorcio, ou repudiar a sua auctoridade suprema.

Foram muitos os motivos secundarios que contribuiram para que elle tomasse esta ultima deliberação. Henrique, que gostava de viver com muita ostentação, tinha desbaratado, havia muito, as riquezas que o pae amontoara, e era-lhe impossivel augmentar os impostos. Os cofres do Estado estavam despejados, e para os encher bastaria o espolio dos conventos e mosteiros. Isto constituiu uma das razões, mas havia uma outra que appellava mais fortemente para a sua vaidade.

Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles.—As tres grandes potencias europêas no tempo da Reforma eram Hespanha, França e Inglaterra, e não podia deixar de haver rivalidade entre os respectivos monarcas. O rei de Hespanha, que era o mais poderoso dos tres, era tambem imperador da Allemanha, e todo o seu empenho consistia em restabelecer no imperio o esplendor que este tivera na Edade Media. Segundo as antigas noções medievaes, não havia mais do que uma christandade, o imperador era supremo e soberano, e todos os outros reis estavam sob a sua dependencia. Se Carlos fosse bem succedido nos seus esforços, Francisco e Henrique passavam a occupar uma posição inferior á que tinham, e, portanto, convinha-lhes trabalhar para que o plano de restauração não vingasse. Uma christandade medieval implicava uma egreja indivisa, centralizada no papa, o bispo de Roma. A politica dos reis da França e de Inglaterra insistia em obstar a essa centralização ecclesiastica, e fazer com que as egrejas das suas respectivas nações se tornassem o mais independentes de Roma que fosse possivel.

Francisco havia conseguido isso quanto á França, e de um modo que contribuiu bastante para que o seu prestigio augmentasse, e o seu poder se consolidasse dentro do proprio reino. O papa, mediante a Concordata de 1516, havia, sob a condição de que os annates seriam pagos com regularidade, e de que lhe seriam feitas certas e determinadas concessões, investido praticamente o rei de França na chefatura da egreja franceza, dando-lhe liberdade para prover como entendesse os differentes cargos ecclesiasticos.

Henrique, rival de Francisco, era tambem seu imitador, e havia de lhe ser difficil deixar de ter inveja das regalias que o papa lhe tinha concedido. O que Francisco recebeu pela Concordata de 1516, deu o parlamento inglez a Henrique quando o proclamou chefe supremo, sobre a terra, da egreja de Inglaterra. De modo que em França a supremacia do rei sobre a egreja fez com que fossem toleradas as reivindicações papaes, ao passo que em Inglaterra promoveu a revolta contra Roma. A França, liberta do dominio papal por livre vontade do proprio papa, podia ficar por ahi, mantendo, a todos os outros respeitos, as velhas tradições da egreja. A Inglaterra, que alcançara a sua independencia contra a vontade do papa, e por meio de um acto de rebellião contra a sua auctoridade, tinha de ir mais longe; para conservar a posição que tomara era-lhe necessario afastar-se cada vez mais de Roma.

Sucedeu, assim, que a Reforma em Inglaterra foi o avanço quasi involuntario de uma nação revoltada contra Roma, pois que a sua resistencia á curia romana foi, em primeiro logar, o meio de que um imperioso monarca se serviu para conseguir o seu engrandecimento pessoal, e, em segundo logar, o meio de que um povo se serviu para conseguir a sua independencia. A França, a despeito dos huguenotes, conservou-se catholica romana; a Inglaterra, a despeito de Henrique VIII, tornou-se uma nação protestante.

A submissão do clero.—Henrique depressa se certificou de que não era possivel constranger o papa, mediante o medo, a conceder-lhes o divorcio, mas resolveu obrigar o clero inglez a conformar-se pelo medo com as suas deliberações. O cardeal Wolsey foi nomeado nuncio do papa em Inglaterra, e todos os bispos e mais clerigos o reconheceram como tal. Ora em 1531 o rei acusou-o abruptamente de haver transgredido a lei do Proemunire pelo facto de acceitar aquelle cargo e cumprir, ainda que só apparentemente, os deveres que lhe eram inherentes, e accusou egualmente todos os clerigos de Inglaterra de serem cumplices d’esse crime pelo facto de o aceitarem na qualidade de embaixador do papa. Declarou, outrosim, que tanto Wolsey como todos os clerigos da egreja ingleza haviam incorrido, em virtude d’esse delicto, na perda de todos os bens ecclesiasticos de que estavam de posse. O clero ficou seriamente alarmado, e, para evitar uma catastrophe maior, sujeitou-se a pagar uma multa de 118:000 libras e a assignar, ainda que de má vontade, uma declaração de que o rei era «o unico protector, o unico senhor supremo, e, até onde é permittido pela lei de Christo, o supremo cabeça da egreja e do clero». A ambiguidade que se nota n’este reconhecimento foi intencional. Era um subterfugio para as consciencias fracas, mas o rei ficou satisfeito com a phrase, certo como estava de que poderia obrigar o clero a proceder segundo a interpretação que elle proprio lhe dava.

Tratou sem demora de mostrar como era por ele compreendido o sentido pratico de similhante declaração, desdobrando-o em tres artigos, que os clerigos tiveram tambem de assignar. Declaravam que regulamento ou preceito algum ecclesiastico seria de ali em deante promulgado ou publicado pelo clero sem previo consentimento do rei; que approvavam a nomeação de uma commissão de trinta e duas pessoas para rever os antigos canones da egreja e cortar todos aqueles que fossem prejudicaes á autoridade do rei; e, finalmente que os canones ecclesiasticos só eram validos depois de ratificados com auctorização do rei. Estas proposições foram submetidas á Convocação, ou Assembléa Geral da Egreja de Inglaterra, e, depois de alguma hesitação, o clero, reunido, acceitou-as. A Convocação foi um pouco mais longe do que o rei, pois que pediu para que o clero inglez não pagasse mais os annates á sé de Roma.

Esta decisão tomada pela Convocação, de que a egreja de Inglaterra não podia fazer leis para sua direcção ou governo sem a sancção ou ratificação do rei, tem sido chamada a Submissão do Clero. Assim no ano de 1532 a egreja de Inglaterra, por ordem do rei e do parlamento, renunciava á sua obediencia a Roma. Esta renuncia ao governo papal incluia (1) o reconhecimento da supremacia real; (2) submissão á corôa pela cedencia do direito de fazer leis; e (3) a recusa ao papa das receitas que lhe haviam sido pagas durante gerações. A egreja conservava as mesmas doutrinas, governo e culto, consistindo apenas a differença em o rei tomar o logar que o papa tinha ocupado.

O clero tinha alimentado a esperança de que lhe fosse permittido reter os annates em seu poder, mas o rei mostrou que estava resolvido a que a supremacia real fosse tão genuina como a antiga supremacia do bispo de Roma, e insistiu em que o imposto pontificio fosse pago na thesouraria real.

O progresso da Separação de Roma.—O parlamento inglez, em 1529-1536.—Durante os primeiros annos do reinado de Henrique VIII, quando era do interesse do rei estar bem com o papa e com o rei de Hespanha, todas as queixas contra a egreja haviam sido reprimidas. Agora, porém, que Henrique queria aterrorisar o papa para o obrigar a conceder-lhe o divorcio, as queixas eram animadas. Henrique servia-se do parlamento como Carlos V se podia ter servido da Dieta allemã. Todas as nações tinham accusações a apresentar contra a egreja. Os allemães publicaram as suas Cem Afrontas; o parlamento inglez, convocado para se reunir em 1529, tinha tambem queixas a fazer ácerca da libertação do clero da jurisdicção dos tribunaes judiciaes da nação, ácerca da auctoridade absoluta exercida pelos tribunaes ecclesiasticos sobre os leigos em pleiteados casos de casamento, testamentos, successão, calumnia, etc., ácerca das avarezas do clero e do elevado custo dos enterros e dos baptismos, e assim successivamente. O parlamento formulou estas queixas, e com isso alarmou, e não pouco, o clero, tornando-o mais submisso ás imperiosas ordens do rei.

Em Janeiro de 1532 Henrique VIII desposou Anna Boleyn, provocando, d’esse modo, pessoalmente o papa. O seu casamento com Catharina de Aragão foi declarado nullo e sem effeito pelo arcebispo de Canterbury, que fallou em nome da Egreja de Inglaterra, e por deliberação do parlamento. O rei, a nação, e, um pouco constrangidamente, a egreja uniram-se, pois, para desafiar collectivamente o papa, e para se revoltarem contra o imperio ecclesiastico da Edade Media. O parlamento secundou este desafio approvando leis que tendiam a uma separação completa, e que, pelo lado politico, eram inoffensivas para os subditos inglezes. Sete dos seus decretos teem uma importancia especial.

(1) Em 1533 o parlamento prohibiu ao clero o pagar os annates, ou o vencimento do primeiro anno, quando se entrava na posse de qualquer beneficio. Estas «primicias» tinham sido sempre consideradas uma homenagem devida á supremacia do papa.

(2) Na mesma sessão o parlamento aboliu as appellações para Roma. O Estatuto para Repressão das Appellações declarava que nenhum subdito inglez podia appellar de um tribunal da sua nação para outro qualquer, e que similhante appellação constituia uma violação do Estatuto de Proemunire, ficando sujeita ás devidas consequencias. Todas as questões que tivessem de ser submettidas ao juizo da Egreja deviam ser entregues aos tribunaes ecclesiasticos do reino. Continuavam a ser permittidas as appellações de um arcediago para um bispo, e de um bispo para um arcebispo; mas aqui parava o direito de appellar, e o tribunal do arcebispo era o supremo tribunal de appellação. Só o rei podia appellar d’este supremo tribunal ecclesiastico, e podia levar a sua appellação para a Convocação, mas não fóra do reino.

(3) Em 1534 a Submissão do Clero foi ratificada pelo parlamento. Ficou declarado que era necessario o consentimento do rei para todas as leis ecclesiasticas, e, para dar a isto um valor pratico, estabeleceu-se que em todos os pleitos havia o direito de appellar do supremo tribunal espiritual, que era o do arcebispo, para o rei.

(4) O parlamento declarou, outrosim, que o papa não tinha direito de intervir na eleição dos bispos, e que todo e qualquer poder que se attribuia ao papa pertencia realmente ao rei. Esse direito era definido de tal fórma que se podesse dar todo o direito de nomeação ao rei, ao passo que se preservava a sombra do antigo uso ecclesiastico. Quando uma sé vagava, assistia ao rei o direito de auctorizar o deão e o capitulo a eleger para o cargo vago qualquer pessoa mencionada na carta de licença. As dispensações papaes eram tambem declaradas illegaes, e o poder dispensativo que n’outro tempo, segundo era por todos reconhecido, pertencia ao papa, ficava residindo agora na Egreja de Inglaterra, e o seu exercicio pertencia aos arcebispos de Canterbury e de York.

(5) Para mostrar, comtudo, que todos estes Actos não tinham em vista reforma alguma, mas sómente uma separação politica da Egreja de Inglaterra quanto ao papado, o parlamento promulgou uma lei sobre a heresia, em que se declarava que os herejes seriam queimados como antigamente, em obediencia ao velho decreto de combatendo hereticos, e o rei, como cabeça da Egreja, recebia o encargo de a purificar de falsas doutrinas. Declarava-se, porém, que fallar mal do papa não constituia heresia.

(6) Por ultimo, saiu d’este notavel parlamento o Acto de Successão e o Acto de Traição. O primeiro declarava que a princeza Maria, filha de Catharina de Aragão, era illegitima, e transferia o direito de successão para a princesa Isabel, filha de Anna Boleyn. O Acto de Traição punia com a morte todos aquelles que recusassem acceitar o Acto de Successão ou reconhecer o novo titulo e as novas prerogativas do rei.

Separação de Roma e Reforma: duas coisas differentes.—Em todos os Actos d’este parlamento, e em todas as decisões de uma submissa Convocação, nada houve que não fosse puramente politico. A Inglaterra não se havia tornado protestante ou lutherana, e Egreja reformada em Inglaterra era coisa que não existia. A Inglaterra havia-se, tão sómente, desligado de aquella alliança que, sob a superintendencia do imperador e do papa, realisava a idéa medieval de um systema de governação, tanto civil como ecclesiastico. O que torna importantissimas aquellas deliberações do parlamento é o facto de ter sido a Inglaterra a primeira nação que rompeu com o medievalismo e deixou de reconhecer o velho imperio ecclesiastico da Edade Media. Os herejes, isto é, aquelles que haviam acceitado as doutrinas de Luthero, ou que, entregando-se ao estudo da Biblia, tinham chegado ao conhecimento de um mais puro christianismo, eram perseguidos e mortos, usando-se com elles da mesma crueldade, do mesmo espirito de vingança, como quando a Inglaterra era uma escrava obediente do papa. Diz-se que Wolsey, no seu leito de morte, supplicou ao rei que destruisse todos os signaes de lutheranismo; e, a despeito da grande tolerancia de Thomaz More, os herejes eram procurados e castigados. Tindal, que tinha traduzido em inglez o Novo Testamento de Erasmo, foi caçado de logar em logar, como se fosse um animal feroz. Todos os que se atrevessem a fallar contra a missa, a transubstanciação, o culto dos santos e a efficacia das boas obras corriam o risco de ser presos e queimados como herejes. Os Actos do Parlamento não haviam promovido a liberdade de consciencia, tinham simplesmente dado logar a novos ensejos para perseguir e matar. Para ajuntar aos antigos crimes theologicos, appareceu um outro. Quem se recusasse a prestar o juramento de supremacia, quem se atrevesse a dizer que Catharina de Aragão era a esposa legitima do rei, e que a princeza Maria era a herdeira do throno, estava sujeito a ser preso, processado e executado. A Inglaterra encontrava-se n’um estado anormal, n’um estado de grande agitação, e os homens conscienciosos tudo soffriam por causa da consciencia.

A execução de Tomaz More.—Thomaz More era o chanceller quando o parlamento, reunido em 1529, separou a nação, mediante successivos Actos do imperio ecclesiastico de Roma. Tinha sido na sua mocidade um distincto estudante, e havia-se entregue com amor aos «estudos modernos» de latim, grego e hebraico quando, em Oxford, assistira ás prelecções de Tinacre, um dos primeiros humanistas inglezes, que se havia educado em Italia para o seu trabalho escolastico em Inglaterra. Dedicara-se á carreira da jurisprudencia, foi magistrado em Londres, e tornou-se notoria a sua amizade ao deão Colet e a Erasmo. O seu livro Utopias dá testemunho de que elle havia adoptado muitas das opiniões de Marcello de Padua e de outros juristas liberaes do fim da Edade Media. Elle opinava que tanto a Egreja como o Estado existiam para beneficio do povo, e todo o seu anhelo era uma reforma de costumes na Egreja. Investido no cargo de chanceller, toda a gente notou a brandura de que elle usava com os herejes; permaneceu, porém, ligado ás doutrinas da Egreja Catholica Romana, e abandonou algumas das suas primitivas opiniões em favor de mais estrictas idéas ácerca da origem divina da supremacia do papa. Reprovou, portanto, todo o procedimento da côrte e do parlamento inglez depois da queda de Wolsey. Avisou o rei de que não podia ser parte no divorcio de Catharina de Aragão. Não quiz assistir ao casamento e coroação de Anna Boleyn, e, ao ser ameaçado com as consequencias, disse ao rei que as ameaças eram para as creanças e não para elle. Henrique tinha uma forte affeição pelo seu chanceller; mas coisa alguma poderia augmentar mais a duvida com respeito á validade do divorcio, do novo casamento e da successão ao throno derivada d’este, do que a recusa da maior auctoridade juridica da nação de ver em Catharina de Aragão uma mulher que não era a esposa legitima de Henrique VIII.

More foi, portanto, obrigado a prestar juramento de fidelidade á nova rainha, reconhecendo Anna Boleyn como a esposa legitima de Henrique VIII, e a confirmar a legalidade do Acto de Successão. N’esta conjunctura, elle tinha de obedecer á consciencia ou salvar a vida, e, com uma grande serenidade de espirito, preferiu obedecer á consciencia. A mulher foi ter com elle á prisão, rogando-lhe que se submettesse á ordem do rei. «Senhora Alice», retorquiu elle, com toda a ternura, «esta casa não estará tão perto do céu como a nossa?» A filha, Margarida Roper, que era afamada pela sua erudição, pela sua affabilidade e pela sua formosura, foi tambem vêl-o repetidas vezes, e as suas visitas como que lhe fortaleceram a serena coragem. Morreu em Julho de 1535. Erasmo soube da morte d’elle quando tinha entre mãos a sua Pureza da Egreja, a que ajuntou um prefacio que é quasi uma biographia do seu velho amigo, a que attribue uma alma mais pura do que a neve.

O assassinio judicial de Thomaz More e do bispo Fisher, seu companheiro no soffrimento, veiu demonstrar o estado cahotico em que Henrique VIII havia feito cair a Inglaterra, pois que, ao passo que eram queimados os homens accusados de lutheranismo, executavam-se aquelles que mantinham a auctoridade do papa no que dizia respeito aos costumes e á doutrina.

A suppressão dos mosteiros e a confiscação dos bens da Egreja.—Henrique VIII tinha sido sempre um grande gastador. Tudo quanto o pae lhe deixara havia desapparecido logo no principio do seu reinado, em virtude da guerra com a França. O rei e a côrte tinham grande necessidade de dinheiro. Thomaz Cromwell lembrou então que este podia ser obtido mediante a suppressão de alguns dos mosteiros.

Do clero ninguem foi mais justamente atacado do que os monges, durante o periodo da Reforma. A sua preguiça, as suas riquezas, a sua cupidez e a sua má vida eram notorias em toda a Europa. Os auctores populares haviam composto satyras a seu respeito, e graves estadistas tinham chamado a attenção do papa para uma reforma das varias ordens.

Gromwell insistiu n’uma syndicancia aos mosteiros, com o fim de se ficar sabendo se as queixas formuladas tinham fundamento. Foram visitadas tres d’essas casas, e constatou-se que as vidas dos frades e das freiras estavam longe de ser o que deviam ser, que a propriedade monacal havia sido pessimamente administrada, e que muitos dos religiosos, de ambos os sexos, desejavam desligar-se dos votos. O parlamento approvou uma proposta de lei para que fossem supprimidos os conventos menos importantes, e, passado algum tempo, eram encerrados todos os estabelecimentos monacaes. Os respectivos bens foram confiscados em proveito do rei. A grande somma de dinheiro que se obteve por esta fórma podia, nas mãos de um monarca astuto e economico, ter constituido um vasto capital cujo rendimento habilitaria o rei a prescindir de impostos, e, por consequencia, a prescindir de parlamento, o que redundaria na ruina, em Inglaterra, de todas as liberdades. Henrique era, por indole, um despota, mas não tinha em si a força de vontade necessaria para pôr em execução aquillo que lhe vinha á idéa. A sua ambição principal era poder dispôr de muito dinheiro, e as propriedades confiscadas aos frades foram postas em praça a vendidas pelo maior preço que foi possivel obter. O resultado d’isso foi augmentar consideravelmente o numero dos proprietarios em Inglaterra. Henrique dissipou em poucos annos todo o dinheiro que d’aquelle fórma lhe fôra parar ás mãos, e ficou tão pobre e tão necessitado do auxilio dos seus subditos como anteriormente.

Os dez artigos.—Cranmer, o arcebispo de Canterbury, que havia sido um instrumento facil nas mãos do rei, quando este andou tratando de se assenhorear das liberdades da Egreja e de uma grande parte das suas riquezas, tinha uma secreta predilecção pelas doutrinas reformadas de Luthero e de Zwinglio. Thomaz Cromwell, que desde o fallecimento de Wolsey exercia o cargo de conselheiro politico do rei, era tambem um admirador dos homens da Reforma. Ambos tinham o desejo, depois da Inglaterra se ter separado politicamente do papado, e de se ter effectuado a suppressão dos mosteiros, de introduzir uma reforma de doutrina e de culto, e de equiparar a Egreja de Inglaterra ás egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa.

O schema politico de Cromwell consistia em collocar Henrique á frente de uma confederação protestante que podesse rivalisar com o imperio medieval de Carlos V. Isto sómente se poderia fazer, comtudo, se a Egreja da Inglaterra abraçasse as doutrinas da Reforma e animasse os homens que até ali tinham sido perseguidos como herejes.

O rei desapprovou energicamente a proposta, mas por fim cedeu, e em 1536 foram publicados, com a approvação da Convocação, os Dez Artigos, que eram um breve formulario de doutrinas. Estes artigos asseveravam a auctoridade da Escriptura, dos tres grandes e antigos credos, e dos quatro concilios ecumenicos; affirmavam que o baptismo era necessario para a salvação; que a penitencia, a confissão e a absolvição eram egualmente coisas necessarias; que o corpo e sangue de Christo estavam substancial, real e corporalmente presentes no pão e vinho da Eucaristia; que a justificação tinha logar mediante a fé, junta com a caridade e com a obediencia; que nas egrejas era licito o uso das imagens; que se devia glorificar a Virgem e invocar os santos; que se devia conservar os varios ritos e dias santificados da Egreja medieval, fazendo-se uso dos paramentos, dos crucifixos e da agua benta; que existia o purgatorio; e que, finalmente, se devia fazer orações pelos defuntos.

Estes Artigos, como se vê, não estavam em conformidade com a fé protestante. Alguns historiadores ecclesiasticos teem dito que elles foram muito judiciosamente collocados entre a doutrina dos reformadores mais pronunciadamente biblicos e as velhas superstições; mas teem sido mais bem descriptos como essencialmente «romanistas, com o papa atirado para a margem». Fuller diz que elles foram destinados para creancinhas «recentemente tiradas dos peitos de Roma.»

Emquanto estes acontecimentos iam tendo logar, Catharina de Aragão morreu, em 1536, e o rei desembaraçou-se de Anna Boleyn, mandando-a decapitar sob a accusação de infidelidade. Sua rilha, a princeza Isabel, foi, pelo parlamento, declarada illegitima, e a successão tornou-se de novo incerta.

O rei casou então com Jane Seymour, a cuja descendencia ficaram reservados os direitos á corôa.

A peregrinação da graça.—As execuções de Thomaz More e do Bispo Fisher haviam desgostado muitissimos subditos do rei que eram affeiçoados a Roma, e estes, animando-se com a declaração da illegitimidade de Isabel e com a incerteza quanto á successão, promoveram rebelliões em Yorkshire e Lincolnshire. Os rebeldes contavam com o auxilio da Hespanha, e tinham tambem muita confiança no effeito que havia de produzir a bulla, que acabava de ser publicada, em que o papa excommungava Henrique VIII.

Os seus projectos, porém, foram com facilidade mallogrados, e o nascimento de um filho de Jane Seymour, a quem o rei havia desposado depois da morte de Catharina de Aragão, deu ao rei a cubiçada successão legitima e fez cessar todos os sentimentos anarquicos entre o povo.

Infelizmente, a rainha falleceu ao dar á luz o filho.

Cromwell e Cranmer voltaram novamente com as suas idéas de uma união protestante. Cranmer, juntamente com uma commissão de prelados, redigiu, em 1537, o que se ficou chamando o Livro do Bispo, ou a Instituição de um Christão, e que continha uma exposição de theologia muito mais protestante do que os Dez Artigos.

No anno seguinte Cranmer, que havia estado em correspondencia com os theologos de Wittenberg, organizou um outro credo chamado os Treze Artigos, e que era largamente baseado na Confissão de Augsburgo.

O rei recusou sanccionar estes Artigos, e foi-se gradualmente afastando do plano de uma alliança protestante. Cromwell caiu no desagrado de seu amo em virtude da persistencia com que advogava esse plano, chegando a apresentar um projecto de casamento de Henrique com Anna de Cleves, com o fim de cimentar a alliança. Morreu no cadafalso, como havia succedido a More e a Fisher, e o rei foi-se tornando cada vez mais reaccionario.

O Estatuto Sanguinario, ou os Seis artigos.—O primeiro indicio d’esse facto foi a publicação do Livro do Rei, ou a Necessaria Doutrina e Erudição para todos os Christãos. Em 1539, Henrique resolveu voltar á politica do primeiro periodo do seu reinado, e poz-se em communicação com Carlos V. A mudança na politica exterior do rei teve repercussão nos negocios internos. Foram promulgados os Seis Artigos, «para abolir a diversidade de opiniões», e foi revogoda a permissão de ler a Biblia traduzida por Tindal.

Estes Artigos exigiam de todos os inglezes, sob pena de confiscação dos bens, e de morte, que cressem na transubstanciação, que negassem a necessidade dos leigos participarem do calix na communhão e que admittissem o celibato do clero, a obrigação dos votos de castidade e a necessidade das missas e da confissão auricular.

As doutrinas das egrejas reformadas da Allemanha e da Suissa tinham feito algum progresso na Inglaterra, não obstante as perseguições, e haviam sido abraçadas por um grande numero de pessoas durante aquelles annos de tolerancia em que Cranmer e Cromwell dirigiram a politica do rei, e esta lei dos Seis Artigos deu logar a uma grande perseguição. O povo chamava-lhe o Estatuto Sanguinario e o Chicote das Seis Cordas. Deu principio a um reinado de terror, que só terminou com a morte do rei. Felizmente para a nação, esta não se fez esperar muito.

O estado da Egreja de Inglaterra em 1547.—Henrique morreu em 1547, deixando tres filhos: Maria, filha de Catharina de Aragão, com 31 annos; Isabel, filha de Anna Boleyn, com 14; e Eduardo, filho de Jane Seymour, com 10. Maria e Isabel haviam sido declaradas illegitimas pelo parlamento. Eduardo succedeu a seu pae no throno.

Henrique deixou atraz de si um caos, para sair do qual teve a nação de sustentar uma tremenda lucta. O rei, emquanto viveu, susteve com mão ferrea os romanistas extremos e o partido protestante, e manteve até ao fim o seu ideal, que era uma egreja catholica, desligada do papa. E conseguiu-o, pondo-se no logar outr’ora occupado pelo papa. Exercia sobre a Egreja uma auctoridade muito mais absoluta do que sobre o Estado. A posição era difficil de sustentar, e foi-o muito mais para os monarcas que succederam a Henrique, pois que as idéas reformistas iam-se propagando cada vez mais. Deixou tambem sem solução muitos problemas politicos. Os cofres publicos estavam vasios. A sua politica exterior foi um subterfugio, que collocou em grandes embaraços os seus successores. A venda dos bens da Egreja produziu uma mudança, tanto social como economica, que difficultou a vida da nação.

O assumpto, porém, que exigia immediata resolução era: A Inglaterra devia abraçar a Reforma, ou voltar de novo para o romanismo? A Egreja não podia permanecer na situação em que Henrique a havia deixado.

CAPITULO II A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE MARIA

Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o Livro de Homilias e o Livro de Oração Commum, pag. 176.—A alliança com o protestantismo continental, pag. 178.—Os Quarenta e Dois Artigos, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag. 179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag. 186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A morte de Maria, pag. 187.

Será adoptada a Reforma?—Quando Henrique morreu, succedeu-lhe seu filho, Eduardo VI, que era então um rapazito de dez annos. Pouco antes de morrer, Henrique fez testamento, em que deixou instituido um conselho de regencia, composto de dezeseis membros da nobreza, o qual entrou logo no exercicio das suas funcções, começando a governar. O referido conselho escolheu o conde de Hertford, que fazia parte d’elle, para o logar de protector do reino, recebendo n’essa occasião, em conformidade, segundo se diz, com o que estava estabelecido no testamento, o titulo de duque de Somerset. A questão mais grave que este conselho de regencia tinha de resolver era a questão religiosa. A Inglaterra não podia continuar no estado em que se encontrava. Ou a Egreja se reformava, ou a nação tinha de renovar a sua alliança com Roma. Se se tivesse consultado a opinião publica, ver-se-hia, provavelmente, que uma grande maioria era partidaria do romanismo. Os ultimos annos do reinado de Henrique tinham sido uns annos de terror, e todas as desventuras eram attribuidas á supremacia real em materia de religião. O povo de Inglaterra, por outro lado, estava pouco ao facto das doutrinas reformadas, e a Biblia não estava vulgarisada. A Reforma não havia sido prégada na Inglaterra, como o fôra na Allemanha e na França. Não havia excitado o enthusiasmo popular.

A extincção dos conventos tinha feito com que a gente do campo desejasse voltar ao antigo systema. Os inglezes não haviam opposto obstaculo algum á extincção dos conventos e á confiscação dos bens da Egreja quando isso foi pela primeira vez decretado; mas os camponezes em breve descobriram que a unica coisa que havia resultado para elles fora uma substituição de amos com quem se davam perfeitamente por outros que custavam immenso a supportar. Os novos proprietarios vedavam os logradouros publicos, derrubavam os muros e as sebes que dividiam entre si as quintas pequenas para formarem extensas propriedades, e preferiam as pastagens ás searas de trigo, diminuindo assim o valor das terras e dando logar a uma grande falta de trabalho. A pobre gente suspirava por aquillo a que chamava os bons tempos.

A extincção dos conventos tinha, por outro lado, atirado cá para fóra com uma legião de homens que não tinham profissão alguma e incapazes de ganhar a vida, era preciso cuidar d’essa gente. O governo havia entendido que o meio menos dispendioso de arrumar os frades era collocal-os nas freguezias, na qualidade de parocos ou de coadjuctores. E assim a Egreja encheu-se de homens que trabalhavam de má vontade, e que odiavam aquella nova ordem de coisas que lhes havia transtornado a vida.

Todas estas coisas tornavam duvidoso se a Inglaterra adoptaria a Reforma ou se reconciliaria com Roma.

Por outro lado, havia homens fervorosos e cheios de resolução, que estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e até a propria vida, pela causa da Reforma, que elles estavam na convicção de ser a causa de Christo. No numero d’esses homens figuravam o Protector, Somerset, e outros membros do conselho da regencia, que deliberaram introduzir a Reforma na Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real appareceu sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os a solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. Isto tinha sido inventado por Cromwell para que não fossem prejudicadas as regias prerogativas.

A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração Commum.—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O paiz foi dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas foi nomeado um funccionario, que deveria averiguar se os serviços ecclesiasticos estavam sendo executados segundo as leis vigentes. A jurisdicção episcopal esteve durante algum tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome do rei. Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas deficiencias. O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo havia sido sempre lutherano, e que animara o conselho da regencia em todos os planos d’este, compoz um Livro de Homilias, que foi entregue ao clero paroquial, com a recommendação de ser lido nas egrejas. A Paraphrase do Novo Testamento, de Erasmo, foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem fosse lida no culto publico.

Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, bispo de Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre Henrique VIII nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra um dos auctores do Estatuto Sanguinario, estava á testa do partido reaccionario, e protestou contra todas as propostas dos visitadores.

Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os Seis Artigos, declarou que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, que na Ceia do Senhor o vinho, assim como o pão, devia ser administrado aos leigos, e approvou a politica ecclesiastica do Protector Somerset.

As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas egrejas mais simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se o uso do Livro de Oração Commum, compilado, por Cranmer, dos antigos rituaes. Foi este o Primeiro Livro de Oração Commum de Eduardo VI, e, posto que mais tarde passasse por algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.

Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento do romanismo. As imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. Aboliram-se os antigos dias de jejum, e o arcebispo Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á vista de todos, na quaresma.

Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a maioria, do povo e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. Bonner, bispo de Londres, tentou oppôr-se indirectamente á corrente, declarando que o novo Livro de Orações podia ser tomado n’um sentido romanista; mas isso apenas levou a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos, á remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, e á preparação de um novo Livro de Ordem.

Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia mudado, e em doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se tornado protestante. As mudanças que se haviam feito tinham promovido um grande sentimento de desagrado para com Somerset; houve tentativas de revolta; e, posto que estas fossem suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na politica exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo succedido pelo conde de Warwick.

A alliança com o protestantismo continental.—A subida de Eduardo ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick animaram o arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo plano de uma alliança entre a Egreja Romana e as Egrejas protestantes do Continente. Sob o congenial patrocinio de Somerset, o plano de Cranmer parece ter incluido uma assembléa, em Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes com o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir de resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante commum.

Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que diversos theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo inglez na fé reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram de Strasburgo para Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, onde fizeram prelecções sobre theologia e sobre as Escripturas do Antigo Testamento. Dois distinctos italianos, Pedro Martyr de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna, vieram leccionar para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos elles abalisados professores, instruiram um grande numero de rapazes nos artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, segundo o uso continental, polemicas publicas sobre pontos controversos de theologia, taes como a Transubstanciação, o Celibato do Clero, o Purgatorio, etc.

Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, e foi mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu aquella inclinação para o modo calvinista, opposto ao lutherano, de expôr as doutrinas da fé christã que serviu de molde aos seus artigos.

Os Quarenta e Dois Artigos.—Um dos resultados d’estas discussões e disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos Quarenta e Dois Artigos, que tinham por fim exprimir em fórma confissional o credo da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram obra de Cranmer, coadjuvado pelos bispos e por outros homens de erudição. Cranmer tinha começado a escrevel-os em 1549; e acabou-os em 1552.

A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. A rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, as polemicas publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, e os trabalhos dos prégadores ambulantes como João Knox, haviam feito com que o povo desejasse ardentemente uma auctorizada exposição de doutrina tal como estes artigos forneciam. Definiam com grande clareza os limites das mudanças que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.

Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos eguaes aos Trinta e nove Artigos que constituem o credo da actual Egreja da Inglaterra. As sympathias de Cranmer tinham estado sempre voltadas para Luthero, e elle copiou tres, nem menos, dos seus artigos directamente da Confissão de Augsburgo. Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, mas, pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos de Eduardo e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um e o mesmo documento.

Os principios do puritanismo.—A livre discussão da theologia reformada e das idéas da Reforma teve como um dos seus resultados a origem e desenvolvimento, em Inglaterra, de uma theologia que acceitava cabalmente os principios essenciaes da renascença da religião promovida pela Reforma. Um d’estes principios era que Deus se havia collocado tão perto do homem mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que os homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, recebel-o. As theses de Luthero tinham estabelecido este grande principio da Reforma, e todos os theologos insistiram na possibilidade de se ir directamente ter com Deus sem ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja medieval, por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso a Deus—e havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio da Egreja. Tinha tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, insistindo em que cada clerigo devia, quando exercesse o culto publico, usar um traje especial, symbolico do seu officio sacerdotal, e havia levantado em cada egreja um altar, ou logar especial onde se realisava o encontro de Deus com o sacerdote.

Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade e magnificencia da doutrina da Reforma, de que todos os crentes são sacerdotes que gozam do direito de se approximarem de Deus por meio da fé, e de que qualquer porção do solo onde a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar e remir é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam com a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não podiam supportar que o povo fosse desencaminhado por qualquer symbolo ou rito exterior que houvesse sido empregado, nos dias de superstição, para inculcar a falsa doutrina medieval da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de todo e qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o povo no tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, ao uso das vestimentas ecclesiasticas e dos altares nas egrejas. Estes homens foram os precursores dos puritanos inglezes.

É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não significou ao principio um systema de governo ecclesiastico, e que nada tinha que ver nem com o presbyterianismo nem com o congregacionalismo. Os primeiros puritanos da Inglaterra não protestaram contra o episcopado como systema de governo. As coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se o houvessem feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou no culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal dos crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os altares nas egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se a fazer uso das sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares com as costas voltadas para a congregação.

A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. João Hooper, que havia sido monge cisterciano, e que adoptara as idéas da Reforma, tornou-se um prégador de nomeada na Egreja ingleza. Durante os ultimos annos do reinado de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido do reino para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra achava-se resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem a superstição medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado ao rei, quando se tratou de prover o bispado de Gloucester. Ao contrario de João Knox, não fazia objecção ao governo por meio de bispos, e acceitou a nomeação, mas não quiz fazer uso das vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a proferir a seguinte phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos me ajudem».

Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a considerar estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper pensava de differente modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr partilhavam a opinião de Calvino, e tentaram demover Hooper da sua resolução por meio de argumentos. Não poderam, porém, convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se conservar em sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado afastamento escreveu uma Confissão e Protesto em que expunha com toda a clareza as razões que haviam imperado na sua recusa de fazer uso das vestes prelaticias. Por este seu feito, metteram-n’o na prisão. Passado algum tempo, porém, fez-se um convenio ácerca das vestimentas, foram omittidas do juramento as palavras «e todos os santos», e Hooper foi consagrado bispo de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever novas borrascas n’um futuro proximo.

Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma no tempo de Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande largueza de idéas, e muito tolerante—havia-se empenhado om que á princeza Maria se concedesse o servir a Deus conforme a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de Londres em substituição de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua diocese das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que todos os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar mesas para a communhão.

Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo entre o romanismo e a Reforma, que era em que consistia o ideal de Cranmer relativamente á Egreja de Inglaterra.

Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens que haviam sido sempre partidarios da Egreja medieval. Quando Hooper e Ridley mostraram até onde a Reforma os poderia levar, Gardiner e Bonner redobraram de furia contra elles. O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper tinha estado preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas medievaes.

A morte de Eduardo VI.—O joven rei nunca havia sido muito robusto, e antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de saude alarmou seriamente os principaes vultos do protestantismo. Á herdeira do throno era a princeza Maria, filha de Catharina de Aragão. Tanto o parlamento como a convocação haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida de que Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e de que Maria era sua filha, devendo, portanto, esta occupar o throno no caso de Eduardo fallecer. Além d’isso, segundo a lei de successão ao throno, promulgada por Henrique VIII, ella tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não deixar herdeiros.

Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia hespanhola, que nunca havia esquecido os aggravos de que a mãe fora victima, e que considerava a Reforma como uma rebellião contra Deus e um insulto dirigido a ella propria. Prima de Carlos V, imperador da Allemanha, era uma grande admiradora dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa vontade se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.

O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos dos conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno seria um desastre para a Reforma, que os attingiria tambem a elles. Viram que lhes era necessario fazer todo o possivel para que o herdeiro do throno fosse um principe ou princeza protestante.

Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo, e todo o seu empenho era que o monarca que viesse depois partilhasse as mesmas crenças. Quando viu que lhe restava pouco tempo de vida, resolveu nomear o seu successor. Nada o poude persuadir de que não tivesse o poder de o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação recaisse n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por conseguinte, não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, que estava prestes a morrer, era, pela sua tenacidade, um digno representante da casa de Tudor. Poz deliberadamente de parte tanto Isabel como Maria; poz tambem deliberadamente de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante de Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna Grey, representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna tinha casado com o filho mais velho do conde de Northumberland, e era protestante. Eduardo estava convencido de que o povo havia de acceitar a successora por elle mencionada. Os seus conselheiros estavam convencidos de que o protestantismo estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano poderia ser bem succedido. Enganavam-se ambos.

Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha Joanna foi devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, não correspondeu á acclamação. A princeza Maria fugiu, mas em volta d’ella reuniu-se muita gente, e o povo secundou as suas reclamações. Passada uma semana, tinha-se vencido toda a opposição, e o throno era de Maria.

A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, e o throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana catholica romana.

O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria (1553).—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um edificio politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo e pelos seus conselheiros, desappareceu por completo, como coisa de nenhuma substancia. É que ella havia sido imposta á Inglaterra pelo governo, ao contrario do que acontecera em outros paizes, em que foi imposta ao governo pelo povo ou acceite egualmente por governantes e governados.

Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias financeiras, devido em parte á crise economica que a Europa estava atravessando, mas devido principalmente ao desmedido fausto da côrte de Henrique VIII, e á depreciação da moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a todos os actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e a venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa das desgraças que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido tirados das casas religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz na qualidade de parocos e curas, ateiavam o fogo da antipathia pela Reforma, e preparavam o povo para um regimen reaccionario, pelo que dizia respeito á religião.

Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre quando Maria iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu ministro favorito, comprehendeu perfeitamente a situação. Elle sabia que o paiz, na sua quasi totalidade, preferia a antiga religião mas que nunca gostara do papa. Tratou, pois, de promover um regresso á situação em que se estava no principio do reinado de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão ostensiva a supremacia real.

Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas mais arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos de indifferença e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe um indicio de que o povo se estava preparando com regozijo para o restabelecimento da antiga religião e que tinha na conta de tão malefico o que se havia passado nos ultimos annos como ella propria. Como filha de Henrique, e como rainha de Inglaterra, sentia em si o dever de reparar, de accordo com o papa, os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como prima de Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio aos hespanhoes, e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que dizia respeito á politica internacional, como, e ainda mais especialmente, no que dizia respeito á politica ecclesiastica.

A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.—Maria subiu ao throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes protestantes da Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. Carlos sentia-se forçado a confessar que a Reforma o tinha vencido, quando Maria lhe participou a sua acclamação e lhe supplicou que a aconselhasse. A alliança ingleza era a unica coisa que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o bom exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente, e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se encontrava.

Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme o throno; em seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola, casando com Filippe, herdeiro do imperador; e, executadas estas duas coisas, podia então fazer as pazes com o papa.

O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos havia estado; mas o imperador não queria despertar os sentimentos anti-papistas do povo inglez; os interesses em jogo eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal Pole, nuncio do papa, recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos até a Inglaterra se achar preparada para o receber.

Como Maria se firmou no throno.—Ao principio fel-o com bastante facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno havia desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia, e poucos d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a Gardiner obter que o parlamento revogasse todas as leis que diziam respeito ao divorcio de Catharina e á filiação de Maria. O decreto parlamentar que conferia ao rei uma supremacia absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um meio excellente para fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha, por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o antigo costume. Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido para a Torre, onde em breve se lhe reuniram Latimer e Ridley. Foi abolido o Livro de Oração Commum, e todas as mudanças introduzidas no culto no reinado de Eduardo foram postas de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições em que Henrique VII a havia deixado.

A alliança hespanhola.—O povo inglez não via com bons olhos a alliança hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento da sua rainha com Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner, que conhecia a indole da nação, tratou de dissuadir a rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a desposar Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento, redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava sem direito ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe defezo exercer qualquer influencia nos negocios publicos de Inglaterra. O facto de Carlos e seu filho terem acceitado estas condições mostra o valor que elles davam a uma alliança estavel com a Inglaterra.

O povo inglez ficou indignado com similhante casamento, e para mostrar o seu desagrado revoltou-se em diversas partes do reino; Pedro Carew poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall e Devon, o conde de Suffolk nos condados do Centro, e Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante foi capitaniada por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem que Maria era filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve grande sympathia com as rebelliões contra ella. Filippe chegou, com instrucções de seu pae para fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para agradar ao povo inglez, as quaes elle, no seu modo extravagante, tratou de seguir, bebendo cerveja ingleza e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o casamento celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança com a Hespanha.

A reconciliação com Roma.—Filippe e Maria eram fervorosos catholicos romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse do anathema papal que sobre ella havia caido quando Henrique desposou Anna Boleyn; mas não era facil conseguir isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não reconhecer a supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia que o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice romano. Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito cautelosamente. Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior: era a questão das terras que haviam sido arrancadas do poder da Egreja e vendidas a particulares. Por um lado, o papa não deixaria de insistir na sua restituição, e, por outro, essa restituição iria, certamente, dar logar a violentos protestos. Poucas d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte d’ellas tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos donos e restituil-as á Egreja.

Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a renunciar á reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa que restava fazer era predispôr o povo inglez para a chegada do nuncio.

O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo sobrinho de Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza, mas havia preferido o desterro a reconhecer a supremacia real de Henrique VIII ou a legalidade do divorcio de Catharina de Aragão. Era parente de Maria, e fôra um dos que haviam soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella. Solicitou-se do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada, e Pole foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado do papa. O povo acolheu a noticia com indifferença. Por fim o parlamento approvou uma proposta para que se tratasse de promover a reconciliação com Roma. Em 1554, no dia de Santo André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a nação. Filippe e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se na presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão da Santa Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que affirmavam a supremacia real e que rejeitavam a supremacia do papa. O clero, por outro lado, renunciou solemnemente a todas as reivindicações quanto aos bens abbaciaes e a outras propriedades da Egreja que haviam sido sequestradas. A união com Roma estava novamente restabelecida por completo.

Porque não foi bem succedida a reacção.—No espaço de dois annos a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado de Eduardo nunca tinha existido, e que Henrique tinha vivido em harmonia com o papa até ao fim da sua vida. Tinha-se estabelecido a reacção catholica romana, que parecia disposta a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o movimento reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns annos a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação protestante. Como se operou esta transformação?

É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem tres d’ellas á superficie da historia: as perseguições que tiveram logar durante o reinado de Maria, as questões por causa dos terrenos ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel á Reforma como resultado das predicas evangelicas no curto reinado de Eduardo.

As perseguições no reinado de Maria.—Os protestantes que existiam em Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão atrozes perseguições como as que dizimaram os huguenotes da França ou victimaram os reformadores dos Paizes Baixos. Despertaram, comtudo, no paiz um tal horror ao papismo que ainda hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo barbaro como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, que se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, fazendo parte do vasto plano que elle havia formado para reduzir a Inglaterra ao dominio hespanhol.

A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar todos os que durante o reinado anterior haviam fomentado a Reforma. Os homens condemnados ao exterminio eram todos bem distinctos, tanto pelo nascimento, como pela eloquencia, como pela illustração, como pela piedade. Eram: Cranmer, o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela sua férvida eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes theologos reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam de ser derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra viu serem entregues ao carrasco e queimados em vida os seus homens mais eruditos e de maior capacidade moral.

E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança com a Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, o homem insensivel a todos os males, e estar de bem com aquella nação que havia consentido que os seus proprios filhos e filhas fossem torturados pela inquisição, e, sem a menor sombra de revolta, se havia submettido ao mais esmagador despotismo.

Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor christão. Durante a vida não conseguiram despertar a confiança universal, mas com as suas mortes provaram que estavam bem convencidos do que apregoavam, e fizeram penetrar no coração do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado por tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam agora com satisfação.

As terras da Egreja.—Maria havia sido prevenida por Carlos V de que não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. Estes tinham sido vendidos, e, em virtude da venda, estavam divididos por cerca de quarenta mil pessoas. Tocar-lhes era atacar o direito de propriedade. A Egreja e o papa haviam renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do parlamento ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á religião catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado. Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia a Inglaterra ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e ella propria estavam aproveitando dos roubos feitos á Egreja?

O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não approvou a conducta do seu predecessor no que dizia respeito áquella questão, e pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a restituição. Maria accedeu, por fim, ás suas instancias, e conseguiu com alguma difficuldade, que as camaras dessem o seu consentimento para que as terras da Egreja, ainda em poder da corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu um grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos restantes bens abbaciaes deixassem de considerar garantidos os seus direitos, e a perda de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a a augmentar os impostos. A Egreja mostrava-se, como sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.

O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.—Os theologos estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo ensinar para Oxford e Cambridge haviam educado uma geração de jovens estudantes que, convencidos da verdade das suas opiniões, as acceitaram e as espalharam por entre o povo, e que com muita satisfação davam agora a sua vida por ellas. Até ali pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse o enthusiasmo. O povo tinha passado, com a maior das facilidades, de uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de Maria tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados por Martinho Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com muito gosto as suas vidas para conseguirem que os seus compatriotas acceitassem as doutrinas biblicas dos reformadores. As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a de Coverdale, eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia sendo esclarecida ácerca da significação da Reforma.

O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra a Egreja que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez que a Egreja havia mostrado quando chamada a tomar de novo posse das propriedades que lhe haviam sido tiradas, e conhecia agora melhor as Escripturas e estava mais ao facto do que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.

A morte de Maria.—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, escapando, talvez, d’esse modo, de ser victima de uma revolução. «A mais infeliz das rainhas, das esposas e das mulheres», o seu nascimento tinha enchido de regozijo uma nação, e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da Europa. Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um golpe esmagador, que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu pae, o parlamento, e a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha illegitima, e, marcada com este ferrete maldito, foi chorar na solidão a sua ignominia. Quando a Inglaterra a saudou como rainha no seu trigesimo-setimo anno, era já uma velha de faces cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos, negros e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo, porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo anhelava por um affecto; casara com um marido da sua escolha, e ella propria se reputava um instrumento predestinado pelo céu para que se reintegrasse no divino favor uma nação excommungada. O marido, a quem ella idolatrava, aborrecendo-se d’ella passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha. A creança cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar com os desgostos que a affligiam. E o povo, que a recebera com tanto enthusiasmo, e a quem ella realmente amava, chamava-lhe Maria a Sanguinaria, e esse cognome tem sido transmittido de geração em geração até aos nossos dias. Cada tribulação por que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não ter ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, assim, as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e novas victimas se arremessaram para ellas, para aplacar o Deus do romanismo do seculo dezeseis.

CAPITULO III A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL

A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão religiosa, pag. 190.—Os trinta e nove artigos, pag. 197.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag. 192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag. 194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—Os conventiculos, pag. 198.—Os pamphletos anti-prelaticios, pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.

A sucessão de Isabel.—Por morte de Maria, Isabel foi, sem opposição, proclamada rainha. O partido catholico romano, que se poderia ter opposto á sua successão, não dispunha de força para isso, pois que a Inglaterra estava em guerra com a França, e a unica rival de Isabel era a esposa do Delfim, Maria, a rainha da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era para todos os catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando ella nascera.

A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando ella subiu ao throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, apezar de se terem cobrado adeantadamente as receitas, e a guerra com a França estava levando a ruina a todos os lares. A situação individual da rainha era a mais precaria que se póde imaginar. A sua legitimidade era mais do que duvidosa. A França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer valer os direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente, a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. A força do protestantismo nas provincias era duvidosa. Vendo os perigos de uma questão religiosa logo no principio do seu reinado, a rainha contemporizou. Ia á missa para agradar aos catholicos romanos. Prohibiu a elevação da hostia para agradar aos protestantes. E poz-se á espera de ver o que a Hespanha e a Inglaterra diziam.

A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe II ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola dependia tanto de Filippe como do papa, e Isabel não tardou em certificar-se de que da Curia Romana não acolheria benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando o embaixador anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel, na sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem o meu consentimento; é um desproposito da parte della, se o fizer. Que ella, em primeiro logar, submetta á minha decisão as suas reivindicações.» Não era preciso mais. Isabel não podia, de ahi em deante contar com a Hespanha.

Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta da Inglaterra. O seu primeiro parlamento era quasi todo composto de protestantes. As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram a supremacia real, posto que de uma fórma modificada. Henrique VIII havia-se chamado a si proprio «o unico chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo». Isabel contentou-se com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor» (Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, «a quem pertencia o governo de todos os estados, quer civis quer ecclesiasticos.» Uma commissão de doutores em theologia, nomeada para rever o Livro de Oração Commum do rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser usado pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação d’elles, adoptada.

A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada por Maria da Escocia de uma alliança com a França, e pelo papa de uma alliança com a Hespanha, não teve outro recurso senão o de conquistar as sympathias do povo inglez e fazer-se egualmente protestante.

Como se liquidou a questão religiosa.—Isabel não era, de maneira nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia fortes convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande massa do povo e do clero que lhe coubera em sorte governar. Quando Eduardo subiu ao throno, era ella uma rapariga de dezeseis annos; apezar de tão nova, porém, sabia conduzir-se muito ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião patrocinada pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa, contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto. Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. Era, pelo que tocava aos sentimentos, uma digna filha de seu pae, e preferia as doutrinas e o systema catholicos romanos, occupando o soberano o logar do papa.

Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia herdado uma grande disposição para dominar, e a Egreja Catholica Romana era então o modelo por excellencia de um governo despotico. Ella havia recebido uma boa educação litteraria, e comprazia-se muito em ler os antigos auctores gregos. Gostava de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões e praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, e preferia, por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de Roma. O que, porém, não queria era encontrar o papa no seu caminho.

Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a escola genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela fé, nem da simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, abominava aquelles principios democraticos de governo da Egreja que se haviam identificado com o presbyteriannismo. Os reformadores da envergadura de Knox, com as suas doutrinas da predestinação, do livre perdão obtido directamente de Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam sómente a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem o rei, e estava convencida de que o temor da Egreja era uma boa preparação para o temor do monarca. Ella não possuia a subtileza de espirito para dizer como o seu successor, «Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.

O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era mais protestante do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se acceitando o Livro de Oração Commum e outras usanças protestantes.

Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos a essa dignidade durante o reinado de Maria tiveram a coragem de protestar contra taes mudanças. Resignaram os seus cargos ou foram d’elles exonerados. Em 1559 estavam vagas todas as sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.

Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou a rainha Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de sua mãe.

Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos para uma consagração legal, chamando do isolamento a que se haviam acolhido os bispos de Eduardo VI que a rainha Maria tinha deposto. As idéas de Parker eram muito mais protestantes do que as de Isabel, mas parece que elle não se preocupou muito com as innovações introduzidas pela rainha. Escolheram-se outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou constituindo uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel base catholica romana.

Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram muito mais protestantes do que ela desejaria que fossem. As perseguições executadas por ordem de Maria fizeram com que muitas familias inglezas se retirassem para fóra do reino. Tinham formado colonias em Francfort, em Genebra, e n’outras partes, tinham adquirido intimidade com os theologos calvinistas, e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas. Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido, e os martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; tinham opiniões, e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os bispos sabiam que a Egreja de Inglaterra não podia ser aquillo que Isabel desejava que fosse, e devia possuir uma auctorizada exposição de doutrinas, um credo cujos delineamentos principaes fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada a consentir n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada Os Onze Artigos. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos e os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se conformaria com similhantes coisas. A questão prolongou-se tanto que os bispos, n’uma occasião, ameaçaram-n’a com um pedido collectivo de demissão. O artigo undecimo declarava, portanto, que «as imagens eram coisas vãs».

Os trinta e nove artigos.—Este curto formulario de doutrinas foi, passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além d’isso, a rainha teimava em dar á Egreja uma orientação que a tornava muito parecida com a catholica romana. Queria, por exemplo, tornar obrigatorio o celibato clerical. Os bispos reconheceram a necessidade de uma serie, ou exposição, auctorizada dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo Parker, com a assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos Quarenta e dois Artigos de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes. A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe fizeram uma segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os Artigos antes de dar o seu consentimento, e fez duas muito caracteristicas alterações. Inseriu a primeira clausula do Artigo XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos ou ceremonias, e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou o Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo á Mesa da Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção d’esse Artigo, e a rainha submetteu-se. Estes Artigos são, e houve intenção de que o fossem, calvinistas na sua theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma definitiva revisão em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava em Zurich: «Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até chegar á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de uma unha.» Assim a Egreja, que havia alterado o seu Livro de Oração Commum para o amoldar ao gosto catholico romano, formulou os seus artigos de religião, o seu credo, de tal modo que ficou em conformidade com as egrejas reformadas da Suissa.

O puritanismo e as vestimentas clericaes.—A rainha não gostava dos trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua approvação tinha sido uma victoria para o partido protestante com que ella dificilmente se conformava. Animados com o bom exito alcançado, os puritanos tentaram, de uma maneira vigorosa abolir o Livro de Oração Commum, e desembaraçar-se de todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja medieval, e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, victoriosa.

Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de 1564, e durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o ponto principal em discussão era o uso da capa de asperges e da sobrepeliz, que é uma sobrevivencia da toga branca, ou traje de ceremonia, do imperio romano. Os puritanos do tempo de Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de seus irmãos no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na Egreja christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem era eleito bispo pelo facto de ser clerigo, e poder por essa razão approximar-se mais de Deus do que os seculares, ou porque o governo lhe havia sido conferido por uma auctoridade de fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente e pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama esses homens para a servirem no limite das suas funcções. Recusavam fazer uso dos paramentos, porque estes significavam uma coisa em que elles não criam.

A contestação tomou em breve um caracter violento. Os bispos sentiam-se inclinados a contemporizar, pois que sabiam o quanto se havia espalhado e quão profundamente arraigada estava aquella opposição ás vestes clericaes; mas a rainha não lh’o permittiu. Fez uso do poder que a supremacia lhe dava sobre os bispos para os obrigar a pôrem em execução a Acta da Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como que um protesto contra a supremacia real e contra a constituição episcopal, e como que um brado para que o povo tivesse voz activa no governo da Egreja, o que só o presbyteriannismo ou o congregacionalismo pode proporcionar. Durante os annos de 1565 e 1566 foram em grande numero os ministros que perderam os seus logares por não se quererem conformar com os usos estabelecidos.

A rainha entendia que a sua posição como governadora da Egreja a auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo como era conduzido o culto publico nas paroquias de Inglaterra. Nomeou commissarios reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias informações, e estes agentes de Isabel vieram a constituir o Tribunal da Alta Commissão, que se tornou um instrumento de tyrannia ecclesiastica nos reinados de seus successores. Por estes commissarios foi Isabel informada da existencia dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas estabelecidas.

O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros que estavam inhibidos de tomar parte nos serviços. As prisões e as multas só serviram, como sempre aconteceu, para ateiar as chammas da dissidencia. Esta fez a sua apparição nas universidades. Os estudantes recusaram fazer uso da sobrepeliz ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos paramentados. Foram tantas as paroquias que vagaram que não era possivel arranjar ministros para todas; e, quando qualquer ministro submisso era collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral, apupava-o. Alguns dos mais zelosos ministros separaram-se da Egreja nacional.

O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright, que, tendo sido educado no Collegio de S. João, em Cambridge, veiu a ser depois professor de theologia. Era um homem piedoso e illustrado, e um eloquente prégador, e, tendo perdido a sua cadeira de lente por causa das suas opiniões, ainda por cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox, escreveram um folheto moderado—Uma advertencia ao parlamento—sobre a disciplina da Egreja e as medidas violentas que haviam sido tomadas contra os puritanos. Foram mandados para Newgate, como dois criminosos quaesquer. Cartwright escreveu uma Segunda Advertencia em defeza dos seus amigos, e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha respondia a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto de haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não menos de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker morreu em 1575, havendo-lhe o cargo de executor da rainha, que desempenhava bem contra sua vontade, tornado amargosissimos os ultimos annos da sua vida.

A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.—Ha alguma desculpa para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos no principio do seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava empobrecida, e o throno de Isabel não offerecia estabilidade. Não sympathisava com a Reforma no que ella mais profundamente significava, e não a animava o desejo de ver o seu povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores. A Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e de paz para recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra tivesse abraçado o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo, não assistiria de braços cruzados ás crueldades commettidas para com os protestantes francezes e hollandezes pela França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos Paizes Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel, com a sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva para o grande futuro que o esperava. «Nada de guerra, meus senhores, nada de guerra», exclamava ella invariavelmente quando Cecil ou outro qualquer ministro manifestava o desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante.

Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia, não desejava romper por completo com os papistas, ou apresentar-se quer aos seus subditos catholicos romanos, quer ás nações continentaes, como uma rainha forte e resoluta. A Inglaterra necessitava de descanço, e a rainha havia determinado conservar em paz o seu paiz.

Isto explica em parte a sua politica de indifferença perante a lucta em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros paizes. Cecil, o maior dos ministros que Isabel teve, queria que ella se pozesse á frente de uma grande liga protestante e prestasse um auxilio efficaz aos protestantes da Escocia, dos Paizes Baixos e da França. Os ciumes que Isabel tinha de Maria Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o partido protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que tanto havia perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes Baixos e á França, Isabel não deu outro auxilio além do que era sufficiente para que o partido protestante continuasse a existir, e isso mesmo foi feito mais com o fito de consumir as forças da França e da Hespanha do que com o de proteger perseguidos correligionarios.

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings