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A Reforma

I PARTE A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS (continued 2)

J. S. Canuto translation

A Confissão de Augsburgo.—A primeira parte d’esta nobre confissão expõe, um por um, todos os principios evangelicos da Reforma, e em particular os grandes principios da justificação pela fé. Diz-se que, quando o chanceller do Eleitor, Christiano Beyer, leu estas palavras «a fé, que não é o mero conhecimento de um facto historico, mas aquillo que crê, não sómente na historia, mas no effeito que essa historia produz sobre o espirito», toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: a Palavra de Deus não está presa».

Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava os abusos da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto as egrejas que ha entre nós não discordarem em artigo algum de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja Catholica, e omittirem apenas uns certos abusos, umas certas innovações, que em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido dos canones, rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne prestar ouvidos clementes ás razões que o povo apresenta para que não deva ser forçado, contra as suas consciencias, a observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura como aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que o celibato dos clerigos é uma transgressão do mandamento de Deus: que a missa é «uma profanação do sacramento da Ceia do Senhor»: que a distincção das comidas e as tradições «obscurecem as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas festas, ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos são altamente perniciosos, e servem para desencaminhar homens e mulheres, pois que «se deve servir a Deus segundo os preceitos que Elle promulgou, e não segundo os que os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, mas ministerial.

A confissão continha tambem um pequeno artigo em que vinha exposta a opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia do Senhor, e isso compelliu os theologos suissos e os do sul da Allemanha a apresentarem confissões separadas: mas a leitura da confissão de Augsburgo, pelos principes, na Dieta produziu um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os protestantes adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.

O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia destruir a Reforma, e não se achava preparado para esse recurso. Lembrou-se então de promover umas conferencias que fossem criando uma certa confusão entre os protestantes. Era bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon, que n’essas conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, soube do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth (Coração pequeno): Segundo me parece, estaes fazendo uma obra prodigiosa, qual a de reconciliar Luthero com o papa.... Advirto-vos, porém, de que, se é vossa intenção metter n’um sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho, Luthero, tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas as suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. «Antes morrer com Jesus Christo», exclamavam, «do que alcançar, sem Elle, as boas graças do mundo inteiro». Os catholicos romanos pediam, por fim, mais do que Melanchthon podia conceder, e, com grande regozijo dos protestantes, as conferencias cessaram.

A liga protestante de Schmalkald.—Os principes sabiam que o imperador queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua resolução, e pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos a coadjuvarem-n’o n’aquella obra. Formou-se uma liga catholica. A resposta dos protestantes foi recusarem todos os subsidios emquanto os negocios da Allemanha permanecessem por liquidar.

Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma liga protestante, de que Filippe de Hesse foi o membro mais activo. Os estados catholicos romanos não desejavam entrar n’uma guerra civil com os seus visinhos protestantes, e o imperador, atacado pelos francezes e pelos turcos, viu-se na impossibilidade de suffocar a revolta.

O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo, que se estendia até á proxima primavera, durante o qual os protestantes podiam fazer a sua submissão voluntaria, e accrescentava que aquelles que não se submetessem durante esse prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém, a primavera, reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes. A Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação da Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações, firmou-se um tratado de paz entre Carlos e os principes protestantes. A Paz de Nürnberg, como ficou sendo chamada, permittia aos adherentes á Confissão de Augsburgo o persistirem nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros privilegios. Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe de Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os piratas da Barbaria.

A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados, taes como o de Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador não podia dissolvel-a, e, comtudo, ardia em desejos de restabelecer na Allemanha a uniformidade religiosa. O exame da sua correspondencia particular revelou a perplexidade em que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da exterminação, e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia em promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem consultar nem o papa nem o rei de França.

Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg uma Liga Catholica, com o expresso designio de acabar com o protestantismo pela força das armas. Em 1540-41, o imperador diligenciou, por meio de conferencias que se realisaram em Hagenau Worms, e Regensburgo, chegar a um certo entendimento com os protestantes em materia de religião, e chegou a ser proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente, publicado, em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não se podia prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião protestante.

D’estas victorias da Liga de Schmalkald resultou uma rapida propagação do protestantismo. O Würtemberg, a Pomerania, o Anhalt, o Mecklemburgo, e muitissimas cidades, tornaram-se protestantes; os bispados de Magdeburgo, Halberstadt e Naumberg deixaram de reconhecer a supremacia de Roma; e duas provincias eleitoraes, o Brandenburgo e a Saxonia Albertina, uniram-se á Liga. Os unicos estados que se conservaram na opposição foram a Austria, a Baviera, o Palatinado e as provincias ecclesiasticas do Rheno. Mas mesmo estas regiões começavam a ser influenciadas. Na Austria a religião evangelica ia ganhando terreno entre os proprietarios, os camponezes e os habitantes das cidades. Os bavaros iam-se deixando invadir rapidamente pelas novas idéas. Quanto ao Palatinado, a sua aggregação á Liga de Schmalkald parecia ser apenas uma questão de tempo.

O imperador não podia ver com indifferença este rapido progresso do protestantismo; contrariava-o immenso que os seus dominios nos Paizes Baixos ficassem separados d’elle por uma faixa de paizes protestantes; não queria ouvir fallar na possibilidade de uma maioria protestante no Collegio Eleitoral, e de um sucessor do imperio protestante. O procedimento do arcebispo-eleitor de Colonia mostrou-lhe que não havia tempo a perder. Hermann von Wied estava havia muito convencido da necessidade de reformas na Egreja, e depois da paz de Nürnberg, incitado por um grande numero de clerigos, e correspondendo ao evidente desejo de muitas outras pessoas, animou o ensino protestante na sua vasta diocese, e mostrou-se disposto a converter aquella provincia arqui-episcopal n’um estado secular protestante.

A posição dos arcebispos e bispos da Allemanha era, nos dias da Reforma, um tanto singular. Não eram simplesmente bispos, mas tambem barões, e, como todos os outros grandes barões sujeitos ao imperador na Allemanha, eram principes soberanos. Os arcebispos de Kõln, Trier e Metz tinham sobre alguns territorios um governo egual ao que João, o Constante, tinha sobre a Saxonia eleitoral, e Filippe, o Magnanimo, sobre Hesse. Eram as supremas auctoridades civicas, com os seus tribunaes, os seus exercitos, os seus cobradores de impostos. O decreto de 1526 era-lhes tão applicavel como aos principes seculares. Podiam fazer-se protestantes, dominar nos seus territorios, como principes seculares, e declarar «que tomavam ante Deus e sua magestade imperial a responsabilidade do seu modo de viver, do seu systema de governo e das suas crenças».

Alguns bispos do norte da Allemanha tinham-n’o feito já: a opportunidade era de tentar: podiam, aproveitando-se d’este decreto, libertar-se da obediencia a Roma, casar, e legar a seus filhos o que possuiam. Carlos viu tambem o alcance de aquella opportunidade, mas durante muito tempo foi-lhe impossivel intervir. Todas as vezes que tentou pôr em pratica os seus planos via-se contrariado, ou pelo papa, ou pelo rei de França, ou pelos turcos. Quando lhe constou que parecia estar proxima a conversão de Hermann von Wied, reconheceu-se impotente para luctar com a Liga de Schmalkald. Por fim, em 1544, conseguiu derrotar os francezes, com os quaes tratou, depois, da paz em condições vantajosas para elles, impondo-lhes, porém, a clausula de uma união dos dois exercitos para combater os protestantes. Na Dieta de Spira, que se reuniu no mesmo anno, mostrou-se contemporizador, propondo que se suspendessem hostilidades até á convocação do Concilio Geral; isto ao passo que por outro lado trabalhava para desviar da liga protestante o maior numero de principes que lhe fosse possivel.

A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald.—No entretanto Luthero, que soffria havia bastante tempo de uma doença do coração, morria em Eisleben, em 18 de fevereiro de 1546, perecendo com elle aquella forte reluctancia dos protestantes em tentarem a sorte das armas. Não estavam, porém, tão bem preparados para a guerra como n’outro tempo. O bom exito que a liga tivera ao principio fez com que elles confiassem demasiadamente n’ella; além d’isso, surgiram rivalidades entre os estados e as cidades, e entre os principes. Filippe de Hesse era o unico chefe competente, mas tinha o defeito de ser um principe de pouco elevada estirpe. Tinham ficado tambem muito prejudicados com o facto de Mauricio ter succedido ao duque Jorge da Saxonia, o grande inimigo de Luthero e da Reforma. Mauricio era sobrinho do duque Jorge, havia sido educado no lutheranismo, e desposou a primeira filha de Filippe de Hesse. Por occasião de elle assumir a chefia, a Saxonia Albertina, como era chamada, confirmou o seu lutheranismo, que durante a vida do duque Jorge se havia propagado clandestinamente, e que se havia tornado a religião reconhecida do paiz quando o duque Henrique, pae de Mauricio, succedeu a seu irmão. Todas estas coisas faziam com que os principes protestantes não podessem prescindir do concurso de Mauricio, apezar do joven não lhes inspirar muita confiança. De facto, Mauricio foi o primeiro de aquelles principes allemães protestantes para quem a Reforma era simplesmente uma arma politica de que lançassem mão quando lhes fosse vantajosa. Mais tarde, durante a guerra dos Trinta Annos, o seu numero augmentou consideravelmente, graças ás interminaveis disputas dos theologos, que, interessados apenas em que as suas insignificantes doutrinas ácerca da ubiquidade e da presença real fossem correctamente definidas, se mostravam quasi indifferentes perante a grande quantidade de sangue derramado e o grande numero de lares desgraçados. Nos primeiros tempos da Reforma, porém, os principes protestantes eram homens sinceramente christãos e que não obedeciam a fins interesseiros, não obstante a sua forçada camaradagem com Mauricio.

O imperador quiz aproveitar a opportunidade, e com esse intuito fez algumas propostas a Mauricio. Este começou por abandonar a liga. Era um bom protestante, disse elle, e estava prompto a defender a religião, mas não queria ajuntar-se com aquelles que se oppunham ao seu soberano. O imperador, cobrando animo com esta declaração, deu os ultimos toques aos seus preparativos. Antes, porém, de entrar em acção, proclamou que a sua idéa não era combater a religião, mas, sim, castigar aquelles que conspiravam contra a integridade do imperio.

Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve logar em seguida. Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos outros, e á falta de mutua confiança entre os caudilhos da liga, o imperador alcançou uma facil e, apparentemente, decisiva victoria. A batalha de Mühlberg teve logar a 24 de abril de 1547, e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou ferido e foi feito prisioneiro, não tardando que Filippe de Hesse caisse egualmente em poder dos inimigos.

Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou logo a sua intenção de restabelecer a unidade religiosa. Ia redigir um documento denominado o Interim de Augsburgo, especie de confissão de fé que os allemães seriam obrigados a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a hierarquia e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades, jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos clerigos e a faculdade do povo commungar nas duas especies.

O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e estava n’elle incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto se devia conceder aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram de boa vontade. O imperador não o remetteu aos districtos catholicos romanos, e em todos os protestantes encontrou uma resistencia passiva. O proprio Mauricio hesitou em o proclamar na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o Interim de Leipzig, que tendia a uma conciliação das ceremonias papistas com as doutrinas protestantes.

Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador só encontrava submissão da parte do povo nos pontos onde a presença das tropas hespanholas obrigava a essa submissão. O imperador havia triumphado, o seu exercito saira victorioso, parecia ter adquirido um dominio na Allemanha como não succedera a nenhum outro soberano durante muitos seculos, e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois não conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força da consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava erguida contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus bem elaborados planos politicos.

O imperador e o Concilio Geral.—Emquanto o imperador estivera formando e pondo em pratica os seus projectos para a conquista da Allemanha protestante, a côrte pontificia vira-se forçada a convocar um Concilio Geral. Este concilio reuniu-se em Trent, no Tyrol, e, emquanto o imperador andou mettido na tarefa de subjugar os protestantes, esteve tomando deliberações relativas á Egreja.

Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma deu origem, os reformadores appellavam constantemente para um concilio livre, e os concilios foram sempre os instrumentos favoritos do imperador para a liquidação das contendas. Os papas, porém, procuravam, antes, evital-os. No seculo quinze, os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia foram os meios de que os ecclesiasticos e principes se serviram para investir contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um ponto de reunião para todos aquelles que eram adversos ao christianismo papal; e a um politico como Carlos V affigurava-se ser um excellente meio de engrandecer o imperador e humilhar o papa. Anteriormente á Reforma, os concilios geraes eram olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito Santo fallava mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio não era susceptivel de errar.

Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral, ou ecumenico, significava simplesmente uma assembléa que se podia com justiça dizer que representava a Egreja no seu conjuncto, de modo que as suas decisões podiam ser chamadas as opiniões de todos os christãos. N’esses remotos tempos os bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto, representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um concilio em que todos os bispos christãos estivessem presentes achava-se realmente no caso de fallar em nome de todo o povo christão. Mesmo nas epocas mais puras da egreja primitiva, concilio algum se realisou a que concorressem todos os bispos, e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e representativo de todos os christãos. No decurso da Edade Media a Egreja perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou democratico, e os bispos não podiam ser chamados, n’um sentido rigoroso, os representantes do povo; eram, muitas vezes, apenas os delegados do papa, e iam aos concilios para votar o que elle houvesse dictado.

Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador que um concilio, para ser util, devia estar quanto possivel fóra da influencia do papa. Os allemães tinham pedido que se convocasse um concilio livre na Allemanha, e o imperador tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa, por outro lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle poderia mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões. Depois de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se afinal que o concilio se reunisse, não em Italia, onde o papa poderia ter demasiado poder sobre elle, nem na Allemanha, onde o imperador e os principes poderiam impôr a sua auctoridade, mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto equidistante da Allemanha e da Italia.

O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia que havia na egreja romana muitos homens competentes que se tinham preparado para grandes reformas, que ao proprio papa, Paulo III, não eram indifferentes; não tinha, porém, contado com a influencia de uma nova e poderosa organisação que estava destinada a alcançar a sua primeira e grande victoria n’esse mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado.

Loyola e os jesuitas.—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol, educado no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas guerras com os moiros tinham tornado a dedicação ao papado um grande elemento de patriotismo, ficou com uma perna esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas dolorosas operações tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira militar tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção de um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da Egreja.

Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha phantasticas visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou a sua vida, com todo o ceremonial da cavallaria da Edade Media, a Deus, á Virgem e á Egreja. Elle vivia alheiado da moderna erudição. Não sabia nada de theologia. A sua religião era medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um novo Francisco de Assis.

É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse excitado pela mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V. Ambos queriam renovar seculos que tinham desapparecido para sempre; e, emquanto um estava planeando a restauração do Imperio do primeiro periodo da Edade Media, o outro estava regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos feitos missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos. O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um exito que excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de estudo, de decepções, de demoras, obteve permissão do papa para fundar a Companhia de Jesus.

A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia quando teve logar, em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia tornado famosa. Os seus sucessos como sociedade missionaria, a sua devoção por Francisco Xavier, e o enthusiasmo de seus membros, tudo contribuiu para a tornar formidavel. Lainez, um dos primeiros discipulos de Loyola, e seu successor como cabeça da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter que lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio de Trento.

A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da heresia, e o seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao papa; e, n’essa conformidade, Lainez tratou activamente de evitar que o concilio fizesse quaesquer concessões aos protestantes. O seu modo de discursar, a sua subtileza e a sua tenacidade deram-lhe grande influencia. Poude logo ao principio levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não auctorizasse reformas doutrinaes.

As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas. O papa não podia jámais pensar ou obrar simplesmente como chefe da Egreja. Elle era uma potencia politica, e as razões de estado influiram nas suas acções. N’esta conjunctura, os interesses do principe italiano oppunham-se á existencia de uma christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou a attenção para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de ser provavel que assim continuasse se as concessões religiosas estabelecessem a união na Allemanha. Quando Carlos venceu a Liga protestante, e procurou obter de Roma concessões que satisfizessem os subditos que havia submettido ao seu dominio, o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento o concilio, e installou-o em Bolonha, na Italia, de modo que os planos do imperador foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para o papa e compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para só se tornar a reunir quando toda e qualquer esperança de reconciliar os protestantes tinha desapparecido, e d’esta vez poude, sem a peia do protestantismo, consolidar a organização externa de um dominio exclusivamente papal.

O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As crueldades de que os principes que tinha feito prisioneiros foram victimas, a infidelidade de que deu prova na perseguição dos protestantes, a despeito de tudo quanto tinha feito proclamar, e as extorsões commettidas pelas tropas hespanholas—tudo isto contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e não faltavam indicios de que o paiz não supportaria por muito tempo a tyrannia de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio, o traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança n’elle.

O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava passando. Estava convencido de que Mauricio, a quem havia nomeado eleitor, estava nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio, a Allemanha não podia fazer coisa alguma. Entretanto, os principes procuravam reunir-se de novo. Offereceram á França uma parte do territorio allemão em troca do seu auxilio, e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do Tyrol, para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes. Mauricio avançou impetuosamente e tomou de assalto a fortaleza de Ehrenherg, que era a chave do Tyrol; e o imperador para escapar teve de recorrer a uma fuga subita, e achou-se em Steiermark, sem exercito, e expulso da Allemanha. Foi a um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas que elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase d’elle.

A paz religiosa de Augsburgo.—Carlos V nunca se resarciu d’este desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia esse facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não quiz entrar directamente em negociações com os principes victoriosos, encarregando d’isso o seu irmão Fernando. Filippe de Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos em liberdade. Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram tambem restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio continuou no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente foram vasados nos velhos moldes de Nürnberg, pelo tratado de Passau, em 1552.

Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo, em 1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de ser permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para sempre». Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu em 1526, isto é, que a suprema auctoridade civil de cada estado tinha liberdade para escolher o respectivo credo, lutherano ou catholico romano. Esta paz, por conseguinte, reconhecia o direito das egrejas com separadas crenças existirem ao lado umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a existencia da Reforma.

O principio a que obedecia este regulamento, cujus regio ejus religio, acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas, e foi, na verdade, uma das causas da guerra dos Trinta Annos, que tão calamitosa foi para a Allemanha. Não concedia liberdade de consciencia; não fazia provisão para qualquer outra fórma de protestantismo além da lutherana; e todos aquelles que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam ainda fóra da lei, juridicamente fallando.

Aquelles que fizeram uso d’ella na Dieta tinham de modifical-a de um ou de outro modo. Os protestantes viram que ella auctorizava os principes catholicos romanos a perseguirem os subditos que o não fossem; e os catholicos viram que ella permittia aos principes ecclesiasticos secularizarem os seus estados. Assim os protestantes obtiveram a inserção de uma clausula que declarava que os subditos protestantes de principes ecclesiasticos, que de ha muito tivessem adoptado a confissão de Augsburgo, não seriam obrigados a abandonar as suas idéas religiosas; e os catholicos obtiveram a inserção do que se ficou chamando «a reserva ecclesiastica», que preceituava que, se algum estado catholico romano se separasse de Roma, fosse destituido de todas as prerogativas que as suas dioceses disfructavam.

Com a paz de Augsburgo terminaram as luctas para o reconhecimento da Reforma lutherana. A egreja protestante da Allemanha, que adheriu á confissão de Augsburgo, tinha ainda que sustentar um grande combate para se defender da contrareforma catholica romana, das intrigas jesuiticas, e da força das armas durante a guerra dos Trinta Annos. Conservou a sua integridade, mas foi só o que fez. A paz de Augsburgo foi a maré cheia da egreja lutherana.

Na lucta que teve logar depois, foi a mais moderna e mais perseverante fórma do protestantismo que arrostou com os impetos do ataque, e que se tornou digna de receber os despojos da conquista. O lutheranismo reteve a sua integridade, consolidou as suas organizações ecclesiasticas, e aperfeiçoou a sua theologia; mas, como vigoroso movimento reformador, a sua historia terminou com a paz de Augsburgo.

CAPITULO II A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA

O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag. 50.—Na Suecia, pag. 51.

O lutheranismo fóra da Allemanha.—Durante os primeiros annos da Reforma, a influencia de Luthero transpoz os limites da Allemanha. A Universidade de Wittenberg attrahiu muitos estudantes estrangeiros, os quaes, voltando para as suas terras, propagaram, clandestina ou abertamente, as novas doutrinas.

Aconteceu d’esse modo que os preliminares da Reforma n’esses paizes, que depois se separaram de Roma e formaram egrejas protestantes nacionaes, foram quasi inteiramente lutheranos. Os primeiros reformadores e martyres dos Paizes Baixos eram lutheranos, e os dogmas doutrinaes e ecclesiasticos de Luthero foram durante muito tempo acatados na Hollanda.

Os movimentos reformadores na Hungria, na Polonia, na Bohemia e na Escocia foram iniciados por homens que se apresentavam como discipulos de Luthero, e mesmo na Inglaterra os principios lutheranos progrediram algum tanto. Em todos esses paizes, porém, foi ganhando, por fim, terreno um outro typo de doutrina protestante, o Calvinismo, e a Reforma lutherana eclipsou-se.

Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as suas dependencias, adoptaram de um modo permanente a confissão de Augsburgo e os principios lutheranos do governo da egreja.

A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer outra parte, identificada com a revolução politica, e foi executada por governantes que se haviam compenetrado de que não era possivel melhorar o estado das coisas emquanto não fosse abatido o poder de que o clero romano dispunha. A historia da Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a moderna vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a reforma das suas egrejas.

No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e a Noruega estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua residencia no primeiro d’estes paizes, e que tinha sobre os outros dois um poder apenas nominal. Estes paizes estavam quasi n’um estado de anarquia. Duas grandes aristocracias, a da nobreza e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e o poderio, sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade. A união das tres nações, effectuada no fim do seculo quatorze, era puramente dynastica, e vista com muito maus olhos pelo povo.

Em 1513 subiu ao throno Christiano II, cruel, voluvel e nescio monarca, que grangeara em ambos os paizes a antipathia de todas as classes. Um massacre de fidalgos suecos, que teve logar em Stockolmo, em circumstancias as mais revoltantes, exgotou a paciencia do povo, e a Dinamarca e a Suecia levantaram-se contra o tyranno. A revolução foi bem succedida; Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações ficaram de ahi em deante independentes uma da outra.

Na Dinamarca.—Os dinamarquezes offereceram a corôa a Frederico I, duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente lutherano, e chefe d’um estado que já tinha acceite a Reforma. Acceitou-a, e por occasião da sua coroação o clero obrigou-o a declarar por escripto que não introduziria á força a religião reformada, nem atacaria a egreja de Roma, nos seus novos dominios. Frederico cumpriu essa obrigação segundo a letra, mas não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu prégadores e evangelistas lutheranos, e em particular a João Jansen, frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; e a nova fé fez taes progressos que dentro em pouco quasi todos os nobres da Jütlandia a tinham abraçado, e nas ilhas o numero de adeptos era consideravel. Em fins de 1527 reuniu-se em Odensee uma Dieta, expressamente para ser tratada a questão religiosa, e ficou assente a tolerancia do lutheranismo. Durante os annos que immediatamente se seguiram, as novas doutrinas espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do fallecimento de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e a auctoridade dos bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, até se extinguir de todo. Os nobres haviam cooperado com o rei na sua obra de demolir a aristocracia ecclesiastica, e as terras que eram da egreja ficaram, na sua maioria, pertencendo ao rei.

A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. O seu credo é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos nunca adoptaram, na Dinamarca, a formula da concordata; o seu catecismo é o de Luthero; e sua fórma de governo de egreja, posto que admitta um episcopado, é consistorial. A constituição vem exposta no Ordinatio ecclesiastica regnorum Danicæ et Norwegeæ, de Bugenhagen. O rei possuia o jus episcopale, e era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os patronos; e a Egreja era governada por sete superintendentes com o titulo de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o catholicismo romano no seculo dezessete, a chamada guerra dos Trinta Annos, a Dinamarca enviou aos protestantes da Allemanha todo o auxilio de que o paiz podia dispôr.

Na Suecia.—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo Vasa, joven fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido, praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos; o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos.

N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio da Reforma lutherana.

Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso, perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava, acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas, nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles, se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força.

É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos. Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores lutheranos, que já andavam pela Suecia.

Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado em Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado contra um certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado no seu paiz, foram perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, onde Gustavo travou conhecimento com elles. Elles e um outro lutherano sueco, Lourenço Andersen, arcediago de Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei, e começaram a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações, contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf Petersen, sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando o Evangelho puro, «que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara na Suecia setecentos annos antes.».

Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta o reformador desafiou-os para uma polemica, que elles não acceitaram. O resultado d’isso foi uma rapida propagação das doutrinas evangelicas. Gustavo poz Olaf Petersen como prégador em Stockholmo, Lourenço Petersen foi leccionar para Upsala, e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do reino. Promoveram-se polemicas publicas, segundo o costume allemão, em diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o dr. Galle de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da justificação pela fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, do celibato e do poder temporal do papa, o que foi assaz vantajoso para a causa da Reforma.

Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento em sueco, e o povo, em cujas mãos o livro foi entregue, poude então comparar o ensino dos prégadores e dos bispos com o da palavra de Deus.

A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se sentir de uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, por duas Dietas, pesadas contribuições sobre as propriedades da Egreja. O partido ecclesiastico, com os bispos á frente, promoveu uma revolta, que foi suffocada, e Gustavo conheceu que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus planos. Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada ao pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em deante as receitas em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram este alvitre; os clerigos declararam que só á força cederiam. Vendo isto, Gustavo, apoz um eloquente discurso, abdicou. Os diversos estados pozeram-se então em contenda uns com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns dias, assentiu-se na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei e publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio da historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras coisas, que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e cidadellas dos bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; e ficou egualmente reconhecida a existencia legal da egreja lutherana.

D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu rapidamente, e dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião official do paiz. Os bens da Egreja foram confiscados para o Estado, deixando-se, porém, ficar o sufficiente para a sustentação do culto. Conservou-se a fórma de governo episcopal, mas ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do rei, como na egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das velas, mas tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen foi o primeiro arcebispo protestante de Upsala, cargo que começou a exercer em 1531. Dez annos depois, isto é, em 1541, ficou completa uma nova traducção da Biblia, feita pelos irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz estava inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em 1664, a Formula da Concordata.

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