II PARTE A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS
J. S. Canuto translation
Capitulos:
I —A Reforma Suissa sob Zwinglio.
II —A Reforma em Genebra, sob Calvino.
III —A Reforma em França.
IV —A Reforma nos Paizes Baixos.
V —A Reforma na Escocia.
CAPITULO I A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO
As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa, pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os Cantões Florestaes, pag. 64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.
As reformas suissa e allemã.—A Reforma na Allemanha tem geralmente chamado mais a attenção do que a revolta contra Roma na Suissa. O conflicto com o imperador, que ella provocou, o seu rapido alastramento, o numero de estados e reinos que adheriram a ella, a parte que as universidades, onde estavam matriculados muitos estudantes estrangeiros, tomaram no movimento, tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; mas, se devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias do que pelos seus principios, o movimento começado na Suissa foi ainda mais importante do que o que teve Wittenberg por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se reconhecendo que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes dizia respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja, podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de ahi veiu que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e uma grande parte das da Allemanha receberam melhor as tradições de Zwinglio e de Calvino do que as de Luthero e de Melanchthon.
Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos da Reforma no sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se ás tradições, tanto doutrinaes como de qualquer outro genero, da egreja medieval, mesmo em assumptos que para algumas pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob o ponto de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que se referem aos pequenos casos como aos de muita importancia. Nem Zwinglio nem Calvino queriam adoptar a doutrina da presença real pela razão de a egreja medieval a ter adoptado, e não experimentaram aquella dificuldade que Luthero teve sempre em fazer uma coisa de um modo differente de aquella em que os seus antepassados a faziam.
É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que tivesse a mesma força, e que essa razão se deva procurar nas idéas politicas e na educação do povo suisso. Na egreja medieval os direitos dos christãos tinham desaparecido inteiramente. Quando alguem fallava em egreja, referia-se ao papa, aos bispos, aos abbades, aos frades, ás freiras e aos padres; não se referia á grande corporação dos christãos piedosos, que constituiam, realmente, a egreja de Deus.
Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.
Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo, que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu, indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas universidades e nas côrtes dos principes allemães.
A situação politica da Suissa.—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam. Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes, ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma d’ellas com um systema governativo differente.
Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.»
Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes, todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres.
Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos. O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja.
No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada. As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo, na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida.
Ulrico Zwinglio.—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da Suissa.
Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo, pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de Wesen.
O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa, e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens.
Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes de ouvir fallar no seu nome».
Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.» Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto, e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja medieval, torturando-se com jejuns e flagellações.
Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem, a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e, tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519, para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.
Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado.
A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém, era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse sentido.
A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo, durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja. Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras, nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores, escrevia Zwinglio o seu Apologeticus, vigoroso ataque ás corrupções da egreja.
O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou, para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523.
As theses de Zwinglio.—A fim de separar convenientemente os assumptos a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto, e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões, com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir, esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe. Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular, a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente ecclesiasticas.
Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas.
Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em 1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio.
A Reforma em Zurich.—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida, e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia.
Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto vivessem.
A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich. As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes, constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas. O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar, proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como anteriormente.
A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes como Basiléa, Berne, Schaffhausen e Appenzell.
Basiléa era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de Basiléa.
A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel começaram a prégar contra a superstição.
Berne, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas.
Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa.
Os cantões florestaes foram os unicos que se conservaram aferrados ás suas antigas tradições, constituindo um centro de opposição a toda e qualquer mudança em materia de religião. Quando a Reforma começou a mostrar um indiscutivel progresso, não só em Zurich como nos outros cantões, e Berne e Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se uma tal exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, em ambos os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava a esperança de que tudo se liquidasse rapidamente e de uma maneira decisiva. Ao primeiro recontro, porém, não se poude dar o nome de batalha, e os cantões florestaes, sem terem combatido, assignaram o Tratado de Cappel em 1529, cuja clausula principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé não são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser justo, e tanto nas provincias communs como nos territorios independentes as congregações determinarão se a missa e outras usanças devem ser conservadas ou abolidas.»
Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum dos partidos, e deu logar a novas contendas, que terminaram com a vinda subita dos Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo exercito derrotaram, ficando Zwinglio morto. Esta victoria não deu um grande avanço á causa romanista. O segundo Tratado de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o primeiro, e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.
Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.—Com a morte de Zwinglio termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle morrer, a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de Luthero por uma constituição popular na egreja, mostrou claramente que na Reforma tinha de haver dois movimentos distinctos, que jámais se poderia unificar. Esta falta de união foi causa de um grande prejuizo, e as culpas não devem ser atiradas para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero. Ambos tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos principios evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, em comparação de tudo aquillo em que concordavam. O feitio caracteristico da Reforma de Zwinglio, porém, torna-se muito mais manifesto na sua ultima fórma sob Calvino, e é referindo-nos a esse periodo que a vamos comparar com o movimento lutherano.
Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma fizeram muito pouco no sentido de resolver uma questão que em breve tomou na egreja reformada uma importancia capital: a maneira como a egreja tinha de ser governada. Para elle era um ponto indiscutivel a necessidade de ter sempre presente no espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma de homens que podessem ser chamados espirituaes, simplesmente pelo facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava era que todos se compenetrassem do sacerdocio espiritual de todos os crentes, ministros ou leigos. Mostrou tambem que era dever de todos os magistrados administrar em nome de Christo e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e verdadeiras idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios civis da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos respectivos ao culto publico, ás doutrinas e á disciplina da egreja foram feitos, no tempo de Zwinglio, pelo Conselho de Zurich, que era, n’aquelle estado, o supremo poder civil. Esta sua idéa, mesmo durante a vida d’elle, apresentou muitos inconvenientes, sendo um dos mais manifestos a ligação que se formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam ter, como o antigo reino de Israel, governos theocraticos. Se as idéas de Zwinglio tivessem continuado a prevalecer, não é provavel que a Reforma suissa tivesse exercido o poder que exerceu para além das fronteiras da republica; posto que, sob a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem facilmente a um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter applicado a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma pequena egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia contra um governo secular que lhe fosse hostil.
CAPITULO II A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO
Genebra perante a Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag. 68.—A mocidade de Calvino, pag. 69.—Institutos da Religião Christã, pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua expulsão, pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag. 76.—As Ordenanças ecclesiasticas, pag. 77.—Em que differem dos Institutos pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, pag. 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe Beza, pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, pag. 83.—A Confissão de Zurich, pag. 84.
Genebra perante a Reforma.—Depois da morte de Zwinglio e da segunda Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação.
Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam quasi constantemente em guerra.
Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen», isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante francez, os huguenotes.
A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida. Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em Genebra.
Farel em Genebra.—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532, veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço; os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu respeito opiniões desencontradas.
Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra; Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador. Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse. Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne, que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o prégar, e a Reforma foi avançando.
O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em 1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os reformadores.
O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se, nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas, destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil, não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida, muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse. Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as egrejas reformadas da Europa.
A mocidade de Calvino.—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos, a carreira ecclesiastica.
Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente se celebrizou, Ignacio de Loyola.
Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a ordenar-se, nem fez voto de celibato.
Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito, estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira juridica.
Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou, em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio ao assombroso Commentario ao Livro dos Psalmos diz-nos que Deus o attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou a uma brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos, e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a partilhar os perigos que ella corresse.
Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa, para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada.
Os Institutos da Religião Christã.—Na primavera de 1536 publicou em Basiléa a primeira edição dos seus Institutos da Religião Christã. A obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de 1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival. Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o caracter da Reforma Protestante.
Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse, e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «A Sua Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João Calvino deseja paz e salvação em Christo». E ajuntava: «Exponho-vos a minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora, por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da superficie da terra».
Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á Egreja Catholica de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os romanistas.
Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seus Institutos é necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica, quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas que fizessem a seguinte profissão de fé: «Creio em Deus Pae, e em Seu Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo, sendo esta a mais antiga e mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas palavras: e na Santa Egreja Catholica. Estas quatro orações eram proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas, que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança em Deus acompanhada de adoração.
Os Institutos de Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz: «Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja Catholica, e da sua natureza e distinctivos.
A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu tratado sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus. Nunca lhe acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que, conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do paganismo. A Reforma, dizia-se nos Institutos, não engendra opiniões novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a sua pureza, as verdades antigas.
Calvino em Genebra.—A publicação dos Institutos fez com que Calvino se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel.
Diz elle no prefacio ao seu Commentario sobre o Livro dos Psalmos: «Como o caminho mais direito para Strasburgo, para onde tencionava retirar-me, estava impedido por causa da guerra, tinha resolvido passar rapidamente por Genebra, demorando-me na cidade uma noite apenas.... Sabedor d’isto, Farel, que trabalhava com extraordinario zelo para que o Evangelho progredisse, empregou logo os maiores esforços para me deter. E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder entregar-me socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, portanto, predisposto para qualquer outro encargo, elle, perdida a esperança de conseguir qualquer coisa por meio de rogos, começou com imprecações, invocando a maldição de Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a tranquilidade, se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. Ouvindo estas suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti da viagem que projectava.»
Calvino tinha vinte e sete annos e Farel quarenta e sete, quando começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante a differença das edades, tornaram-se amicissimos um do outro. «Tinhamos um coração e uma alma», diz Calvino. Farel apresentou-o aos conselheiros da cidade. Principiou a sua obra fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente se reconheceu que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta nomeou-o pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á grave tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que elle redigiu os artigos de fé e os regulamentos para o governo da Egreja, tendo antes d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada a Genebra, escripto um catecismo para a infancia. A obra dos reformadores foi approvada pelo conselho da cidade, e esta, pelo que dizia respeito a todos os seus aspectos exteriores, adoptou por completo a religião reformada.
Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu tambem, que o de que Genebra necessitava era uma reforma moral. A cidade era o mais que podia ser de dissoluta, e havia muito tempo que permanecia n’aquelle estado. Os que durante muitas gerações tinham estado á testa dos negocios publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis contra o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo quinze, apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez, as mascaradas, as danças e o luxo no vestuario; e, examinando os documentos judiciaes, encontram-se referencias a condemnações por infracções d’essas leis, commettidas muito antes de Calvino ter fixado lá a sua residencia.
Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam Calvino de ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos, leis votadas no parlamento. Calvino não fez essas leis, nem ha evidencia de elle as considerar muito importantes. Era, porém, de opinião, que sustentou sempre com toda a firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral, cujas acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão christã, não se devia permittir que participassem da solemne instituição da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr não tardou em indispôl-o com os habitantes de Genebra.
Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram, por fim, exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente da Mesa do Senhor os commungantes indignos. Os magistrados, que estavam sempre promptos a promulgar leis restrictivas do vicio, e até mesmo do viver faustoso, não quizeram consentir em que se pozesse em execução esta ordem de quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o pulpito ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes não se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram a uma multidão excitada e armada, recusando administrar á congregação a Ceia do Senhor, para evitar que esta fosse profanada.
No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar a conducta de Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados de pretender usurpar o poder mediante os seus regulamentos ecclesiasticos, entre os quaes figuravam o da abolição de todos os dias santos, excepto o domingo, e o do desuso da pia baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor.
Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos, pois que o proprio Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente que as coisas que atraz mencionamos fossem ou não postas em pratica. O que os realmente predispunha contra Calvino e Farel era a supposição em que estavam de que elles pretendiam estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam conservar nas suas mãos, não só a administração civil como a disciplina da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e Farel serem expulsos da cidade, não pelos papistas, mas por aquelles que até ali tinham contribuido para o avanço da Reforma.
O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses ter ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino revela uma grande differença entre os dois ramos da Reforma, o reformado, ou calvinista, e o lutherano. Calvino mostrou ter, desde o inicio da sua carreira, noções muito claras ácerca da disciplina da Egreja e do direito que a communidade christã tinha de se governar a si propria em assumptos espirituaes e do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja tinham de excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos de participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas idéas, mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou o modo como a superintendencia era exercida, limitando-se a transferil-a das mãos dos bispos para as das auctoridades civis; e o effeito pratico, posto que não premeditado, d’isto foi ficarem sendo os magistrados os que arbitravam se esta ou aquella pessoa devia ou não approximar-se da mesa do Senhor. Calvino, por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para ter uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso de ser admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os privilegios da mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos espirituaes e punil-os mediante a perda dos sacramentos.
Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra coisa além de que a disciplina da Egreja fosse exercida pela propria Egreja, representada pelos seus officiaes. Calvino, logo no começo da sua carreira, proclamou a independencia da Egreja em assumptos espirituaes, taes como a admissão á mesa do Senhor e a exclusão d’ella.
Calvino é expulso de Genebra.—Expulso de Genebra, Calvino foi para Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente tres annos, ministrando a uma numerosa congregação de refugiados francezes, e occupando-se com trabalhos litterarios. Strasburgo tinha sido um logar intermediario entre a Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi conhecimento com muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade com Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em Francfort, Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou com Idelette de Bure, viuva de João Storder. Idelette era uma senhora muito temente a Deus e muito instruida, e teve, do seu casamento com Calvino, tres filhos, que morreram todos na infancia. Calvino não se refere muito, na sua correspondencia, á sua vida domestica, mas as cartas que escreveu a alguns amigos muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e do fallecimento dos filhinhos demonstram que no peito do austero e ceremonioso francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.
Genebra não pode passar sem Calvino.—No entretanto, Genebra continuava agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam longe da cidade, mas o povo sentia a necessidade da sua presença. Não havia agora ali uma influencia que a todos dominasse, e as coisas caminhavam de mal para peior. Calvino tinha dito que a infidelidade tinha por origem a depravação a que elle se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos começaram a ver o quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens sociaes iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo á frente o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo ao papismo; os anabaptistas, inimigos de toda a organização ecclesiastica e social, os libertinos, os livres pensadores, todos luctaram por obter o predominio em Genebra, e por fim a população começou a sentir-se cançada de aquella tumultuosa situação e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados ministros.
A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. Elle ao principio recusou. «Não ha localidade que me aterrorize tanto como Genebra», escreveu elle a um amigo. Continuaram, porém, a instar com elle para que voltasse; muitos dos amigos que elle tinha entre os reformadores francezes e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos genebrenses, e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram côro com elles. Condescendendo finalmente, regressou a Genebra.
Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com jardim situada nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o ministro e professor de theologia, e fixaram-lhe um estipendio annual de quinhentos florins, doze medidas de trigo e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que na Egreja de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica, pois que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que tivera com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em manter o direito que á Egreja assiste de velar pela sua pureza. Voltou triumphante a Genebra, e foi recebido com as mais extravagantes manifestações de regozijo. Foi mais uma vez desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla vida litteraria, e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se inteiramente á causa publica.
Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo dizem, durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores teem-n’o comparado a individualidades de indole muitissimo differente. Segundo uns, foi o Lycurgo de Genebra; segundo outros, um dictador romano, ou um novo Hildebrando, ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma grande obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de estar quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça e de asthma.
Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias dava aula. Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, compoz tratados theologicos, e tinha sempre que attender a uma immensa correspondencia. Era elle quem dirigia a Egreja reformada em toda a Europa, e, segundo a idéa de muitas pessoas, era, por assim dizer, omnipotente em Genebra, tendo sido attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus resultados da chamada theocracia genebrense.
É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra o caracter da cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais frivola e mais devassa de todas as cidades europeas, tornou-se o berço do puritanismo, tanto francez, como hollandez, como inglez, como escocez. As danças e mascaradas passaram a ser coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro estavam sempre ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de conferencias se enchiam até á porta.
As ordenanças ecclesiasticas.—O que effectuou tudo isto foram as famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, e o modo em que ellas foram applicadas pelos magistrados. Estas ordenanças eram, segundo as poucas palavras do preambulo, o «regimen espiritual, que Deus ordenou na Sua Egreja, e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado na cidade de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas presbyteriannas.
Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies ou graus de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus para o governo da mesma, e os que os exercem são chamados pastores, professores, presbyteros e diaconos.
Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes e bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, e, conjunctamente com os presbyteros, exercer a disciplina; eram geralmente escolhidos pelos ministros em exercicio, e nomeados pelos magistrados, com o consentimento do povo; tinham de dar contas dos seus actos nas conferencias que para esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e eram, outrosim, responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.
Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da universidade e os mestres das escolas. Os presbyteros tinham a seu cargo a disciplina. Não eram eleitos pela congregação, mas, sim, nomeados pela junta da cidade, com previa consulta dos pastores; e todos elles tinham de ser membros das juntas. Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita annual a toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja.
A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores constituia o Consistorio, que era o conselho executivo e legislativo da Egreja. O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob a presidencia de um dos quatro syndicos, ou primeiros magistrados, de Genebra, afim de receber e examinar todos os documentos relativos a irregularidades na vida e na conducta de quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena ecclesiastica a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até á exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir qualquer censura ou castigo que não fosse espiritual, mas tinham obrigação de participar todos os delictos á auctoridade civil, que era a unica que tinha o direito de punil-os. Todos os presbyteros eram escolhidos pela junta, e tinham de ser membros d’ella, resultando de ahi que os magistrados genebrenses que tomavam assento no consistorio na qualidade de presbyteros recolhiam as informações relativas a factos criminosos e transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na junta na qualidade de magistrados.
Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram egualmente nomeados pela junta.
O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes, com os principios que Calvino expoz nos seus Institutos, mas differe d’elles em tantos detalhes importantes que se torna impossivel acreditar que todo elle fosse obra do Reformador.
Nos Institutos expoz Calvino com a maxima clareza quaes são os verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos. Prova que Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida mediante a Sua Egreja, e que para a edificação da Egreja proveu uma variedade de dons, que não são concedidos indescriminadamente a todos os christãos, sendo limitado o numero d’estes que os teem recebido em maior escala. Estes dons podem ser classificados em tres categorias, instrucção, governo e caridade, ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina, disciplina e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos seus membros teem um talento especial para instruir, outros para dirigir, e outros para tomarem conta das collectas e da distribuição do dinheiro. Deus conferiu estes dons, e collocou na Egreja homens capazes de os exercerem, para edificação do Seu povo, e, por consequencia, as funcções que se desempenham na Egreja são de caracter ministerial e não tendem a exaltar pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis perante esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino insistiu muito na verdadeira natureza e valor do presbytereado, que elle considerava a mais efficaz barreira contra a conquista de uma supremacia sobre a Egreja, como aquella que tinha sido uma das mais censuraveis usurpações da Egreja de Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo methodico sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade christã pode conservar-se livre da usurpação do poder e da tyrannia ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente representativo, isto é, livremente escolhido pelos membros da congregação. Calvino affirmou tambem, com muita insistencia, que este governo era espiritual, e que só lhe pertencia julgar as infracções espirituaes e infligir castigos espirituaes. O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão.
As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos principios expostos nos Institutos.—Calvino combateu sempre energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a jurisdicção ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar completamente separadas uma da outra. Nas Ordenanças não se mantem esta separação. A censura do consistorio era de continuo seguida, como veremos, de multa, de desterro, e, até, de morte; quando, segundo a theoria de Calvino, só castigos espirituaes se devem seguir a offensas espirituaes. Os anciãos que exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados pelos magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis os que já fossem membros de uma organização politica. Os direitos da communidade christã eram praticamente desprezados, posto que Calvino houvesse declarado que o poder ecclesiastico pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes. A junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu veto; escolhia d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente os diaconos.
Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era devida aos magistrados de Genebra, que assim procediam em opposição aos desejos do Reformador. Sentia-se especialmente molestado com o modo como eram escolhidos os presbyteros, e declarou que não considerava as Ordenanças um plano perfeito de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente, porém, que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e acceitou-o, alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado. Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o considerava um modelo que podia ser copiado n’outros logares, e exprimiu a esperança de que Genebra, situada na fronteira da França, da Allemanha e da Italia, incitaria esses paizes a uma Reforma de caracter, perfeita e permanente.
Não obstante, os pontos em que as Ordenanças divergiam dos principios que Calvino expoz nos seus Institutos deram occasião a esses caracteristicos do governo genebrense que mais teem sido reprovados pelos historiadores. É fóra de duvida que a corrupção moral que predominava em Genebra foi combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo a ser crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos, bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas as Ordenanças Ecclesiasticas as leis foram applicadas com um rigor anteriormente desconhecido.
O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras, e eram-lhe fornecidas informações ácerca da maneira como o povo se comportava; e essas informações eram communicadas á junta, ou conselho, que era o mesmo Consistorio, mas revestido da auctoridade civil. Eram prohibidos os divertimentos ruidosos, os jogos de azar, as danças, as canções profanas, as pragas e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa ás nove horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio era punido com a morte. Uma creança que atirou com umas pedras á mãe foi publicamente açoitada, e depois suspensa do patibulo pelos braços. Foram abolidas todas as folganças que tinham logar por occasião dos casamentos; os cortejos deixaram de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á scena peças biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de romances, e o auctor de qualquer obra que desagradasse ao Consistorio era mettido na prisão. Era preciso o maximo cuidado com o que se dizia, chegando as coisas a tal ponto que os hoteleiros eram obrigados a referir as conversas que os seus hospedes tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de se servir, a benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um certo individuo foi castigado por não comer carne á sexta-feira.
É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos, de uma desnecessaria severidade. Muitos historiadores teem affirmado que elle dispunha de todo o poder em Genebra, e que poderia ter evitado muita coisa se quizesse. Elle era francez, e nenhuma nação tem como a França apresentado, em epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino não tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava os tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil para que a certas offensas espirituaes fosse applicada multa, prisão ou execução capital, com o fundamento de que constituiam crimes contra a ordem e a paz da sociedade. Calvino acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que chamava á liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e trabalharam para que ella fosse posta em pratica, em detrimento da reforma da egreja de Inglaterra. Não só Calvino como todos os principaes reformadores approvaram a morte de Servetus pelo motivo de haver negado a doutrina da Trindade e apresentado blasphemas asserções em defeza da sua opinião. Tudo isto tem de ser admittido.
As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.—Devemos lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria preciso para obter uma reforma de costumes n’uma cidade tão immoral e tão turbulenta como Genebra.
A Reforma, justamente porque era um protesto contra o então existente estado de coisas, teve de navegar contra a corrente do mal, que ella propria provocou. É-nos quasi tão impossivel comprehender o perigo dos excessos anabaptistas e outros como comprehender a corrupção moral da epoca em que o christianismo surgiu e se propagou. Professava-se o libertinismo pantheistico como se fosse um credo, e os documentos litterarios do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu deante de si em Genebra foi uma indulgencia para tudo quanto fosse immoral, indulgencia que a propria religião prescrevia, visto tratar-se de uma coisa natural. Era este o lado sombrio da Reforma, para o qual não era agradavel olhar, mas que existia, e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o procedimento do conselho de Genebra ou o de Calvino.
O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a decima parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os principes da Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, e aos seus cabeças, os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento causado pela paixão cega, quer provenha do medo quer provenha do odio, tem, o que é coisa curiosa, sido sempre olhado com maior brandura do que o soffrimento que é infligido no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.
Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino fosse menos omnipotente em Genebra do que se suppõe ter sido. A um francez, e de mais a mais logico como elle era, custa a attribuir as incoherencias que se notam entre os Institutos e as Ordenanças Ecclesiasticas. É preciso não esquecer que o que tornou possiveis estes castigos que teem sido tão condemnados foram aquelles pontos das Ordenanças que não eram da responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira causa do mal era a relação que havia entre o consistorio e o governo civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas camaras municipaes se constituia uma vez por semana em commissão zeladora da moralidade publica. Não se sentiriam escandalizados os vereadores se os casos que elles apresentassem á commissão, e que mereciam a reprovação d’ella, ficassem impunes? Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos de toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? Não se deve attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, ou mesmo ao conselho de Genebra. Surgiram naturalmente das tres vezes abominavel mistura da direcção dos negocios seculares com a direcção dos negocios espirituaes, que constitue habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem precaver.
A morte de Calvino.—Durante a residencia de Calvino em Genebra, foi esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. Os magistrados fundaram uma universidade, cujo primeiro reitor foi Theodoro Beza, e as suas aulas foram, durante o primeiro anno, frequentadas por oitocentos estudantes. Procuraram refugio na cidade, onde receberam um excellente acolhimento, numerosissimos protestantes italianos, francezes e escocezes. «Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas suas cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia que exercia. Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os huguenotes da França, os reformadores de Inglaterra, a congregação escoceza, e os dirigentes da Reforma na Allemanha.
Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se do excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou o seu ultimo sermão no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a 27 de maio do mesmo anno, contando cincoenta e cinco annos incompletos.
Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto de si os syndicos, ou primeiros magistrados de Genebra, e em seguida todos os ministros. Prohibiu que sobre a sua sepultura se erigisse qualquer monumento, acontecendo, d’esse modo, que se desconhece o sitio onde foi enterrado.
Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz proeminente, testa elevada, e olhos que em dadas occasiões chammejavam. Trajava sempre com o mais escrupuloso esmero, e alimentava-se muito sobriamente.
Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação e pelo temperamento; grande observador de todas as regras da etiqueta, sentia-se muito mais á vontade no meio das pessoas de posição do que no meio do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado frio e insensivel, mas o que é facto é que os seus amigos e contemporaneos se referem sempre a esse frio, timido, austero e polido francez em termos os mais affaveis e respeitosos; e os mancebos davam-se perfeitamente com elle.
Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de Calvino com um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o haverem estudado, descobrem que a sua antipathia se transformou em affectuosa admiração. Como será sufficiente um exemplo, vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle:
«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem ter sido vasados de um só jacto n’um molde, e que se estudam por meio de um simples olhar; uma carta das que escrevam, um acto dos que pratiquem, é o bastante para se fazer um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem com titulos, nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver, apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço outro homem que podesse rivalisar com elle n’estes raros predicados. É surprehendente como um homem cuja vida e cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas sympathias, se tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as suas palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter uma tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos. Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distinctas do seu tempo, Renée de França, que no seu palacio de Ferrara se via cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse captivar por aquelle severo doutrinador, enveredando, por sua influencia, n’uma senda que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. Sem manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem dos outros, que foi o que assegurou a Luthero o bom exito dos seus trabalhos, sem possuir o encanto, a perigosa, posto que languida, doçura de S. Francisco de Sales, Calvino saiu victorioso, n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava uma reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o maior christão do seu tempo».
Beza, o successor de Calvino.—Theodoro Beza succedeu a Calvino em Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha adquirido; e até ao meiado do seculo dezesete a voz de Genebra foi a que as numerosas egrejas protestantes escutaram com maior acatamento.
A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.—Sob a influencia de Calvino, desappareceram as differenças theologicas que havia na Suissa, e todas as egrejas que se chamavam reformadas adoptaram um typo de doutrina. Estas egrejas não tinham, como as lutheranas, um Catecismo e uma Confissão, mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas uma perfeita unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar entre os credos das egrejas que se chamam do seu nome, mas a sua influencia em toda a parte se manifesta. Elle vive novamente, na obra dos seus discipulos.
Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com o assumpto de que nos estamos occupando são o Catecismo para a Infancia e a Confissão de Zurich.
O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar a instrucção religiosa das creanças, que tão lamentavelmente havia sido descurada pelos romanistas. Calvino, para a confecção do seu catecismo, serviu-se do Credo dos Apostolos, dos Dez Mandamentos e da Oração Dominical. Tiveram origem n’elle dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o de Heidelberg, que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve Catecismo da Assembléa de Westminster.
A Confissão de Zurich foi muito proveitosa, porque uniu as Egrejas Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo facto de reconciliar n’uma mais profunda unidade as opiniões de Luthero e de Zwinglio. Poz de parte a metaphysica medieval com que Luthero havia sobrecarregado a sua theoria, e ao mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio e dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.
Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: «Os sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou somos implantados no corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, nos ligamos a Elle cada vez mais, até que seja perfeita a nossa união com Christo, na vida celestial».
A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente visivel na geração de protestantes que ella educou e enviou a combater com o romanismo. «N’uma occasião em que a Europa», diz Haüsser, «não podia mostrar solidos resultados da reforma, este pequeno estado de Genebra erguia-se como uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos para todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas, e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os missionarios provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam o elevado e intrepido espirito que procede de uma estoica educação e adestramento; tinham o cunho da abnegação e do heroismo, que em toda a parte era absorvido pela estreiteza theologica. Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo, separando-o da velha e tradicional auctoridade monarquica, e fazendo com que elle adoptasse o evangelho da democracia como parte do seu credo.... Genebra dictou um pequeno trecho da historia universal, trecho que constitue a parte de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem orgulhar. O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes homens possuiam almas fortes, caracteres de ferro vasados n’um molde em que havia uma mistura de elementos romanos, germanicos, medievaes e modernos; e as consequencias nacionaes e politicas da nova fé foram por elles defendidas com o maximo rigor e coherencia.»
A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. A pequena republica de Genebra uniu primeiro a Reforma suissa, e em seguida deu os caracteristicos distinctivos aos movimentos reformadores da França, da Hollanda, da Escocia, da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande parte da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito, tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o reformador de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão insensivel, tão frio, tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica tão desapiedada, foi o reformador de uma grande parte da christandade. A Reforma suissa passou muito para além da Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França, da Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.
CAPITULO III A REFORMA EM FRANÇA
Principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag. 89.—A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma, pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos placards, pag. 92.—O Vaudois da Durance, pag. 92.—Henrique II e os Guises, pag. 93.—Organisação da Egreja Reformada, pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag. 96.—O primeiro Synodo Nacional, pag. 97.—Anne de Bourg, pag. 98.—O massacre de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros, pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto de Nantes, pag. 110.
Principios da Reforma em França.—Antes da Reforma se ter tornado em França um grande e importante movimento, appareceram dois typos da cristandade reformada, sellados com as individualidades de dois homens: Luthero e Calvino, o Pedro e o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em seguida teve de ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando Wittenberg em segundo plano, que se mostrou em condições de se defrontar com Roma. A dupla corrente da Reforma partiu d’estes dois centros para toda a Europa, mas nos terriveis combates que se travaram a feroz democracia do Calvinismo poude desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante conservantismo do movimento lutherano. A historia do progresso da Reforma fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia do calvinismo, e do triumpho das idéas calvinistas. Foi assim em França.
Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, datam de uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. Havia no sul e no sueste, no fim do seculo quinze e no principio do seculo dezesseis, uns taes ou quaes vestigios dos velhos albigenses; e os valdenses mantiveram-se, e foram protegidos, em virtude de antigos tratados, durante as perseguições dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se distinguido sempre pela sua opposição ás reivindicações da côrte pontificia e do papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma grande decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a Egreja franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade de Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou a parte principal na convocação dos concilios reformadores de Pisa, Basiléa e Constancia, e no refreamento da curia romana. A Egreja franceza tinha-se sempre opposto energicamente ao ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica de Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer outro ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que a França, em vista da sua historia passada, tomasse a iniciativa de um movimento reformador. A Reforma, porém, que as summidades ecclesiasticas promoveram no seculo quinze não foi uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião espiritual. Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.
Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, a mesma immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia que desacreditou a Egreja medieval do seculo dezeseis na Allemanha e na Italia; o inicio da Reforma em França proveiu do despertamento das lettras e da leitura das Escripturas nas linguas originaes.
Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, onde o bispo, Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade de reprehender a immoralidade monastica, e que o povo anhelava por um verdadeiro ensino religioso. Elle tinha ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de Etaples, e da perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da Sorbonne por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e ao seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo de Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem e prégarem debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, em 1523, uma traducção do Novo Testamento em francez, e o povo comprou o livro e leu-o com soffreguidão.
Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet n’outro tempo lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e de favorecer herejes. No meio da tempestade que então se levantou, o bispo perdeu a coragem. Farel fugiu para Strasburgo, seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro prégador, e a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém, que possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na memoria os sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé evangelica. Alguns crentes tiveram de soffrer o martyrio, mas o fermento espalhou-se, ainda que occultamente, por toda a França.
Francisco I.—O rei de França, n’esses primeiros annos da Reforma, era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os seus Institutos da Religião Christã. Enthusiasta, e dotado de alguma intelligencia, havia saudado a revivificação das letras, protegeu Lefévre durante o tempo em que este sabio residiu em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que mantinha com homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus. Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a sua ambição era que o considerassem como tal; a universidade de Paris havia-lhe merecido uma especial attenção, e interessou-se tambem immenso na famosa maquina de impressão inventada por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu algumas poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde rainha de Navarra, foi uma das mais espirituosas conversadoras e uma das mais brilhantes escriptoras do seu tempo. Francisco não sympatizava nada com o desleixo e ignorancia de muitos dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente, considerava o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com a estupidez. Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo a auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que ambicionava brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer a absoluta supremacia do soberano. Não sympatizava com o caracter profundamente espiritual da Reforma, e as suas necessidades politicas não tardaram a prevalecer sobre o seu amor pela instrucção.
A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.—A independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de França em opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção Pragmatica de Bourges, que definia as liberdades das egrejas nacionaes de uma maneira clara e energica. Declarou que o papa estava sujeito a um concilio ecumenico, e que este concilio se devia reunir de dez em dez annos. Declarou que todos os provimentos de elevados cargos ecclesiasticos, taes como os bispados e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não por designação do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto pode abranger tanto os innocentes como os culpados. A Sancção Pragmatica tinha sido sempre cuidadosamente defendida pela Egreja franceza, e pela maioria dos soberanos de França. Era intensamente abominada pelos papas, e não podia ser olhada com muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia do throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia do povo. Francisco comprehendia que, se podesse collocar a Egreja debaixo do seu dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao absolutismo. Entendeu-se, portanto, com o papa, e trocou a Sancção Pragmatica por uma Concordata, que foi, no futuro, uma grande desgraça para a França.
Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios dos Concilios reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu em que o papa ficasse com direito ao Annates, isto é, o vencimento relativo ao primeiro anno de todos os beneficios que eram providos, concedendo o papa, em troca, que a nomeação de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do rei. Por outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel somma de dinheiro; e o rei de França era praticamente, dentro do seu reino, o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos os arcebispados, bispados, abbadias e priorados. Fez-se denuncia d’esse tratado, e de todos os modos se trabalhou para o annullar, mas conseguiu vencer todas as opposições, e permaneceu em vigor até á Revolução.
A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma franceza, e não é possivel exaggerar a importancia que ella tem para a historia ecclesiastica franceza desde o principio do seculo dezeseis. Por um lado, secularizou a Egreja franceza. Todos os officios ecclesiasticos de valor eram doados pelo rei, e tinham de ser disputados por cortezãos que só nas coisas do mundo pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses da Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da Egreja franceza era necessariamente opposição ao absolutismo do soberano. Esta Concordata deu uma indole particular á lucta que a Reforma produziu em França. Os reformadores não podiam deixar de ser tambem os adversarios do absolutismo; e o rei, para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de chefe da Egreja, via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a supremacia.
Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em França um trabalho muito diverso do trabalho de Luthero na Allemanha, porque tinham de se oppôr não só á Egreja como ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores escocezes e aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a Reforma poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na Hollanda uma republica. Em França, por outro lado, o poder real foi augmentando lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, a um absolutismo como o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se apto para exterminar a egreja protestante, por meio de uma sanguinolenta perseguição.
«A Egreja que estava debaixo da Cruz».—Luthero tinha, na Allemanha, um principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, auxiliado pela suprema auctoridade civil. Em França os reformadores tiveram de luctar não só contra o poder do rei como contra o poder da Egreja. A Egreja reformada, em França, não recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e teve de sustentar um combate tão severo e tão rude como o que teve de sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena tinha duas coisas contra si; a religião estabelecida, que era o paganismo, e o Estado, que era egualmente pagão. A Egreja reformada de França teve duas coisas contra si; foi perseguida pela egreja estabelecida no reino, que era a romana, e foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que o poder do rei era, pela Concordata, em grande escala dependente do reconhecimento do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma dupla perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos apologistas. Eram dois os emblemas que ella gravava nos seus livros e esculpia nos seus monumentos: a sarça que ardia sem se consumir, e a bigorna que levava martelladas e estava sempre inteira. O grande Beza disse um dia ao rei de Navarra: «Sire, a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos martellos».
Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes que existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em Pavia, em 1525, e a sua alliança com o papa, mostrou-lhe que era prudente, lá no seu modo de ver as coisas, mostrar alguma vontade de expurgar da heresia as terras de que era senhor, e deu licença para que se pozessem em pratica as perseguições que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo Parlamento de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha Luiza, e por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois de Francisco ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma occasião em que precisava de dinheiro para as suas guerras, dinheiro que já não era possivel obter por meio de impostos, que elle permittiu que a heresia fosse exterminada de vez. O clero pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em troca que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura e da carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em 1528.
Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. Era prohibida a leitura de obras protestantes; a ligação com pessoas suspeitas de heresia importava condemnação; e os herejes, onde quer que fossem descobertos, eram entregues ás auctoridades civis para serem castigados. Luiz de Berguin, homem erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do rei, e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas disposições.
A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das coisas. Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes protestantes allemães, e recusou, portanto, associar-se a um plano geral para a exterminação da heresia.
O anno dos placards.—Em breve, porém, poz de parte este seu intento, e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, por seu lado, mostraram uma grande somma de coragem. Imprimiram curtos folhetos em que se atacava a missa e outros ritos da Egreja Catholica Romana, e espalhavam-n’os pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado o anno dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema dureza, e Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, prohibiu que se imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando este decreto, entrou a serio no seu papel de perseguidor. Decretou que a heresia fosse punida com a morte; aquelle que denunciasse um hereje tinha direito á quarta parte dos bens que este possuisse, no caso de se provar a veracidade da accusação. Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os protestantes eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, perda de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou ao rei os seus Institutos.
Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos de terrivel effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os protestantes augmentaram em numero, e a repressão, posto que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz. O sangue dos martyres era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de Fontainebleau intimava os officiaes de justiça a processarem todos aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas era negado o direito de appellação; os juizes negligentes eram ameaçados com o desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram ordem para mostrar maior zelo. «Todos os subditos leaes», dizia o edicto, «devem denunciar os herejes, e empregar todos os meios para os extirparem, do mesmo modo que são obrigados a contribuir para que se ponha termo a qualquer conflagração publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos, mas a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.
Os valdenses da Durance.—A maior atrocidade commettida durante a perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. Uma parte da Provença que confina com a Durance chegara, dois seculos atraz, a estar quasi despovoada, e os proprietarios das terras dirigiram um convite aos camponezes dos Alpes para irem estabelecer-se nos seus territorios. Os novos colonisadores eram valdenses, e a sua industria e indole economica em breve encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas. Garantiu-se-lhes que a sua religião seria protegida, pois que os seus senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os serviços que elles prestavam. Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma, estes aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, e em 1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que forneceram o dinheiro necessario para publicar a traducção das Escripturas Sagradas em francez, feita por Roberto Olivetan, e corrigida por Calvino. Este procedimento despertou a hostilidade de alguns ecclesiasticos francezes.
O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, e alguns dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram morte violenta. Em 1540 o parlamento intimou quinze aldeãos de Mérindol a comparecer perante elle como suspeitos de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte estava resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o infame Arrêt de Mérindol, que, em resumo, ordenava a destruição de toda a aldeia.
A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o rei teve conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, e em resultado d’ellas deu ordem para que o referido decreto ficasse sem effeito. Foi, porém, induzido a revogar essa ordem, organizou-se clandestinamente uma expedição, e durante sete mezes de carnificina, com todos os seus acompanhamentos de traição e de infame brutalidade, foram totalmente destruidas vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e mulheres, e perto de 700 foram enviados para as galés.
Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França estava ainda luctando pela sua existencia no meio de perseguições mais terriveis do que aquellas de que os protestantes foram victimas n’outro qualquer paiz.
Henrique II e os Guises.—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu pae, a qual obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da Allemanha e consolidar, em França, o poder real. Isto obrigava a occasionaes allianças com os principes protestantes allemães, e dava logar, em França, a uma continua perseguição aos protestantes. Todos os favoritos que tinha na sua côrte eram inimigos da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além da rainha, o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem escrupulos: Diana de Poitiers, o Condestavel de Montmorency, primeiro ministro da corôa, que gozava de grande reputação como perito na arte da guerra e na gerencia dos negocios publicos, e os Guizes, notavel familia de procedencia estrangeira, que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu irmão, o cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos o conselheiro de Henrique II, era um dos homens mais sagazes da Europa. A irmã casou com Jayme V da Escocia, e tiveram por sobrinha Maria Stuart, rainha da Escocia, educada em França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles com o Delphim de França.
Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio tão urgente que os tribunaes de justiça tiveram de interromper o julgamento de varias causas. Henrique creou uma nova divisão judicial, que se occupava exclusivamente dos casos de heresia, e as sentenças proferidas por estes tribunaes especiaes eram tão severas que o povo chamava-lhes chambres ardentes. Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a perseguição não estorvou o derramamento do Evangelho.
Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o desejo de ver com os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses obstinados herejes. Foi levado á sua presença um pobre alfayate, preso sob a accusação de ter trabalhado n’um dia santo, e esse homem, com grande espanto da côrte, respondeu ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre theologia que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia o caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, retorquiu-lhe solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em ter contaminado a França, e não queira tocar com o seu veneno e com a sua immundicie uma coisa tão pura e tão sagrada como é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O rei, encolerisado porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu ordem para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz assistir ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella que dava para a praça onde o martyr ia ser queimado, este viu-o, e não despregou mais d’elle os olhos. Mesmo já depois de rodeiado pelas labaredas não deixou de perseguir o rei com aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante muito tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante o dia e lhe perturbava o somno durante a noite.
Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, que estas repetidas execuções não estavam contribuindo para a repressão da Reforma. Outros martyres se apresentavam jubilosamente para substituir aquelles que os tinham antecedido; viuvas, mancebos, estudantes, raparigas mimosas, fidalgos da mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel martyrio a negarem Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, o de Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros seculos, mandava destruir toda a litteratura christã, na idéa de que por essa fórma se faria desapparecer o christianismo.
Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella se encheu de refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, cheios de coragem e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros nas verdades do Evangelho, havia-se offerecido para distribuir livros e folhetos por todos os pontos da França. O Edicto de Chateaubriand visava estes colportores, assim como os livros e tratados que elles vendiam. Prohibia terminantemente a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra ou de outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão clandestina. Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, mandava examinar todos os volumes que chegassem do estrangeiro, e submettia, de quatro em quatro mezes, a grande feira de Lyão a uma fiscalisação especial, pois que mediante ella é que se haviam espalhado pelo reino muitos livros suspeitos. Foi prohibida a venda ambulante de livros, fossem elles de que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem encontradas cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé nas tabernas, nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. Por determinação da côrte, ficava, portanto, o povo impedido de se instruir, se é que edictos e officiaes de justiça o poderiam impedir. A sementeira proseguia. Dispostos para a vida ou para a morte, partiram de Genebra e de Strasburgo, para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando comsigo Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza mandou dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero espantoso os homens que se offereceram para arrostar com todos os perigos para que a Egreja de Deus avançasse.
Organisação da Egreja reformada.—No meio d’estas terriveis perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se em Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam isoladamente a Biblia, ou formavam pequenos nucleos de crentes. A perseguição augmentou-lhes a coragem, e resolveram por fim constituir uma communidade.
O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez residente em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes costumava reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae do recemnascido declarou aos seus irmãos na fé que não podia ausentar-se de França, afim de obter que lhe fosse administrado um sacramento puro, e que de fórma alguma consentiria em que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana. Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem um pastor, pondo assim termo a todas as difficuldades.
Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem oração, escolheram para pastor a João Le Maçon, que tinha por sobrenome La Riviére, contava vinte e dois annos, e havia abandonado familia, riqueza e perspectivas de um brilhante futuro pela causa de Christo. A pequena assembléa passou em seguida a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve constituição.
Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse á testa do movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, as communidades constituiram-se em congregações, com os seus presbyteros e diaconos. Tres mezes depois da eleição de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma carta em que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha tres pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse sempre com a mesma violencia, nunca deixava de haver quem se offerecesse para esses perigosos logares, e a Reforma ia fazendo progressos.
Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.—Vendo que eram inuteis todos os esforços empregados para impedir a Reforma, o cardeal propoz o estabelecimento, em França, de uma Inquisição, modelada pela de Hespanha, de que Fillippe se havia servido, com tanta efficacia, para escorraçar de seus dominios a heresia. O espirito de liberdade constitucional não estava, porém, tão morto em França que se permittisse a perda total de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os parlamentos, protestaram contra essa proposta. O rei e os seus conselheiros insistiram na adopção de similhante medida, mas em breve descobriram, para seu espanto, que o unico resultado colhido foi algumas pessoas nobres, das que de maior influencia dispunham, se declararem protestantes; e de ahi em deante (1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um forte partido huguenote.
A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos dos principaes representantes da nobreza, e o que elles observaram tambem no procedimento do clero levou-os a procurarem homens de vida pura que os instruissem no christianismo. Alguns membros da mais alta aristocracia que antipathizavam com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por simples politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana, que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica ao systema absolutista do rei e dos seus conselheiros.
Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante Coligny e seu irmão Francisco d’Andelot.